Cap 2

N/A: Olá pessoal! Demorou mas está aqui o segundo capítulo! Obrigada pelo comentário e obrigada aos leitores anônimos!

As referencias mitológicas desse capitulo foram tiradas do fabuloso livro A Divina Comédia. Existem algumas contradições entre o desenho que Kuruma fez do Inferno e o de Dante, vou misturar os dois e acho que está dando certo. Digam o que vocês acharam nos comentários!


Fade to Black

Life, it seems, will fade away

Drifting further every day

Getting lost within myself

Nothing matters, no one else.

Era um perigo para os espectros menos poderosos ir além da sexta prisão. Não só devido à presença de terríveis bestas como a Medusa, mas principalmente devido à fraca possessão que é feita pela alma de suas estrelas malignas.

Cruzar os portões da cidade de Dite, no início da sexta prisão, pela primeira vez, já é doloroso para espectros poderosos, e para os soldados rasos é a morte certa. Isso porque essa barreira foi criada em tempos mitológicos pelos poderes combinados dos três juízes do Inferno, o umbral da cidade é a divisão no Inferno entre os crimes não-intencionais e os dolosos. Quando uma estrela maligna fraca atravessa, é como se sua alma humana despertasse brevemente, a consciência de seus atos leva o espectro à loucura, uma dor incapaz de ser traduzida em palavras.

O que chamava a atenção do Tenshosei eram os grandes muros de ferro pesado, os fossos profundos que rodeavam a construção, e, ainda na entrada, os Anjos caídos estavam sobre as portas da cidade. Respirou fundo ao cruzar uma grande labareda de fogo que se erguia, era o fim da cidade de Dite, havia cruzado a sexta prisão.

Fiodor já executara aquela tarefa muitas vezes. No início de sua travessia pelas prisões do Inferno conseguira manter certa cadência, mas agora era difícil seguir na mesma velocidade. Não entendia porque Queen não viera em seu lugar, afinal a súrplice dele tem asas! Cruzaria sete prisões numa velocidade que seus pés nunca teriam, ainda mais no Vale do Deserto Abominável, apelido carinhoso dado ao terceiro vale da sétima prisão*. O último grande obstáculo antes de ele poder alcançar seu objetivo.

Seus pés pareciam derreter dentro da botas da armadura negra, o areial era sem fim, sem cor e sem vida. Não havia ali conforto ou esperança. Tentou enxergar por entre a ventania o seu destino, mas era em vão. As dunas se erguiam até onde a vista alcançava, assim como a areia avermelhada e os corpos dos blasfemadores, intelectuais, sodomitas e usurários. Os que foram em vida violentos contra deus têm sua morada ali pela eternidade, sofrendo do calor escaldante do deserto, das chuvas de lava inconstantes. Fiodor de Mandrágora apressou o máximo possível o passo, antes que alguma tempestade de fogo começasse. O odor de sangue preencheu o ar, uma nuvem avermelhada era vista ao longe, Fior se aliviou, estava perto agora.

A caminhada o levou até a margem do rio Flegetonte, com sua água sangrenta e suas margens de pedra lisa e negra. A nuvem vermelha estava mais visível, assim foi andando pela margem do rio até a Cachoeira de Sangue. A nuvem se transformara num grande aerossol gerado pelo sangue que escorria da cascata. As pedras negras que ladeavam as margens do Rio Flegetonte agora eram gigantescos rochedos formando um paredão de 50 metros. Estramente há no paredão uma fenda de onde brota o sangue que alimenta o rio, quase como se fosse uma ferida do Rochedo.

A estrela terrestre do Ferimento deu um salto atingindo o topo da cachoeira. Sobressaindo sobre as pedras estava Mokurenji, sua casca era grossa e rachada, suas folhas eram de um verde claro e opaco e suas raízes se levantavam sobre o rochedo criando ondulações na superfície. Fiodor se aproximou, pode ver os frutos da arvore brilharem, um leve arroxeado cor de morte, como as súrplices.

Pegou alguns frutos e os guardou em uma pequena sacola de couro curtido, talvez isso o poupasse de uma nova viagem até lá. Tirou uma pequena adaga e perfurou a casca da arvore, fez mais força e um fluido viscoso e prateado escorreu pela lâmina, retirou um pequeno tubo com tampa de cortiça, destampou e coletou as gotas grossas.

Missão cumprida.


Queen observou pela terceira vez o monitor. A saturação do seu paciente estava novamente caindo, suas múltiplas costelas quebradas tornavam a respiração muito ineficaz. Checou o dreno de tórax, um litro de sangue já fora retirado, se continuasse naquelas condições teria que realizar toracotomia. Que Fiodor trouxese logo a seiva de Mokurenji para acelerar a cicatrização dos ossos e do parênquima pulmonar e melhorar o quadro da Harpia, se não o Kyoto de Wyvern iria querer a sua cabeça.

No início não entendera bem o porquê do empenho do Kyoto. Desde que assumira seu papel como estrela celeste demoníaca, Queen de Alraune sabia que os espectros, todos eles, até mesmo os temíveis três juízes, são perfeitamente dispensáveis. São bonecos das almas milenares das estrelas maléficas, brinquedinhos das súrplices. Com o passar do tempo, por observação e avaliação cuidadosa, Queen podia dizer que já entendia um pouco a motivação de Radamanthys. Sabia que em alguns casos a personalidade do humano remanesce e pode até sobressair à alma da súrplice. Era seu caso, fora médico em sua vida terrena, isso era algo que o espírito da estrela demoníaca não pode retirar dele. No caso do Juiz do Inferno parecia ser exatamente o que acontecia, ouvira rumores de que ele fora um lord inglês, feroz, mas controlado, astuto, mas justo. Talvez essa justiça o impedisse de abandonar um soldado que nem sequer chegou a ter a oportunidade de lutar. Ou talvez houvesse mais.

Continuou seu trabalho. Na bancada longa de mármore negro estava a bandeja de material esterilizado, se concentrou e seu cosmo envolveu ambas as mãos em uma luz branca. Pegou uma seringa cheia de liquido amarelado, com pancadinhas com as pontas dos dedos retirou o ar e empurrou levemente o embolo. Aplicou a injeção no deltóide de Valentine. Se a possessão da estrela demoníaca estivesse completa, a recuperação com o cosmo seria rápida. Devido a esse contratempo era como se estivesse tratando um humano normal. Aliás, isso era outra coisa que intrigava Queen, porque diabos Valentine não atendera ao chamado da estrela demoníaca do clamor e se reunira aos outros no castelo Heinstein ao redor da espada de Hades?

Foi interrompido dos pensamentos pela abertura da grossa porta de madeira com um rangido. Sylphid de Basilisco entrara, o capacete da surplice estava embaixo do braço. Caminhou até o leito de Valentine e o observou. Queen se aproximou.

-Consciência pesada? – Queen sabia que Radamanthys não punira Sylphid ou Raimi. O respeito e admiração que o Basilisco sentia pelo Kyoto de Wyvern o fazia se envergonhar por ter falhado.

-Você sabe que não é isso. – Sylphid queria encerrar aquele assunto. – Vim porque falaram que você precisava de mim.

-Sim, vamos coletar mais do veneno de Basilisco. O que tenho esta acabando.-Queen se aproximou com um frasco de vidro colorido, o apoiou na bancada longe da cama de Valentine e se afastou. – Daquela distancia é mais seguro.

Sylphid foi até lá, elevou levemente seu cosmo e um vapor arroxeado saia. Segurou o frasco próximo das asas da surplice de onde pingava o veneno que se transformava em suspensão pelo cosmo do Basilisco. Quando o frasco estava pela metade Sylphid parou. O veneno do Basilisco é mortal aos seus inimigos, mas se diluído muitas vezes se tornava um poderoso anestésico. Eram o que usavam dando para Harpia nesse momento.

Queen deixou o frasco em um suporte da bancada. Sylphid se aproximara de Valentine, passara a mão de leve pelos cabelos avermelhados.

-Quando Radamanthys-sama souber que você cortou os cabelos dele...

-Estavam sujos e mal-cuidados na altura do ombro, assim mais curtos e arrepiados estão mais bonitos. Aliás, estão parecidos com os seus apesar da cor diferente. – Queen estava preparando uma bandeja com material para curativos, ao se virar observou o Basilisco observando Valentine, o tórax que se movia com dificuldade, os ferimentos em braços, rosto...

-O que há com você Sylphid? Está estranho depois da missão de recuperar Harpia... – Queen não estava gostando da forma como ele olhava para a Estrela do Clamor.

-É estranho, sei que nunca o vi, mas sinto como se ele fosse um amigo... – Queen suspirou aliviado.

-Natural, nossas almas guardam fragmentos de memória de milênios, talvez você e ele tenham sido amigos. – Sylphid deu os ombros.

-Talvez...

A conversa foi interrompida pela chegada de Fiodor de Mandrágora, que balançava um tubo de vidro nos dedos displicentemente. Apresentava chamuscados no rosto, mas sorria.

- Sentiu minha falta? – Fiodor colocou o frasco na mão de Queen, que passou a se movimentar rapidamente pela bancada, despejando o líquido prateado em um copo, misturando outras coisas estranhas que Fiodor não sabia nomear.

-Seu inútil! Demorou tanto para pegar só isso? – Queen mexia rapidamente a mistura.

-Oras! Você só me deu um frasco! – Fiodor falou exaltado, retirou o capacete soltando os longos cabelos negros.

Após executar a mistura Queen se voltou para o veneno do Basilisco. Com um conta-gotas retirou dois pequenos pingos e os dissolveu em um grande béquer com algo que parecia água, ou soro. A solução foi despejada no acesso venoso de Valentine.

Queen se voltou para a bancada, puxou a mistura de seiva de mokurenji do copo com algo que parecia uma seringa.

-Sylphid, Fiodor! Segurem ele, isso vai doer um bocado mesmo com o veneno de basilisco.

Fiodor ficou atrás do leito segurando os braços, Sylphid segurava as pernas. Queen elevou seu cosmo, concentrando-o nas mãos, se posicionou ao lado de Valentine e sua mão se apoiou no tórax da Harpia. Basilisco e Mandrágora se assustaram quando com uma leve pressão as mãos atravessaram a pele, os músculos e passavam por dentro do tórax do outro. Valentine se contorcia de dor, mas os espectros o mantinham firme para que Queen passasse a mistura por dentro do tórax da Estrela do Clamor. Os gritos de Valentine ecoavam pela enfermaria. Fiodor encarava Queen que parecia sofrer com aquele procedimento. Estava consumindo muito cosmo e Alraune tinha que se mover vagarosamente para não ferir ainda mais o corpo exaurido de Valentine.

Ao final Valentine caiu pesadamente sob o colchão. Queen, Sylphid e Fiodor estavam esgotados. Queen se apoiou na bancada e suspirou cansado.

-Agora é com ele, só resta esperar. – A surplice abandonou seu corpo. Usava por baixo roupas simples

-Será que ele vai sobreviver Queen? – Mandrágora perguntou.

-Para o nosso bem eu espero que sim! – Queen secou as mãos, abriu a porta e esperou que Sylphid e Fiodor passassem.

Fechou a porta com uma prece silenciosa.