II
Alaudi chegou cedo à sede de Polícia no dia seguinte. Seu corpo estava descansado, sua cabeça mais leve, e as horas dormidas haviam-lhe feito muito bem. Alguns subordinados o cumprimentaram quando o viram passar, mas tudo o que o louro fez foi menear a cabeça ou direcionar um rápido olhar. Quando a porta do escritório foi fechada, o Guardião da Nuvem conseguiu finalmente respirar.
Ele sabia que aqueles homens estavam ali por causa do trabalho, mas era difícil lidar com aglomerados de pessoas, não importava a situação.
Por alguns minutos Alaudi conseguiu se concentrar em seu trabalho. Havia um caso de homicídio aberto sobre sua mesa, e apesar de não existir pistas ou um possível acusado, o louro sabia que, se quisesse, não teria problemas em levantar informações. Seus subordinados ficariam encarregados de interrogar as testemunhas e em poucos dias o caso estaria fechado. Porém, encarar aquelas folhas sobre sua mesa o fazia pensar no trabalho que o Chefe dos Cavallone disse que gostaria de oferecer. O Guardião da Nuvem recostou-se melhor à cadeira, movendo as pernas e girando levemente o assento para que seus olhos encarassem a janela aberta. O céu italiano estava azul e o dia seria abafado. Quantas horas até o pôr-do-sol?
O Inspetor de Polícia passou um dia bastante atarefado. Para manter sua mente afastada de pensamentos irrelevantes, Alaudi decidiu revisar todos os casos que estavam abertos e, para sua surpresa, havia muito mais do que ele imaginava. Os policiais evitavam encará-lo diretamente, sentindo uma mistura de vergonha e arrependimento. O louro escolhera a dedo as pessoas que trabalhariam com ele, e a sensação de ter o trabalho fiscalizado pelo chefe não era muito agradável.
O que nenhum deles poderia imaginar era que o Guardião da Nuvem não pensava em nenhuma dessas coisas. Em momento algum ele sentiu-se tentado a reprimir qualquer um dos subordinados. Talvez se aquele fosse outro dia, ou outra situação ele poderia exigir um pouco mais. Entretanto, naquele dia Alaudi só queria algo que ocupasse seu tempo.
As horas passaram devagar, em uma gentileza torturante. A única pausa que o Guardião da Nuvem fez foi durante o almoço, isso porque ele foi lembrado por seu braço direito que era necessário se alimentar para continuar o trabalho. O homem que o louro escolhera para esse cargo era alto e alguns anos mais velho. Giulio estava ao lado de Alaudi há anos, e não havia melhor pessoa para entender o humor - ou falta dele - quando o assunto era seu Chefe.
"Você não deveria se preocupar com esses casos, Alaudi." Giulio disse em uma voz baixa enquanto depositava um embrulho sobre a mesa do louro. Ali continha o lanche que o Guardião da Nuvem comeria. "Eles estão dando o melhor nesses casos, então dê um pouco mais de tempo."
"Eu não pretendo intervir." O louro respondeu enquanto encarava o homem que caminhou novamente até a porta.
Giulio lançou um rápido olhar para seu Chefe antes de fechar a porta, e então Alaudi estava sozinho novamente.
A pausa para o almoço foi rápida, e até mesmo o lanche que ele tanto gostava parecia sem gosto. Os olhos azuis encararam o relógio em sua sala, imaginando se Ivan manteria sua palavra ou aquela havia sido uma promessa vazia. Se o trabalho chamasse o Chefe dos Cavallone, o Guardião da Nuvem permaneceria esperando indefinidamente.
Os casos abertos continuaram a fazer companhia ao louro até determinada hora do dia. Um de seus subordinados entrou no escritório e depositou algumas correspondências, saindo em poucos segundos.
Alaudi passou levemente os olhos pelos envelopes, segurando-os e jogando-os no lixo sem nem ao menos abri-los. Os papeis misturaram-se enquanto encontravam caminho até o fundo do cesto de lixo localizado ao lado de sua mesa. Um dos envelopes tinha seu nome escrito por uma fina caneta, e feito por uma bela caligrafia que não interessava nem um pouco ao Guardião da Nuvem. Ele aprendera a nunca mais abrir nenhuma correspondência vinda de Giotto.
A tarde passou ainda mais lenta. O Sol tornou-se alaranjado, projetando raios sobre a mesa, ao mesmo tempo em que anunciava que a noite estava chegando e trazia com ela a agradável brisa para balancear o dia quente. Por mais que o Sol brilhasse durante todo o dia, as noites naquela época do ano eram geralmente mais frescas, o suficiente para retirar um casaco ou sobretudo do guarda-roupa. O trabalho desapareceu aos poucos sobre a mesa de Alaudi, e quando duas rápidas batidas na porta chamaram sua atenção, o Guardião da Nuvem havia acabado de assinar o último relatório.
"Boa tarde."
A voz veio acompanhada por um rosto que o louro recordava-se bem. Havia um tolo sorriso em seus lábios, e mesmo estando apenas com metade do corpo dentro do escritório, Alaudi notou que Ivan estava bem agasalhado.
O Guardião da Nuvem respondeu o simpático cumprimento com um discreto menear de cabeça. Sua gaveta foi trancada e ele caminhou até a janela para fechá-la, dando uma última rápida olhada para a rua. Seu estômago girava e ele estava levemente nervoso.
"Nós podemos conversar aqui." O louro virou-se. Ele havia esperado o dia inteiro por aquele momento, mas a realização de que estaria aceitando o convite do Chefe dos Cavallone o deixava incomodado. Se o assunto era trabalho, não existia melhor lugar do que o escritório.
"Você deve estar com fome, e como disse ontem, conheço um delicioso Café não muito longe daqui. Meu braço direito nos deixará no local e depois o levarei para casa." O moreno tinha uma das mãos na maçaneta da porta. "Ah, e tudo por minha conta, claro."
"Não estava me referindo ao dinheiro."
Alaudi retirou o sobretudo de cima da cadeira e o vestiu, deixando sua sala em seguida. Ivan deu um passo para o lado, fechando a porta quando sua companhia se afastou.
Os poucos subordinados que ainda estavam no prédio fizeram polidas reverências enquanto o louro passava. O Guardião da Nuvem tentava encarar somente o caminho que teria de percorrer, mas era difícil ignorar os olhares curiosos de seus homens.
O pôr-do-sol estava fraco quando ele pisou na calçada, sentindo uma das mãos do Chefe dos Cavallone guiá-lo na direção de um carro negro. O seu próprio veículo não estava longe, e deixá-lo ali significava ter de ir a pé para o trabalho no dia seguinte. O louro simplesmente não se importava.
O suposto braço direito dos Cavallone estava sentado no banco do motorista, acompanhado de outro homem. Ele era de estatura mediana, cabelos curtos e levemente escuros, usava um par de óculos redondos e parecia ser bem mais velho do que Ivan. O homem ao seu lado era mais jovem, cabelos medianos e ruivos e possuía um olhar divertido. Alaudi entrou primeiro, seguido pelo moreno. O Chefe dos Cavallone mencionou um nome em francês e então o carro começou a andar.
Os minutos que passou dentro do automóvel transcorreram no mais puro silêncio. O louro estava curioso quanto ao trabalho, mas achou melhor não comentar o que estava acontecendo na frente de outras pessoas. Se Ivan o levaria para outro ambiente significava que o assunto era importante e não deveria ser tratado na frente de terceiros.
Os subordinados do Chefe dos Cavallone permaneceram em silêncio, e raramente o Guardião da Nuvem sentiu os olhos do motorista em sua pessoa. Em certa ocasião seus olhos se encontraram através do retrovisor e o homem de cabelos ruivos sorriu.
"Existe alguma coisa que você não goste de comer?" Ivan inclinou levemente o corpo para frente, o suficiente para ver o rosto de Alaudi, que tinha o olhar na direção da janela.
"Não sou seletivo com comida." O Guardião da Nuvem respondeu baixo, sem retirar os olhos das imagens que passavam enquanto o carro se movia.
"Então sugiro a torta de morango, é realmente deliciosa." O Chefe dos Cavallone colocou seu melhor sorriso no rosto. "E o chá de menta com chocolate também é tentador."
"Nós não vamos a este lugar para nos divertirmos, Cavallone." O louro virou o rosto. Não havia sorriso ou nenhuma expressão que denunciasse seus pensamentos. "Eu continuo achando que deveríamos ter ficado no escritório."
O moreno balançou a cabeça em negativo. Os olhos cor de mel pareciam mais brilhantes do que há um segundo e o sorriso desaparecera.
"Eu queria passar algum tempo com você, Alaudi, e o escritório estava cheio."
As sobrancelhas louras do Chefe de Polícia juntaram-se levemente. Ele não entendia o que aquelas palavras poderiam significar, mas era impossível questioná-las. O homem ruivo virou levemente a cabeça no banco, sorrindo suspeito na direção de Alaudi. O sorriso fez o Guardião da Nuvem apertar os olhos azuis. Ele não gostava de toda aquela atenção.
As ruas de Roma passaram pelo vidro do carro como se fizessem parte de um quadro. O louro não se recordava de ter percorrido certos lugares. A loja de flores em uma esquina, a confeitaria entre uma loja de relógios e uma alfaiataria. Sua mente não parecia registrar aqueles locais, mas assim que eles passavam o Guardião da Nuvem se lembrava de que os conhecia anteriormente. A presença daquelas pessoas, e principalmente Ivan sentado ao seu lado estavam mexendo com seus sentidos.
O carro andou por mais alguns minutos até finalmente parar em frente a um charmoso Café. O homem ruivo ficou de pé no mesmo instante em que o carro parou, abrindo a porta do lado de seu Chefe. Ivan estendeu uma das mãos quando chegou à vez de Alaudi descer, mas o jovem rapaz declinou convite. Ele estava envergonhado demais para aceitar certas gentilezas.
O Chefe dos Cavallone avisou que demoraria o tempo que fosse necessário no Café, e seus subordinados simplesmente desejaram aos dois uma boa refeição.
Escoltado pelo moreno, o Guardião da Nuvem abaixou os olhos ao adentrar ao local. Ivan havia segurado a porta e, assim que entraram, um alto e bem vestido homem os recebeu. Seus cabelos eram negros e bem penteados, e em momento algum ele encarou os olhos azuis de Alaudi. O Chefe dos Cavallone havia reservado uma mesa privada no segundo andar, e a pior parte foi a travessia pelo térreo na direção da escadaria que ficava em uma das extremidades do lugar.
O louro subiu os curtos degraus sentindo-se incerto sobre o que estava fazendo. O cheiro de pães quentes e café enchiam o ambiente, fazendo com que sua boca se enchesse d'água. Ele conhecia aquele local. Vários de seus subordinados sonhavam em pisar dentro do Café, mas pouquíssimos possuíam capital suficiente para qualquer iguaria vendida ali.
Não havia ninguém no segundo andar, e ao sentar em uma das pontas da pequenina mesa, Alaudi se perguntou por que não foi um pouco mais convincente. Ele poderia ter simplesmente obrigado Ivan a conversar na sede de polícia, como era padrão para os assuntos relacionados ao trabalho. O homem que sentou à sua frente sorriu quando seus olhos se encontraram, e naquele momento o Guardião da Nuvem obteve sua resposta.
Suspirando longamente, Alaudi abriu o menu.
x
O Guardião da Nuvem não se lembrava da última vez que se sentiu tão incomodado com uma simples xícara de chá e um pedaço de bolo. O segundo andar continuava vazio, com exceção dos dois homens. Porém, o silêncio entre eles era pior do que a maneira como Ivan o encarava.
O Chefe dos Cavallone parecia não ter mais nada a fazer além de observá-lo com seus dois grandes olhos cor de mel. Seus únicos movimentos eram o levantar e o abaixar da xícara, e vez ou outra ele arriscava uma garfada no pedaço de bolo de chocolate. Alaudi por sua vez comia com os olhos baixos, mas podia sentir claramente que a pessoa à sua frente não deixava de encará-lo. As palavras lhe faltaram, e por longos minutos ele achou que comer o manteria ocupado o suficiente para ignorar o constrangimento.
Quando não havia quase nada o que comer ou beber, o louro limpou a garganta e ergueu pela primeira vez os olhos desde que entrara na confeitaria. Era hora de lembrar o real motivo que o levara até ali.
"Você me disse que tem trabalho para o meu departamento. Eu sugeri que nos reuníssemos na sede de Polícia, mas você insistiu e viemos para este lugar. Eu gostaria que me informasse o que deseja e então direi se tenho interesse no trabalho. De qualquer forma, estarei indo embora se não tiver nada a dizer."
As palavras saíram ácidas, mas não pareceram atingir Ivan. O moreno deu um gole na xícara de chá e levou a mão dentro do terno, retirando um pequeno envelope que foi colocado sobre a mesa, entre o prato de ambos. O louro segurou o pedaço de papel marrom, o abriu com delicadeza e encarou uma foto anexada a uma folha de papel contendo informações como nome, data e local de nascimento, etc.
"Eu estou procurando por essa mulher. Ela está desaparecida há pouco mais de um ano." O Chefe dos Cavallone brincou com a alça de sua xícara enquanto falava. Sua voz não parecia preocupada ou séria.
"Existe a possibilidade de essa pessoa não estar viva." Alaudi recolocou a foto e o papel dentro do envelope. "Gostaria que me desse um bom motivo para que eu aceite esse trabalho. Se essa pessoa está desaparecida há tanto tempo acredito que já esteja morta. Esse detalhe e a maneira totalmente desinteressada com que você me oferece o trabalho só me fazem crer que essa seja uma brincadeira e que você esteja pensando que meu trabalho é algum tipo de piada." O Guardião da Nuvem não se exaltou. Apesar das palavras cheias de indiretas e arrogância, sua aparência e expressão continuavam brancas. "Se não tem mais nada a dizer, eu me retiro. Obrigado pelo chá e o pedaço de bolo".
O louro empurrou o envelope na direção de Ivan e fez menção de levantar-se. O Chefe dos Cavallone o segurou pelo pulso, fazendo um delicado gesto que pedia para que sua companhia voltasse a se sentar. Havia um gentil sorriso nos lábios do moreno que incomodava Alaudi.
"Não tenho esperanças de que ela esteja viva, mas preciso ter certeza. Graziella é uma pessoa da família, e minhas fontes não forem capazes de encontrá-la então estou oferecendo o serviço para a pessoa mais capacitada no assunto. Sei que Giotto confia inteiramente nas suas capacidades, Alaudi, então gostaria que repensasse sobre a minha oferta e aceitasse o trabalho. Os Cavallone irão arcar com todas as despesas e não pense que estou indiferente quanto ao assunto. Porém, como eu disse, a falta de esperanças em encontrá-la viva me faz perder qualquer tipo de desejo em esboçar preocupação. Eu não tenho tempo para isso."
O Guardião da Nuvem havia se sentado e ouvido toda a explicação com a mesma expressão. Por um rápido momento ele sentiu vontade de levantar-se novamente e declinar pela segunda vez o trabalho. Entretanto, seus dedos seguraram o envelope e o colocaram dentro do sobretudo azul-marinho. A outra parte do louro estava levemente curiosa com relação à mulher, sem contar que se as despesas fossem totalmente pagas pelos Cavallone, ele poderia terminar as investigações em pouco tempo, livrando-se assim de Ivan e de seus olhares inusitados.
"Obrigado." O moreno deu um último gole na xícara de chá. "Gostaria de pedir mais alguma coisa?"
"Não, eu já estava me retirando."
"Permita-me levá-lo até sua casa. Eu conheço o caminho e em pouco tempo irá escurecer."
Você poderia me deixar na sede de Polícia. Meu carro está lá. Não há necessidade de me levar até em casa, pensou o Guardião da Nuvem, mas o que ele realmente disse foi um baixo "Obrigado".
O Chefe dos Cavallone retirou a carteira de dentro do terno e deixou uma gorda quantia sobre a mesa. Alaudi o acompanhou sem dizer nada, querendo retornar para sua casa o quanto antes.
"Já que vou levá-lo até sua casa, não gostaria de visitar outro lugar? Eu conheço um re-"
"Meu único interesse é ir para casa, mas agradeço o convite. Nosso encontro foi puramente profissional, e eu só aceitei o seu convite porque você disse previamente sobre o trabalho." O tom de voz do louro chamou a atenção de Ivan que virou o rosto e parou. Ele havia descido o primeiro degrau na direção do térreo, e como o Guardião da Nuvem estava atrás, os dois ficavam basicamente na mesma altura. "Eu não sou seu amigo, Cavallone, então gostaria que me poupasse das palavras fáceis e a falsa gentileza."
Se Alaudi soubesse que o moreno teria aquele tipo de reação ele provavelmente teria dosado um pouco sua arrogância e evitado a última parte. O Chefe dos Cavallone desfez o meio sorriso que sempre carregava nos lábios e pela primeira vez o Guardião da Nuvem o viu sério. Não havia vestígio de simpatia ou gentileza, muito pelo contrário. Ivan abaixou os olhos cor de mel e murmurou um baixo "Eu sinto muito", continuando a descer as escadas.
Uma das mãos do louro fechou-se em forma de punho ao lado do corpo, e naquele exato momento o Inspetor de Polícia se odiou pelo que havia feito. Ele não se importava com a maneira como era tratado por Ivan, mas aquela gentileza o fazia sentir o que ele não queria sentir. Encarando as largas costas do Chefe dos Cavallone, Alaudi começou a descer a escada, perguntando-se o que seria mais incômodo: continuar recebendo a simpatia daquele homem, ou ser tratado de maneira completamente indiferente?
A resposta para aquela pergunta não demoraria a aparecer.
Ivan cruzou o térreo do Café com o mesmo passo, dando preferência para o Guardião da Nuvem em todos os momentos, mas era evidente a maneira como ele mantinha certa distância, além da expressão séria e taciturna. Os fiéis subordinados pareciam saber que algo estava errado com seu Chefe. O homem ruivo desencostou-se do carro quando ambos deixaram o lugar, e o jeito nem um pouco amistoso com que ele abriu a porta para Alaudi deixava claro que ele não estava gostando da expressão no rosto de seu Chefe, e que ainda por cima sabia que o culpado era o louro.
O Guardião da Nuvem sentou-se incomodado no banco do carro, ouvindo quando o Chefe dos Cavallone pediu que eles fossem dirigidos para o endereço em que ele morava. O moreno recostou-se melhor no banco, abriu os botões do terno e passou todo o caminho olhando pela sua janela.
Os minutos que passou dentro daquele carro foram longos e parecia que o veículo não saia do lugar, não importasse quantas ruas percorresse ou quantas esquinas virasse. Os olhos de Alaudi encaravam o seu lado da janela, opacos e desanimados. Normalmente ele não se sentia daquela forma quando expunha seus pensamentos e opiniões para os demais. Quantas vezes ele não havia utilizado aquele mesmo nível de sinceridade com Giotto ou qualquer um de seus irritantes Guardiões? O Chefe dos Vongola em especial era tratado com completo desdém pelo seu Guardião da Nuvem, e em nenhum momento ele havia se sentido daquela forma. Desculpar-se ou retirar o que havia dito não era do feitio do louro, então se o Chefe dos Cavallone estava esperando um pedido de desculpas as coisas ficariam complicadas.
Porém, aquela era a primeira vez que o simples pensamento de desculpar-se passou por sua mente.
O carro parou no mesmo local do dia anterior. O subordinado de cabelos ruivos abriu a porta, e o moreno já estava de pé quando Alaudi deu a volta no carro e pisou na calçada. Ivan seguiu em suas costas, as mãos dentro dos bolsos e o olhar fixo no chão. Quando o Guardião da Nuvem terminou de subir a curta escada que levava à entrada de sua casa, a voz de Ivan invadiu sua mente e quase fez com que ele derrubasse a chave no chão.
"Obrigado pela companhia. A partir de agora nomearei um subordinado que ficará encarregado de lidar com as negociações referentes ao trabalho que solicitei. Boa noite."
Alaudi não saberia explicar porque seu corpo virou-se no momento em que aquelas palavras entraram por seus ouvidos. Por que sua mão correu para segurar o ombro do Chefe dos Cavallone? Por que o moreno o encarou com olhos tão tristes? Por que as palavras "Você não gostaria de entrar?" cruzaram os lábios do Guardião da Nuvem? Por que ele estava se importando com a ideia de não voltar a ver Ivan por causa de sua própria arrogância?
E a mais elementar e simples pergunta: por que ele sentiu o peito mais leve quando o moreno aceitou o convite?
O louro entrou e manteve a porta aberta. O Chefe dos Cavallone fez sinal para que seus subordinados aguardassem, e foi impossível Alaudi ignorar o olhar sério que o homem ruivo lhe lançou antes que ele fechasse a porta. Os dois caminharam pelo curto e apertado corredor, e a cada centímetro os passos de Ivan ecoavam pelo assoalho, com o mesmo barulho e intensidade com que o coração do Guardião da Nuvem batia.
"Aguarde na sala, eu irei até a cozinha pegar o vinho." O desvio de caminho o fez respirar com mais tranquilidade. Havia uma parte da despensa reservada para os vinhos, mas o louro não sabia direito o que oferecer. Alguém como o Chefe dos Cavallone provavelmente bebia coisas incrivelmente caras e Alaudi nunca se importou muito com essas coisas. O vinho servia apenas como companhia nas noites em que ele precisava ficar até mais tarde trabalhando, então a marca e o sabor pouco importavam.
A escolha foi um vinho que ele recebera de Giotto há alguns meses. As taças estavam em outra parte do armário, e enquanto refazia o caminho na direção da sala, o louro pensava no que deveria dizer. Ivan havia aceitado seu convite, mas a expressão séria em seu rosto ainda estava presente. Eu não deveria estar me importando com isso. Na verdade, tudo aquilo foi muito suspeito.
O moreno levantou-se do sofá quando Alaudi apareceu na entrada da sala, mas sentou-se novamente quando seu anfitrião entregou-lhe uma das taças. O Guardião da Nuvem não estava com sede, mas sentia que não conseguiria iniciar uma conversa em seu estado normal. Ivan girou um pouco o vinho na taça antes de dar o primeiro gole, elogiando o sabor e agradecendo. Em todos os momentos que falou seus olhos estiveram direcionados para suas mãos, e sua voz saiu baixa e sem vida.
O silêncio parecia ser a única companhia que os dois homens teriam naquele começo de noite. Alaudi havia dado apenas um gole em seu vinho, e o líquido desceu morno por sua garganta, atingindo fundo seu estômago. Seus olhos não ousavam sair da direção da taça, e ele teria permanecido na mesma posição provavelmente para sempre se o Chefe dos Cavallone não tivesse colocado a própria taça sobre a mesinha de centro e ficado em pé. O movimento pareceu acordar o louro, que fez o mesmo. Os dois estavam frente a frente, e aquela foi a primeira vez desde a cena no Café que eles se encararam.
"Obrigado pelo vinho, mas eu me retiro agora." Ivan tentou esboçar um meio sorriso, mas o gesto durou um breve momento.
O Guardião da Nuvem abaixou os olhos, sentindo quando sua companhia passou ao seu lado. Seu coração bateu mais rápido e ele mordeu levemente o lábio inferior, sentindo-se completamente derrotado, mesmo não havendo motivos para tal sentimento.
Por alguns segundos tudo o que Alaudi fez foi encarar o tapete que forrava boa parte da pequenina sala, imaginando se encontraria com o Chefe dos Cavallone depois daquele fiasco. O moreno havia deixado claro que o assunto relacionado ao trabalho ficaria a cargo de um subordinado, e o louro não tinha dúvidas que o principal motivo para essa decisão era ele. A certeza de que sua personalidade e arrogância afastariam Ivan de sua vida não surpreendeu o jovem Guardião da Nuvem. Aquela não seria a primeira nem a última vez que suas palavras frias e seu discurso afiado manteriam as pessoas à distância. O único problema é que essa era a primeira vez que ele se importava.
"Eu... Eu estou apaixonado por você."
Os olhos azuis de Alaudi se arregalaram. As batidas de seu coração pareciam estar mais altas e sua pequena sala tornou-se incrivelmente maior. Seu corpo não se moveu, seus músculos não ousavam movimentar um dedo se quer. Ele não sabia que Ivan ainda estava na casa, mas ele também não ouvira o barulho da porta ser aberta. Seus pensamentos o mantiveram ocupado, e quando a voz do Chefe dos Cavallone entrou por seus ouvidos, tudo o que o louro conseguiu fazer foi simplesmente ouvir.
"Eu estou apaixonado por você há muito mais tempo do que você pode imaginar, muito antes de tê-lo encontrado naquela festa. Desde a primeira vez que seu nome chegou aos meus ouvidos através dos lábios de Giotto eu acho que já o amava." A voz do moreno era baixa, mas não parecia séria. Havia uma pitada de tristeza em cada palavra, como se aqueles sentimentos precisassem ser ditos em voz alta para serem esquecidos. "Eu sinto muito se o incomodei com meu jeito ou se minha gentileza o deixou enojado ou incomodado. Saiba que nunca foi minha intenção. Eu apenas... queria conhecê-lo melhor, passar mais tempo ao seu lado, mas acabei me tornando inconveniente e irritante."
Houve uma pequena pausa e o Guardião da Nuvem não sabia se o Chefe dos Cavallone havia ido embora ou continuado no mesmo lugar. A voz que vinha de suas costas soava distante.
"Quando o convidei para irmos ao Café eu tinha a intenção de apenas oferecer o trabalho, então espero que ainda tenha interesse em aceitar minha proposta. Eu sinto muito se eu o ofendi em algum momento, Alaudi. Boa noite."
Pela primeira vez o louro ouviu quando Ivan pisou fora do tapete. O barulho do assoalho pareceu ecoar por toda sala, e foi exatamente esse som que despertou Alaudi de seu estupor. O Guardião da Nuvem virou-se rapidamente, sentindo o rosto vermelho por causa das palavras que acabara de ouvir. Seu coração ainda brincava em seu peito, mas tudo o que lhe preocupava naquele momento era na ideia do Chefe dos Cavallone deixar aquele cômodo e nunca mais retornar.
"Eu não estou bravo ou enojado." A voz de Alaudi saiu mais alta do que ele gostaria. Estar ali, naquela sala, trouxe recordações de seu sonho e foi impossível não questionar se aquilo que ele estava vivendo tinha relação com a porta que não fora aberta. Se eu não fizer alguma coisa esse homem vai simplesmente desaparecer como se nunca tivéssemos nos encontrado.
Ivan virou-se devagar. Havia uma estranha expressão surpresa em seu belo rosto, como se ele jamais esperasse ouvir aquelas palavras. Os olhos cor de mel estavam arregalados e apesar de suas feições mostrarem espanto, as palavras pareciam lhe faltar. Quando elas finalmente encontraram o caminho para deixar seus lábios, a voz que as interpretou era baixa e cautelosa.
"Então você está dizendo que não me odeia ou coisa parecida?"
Como alguém poderia odiar-lhe? Você é provavelmente a pessoa mais amigável da face da terra. O louro vasculhava sua mente tentando encontrar a resposta certa. Falar o que ele pensava estava fora de cogitação, mas permanecer em silêncio não ajudaria em nada.
"Eu não estou acostumado a receber gentilezas. Sua simpatia apenas me surpreendeu."
"Você não deveria se acostumar a isso, Alaudi." Dessa vez a voz do moreno saiu quase dolorosa. Sua expressão parecia demonstrar exatamente o que suas palavras transmitiam. "Você é uma boa pessoa e não deveria se acostumar a ser tratado de qualquer outra forma que não seja como você realmente merece. E... Eu jamais o trataria mal."
O Chefe dos Cavallone cruzou a pequena distância entre eles com passos curtos e vagarosos. A cada passo o Guardião da Nuvem sentia como se suas pernas se tornassem mais pesadas, até que todo seu corpo estava tão imóvel como se tivesse sido transformado em pedra. Ivan estava à sua frente, e a proximidade entre eles levou uma tonalidade rosada ao rosto do louro. Seus olhos azuis estavam fixos no homem, hipnotizados por sua figura. Uma das mãos do moreno tocou o rosto de Alaudi, fazendo-o corar ainda mais. Ele se sentia extremamente ridículo, principalmente por não conseguir esconder suas emoções. Aquilo nunca acontecera antes. Perder o controle de si mesmo nunca havia acontecido.
A mente do Guardião da Nuvem procurava uma maneira para afastá-lo, mas seus pensamentos não foram rápidos o bastante. Enquanto ele estava ocupado raciocinando sobre o que estava acontecendo, o Chefe dos Cavallone foi mais veloz.
A mão em seu rosto desceu para sua nuca e seu corpo projetou-se um pouco para frente com o puxão que havia recebido. Seu corpo estava grudado no corpo de Ivan, mas não tão próximo quanto seus lábios.
E qual foi o momento em que o moreno conseguiu atravessar sua guarda e beijá-lo, ele não saberia dizer. Tudo o que Alaudi entendia era que estava entre os braços do Chefe dos Cavallone e que sua boca era invadida por um afoito e passional beijo.
O Guardião da Nuvem nunca foi beijado daquela forma. Os lábios que se moviam embaixo dos seus o convidavam para aquela ousada dança, e quando a língua de Ivan pediu passagem e adentrou sua boca, Alaudi sabia que já não conseguiria lutar contra o que estava acontecendo. Seu rosto queimava, e seus olhos fecharam-se lentamente, até que tudo o que ele conseguiu fazer foi simplesmente não lutar.
O beijo durou apenas um breve momento, mas para o louro parecia uma eternidade. Seus lábios começaram a se mover sem que ele percebesse, famintos e necessitando daquele tipo de contato. O Chefe dos Cavallone sabia muito bem o que fazia, e nenhum movimento parecia ser desperdiçado. O beijo tinha gosto de vinho, desejo e algo mais. Quando o moreno afastou os lábios, o Guardião da Nuvem não lembrava mais onde estava e o que estava fazendo anteriormente. Sua visão tornou-se levemente embaçada e tudo o que ele conseguiu ver foi Ivan afastando-se com um sorriso enorme nos lábios.
"E... Eu não vou desistir de você, Alaudi. Agora mais do que nunca eu o quero." O Chefe dos Cavallone riu como se fosse um garoto. "Eu vou esperar sua resposta, então pense com cuidado, está bem? Eu não menti quando disse que estava apaixonado por você, e esse beijo apenas me deu esperanças".
O moreno desapareceu no corredor e a porta de entrada foi aberta e fechada com barulho. O Guardião da Nuvem escorregou-se no sofá, impossibilitado de mover-se daquele lugar. Alaudi encostou a nuca no alto do sofá e fechou os olhos, tocando os lábios com a ponta dos dedos. Sua raiva não era proporcional a vergonha que sentia, e o louro recordou-se do que acabara de acontecer em sua sala. O sonho que ele tivera na tarde anterior jamais se igualaria a realidade. Os lábios macios, o perfume de Ivan e principalmente o gosto do beijo pareciam devorá-lo pouco a pouco.
O corpo do Guardião da Nuvem parecia em chamas, e somente alguns minutos depois foi que ele entendeu realmente o que acabara de acontecer. A realização o fez abrir os olhos, imaginando como poderia punir aquele homem por tal ousadia.
"Eu poderia socá-lo, chutá-lo ou prendê-lo... não, nada disso será suficiente. Eu vou mordê-lo até a morte."
Continua...
