III

Alaudi recostou-se melhor na cadeira e deixou escapar um longo suspiro. Aquela era a terceira tentativa de se concentrar no trabalho, mas todas às vezes seu esforço pareceu inútil. As palavras estavam ali, fixas no papel, mas nada fazia muito sentido. O Guardião da Nuvem sabia que deveria ler, reler, assinar e despachar os documentos através de um de seus subordinados até o final do dia, porém, quanto mais tempo passava com os documentos, mais difícil era juntar a força de vontade necessária para continuar.
Não importava o quão ocupado ele estivesse, sua mente estava totalmente preenchida por Ivan Cavallone.

Há uma semana o moreno havia surpreendido Alaudi com uma inesperada confissão. Se as circunstâncias fossem outras, e se tudo não tivesse passado de um jogo de palavras, o louro provavelmente teria encontrado uma maneira de contornar a situação. Entretanto, o Guardião da Nuvem jamais teria esperado por aquele beijo. Naquela mesma noite Alaudi passou horas virando de um lado para o outro da cama. Seus lábios ainda sentiam o gosto do vinho, e principalmente o gosto de Ivan. Aquele não foi seu primeiro beijo, mas foi a primeira vez que alguém o beijou com tanto desejo e paixão.
Os dias que seguiram aquele incidente ajudaram a diminuir a estranha sensação que havia se apoderado do Guardião da Nuvem, mas em alguns momentos ele se recordava do ousado momento.

"Eu vou esperar sua resposta, então pense com cuidado."
O louro segurou um dos documentos entre as mãos. A voz do Chefe dos Cavallone soava tão próxima, como se o homem estivesse ao seu lado assoprando novamente aquelas palavras. O que ele espera que eu diga? Que tipo de resposta aquele homem deseja? O Guardião da Nuvem abaixou o documento, sentindo o rosto torna-se rubro. Ele sabia a natureza da resposta que o moreno esperava, mas aquilo era impossível. Havia uma série de contras que faziam com que aquela pergunta tivesse uma resposta automática, e Alaudi a teria dito se Ivan não tivesse deixado sua casa de maneira tão rápida.
Duas leves batidas em sua porta fizeram com que o Chefe de Polícia se lembrasse de onde estava.

Giulio entrou com um largo envelope pardo nas mãos. O homem parecia cansado, e o Guardião da Nuvem suspeitava que ele não estava dormindo muito bem nesses últimos seis dias. Ao aceitar o trabalho do Chefe dos Cavallone, o louro automaticamente envolveu toda sua equipe, principalmente seu braço direito e seus melhores homens. Giulio era sua primeira e única opção para aquele tipo de serviço. O próprio Alaudi faria o trabalho de campo quando as informações fossem certas e vindas de fontes confiáveis.

"Desculpe a demora, Alaudi." O homem fechou a porta e ofereceu o envelope para seu Chefe. "Todas as informações que coletei são de fontes verídicas. Pouco se sabe sobre a mulher, e agora entendo porque ele precisou contratar os seus serviços". Giulio era o único membro da equipe que sabia de quem vinha a proposta de trabalho.

O Guardião da Nuvem abriu o envelope e passou rapidamente os olhos azuis sobre as três folhas. O trabalho de Giulio era sempre impecável, então ele não mentira quando disse que não havia muitas informações sobre a mulher.

"Vá para casa e descanse. Você parece péssimo." A voz do Inspetor de Polícia saiu baixa, e levou um meio sorriso aos lábios de seu subordinado. "Obrigado pelo trabalho".

"Eu irei." O homem passou as mãos pelos cabelos castanhos. Os olhos verdes tinham pequenas marcas escuras ao redor, e Giulio parecia bem mais velho do que seus trinta anos. "Você também deveria descansar, Alaudi. Eles estão preocupados com você".

O comentário chamou a atenção do Guardião da Nuvem. O envelope foi fechado e colocado dentro de seu sobretudo. Seus olhos não precisaram encarar Giulio para mostrar que ele gostaria de ouvir o restante.

"Eu não sei por que você aceitou esse trabalho, mas não acho que dinheiro algum pague paz de espírito. Eles dizem que você é o primeiro a chegar e o último a sair. Não vá se matar de trabalhar ou teremos de contratar outro Chefe de Polícia e você sabe o quão burocrático isso seria."

"Eu não preciso ouvir isso de você." O louro pousou os olhos em seus relatórios. Ele sabia que aquelas palavras não eram vazias. Embora passasse praticamente o dia inteiro trabalhando a produtividade de Alaudi decaiu muito nos últimos dias. Não era de seu feitio acumular trabalho e chamar atenção de seus subordinados. Por anos ele sempre foi um exemplo de profissionalismo e isso não mudaria. Ninguém mudaria.

Giulio deixou o escritório, mas suas palavras permaneceram.
O relógio em frente à mesa do Guardião da Nuvem o lembrou de que era hora de almoçar, mas o trabalho o impedia de simplesmente sair e retornar posteriormente.
Cerca de uma hora e meia depois Alaudi finalmente conseguiu progredir com seus relatórios. Os papéis em cima da mesa diminuíram pouco a pouco, até que a última folha foi relida e assinada. Suas costas estavam cansadas quando o trabalho foi concluído, mas ele se sentiu bem mais aliviado ao abrir a porta do escritório, sabendo que havia feito progresso.

O pequeno corredor que ligava o escritório do Inspetor de Polícia ao restante do segundo andar foi transposto com menos de vinte passos. O espaço era grande o bastante para que pelo menos doze mesas fossem espalhadas, seis de cada lado e rentes as paredes, permitindo que houvesse um espaço livre no meio. O prédio possuía ainda mais um andar, mas este era utilizado como Biblioteca e arquivo. O primeiro andar era o único aberto ao público, e funcionava como a Guarda Policial. Tudo o que não poderia ser resolvido pelo primeiro andar era repassado ao segundo. Porém, nada entrava naquele prédio, ou melhor, naquela cidade sem o conhecimento de Alaudi.

Aquele pensamento era uma das certezas que o louro sempre teve durante toda a sua vida. Desde criança aquela cidade lhe pertencia. Cada rua, cada esquina, cada loja e cada casa era de seu conhecimento. Ele sabia sobre os nascimentos, os falecimentos, as mudanças e etc. Entretanto, a prova de que suas convicções não eram assim tão certas estava dentro de seu sobretudo azul-marinho. Se existia uma pessoa cujas informações passavam despercebidas até mesmo por Giulio significava que ele não sabia de tudo.
Eu também não sabia sobre Ivan. Por anos eu nunca soube de sua existência.

O Chefe dos Cavallone morava afastado, longe do centro de Roma. E mesmo que aquele homem morasse do outro lado do planeta Alaudi duvidava que ele conseguisse esconder alguma coisa do melhor Inspetor de Polícia italiano. Entretanto, era difícil ignorar duas simples e irrelevantes questões, mas que martelavam em sua mente desde que recebeu aquela proposta de trabalho. Quem é essa mulher? e O que ele quer com ela?
O que realmente incomodava Alaudi era que ele provavelmente nunca descobriria essas respostas.

O Guardião da Nuvem nunca fazia suas refeições nos mesmos lugares. Apesar da sede de polícia ser localizada em uma rua de bastante movimento, o louro gostava de frequentar lugares diferentes para evitar ser espionado ou até mesmo seguido. Todos tinham conhecimento que Alaudi sabia se cuidar muito bem sozinho, mas o mesmo não poderia ser dito sobre aqueles que o serviam. Ele era uma pessoa extremamente precavida, e sabia muito bem que seu trabalho envolvia riscos não somente para sua pessoa. Uma família buscando vingança, ou simplesmente alguém que não simpatizava com sua filosofia poderia segui-lo e fazer o que bem entendesse com os envolvidos. Para evitar esse tipo de situação, e principalmente para não sujar suas próprias mãos com a vida de inocentes, o Inspetor Polícia variava os locais de suas refeições. O restaurante escolhido dessa vez ficava a dois quarteirões de seu escritório, e ele não o frequentava há mais de dois meses.

Alaudi abriu a porta e seus olhos automaticamente se abaixaram. Ele sabia que uma das atendentes viria ao seu encontro e perguntaria gentilmente se ele gostaria que ela pendurasse o sobretudo ao lado da porta. O louro apenas menearia a cabeça em negativo e a moça então apontaria para uma das mesas livres.
Porém, a jovem atendente não veio ao seu encontro. O Guardião da Nuvem levantou o rosto, sentindo-se levemente surpreso. Há anos ele visitava aquele restaurante e aquela foi a primeira vez que ninguém o recebeu. Os olhos azuis correram o local, até que a jovem mulher foi avistada, escondida atrás de um dos pilares de madeira espalhados pelo local. Seu rosto estava corado e suas mãos apertavam o avental negro que ela vestia. O Inspetor de Polícia seguiu o olhar da jovem, dando meia volta automaticamente.
Aquilo não podia ser real.

"Senhor, peço desculpas por não atendê-lo de imediato." Um homem extremamente alto e de meia idade estava na frente de Alaudi assim que ele se virou. O Guardião da Nuvem não teve tempo se quer de dizer que estava de saída. O homem chamou a jovem atendente e todas as esperanças do louro caíram por terra. "Nós conversamos depois, Maria".

A jovem tinha o rosto corado e desculpou-se muitas vezes. Alaudi usou aquela oportunidade para escolher seu lugar, e antes que a atendente o levasse para o lado que ele queria evitar a todo custo, o Guardião da Nuvem começou a andar, sentando-se do lado oposto. O pedido não precisou ser feito em voz alta já que o louro sempre comia o mesmo prato de ravioli ao molho branco. Quando a mulher retirou-se, Alaudi sentou-se melhor na cadeira e abaixou os olhos, sentindo o rosto torna-se corado.

Ele estava ali, praticamente no mesmo quarteirão da sede de Polícia. Entre todos os restaurantes que o Guardião da Nuvem poderia escolher, aquele havia sido sua primeira opção e como explicar aquela estranha coincidência? O horário de almoço já havia passado, mas ele estava ali.
E no final, a única coisa que separava Ivan Cavallone e Alaudi era uma divisória de madeira e um pequeno jardim que servia como enfeite e estava localizado na parte de cima. Ambas as mesas estavam na mesma direção e as cadeiras lado a lado. Quando o moreno começou a conversar com os dois subordinados que lhe faziam companhia, toda a atenção do Inspetor de Polícia se focou no que eles falavam.

Durante o período que esperou por seu almoço, Alaudi não viu o tempo passar. Seus olhos estavam baixos, encarando seus dedos entrelaçados sobre a mesa. Seus ouvidos, porém, estavam atentos e não perdiam nenhuma palavra.
A conversa começou corriqueira e trivial. O Chefe dos Cavallone falava sobre a comida e elogiava o molho. O assunto mudou para o clima e Ivan reclamou do calor e disse que adoraria poder viajar nessa época do ano, mas o trabalho o prendia na cidade. Quando essa última parte foi mencionada, um dos subordinados riu e displicentemente indagou um sugestivo "Trabalho?", seguido por outra risada. O Guardião da Nuvem não conseguia enxergar por causa das plantas sobre a divisória de madeira, mas seus olhos azuis captaram a maneira como o Chefe dos Cavallone pareceu engasgar com a comida.

"Por que você não vai falar diretamente com ele, Chefe?" O mesmo subordinado continuou. "Não se esqueça que ele trabalha para a polícia e eu tenho certeza de que esse seu comportamento é contra a lei. O homem está a poucos metros de distância e você pode sempre usar a desculpa do trabalho."

"Poucos metros?" A voz do segundo subordinado chamou a atenção de Alaudi, que moveu os olhos, ficando surpreso ao ver que o homem lhe encarava por trás das plantas e flores. Havia um largo sorriso de deboche em seus lábios. Os cabelos ruivos eram lisos e levemente jogados na altura de seus ombros Ele sabia.

A atenção do louro acabou sendo perturbada pela chegada da atendente com seu almoço. Ivan continuou a conversar com seus subordinados, mas a atenção de Alaudi já não estava mais naquela conversa. Seus dedos moviam-se com destreza entre os ravioli, esperando terminar antes que o subordinado dos Cavallone resolvesse abrir a boca e dedurar sua presença. No fundo o Guardião da Nuvem esperava que aquela fosse apenas uma impressão pessoal. Ele nunca foi uma pessoa que se aproximava das outras com facilidade, e o mesmo valia para o inverso. As pessoas sempre tiveram dificuldade em entendê-lo, e para ser sincero, Alaudi não fazia questão de ser compreendido. Desde a primeira vez que viu o tal homem ao lado do moreno o Guardião da Nuvem sentiu uma estranha antipatia e o sentimento parecia mútuo. Se ele não gostava do louro, então dificilmente comentaria com seu Chefe.
E aquela era a única esperança que motivada Alaudi a simplesmente não deixar o prato intacto e ir embora.

O assunto na mesa ao lado cessou e Ivan ficou de pé. A jovem atendente agradeceu mais de cinco vezes por sua presença, esperando vê-lo em breve. O Chefe dos Cavallone disse que estaria de volta no dia seguinte, e essa parte acabou roubando um meio sorriso dos lábios do louro. Os passos dos três homens ecoaram pelo restaurante quase vazio, e quanto mais eles se afastavam, mais aliviado Alaudi se sentia. Entretanto, quando os passos cessaram, o coração do Guardião da Nuvem pareceu também parar de bater. Ele sabia. Ele sabia muito bem que havia sido visto.

Os olhos azuis ergueram-se do prato lentamente, fitando os três homens parados um pouco a frente. A primeira pessoa que apareceu no campo de visão do louro foi o subordinado ruivo, e Alaudi sabia que nunca esqueceria o enorme sorriso que o homem tinha nos lábios e a maneira nem um pouco educada com que ele apontava em sua direção. Porém, a pessoa que realmente importava apenas o olhava com uma expressão branca, como se não acreditasse que ele estivesse realmente ali.

Ivan fez menção de dar um passo à frente, mas algo no próprio moreno o fez parar. Seus subordinados pareceram surpresos por ver aquela atitude, e até mesmo o Guardião da Nuvem achou estranho. O Chefe dos Cavallone meneou discretamente a cabeça e se preparou para dar meia volta e continuar seu caminho, quando o subordinado de cabelos ruivos adiantou-se e cruzou o curto caminho até a mesa de Alaudi sem nenhum tipo de vergonha.

"Boa tarde." Aquela era a primeira vez que o louro escutava a voz do homem de perto. Era alta e bem distinta.

Alaudi não respondeu.
O ruivo não teve oportunidade de abrir a boca novamente. Ivan estava ao seu lado no segundo seguinte, e pela expressão do moreno, ele não havia gostado daquela repentina abordagem por parte de seu subordinado.

"Desculpe por interromper sua refeição, Alaudi." O Chefe dos Cavallone fez uma polida reverência, mas sua expressão estava inalterável. Os olhos não sorriam, e ele parecia muito mais incomodado com a situação do que o próprio Inspetor de Polícia.

"Não interrompeu." O Guardião da Nuvem limpou o canto da boca com um dos guardanapos. Estranhamente aquela distância que Ivan tentava colocar entre eles o incomodava... e muito. Acho que é um pouco tarde para tentar fugir agora. Não fui eu quem invadiu a sua boca na semana passada. Eu deveria ser o responsável por querer evitar nossos encontros.

O Chefe dos Cavallone murmurou um baixo "Fico feliz", mas não fez menção de retirar-se. O homem de cabelos ruivos havia se afastado sem que nenhum dos dois estivesse atento a esse mero detalhe.

"Eu vou deixá-lo à vontade agora, aproveite a sua ref-"

"Você pode sentar se desejar." As palavras deixaram os lábios do louro em uma velocidade espantosa. O próprio Alaudiu juntou as sobrancelhas após tê-las dito, surpreso por tamanha ousadia. Aquela foi a primeira vez que ele convidou alguém para sentar em sua mesa. Entretanto, a surpresa estampada no rosto do homem à sua frente foi maior e bem menos discreta.

"Eu não poderia negar nenhum convite feito por você, Alaudi." o Chefe dos Cavallone sentou-se na cadeira à frente, e seus dois subordinados deixaram o restaurante como se nunca tivessem estado lá.

"O Senhor deseja alguma coisa?" A encantada atendente surgiu ao lado da mesa rapidamente. Seus olhos, atenção e provavelmente amores eram todos destinados ao moreno.

"Se eu desejo alguma coisa?" Ivan repetiu a pergunta com a voz baixa e cheia de significado. Seus olhos cor de mel pareciam ainda mais brilhantes naquele dia, e por um rápido momento o Guardião da Nuvem sentiu-se incomodado. Não, a palavra certa seria nu. Ele sabia o que o Chefe dos Cavallone desejava. "Você gostaria de sobremesa? Eu ficaria imensamente feliz se aceitasse a sobremesa por minha conta".

"Não, obrigado." Alaudi voltou sua atenção ao prato de ravioli, que naquela altura não possuía mais o sabor que sempre o encantou. Na verdade ele já nem sentia tanta fome, mas qualquer coisa era melhor do se ver nos olhos do homem à sua frente e imaginar o que estaria passando por sua mente.

"Eu quero uma xícara de café sem açúcar, por favor." O Chefe dos Cavallone não parecia ter ficado ofendido com a recusa de sua sobremesa.

O café foi serviço e por alguns minutos nenhum dos dois homens disse nada. O silêncio era o terceiro convidado, sentado na cadeira invisível. Ele parecia abraçar os presentes, envolvendo-os em um constrangedor jogo de olhares e indiferença.
Quando o último ravioli foi espetado com o garfo, Alaudi permitiu-se erguer os olhos, não ficando surpreso por ver Ivan encarando-o. Ele sabia que a qualquer instante o moreno tocaria naquele assunto, e para ser sincero, o Guardião da Nuvem esperava que fosse logo.
O tão esperado momento parecia ter chegado. Ivan mexeu-se na cadeira e apoiou os cotovelos na mesa, utilizando os dedos para segurar o queixo. O louro sentiu o coração pular uma batida.

"Você tem algum amante, Alaudi?"

O garfo que estava em uma das mãos do Guardião da Nuvem caiu por entre seus dedos, fazendo barulho ao tocar a cerâmica do prato. As poucas pessoas que estavam no restaurante pararam o que faziam para olhar de onde vinha o barulho, curiosas.
O louro juntou as sobrancelhas e abriu a boca para responder, mas tudo o que conseguiu foi provavelmente ter uma expressão idiota. Toda sua lógica e respostas prontas sumiram da ponta de sua língua. Não era aquilo que ele esperava ouvir. O Chefe dos Cavallone deveria somente pergunta se ele já tinha uma resposta, e então o Guardião da Nuvem diria que não se lembrava do beijo e que o envolvimento entre eles deveria ser totalmente profissional. Porém, em momento algum Alaudi esperou escutar aquilo.
Aquela foi uma das coisas mais ousadas e indiscretas que ele ouvira na vida.

"Eu perguntei se você tem um am-"

"Eu ouvi o que você perguntou." A voz de Alaudi saiu baixa e levemente irritada. Ele nunca falava sobre si mesmo. Sua vida pessoal não dizia respeito a ninguém. "E essa pergunta não lhe diz respeito, Cavallone." Pronunciar aquele sobrenome o fez sentir mais confiante. Ele faria o possível para acabar com aquela conversa.

"Ai é que você se engana." Ivan tinha o mesmo meio sorriso nos lábios, e alguma coisa em seus olhos diziam que ele não estava brincando. "Por que eu estava falando sério naquele dia, e se você tiver um amante ou uma amante então eu terei um pouco de dificuldade."

Um pouco. O louro levantou-se, retirando a carteira do sobretudo azul-marinho e depositando a quantia certa sobre a mesa. Seus pés moveram-se, mas a mão do Chefe dos Cavallone segurou seu pulso. O moreno ficou em pé e ambos estavam lado a lado. Ombro com ombro. Coração com coração. Os dedos de Ivan desceram devagar pelo pulso de Alaudi, até tocarem a palma de sua mão. Quando ambas as mãos se entrelaçaram, o Chefe dos Cavallone inclinou-se levemente, murmuraram meia dúzia de palavras antes de cruzar o restaurante e seguir por um dos corredores.

O Guardião da Nuvem permaneceu imóvel por alguns segundos. Seus pés sabiam que deveriam andar para sair do restaurante e voltar ao seu trabalho. Nada mais precisaria ser dito. Ivan entenderia aquele gesto como uma resposta para suas perguntas, e o louro então teria alguma paz de espírito, podendo novamente se focar em seu trabalho.
Entretanto, por que ele simplesmente não saiu? Estar ali, parado e ponderando o que ouviu foi a maior prova de que alguma coisa não estava certa. Não, aquele não era o começo das coisas erradas. Desde que encontrara seu estranho perfeito na festa de Giotto a vida de Alaudi transformou-se em um pesadelo.
Sim, aquilo tudo era culpa do Chefe dos Vongola.

Decidido a colocar um ponto final em toda aquela situação ridícula, o Guardião da Nuvem deu meia volta e seguiu pelo mesmo caminho que o moreno havia feito há poucos segundos. Seus passos ecoaram pelo piso, e quanto mais ele se aproximava do final, mais difícil era controlar as batidas de seu coração.

"Eu estarei esperando depois da porta, no final do corredor."
As palavras ecoavam pela mente do louro, deixando-o um pouco nervoso e envergonhado. Primeiro o convite para o almoço, depois ele aceitava convites suspeitos para banheiros e afins. Até onde Alaudi iria por causa daquele homem?
Uma de suas mãos girou a maçaneta, e foi com um olhar sério e decidido que ele abriu a porta e começou a falar antes que pudesse ser interrompido.

"Eu acredito que o Sen-"

As palavras voltaram a lhe faltar como acontecera há poucos minutos. Porém, dessa vez não foi uma pergunta indiscreta que fez com que seu discurso morresse em sua garganta.
No momento em que pisara no banheiro, o Guardião da Nuvem não sentiu nada além do puxão em seu braço e a parede do banheiro em suas costas. Os lábios e língua de Ivan invadiram sua boca, devorando novamente cada pedaço daquele pequeno espaço.
Alaudi não se lembrava mais o que pretendia falar inicialmente, ou como chegara naquele lugar. Tudo o que o louro recordava-se era de como mover seus lábios enquanto suas mãos subiam pelo peito do homem em seus braços.

O beijo foi eufórico, quente e extremamente longo. O Guardião da Nuvem não se recordava de ter beijado alguém por tanto tempo. Suas experiências naquele campo foram poucas e terminaram como haviam começado: no mesmo dia e sem nenhum tipo de laço que os unissem. Ivan não seria o primeiro homem que ele tinha em seus braços, mas aquela era a primeira vez que o louro sentia tamanho desejo por outro ser humano. As pontas de seus dedos apertavam os braços do Chefe dos Cavallone, impossibilitando-o de se afastar. Suas costas estavam encostadas à parede, mas as mãos do moreno o envolviam em um apertado e possessivo abraço. Os lábios que inicialmente se moveram com pressa alteraram o ritmo após alguns minutos. O beijo tornou-se lento e a língua de Alaudi entrelaçava-se com a de Ivan em uma delicada dança.
Quando o ar tornou-se necessário, o Chefe dos Cavallone desceu lentamente os lábios pelo pescoço pálido do Guardião da Nuvem, ficando na mesma posição. Os olhos do louro permaneceram fechados até que o beijo recomeçasse.

"Você me quer também." A voz de Ivan soou baixa entre os lábios de ambos. Os olhos cor de mel estavam semicerrados e encaravam o Guardião da Nuvem. Aquela era uma certeza e não uma indagação.

Alaudi tentou contra-argumentar, mas suas palavras não seriam suficientes. O que eu poderia dizer nesta situação? Ele sabe que eu não tenho como negar isso. Cada centímetro de seu corpo havia respondido ao beijo, e saber que seu rosto estava corado e sua respiração completamente fora de ritmo não ajudava muito.

"Eu sabia que você viria. Eu sabia que não era o único envolvido." Ivan passou as costas de uma das mãos pelo rosto do louro. Havia um tolo meio sorriso em seus lábios. "Diga-me Alaudi, eu posso ter esperança? Eu posso esperar pela sua resposta positiva?"

O Guardião da Nuvem tentou novamente responder. Era difícil. As palavras nunca faltavam em seus pequenos discursos e frases feitas, mas de repente pensar e comunicar-se se tornou uma tarefa difícil. Além disso, como ele poderia recusar aquele homem? O que ele poderia dizer? Se sua resposta fosse negativa Ivan provavelmente nunca mais aparecia diante de seus olhos.

"Eu ainda estou pensando sobre isso." A resposta saiu baixa e foi preciso uma dose extra de coragem para dizê-la. Ele não mentira. Os dias daquela semana foram basicamente dedicados exclusivamente ao Chefe dos Cavallone.

"Eu esperarei sua resposta." O moreno deu um passo para trás e passou as mãos pelos cabelos. "Eu estarei em casa no fim de semana e ficaria honrado em recebê-lo em minha residência. Sei que sabe onde moro, então gostaria que me fizesse uma visita. Eu sei que não deveria estar insistindo para obter uma resposta, mas gostaria que me desse a chance de nos conhecermos melhor. Um almoço e nada mais."

O louro arrumou seu sobretudo, encarando o chão forrado por um piso vermelho escuro. Ele brinca comigo. Eu nunca deveria ter deixado que isso acontecesse. Eu nunca deveria ter vindo a esse restaurante.

"Alaudi, e-e-" O Chefe dos Cavallone deu um passo para trás, engolindo seco ao sentir dois grandes e sérios olhos azuis fitando-o com indignação e uma pitada de raiva. Aqueles não eram os mesmos olhos semicerrados e cheios de luxúria que ele acabara de encarar. "Eu sinto muito. Eu disse que não forçaria a situação, mas estou me precipitando. Novamente, eu sinto muito." O sorriso desapareceu dos lábios de Ivan e ele sorriu de canto. "O convite ainda está de pé, então pense sobre isso, está bem? E independente da sua resposta eu gostaria de ouvi-la e prometo jamais importuná-lo novamente se ela for negativa. Eu posso parecer um pouco entusiasmado demais, mas não sou o tipo de homem que insiste em uma causa perdida. Uma palavra sua e eu me calarei para sempre. E não se preocupe, nada disso é relacionado com o trabalho que repassei a você."

O moreno fez uma leve reverência com a cabeça antes de sair do banheiro. Os passos ecoaram pelo piso vermelho, e somente ao perceber que estava totalmente sozinho foi que o Guardião da Nuvem permitiu-se relaxar os ombros. Seus olhos se fecharam por um momento e ele suspirou, tentando assimilar o que havia acontecido naquele pequeno espaço. Ele conseguia ver seu reflexo no espelho à frente, e as bochechas coradas denunciavam totalmente seu estado emocional. Eu deveria ter tirado as algemas de dentro do sobretudo e prendido aquele homem. Eu me tornei fraco. O pensamento o fez desviar os olhos do espelho, envergonhado demais para encarar seus próprios olhos.
Aquela foi a primeira vez que Alaudi se sentiu de mãos atadas.

O restaurante estava um pouco mais cheio quando ele saiu do banheiro, e a atendente sorridente não parecia ter conhecimento de nada que acabara de acontecer. A moça entregou-lhe dinheiro e comunicou que o almoço do louro havia sido pago pelo "Gentil, alto, simpático e bonito senhor de cabelos escuros", e o Inspetor de Polícia não se deu ao trabalho de questionar o assunto mais profundamente. Suas mãos cobriram seus olhos ao ganhar a rua por causa do Sol, e sem olhar para os lados Alaudi colocou as mãos dentro dos bolsos do sobretudo e seguiu na direção de seu escritório. O calor parecia insignificante naquele momento, e se ele tivesse parado e prestado atenção ao seu redor, teria visto um carro diferente na frente do prédio. A surpresa que o esperava em sua sala não era nem um pouco animadora.

x

"Eu achei que não fosse encontrá-lo, Alaudi."

Giotto havia pousado a xícara de chá sobre a mesa do Guardião da Nuvem, recebendo seu amigo com o mais largo de seus sorrisos. Alaudi mordeu mentalmente o Chefe dos Vongola até a morte, sem acreditar que aqueles dois homens haviam invadido seu escritório e estavam acomodados em sua mobília. G. estava sentado no fundo da sala, como uma fiel sombra de cabelos ruivos. A cor daqueles cabelos fez o Guardião da Nuvem apertar os olhos azuis, recordando-se do subordinado de Ivan. Ele oficialmente odiava ruivos.

"Saiam." A ordem deixou os lábios do louro sem nenhum tipo de emoção. Alaudi retirou o sobretudo e o pendurou atrás da cadeira, sentando-se e agindo como se os dois estranhos não estivessem ali. Talvez se eu ignorá-los eles vão embora.

"Mas nós acabamos de chegar. Eu o estava esperando. Um dos seus subordinados nos deixou entrar e até mesmo nos serviu chá." Giotto tinha o mesmo sorriso idiota nos lábios. O Guardião da Nuvem se lembraria de perguntar quem havia sido o responsável por permitir que aquele homem entrasse no prédio. Todos sabiam que suas visitas estavam proibidas. Nada bom acontecia quando você se envolvia com os Vongola.

"Eu pedirei apenas uma vez que se retire, pois da próxima vou garantir que você nunca mais apareça, Giotto." O humor do louro estava péssimo. Quando deixou o restaurante, a única coisa que ele queria era retornar para sua pequena residência e passar o restante do dia sem ver ou falar com ninguém. Seus pensamentos eram perturbantes o suficiente para deixá-lo ainda mais perigoso do que de costume.

"Se eu fosse você demonstraria mais respeito com o Chefe, Alaudi." A voz de G. soou rouca e séria, mas o Guardião da Nuvem a ignorou. Ele nunca dava muita importância para o braço direito de Giotto.

"Saiam."

O Chefe dos Vongola voltou a pegar a xícara sobre a mesa e deu mais um gole no chá. O barulho do líquido passando pelos lábios de Giotto entrava com um volume muito mais alto pelos ouvidos do louro. Seus olhos e atenção estavam em seu trabalho, mas era difícil ignorar aquelas duas pessoas em seu escritório.

"Eu vim convidá-lo para um baile em mi-"

Dois rápidos sons ecoaram pelo pequeno escritório do Inspetor de Polícia. As palavras morreram nos lábios do Chefe dos Vongola, mas seus olhos estavam calmos e havia o mesmo gentil meio sorriso em seus lábios. O Guardião da Nuvem havia retirado sua arma da cintura e a apontava diretamente na direção do rosto de Giotto. Em contrapartida, G. estava atrás de seu chefe, arma em mãos e um olhar sério e decidido. Não ouse falar de seus malditos bailes. Foi por sua causa que as coisas chegaram nesse ponto. Se eu nunca tivesse pisado naquela sua estúpida mansão, para ir ao seu estúpido baile eu nunca teria conhecido aquele estúpido homem.

"Eu sabia que você recusaria meus convites informais, então decide vir pessoalmente convidá-lo. Você é meu precioso amigo e Guardião e sua presença será esperada por mim e meus convidados." Giotto continuou com seu discurso como se nada tivesse acontecido. Sua voz era baixa e mesmo na mira de uma arma o homem agia como se não possuísse nenhum problema.

"Eu não sou seu amigo e nem seu Guardião. Acredito ter deixado isso claro em muitas situações. Eu apenas auxilio naquilo que é favorável ao meu lado." As palavras saíram baixas, mas Alaudi não abaixou a arma. Seus dedos imploravam um pouco de ação. "Eu não sei o que você veio fazer aqui, mas não tenho interesse algum em comparecer às suas reuniões."

"Abaixe sua arma, Alaudi." G. deu um passo à frente. Seus olhos estavam semicerrados e era clara a maneira como ele tentava proteger seu precioso Chefe com seu próprio corpo.

"Ele não vai atirar em mim, G., não se preocupe." Giotto sorriu erguendo levemente as mãos e mostrando que não tinha intenção de reagir. "Podemos conversar em particular? Prometo que irei embora em seguida."

O Guardião da Nuvem abaixou a arma, mas a deixou em cima da mesa, mostrando que não estava brincando. Se o Chefe dos Vongola realmente fosse embora, então valeria o sacrifício ouvi-lo por poucos segundos. Tudo o que ele queria era um pouco de paz e silêncio. Por que ninguém entendia isso?

"Saia." Os olhos azuis encararam a figura de G..

"Eu não vou deixá-lo sozinho com esse maníaco, Giotto. Ninguém sabe o que ele é capaz de fazer."

"Eu ficarei bem." Giotto nunca levava a sério os medos e receios de seu braço direito. Vez ou outra Alaudi imaginava o quão descuidado e inocente aquele homem poderia ser. "Por favor, espere do lado de fora, G.."

As palavras pareceram machucar o ruivo. O braço direito dos Vongola guardou a arma dentro do terno a contragosto, saindo da sala, mas não sem antes lançar um vingativo e ameaçador olhar na direção do Guardião da Nuvem. O louro por sua vez ignorou aquela muda ameaça, pousando os olhos na única pessoa restante naquela sala.

"Carlos deixou o país e agora está morando em alguma cidade da França. Ele provavelmente usa outro nome e deve ter comprado uma nova aparência. Porém, é a pessoa que você procura."

"Não sei do que você está falando." Alaudi tinha o rosto inexpressivo. Giotto havia se inclinado e depositado um pequeno papel sobre a mesa, contendo o nome que ele acabara de pronunciar.

"Você aceitou o trabalho de Ivan, não? Você está procurando a mulher de nome Graziella."

Graziella Vianello. O nome e a fisionomia da bela mulher haviam desaparecido da mente do Guardião da Nuvem nos últimos dias, mas ele se recordava do tempo que passou tentando adivinhar os motivos reais por trás daquele trabalho. Se o Chefe dos Vongola sabia do assunto, então a situação não era tão sigilosa como ele imaginava.

"Ivan me perguntou há algumas semanas se você aceitava trabalhos particulares." Giotto parecia responder as perguntas que Alaudi só havia feito para si mesmo. "Ele pareceu um pouco desconfortável em pedir sua ajuda, mas eu garanti que não se arrependeria de contatá-lo. Eu fiz uma pesquisa pessoal e descobri que esse homem foi o último a vê-la. Misteriosamente ele deixou o país dois dias depois que ela desapareceu."

Ele não está me ajudando, mas sim o Chefe dos Cavallone. O louro pensou enquanto encarava o pedaço de papel sobre sua mesa. Agradecer Giotto estava fora de cogitação.

"Bem, agora que já disse tudo o que pretendia dizer espero que faça bom uso dessa informação e que ela possa ajudá-lo em sua busca. Ivan parece estar preocupado, e mesmo sem entender totalmente a situação eu sei que ele não está fazendo isso porque quer."

"Se ele não tem interesse em encontrar a mulher por que me designou o trabalho?" As palavras saíram afiadas pelos lábios do louro. Se aquele idiota inventou tudo isso eu não vou perdoá-lo.

"Ele está fazendo tudo isso por Francesco. O garoto está na idade de fazer perguntas."

As sobrancelhas de Alaudi se juntaram e pela primeira vez desde que entrou em seu escritório seu rosto tinha algum tipo de expressão. Ele não entendia o que estava acontecendo. Giotto o olhava com curiosidade, e o meio sorriso nos lábios do Chefe dos Vongola era irritante.

"Eu não sei o quanto ele te contou, mas há uma forte razão por trás desse trabalho." Giotto caminhou até a porta e a abriu. "Francesco é o filho de Ivan, e também o herdeiro da Família Cavallone. Graziella é a mãe do garoto."

O Guardião da Nuvem abaixou os olhos.
O Chefe dos Vongola saiu e aparentemente todas as portas haviam se fechado para ele naquele instante.

Continua...