IV
"Graziella Vianello era uma jovem mulher de 24 anos, nascida na província de Veneza. Filha de um Chefe da Máfia local, a jovem moça jamais herdaria a chefia da Família. Possuindo três irmãos mais velhos, as chances de se sobressair naquele tipo de mundo só aconteceria através de um casamento extremamente proveitoso. Entretanto, ela não casou. Seu irmão mais velho herdou a Família após a morte do pai, formando aliança com várias outras Famílias, incluindo os Cavallone." Alaudi virou a folha do relatório. Aquela era a quarta página. "Eles nunca chegaram a casar, porém, ela teve um filho há cinco anos. O garoto - Francesco Cavallone - mora com o pai. Graziella o visitou assiduamente no primeiro ano, mas suas visitas decaíram conforme os anos passaram. Há mais de nove meses ninguém tem nenhuma notícia sobre a mulher, além do fato dela ter morado algum tempo com um homem de nome..."
A última folha do relatório trouxe um gosto amargo à boca do Guardião da Nuvem e ele se recusou a lê-la. Seus olhos estavam cansados, suas costas doíam e seu corpo implorava um longo e relaxante banho. Eu passei tanto tempo coletando informações que esqueci de todo o restante. O único relógio da casa marcava pouco mais de meia-noite, mas o louro não sentia vontade de se mover. O sofá estava confortável e com exceção da luz forte, ele poderia dormir sem problemas naquela posição. Fechando os olhos e recostando-se melhor no sofá, Alaudi permitiu-se relaxar pela primeira vez em dias.
O sono veio fácil e em pouco tempo. O Guardião da Nuvem sabia que seu corpo havia se rendido ao cansaço e o que seus olhos viam era parte de um sonho. Outro sonho. Ou o mesmo sonho? O largo salão estava vazio novamente. O louro sabia que teria de andar se quisesse deixar aquele local, então sem pensar duas vezes Alaudi simplesmente se pôs a andar, escolhendo uma direção aleatória. Seus passos ecoaram pelo piso xadrez, mas diferente dos outros sonhos, naquela noite ele sentia o frio ao seu redor. Suas mãos encontraram fácil acesso dentro do sobretudo azul marinho, mas aquilo não o deixou aquecido.
A caminhada pareceu mais longa e exaustiva. Quando o Inspetor de Polícia estava se dando por vencido, as duas portas surgiram em seu campo de visão. Ele não sabia por quanto tempo andara, mas tinha certeza de que acordaria quando abrisse uma das portas. A porta da direita me fará acordar, pensou o Guardião da Nuvem enquanto fitava a maçaneta dourada. Entretanto, diferente das outras vezes em que ele ia direto para a porta escolhida, abrindo-a sem hesitar, naquele momento Alaudi hesitou. Seus pés o levaram para o espaço entre as duas portas, e seus olhos azuis encararam a da esquerda com uma estranha curiosidade.
Ele não tinha a mínima ideia do que poderia estar escondido atrás daquela porta. Elas eram idênticas, mas de alguma forma o Guardião da Nuvem sabia que eram diferentes. Por fora são duas portas iguais, mas seus caminhos divergem. A curiosidade de Alaudi não foi o único motivo que o fez passar mais tempo do que o necessário questionando-se sobre qual porta escolher. Havia certa rebeldia e resignação em optar pela mesma porta, como se a oportunidade pudesse passar e não retornar. E se ele não tivesse mais aqueles sonhos? E se ele nunca soubesse o que a porta da esquerda poderia revelar?
Aquelas perguntas ecoaram na mente do louro, mas não por muito tempo. Dando um passo à frente e girando a maçaneta dourada, o Inspetor de Polícia fez menção de abrir a porta da direita, mas algo o segurou. Havia uma mão sobre seu pulso, e ao virar o rosto para pedir que a pessoa o deixasse ir, o Guardião da Nuvem surpreendeu-se. Ele já imaginava que a mão era do Chefe dos Cavallone, mas não estava preparado para a mudança de cenário. Do largo e solitário salão xadrez, sua mente o levara até um confortável quarto.
"Por que você está aqui?" Alaudi retirou a outra mão do bolso. De repente a temperatura estava ideal. "Quem disse que você pode invadir meus sonhos? Saia."
Ivan não pareceu ouvir, ou melhor, não pareceu se importar com o comentário e nem a ameaça. Seus dedos moveram-se delicadamente do pulso para a palma da mão do louro, entrelaçando os dedos e o guiando através do quarto. O Guardião da Nuvem sentiu suas pernas se moverem sem que ele tivesse qualquer tipo de controle. Eu não gosto do que está acontecendo. O destino da caminhada encerrou-se quando os dois chegaram à cama, e o moreno começou a desabotoar o sobretudo de Alaudi.
"O que você está fazendo?" A pergunta saiu alta, mas novamente tudo o que ele conseguiu foi um meio sorriso e um olhar do homem à sua frente. "Eu vou prendê-lo por atentado ao pudor e garantirei que apodreça na prisão, Cavallone." A voz do Inspetor de Polícia saiu mais abafada. Ele sentiu o rosto corar quando seu sobretudo deslizou pelos ombros. Seu corpo simplesmente não obedecia.
Alaudi só percebeu que suas palavras eram irrelevantes quando suas próprias mãos começaram a abrir a camisa branca que Ivan vestia. Ele não sabia como, mas seus dedos encontraram fácil acesso através da pele levemente morena do homem. O toque os deixou mais próximos, e o Chefe dos Cavallone abriu um largo sorriso ao retirar a camisa do louro. Os dedos então foram para os botões da calça, e o Guardião da Nuvem sentiu pânico pela primeira vez.
"Você sabe que somos homens, não é? O que você está fazendo, Cavallone? Pare de sorrir! Pare de me despir!"
A calça e a roupa de baixo do louro foram retiradas ao mesmo tempo. O Inspetor de Polícia tinha os lábios entreabertos, sem conseguir proferir nenhuma palavra. Aquilo era impossível e ridículo. Ele jamais teria tido aquele tipo de sonho.
"Eu vou matá-lo quando isso terminar, Cavallone, eu prometo." Alaudi sentiu seu corpo dar um passo à frente. Seus dedos desabotoaram a calça de Ivan sem que ele pudesse evitar. "É tudo culpa sua. Eu nunca deveria ter permitido que você me beijasse. Aquele beijo mudou tudo, e a culpa é sua."
A calça negra caiu ao chão, e o Guardião da Nuvem levou as mãos até a roupa de baixo do Chefe dos Cavallone. As pontas de seus dedos tocaram o tecido e as tatuagens com curiosidade, e quando a peça foi deslizada lentamente pelas pernas do moreno, o Inspetor de Polícia sentiu o rosto tornar-se rubro. Os dois homens se encararam nus e um de frente para o outro. A distância desapareceu, e o mesmo aconteceu com as palavras do louro. Ele sabia que não adiantaria reclamar ou gastar sua saliva. O sonho terminaria em algum momento, então tudo o que ele precisava fazer era sobreviver ao que quer que fosse acontecer em cima daquela cama.
As expectativas e curiosidades de Alaudi foram atendidas em pouco tempo. Seu corpo deitou-se sobre a cama, mesmo que sua mente tentasse evitar aquele momento a todo custo. Ivan vinha sobre ele, com movimentos vagarosos, mas os olhos cor de mel estavam o tempo todo em cima do jovem Guardião da Nuvem. Por que eu simplesmente não acordo? Há algo errado. Isso é errado. O louro sentiu o corpo tremer por inteiro quando o Chefe dos Cavallone tocou levemente a altura de seu peito, descendo com a ponta dos dedos por seu abdômen. A sensação era real demais para ser um sonho. O calor que emanava daquele toque, a ansiedade que fazia com que o coração de Alaudi batesse mais forte, e principalmente a maneira como seu corpo regia àquela proximidade não pareciam fazer parte de um sonho. Meu próprio corpo me trai. O Inspetor de Polícia queria desviar os olhos de sua própria ereção, mas seu corpo não obedecia.
"Você parece tão apetitoso, Alaudi." O moreno havia finalmente começado a falar. Até aquele momento suas reações foram sorrisos e olhares cheios de significados. "Eu quero apertá-lo, beijá-lo e fazer várias coisas com você..."
"Quando eu sair daqui farei várias coisas com você também. Garantirei que pague por isso, Cavallone." O Guardião da Nuvem tinha a voz séria. A proximidade entre eles não era segura, e quanto mais o rosto de Ivan se aproximava, mais difícil era se concentrar em outra coisa que não fosse aqueles lábios rosados.
O moreno sorriu em resposta, beijando delicadamente uma das bochechas do Inspetor de Polícia. Os lábios desceram pelo maxilar e queixo. A ponta da língua do Chefe dos Cavallone correu pelos lábios de Alaudi antes de pedir passagem. O beijo iniciou-se quente e eufórico. A maneira como Ivan devorava sua boca o fez recordar-se do beijo que ambos trocaram dias atrás dentro do banheiro do restaurante. Havia a mesma paixão, mas o desejo parecia ser proporcional à situação. O moreno diminui a distância entre eles, deitando-se sobre o corpo nu do Guardião da Nuvem. O louro sentiu o rosto corar, mas seus lábios não pararam de se movimentar, rivalizando com o ritmo imposto por Ivan.
As línguas, mãos, braços e pernas se entrelaçaram com pressa. Alaudi desistiu de tentar parar seu corpo. Suas mãos apertavam as costas bem torneadas do Chefe dos Cavallone, enquanto o homem que estava por cima o tocava praticamente por inteiro e sem nenhum pudor. Os lábios do moreno mordiam levemente o pescoço do Guardião da Nuvem, arrancando gemidos e suspiros por lábios que pareciam ter sido feitos para proferirem aquele tipo de som. Os beijos desceram pelos ombros e peitoral do Inspetor de Polícia. O moreno dedicou um tempo considerável aos mamilos do louro, enquanto sua mão masturbava ambas as ereções. O erótico contato, o suor e todo o clima intoxicante fizeram com que o resto de bom senso que Alaudi ainda possuía começasse a se dissipar. Seu corpo tornou-se mais quente, quase febril. Os beijos retornaram, e o Guardião da Nuvem levou ambas as mãos até seu baixo ventre, auxiliando Ivan no que ele fazia. A cada gemido o louro parecia aceitar mais e mais aquela situação. E então, quando o clímax chegou para ambos, o Inspetor de Polícia gemeu mais alto, abrindo lentamente os olhos.
A figura do Chefe dos Cavallone desapareceu devagar. Os olhos azuis estavam embaçados de luxúria, e foi preciso alguns segundos até que Alaudi pudesse lembrar que o branco que enxergava era referente ao teto de sua sala. Depois desse rápido momento de confusão a realidade chegou depressa. O louro estava deitado em seu sofá, a camisa branca aberta e pintada com seu orgasmo, sua calça e roupa de baixo estavam no chão e não havia mais ninguém naquela casa.
O Guardião da Nuvem ficou de pé no mesmo instante e retirou-se da sala na direção de seu pequeno corredor. A camisa e a gravata foram jogadas em algum canto do banheiro e Alaudi entrou embaixo do chuveiro no mesmo instante em que ele foi ligado.
A água fria bateu em sua cabeça e ombros. As mãos do louro estavam apoiadas no azulejo, mas seus olhos estavam fechados. A respiração - alta e descompassada - não parecia querer voltar a ser regulada, e não demorou muito para que o Inspetor de Polícia entendesse o motivo: seu corpo ainda estava em chamas. Acalme-se, foi apenas um sonho e agora você está acordado. Você tem total controle sobre seu corpo, Alaudi, lembre-se disso. Aquelas palavras ecoaram várias vezes dentro da mente do Guardião da Nuvem, mas nada parecia fazê-lo esquecer do que acabara de sonhar. Sua ereção retornara e quanto mais ele pensava em seu baixo ventre mais difícil era esquecer o Chefe dos Cavallone. Os toques e carícias pareceram reais demais, a ponto de Alaudi conseguir sentir o cheiro daquele homem. Recordar-se da maneira como ambos se beijaram e se tocaram levou uma onda de rubor para o rosto sempre pálido do jovem Guardião da Nuvem.
Quando o louro finalmente levou uma das mãos até seu membro, Ivan Cavallone retornou.
O moreno entrou no pequeno espaço reservado para o chuveiro e o abraçou por trás. Seu corpo nu estava quente e parecia encaixar-se perfeitamente ao corpo do louro. As mãos do Chefe dos Cavallone desceram pelos ombros do Inspetor de Polícia, enquanto seus lábios beijavam o pescoço do homem em seus braços. O Guardião da Nuvem gemeu baixo quando Ivan começou a masturbá-lo, apertando em vão o azulejo.
Por longos minutos ele pertenceu novamente àquele estranho e misterioso homem, e a cada minuto ele se aproximava mais de seu clímax. A água que escorria por ambos os corpos havia se tornado quente, mas nada era tão fervoroso quanto eles mesmos. O orgasmo chegou mais intenso, e Alaudi sentiu os joelhos vacilarem momentaneamente. O Chefe dos Cavallone depositou um delicado beijo no alto da cabeça molhada do louro antes de desaparecer, e o Guardião da Nuvem abriu os olhos e encarou sua mão direita e parte do azulejo. Uma triste e amarga sensação o impossibilitou de continuar o banho por algum tempo. Eu desejo aquele homem. Eu realmente desejo aquele homem.
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O carro da Família Cavallone estava pontualmente às 11hs em frente à casa de Alaudi. As duas baixas batidas na porta o fizeram erguer os olhos, encarando sua própria imagem no espelho. A gravata foi apertada em um só movimento, e por um breve momento o louro encarou seu reflexo, sentindo-se satisfeito. Não havia olheiras ou nenhum sinal de que ele havia dormido apenas quatro horas naquela noite. A culpa e a vergonha lhe fizeram companhia por boa parte do tempo, e ao perceber que não conseguiria pregar os olhos, o Guardião da Nuvem levantou-se e passou horas lendo relatórios e assinando papéis. O trabalho da semana seguinte havia sido praticamente feito naquele fim de madrugada e começo de manhã.
O subordinado que o esperava do outro lado da porta era o senhor de meia idade que sempre dirigia para Ivan. Alaudi o cumprimentou com um baixo e discreto bom dia assim que abriu a porta, sentindo-se mais aliviado por não ser o homem de cabelos ruivos. Seu humor não estava dos melhores naquela manhã, e a última coisa que ele gostaria era de passar uma hora dividindo o mesmo espaço que aquele homem e seu sorriso presunçoso. Ele sabe. Ele provavelmente sabe de tudo.
A manhã estava ensolarada e se o Guardião da Nuvem não estivesse tão cansado e desatento teria notado o céu azul e o cantar dos pássaros. Entretanto, ele não reparou em nada além do carro estacionado em frente à sua porta. Seu sobretudo havia ficado para trás, e ele vestia apenas uma camisa branca, a gravata e uma fina blusa. O tempo estava quente e levemente abafado, mas o carro estava fresco e as janelas abertas premeditavam uma viagem calma e tranquila.
"Nós chegaremos em pouco mais de uma hora, senhor. Avise-me se precisar de algo." O subordinado dos Cavallone falava enquanto encarava Alaudi pelo retrovisor do carro.
O Guardião da Nuvem agradeceu a atenção e acomodou-se melhor no banco confortável do veículo. As ruas passaram do outro lado da janela, primeiro em velocidade reduzida, o suficiente para que ele pudesse enxergar a vida que acontecia nas ruas de Roma. As pessoas se amontoavam na frente dos Cafés e restaurantes, e as conversas eram altas e animadas. Quando as ruas centrais deram lugar à estrada, a agitação ficou para trás e o louro pôde finalmente relaxar. A paisagem mudou e ele sabia que precisaria utilizar sabiamente a hora que tinha até finalmente encontrar Ivan. Ele vai exigir uma resposta e eu tenho o dever de responder.
Aquele assunto foi o responsável por roubar as preciosas horas de sono do Inspetor de Polícia. A proposta feita pelo Chefe dos Cavallone martelou em sua mente por horas, e ele só conseguiu esquecer momentaneamente o assunto por causa do trabalho. Independente de sua disposição para responder, Alaudi sabia que a visita daquele dia não acabaria sem que os dois tivessem uma conversa séria e definitiva. Nós teremos de falar sobre o trabalho também. Eu preciso relatar o que descobri.
"O Chefe está muito ansioso por recebê-lo, senhor. Ele não parou de falar sobre isso durante o jantar de ontem." A voz do homem que dirigia o carro chamou a atenção do louro. "Até mesmo o pequeno Chefe está animado para conhecê-lo".
O pequeno Chefe. O Guardião da Nuvem engoliu seco. Ele podia ouvir claramente a voz de Giotto em seus ouvidos quando o Chefe dos Vongola lhe disse naquela tarde em seu escritório sobre o herdeiro da Família Cavallone. Eu nunca pensei que ele pudesse ter um filho. O que um homem de família quer com alguém como eu? E somos dois homens. Aparentemente ele não tem problemas com mulheres, então que tipo de interesse uma pessoa como ele teria em alguém como eu?
A ideia de que o moreno estivesse apenas brincando com seus sentimentos passou pela cabeça de Alaudi e o deixou irritado. Para uma pessoa sem muita experiência naquele tipo de coisa, ele não sabia ao certo se deveria acreditar nas doces palavras do Chefe dos Cavallone. Eu posso simplesmente ignorar todas as coisas que ele disse, mas como posso fazer o mesmo com os beijos? O gosto de Ivan ainda estava presente nos lábios do Inspetor de Polícia. Ele nunca mencionou a mulher. Eu permaneci no escuro por meses.
O subordinado da Família Cavallone parecia completamente diferente do homem ruivo que acompanhava o moreno para cima e para baixo. Havia um amigável e simpático sorriso em seus lábios, e durante todo o restante do caminho o senhor de meia idade entreteu Alaudi com sua conversa e comentários. O assunto foi relacionado aos últimos acontecimentos na política de Roma, e muito pouco foi dito sobre o passeio em si. A paisagem mudou novamente e quando os largos e belos campos deram lugar às ruas de pedra batida, casas e portões, o Guardião da Nuvem soube que não haveria como retornar.
A casa de Ivan, ou melhor, a propriedade de sua Família era localizada em um ponto alto, cercado por muito verde. Havia um largo portão de ferro na entrada de algo que parecia grande e espaçoso demais para ser um jardim. Dois grandes cavalos decoravam o portão, que ao ser aberto, fez os dois animais seguirem caminhos diferentes, encontrando-se segundos depois quando o portão foi fechado. O carro circulou pela estrada de pedra, e o louro não conseguiu tirar os olhos da paisagem. O jardim era extremamente bem cuidado, e ele viu um largo curral do lado direito. Havia homens circulando pelo local, alguns vestidos de negro, mas a maioria parecia ser fazendeiros e ajudantes. Quando a visão da casa principal surgiu aos olhos de Alaudi, foi difícil manter-se impassível. A casa possuía dois andares e era enorme, provavelmente comportaria vinte vezes o tamanho de sua humilde residência. Na frente da entrada havia uma estátua de mármore, em que dois cavalos pareciam disputar quem derrubaria mais água. A luz do Sol batia diretamente na estátua, criando uma agradável e clara surpresa. Ele vive um sonho. A propriedade, a casa... é como se fôssemos de mundos diferentes.
O carro parou e o humor do Guardião da Nuvem vacilou. A porta do seu lado foi aberta e o subordinado de cabelos ruivos fez sinal para que ele descesse. O presunçoso sorriso pintava seus lábios, mas o homem não disse uma palavra enquanto escoltava Alaudi pela curta escadaria que levava à entrada da casa.
"O Chefe está esperando." O homem parecia extremamente satisfeito.
"Obrigado." A resposta foi curta e polida. Não havia necessidade de travar longos diálogos com aquele homem.
"Não me agradeça." A larga porta branca foi aberta com delicadeza e o homem de cabelos ruivos fez uma curta reverência.
O louro entrou na casa e ignorou completamente aquela observação. Era realmente difícil se focar nas grosserias e comentários inoportunos de um homem que ele nem conhecia, quando seus olhos lhe mostravam algo tão belo. O interior da mansão da Família Cavallone era deslumbrante. O chão era de mármore, assim como a larga escadaria que levava ao segundo andar. Havia tapetes caros, quadros e estátuas em lugares estratégicos. As grandes janelas recebiam a luz do Sol, que parecia refletir naquele lugar com o dobro de intensidade, apesar das grossas cortinas cor vinho omitirem boa parte da claridade.
E parado no primeiro degrau da escadaria estava o anfitrião da casa.
Ivan aproximou-se com passos vagarosos e o típico meio sorriso nos lábios. Ele trajava uma calça social negra e uma simples camisa branca, mas Alaudi achou que ele parecia formidavelmente bem vestido. Os olhos cor de mel lembravam duas pequenas pedras de ouro e o cabelo negro o deixava pálido apesar da pele levemente morena.
"Espero que tenha feito uma boa viagem." A voz do Chefe dos Cavallone parecia ecoar por toda entrada e o Guardião da Nuvem só percebeu naquele momento que o subordinado de cabelos ruivos havia desaparecido. "Deixei ordens explícitas para que você fosse bem tratado."
Eu fui, pelo menos até pisar aqui. As palavras dançaram na ponta da língua do louro, mas sua resposta oficial foi apenas um menear de cabeça.
"Nós precisamos conversar." Alaudi ergueu levemente o envelope pardo que tinha nas mãos. O quanto antes ele resolvesse os assuntos que o levaram até aquele encontro melhor.
"Podemos conversar no escritório, ninguém vai nos interromper. Por aqui, por favor."
O escritório teoricamente ficava localizado no lado esquerdo da entrada, mas o louro não teve se quer a chance de dar o primeiro passo. Seus olhos azuis correram mais uma vez pelo largo e belo hall, pousando com curiosidade na escadaria. No mesmo local em que Ivan estivera esperando-o, agora se encontrava uma pessoinha de pernas curtas e rosto rosado.
"Eu disse para você ficar no quarto." A repreensão por parte do moreno soou carinhosa. O pequeno garoto desceu o último degrau e caminhou o máximo que suas curtas pernas permitiram, enrolando-se nas longas pernas do Chefe dos Cavallone como uma cobra. "E-Eu sei que lhe devo uma explicação sobre isso, mas você o conheceria cedo ou tarde, então... Esse é meu filho Francesco."
O garoto de nome Francesco era uma versão mais jovem de Ivan. A semelhança era tão impressionante que Alaudi até mesmo pensaria que a criança saiu somente do moreno. As únicas diferenças eram sutis, como os cabelos castanhos e a altura. O restante das feições era idênticas as de Ivan: grandes e expressivos olhos cor de mel, lábios rosados e brincalhões, o mesmo ar imponente e aparentemente a mesma petulância.
"Você é o amigo do papà?" A voz do garoto era quase feminina. Os olhos cor de mel enxergavam apenas metade do Guardião da Nuvem. A outra metade estava escondida atrás de uma das pernas do Chefe dos Cavallone.
Alaudi tinha os olhos baixos e lutava internamente para não corar. Apesar de não aparentar, ele era o tipo de pessoa que adorava crianças, e o herdeiro da Família Cavallone era incrivelmente adorável com sua bermuda xadrez e seu suspensório.
"Sim, ele é amigo do papà." Ivan retirou a responsabilidade das costas do louro. "Papà precisa conversar com seu amigo, então por que você não sobe para brincar? Giuseppe deve estar esperando por você lá em cima. O almoço ficará pronto em pouco tempo."
"O seu amigo ficará para o almoço, papà?" O pequeno garoto de cabelos castanhos saiu de trás das pernas do pai e encarou o Guardião da Nuvem com curiosidade. Aquela pergunta soava mais como uma afirmação.
"Eu não sei. Você ficará para o almoço, Alaudi? Seria uma honra."
Ele está aproveitando que o filho está aqui. O louro não conseguia ficar irritado naquela situação. Mesmo que o Chefe dos Cavallone não tivesse inteirado o convite ele não teria como dizer não a uma criança.
"Será um prazer." A resposta foi seguida por um meio sorriso. Os olhos do garoto brilharam, e com passos rápidos e animados ele atravessou o hall e subiu a escadaria de mármore forrada com um tapete vermelho. Quando estavam novamente a sós, Alaudi lançou um carregado olhar na direção de sua companhia. "Não use uma criança para fazer seu trabalho sujo, Cavallone. Isso é baixo até mesmo para você."
"Eu não o usei." Ivan apontou para a esquerda e ambos caminharam na direção do escritório. "Eu não preciso de truques para convidá-lo para uma refeição. Achei que isso estivesse claro para você."
O tom de voz e a maneira como aquelas palavras foram ditas fizeram com que o Guardião da Nuvem se sentisse levemente incomodado. Não eram raros os momentos em que o moreno se tornava presente. A personalidade do Chefe dos Cavallone servia como imã para as outras pessoas. Ele conseguiria ser o centro das atenções sem precisar mover um dedo, e apesar de ignorar por semanas a presença que aquele homem possuía, eram em momentos como aquele que até mesmo Alaudi reconhecia o quão diferente eles pareciam.
Ele tem um filho e uma mulher.
O escritório da mansão poderia ser confundido com a biblioteca. As portas eram lado a lado, mas o espaço reservado para conversas e negócios era menor e mais formal. A decoração era bela, mesmo que os móveis fossem poucos e básicos. Não era preciso excessos quando o local seria utilizado somente para tratar de assuntos importantes. Quando a porta foi fechada, o louro adiantou-se e estendeu o envelope na direção de Ivan. A primeira parte de sua missão começaria naquele momento.
"Conte-me o que devo saber." O Chefe dos Cavallone aceitou o envelope, abrindo-o sem pressa. "Se quiser sentar, fique a vontade".
Havia duas poltronas próximas à única mesa do escritório, mas Alaudi preferiu permanecer em pé.
"A mulher de nome Graziella morreu no mês passado na França. Foi um acidente."
"Alguma testemunha?" Ivan passou os olhos cor de mel por toda a extensão da primeira folha.
"O amante dela estava no local. O carro caiu dentro do mar e ele não conseguiu salvá-la."
"Marido." O moreno disse enquanto lia a segunda folha. "Eles se casaram antes dela deixar o país."
"Como sabe?" O Guardião da Nuvem apertou os olhos. Ele omitira aquela informação propositalmente, e se Ivan tinha conhecimento, então por quais motivos havia pedido a investigação?
"Eu estou apenas supondo." O Chefe dos Cavallone terminou de ler e guardou novamente os papéis dentro do envelope. "Graziella mencionou isso várias vezes, então deduzi que ela havia realizado o que tanto queria."
Você está falando da mãe de seu filho. Como consegue dizer essas coisas dessa maneira? O moreno caminhou na direção da pequena lareira em uma das extremidades do local. O fogo já estava previamente acesso quando ambos entraram, e sem pensar duas vezes Ivan arremessou o envelope sobre as labaredas. O papel queimou pouco a pouco, e nesse curto espaço de tempo nenhum dos dois disse nada.
"Nós nunca nos amamos. Tudo não passou de negócios." O Chefe dos Cavallone foi o responsável por quebrar o silêncio. "Eu precisava de um herdeiro, ela precisava salvar a própria Família. Graziella foi quem teve a idéia. No começo achei que não seria justo. Ela sempre amou aquele homem e estava disposta a dormir com outra pessoa para ajudar seu irmão. No final conseguimos o que queríamos."
Com a única diferença de que você está aqui, vivo e falante. O que os mortos podem conquistar? Alaudi sentiu-se levemente desconfortável com aquele assunto. O moreno parecia estar se explicando, e ele simplesmente não sentia que merecia ou queria ouvir aquelas explicações. Uma coisa levaria a outra, e de repente eles estariam falando sobre o ocorrido no banheiro do restaurante, e aquele assunto era basicamente tudo o que ele tentava evitar. Ivan omitiu boa parte de sua vida e o Guardião da Nuvem acabou descobrindo pelos lábios de terceiros.
"Diga-me o que mais você descobriu."
O Chefe dos Cavallone virou-se e o Inspetor de Polícia não pôde evitar reparar que ele estava sério. Talvez pensar que a notícia oficial sobre a morte da mãe de seu filho não o afetaria fosse cruel e insensível demais. Independente do que realmente existiu entre eles, o louro sabia que o pequeno garoto de cabelos castanhos e olhos felizes seria sempre um lembrete do passado. O louro recostou-se na poltrona e por cerca de dez minutos relatou tudo o que havia descoberto. A Família da jovem mulher, os irmãos e o marido. Ivan ouviu a tudo com extrema atenção, concordando e fazendo vez ou outra algum pequeno comentário que mostrasse que ele estava prestando atenção.
"Obrigado pelo excelente trabalho, Alaudi." o moreno abriu um vago sorriso. "Envie o valor que achar necessário, eu pagarei cada centavo. Agora por que não vamos para a sala de jantar? O almoço será servido e Francis não gosta de almoçar sozinho."
Ele tem um filho e uma mulher.
O Chefe dos Cavallone deu as costas e caminhou na direção da porta do escritório. O Guardião da Nuvem abaixou os olhos, tentando juntar as forças necessárias para dar o próximo passo. Seu corpo estava rígido, dormente, como se fisicamente ele não estivesse pronto para dar aquela resposta. Entretanto, sua mente sabia que a conversa aconteceria ainda naquele dia, e o quanto antes as coisas fossem resolvidas, as chances de alguma situação embaraçosa acontecer seriam quase nulas.
Ele tem um filho e uma mulher.
A mão do moreno girou a maçaneta dourada e então Alaudi desencostou-se da poltrona e deu um passo à frente. Seu coração bateu rápido e apertado em seu peito, e até mesmo respirar se tornou uma tarefa complexa. Umedecendo os lábios e erguendo os olhos azuis, o louro decidiu que era hora de seguir em frente.
"Não." A voz do Guardião da Nuvem saiu mais baixa do que ele gostaria. Toda sua resolução parecia ter ficado presa em sua garganta. Ao notar que Ivan não havia se virado, Alaudi soube. Ele sabe. "Minha resposta é não."
Uma simples e pequena palavra, mas que continha um grande significado. A proposta, assim como o próprio Chefe dos Cavallobe, esteve na mente e no coração do louro por todos esses dias. Não houve um momento - exceto aqueles que envolviam o trabalho – em que ele não se lembrasse das doces e tentadoras palavras daquele homem. Os beijos - estes quentes e sedutores - o fizeram companhia durante noites solitárias em que o fantasma do moreno visitou Alaudi e o transformou em outra pessoa. Os toques, as caricias, os gemidos... nada daquilo era real, ele sabia. A realidade estava ali, de costas e imóvel. A verdade estava dentro do peito do Guardião da Nuvem, e ali ficaria para sempre.
"Eu sei que cometi um erro ao omitir boa parte do meu passado, mas não achei necessário falar sobre Graziella, pelo menos por enquanto. O convite que lhe fiz era para que pudesse conhecer meu filho. Eu jamais menti para você. Obrigado por se dar ao trabalho de responder." O Chefe dos Cavallone virou-se devagar. O louro mentiria se dissesse que esperava outra reação além do sorriso e educação por parte do moreno. "Eu sabia da resposta, mas fico feliz por ter pensado sobre isso. Obrigado de verdade e desculpe se causei algum mal-estar entre nós."
O Guardião da Nuvem não era uma pessoa acostumada às conversas vagas e comentários gentis, e aparentemente o moreno não estava esperando mais nada depois daquela resposta, pois assim que terminou de falar, Ivan abriu a porta do escritório e saiu, fazendo sinal para que sua companhia fizesse o mesmo. Apesar de ter dado a única resposta que julgava viável, Alaudi cruzou novamente o longo hall de entrada com um estranho e desconfortável aperto no peito. O silêncio entre eles só o deixava ainda mais apreensivo, como se fosse errado permanecer naquela casa após ter rejeitado o anfitrião.
Os passos do louro diminuíram lentamente, mas antes que ele pudesse desculpar-se e dizer que não ficaria para o almoço, o Chefe dos Cavallone se adiantou:
"Não estou bravo, e gostaria imensamente que ficasse para o almoço. Francis não é muito comunicativo com estranhos, mas ele parece ter gostado de você." O moreno parou e virou o rosto quando ambos estavam em frente à larga porta de madeira escura que escondia a sala de jantar. "Fique por ele. Não é sempre que temos a oportunidade de compartilhar uma refeição com visitas."
O louro meneou a cabeça em positivo e todos os seus planos e ideias referentes à saída estratégica morreram naquele momento. A porta da sala de jantar foi aberta, mostrando um largo cômodo tão bem decorado quanto o hall. O chão era todo de madeira escura, assim como a longa mesa que ficava ao centro. Atrás da cadeira principal - assento reservado para Ivan e daqui alguns anos seu herdeiro estaria se sentando naquele lugar - havia uma enorme pintura com o emblema da Família: um cavalo branco em um campo verde. O pequeno Francesco estava sentado ao lado direito do assento principal, e assim que ouviu o barulho da porta sendo aberta, o jovem desceu da cadeira para receber suas companhias.
"Você está atrasado, papà. Eu estava morrendo de fome." Francesco parou em frente a Ivan, e apesar de suas palavras terem sido direcionadas ao pai, seus olhos cor de mel estavam fixos em Alaudi. "Você gosta de cordeiro, senhor?"
Senhor? Quantos anos ele acha que eu tenho? A resposta do Guardião da Nuvem foi um simples "sim". Suas mãos coçavam para acariciar os cabelos castanhos do garoto à sua frente, mas ele se conteve.
O Chefe dos Cavallone guiou as duas companhias até a mesa e foi o último a se sentar. Ele explicou que normalmente comia com seus subordinados, mas que naquela ocasião seriam somente os três. O pequeno Francesco pareceu desapontado por não ter seus amigos junto a ele na mesa, mas essa tristeza momentânea pareceu desaparecer quando o louro ergueu os olhos. Havia um largo e infantil sorriso nos lábios rosados do herdeiro da Família Cavallone, e foi impossível para Alaudi não notar a visível semelhança entre pai e filho. A mesma atitude despreocupada, a ideia de coletividade, a preocupação com outras pessoas... essas características de nada tinham a ver com o cargo que ocupavam e ocupariam no futuro, mas o Guardião da Nuvem não tinha dúvidas de que Francesco se espelhava no pai. Aquela mulher nunca chegou a morar nessa casa, então os dois provavelmente são as únicas companhias um do outro.
O último pensamento antes de o almoço ser servido foi amargo, mas o louro tentou o máximo possível esquecer aquele assunto. Sua decisão havia sido tomada, sua resposta dada, e não havia mais nada a fazer além de viver com isso. A longa mesa possuía uma quantidade absurda de comida: frango, cordeiro, massas e patês. O ravioli de molho branco - o primeiro prato que Alaudi provou - estava delicioso, e a cada garfada ele recordava-se da última vez que comeu aquele prato. O gosto do molho e do beijo o fez esboçar um meio sorriso, mas sua mente logo afastou aquele pensamento.
"Mastigue bem antes de engolir, Francis." O Chefe dos Cavallone pegou o guardanapo e inclinou-se um pouco à frente, limpando o canto da boca de seu filho. O pequeno agradeceu com um sorriso, mas no minuto seguinte sua boca estava suja novamente.
O almoço transcorreu deliciosamente tranquilo. O louro provou todos os pratos, votando como favoritos o ravioli ao molho branco e o cordeiro assado. O vinho que acompanhou os pratos era encorpado e ajudou na digestão, preparando-o para a sobremesa. Porém, Alaudi optou apenas pelo pudim.
Naquele espaço de tempo, o herdeiro da Família Cavallone tornou-se mais comunicativo. O pequeno garoto narrou a aventura que viveu no dia anterior com alguém de nome Giuseppe, e na maneira como conseguiu atravessar o jardim sem ser visto pelos subordinados. Todos os seus movimentos eram descritos com certo exagero e graça que só uma criança era capaz de exprimir. O relato era adorável, mas o que realmente chamou a atenção do Guardião da Nuvem foi Ivan. O moreno ouvia a tudo com amabilidade, reagindo de acordo com o nível da história. Seus comentários eram animados e cheios de vida, e quanto mais observava aquela cena mais difícil era para o louro ficar impassível. As palavras ditas anteriormente pareceram cruéis. Sua atitude havia sido petulante e permanecer ali se tornou insuportável. Alaudi ficou em pé, demonstrando que era hora de ir embora. Esse homem acabou de ficar sabendo que a mãe de seu filho está morta, e eu o rejeitei de uma forma insensível e baixa. Porém, ele consegue sorrir e agir como se nada o afetasse. Quantas vezes mais o coração desse homem ainda será machucado?
A resposta para aquela pergunta não seria respondida, mas o Chefe dos Cavallone entendeu o gesto do Guardião da Nuvem.
"Hora de se despedir do seu convidado, Francis. Alaudi tem uma longa viagem pela frente."
"Isso é porque moramos longe... de tudo." O garoto de cabelos castanhos parecia levemente aborrecido. "Se morássemos no centro eu poderia brincar com o Alaudi todos os dias."
O louro ergueu os olhos, sentindo o rosto corar levemente com aquele comentário. Francesco não havia lhe dirigido a palavra diretamente desde a pergunta sobre o cordeiro, mas aquele comentário o deixara encantado. Crianças são incríveis.
"Não seja um garoto teimoso. Alaudi tem que retornar ao trabalho e eu farei companhia a você hoje."
"Mas somente hoje. Eu não posso estar com você todos os dias."
A sutil reclamação não passou despercebida pelo Guardião da Nuvem. Enquanto afastava-se da mesa, ele tentou imaginar o quão solitário o herdeiro dos Cavallone não se sentia naquela larga mansão. Recordar-se de sua própria infância foi fácil, e simpatizar com aquele garoto aconteceu naturalmente.
Eu jamais o procurarei novamente. Aquelas palavras soaram tão reais que Alaudi não ousava prometer que retornaria. Aquele homem não merecia mais sofrimentos.
O subordinado responsável por levá-lo até o centro de Roma seria o mesmo que o trouxera. O louro agradeceu mentalmente por não ser o homem ruivo, imaginando que no final ele merecia ouvir meia dúzia de palavras ríspidas pelo que havia feito. Eu não precisarei mais ver aquele homem. Após receber o dinheiro eu não terei mais contato com essa Família.
"Obrigado pela visita, Alaudi. Eu sei o quão ocupado você está nesses dias." O moreno havia caminhado até a entrada da mansão, e estava parado no primeiro degrau, ao lado do filho.
"Obrigado pelo almoço. O cordeiro estava delicioso." O Guardião da Nuvem levou finalmente uma das mãos até os cabelos do pequeno garoto. Francesco sorriu e corou com o gesto.
"Obrigado por nos visitar." Completou o herdeiro dos Cavallone.
O louro ergueu o rosto e encarou Ivan de frente. O homem era um pouco mais alto, mas o degrau o deixava totalmente longe de seu toque. Ele nunca esteve ao meu alcance. Não é como se aquelas noites fossem reais. Ele precisa de uma nova mãe para seu filho e não um amante que jamais poderia oferecer o que ele necessita. Entretanto, era difícil dar as costas e entrar no carro.
Eu jamais o procurarei novamente. O moreno abriu um meio sorriso e deu um passo à frente. A distância entre eles diminuiu e ambos estavam praticamente na mesma altura. O Chefe dos Cavallone segurou uma das mãos do Guardião da Nuvem e a levou até os lábios, beijando-a com carinho. O rosto do louro não se tornou corado e seu coração não bateu descompassado. Ele sabia. Aquele beijo não era quente ou eufórico. Era um beijo de despedida.
"Adeus, Alaudi."
O Guardião da Nuvem deu as costas e entrou no carro. O cansaço e as noites mal dormidas pareceram acertá-lo de uma só vez, deixando-o totalmente exausto. Sua camisa parecia apertar seu corpo, o interior do carro estava quente, abafado e sufocante.
Quando o veículo cruzou o portão e os dois cavalos se afastaram, Alaudi fechou os olhos e apoiou a nuca no banco. Fisicamente ele estava ali, mas seu coração havia ficado dentro daquela mansão, junto com a família que ele adoraria ter, mas que escapara de seus dedos assim como tudo o que ele já havia considerado importante em sua vida.
Continua...
