V
"Não há dor que não possa ser esquecida e lembranças ruins que não possam ser superadas."
Alaudi dobrou a carta novamente e a colocou dentro do envelope. Aquela última linha era piegas e clichê, e provavelmente nunca teria feito sentido em sua vida se ele não tivesse cruzado o caminho de Ivan Cavallone. Porém, contra tudo, principalmente seus bons princípios e amor próprio, o Guardião da Nuvem dos Vongola se pegou refletindo mais tempo do que gostaria sobre aquela frase. Ele manteve sua palavra. Ele não voltou a me procurar.
O louro pousou a carta sobre a mesa e encostou as costas na macia cadeira de couro, inclinando o pescoço e encarando o teto de seu escritório. O trabalho da vez era simples e relativamente irrelevante, e na teoria não havia motivos nenhum para que o Chefe do Departamento de Investigação o pegasse. A surpresa dos subordinados quando Alaudi anunciou que cuidaria do caso foi geral, mas havia uma única pessoa que não o olhou com assombro. Seu fiel braço direito, Giulio, apenas lançou um rápido olhar e isso foi tudo. Em nenhum momento o homem se aproximou ou fez algum comentário que pudesse constranger ou interrogar seu Chefe. Ele me conhece bem demais.
O motivo que o fizera aceitar aquele fácil trabalho foi proposital. O Guardião da Nuvem sentia que precisava ocupar seu tempo, e não havia melhor remédio do que o trabalho. Durante aquelas três últimas semanas o louro trabalhou arduamente, caso atrás de caso, investigação seguida de investigação. Nem mesmo os trabalhos de campo escapavam do Inspetor de Polícia. Interrogatórios eram os seus favoritos, principalmente porque ele tinha um jeitinho especial de conseguir a verdade. O resultado de toda essa dedicação foi que... não havia mais trabalho. Os últimos casos eram todos simples e os subordinados se revezavam para comparecerem à sede de Polícia. A investigação que tinha em mãos apontava para um crime passional que estava basicamente solucionado. A moça que escreveu a carta não havia sido morta. Foi suicídio. Alaudi encontrou dentro do travesseiro da vítima uma segunda carta em que ela relatava seu affair com o marido da irmã. Morrer por causa desse tipo de coisa é ridículo. Se ela nunca tivesse se envolvido com quem não deveria nada disso teria acontecido.
O Inspetor de Polícia endireitou-se na cadeira e abriu a gaveta que ficava do lado esquerdo. O relógio marcava pouco mais de oito da noite e ele era a única pessoa ainda presente no local. No dia seguinte o caso seria fechado e então ele procuraria outra coisa para ocupar seu tempo. Entretanto, assim que abriu a gaveta, um envelope azul-marinho chamou sua atenção, e o Guardião da Nuvem relutou por alguns segundos até finalmente pegar o pedaço de papel.
O convite estava no fundo da gaveta, embaixo de algumas folhas e relatórios. O lacre estava intacto, mostrando o imponente "V" dos Vongola. A visita de Giotto e G. tornou-se vívida na mente de Alaudi. Foi naquele mesmo dia que o inútil do Giotto me contou sobre o filho daquele homem. O convite para participar de mais um dos bailes sediados pelo Chefe dos Vongola foi declinado, mas o Guardião da Nuvem acabou esquecendo-se de se livrar da proposta material.
Uma série de lembranças passou diante de seus olhos enquanto o Guardião da Nuvem segurava o convite de Giotto. O primeiro encontro com Ivan havia sido em um baile, e aquele momento havia iniciado o contato entre eles. O moreno passou a visitá-lo após aquela noite, e sem perceber Alaudi acabou se deixando levar pela gentileza e personalidade cativante. A curiosidade e admiração transformaram-se em algo mais. Algo que ele não sabia nomear, mas que estava ali, latente e doloroso. Depois de ter rejeitado a proposta e os sentimentos do Chefe dos Cavallone, o Inspetor de Polícia retornou aos seus antigos dias. Ivan não o procurou como havia prometido. Um dos subordinados da Família trouxe o pagamento para o trabalho, e depois daquele dia não houve qualquer tentativa de contato por parte do moreno.
Francesco Cavallone, por outro lado, era uma história completamente diferente...
O futuro herdeiro de todo aquele império havia se afeiçoado a Alaudi sem que ele entendesse os motivos. O louro não se lembrava de ter feito nada que pudesse chamar atenção do pequenino, mas enquanto o pai mantinha a prometida distância, o filho sempre encontrava uma maneira de entrar em contado com o Guardião da Nuvem. O primeiro encontro aconteceu cerca de quatro dias após a visita à casa dos Cavallone. O Inspetor de Polícia estava saindo para almoçar quando avistou Francesco saindo de dentro do carro. O futuro herdeiro correu até Alaudi com uma expressão que demonstrava pura felicidade. Seus olhos cor de mel brilharam e suas bochechas estavam coradas, mas assim que se aproximou, o menino de cabelos castanhos fez uma polida reverência e cumprimentou o louro como se fosse um homem de negócios. Porém, toda aquela fachada desmanchou-se quando o Guardião a Nuvem o convidou para juntar-se a ele no almoço.
Francesco o visitou mais três vezes na semana seguinte. Alaudi o levou em restaurantes diferentes, e por cerca de uma hora ele tinha a companhia do filho do homem que ele havia rejeitado. Através desses curtos encontros, o Inspetor de Polícia descobriu que Ivan estava fora do país, e aquele era provavelmente o motivo que levava o garoto a procurá-lo. Ele deve se sentir sozinho naquela casa enorme. Sem vizinhos da mesma idade, sem irmãos, sem qualquer amigo além dos subordinados.
Entretanto, as visitas do futuro herdeiro dos Cavallone cessaram no final da segunda semana. Em vez de receber sua pequena companhia, o Guardião da Nuvem deparou-se com uma mensagem enviada e deixada nas mãos de Giulio. Na carta escrita a próprio punho, o moreno desculpava-se pelo incômodo causado por Francesco, e avisava que aquilo não voltaria a acontecer. E então os longos dias de Alaudi retornaram e uma nova semana passou sem que ele notasse.
Naquela noite, o Guardião da Nuvem seguiu direto para sua casa. Como deixava o escritório muito tarde, o louro geralmente passava em algum restaurante pelo caminho para comprar o jantar e assim se poupar do trabalho de cozinhar. A casa estava fria e a lareira precisou ser acessa, mas Alaudi seguiu direto para o quarto. Seu guarda-roupa foi aberto e ele retirou um terno negro que ficava guardado ao fundo, coberto por uma proteção de plástico. Os olhos azuis encararam a peça e seus dedos escolheram uma gravata que combinasse com a roupa. O terno voltou ao fundo do guarda-roupa, mas dessa vez sem a proteção. O Inspetor de Polícia retirou o sobretudo que usava e o deixou sobre a cama, seguindo na direção do banheiro. Repousando, o sobretudo omitia em um dos bolsos o envelope também azul-marinho. Mas dessa vez o lacre havia sido quebrado.
x
Foi com muito sacrifício que Alaudi deixou sua casa naquele sábado. A noite estava fria e havia uma incômoda brisa. A temperatura dentro de seu automóvel era incrivelmente agradável, e ele certamente não se importaria de dirigir pelos próximos 15 minutos se isso significasse ficar longe das baixas temperaturas.
O carro cruzou a primeira rua, e o Guardião da Nuvem acomodou-se melhor no banco, lançando olhares furtivos para sua companhia ao lado, no banco do passageiro. O convite azul-marinho olhava-o de canto, duvidoso e parecia observar cada movimento.
A decisão de aceitar o convite de Giotto para outro baile insuportável não havia sido acidental. O Inspetor de Polícia pensou bastante a respeito daquele assunto, e depois de muito ponderar, Alaudi decidiu que precisava tomar aquela atitude. O único problema foi que nem mesmo ele entendia o motivo que o fazia dirigir ao centro da cidade para participar de uma festa que estaria abarrotada de pessoas. Não, eu sei o motivo. Eu falarei com ele de maneira apropriada dessa vez.
O local onde seria realizado o baile dos Vongola ficava no coração de Roma. Giotto utilizava a mesma mansão, e aparentemente aquela festa serviria para introduzir o tão esperado Guardião da Chuva. O homem veio do Japão e havia aceitado trabalhar para os Vongola. O Chefe da Família ficou tão contente por ter conseguido convencê-lo que precisou transformar isso em um evento oficial. O pobre homem não sabe onde está se metendo, e o idiota do Giotto só queria uma desculpa para dar uma festa. Alaudi declinava todos os convites que recebia, então sabia que precisava se preparar mentalmente para o que ouviria.
O carro foi estacionado o mais afastado possível da entrada. As calçadas estavam vazias, mas havia uma fila de belos e caros carros por todo o quarteirão. O Inspetor de Polícia colocou as mãos dentro dos bolsos do sobretudo e começou a caminhar em seu próprio ritmo. A cada passo ele sentia o coração bater mais rápido, imaginando se encontraria o Chefe dos Cavallone. Um mar de lembranças pareceu inundá-lo durante todo o caminho. A cena do último baile passou diversas vezes diante de seus olhos, e foi muito difícil encarar a grande escadaria sem se lembrar dos passos que ele e Ivan deram naquela noite. Ele fez questão de me acompanhar até o último segundo. Se naquela noite eu tivesse permanecido um pouco mais, o que poderia ter acontecido? Aquele homem já me amava naquela época? A falta de respostas e o barulho que vinha do final da escadaria aborreceram o louro. Subir e encarar os grupos de pessoas na entrada da mansão era terrível, mas ele não desistiria. Eu me manterei invisível para todos. Todo mundo menos ele.
Ficar invisível nunca foi trabalho para Alaudi. Seus passos não eram ouvidos, abafados pelas risadas e vozes altas. Sua roupa não era cara, então ele não chamaria atenção por causa de suas vestes. A única coisa que conseguia despertar algum tipo de interesse nas pessoas era seu belo rosto, mas assim que o Guardião da Nuvem lançava um de seus olhares, aqueles que poderiam estar interessados em sua figura mudavam de ideia no mesmo instante. Naquela noite em especial ele fingia que não via e ouvia ninguém. Seus pés pisavam no piso quadriculado, seu corpo movia-se com destreza entre as pessoas, mas seus olhos estavam atentos, fitando e procurando em cada canto a única razão que o fazia estar ali.
O Inspetor de Polícia levou um longo tempo até caminhar de ponta a ponta da propriedade. O salão estava incrivelmente cheio, e nem a música soava agradável aos seus ouvidos por causa da quantidade de pessoas. Por duas vezes ele precisou esconder-se atrás de pilares ao avistar os Guardiões dos Vongola. O tal homem de nome Ugetsu acabou encontrando o louro, perguntando em um italiano ruim se ele "Havia visto Gsan". Alaudi demorou algum tempo para entender que "Gsan" era ninguém menos que G., a sombra de Giotto. O Guardião da Nuvem apenas apontou na direção que havia acabado de vir, e o homem agradeceu em japonês e com uma polida reverência. O louro franziu a testa e recomeçou a andar. Ele sentiu uma momentânea simpatia pelo Guardião da Tempestade, pois ninguém merecia ter um nome tão feito quanto "Gsan".
Alaudi retornou à entrada, passando a mão na nuca e respirando fundo. Ele havia cruzado toda a mansão e não havia sinal de Ivan em lugar algum. A ideia de caminhar mais uma vez soava impossível. A multidão parecia aumentar a cada segundo, e enquanto encarava os grupos espalhados, o Guardião da Nuvem entendeu que era hora de ir embora. Eu nem sei por que vim aqui. Eu jamais deveria ter saído de casa. O Inspetor de Polícia deu meia volta, abaixando o olhar e caminhando na direção da escadaria. Os degraus eram transpostos com passos lentos, mas a escadaria parecia não ter fim. Na metade do caminho o louro parou, encarando seus sapatos negros.
"Achei que não fosse parar. Eu o estava chamando há tempos."
O Guardião da Nuvem virou-se, juntando as sobrancelhas ao encarar Giotto. O Chefe dos Vongola estava a alguns passos acima e seu rosto corado por causa da corrida. Alaudi não havia escutado nada.
"O que você quer?" A cordialidade do louro estava por um fio.
"Eu apenas vim agradecer por ter comparecido. Eu sabia que você viria, Alaudi!" O homem de cabelos castanhos sorriu de orelha a orelha.
"Eu não estou aqui. Você está delirando por causa da bebida." O Inspetor de Polícia colocou as mãos nos bolsos e voltou a descer.
"Você está aqui. Mas senti falta de algumas pessoas. Hm... a Senhorita Valentina, Juan Carlos, Miguel Saldana, Ivan Cavallone, Jean-Pierre..."
Alaudi não queria ter parado, mas assim que seus ouvidos captaram aquela informação suas pernas simplesmente não se moveram.
Giotto desceu mais alguns degraus.
"Obrigado por ter vindo, Alaudi. Em outra ocasião eu quero apresentá-lo oficialmente ao Ugetsu. Ele é incrível e está se dando bem com todo mundo."
"Não tenho interesse em conhecer seus empregados, Giotto."
O Guardião da Nuvem virou-se. Seus olhos azuis desviaram-se do Chefe dos Vongola, este parado a cerca de seis degraus acima, para encarar o topo da escada onde G. estava prostrado como uma estátua. O ruivo tinha um cigarro nos lábios e mesmo estando distante, o louro sabia que o homem tinha um olhar de puro desdém. Entretanto, a pose do Guardião da Tempestade durou muito pouco. Um braço surgiu simplesmente de lugar nenhum, abraçando G. e o puxando para o lado. Ugetsu riu tão alto que sua voz chegou até onde o Inspetor de Polícia estava.
"Eles se tornaram amigos rapidamente." O Chefe dos Vongola seguiu o olhar de seu Guardião da Nuvem. G. empurrou o moreno e ameaçou matá-lo ali mesmo se ele não parasse com as gracinhas. A resposta de Ugetsu foi outra risada e os dois continuaram a brigar como se não estivessem no meio de uma festa.
"Sua definição para amizade é perturbante, mas não tem relação alguma comigo. Eu já disse, não quero me envolver com sua Família." Alaudi lançou um olhar frio na direção do homem de cabelos castanhos.
"Você também é meu amigo, Alaudi, mesmo que não aceite isso. Eu considero todos vocês parte de minha família e não Família. Eu sei que posso confiar em você."
"Não deveria." O louro abaixou os olhos e virou o corpo.
"Ele estava muito agradecido pelo que você fez. Ivan não poderia ter pedido para outra pessoa." A voz do Chefe dos Vongola impediu que o Inspetor de Polícia voltasse a descer a escadaria. "Ele realmente te admira."
"Não mais." O Guardião da Nuvem encarou o caminho que tinha pela frente antes de respirar fundo. Uma pergunta. Uma simples pergunta e então ele poderia ir embora sem nenhum tipo de remorso. Ele havia ido até ali, certo? Sua parte estava feita. Porém, abrir a boca e perguntar se o Chefe dos Cavallone realmente não estava presente era algo além das possibilidades de Alaudi.
"Ivan não está na cidade. Ele viajou há quatro dias para a França e não deve retornar até a próxima semana." Giotto respondeu. Giotto sempre respondia. Giotto sempre sabia.
O louro apertou as sobrancelhas por um breve momento. Por um segundo algo passou por sua mente e foi responsável por reanimar suas pernas. O Chefe dos Vongola ficou para trás, assim como seus Guardiões idiotas e sua festa ridícula. O restante do caminho foi feito com passos rápidos e pela primeira vez Alaudi se arrependeu de ter estacionado tão longe. Seu carro pareceu abafado quando ele entrou, e foi com extrema facilidade que seus dedos deram a partida, fazendo com que as rodas do veículo se movessem pela rua deserta.
O Guardião da Nuvem sabia que a distância não era curta, e que ele passaria pelo menos uma hora dirigindo até atingir seu destino, mas nada disso parecia desestimulá-lo. Não é problema meu. Não é problema meu. Não é problema meu. Não é problema meu...
O Inspetor de Polícia não demorou mais de dez minutos para sair do centro, pegando a estrada que o levaria para a parte afastada da cidade. Porque longe dali havia uma grande mansão onde morava um garotinho que provavelmente estaria como ele naquela noite: solitário e saudoso. Ambos querendo estar ao lado da mesma pessoa.
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Francesco Cavallone não estava tão solitário e nem tão saudoso. Alaudi encontrou o pequeno garoto na sala de estar, deitado no fofo tapete enquanto lia um largo livro. O menino de cabelos castanhos olhou sua visita com surpresa, e um largo e genuíno sorriso apareceu em seus lábios, fazendo-o levantar-se e correr até as pernas do Guardião da Nuvem, abraçando-as com possessividade.
"Alaudi! Alaudi!"
O louro precisou dar um passo para o lado para manter seu equilíbrio, afagando os cabelos macios da criança que o recebia com tanta felicidade. A curta viagem até a propriedade dos Cavallone foi mais rápida do que ele esperava, e em meia hora seu carro parou na entrada do enorme portão. Havia dezenas de subordinados no local, mas nenhum deles disse uma palavra quando o viram no assento do motorista. O portão foi aberto e ele seguiu pelo jardim, estacionando próximo ao chafariz com os dois cavalos. Ali outros subordinados o receberam e o tratamento foi o mesmo. Sem perguntas, sem negações, sem avisos. Ele deixou minha passagem livre pela propriedade, como se soubesse que eu apareceria algum dia. Bem, ele apareceu.
O Inspetor de Polícia sentou-se no sofá, sendo seguido por Francesco. O garoto fez uma infinidade de perguntas, mas assim que os olhos azuis do Guardião da Nuvem fitaram sua pequenina companhia ele entendeu que as respostas teriam de ser adiadas. O futuro herdeiro dos Cavallone piscava de sono e parecia fazer um esforço enorme para não bocejar.
"Se você permitir eu passarei a noite nessa casa e te farei companhia durante o dia de amanhã. É domingo, então não precisarei trabalhar." Alaudi disse aquelas palavras de maneira séria. Francesco poderia ser apenas uma criança, mas era também o responsável pela propriedade na ausência de seu pai.
"M-Mesmo?" Os olhos cor de mel se arregalaram e o pequeno garoto praticamente pulou do sofá, parando na frente do louro. "Você promete? Promete que estará aqui quando eu acordar?"
Ele se sente sozinho. Ele não quer ficar sozinho. A similaridade entre o Guardião da Nuvem e aquela criança era tão visível que se tornava patético.
"Prometo. Eu estarei aqui quando você acordar, Francesco."
"Francis. Você pode me chamar de Francis." O herdeiro dos Cavallone bateu palmas, tamanha sua excitação. "Oh! Amanhã será tão divertido Alaudi, eu tenho tantos brinquedos e tantas coisas interessantes. E pedirei que o cozinheiro prepare cordeiro para nós, e então poderemos andar a cavalo e eu mostrarei minha biblioteca. Você sabia que eu tenho uma biblioteca? E poderemos co-"
O pensamento de Francesco foi interrompido por um longo bocejo. Os olhos cor de mel ficaram cheios d' água e já não era possível esconder o sono. O Inspetor de Polícia ficou de pé e ofereceu a mão, avisando que caminharia com ele até o quarto. Havia alguns seguranças no hall de entrada, mas novamente nada foi dito. O herdeiro dos Cavallone subiu as escadas ao lado do Guardião da Nuvem, e assim que chegou ao segundo andar ele o guiou até seu quarto, que ficava localizado no fim do corredor.
O quarto de Francesco era quase do tamanho da casa de Alaudi. A cama era larga e comportaria cerca de seis garotos da mesma idade e tamanho. O garoto de cabelos castanhos não mentiu quando se referiu à sua biblioteca. Ela ficava do outro lado do quarto e as várias estantes ocupavam metade do cômodo. As cortinas estavam fechadas e a iluminação do quarto era feita por dois abajures que ficavam de cada lado da cama. Francesco entrou debaixo das cobertas e afundou-se no meio do colchão, deixando apenas a cabeça para fora do cobertor.
"V-Você poderia ficar até que eu dormir?"
"Eu ficarei o tempo que você quiser." O louro sentou-se na beirada da cama.
"Mal posso esperar para chegar amanhã." O herdeiro dos Cavallone sorriu largamente antes de fechar os olhos. A expressão em seu belo rosto foi suavizando-se até que ele entrasse no mundo dos sonhos.
Alaudi permaneceu por mais alguns minutos no mesmo lugar, apenas se certificando de que a criança havia realmente dormido. Em seguida, ele levantou-se e deixou o quarto com passos calmos e vagarosos, ganhando o corredor e erguendo os olhos ao ver um dos subordinados da Família esperando-o do lado de fora.
"Obrigado." O rapaz não parecia ter mais do que 17 anos. Seus cabelos eram louros e compridos, presos em uma trança. Os olhos verdes pareciam envergonhados e não encontraram o olhar sério e penetrante do Guardião da Nuvem.
"Por que você está me agradecendo?" O Inspetor de Polícia não compreendia.
"Porque nenhum de nós conseguiu colocar o jovem Chefe na cama. Desde que o Chefe deixou a casa, Francesco está impossível. Ele come e dorme a hora que quer e para ser sincero, nenhum de nós ousa contrariá-lo. Mário consegue convencê-lo, mas ele foi viajar com o Chefe então não sabíamos mais o que fazer. Muito obrigado."
O louro meneou a cabeça mostrando que aceitava o agradecimento. Seus olhos correram pelo corredor, e então pela primeira vez desde que entrou naquela casa a pergunta mais elementar de todas cruzou sua mente, deixando-o levemente aborrecido. Eu deveria ter perguntado isso ao jovem Chefe antes que ele dormisse.
"Existe algum lugar em que eu possa dormir esta noite? Eu prometi que passaria o dia com o pequeno."
"S-Sim, claro, por aqui."
O subordinado parecia bem mais aliviado enquanto caminhava na direção oposta do corredor. Entre o quarto do herdeiro dos Cavallone e o quarto em que Alaudi dormiria havia portas de ambos os lados. Entretanto, a escolhida se diferenciava totalmente das outras. Ela era larga e composta por dois lados. A maçaneta dourada girou e o homem de trança entrou primeiro, iluminando o cômodo. O Guardião da Nuvem engoliu seco, incapaz de dar um passo à frente.
"Há algum tempo o Chefe deixou ordens explícitas para que você tivesse livre acesso a casa." O subordinado parecia ter o mesmo dom de Giotto para ler mentes. "Este é o quarto do Chefe, ele não estará de volta em alguns dias, então fique à vontade para usá-lo."
"Ele... seu Chefe... ele disse que eu poderia utilizar o quarto?" Alaudi sentiu o homem passar por ele, retornando ao corredor. Suas pernas ainda não se moviam.
"Não, mas eu estou realmente agradecido pelo que fez ao jovem Chefe. Tenha uma boa noite, senhor."
Os passos do subordinado não ecoaram pelo corredor por causa do tapete que forrava todo o caminho, mas o louro soube após alguns segundos que estava sozinho. Os olhos azuis fitaram o quarto e seus pés finalmente adentraram ao cômodo. A porta foi fechada e então ele estava a sós na parte mais importante da casa.
O quarto de Ivan Cavallone era duas vezes maior que o do filho, apesar de possuir menos mobília. Não havia biblioteca particular, mas a cama era maior e parecia impossível que alguém dormisse sozinho em todo aquele espaço. A cama ficava do lado direito e mais próximo da janela do que da porta. Havia uma segunda porta em uma das extremidades do local e Alaudi deduziu que aquele era o banheiro particular do dono da casa. O lado esquerdo comportava um pequeno escritório, com uma simples mesa e cadeira. No meio do quarto havia um jogo de sofás, e não era preciso olhar muito para notar que o moreno não se preocupava em expor sua condição financeira através dos objetos. Isso não muda o fato de existir uma estátua de mármore no jardim. Mármore!
O Guardião da Nuvem caminhou com passos vagarosos na direção da cama. O chão era de madeira clara, mas em certas partes, como embaixo da cama, sofás e escritório, havia um tapete grosso e cor creme que abafava os passos dados no cômodo. O louro demorou alguns segundos até ter coragem de sentar-se. Uma parte dele sentia certo incômodo e receio por estar em um local tão íntimo quando o dono da casa não estava presente. Eu jamais conheceria este local se Ivan estivesse em casa. Esta será provavelmente minha única chance.
A colcha que forrava a larga cama era vermelha e com detalhes dourados. O desenho era de um cavalo, e praticamente toda a roupa de cama combinava com a colcha. A cama era de madeira escura, e havia quatro colunas nas extremidades, que chegavam a quase tocar o teto. Alaudi retirou o sobretudo e o deixou sobre aquele espaço, fazendo o mesmo com seu terno. A noite estava fresca e o quarto aquecido por causa das janelas fechadas, então o Guardião da Nuvem não viu necessidade de invadir a cama. Seu corpo ficou de pé e ele caminhou na direção dos sofás, deitando-se no mais largo.
O cômodo estava levemente iluminado por causa da claridade que vinha do jardim. As cortinas estavam presas, deixando que a janela fechada recebesse a luz. O silêncio e calmaria que aquele lugar transmitia não eram suficientes para relaxar o louro. Alaudi se sentia como um estranho naquele lugar, e enquanto encarava o quarto, ele pensava no que faria no dia seguinte. O que farei amanhã é o menor dos meus problemas. Ivan ficará sabendo que estive aqui e não tenho nenhuma boa resposta para isso. O Guardião da Nuvem virou-se, afundando o rosto no estofado do sofá. Ele se sentia extremamente patético por estar ali depois de tudo o que havia acontecido. Eu disse não. Fui eu quem disse que não aceitava o que aquele homem tinha para me oferecer. Então, por que estou aqui?
Durante pouco mais de uma hora o louro virou de um lado para o outro do sofá, até finalmente cair no sono sem ter encontrado nenhuma resposta para seu dilema.
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Alaudi acordou cedo na manhã de domingo. O Sol adentrou a janela e atingiu o quarto com uma força incrível, fazendo com que o Guardião da Nuvem se arrependesse de não ter soltado as cortinas antes de deitar. A noite no sofá havia sido agradável, e era difícil acreditar que ele dormira tão bem. Até mesmo o sofá é caro. Se eu dormisse no sofá de minha casa acordaria com dores por todo o corpo. O segundo local visitado foi o banheiro do quarto, e para surpresa do louro Ivan conseguia ser organizado até mesmo naquela área da casa. O banheiro era grande, dividido entre o chuveiro e a banheira. Havia uma infinidade de produtos à mostra, mas tudo o que o Inspetor de Polícia escolheu foi o habitual chuveiro e o simples sabonete.
Seu banho não durou mais do que dez minutos. Ele sabia que não era muito educado abrir gavetas na casa de outras pessoas, mas assim que chegou a pia, ele abaixou-se e abriu o pequeno compartimento. Havia outra infinidade de produtos inúteis, mas o Inspetor de Polícia achou o que procurava: meia dúzia de escovas de dente lacradas e ele tinha certeza de que o Chefe dos Cavallone não sentiria falta de uma. Ao deixar o banheiro, Alaudi surpreendeu-se por encontrar uma troca de roupas limpas em cima da cama, exatamente ao lado de seu sobretudo e terno - estes haviam sido perfeitamente dobrados. O Guardião da Nuvem ponderou por alguns segundos, até aceitar aquela gentileza.
Como ele havia imaginado, aquelas roupas pertenciam a Ivan. A calça ficou levemente larga, mas a camisa serviu melhor. O cheiro da colônia do moreno o fez sentir-se aquecido e por um momento ele se pegou pensando se tudo aquilo era realmente errado. Como algo tão errado pode soar tão... certo?
Alaudi deixou o quarto e encontrou um subordinado da Família esperando-o do lado de fora. O homem não era o mesmo da noite anterior. Este era bem mais alto e corpulento. O cabelo cortado muito curto e havia uma expressão séria e nem um pouco amigável em seu rosto.
"Bom dia." As palavras do Guardião da Nuvem saíram baixas e foram proferidas por pura educação. "Fran- o jovem Chefe já está acordado?"
"Francis?" A voz do homem soou irônica. "Quando o Chefe está fora, o jovem Chefe só acorda depois do meio-dia.
O louro franziu a testa e encarou o corredor. Aquilo não estava certo.
Alaudi tomou a liberdade de cortar aquela conversa e seguiu na direção do outro lado da casa. O caminho era em linha reta, e pareceu mais curto do que a noite anterior. Ao parar na frente da porta do quarto do futuro herdeiro dos Cavallone, o Guardião da Nuvem bateu três vezes antes de entrar, apenas para deixar claro que ele havia pedido licença. O quarto estava escuro, e aparentemente o pequeno garoto de cabelos castanhos era esperto o suficiente para saber que se não abaixasse as cortinas, acabaria acordando com a luz do Sol cegando seus olhos.
Francesco dormia tranquilamente em sua cama. O garoto havia rolado para um dos lados e se perdido no meio dos travesseiros. Dois deles caíram ao chão, e um terceiro ameaçava ter o mesmo fim de seus antecessores. O louro sentou-se na beirada da cama e tocou levemente o ombro do herdeiro dos Cavallone. Foi preciso mais alguns incentivos para que o garoto abrisse os olhos, fitando Alaudi com curiosidade.
"Hm... O que foi?" Francesco sentou-se com preguiça, coçando os olhos. Seus cabelos estavam completamente bagunçados.
"É hora de acordar. Você não pode passar o dia na cama." A voz do Guardião da Nuvem saiu séria, e ele levantou-se, cruzando o quarto e parando de frente à janela. Suas mãos puxaram as cortinas e o Sol adentrou ao quarto.
"M-Mas ainda está muito cedo. Ninguém acorda tão cedo!" O garoto escondeu o rosto embaixo do travesseiro, completamente relutante.
O louro lançou um olhar sério na direção da cama, sentindo o sangue ferver. Ele adorava crianças, mas odiava atitudes mimadas.
"A ideia foi sua, não foi?" Alaudi aproximou-se da cama e puxou as cobertas restantes de uma vez. "Você disse que aproveitaríamos o dia, mas se você ficar na cama durante a manhã não sobrará tempo." Os olhos azuis se abaixaram e o coração do Guardião da Nuvem tornou-se pesado. "E eu terei de ir embora ao anoitecer."
Aquelas palavras trouxeram Francesco à realidade. O pequenino herdeiro sentou-se na cama no mesmo instante, arregalando os olhos e afirmando que já estava acordado.
"Deseja que eu chame alguém para ajudar-lhe com o banho?" O louro não tinha ideia como tratar uma pessoa importante. De certo Francesco não fazia praticamente nada sozinho.
"Não, eu já sei tomar banho sozinho há muuuuuito tempo." O garoto desceu da cama e correu pelo quarto até seu guarda-roupa, pegando algumas peças de roupa de maneira aleatória. "Eu prometo não demorar no banho, então me espere, Alaudi. Nós tomaremos café juntos!"
"Eu descerei na frente e avisarei sobre o café." O Inspetor de Polícia caminhou até a porta, sendo seguido pelo garoto.
Assim como acontecera a poucos minutos, do lado de fora do quarto do garoto havia um subordinado da Família. O homem olhou com assombro a figura de seu jovem Chefe deixar o quarto e seguir com passos rápidos na direção do banheiro que ficava há duas portas. O Guardião da Nuvem comunicou sobre o café, recebendo apenas um menear de cabeça como resposta.
O louro desceu e decidiu procurar alguma coisa para ocupar seu tempo, mas aparentemente não havia nada que ele pudesse fazer além de... estar ali. A mesa para o café da manhã já estava posta quando ele chegou à sala de jantar, e vários empregados andavam para cima e para baixo durante a organização. O subordinado de cabelos louros e trança apareceu em determinado momento, saudando Alaudi com um sonoro bom-dia.
"Não acredito que conseguiu tirar o jovem Chefe da cama tão cedo em pleno domingo. Ele realmente deve gostar de você, senhor."
"Vocês o mimam demais. Um garoto daquela idade precisa entender que existem limites e deveres." O Guardião da Nuvem sentiu-se pomposo ao falar tal coisa. Ele nunca achou que daria conselhos sobre como criar uma criança.
"Nem todos tem coragem de agir dessa maneira com o jovem Chefe. Quando o Chefe não está na casa as coisas ficam muito difíceis, mas logo Francesco estará viajando com o pai então tudo deve se tornar mais fácil.
O Inspetor de Polícia voltou a encarar a arrumação da sala, tentando ignorar aquele último comentário. Era difícil para ele imaginar um garoto tão doce quanto Francesco envolvido em assuntos sobre Máfia e problemas dessa natureza. Se ele tivesse uma mãe, ela jamais permitiria tal coisa. E os subordinados não ousam contrariar as decisões de Ivan. Um pensamento triste fez com que Alaudi perdesse momentaneamente a fome, mas ele sabia melhor do que ninguém que aquele gesto seria uma afronta ao pequeno, que fora acordado de maneira tão brusca naquela manhã.
O assunto central dos pensamentos do Inspetor de Polícia apareceu quando a mesa já estava totalmente posta. Francesco parecia uma versão mais nova de seu pai, com exceção dos cabelos castanhos. O pequenino usava uma bermuda marrom, presa a dois suspensórios que cruzavam sua camisa branca. Os cabelos foram lavados e estavam perfeitamente penteados de lado. Os olhos cor de mel - vivos e cheios de alegrias escondidas - pareciam duas pequenas pedras de ouro, emoldurando um rosto infantil, mas que já mostrava sinais de que muito em breve aquele garoto se transformaria em um belo homem.
"Bom dia, Giuseppe." O futuro herdeiro dos Cavallone acenou sorridente para o subordinado de longos cabelos louros antes de sentar-se em seu lugar costumeiro à mesa.
"Bom dia, jovem Chefe." O homem de nome Giuseppe fez uma pequena reverência. "Gostaria de mais alguma coisa ou posso me retirar?"
"Deseja alguma coisa, Alaudi?" Francesco encarou o louro que havia se sentado na cadeira à sua frente.
O Guardião da Nuvem meneou a cabeça e então o subordinado foi dispensado. Os empregados que geralmente assistiam as refeições seguiram pelo mesmo caminho, e logo o Inspetor de Polícia era o único presente na grande sala de jantar para fazer companhia ao atual dono da casa.
Francesco serviu-se de uma xícara de leite e um pequeno pedaço de pão. O garoto lançava olhares furtivos na direção de Alaudi, como se esperasse algum comentário negativo sobre a comida ou coisa parecida. O louro, por sua vez, não tinha nenhum desses pensamentos em mente. No momento ele estava ocupado demais imaginando se conseguiria provar todas as delícias que estavam servidas diante de seus olhos.
O garoto de cabelos castanhos havia herdado de seu pai o gosto pelas refeições silenciosas. Durante o tempo que permaneceu sentado à mesa, Francesco não abriu a boca para nada além de comer. Após sua salada de frutas, o menino pousou a colher e limpou o canto da boca com o guardanapo. Alaudi fez o mesmo no minuto seguinte, sentindo-se incrivelmente satisfeito.
"S-Sobre o que você disse ontem..." O herdeiro dos Cavallone desviou os olhos. Aquele estranho pudor incomodou o jovem Inspetor de Polícia. "Você realmente quis dizer aquilo? Q-Quero dizer, você pode ficar aqui o dia inteiro?"
"Eu posso." O Guardião da Nuvem achou incrivelmente adorável aquela situação. Ele havia se esquecido que Francesco tinha apenas cinco anos.
A resposta pareceu alegrar ainda mais o espírito do garoto. A primeira sugestão para começar aquele dia foi um passeio pelo jardim para ajudar na digestão. Alaudi retirou-se da sala de jantar com o dono de casa, ficando levemente curioso com relação à pontualidade e presteza dos empregados, que correram para tirar a mesa assim que eles saíram do cômodo.
O Sol já estava forte no céu quando os dois abriram a porta principal. Havia uma porção de subordinados espalhados pelo jardim, e todos saudaram o garoto de cabelos castanhos com um largo sorriso. Alguns brincaram com o menino, indagando o que ele fazia tão cedo fora da casa. Francesco apenas riu e disse que aquele dia era uma exceção. O homem de nome Giuseppe apareceu atrás do Guardião da Nuvem sem que ele tivesse notado a proximidade.
"Alguma notícia de meu pai, Giuseppe?" O garoto colocou as mãos sobre os olhos, bloqueando um pouco os raios de Sol.
"Seu pai deve retornar somente no próximo fim de semana, jovem Chefe." A resposta fez Francesco ficar levemente sério. "Mas não se preocupe, ele está com Mário então nada de ruim acontecerá."
"Eu não estou preocupado." O garoto começou a descer os degraus. "Alaudi, vamos caminhar pelo jardim. Eu quero lhe mostrar a árvore que meu pai plantou quando eu nasci."
Alaudi desceu as escadas e assim que estavam no mesmo nível, Francesco segurou-o pela mão, mostrando que seria o responsável por conduzi-lo até o local. Durante a caminhada o louro indagou sobre a pessoa de nome Mário, já que escutara aquele nome com certa frequência desde que chegara.
"Ele é o braço direito de meu pai e irmão de Giuseppe." O herdeiro dos Cavallone seguiu por uma trilha feita de pedras batidas. A visão do jardim era de tirar o fôlego. "Você já deve ter visto Mário, ele está sempre com meu pai. Um homem de cabelos ruivos."
A expressão do Guardião da Nuvem era branca, mas ele não gostou nem um pouco de ouvir aquela parte. De todos os subordinados de Ivan, o homem de cabelos ruivos era o que ele menos gostava e ainda por cima o cargo que ele assumia era de extrema importância. Aparentemente o sentimento era recíproco. Giuseppe é gentil e educado, enquanto o irmão é intragável. Isso explica as liberdades que aquele homem possuía.
Não foi preciso caminhar muito para chegar até o jardim que Francesco mencionara. A cerca viva feita de flores era longa o bastante para se perder de vista, mas não era alta. O garoto de cabelos castanhos correu, mostrando de maneira animada os botões de rosas amarelas que desabrochavam. O Guardião da Nuvem aproximou-se devagar, imaginando que o motivo da cerca viva ser baixa era porque o próprio herdeiro dos Cavallone era responsável pelos cuidados.
A propriedade dos Cavallone era enorme, e Francesco parecia querer mostrar cada pedacinho para sua visita. A animação do menino distraiu o louro por horas, e ele só percebeu que a manhã estava no fim quando Giuseppe aproximou-se para avisar que o almoço estava quase servido. O retorno à mansão foi feito com mais pressa, e Alaudi suspirou ao sentar-se novamente na mesa de jantar. Ele não tinha mais idade para longos passeios ao Sol.
O garoto de cabelos castanhos soltou um baixo muxoxo ao notar que não comeria cordeiro naquele começo de tarde. O Guardião da Nuvem sentiu-se obrigado a ser eloquente sobre os benefícios de uma boa salada, mas o problema era que nem ele acreditava naquelas palavras.
O Sol tornou-se mais quente, desanimando o passeio que Francesco tinha em mente para o período da tarde. O louro notou que permanecer dentro da mansão incomodava o herdeiro dos Cavallone. A maneira de olhar, e a atenção em qualquer barulho que vinha de fora demonstravam que Francesco estava alerta. Ele sente falta do pai. O garoto provavelmente não aguenta mais ficar sozinho.
O Inspetor de Polícia parou no meio do hall, chamando a atenção do garoto. Francesco havia sugerido que lessem alguma coisa em sua biblioteca particular, mas ao perceber que sua companhia havia parado, ele achou que deveria fazer o mesmo.
"Eu notei que a casa é cheia de pinturas." Alaudi referia-se aos quadros que embelezavam a longa escadaria que levava ao segundo andar. Seus olhos evitavam encarar aquela parte da casa, pois praticamente todos os quadros tinham a figura do dono da casa. "Tenho certeza de que você deve ter algumas fotografias também. Por que não me mostra?"
A ideia trouxe brilho aos olhos do pequeno garoto. Francesco correu na direção das escadas, parando na metade do caminho e pedindo para que o Guardião da Nuvem se apressasse. O louro o seguiu, ficando levemente surpreso ao perceber que andavam na direção do quarto de Ivan.
"Meu pai guarda os álbuns, mas você não pode dizer para ele que entramos no quarto." O garoto parou em frente à porta e pediu silêncio com um dos dedos antes de abri-la.
Alaudi escondeu um meio sorriso e a vontade de abraçar aquela criança. Ela era muito parecida com o Chefe dos Cavallone.
Francesco caminhou até as janelas, arrastando as grossas cortinas e trazendo um pouco de vida para o cômodo. O Guardião da Nuvem permitiu-se dar uma verdadeira olhada no quarto. O local parecia ainda mais espaçoso, e com a luz do dia ele conseguia enxergar claramente aquela parte de Ivan.
O garoto de cabelos castanhos pediu ajuda em determinado momento, pois não alcançava a caixa que estava em cima da única estante do quarto. O louro caminhou até ele, pegando a caixa e colocando-a no chão no mesmo instante. O objeto era extremamente pesado.
"Papà guarda as melhores fotografias."
Francesco ajoelhou-se na frente da caixa e a abriu com cuidado. A caixa não estava empoeirada, o que denunciava o quão importante aquelas fotografias significavam para o moreno, a ponto de ele cuidar assiduamente da limpeza.
Alaudi sentou-se ao lado do garoto, esquecendo-se completamente de onde estava. A primeira fotografia que havia sido depositada em sua mão roubou toda a atenção do Guardião da Nuvem. A imagem era em preto e branco, mas os detalhes eram fáceis de notar. Havia um garoto idêntico a Francesco, mas seus cabelos eram escuros e suas roupas diferentes. E não foi preciso ouvir dos lábios do menino quem era a pessoa na fotografia.
O menino parecia ter percebido o encanto que sua companhia sentiu ao ver a fotografia, e aquele sentimento o animou novamente. Por cerca de uma hora o garoto deu o seu melhor, mostrando suas fotos favoritas. Ivan estava incluído em praticamente todas, e enquanto tocava as fotografias com a ponta de seus dedos, o louro sentiu-se um pouco mais perto do homem que ele mesmo havia afastado. A voz do herdeiro dos Cavallone desapareceu por alguns minutos, chamando a atenção do Inspetor de Polícia. Alaudi virou o rosto e não ficou surpreso por vê-lo dormindo sobre o fofo tapete que forrava a região da estante. O Guardião da Nuvem pousou a fotografia em cima da caixa e segurou Francesco em seus braços, levando-o até a larga cama do pai. O garoto não acordou com aquela agitação, e o louro retornou às fotografias após cobri-lo com o cobertor.
Durante horas aqueles pequenos fragmentos de memória foram a companhia de Alaudi. Seus olhos azuis viram todas as fotos que estavam dentro da caixa, e a cada nova imagem seu coração se apertava mais e mais. O homem naqueles pedaços de papéis estava sempre sorridente e bem-humorado, exatamente como ele se lembrava. Havia algo peculiar sobre Ivan, e mesmo nunca entendendo como um homem que fazia parte de um mundo tão perigoso e confuso poderia sorrir daquela maneira tão despreocupada e gentil, ele se sentia completamente atraído. Os olhos não possuíam cor nas fotografias, mas o louro constantemente os via da maneira como eram: belos e penetrantes. Aquele olhar sempre o intimidou, como se ele fosse capaz de ver além, dentro de sua alma. Alaudi sempre se sentiu como uma criança através dos olhos do Chefe dos Cavallone, mas ao ver aquelas fotografias, tudo o que ele sentiu foi o peso do arrependimento forçando seus ombros e deixando-o cansado.
A tarde ensolarada desapareceu pouco a pouco no céu. Francesco acordou de repente, sentando-se na cama e gritando por Alaudi, como se estivesse atrasado para algum compromisso. O Guardião da Nuvem estava sentado em uma das poltronas do quarto, e assim que ouviu seu nome ser chamado, o livro em sua mão foi fechado e ele ficou de pé.
"Dio mio! Achei que você tivesse ido embora!" O garoto de cabelos castanhos desceu da cama às pressas. Ele ainda era pequeno demais para tocar o chão sem ter de fazer do movimento uma grande missão. "Por que me deixou dormir? Nós perdemos o dia inteiro. O que farei? V-Você pode ficar um pouco mais? Mais cinco minutos? E-Eu prometo que não vou dormir e ainda temos tanta coisa para fazermos!"
O desespero e simplicidade que aquelas palavras transmitiram acabaram roubando um meio sorriso dos lábios do louro. O Inspetor de Polícia abaixou-se levemente, ajoelhando-se e bagunçando o cabelo já bagunçado do garoto.
"Eu irei embora amanhã pela manhã, então não se preocupe. E eu me diverti bastante hoje, então vamos apenas tomar um banho quente, jantarmos e dormimos, está bem?" Aquela era a primeira vez que ele falava diretamente com uma criança. Sua voz saiu mais baixa e mais gentil do que ele gostaria.
"M-Mas ainda temos muito tempo. Podemos fazer muitas coisas..."
"Eu soube que quando seu pai não está em casa você não tem horários para dormir ou acordar, e isso é ruim, Francesco. Você precisa acostumar seu corpo para o dia que seu pai retornar, ou passará todo o tempo dormindo."
Os olhos cor de mel brilharam a menção de Ivan e de repente a ideia de banho, jantar e cama soava como o final de noite ideal para o herdeiro dos Cavallone. Alaudi sentia-se incrivelmente bem por ter conseguido a incrível proeza de convencer uma criança. O garoto de cabelos castanhos deixou o quarto e encontrou Giuseppe no meio do corredor, avisando alegremente que tomaria um banho e depois desceria para o jantar. O subordinado da Família bateu na porta aberta, chamando a atenção do Guardião da Nuvem que arrumava a cama bagunçada.
"Eu ouvi que passará a noite. Pedirei que lhe enviem uma nova troca de roupas."
"Obrigado."
Alaudi terminou o que fazia, sentindo os ombros pesados. A ideia de utilizar pela segunda vez o largo banheiro do quarto não pareceu tão difícil. Novamente o louro optou pelo chuveiro, imaginando se Ivan era o tipo de pessoa que passava horas cozinhando em uma banheira ou seus banhos eram rápidos como os dele. A nova troca de roupas estava fielmente sobre a cama, e Alaudi levou poucos segundos para vestir-se. A roupa tinha o fraco cheiro da colônia do Chefe dos Cavallone e isso o fez recordar-se das fotografias e o rio de memórias que ele havia atravessado naquela tarde. A larga cama e sua colcha vermelha pareciam convidativas, e antes de deixar o quarto, o Guardião da Nuvem lançou um último olhar naquela mesma direção. É minha última noite nessa casa e eu provavelmente jamais retornarei. Por que não?
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A animação do pequeno Francesco não pareceu ter diminuído com o banho. O garoto saudou Alaudi com um largo sorriso, sentando-se em seu lugar à mesa e dizendo alto e em bom tom que gostaria de comer mais saladas naquela noite. Dois subordinados aproximaram-se para servir o jovem Chefe, mas ambos pararam no meio do caminho, trocando olhares preocupados antes de retomarem o passo.
"Bom vê-lo com apetite, Francis." O homem de cabelos louros adentrou a sala de jantar.
"Por que não come conosco, Peppe? Há comida suficiente na mesa."
"Alguém precisa ficar responsável pela sua segurança, jovem Chefe." O homem riu e agradeceu o convite, fazendo uma polida reverência antes de se retirar.
"Você gosta bastante daquele homem." O Guardião da Nuvem comentou baixo ao notar a expressão desapontada que o garoto de cabelos castanhos exprimiu ao ter seu convite rejeitado.
"Giuseppe será meu braço direito quando eu assumir o lugar de meu pai." As palavras soaram grandes e adultas demais para os lábios daquela criança. "Eu quero que ele seja meu amigo, não meu empregado. Como Mário é amigo de meu pai."
Mário. Alaudi espetou um tomate e o encarou antes de levá-lo à boca. Falar de Ivan o fazia sentir-se melhor, mas Francesco obviamente não queria ser lembrado que seu pai ainda ficaria uma semana afastado de casa. O louro não pôde ignorar os pensamentos que cruzaram sua mente naquele curto jantar. Ele estava ali, na casa do homem que ele rejeitara, sem nenhuma razão real, passando horas ao lado do filho desse mesmo homem. Entretanto, o Inspetor de Polícia teria de retornar a sua casa no dia seguinte, e o que aconteceria com o futuro herdeiro dos Cavallone? A imagem do garoto passando todos aqueles dias solitários foi suficiente para espantar a fome que Alaudi sentia, e ele declinou o frango assado. O Guardião da Nuvem entendia melhor do que ninguém o que significava morar em uma casa grande e vazia.
A sobremesa trouxe um pouco da vivacidade a Francesco. A torta de morangos animou até mesmo o louro, que aceitou uma fatia. O garoto de cabelos castanhos encarava o largo relógio que ficava na parte superior da sala de jantar, lançando olhares significativos na direção de Alaudi.
"T-Tem certeza de que não podemos dar mais um passeio pelo jardim? Ainda está cedo."
O Guardião da Nuvem ergueu os olhos azuis e meneou a cabeça em negativo. A sugestão não voltou a ser feita.
Quando Francesco terminou seu pedaço de torta, o Inspetor de Polícia ficou em pé e aproximou-se de onde sua companhia estava sentada, oferecendo sua mão esquerda. O garoto aceitou, mas sua expressão não demonstrava felicidade. O louro deixou a sala de jantar e transcorreu o hall, subindo as escadas e parando no topo do segundo andar. Francesco entreabriu os lábios para desejar seu boa-noite, mas a voz ficou presa em sua garganta.
"Pegue sua roupa de dormir. Seu quarto é grande demais para um garoto do seu tamanho." Alaudi abaixou os olhos e esboçou um meio sorriso. "E a cama de seu pai é suficiente para nós dois."
O herdeiro dos Cavallone abriu um largo sorriso, correndo na direção de seu quarto e tropeçando no quinto passo. Porém, a queda não foi suficiente para detê-lo. Francesco entrou e saiu do cômodo em uma velocidade espantosa, arrastando seu pijama listrado. O Guardião da Nuvem seguiu ao lado de sua companhia até o quarto de Ivan, abrindo a porta e deixando que a criança entrasse primeiro. O garoto parecia ter mudado totalmente de humor. A hora de dormir de repente transformou-se na melhor parte do dia.
"T-Tem certeza que posso passar a noite aqui?" O herdeiro dos Cavallone parou ao lado da larga cama, hesitante. Ele tocava a colcha vermelha com a ponta de seus dedinhos.
"A casa é sua. Sou eu quem deveria fazer essa pergunta." O louro encarou o pijama em cima da cama e deduziu que aquilo era para ele. Giuseppe era extremamente responsável. "Eu vou utilizar o banheiro para me trocar. Acha que consegue se vestir sozinho?"
"C-Claro!" Havia certo orgulho naquela resposta. "Eu sou praticamente um homem crescido."
Alaudi tentou não rir do comentário e seguiu para o banheiro. O pijama era pelo menos duas vezes o seu número, e ao retornar ao quarto, o jovem garoto riu do tamanho da roupa, já deitado embaixo das cobertas.
"Você não deveria rir dos mais velhos." O Guardião da Nuvem fingiu aborrecimento, caminhando até a janela e abaixando as cortinas. O quarto tornou-se mais escuro.
"Você não é tão velho. Papà disse que vocês têm praticamente a mesma idade."
O louro aproximou-se da cama e deitou-se, sentindo a cabeça afundar no macio travesseiro. O colchão era firme e a cama realmente grande demais. Alaudi virou o rosto, encarando o pequeno Francesco deitado a poucos centímetros de onde ele estava, e sem perceber o Inspetor de Polícia esboçou um meio sorriso. O garoto retribuiu a gentileza, puxando a coberta e escondendo-se quase por completo. Porém, os olhos cor de mel não se fecharam.
"Eu sei que quando acordar amanhã você não estará aqui, então obrigado por ter me feito companhia. Eu me diverti bastante."
"Você é um bom garoto, Francesco." Alaudi esticou levemente uma das mãos, tocando os finos e castanhos fios de cabelo. "E eu tenho certeza que seu pai sente sua falta."
O herdeiro dos Cavallone piscou longamente, demonstrando que o sono já o visitava. Os olhos cor de mel fecharam-se por alguns segundos, mas foram abertos mesmo contra vontade.
"Você também sente falta dele, não é?" Francesco coçou os olhos.
A resposta do Guardião da Nuvem foi apenas o silêncio. Sua companhia dormiu antes que ele pudesse formular a resposta, e o louro ajeitou um pouco mais a coberta, garantindo que o garoto não fosse sentir frio naquela noite.
O Inspetor de Polícia virou-se e encarou o teto. Seus olhos começaram a se tornar pesados, mas uma parte de Alaudi não queria permitir que o sono ganhasse aquela luta. Eu terei de deixar essa casa quando amanhecer. A larga cama criava a sensação de que o mundo era grande demais para o Guardião da Nuvem, e aquela ideia não era de toda equivocada. Ele realmente se sentia pequeno dentro daquela situação. Eu quero ficar.
O cansaço seduziu o louro com sua doce e exótica voz, envolvendo-o em um sono pesado e sem sonhos. Entretanto, após algumas horas, os olhos azuis se entreabriram. A iluminação que vinha do jardim clareava um pouco o quarto, mas ele mesmo não conseguia ver absolutamente nada. Seus olhos se entreabriram devagar e foi preciso alguns segundos de reconhecimento para entender porque de repente tudo se tornou negro.
Não era porque ele não conseguia ver, mas sim porque algo bloqueava sua visão. Alaudi não poderia ter surpresa maior do que se ver nos braços de Ivan Cavallone. O moreno o tinha nos braços, e o rosto do Guardião da Nuvem estava escondido no peito daquele homem.
O Inspetor de Polícia virou o rosto para o outro lado, notando que Francesco não estava mais na cama. A realização de que eram os únicos no quarto levou uma coloração avermelhada ao rosto de Alaudi, mas ele não se importou. Suas mãos ergueram-se devagar e tocaram a cintura de Ivan, subindo até suas costas. Seu corpo aproximou-se mais e ele permitiu-se abraçar sua companhia como vinha desejando desde a primeira vez que ouviu aquele nome.
"Você falou exatamente como meu amigo Ivan. Alias, você deveria conhecê-lo. O Chefe dos Cavallone é uma excelente pessoas." O Guardião da Nuvem pôde ouvir claramente a voz de Giotto em sua mente. A primeira vez que o Chefe dos Vongola mencionou Ivan foi o primeiro passo de uma longa caminhada. O baile, as visitas, o beijo, a confissão e a rejeição... todos os momentos estavam tão vivos na mente do louro que era doloroso imaginar que por um breve instante Alaudi teve a felicidade ao seu alcance. Eu quero ficar.
O abraço ao redor do corpo de Ivan tornou-se mais apertado. O Guardião da Nuvem afundou um pouco mais o rosto no peito daquele homem, sentindo que respirar já se tornava uma tarefa difícil. Seus lábios se entreabriram e todas aquelas semanas de ansiedade, sofrimento e tristeza ganharam vida através de seus lábios:
"E-Eu... amo você."
Os olhos azuis se fecharam e o louro respirou fundo. Aquele seria seu adeus oficial.
"Eu sei."
A resposta acompanhou um abraço mais apertado. A voz saiu baixa e rouca, mas entrou na mente de Alaudi e o fez acomodar-se ainda mais naqueles braços. A respiração do Guardião da Nuvem retornou ao ritmo normal e ele relaxou completamente.
O Chefe dos Cavallone não disse mais nada depois daquele comentário, e o louro caiu novamente no sono após alguns segundos, mas dessa vez ele poderia dormir tranquilamente. Eu ficarei.
Continua...
