VI
Alaudi abriu lentamente os olhos. O Sol invadia a fresta entre as grossas cortinas vinho, atingindo o alto da cama. Sua cabeça estava afundada em um fofo travesseiro e ele estava deitado no meio da cama. O Guardião da Nuvem virou a cabeça para ambos os lados, tentando entender certas coisas que aconteceram na noite anterior. Ao virar para o lado esquerdo, o louro não encontrou Francesco. Ao virar para o lado direito, não havia sinal de Ivan.
Soltando um longo suspiro, o Inspetor de Polícia sentou-se na cama e passou as mãos nos cabelos. Aquilo tudo havia sido um sonho.
Foi preciso um pouco de esforço para que Alaudi saísse da cama. O largo colchão, as grossas cobertas e os macios travesseiros eram tão irresistíveis que ele poderia passar o restante do dia naquele local. Entretanto, o Sol do lado de fora da janela avisava que já era tarde, e que ele teria de voltar ao trabalho. O fim de semana de sonhos e alegrias teria de chegar ao fim em algum momento.
O Guardião da Nuvem arrastou-se para o grande banheiro do quarto. Seu corpo pedia um banho ou ele não conseguiria juntar as forças necessárias para ir embora. A água caiu morna em seus ombros, escurecendo seus cabelos louros e escorrendo pelo ralo não muito longe de seus pés. Entre as infinidades de produtos que estavam à sua disposição, o Inspetor de Polícia escolheu um shampoo com cheiro de flores, sem entender as letras que estavam escritas na embalagem do produto. Isso vem do Egito? Grécia? Até onde esse homem vai para comprar um simples shampoo?
Do local de banho o louro seguiu para pia, escovando os dentes e jogando a escova no lixo. Eu não voltarei aqui, então não precisarei mais dela. A imagem que refletia no espelho à sua frente parecia levemente desapontada com todos aqueles pensamentos fatalistas. Alaudi desviou os olhos e ajeitou melhor a toalha em sua cintura, caminhando até a saída do banheiro. Ele sabia que Giuseppe teria arrumado a cama e suas vestes estariam engomadas e ajeitadas, esperando que seu dono percebesse que era hora de retornar a realidade. O Guardião da Nuvem abriu a porta e pisou dentro do quarto, passando as mãos nos cabelos e virando-se na direção da cama, pronto para pegar suas roupas.
Entretanto, o que seus olhos lhe mostrariam seria outra coisa.
A cama não estava arrumada e as vestes do louro não estavam engomadas e ajeitadas. As cortinas haviam sido abertas e presas nas extremidades da janela, deixando que o Sol invadisse o cômodo com toda a sua beleza. E Giuseppe não estava no quarto... Na verdade, não seria necessário que um empregado cuidasse daquele local. Porque parado do outro lado da cama, dobrando um dos cobertores, o Chefe dos Cavallone olhava Alaudi com certo assombro.
Os dois homens se encararam por alguns segundos no mais puro silêncio. O louro simplesmente não sabia o que deveria fazer. Seu corpo não se movia e seus olhos tinham medo de piscar, pois Ivan poderia simplesmente desaparecer de onde estava. Não era possível. A cena da noite anterior havia sido um sonho, não? Aquele homem não poderia estar ali. Ele estava na França e só retornaria na próxima semana. O abraço, os dois dividindo a mesma cama e principalmente a confissão de Alaudi não havia sido um sonho? Foi real...
"A-Ala... A-Alaudi..." A voz do moreno saiu baixa e seus olhos desviaram-se para o outro lado do quarto. O cobertor que estava em suas mãos foi para o chão. "A-Acho melhor você se vestir. Suas roupas estão em cima da c-cômoda."
Ivan deixou o quarto com o rosto extremamente corado. O Guardião da Nuvem franziu a testa e encarou a porta fechada, percebendo pela primeira vez que aquelas palavras tinham certo sentido. O pudor tingiu o rosto do louro, fazendo-o pegar as roupas e entrar novamente no banheiro em uma velocidade espantosa. A toalha azul clara deu lugar às suas vestes, mas o Inspetor de Polícia demorou alguns minutos até finalmente tomar coragem de deixar aquele lugar tão seguro. O quarto ainda estava vazio, e o Chefe dos Cavallone só retornou após cerca de cinco minutos, perguntando antes se poderia entrar. Alaudi respondeu sério, cruzando os braços e pensando em como deveria agir naquele tipo de situação.
"E-Eu sinto muito. Achei que você demoraria algum tempo no banho, então decidi arrumar a cama. Eu realmente sinto muito." O moreno encarava o chão e suas palavras pareciam ser direcionadas aos seus sapatos.
O Guardião da Nuvem não soube o que responder. A ideia de ter se exposto daquela maneira o perturbava menos do que a declaração que saiu por seus lábios na noite anterior.
"Você não deveria estar em outro país?" O louro encostou-se à cômoda. Sua voz saiu baixa e contida.
"Eu retornei durante a noite. Eu estava preocupado com Francesco." Ivan ergueu os olhos, mas era clara a maneira como ele ainda não conseguia encarar sua companhia diretamente. O cobertor voltou às mãos do Chefe dos Cavallone e ele retomou seu trabalho.
"Desculpe por ter invadido sua residência." Alaudi fez uma polida reverência, como se aquela fosse uma visita a trabalho.
"Você não precisa se desculpar." Ivan parecia ter dificuldade em encontrar as pontas certas do cobertor. "Eu realmente agradeço por ter feito companhia a Francesco. Ele perguntou por você assim que acordou."
"Eu vou me despedir do garoto antes de ir embora. Novamente, eu sinto muito."
O Inspetor de Polícia abaixou os olhos. Seus pés queriam tirá-lo daquele cômodo e daquela casa, mas seu coração dizia que ele não poderia ir, pelo menos por enquanto. O louro engoliu seco, erguendo levemente os olhos para poder ver melhor o homem que estava tão próximo, separado apenas pela larga cama de casal. O Chefe dos Cavallone estava sério, e assim que se sentiu observado, ele parou o que fazia com o cobertor e o deixou sobre a cama. Alaudi sabia que não poderia deixar aquele quarto sem uma explicação e não era preciso muito para entender que o moreno também esperava ouvir alguma coisa.
"Ontem à noite, o que acont-"
"Eu amo você." A voz do moreno cortou a fala do Guardião da Nuvem. "Meus sentimentos por você não mudaram nesse tempo. Eu o deixei ir naquela ocasião porque eu o respeito e jamais poderia impor meus sentimentos, mas eu ainda o amo, Alaudi. E eu sabia que você também me amava, mas o deixei ir e não houve um dia em que eu não me arrependesse por não ter insistido um pouco mais." Ivan ficou um mais sério. "Mas dessa vez eu não vou deixá-lo partir. Eu não sei se o que te impede de me amar é medo ou orgulho, mas eu ouvi suas palavras ontem à noite. Eu senti o seu abraço e a maneira como você chamou meu nome diversas vezes durante o sono. Se você precisa de tempo para pensar, eu lhe darei esse tempo, porém, dessa vez eu quero que seja sincero, não comigo, mas com você mesmo. Porque eu não vou à lugar algum sem você."
A primeira vez que Alaudi ouviu uma confissão foi aos doze anos de idade. Uma garota que morava no mesmo bairro e frequentava a mesma instituição de ensino se declarou em uma tarde de primavera. As palavras exatas ele não se recordava, mas a atitude da garota nunca saiu de sua mente. O Guardião da Nuvem declinou seus sentimentos, mas admirou a coragem que aquela pessoa precisou ter para abrir seu coração e dizer todas aquelas coisas. No decorrer dos anos ele ouviu outras confissões, mas nunca as aceitou. A vez que Alaudi se envolveu com alguém foi uma experiência única. E ele não se recordava de absolutamente nada. De todos os momentos pessoais que tivera naqueles anos, apenas a primeira declaração da garotinha permaneceu viva em sua mente.
Entretanto, nada superaria as palavras que ele acabara de ouvir.
O louro não compreendia como alguém poderia ser tão honesto. Como algumas pessoas simplesmente abriam seu coração sem medo que o outro pudesse pisar em seus sentimentos, e deixá-lo sem um chão firme para se apoiar. As coisas não deveriam ter chegado aonde chegaram. Eu não deveria ter ido àquele baile e você não tinha nenhuma obrigação em me visitar tantas vezes.
Alaudi apertou o maxilar e respirou fundo. Ele sempre esteve do outro lado da situação e não sabia como deveria reagir. O que ele sabia era que não poderia deixar aquele quarto sem que o assunto fosse resolvido.
"Eu não sei o que você quer ouvir, assim como não sei o que devo responder nesse tipo de situação." O Guardião da Nuvem passou a mão na nuca, incomodado com sua falta de experiência.
"Você responderia sinceramente se eu fizesse perguntas objetivas?" Ivan suavizou a expressão e esboçou um meio sorriso. "Você se sentiu incomodado quando eu disse que o amava?"
"Não." O Inspetor de Polícia respondeu sem hesitar.
"Você sentiu minha falta durante o tempo que ficamos afastados?" O Chefe dos Cavallone deu um passo ao lado, começando a dar volta pela cama.
O louro entreabriu os lábios para responder, mas a realização de que o moreno estava caminhando em sua direção roubou suas palavras.
"Você detesta quando eu lhe beijo ou abraço? Você veio visitar meu filho no fim de semana por que ficou preocupado? Você também veio por que achou que ainda precisávamos conversar?"
Ivan caminhou até parar em frente à Alaudi. O Guardião da Nuvem ergueu os olhos, apertando as mãos ao lado do corpo e sentindo o coração bater incrivelmente rápido. O Chefe dos Cavallone tinha os olhos baixos e uma expressão gentil. Uma de suas mãos subiu até o rosto do homem à sua frente, acariciando a pele branca. O louro não sabia se deveria responder às últimas perguntas ou aguardar por algo que nem ele mesmo compreendia. Porém, a resposta estava na ponta de sua língua e uma parte do Inspetor de Polícia queria simplesmente afirmar tudo.
"Eu posso beijá-lo?" A voz de Ivan saiu rouca e as palavras foram ditas rapidamente. Os olhos cor de mel possuíam um brilho diferente, e Alaudi entendeu no mesmo instante o que aquilo significava.
"Sim."
O Chefe dos Cavallone abaixou o rosto no mesmo momento que o Guardião da Nuvem inclinou seu corpo para frente. Os lábios se encontraram no meio do caminho, famintos e saudosos. O moreno envolveu o corpo de sua companhia em um forte abraço, enquanto Alaudi segurava com possessividade o belo rosto de Ivan. As línguas se juntaram com pressa e o beijo mais parecia uma briga pessoal do que uma demonstração de carinho. Ivan deu um passo à frente, encostando o corpo do Guardião da Nuvem à cômoda e o unindo ainda mais ao seu próprio corpo. O Inspetor de Polícia desceu suas mãos pelo peito do homem em seus braços, sentindo o tecido da camisa branca, principalmente a maneira descompassada com que o coração do moreno batia. Ele não poderia explicar como conseguia manter o ritmo do beijo, já que contava nos dedos da mão direita as vezes que pôde praticar em sua vida. Porém, quanto mais profundo e intenso aquele gesto se tornava, mais seguro de si Alaudi se sentia.
A necessidade para respirar, a perigosa proximidade, o modo como os corpos de ambos se esfregavam... nada. Nada disso parecia ter importância naquele momento. Entretanto, foi preciso um elemento externo para trazer os dois homens de volta a realidade.
"Papà, você está ai?"
A voz de Francesco foi responsável foi interromper o beijo. Ela vinha baixa e abafada do outro lado da porta, mas tanto Ivan quanto o Guardião da Nuvem a escutaram e muito bem. Os olhos azuis se entreabriram, encarando um par de belos e sedutores olhos cor de mel. O louro precisou se recostar à cômoda, já que suas pernas não lhe obedeciam. Os rostos de ambos estavam próximos, e o Chefe dos Cavallone depositou um delicado, mas passional último beijo nos lábios vermelhos de Alaudi antes de se afastar. O moreno passou as mãos nos cabelos enquanto caminhava até a porta, abrindo-a com certa relutância.
"Por que demorou para abrir a porta?" O futuro Chefe dos Cavallone invadiu o quarto, correndo até o local onde estavam os sofás. "Ah, Alaudi!" O garoto aproximou-se rapidamente, mas assim que ergueu os olhos, sua expressão de alegria transformou-se em preocupação. "P-Papà, eu acho que Alaudi está doente."
O Guardião da Nuvem juntou as sobrancelhas. Aquilo não fazia sentido. Ele nunca se sentiu tão bem em toda sua vida.
"Por que diz isso, Francis?" O moreno caminhou próximo a cama e olhou a cena com a mesma expressão que o Inspetor de Polícia.
"Eu acho que Alaudi está com febre. Seu rosto está vermelho." O garoto de cabelos castanhos respondeu com uma pitada de preocupação e ingenuidade na voz.
"Oh!" Um largo e debochado sorriso cruzou os lábios rosado de Ivan, e sua voz saiu sarcástica. "Você está com febre, Alaudi?"
O louro apertou os olhos ao ouvir aquele comentário, sentindo vontade de morder aquele homem até a morte. A risada do Chefe dos Cavallone ecoou pelo quarto e ele aproximou-se de onde o filho e Alaudi estavam.
"Seu amigo está bem, Francis. Agora vamos descer para tomar café? Alaudi precisa voltar para a cidade."
"Oh... entendo." A expressão de Francesco demonstrava o contrário.
O Guardião da Nuvem sentiu o peito apertado ao encarar os dois olhos cor de mel do menino, mas sabia melhor do que ninguém que teria de ir embora. O caminho até a sala de jantar foi feito em silêncio, e aparentemente o único que não estava chateado com a despedida era o Chefe dos Cavallone. O moreno tinha as mãos nos bolsos e uma expressão satisfeita.
Mário e Giuseppe estavam no fim da escada quando os três se aproximaram. O rapaz de cabelos longos e louros fez uma polida reverência quando Francesco se aproximou, e o garoto o segurou por uma das mãos, puxando-o na direção da sala de jantar. O ruivo não fez reverência alguma, apenas meneando a cabeça quando seu Chefe o chamou pelo nome, entregando-lhe algo tirado do bolso e lançando um rápido olhar na direção de Alaudi. Mário esboçou um meio sorriso antes de se afastar, desejando um ótimo café da manhã.
"Algum problema?" Ivan chamou a atenção do Guardião da Nuvem ao vê-lo seguindo seu braço direito com os olhos.
O louro fez negativo com a cabeça, percorrendo o restante do caminho em silêncio. Francesco já estava em seu lugar quando os dois homens chegaram, e aparentemente seu humor havia melhorado. Giuseppe pediu licença e retirou-se, deixando a larga sala de jantar para os três presentes.
O Inspetor de Polícia sentou-se, mas dessa fez a sensação foi totalmente diferente. Os olhos azuis encararam o prato diante de seus olhos e depois olharam as companhias que ele tinha à mesa. O garoto de cabelos castanhos se servia de pães doces e mel. O Chefe dos Cavallone esperava o filho se servir primeiro, para então passar a vez para o próprio Alaudi. A cena em si era completamente irrelevante e parecia fazer parte de uma rotina, mesmo que ele nunca tivesse feito um café da manhã ao lado daquele homem. Havia um estranho e satisfeito sentimento em seu peito e infelizmente naquela manhã ele não pôde degustar como queria todas aquelas delícias. A comida não parecia ter gosto quando havia tantas outras coisas para notar: os olhares preocupados de Francesco e a maneira como o menino parecia querer dizer alguma coisa, mas as palavras lhe faltavam; ou o sorriso do moreno e seus olhares impertinentes e cheios de significados.
Alaudi sentiu como se sempre tivesse feito parte daquela cena, e principalmente da vida daquelas pessoas.
Quando o café da manhã terminou, o Guardião da Nuvem levantou-se e agradeceu pela refeição e pela estadia. O garoto de cabelos castanhos mordeu o lábio inferior antes de também ficar em pé.
"Q-Quando você vai voltar, Alaudi?" A voz de Francesco saiu baixa e ele parecia lutar contra a própria timidez ao fazer aquela pergunta que mais parecia um pedido.
"É verdade. Quando você vai retornar?" O Chefe dos Cavallone limpou o canto da boca com o guardanapo, cruzando os braços.
O louro apertou novamente os olhos, sem acreditar que Ivan estava aproveitando a oportunidade para atingi-lo. Eu não acredito que gosto de alguém assim.
"Logo." A resposta do Inspetor de Polícia foi polida e breve. "Quando surgir a oportunidade eu o visitarei."
"E poderemos brincar?" Francesco sorriu largamente com a resposta que recebera.
Alaudi meneou a cabeça em positivo, e o garoto deu vários pulinhos antes de abrir a porta da sala de jantar gritando por Giuseppe.
"Você deveria parar de usar seu filho, Cavallone." O Guardião da Nuvem olhou sério para o homem que ficava em pé.
"Eu não o estava usando, nós apenas temos interesses em comum." O moreno fez sinal para que o louro fosse à frente. Os dois caminharam lado a lado na direção da saída da sala de jantar. "Então quando você voltar, nós poderemos brincar tam-AA-Ah he-hey eu estava brincando!"
O Chefe dos Cavallone esfregou o braço, no exato local em que Alaudi o havia beliscado, e o caminho até a saída da mansão foi feito de maneira um pouco mais descontraída. O carro do Guardião da Nuvem estava em frente à estátua de marfim no formato de dois cavalos, e foi difícil para o louro ver Mário descendo do carro e caminhando até ele para entregar-lhe a chave. Eu definitivamente nunca gostarei desse homem.
"Vá com cuidado." A expressão de Ivan tornou-se séria. O brilho que estivera presente durante todo o café da manhã havia desaparecido de seus belos olhos.
"Vá com cuidado!" Francesco repetiu as palavras do pai, abraçando as pernas de Alaudi, erguendo o rostinho em seguida. "Eu estarei esperando para brincarmos de novo."
O Guardião da Nuvem esboçou um meio sorriso, descendo os degraus da pequenina escadaria que unia a mansão ao jardim. A chave girou na ignição e o carro mostrou sinal de vida. O louro respirou fundo antes de colocar o veículo para andar, não sabendo ao certo o que deveria estar sentindo naquele tipo de situação. Os dois membros da Família Cavallone diminuíam conforme seus reflexos iam se afastando do retrovisor, até que a mansão tornou-se um ponto pequenino. O largo portão no fim da propriedade estava aberto, e foi somente ao cruzá-lo que o Inspetor de Polícia fixou os olhos no caminho. Repousando no banco do passageiro havia um pequeno pedaço de papel. Alaudi o segurou e o abriu sem dificuldades, reconhecendo a caligrafia romântica de Ivan:
"Eu ficarei na cidade pelas próximas duas semanas, então o visitarei sempre que surgir a oportunidade. Se estiver livre no fim de semana, sinta-se convidado a fazer uma visita. Não é necessário aviso. A casa é sua e Francesco ficará feliz por revê-lo.
Ivan C.
P.s: A marca de nascença em sua cintura não sai da minha mente. Espero revê-la em breve.
P.p.s: Eu amo você."
O louro juntou as sobrancelhas ao ler a última parte, tentando entender como o Chefe dos Cavallone sabia daquilo. A recordação da cena da toalha o fez corar e o carro parou no mesmo instante. Alaudi abriu o porta-luvas e retirou um isqueiro, queimando o bilhete e o jogando pela janela. O carro voltou a andar e durante todo o caminho em direção ao centro de Roma o Guardião da Nuvem pensou na surra que daria no moreno quando eles se reencontrassem.
x
Ivan não levou a tão esperada surra, mas sua penitência foi permanecer por uma hora em uma das celas da sede de Polícia. Dois dias depois daquela despedida na mansão, o Chefe dos Cavallone visitou Alaudi como prometido, e assim que pisou em território policial, quatro homens o renderam e o louro em pessoa o levou até a mais escura e esquecida cela. O moreno fez o caminho todo rindo, e após os sessenta minutos de confinamento, o mesmo sorriso recebeu o Guardião da Nuvem. O sorriso veio acompanhando por um longo beijo, e a pseudo-detenção de Ivan pareceu não surtir nenhum tipo de efeito. Alaudi o avisou que o prenderia de verdade se ele não parasse com as provocações, mas suas ameaças pareciam entrar e sair pelos ouvidos do Chefe dos Cavallone.
A personalidade densa e simpática do moreno não foi exatamente o que chamou a atenção do Inspetor de Polícia à partir daquele dia. Quando deu voz de prisão para o moreno, o louro não encontrou nenhuma resistência por parte dos subordinados da Família, que assistiram seu Chefe ser levado sem moverem um único dedo. Mário, em especial, apenas desejou boa sorte a Ivan, antes de dar meia-volta e sair do prédio. O comportamento do homem de cabelos ruivos não parecia ter mudado. Ele ainda lançava olhares na direção do Guardião da Nuvem e muitas vezes Alaudi tinha a impressão de que ele sabia de tudo o que estava acontecendo e isso o deixava seriamente incomodado.
O Chefe dos Cavallone permaneceu realmente por duas semanas na Itália antes de deixar o país. Durante esse tempo, quase todos os dias ele visitou o louro, algumas vezes sozinho outras vezes na companhia de Francesco. O garoto parecia extasiado com as visitas, e todas as vezes que aparecia, tinha uma história nova para contar. A convivência com Ivan trouxe novamente a sensação de dependência que o Inspetor de Polícia detestava, mas dessa vez o sentimento era diferente. Seu coração ainda esperava ansioso todo final de tarde, mas sabia que a espera seria recompensada. As poucas horas que os dois passavam juntos durante a semana eram gratificadas quando chegava o final de semana. Alaudi não trabalhava aos sábados ou aos domingos quando não havia nenhum caso urgente, e daquela vez, em particular, ele fez questão de limpar sua agenda e manter os dois dias livres. O Chefe dos Cavallone estava um pouco ocupado com o trabalho, desculpando-se várias vezes por não oferecer a atenção que o louro merecia. O Guardião da Nuvem não mentiu quando disse que não se importava. Ele melhor do que ninguém entendia as responsabilidades que o trabalho exigia, sem contar que Francesco era sem dúvidas uma das mais adoráveis e excelentes companhias que ele poderia ter.
Naquele primeiro fim de semanas juntos, Alaudi viu Ivan apenas nas horas de dormir, e o moreno praticamente se arrastou até a cama. No início o Guardião da Nuvem relutou com a ideia de dividir a mesma cama que o Chefe dos Cavallone, mas ao vê-lo dormir tão rápido e de maneira tão inocente, o louro não pôde não pensar que estava se preocupando com as coisas erradas.
"Desculpe pelo fim de semana. Eu o convidei e não tivemos uma única hora para nós dois." Ivan terminava de ajeitar a gravata em frente ao espelho dentro do guarda-roupa. Havia um jantar importante que ele deveria ir naquele domingo, e o Inspetor de Polícia havia se prontificado a passar a noite na mansão para fazer companhia a Francesco.
"Eu não estou reclamando." Alaudi estava sentado em uma das poltronas, folheando um livro antigo. "Ouvi que você viajará na próxima semana, se quiser posso passar o fim de semana com Francesco."
"Eu agradeceria se fizesse isso, mas não quero atrapalhar sua vida. Você também tem seu trabalho."
Eu não sei mais onde minha vida termina e onde começa a sua. O Guardião da Nuvem fechou o livro, decidido a lê-lo quando tivesse tempo. O moreno aproximou-se e sentou-se ao seu lado.
"Você vai se atrasar."
O louro fez menção de ficar em pé, mas Ivan o fez sentar-se novamente. O Chefe dos Cavallone inclinou-se um pouco, e Alaudi fechou levemente os olhos, sabendo exatamente o que viria em seguida. Durante aquela semana os dois haviam se beijado algumas vezes, mas para ele ainda era novidade ter alguém cujos lábios pudessem encantá-lo por completo. Os beijos do moreno sempre eram longos, cheios de significados e pareciam pedir por mais. Quando eles terminavam, existia aquela sensação de que poderiam ir mais além e daquela vez não seria diferente. Os lábios de Ivan desceram pelo pescoço do Guardião da Nuvem, fazendo-o respirar com dificuldade. A voz rouca e charmosa do Chefe dos Cavallone entrava por seus ouvidos, e era muito difícil manter-se composto.
"I-Ivan." O Inspetor de Polícia empurrou levemente o ombro do homem que estava praticamente sobre ele.
"Sim?" O moreno adorava quando seu amante o chamava pelo primeiro nome, mesmo que esses momentos sempre envolvessem broncas.
"Você está atrasado."
Ivan ainda roubou um rápido beijo do louro antes de ficar em pé.
"Eu devo retornar tarde, então não precisa me esperar."
"Eu não pretendia esperá-lo." Alaudi segurou firme o livro em suas mãos.
"Você é adorável!"
O Chefe dos Cavallone cantou a ironia, acenou e esboçou um largo sorriso antes de deixar o quarto. O Guardião da Nuvem ergueu os olhos e encarou o cômodo, sentindo que, agora que estava sozinho, aquele lugar havia se tornado um pouco mais frio e triste.
x
Ivan deixou o país uma semana depois daquele fim de semana. O destino foi Portugal, e pela primeira vez o louro sabia quanto tempo ficaria sem ver seu amante. A viagem duraria cerca de quatro dias, e na teoria esse tempo parecia totalmente irrelevante. Alaudi lembrou-se dos quatro dias que passou trabalhando há cerca de dois anos. Ele não deixou a sede de polícia até conseguir alguma pista sobre o suposto assassino que atacava senhoras de meia-idade. Não havia nada de extraordinário em esperar. Sua vida seguiria normalmente.
Bem, pelo menos foi isso que o Guardião da Nuvem disse a si mesmo quando recebeu a mensagem do Chefe dos Cavallone.
A realidade, porém, mostrou-se um pouco diferente. Sem visitas e sem casos para trabalhar, Alaudi se viu em uma situação delicada. O ritmo no escritório estava intenso por causa da época do ano, mas não havia nenhum trabalho que merecesse a atenção do Chefe. Giulio cuidava de praticamente tudo, e ao final do primeiro dia, o louro percebeu que sua presença não era necessária.
Naquela noite o Inspetor de Polícia deixou a cidade e dirigiu até a mansão dos Cavallone. Francesco o recebeu com sua habitual alegria e por algumas horas o louro se sentiu necessário. Quando retornou a sua casa, o Guardião da Nuvem abriu uma garrafa de vinho e passou algum tempo encarando a lareira na sala de estar. Aqueles dias seriam longos...
O retorno do moreno não trouxe a paz que o Inspetor de Polícia esperava. Aparentemente o mesmo trabalho que o levou até outro país também seria responsável por ocupar o restante de sua semana. O Chefe dos Cavallone enviou o recado através de seu braço direito, avisando que não poderia visitar "Meu precioso amante" por causa das reuniões que teria. Alaudi fingiu pouco interesse quando leu a mensagem, não porque já imaginava que isso aconteceria, mas sim porque Mário o encarava com olhos curiosos e um ar de divertimento que o irritava profundamente.
"Obrigado pela mensagem." O louro ergueu momentaneamente os olhos. Aquela era a primeira vez que ambos ficavam sozinhos.
"Não pretende responder? Eu posso aguardar." O homem de cabelos ruivos sorriu e apontou para uma das cadeiras vagas que estavam no escritório.
O Inspetor de Polícia ponderou por um breve momento, pegando uma folha de papel segundos depois. A ponta da caneta ficou suspensa no ar até que Alaudi se pôs a escrever.
"Eu espero que seu interesse e cordialidade sejam porque a mensagem é diretamente para seu Chefe." A voz do Guardião da Nuvem saiu baixa. Não existia momento mais perfeito do que aquele para descobrir as reais intenções daquele homem.
"Oh, você é direto. Eu gosto disso." Mário tocou o encosto de uma das cadeiras, mas não se sentou. Os olhos verdes estavam fixos na pessoa sentada por trás da mesa. "E eu possuo outros interesses. Porém, meus sentimentos em ajudar Ivan são genuínos, acredite."
"Sentimentos?" O louro assinou o papel, dobrou-o e ergueu os olhos azuis com desdém. Algo em seu peito sentiu-se inquieto com aquela parte da conversa e ele sabia que precisava ouvir o restante.
"Terminado?" O braço direito dos Cavallone aproximou-se e segurou o papel entre seus dedos. Seu corpo projetou-se um pouco à frente e algo naqueles olhos verdes incomodou o Inspetor de Polícia. "Você está com ciúme?"
O Guardião da Nuvem manteve a expressão impassível. Não havia sinal que mostrasse que aquela pergunta o havia afetado como afetou. Ao contrário de sua aparência, por dentro o louro mordia aquele homem até a morte de diversas maneiras possíveis... e várias vezes.
"Eu não sei do que você está falando." Alaudi respondeu em tom monótono.
"Vou direto ao assunto: você tem algo que eu quero." Mário guardou o pedaço de papel dentro do terno escuro. "E eu não vou desistir até conseguir."
A veia na testa do louro tremeu com aquela ameaça tão direta.
Ele sabia que alguma coisa estava acontecendo, mas não esperava ser confrontado dessa maneira.
"Você está perdendo seu tempo." O Inspetor de Polícia abaixou os olhos e voltou ao seu relatório. Antes da intromissão do ruivo ele estava calmamente cuidando de seu trabalho. "Porque eu não tenho intenção alguma de dá-lo a você. E se tocar no que é meu, eu o matarei."
A ameaça foi dita com a voz baixa e sem nenhum tipo de sentimento. O Guardião da Nuvem ergueu novamente os olhos, ficando intimamente satisfeito por ver a expressão de raiva nos olhos do braço direito dos Cavallone. Era incrivelmente prazeroso retirar aquele sorriso pomposo e pretensioso.
"Você não pode ter os dois!"
O homem deu um passo à frente, respondendo o insulto que recebera com a voz um pouco elevada. Sua mão bateu com força na mesa, fazendo os papéis erguerem-se levemente da superfície.
Aquelas palavras fizeram Alaudi juntar as sobrancelhas, não entendendo do que ele falava. Dois?
Três leves batidas na porta desviaram seus olhos de sua intragável companhia.
"Desculpe, eu não sabia que tinha companhia, Alaudi." Giulio abriu a porta e olhou de Mário para seu Chefe.
"Nós já ter-"
"Eu já estava de saída." A voz do homem de cabelos ruivos cortou a fala do Guardião da Nuvem. O ar presunçoso e a autoconfiança que ele demonstrara até aquele momento pareciam ter se dissipado. "Eu repassarei a mensagem ao Chefe. Ele espera vê-lo no fim de semana. Com licença." Os olhos verdes do braço direito dos Cavallone se abaixaram e com uma polida reverência ele deixou a sala.
O Inspetor de Polícia não entendeu o que tinha acabado de acontecer. A estranha mudança de comportamento o pegou totalmente desprevenido, mas ele se sentia mais aliviado por ter se livrado daquela estranha conversa. Dois. Do que ele estava falando?
"Você trouxe mais trabalho, Giulio?"
O homem parado à porta não respondeu. Na verdade, o louro tinha certeza de que ele não escutara seu nome ser chamado. Alaudi encarou seu braço direito por alguns segundos. Giulio olhava na direção do corredor. Havia a mesma expressão calma em seu rosto, mas os olhos negros pareceram levemente sem vida.
A realização veio devagar para o Guardião da Nuvem. Seu corpo endireitou-se na cadeira, seus lábios se entreabriram e a voz de Mário invadiu sua mente como uma segunda consciência.
"Você não pode ter os dois!"
O louro chamou novamente seu braço direito, mas dessa vez com a voz mais alta e um pouco mais de ímpeto. Giulio pareceu acordar de seu transe, entrando no escritório e entregando os novos relatórios que precisavam da assinatura de Alaudi. O Inspetor de Polícia fitou o homem à sua frente, sentindo o sangue voltar a ferver em suas veias.
Mário não tinha interesse em Ivan. Quem ele queria estava diante de seus olhos azuis e aquele conhecimento o enfurecia. Ele assinou os relatórios e esticou as folhas na direção do moreno, mas manteve seus dedos firmes. Giulio puxou os papéis, erguendo as sobrancelhas em um movimento inocente, sem entender porque Alaudi não as soltava.
"Alaudi?" O braço direito puxou as folhas com um pouco mais de empenho. "Você está bem?"
O Inspetor de Polícia meneou a cabeça em positivo, retirando seus dedos e permitindo que o homem guardasse as folhas de papel no envelope que tinha em mãos. Giulio deixou a sala e o louro encostou-se melhor em sua cadeira, encarando o teto e suspirando. Eu não o deixaria ter Ivan, mas Giulio é completamente impossível. Eu não vou permitir!
X
"Eu sabia. Seu braço direito rejeitou Mário."
Ivan retirou a gravata e a deixou sobre uma das poltronas. O moreno começou a desabotoar a camisa, parando na frente de seu amante. Alaudi estava de braços cruzados e parado próximo à cama. Seus olhos azuis ergueram-se no mesmo instante. Ver o Chefe dos Cavallone despindo-se era algo que lhe roubava totalmente a atenção.
"Eu não tinha conhecimento que isso estava acontecendo debaixo do meu nariz. Por que não fui comunicado?"
"Eu achei que soubesse." Ivan retirou a camisa de dentro da calça. "Mário ainda está chateado por causa disso."
Ele ficará chateado pelo resto de sua miserável vida. O louro apertou os olhos, imaginando o que ele estava fazendo enquanto tudo isso estava acontecendo. A resposta para aquele pensamento o trouxe de volta a realidade com um gentil beijo em seus lábios, e o Inspetor de Polícia permitiu-se dar uma olhada melhor no homem seminu. As chamas azuis desciam pelo pescoço de Ivan, queimando o lado esquerdo de seu peito e abdômen. Até onde aquela tatuagem ia era um mistério e Alaudi mentiria se dissesse que aquele pensamento não lhe roubou horas preciosas de sono por semanas.
"Eu vou tomar um banho. Quer me fazer companhia?"
O convite foi feito por lábios rosados e risonhos. O Guardião da Nuvem entreabriu a boca para declinar o convite, mas o Chefe dos Cavallone foi mais rápido. O beijo o impossibilitou não somente de responder, mas até mesmo de pensar. Aquela havia sido uma longa semana e os dois amantes não tiveram chance de se encontrarem. As ausências do moreno transformaram-se em algo completamente diferente. A falta que o Inspetor de Polícia sentia era silenciosa e discreta, mas seu coração animou-se quando Ivan veio recebê-lo assim que chegou à mansão. No passado eu esperaria pacientemente seu retorno, sem saber quando o veria novamente. Hoje, embora eu saiba de sua volta, não posso evitar pensar que o tempo parece passar mais devagar. O louro fechou os olhos e retribuiu o beijo. Talvez ele também precisasse de um banho.
Alaudi nunca se despiu na frente de outro ser humano. Ele somente imaginava qual seria a sensação de ter alguém fitando cada centímetro de seu ser, olhando-o com olhos diferentes, sem pudor ou questões.
A realidade foi um pouco diferente. Na verdade, ele não se despiu naquele largo e espaçoso banheiro, mas foi despido. O beijo que se iniciou no quarto não foi interrompido. O Chefe dos Cavallone os guiou até a porta do banheiro, esta localizada ao lado direito de uma das extremidades do cômodo, enquanto desabotoava sua própria calça. O louro recostou-se a pia, abrindo seu colete e retirando-o com um pouco de pressa. O moreno o ajudou com a camisa branca e a calça escura, mas quando chegou o momento de se livrar da roupa de baixo, o Guardião da Nuvem simplesmente não conseguiu. Seus lábios pararam de se mover e a realidade o acertou direto na face.
Aquela era a primeira vez que eles se despiam. Em três semanas os dois não haviam cruzado aquela linha. Os beijos foram suficientes. Os lábios eram responsáveis por uni-los, mas ambos sabiam que quanto mais se beijavam mais difícil era controlar o desejo de continuarem. Entretanto, todas as vezes que tentavam ir além de longos e profundos beijos, alguma coisa os atrapalhava. Reuniões, falta de tempo, Mário, Giuseppe, algum subordinado e principalmente Francesco. O garoto parecia ter um radar especial que sabia exatamente os momentos que deveria atrapalhar. Quando Alaudi estava na mansão, o herdeiro dos Cavallone queria monopolizar sua atenção, e isso incluía também as noites. O moreno não parecia se importar em dividir a atenção de seu amante, mas o Inspetor de Polícia sabia que uma hora aquelas interrupções acabariam.
O problema é que ele não imaginou que seria tão cedo.
Os lábios de Ivan desceram pelo pescoço e ombros do Guardião da Nuvem. Os olhos cor de mel se entreabriram e o Chefe dos Cavallone sorriu.
"Você não deveria dar tanta importância para um mero banho." O moreno segurou seu amante pelo queixo, fazendo com que eles se encarassem. "Eu vou primeiro."
Ivan retirou a própria roupa de baixo e a jogou no cesto de roupa suja, andando pelo piso branco do banheiro. O louro tentou desviar os olhos, mas aquela tarefa seria impossível. Sua atenção estava completamente fixa no homem que caminhava nu, afastando-se até a área do chuveiro. O banheiro era grande, e havia a opção de banhar-se na banheira ou utilizar o chuveiro. O Chefe dos Cavallone havia escolhido o chuveiro, e o que separava Alaudi daquele homem eram poucos passos e uma porta de vidro.
Foi com certa relutância e muito pudor que o Guardião da Nuvem livrou-se da roupa de baixo. Seu rosto estava em chamas e seus passos foram incertos. O local estava cheio de vapor por causa da água quente, mas assim que se aproximou a porta foi aberta. O moreno o esperava com um largo sorriso, fitando-o de cima para baixo. Os olhos brilhavam não somente pelo agradável prazer de dividir um banho quente com a pessoa amada. Era puro desejo.
"Oh, a marca..." Ivan encarou a pequenina marca de nascença que o louro tinha próximo a cintura. O Inspetor de Polícia colocou automaticamente a mão no local, lançando um olhar sério para o homem que fechava a porta. "Você é exatamente como eu imaginava."
"Somos dois homens. Não há nada para se ver." O Guardião da Nuvem mentiu... e mal. Seus olhos azuis estavam baixos, mas ele desejava encarar o Chefe dos Cavallone da mesma maneira como era encarado. O problema era que manter os olhos naquela direção não ajudava em nada. Seu rosto tornou-se corado e ele precisou erguer novamente o olhar.
"Eu discordo fortemente desse seu comentário." Ivan levou uma das mãos de Alaudi até seus lábios, beijando-a. Em seguida, o moreno a levou até seu pescoço, mais especificamente o lado esquerdo. Os olhos do Guardião da Nuvem se arregalaram levemente, e ele fez menção de retirar sua mão, mas o Chefe dos Cavallone o impediu. "Você pode me tocar, Alaudi. Porque eu vou tocá-lo. Eu vou conhecer cada pedacinho do seu corpo, e quero que faça o mesmo comigo. E eu percebi a maneira como seus olhos estavam sempre fixos nessa região."
O Inspetor de Polícia agradeceu mentalmente pelo vapor que começava a aumentar naquele espaço. A água quente descia pelos cabelos negros de Ivan, tornando-os mais longos. As pontas chegavam um pouco abaixo da nuca, e Alaudi sentiu entre seus dedos a textura dos fios. Sua mão desceu devagar pelo peito molhado do Chefe dos Cavallone. As chamas azuis pareciam vivas, queimando sem machucar a pele clara de Ivan. Cada centímetro. Cada detalhe. Cada contorno. O louro deixou que seus dedos sentissem os desenhos, sem perceber que ele havia se aproximado ainda mais do homem à sua frente. Sua respiração atingia a pele do Chefe dos Cavallone, e quando sua mão chegou à altura da cintura, o Inspetor de Polícia permitiu-se ponderar por um segundo se deveria parar ou não. A resposta estava clara em sua visão e em seu toque. A tatuagem do moreno descia pelo quadril e terminava na altura de seu baixo ventre.
Alaudi sabia que tinha o rosto vermelho, não somente por ter tido coragem de tocar outro ser humano, mas porque seus toques conseguiram obter certas reações em seu amante. O louro sentiu a mão do Chefe dos Cavallone em seu queixo, e quando os dois se encararam, Ivan inclinou levemente a cabeça, beijando-o. O beijo foi mais úmido do que o habitual. A água quente escorreu pelos cabelos e rosto do Guardião da Nuvem, aquecendo-o. O contato dos dois corpos foi uma das sensações mais estranhas e curiosas que o louro sentira até aquele momento. As mãos do moreno deslizaram por seus ombros e apertaram levemente sua cintura, levando pequenas ondas de eletricidade pelo corpo do Inspetor de Polícia.
Durante longos minutos o Guardião da Nuvem pertenceu somente àqueles lábios e as mãos grandes e quentes do Chefe dos Cavallone. Ele não brincou quando disse que tocaria cada pedacinho do corpo do louro. Alaudi tentou ao máximo permanecer imóvel e impassível, mas seu corpo o traiu sem o menor esforço. Ivan percorria lugares que nem o próprio Guardião da Nuvem havia tocado, e quando finalmente o moreno deslizou a ponta dos dedos por seu membro, o louro deixou escapar um gemido.
"Eu gosto da sua voz." O Chefe dos Cavallone falou baixo, encostando os lábios em um dos ouvidos de seu amante.
Alaudi tentou contra-argumentar e empurrar o homem à sua frente, mas as forças lhe faltaram. Seu corpo não se moveu, suas pernas continuaram no mesmo lugar e seus lábios gemeram novamente. O moreno os aproximou ainda mais e começou a masturbar ambas as ereções. Os movimentos que se iniciaram lentos ganharam um ritmo mais rápido quando as mãos do Guardião da Nuvem resolveram ajudar. Os dedos finos e delgados de Alaudi desceram pelo membro do moreno, sentindo o desejo que aquele homem tinha por ele. O segundo beijo roubou um pouco da atenção do louro, mas suas mãos não pararam até que o orgasmo chegasse para o Chefe dos Cavallone. O gemido rouco que escapou por seus lábios deixou o Guardião da Nuvem ainda mais excitado. O moreno permaneceu apenas respirando alto durante aqueles longos minutos, então ouvir aquela reação o surpreendeu. O Inspetor de Polícia encostou a testa no peito de seu amante, sem saber se deveria esperar ou terminar o que começou.
"Deixe-me ajudá-lo."
A voz do moreno saiu mais rouca do que anteriormente. Os lábios de Ivan desceram pelo pescoço de seu amante, mordiscando a pele na altura do ombro e descendo de maneira possessiva por seu peito e abdômen. O louro encostou-se ao azulejo azul claro, sentindo um fio de arrepio por causa do contraste na temperatura. Os lábios de Ivan tocaram seu membro e então seus lábios voltaram a gemer.
A sensação foi diferente e o Chefe dos Cavallone não precisou se empenhar muito para conseguir o que queria. Alaudi sentiu seus dedos entre os fios de cabelo do moreno, controlando-se para não puxá-los devido ao intenso prazer. Os olhos azuis se abaixaram, enxergando com dificuldade por causa do desejo e do vapor. O que os recebeu foram dois olhos cor de mel que pareciam sorrir com o que assistiam. E naquele rápido momento o Guardião da Nuvem sentiu o corpo tremer, anunciando o clímax.
Alaudi mentiria se dissesse que aquela cena nunca lhe passou pela cabeça. Ivan já o visitara incontáveis vezes em seus sonhos mais íntimos, mas a realidade fora algo completamente diferente. O homem de seus sonhos desaparecia quando a razão retornava e a luxúria desaparecia, mas o Chefe dos Cavallone estava ali. A respiração em seu pescoço, as mãos que o ajudavam a permanecer em pé depois daquele intenso prazer, mas principalmente a sensação de segurança que o Guardião da Nuvem sentiu naqueles braços. Seus olhos se ergueram, e quando o moreno o encarou e esboçou um meio sorriso, o Inspetor de Polícia se perguntou o que havia feito em todos esses anos? Todo o tempo perdido, todas as poucas pessoas que passaram por sua vida de repente não significaram absolutamente nada. Eu estou me perdendo nesse homem.
O louro subiu uma das mãos pelo peito de Ivan, trazendo-o para um longo beijo. A razão retornava pouco a pouco, mas havia uma parte em Alaudi que gostaria de permanecer um pouco mais ousado e fora de controle. O Chefe dos Cavallone não negou o gesto, mas foi responsável por encerrá-lo após alguns minutos.
"Vamos terminar o banho." O moreno esticou a mão e pegou uma esponja felpuda que estava ao lado dos sais de banho gregos. Seu rosto estava corado. "Nós podemos continuar depois do jantar."
O Guardião da Nuvem ergueu uma sobrancelha. Ele havia se esquecido da presunção de seu amante.
"Não me olhe assim. Eu sei que você quer isso tanto quanto eu." Ivan virou o Inspetor de Polícia e passou delicadamente a esponja pelos ombros pálidos, mas que estava com uma coloração avermelhada por causa do vapor e dos beijos. "Eu mal posso esperar para tornar meus sonhos realidades." Os lábios do moreno mordiscaram levemente uma das orelhas do louro. "Você tem habitado minhas fantasias há muito tempo. Eu farei amor com você durante a noite inteira... Eu o tocarei aqui e ali, e aqui novamente..."
"Eu não quero saber." Alaudi respondeu sério, mas sua arrogância estava ali somente para esconder sua vergonha.
O Chefe dos Cavallone riu e fez mais um comentário sórdido, recebendo uma olhada feia por parte de seu amante. Era preciso muito mais do que belos olhos e um sorriso fácil para convencer o Guardião da Nuvem a permanecer no banho, mas o moreno tinha seus truques.
E durante os minutos que ainda ficou debaixo do chuveiro, o Inspetor de Polícia tentou a todo custo esconder sua felicidade por trás de seus comentários negativos.
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Francesco Cavallone estava esperando fielmente em seu lado direito da mesa. O herdeiro da Família conversava alegremente com Giuseppe quando Ivan e Alaudi adentraram a larga sala de jantar. O futuro braço direito endireitou-se melhor e fez uma polida reverência para as novas companhias. O garoto de cabelos castanhos não pareceu muito feliz por ter sua conversa interrompida, mas havia um alegre e sincero sorriso em seus lábios quando encarou Alaudi.
"Ivan."
A voz veio na direção do caminho que eles haviam acabado de percorrer.
Mário parou e encarou seu Chefe antes de estender um pequeno envelope azul. O Inspetor de Polícia apertou os olhos, sabendo exatamente de onde vinha aquela mensagem. Só havia uma pessoa na face da terra que utilizava a mesma cor para seus convites, e aquele selo contendo o grande e imponente "V".
"Obrigado, Mário. Gostaria de se juntar a nós para o jantar? Eu estava prestes a convidar Giuseppe."
"Não, obrigado."
O homem de cabelos ruivos declinou o convite e retirou-se sem oferecer a Alaudi um segundo olhar. O louro não diria que aquilo o deixou incomodado, muito pelo contrário. Olhar para Mário significava lembrar-se de seu interesse perverso pelo puro Giulio, e ele jamais permitiria que um homem como aquele colocasse as mãos em seu amigo de infância.
Giuseppe também teria rejeitado o convite, mas Francesco possuía um poder incrível de persuasão: dois grandes e belos olhos cor de mel que eram capazes de conquistar tudo e todos. O pobre subordinado de cabelos longos e louros resignou-se e sentou-se ao lado de seu futuro Chefe, pedindo quantas licenças eram possíveis de se ouvir. Alaudi acomodou-se do lado esquerdo do moreno, e estranhamente aquele local lhe parecia extremamente natural.
O jantar daquela noite seria basicamente carne branca e saladas. O Chefe dos Cavallone não havia ficado nada feliz ao descobrir que na sua ausência o filho praticamente tinha todas as regalias possíveis, e isso incluía qualquer tipo de comida e horários divergentes de dormir. O louro ouviu através de Giuseppe que Ivan conversou seriamente com Francesco sobre o assunto, e o garoto prometeu que agiria de maneira diferente. O resultado da conversa pareceu realmente ter sido proveitoso. Quando o Inspetor de Polícia não podia visitar o garoto, ele recebia um relatório completo do futuro braço direito. Giuseppe parecia extremamente feliz em relatar os passos de seu pequeno Chefe, e o louro não conseguia ignorar a dedicação e preocupação que o rapaz sentia por Francesco. Ele vai ser um excelente braço direito. O pensamento o fez engolir o pedaço de tomate sem mastigar. Pensar em Giuseppe às vezes o levava a pensar em Mário e aquele sim era um problema.
O Inspetor de Polícia permaneceu por cerca de meia hora na sala de jantar. A sobremesa seria sorvete, e até mesmo o Chefe dos Cavallone não seria cruel o suficiente para negar aquele tipo de delícia para o filho. O garoto pareceu radiante, mas aceitou somente metade do que lhe foi oferecido. Alaudi serviu-se de uma pequena porção, encarando a taça, mas sem prestar realmente atenção. Sua mente estava afastada, presa dentro do quarto do moreno, imaginando se os dois finalmente teriam uma noite completa. Os beijos, os toques e as carícias... ele não estava insatisfeito. Entretanto, uma parte do Guardião da Nuvem queria saber o que vinha depois... Imaginar como seria estar tão envolvido com o Chefe dos Cavallone que ambos pareceriam apenas uma única pessoa.
O pensamento levou a cor vermelha as bochechas do louro. O sorvete desceu por sua garganta e ele limpou o canto da boca, erguendo finalmente os olhos para os presentes. Francesco comentava com Giuseppe sobre o sabor do sorvete e dizia que seu futuro braço direito deveria se servir de um pouco mais se estivesse com vontade. O rapaz de trança agradeceu, mas respondeu que estava plenamente satisfeito. O Inspetor de Polícia desviou o olhar, engolindo seco ao encarar a expressão no rosto do quarto elemento sentado à mesa. O moreno o olhava com uma mistura de presunção e sensualidade. Algo nos olhos claros e na maneira como sua língua lambeu o canto de sua boca fizeram com que Alaudi sentisse o rosto ainda mais corado, lembrando-se da cena no banho. O Chefe dos Cavallone riu ao notar a reação deu seu amante, e o louro odiou-se mentalmente por não ser capaz de disfarçar melhor suas reações.
Continua...
P.s: O próximo capítulo da fanfic será postado apenas no dia 01/01/2012. Semana que vem é D18 Day e na semana seguinte o Natal, então postarei os especiais. Espero que entendam :)
