VII
O beijo que roubou os lábios do Inspetor de Polícia começou no final do corredor e continuou até que a porta do quarto fosse fechada e trancada. O Guardião da Nuvem sentiu quando suas costas bateram levemente na madeira, e na forma como o corpo de Ivan o pressionava. O gosto de vinho misturava-se ao desejo de ambos, e Alaudi não acreditava que estivesse tão ansioso para o que aconteceria naquele quarto. A espera parecia ter sido injusta, ainda mais se fosse levado em conta o quanto o Chefe dos Cavallone parecia desejá-lo. As mãos do moreno estavam firmes na cintura do louro, garantindo que o corpo de seu amante estivesse bem próximo. O Inspetor de Polícia conseguia sentir exatamente a intensidade do desejo do homem em seus braços, e seria difícil saber qual dos dois parecia mais excitado.
Ivan interrompeu o beijo, puxando Alaudi pela mão e caminhando na direção da cama. Havia um largo e brincalhão sorriso em seus lábios, como se ele estivesse se divertindo com a situação. O Guardião da Nuvem sentiu-se mais aliviado ao sentar na cama. Seu coração batia rápido e aquela cena o fez recordar-se de um dos sonhos que tivera com o Chefe dos Cavallone. Em seu sonho, seu corpo não o obedecia, e ele acabou fazendo coisas que normalmente não teria coragem. Entretanto, a realidade estava bem diante de seus olhos e o louro não sabia se conseguiria ter o autocontrole que pensava. O moreno apoiou um dos joelhos sobre a cama, aproximando-se do Inspetor de Polícia. Alaudi não sabia para qual direção deveria olhar. Seus olhos queriam manter a altura dos olhos cor de mel que o encaravam, mas as tatuagens que começavam no pescoço de Ivan roubavam um pouco da atenção. Os dois primeiros botões da camisa branca estavam abertos, deixando à mostra um pedaço da pele. E foi ali, naquele exato momento, que o Guardião da Nuvem percebeu que não era totalmente dono de si.
Uma de suas mãos subiu pelo peito do Chefe dos Cavallone, desabotoando o restante dos botões. O moreno não pareceu se importar com aquela ousada atitude. A peça de roupa foi aberta, e o louro tocou as tatuagens que decoravam aquela área. Ivan sorriu com o gesto e apoiou outro joelho sobre a cama, posicionando-se entre as pernas de seu amante. Suas mãos ajudaram a camisa a deslizar pelos ombros e Alaudi sabia que aquele gesto havia sido feito propositalmente. Com o caminho livre e disponível diante de seus olhos, não havia como evitar.
A pele estava quente embaixo dos dedos delgados do Inspetor de Polícia. Os desenhos formavam um charmoso contraste, e ele sabia exatamente onde eles terminavam. Ele imaginou como Ivan as havia feito, quantas horas ele permaneceu deitado, o peito nu (e outras partes...) enquanto outra pessoa o tocava. Aquele pensamento deixou Alaudi levemente contrariado. Seus dedos começaram a desabotoar de maneira aborrecida a calça negra que o Chefe dos Cavallone vestia. A ideia de que outras pessoas também sabiam onde terminava a tatuagem do moreno o deixou irritado... não, a palavra correta seria enciumado.
"O que houve?" Ivan levou uma das mãos até o queixo de seu amante, fazendo com que ele o encarasse. O Inspetor de Polícia parou de repente o que fazia e aquilo o preocupou. "Se está pensando em Francesco, deixei ordens explícitas para que Giuseppe não o deixasse sair do quarto. Esta noite ninguém irá nos atrapalhar, Alaudi."
O louro desviou os olhos, sentindo-se constrangido. Em seus sonhos íntimos não havia muita conversa. As palavras do Chefe dos Cavallone o deixavam inibido, e ele agradeceu mentalmente quando o moreno o deitou na cama e tomou a iniciativa. Os botões da camisa do Guardião da Nuvem foram abertos, e o simples toque da mão de Ivan em seu peito o fez gemer baixo. A cena do banheiro fora apenas a entrada, ele sabia. Os lábios do Chefe dos Cavallone sorriram antes de beijar o louro, fazendo com que seu amante se acalmasse. Alaudi fechou lentamente os olhos, deixando que suas mãos subissem pelos braços e ombros daquele homem.
O beijo trouxe a segurança e afastou os pensamentos desnecessários da mente do Inspetor de Polícia. A proximidade e o contato entre as peles fizeram com que o clima se tornasse mais quente. Os lábios moviam-se com mais pressa e uma das mãos de Ivan encontrou fácil acesso dentro da calça que o Guardião da Nuvem vestia. A reação foi instantânea. Alaudi arqueou levemente as costas e gemeu entre o beijo. Os lábios de Ivan desceram por seu pescoço, mordendo e deixando marcas vermelhas pela pele branca. A primeira parada foram os ombros do louro, seguido pelo peitoral. O Inspetor de Polícia sabia que era fraco quando o assunto era prazer e seu amante parecia entender isso melhor do que ninguém. Durante aquelas semanas eles não permaneceram somente trocando beijos inocentes. A primeira vez que o Chefe dos Cavallone ousou em seus toques, Alaudi pensou que morreria de vergonha. Seus gemidos foram altos e seu orgasmo chegou em segundos. Ivan sabia exatamente onde deveria tocar e morder e beijar. O problema era que o corpo inteiro do louro era sensível àquele homem.
Os mamilos do Guardião da Nuvem receberam longos minutos de atenção. A calça do louro havia sido retirada, e o Chefe dos Cavallone mordiscava aquela região enquanto masturbava seu amante. O Inspetor de Polícia mordia as costas de uma das mãos, tentando ao máximo controlar suas reações. Entretanto, assim que sentiu que os beijos do moreno desciam por seu abdômen, a resolução de Alaudi tremeu. Ele sabia melhor do que ninguém que em poucos segundos seu autocontrole desapareceria.
"Mova sua mão para o travesseiro, Alaudi." A voz de Ivan era baixa e rouca. O Inspetor de Polícia abriu os olhos e ergueu a cabeça, corando violentamente ao ver o meio sorriso que o Chefe dos Cavallone tinha nos lábios enquanto beijava aquela região. "Você vai encontrar um frasco pequeno embaixo do meu travesseiro."
O louro demorou alguns segundos para conseguir processar aquela informação. As palavras pareceram não fazer muito sentido, mas quando sua mão sentiu o vidro, ele entendeu o recado. A língua de Ivan subia e descia em uma velocidade torturante pelo membro do louro, fazendo-o gemer alto. Quando o frasco foi aberto, Alaudi ergueu novamente a cabeça ao sentir o cheiro de algo doce e suave. Baunilha talvez? Suas sobrancelhas se juntaram e ele se perguntou o que o moreno faria com aquilo. A resposta para sua ingênua pergunta foi respondida com um olhar. Os olhos cor de mel se abriram, e o Chefe dos Cavallone colocou toda a extensão da ereção do Guardião da Nuvem em sua boca. Ver aquela cena fora um erro. O desejo começava a subir à cabeça do louro.
"Isso vai ser desconfortável, então peço que me diga se a dor for mais do que você pode suportar."
A voz do moreno chegou baixa aos ouvidos de Alaudi. Ele sentiu suas pernas serem levemente afastadas, e se o estímulo em seu baixo ventre não o estivesse levando à loucura, o Inspetor de Polícia teria percebido o que estava para acontecer. Porém, seu corpo foi o responsável por avisá-lo.
A sensação de algo o invadindo fez o Guardião da Nuvem prender a respiração por um momento. Ele sabia que teria de relaxar, mas a ideia de que era Ivan quem o tocava em um local tão íntimo o deixou rubro. Os olhos azuis se abriram e seus lábios deixaram escapar um gemido totalmente diferente dos outros. Os beijos do Chefe dos Cavallone retornaram ao seu membro, e aquele duplo estímulo era mais do que o louro poderia suportar.
Quando um segundo dedo do moreno pediu passagem, o resto de razão que Alaudi poderia ter desapareceu. Sozinho, em sua casa e com sua solidão, o Guardião da Nuvem perdeu as contas de quantas vezes fantasiou com aquele homem, seus belos olhos e seu sorriso charmoso. Durante aquelas noites o louro explorou seu corpo, tocando-se em regiões que até aquele momento pareceram desconhecidas. E em todos aqueles instantes ele se perguntou como seria a realidade... como seria ter as mãos e os lábios daquele homem acariciando-o, apertando-o e provando-o. A realidade, como o próprio Inspetor de Polícia sentia, era algo completamente diferente.
O orgasmo do louro chegou quando o terceiro dedo de Ivan o penetrou. O gemido que ecoou pelo quarto faria com que Alaudi se envergonhasse posteriormente, mas naquele momento pudor e timidez eram as últimas coisas que passavam por sua mente. O lençol vermelho da roupa de cama foi apertado, e o moreno aproveitou que seu amante estava fora de foco para se livrar de sua própria calça e roupa de baixo.
"Desculpe Alaudi, mas eu não consigo mais esperar."
Havia certo desespero no tom de voz de Ivan. O Guardião da Nuvem abriu os olhos e juntou o restante da força que ainda possuía para se virar. Seu rosto afundou-se no travesseiro macio e seus joelhos trêmulos seriam responsáveis pelo apoio do corpo. Ele sabia o que viria em seguida, e encarar o Chefe dos Cavallone estava fora de cogitação, pelo menos por enquanto.
O moreno não perdeu tempo. Uma de suas mãos segurou a fina cintura do Inspetor de Polícia, enquanto a outra guiava sua ereção na direção da entrada de seu amante. O louro apertou o travesseiro com mais força, abafando um gemido ao sentir-se penetrado. A impressão era completamente diferente, e quanto mais Ivan o invadia, mais difícil era saber qual sensação era mais evidente: a dor ou o prazer. Quando um gemido baixo escapou pelos lábios do Chefe dos Cavallone, Alaudi soube que a pior parte havia passado. As duas mãos do moreno passaram a segurar a cintura do homem que estava por baixo, e Ivan retirou-se quase por completo, penetrando-o novamente, mas com um pouco mais de força. O Chefe dos Cavallone repetiu a ação por mais algumas vezes, até sentir que o corpo do Guardião da Nuvem havia se acostumado à invasão. Porém, foi somente quando um gemido extremamente erótico escapou pelos lábios de seu amante, que o moreno pôde finalmente mover-se como queria.
O Inspetor de Polícia empurrou o travesseiro que estava em seu rosto, apoiando a testa no colchão. Seus cotovelos ajudavam a manter o corpo naquela posição, e seus lábios não sabiam proferir nenhum som que não fossem gemidos e palavras desconexas. Suas mãos agarraram com força a colcha rubra. Os nós de seus dedos estavam brancos, e era muito difícil para Alaudi manter o corpo imóvel. Ivan o penetrava com força, mas em um ritmo lento. A cada estocada o Guardião da Nuvem sentia que acabaria desmaiando de prazer. Sua ereção retornara, e ele podia sentir que acabaria atingindo o clímax sem nenhum outro tipo de estímulo. O quarto estava cheio de gemidos e suspiros. As mãos do Chefe dos Cavallone subiam e desciam pelas costas de seu amante, apertando e sentindo a pele pálida. Em determinado momento o moreno aumentou o ritmo e foi então que o louro entendeu que Ivan esteve se controlando o tempo todo.
O orgasmo do moreno chegou primeiro dessa vez. Alaudi tremeu ao sentir o clímax de seu amante dentro dele, mas seus pensamentos teriam de esperar. Uma de suas mãos passou a masturbar sua ereção, e em poucos segundos seu orgasmo pintou a colcha vermelha. Seus joelhos vacilaram, e ele não se importou com a bagunça que provavelmente estava a cama e ele mesmo. O moreno inclinou-se sobre ele, beijando delicadamente a orelha direita e a nuca do homem que estava por baixo. O Chefe dos Cavallone retirou-se de dentro dele com certeza gentileza, virando-o com delicadeza e fazendo com que os dois se encarassem.
Foi naquele exato momento que o Guardião da Nuvem soube que nunca havia realmente feito sexo em sua vida. Suas experiências passadas nunca chegariam àquele nível de intimidade e satisfação. Uma de suas mãos tocou os cabelos negros e úmidos de seu amante. Os olhos cor de mel estavam semicerrados e brilhantes. O tolo e charmoso meio sorriso havia se transformado em algo largo e satisfeito. E ao ver-se refletido naqueles olhos, Alaudi sentiu uma ponta de tristeza e de alegria. Tristeza por ter demorado tanto tempo para estar naqueles braços, e alegria por ter tido a oportunidade de conhecer Ivan. A ideia de passar por aquela vida sem cruzar o caminho daquele homem de repente pareceu impossível.
"Eu lhe darei alguns minutos." O Chefe dos Cavallone depositou curtos e delicados beijos nos lábios do louro.
O Inspetor de Polícia franziu a testa.
"Porque nós vamos continuar, mas dessa vez eu quero vê-lo."
O Guardião da Nuvem tentou não corar, mas foi impossível. A risada baixa e abafada do Chefe dos Cavallone não ajudou, e percebendo que a única maneira de calar a boca daquele homem seria distraí-lo, Alaudi o puxou pelo pescoço, beijando-o com euforia. O sorriso desapareceu aos poucos, e em segundos os dois estavam novamente um nos braços do outro. Os corpos úmidos se apertaram e se esfregaram, até que permanecer naquela posição não foi suficiente. Ivan pegou o travesseiro que o louro havia afastado, colocando-o embaixo do quadril de seu amante e deixando-o um pouco mais alto. O Inspetor de Polícia afastou as pernas por livre e espontânea vontade, recebendo do moreno um sorriso de aprovação como resposta. A cabeça de Alaudi inclinou-se levemente para trás quando o moreno o penetrou, e ao contrário da primeira vez, Ivan iniciou os movimentos em um ritmo rápido.
As expectativas do Guardião da Nuvem foram atingidas naquela noite. A segunda vez foi mais intensa do que a primeira e Ivan foi bem menos cuidadoso. O louro não se importou com as estocadas fortes e o ritmo que o fizeram perder a razão durante todo o tempo. O segundo orgasmo chegou praticamente no mesmo instante para os dois, encerrando aquela primeira noite. Longos e demorados beijos embalaram os amantes durante alguns minutos, até Alaudi sentir o cansaço dominar seu corpo. E a última coisa que ele viu antes de seus olhos se fecharem foi seu reflexo nos olhos cor de mel. Ele estava feliz. Genuinamente feliz.
X
Ninguém havia comunicado ao Inspetor de Polícia sobre o depois. Ivan nunca lhe disse que no dia seguinte ele mal conseguiria se mover e teria de passar boa parte do tempo praticamente deitado e em repouso. O Guardião da Nuvem só percebeu tal fato ao acordar na manhã seguinte. O quarto estava levemente escuro de um lado por causa das cortinas, mas do outro lado havia luz. O moreno estava sentado atrás de sua mesa, e o Inspetor de Polícia coçou os olhos para vê-lo melhor.
"Como se sente?" A voz do Chefe dos Cavallone fez o coração de Alaudi bater mais rápido. Ele estava vestindo apenas a parte de cima de seu pijama, e a consciência de sua nudez, ou melhor, os motivos por trás de sua nudez levaram a cor rubra ao seu rosto pálido. "Consegue se levantar?"
A pergunta pareceu ridícula e sem propósito, mas o louro compreenderia no minuto seguinte que ela fazia muito sentido. Seus pés encostaram no fofo tapete creme, mas assim que fez menção de se levantar, suas pernas simplesmente não obedeceram. A queda que era praticamente iminente foi evitada por dois braços fortes e protetores. Ivan estava ajoelhado ao pé da cama, segurando seu amante e evitando que ele caísse.
"Por isso perguntei como você se sentia." A voz do Chefe dos Cavallone soou carinhosa. Ele ajudou Alaudi a voltar para cama e o cobriu. "Por hora é melhor que descanse um pouco mais. Eu vou preparar a banheira e trarei o café para que você tome no quarto. Não há necessidade para descer."
"Você diz isso porque consegue ficar em pé." O louro tentou não se aborrecer. Ele sabia melhor do que ninguém que não havia motivos para culpar seu amante, mas a raiva conseguia ser maior. A vergonha ao recordar-se da noite anterior começava a perturbá-lo.
"Você irá se acostumar." Ivan sentou-se na beirada da cama e sorriu. O olhar que recebeu do Guardião da Nuvem o fez rir baixo. "Nós teremos tempo de sobra para praticarmos, então não se preocupe."
"Eu não planejo repetir a noite anterior, então não crie esperanças absurdas."
As palavras saíram com desdém, mas não receberam resposta. O moreno apenas afagou o cabelo louro e bagunçado, ficando de pé e seguindo para o banheiro. O Inspetor de Polícia voltou a se deitar, cobrindo-se por inteiro e permitindo-se corar o quanto gostaria já que não poderia ser visto.
Naquela manhã o Guardião da Nuvem restringiu seus movimentos ao segundo andar. O banho havia sido uma excelente ideia, e ele se sentiu uma criança dentro da larga banheira de mármore. Havia bolhas e espumas por todos os lados, mas em determinado momento ele decidiu que era hora de voltar ao quarto. O largo banheiro estava solitário demais, e a pessoa que ele gostaria de ver havia lhe dado a privacidade que ele precisava, mas por incrível que parecesse ficar longe de Ivan naqueles curtos vinte minutos foi doloroso. Francesco estava no quarto quando o louro retornou vestindo uma nova troca (inteira) de pijamas, e o garoto possuía uma expressão triste e preocupada. O Chefe dos Cavallone havia dito ao filho que Alaudi estava se sentindo indisposto, então o garoto de cabelos castanhos trouxe seus bichos de pelúcia favoritos e os colocou sobre a cama, prometendo que isso faria com que seu amigo voltasse a se sentir melhor.
"Eu não vou perturbá-lo, Alaudi. E-Espero que melhore logo."
Havia certa resignação naquelas palavras e o Inspetor de Polícia agradeceu a preocupação, mas disse que não via problemas em tê-lo como companhia. O moreno concordou com aquele comentário e incentivou Francesco a fazer companhia ao louro, já que ele teria de lidar com algumas coisas durante o dia. O futuro herdeiro dos Cavallone sorriu satisfeito, arrastando-se sobre a cama. Ivan lançou um meio sorriso na direção de seu amante antes de sair, e Alaudi fingiu não sentir-se feliz com aquilo. Nós apenas dividimos a mesma cama por uma noite e eu estou agindo como uma mulher idiota e apaixonada.
O garoto de cabelos castanhos foi a companhia do Guardião da Nuvem naquela manhã. No início da tarde o Inspetor de Polícia já estava se sentindo melhor, e resolveu almoçar na sala de jantar. Ivan se juntou a eles no meio da refeição, e naquele curto momento o louro avistou Mário. O homem lançou um carregado olhar ao deixar o cômodo e Giuseppe desculpou-se antes de seguir o irmão. A refeição transcorreu calmamente, e o Chefe dos Cavallone anunciou que acreditava estar livre e que poderia passar à tarde com Francesco e Alaudi. O pequenino comentou que estava praticando a escrita, e havia certo orgulho na maneira como ele disse que conseguia ler livros grandes e "sem figuras."
A sobremesa foi servida, e quando não havia mais motivos para permanecer naquela parte da casa, os três deixaram a sala de jantar. Mário esperava por Ivan do lado de fora, e assim que avistou o homem, Alaudi sentiu o almoço girar em seu estômago. O braço direito dos Cavallone pareceu ter sentido o mesmo. Os olhares trocados pelos dois fizeram o moreno sorrir, sabendo que aquela era sua reação máxima. Se ele gargalhasse seu melhor amigo e seu amante provavelmente não o perdoariam.
"Deixei os papéis no escritório. Não demore, Ivan." O ruivo bagunçou o cabelo de Francesco com as duas mãos, deixando o garoto completamente descabelado. "Por que não vai bolinar Giuseppe no jardim? Seu pai precisa terminar o trabalho."
"O que Peppe está fazendo?" O pequeno não pareceu ficar chateado, seguindo Mário até a saída da mansão.
"Você pode fazer companhia a eles se quiser. Eu estou um pouco atarefado, sinto muito." O Chefe dos Cavallone tinha uma expressão um pouco triste. Seus olhos pediam desculpas.
"Não, obrigado." O Inspetor de Polícia respondeu no mesmo instante. Se ele ficasse no mesmo local que o ruivo as coisas poderiam ficar complicadas. "Eu procurarei algo para ler na biblioteca."
A busca na vasta biblioteca dos Cavallone foi uma tarefa árdua. O louro não sabia ao certo por onde deveria começar, mas não demorou muito tempo para entender como o local fora organizado. Havia uma lista de livros em cima da mesa, e cada estante estava reservada para uma letra. A escolha do Guardião da Nuvem naquele dia foi um ensaio de um escritor francês, e ele seguiu para o escritório ao lado. O moreno ergueu os olhos ao vê-lo entrar, esboçando um sorriso ocupado. Sua mesa possuía duas pilhas de papéis, uma em cada extremidade, e não importasse de qual ângulo olhasse, o louro sabia que seu amante estaria ocupado por um bom tempo.
O Inspetor de Polícia sentou-se em um dos lados do sofá, de frente à lareira, e se pôs a ler. Seus conhecimentos da língua francesa não eram exatos, e ele escolhera propositalmente o livro. Há algum tempo ele havia decidido voltar a estudar a língua, mas nunca encontrava tempo ou oportunidade. Inicialmente as palavras fizeram pouco sentido, mas após cerca de dez minutos ele já conseguia entender o que lia. O enredo o prendeu por mais algum tempo, mas era difícil se concentrar. Seus olhos erguiam-se com frequência, encarando Ivan e seu trabalho. A noite passada brotou em sua mente em determinado momento, fazendo-o corar levemente, voltando à atenção para o livro. Porém, mesmo que estivesse enxergando as letras, o que seus olhos viam eram os braços e lábios do Chefe dos Cavallone.
"Gostando?" O Guardião da Nuvem ergueu os olhos, ficando surpreso ao ver Ivan sentado ao seu lado. Eu nem o vi se aproximar. Minha mente estava longe.
"É interessante." O louro fechou o livro. "Seu trabalho?" As pilhas continuavam intocadas sobre a mesa.
"Eu terei o restante da semana para terminar. Assinei apenas o que era importante. Sou todo seu!" A maneira como aquelas palavras foram ditas fez Alaudi quase rir. Ele tinha certeza de que o homem ao seu lado falava sério.
"Eu não quero, obrigado." A resposta saiu natural, mas não foi sincera. Por dentro o Inspetor de Polícia concordava com o comentário. Ele é meu... todo meu.
"Eu adiei minha viagem, então ficarei na cidade por mais duas semanas. Adoraria se pudesse nos visitar novamente no próximo fim de semana." O moreno não pareceu levar a sério a resposta de seu amante. "Posso pedir que fique mais uma noite? Eu pedirei que o levem até o centro amanhã pela manhã."
O Inspetor de Polícia gostaria de dizer que não haveria problemas, pois seu trabalho estava adiantado e os últimos casos recebidos não eram urgentes ou extremamente importantes, porém, tudo o que ele conseguiu fazer foi menear a cabeça. Ivan pareceu satisfeito com a resposta, erguendo a mão e tocando nos cabelos de seu amante. O toque fez com que Alaudi se arrepiasse, percebendo o quão suscetível ele se tornara. Os dedos do moreno desceram por seu rosto, mapeando o contorno de seu maxilar e terminando na altura do queixo. Ivan inclinou o corpo, erguendo um pouco o rosto do louro e permitindo que seus lábios se encontrassem.
Aquela foi a primeira vez que os dois se beijaram depois do ocorrido na noite passada. O Inspetor de Polícia apertou o livro em suas mãos, fechando os olhos e permitindo-se ser beijado. O beijou foi demorado e profundo. Alaudi conhecia muito bem os lábios de Ivan e as reações que eles lhe causavam, mas havia algo diferente. Seu corpo reagia com mais intensidade, e havia uma parte que parecia reconhecer aquele homem. Suas mãos subiram pelo peito do Chefe dos Cavallone, apertando a fina camisa branca e sentindo o calor da pele. O moreno aproximou-se, passando as pernas do Guardião da Nuvem sobre as suas, enquanto uma de suas mãos descia até a nuca de seu amante, mantendo os rostos ainda mais próximos. Quando o louro fez menção de inclinar-se um pouco sobre o moreno, Ivan interrompeu o beijo, passando a ponta dos dedos pelos lábios rosados de Alaudi.
"Você não está totalmente recuperado e se continuarmos eu não vou conseguir parar." A voz do Chefe dos Cavallone soou próxima e rouca. Havia um estranho e perigoso brilho em seus olhos cor de mel e naquele momento o louro sabia que aquele homem não mentia.
O Inspetor de Polícia manteve o olhar fixo, ponderando suas opções. Seu corpo endireitou-se no sofá e ele ficou em pé, segurando firmemente o livro em suas mãos.
"Beije-me novamente quando estivermos no quarto." O Guardião da Nuvem lançou um rápido olhar para seu amante antes de sair do escritório. Assim que a porta foi fechada, Alaudi respirou fundo e corou. Ele precisaria de um romance maior para se entreter até o anoitecer ou acabaria se deixando levar por seus desejos.
X
Ivan beijou o louro novamente naquela noite, e o Inspetor de Polícia entendeu porque o moreno apenas riu quando ele dissera naquela manhã sobre "nunca mais repetir a noite passada." O corpo de Alaudi não estava recuperado, mas foi impossível se controlar quando o Chefe dos Cavallone o seduziu de maneira tão injusta. Sorriso, olhares, convites... qualquer gesto feito pelo moreno conseguia um tipo de reação por parte do louro. No final ele acabou cedendo, e Ivan o tratou com muito mais delicadeza do que a noite anterior. Os movimentos foram vagarosos, mas intensos. As carícias não possuíram pressa, como se eles pudessem passar o restante da vida em cima daquela cama. Os gemidos se misturaram, assim como seus corpos e seus corações. O Guardião da Nuvem respirou exausto após seu orgasmo, sentindo o corpo extremamente cansado.
O moreno arrastou-se para o lado, perguntando várias vezes como ele se sentia. O excesso de zelo acabou irritando levemente Alaudi, que lançou um olhar frio e carregado de significados. O Chefe dos Cavallone desculpou-se pela última vez antes de trazer seu amante para um gentil abraço. O Inspetor de Polícia fechou os olhos, tendo certeza de que conseguiria dormir tranquilamente naquela posição. Ali, nos braços da pessoa que ele amava, sentindo-se protegido e desejado... definitivamente não havia lugar melhor.
E ele dormiu.
Naquela noite, após semanas, Alaudi teve novamente o sonho. O salão com piso xadrez apareceu diante de seus olhos, mas ao contrário das outras vezes, não foi preciso caminhar para encontrar as portas. As duas estavam ali, bem em frente. O Guardião da Nuvem deu um passo em suas direções, e as encarou. Por um longo tempo aquele estranho e misterioso sonho se repetia. A mesma escolha. A mesma porta. O mesmo fim.
Não... aquela seria a última vez, ele sabia. Aquele seria o último sonho.
O louro deu mais um passo à frente, ficando no limiar das duas portas. Os olhos azuis olharam primeiramente para a direita e depois para a esquerda. Por noites estas portas me assombraram, mas é hora de dar adeus a esse sonho. O Inspetor de Polícia sentia-se tranquilo, como se depois de todo aquele tenho ele houvesse obtido conhecimento relevante o suficiente para deixá-lo mais sábio.
"Você está ai, não está?" A voz de Alaudi soou alta e distinta. Passos foram ouvidos vindo de algum lugar, até que alguém parou ao seu lado.
"Sempre." Ivan vestia um sobretudo creme e parecia muito bem vestido para um simples sonho.
O Guardião da Nuvem esticou levemente a mão, entrelaçando-a a de seu amante. Seus pés moveram-se mais um passo à frente e sua mão esquerda esticou-se na direção da porta da direita.
"Tem certeza?" A voz do Chefe dos Cavallone soou brincalhona. "Você nunca saberá o que existe atrás da porta esquerda. Este é o último sonho."
Alaudi sentiu a maçaneta dourada entre seus dedos.
"As portas nunca foram o enigma, não?" O louro virou o rosto na direção do moreno. "Ambas as portas levam ao mesmo lugar. O problema estava em mim. Eu as cruzava sozinho. Eu não farei isso dessa vez."
O Inspetor de Polícia apertou um pouco mais a mão de Ivan, recebendo um largo sorriso como resposta.
A porta da direita foi aberta e os dois homens caminharam lado a lado, atravessando-a ao mesmo tempo.
X
Os olhos azuis se entreabriram. O Guardião da Nuvem sentia as bochechas úmidas, e uma de suas mãos enxugou seus olhos chorosos. Ele não sabia por que acordara daquela maneira. Seu peito estava leve, e ele não se recordava do que estivera sonhando. A luz que vinha do jardim passava por uma pequena fresta na grossa cortina, iluminando o suficiente para que Alaudi pudesse enxergar o necessário. O moreno dormia profundamente ao seu lado, e ao vê-lo ali, tão próximo e desprotegido, o Inspetor de Polícia sentiu-se mais calmo. Seu corpo virou-se e uma de suas mãos acariciou o belo rosto de Ivan, sentindo a pele quente. Por longos minutos o louro não fez nada além de admirar seu amante dormir. A estranha sensação em seu peito havia desaparecido, e ele lutava contra o sono. Em poucas horas o dia nasceria, e então ele teria de retornar ao seu trabalho. O fim de semana pareceria um sonho, uma lembrança, e a espera pelo próximo encontro seria torturante, cruel e solitária.
Alaudi nunca havia se sentido daquela forma. Ele não sabia o que era esperar. Ele não conhecia a ansiedade dos amantes, e não compreendia que suas lágrimas eram parte da saudade antecipada. O moreno moveu-se na cama, abraçando o corpo magro do Guardião da Nuvem inconscientemente. O nome do louro escapou pelos lábios do Chefe dos Cavallone e o Inspetor de Polícia esboçou um meio sorriso, fechando os olhos e decidindo render-se ao sono. Aquele não seria um adeus, apenas um breve "até logo".
Ele sabia que a partir daquele dia, ele e Ivan sempre andariam lado a lado pelo mesmo caminho.
Continua...
