VIII
"Você deveria conhecer meu Guardião da Nuvem, Ivan. O nome dele é Alaudi. Ele é uma pessoa extremamente peculiar." Giotto pousou a xícara sobre a mesinha de centro. Sua voz soava divertida. "Ele trabalha como Inspetor de Polícia e está na maioria das vezes de cara fechada, mas eu sei que no fundo... bem no fundo ele é uma boa pessoa."
"É mesmo? Então eu adoraria conhecer essa pessoa."
O Chefe dos Cavallone abriu os olhos. Seus lábios haviam acabado de murmurar o "conhecer essa pessoa", mas tudo o que ele enxergava era o teto branco na direção de seus olhos. A voz de Giotto e suas palavras ecoaram na mente do moreno como resquícios de um sonho que ele não se recordava muito bem. Mas eu conheço aquelas palavras. Eu as ouvi na primeira vez que Giotto mencionou Alaudi. Ele estava extasiado por ter encontrado alguém para ocupar o cargo de Guardião da Nuvem.
Ivan retirou uma mecha de cabelo de cima de seus olhos, soltando um longo suspiro. Aquela conversa havia acontecido há quase dois anos, mas ele se lembrava nitidamente da maneira como se sentiu levemente incomodado com o nome daquele homem. Eu era outra pessoa naquele tempo. O eu daquela época só queria saber quem poderia ser capaz de despertar algum interesse no Chefe dos Vongola. Eu só queria vê-lo por capricho. O Chefe dos Cavallone virou levemente o rosto ao sentir algo se mexer ao seu lado. A pessoa dormia profundamente, totalmente encoberta pela grossa manta vermelha, deixando apenas os cabelos louros como evidência de que era uma pessoa e não um monte de travesseiros. Aquela visão fez o moreno sorrir de orelha a orelha, virando-se melhor e abraçando seu amante por trás. Alaudi moveu-se um pouco, preguiçoso e sonolento.
As mãos de Ivan sentiram o tecido da camisa de flanela que o Inspetor de Polícia vestia. Minha camisa. Ele fica adorável quando veste minhas roupas. Os toques desceram até a cintura, sentindo o começo da roupa de baixo. Por decisão do Guardião da Nuvem eles não dormiam nus. Aquela conversa havia surgido em uma manhã de sábado há cerca de duas semanas. O Chefe dos Cavallone se esquecera de trancar a porta e Francesco adentrou silenciosamente, feito um gato, acordando-os com uma tempestuosa briga de travesseiros. O problema foi que quando os três desceram para o café, o futuro herdeiro simplesmente disse para Giuseppe, em alto e bom tom, que a partir daquele dia ele dormiria nu. As palavras exatas foram: "A partir de hoje dormirei sem roupas, Peppe. Porque é assim que Papà e Alaudi dormem então eu seguirei o exemplo." A expressão do Inspetor de Polícia dificilmente sairia da mente do moreno. Os olhos azuis o perfuraram, fazendo-o sentir até mesmo frio, tamanho o desdém. Giuseppe corou e tentou persuadir o garoto de cabelos castanhos, mas Mário riu alto e olhou diretamente para o Guardião da Nuvem e naquele momento Ivan soube que era um homem morto.
"Então vocês dormem nus? Talvez todos devessem dormir assim a partir de agora. Grande ideia, Francis." O ruivo não deixou passar a oportunidade.
O comentário foi seguido de outra risada, e mesmo após a saída dos dois braços direitos o clima não melhorou. O louro não tocou na comida, e quando os dois retornaram ao quarto, o Chefe dos Cavallone entrou em uma longa e passional discussão, que resultou na ideia (entenda-se "obrigação") de não dormirem nus. Eu poderia trancar a porta toda noite, o moreno afundou o nariz nos cabelos de seu amante. Ele podia sentir seu corpo responder àquela proximidade, e sabia muito bem que Alaudi não acordaria para lhe oferecer um pouco de ação matinal. Ele cheira tão bem. Eu quero possuí-lo nesse exato momento.
O Guardião da Nuvem moveu-se levemente e Ivan percebeu que precisava de um banho ou acabaria perdendo a cabeça. O caminho foi feito com passos silenciosos, mas assim que entrou no banheiro o moreno se livrou da calça do pijama e da roupa de baixo, seguindo na direção do chuveiro. A água caiu fria em seus ombros, e mesmo estando no inverno, não haveria como a temperatura ser outra. O Chefe dos Cavallone apoiou uma das mãos no piso azul-claro, enquanto gemia baixo. A outra mão tocava sua ereção com movimentos rápidos e tudo o que seus olhos fechados enxergavam era a visão do louro.
As fantasias do moreno variavam de acordo com seu humor. Alaudi passava de ardente e despudorado para casto e puro de uma hora para outra. Naquele dia o Guardião da Nuvem o incentivava a mover-se um pouco mais rápido. De repente as mãos de Ivan estavam ao redor da cintura fina de seu amante, penetrando-o com força. A voz do louro soava erótica e cheia de luxúria, chamando seu nome na companhia de meia dúzia de palavras extremamente sórdidas. Quando o orgasmo chegou, o Chefe dos Cavallone apoiou a testa no azulejo, abrindo os olhos e avistando somente sua solitária mão. Um longo suspiro o fez entrar totalmente debaixo do chuveiro. Depois da primeira vez que ambos dividiram a mesma cama, todas as fantasias do Chefe dos Cavallone se tornaram obsoletas. Nenhuma delas era capaz de satisfazê-lo como o louro. Se eu pensar sobre isso, nenhuma pessoa até hoje conseguiu me deixar tão obcecado quanto ele.
O banho foi demorado e serviu mais para colocar a cabeça do moreno para pensar. A esponja desceu por seus ombros e peitoral, mas os movimentos eram automáticos. Ivan repassava mentalmente sua agenda, tentando se lembrar de tudo o que tinha para resolver naquele dia. Eu assinarei o último documento até o pôr do sol custe o que custar. A promessa para aquela noite era doce e perfeita demais, e ele faria o que fosse preciso para que tudo corresse conforme o combinado. Mário repassou duas vezes minha agenda e se eu não perder tempo estarei livre. O moreno inclinou a cabeça para trás, terminando de lavar os cabelos. Será a primeira vez que visitarei a casa de Alaudi na condição de seu amante. A última vez que estive lá meu coração estava cheio de dúvidas e esperanças. Eu sai um covarde, mas hoje entrarei como um apaixonado. Aquele pensamento fez o Chefe dos Cavallone sorrir, sentindo o rosto corar. E pensar que eu tinha absoluta certeza de que seria rejeitado...
O Inspetor de Polícia ainda dormia quando Ivan deixou o banheiro usando apenas uma toalha branca ao redor da cintura. O moreno abriu o guarda-roupa com delicadeza, vestindo-se e deixando o quarto. O corredor estava frio e ele fechou os últimos botões do casaco negro que havia pegado no fundo do guarda-roupa. Havia movimento no andar debaixo, mas ele primeiro precisava fazer sua visita matinal a Francesco. Assim como seu amante, o garoto de cabelos castanhos dormia profundamente quando Ivan adentrou ao quarto. Em sua larga cama havia dezenas de bichos de pelúcia, e o garoto dormia abraçado a uma grande tartaruga, presente de Alaudi. O moreno sentou-se na beirada da cama e tocou os cabelos do filho, sorrindo ao vê-lo dormir tão tranquilamente. Ele é um garoto forte, até mais forte do que eu mesmo. O sorriso desapareceu dos lábios do Chefe dos Cavallone. Seus olhos cor de mel correram pelo quarto, lembrando-se do dia que contou a Francesco sobre Graziella. Os dois entraram no escritório e Ivan precisou juntar toda coragem que possuía para comunicar que o pequeno nunca mais veria sua mãe. Graziella mal o visitava, mas ela continuava sendo a mãe. O futuro herdeiro ouviu a tudo sem esboçar nenhuma reação, comentando um baixo "Entendo", quando não havia mais nada o que ser dito. Naquele dia o garoto de cabelos castanhos não demonstrou tristeza ou nenhum sentimento negativo. Ele brincou com Giuseppe e foi vítima das brincadeiras travessas de Mário, agindo como se nada tivesse acontecido. Entretanto, no meio da noite Ivan viu quando a porta de seu quarto foi aberta e Francesco entrou chorando e soluçando. O garoto chorou em seu colo até seu corpo não ter mais forças, dormindo logo em seguida.
O Chefe dos Cavallone permitiu que o garoto passasse a noite em sua cama, mas ele mesmo não dormiu. O moreno sentou-se em frente à janela e passou a noite inteira com os olhos no céu italiano. Ele estava triste, mas sua tristeza não lhe deixava se quer derramar uma lágrima para amortecer aquelas sensações. Ivan estava triste por Graziella, a bela mulher de cabelos castanhos e sorriso infantil que havia concordado em dormir com outro homem para salvar sua Família. Triste por Francesco, pois ele teria de ser mãe e pai para um garoto, e no fundo o moreno desconfiava que talvez não conseguisse ser nenhum deles. E finalmente, triste por ter suas esperanças despedaçadas por uma palavra tão pequena. Eu nunca tive nenhuma esperança real quanto a isso. Eu sempre soube que Alaudi nunca me aceitaria. Naquela noite o moreno decidiu guardar aqueles sentimentos no mesmo local em que guardaria a morte de Graziella. Tudo não passaria de lembranças.
Francesco moveu-se na cama, trazendo o moreno de volta a realidade. Recordar-se daquela noite fez Ivan juntar as sobrancelhas de maneira aborrecida. O Chefe dos Cavallone inclinou-se e depositou um amável beijo na testa de seu filho, deixando o quarto e não se surpreendendo por ver seu braço direito esperando-o do lado de fora.
"Bom dia, Mário." O moreno coçou a cabeça, bocejando.
"Bom dia." O ruivo parecia tão sonolento quanto o próprio Chefe. "Você tem dez minutos para tomar café. Os relatórios foram deixados no escritório."
"O que eu comerei em dez minutos?" Ivan soltou outro bocejo enquanto desciam as escadas.
"Não preciso lembrá-lo que a ideia foi sua. Se ainda quiser ter a noite livre terá de seguir o que combinamos." Mário tinha uma expressão severa. O Chefe dos Cavallone ergueu a mão, bagunçando os cabelos de seu amigo. "Por que você não aproveita a noite também? Eu disse que você está livre aos fins de semana."
A resposta foi um baixo "aham", dito sem nenhum tipo de sinceridade. O braço direito lembrou novamente Ivan sobre os dez minutos antes de se retirar, e com olhos preocupados o moreno viu seu melhor amigo se afastar. Em outros tempos Mário teria rido gostosamente e tentado arrastá-lo para algum lugar obscuro de Roma, ou simplesmente anunciado que não retornaria até segunda-feira. Quando a segunda chegasse, o ruivo teria uma expressão satisfeita, demonstrando claramente que havia passado o fim de semana ao lado de alguma excelente amante. Porém, nos últimos dois meses o único sentimento que Mário parecia carregar era o amargo gosto de um amor não correspondido. Eu gostaria de poder ajudá-lo.
Ivan entrou na sala de jantar e encarou a larga mesa. Os lugares reservados para Francesco e Alaudi estavam vagos, e aquilo o fez desistir de um rápido café da manhã solitário. O Chefe dos Cavallone pegou uma xícara de café, dois croissants e avisou que comeria no escritório. Um dos subordinados insistiu para que ele se alimentasse direito, mas o moreno apenas riu e seguiu para o outro lado da mansão. O trabalho estava exatamente onde seu braço direito mencionara. Sua mesa possuía três pilhas de relatórios e documentos que roubariam sua atenção durante todo aquele dia. Ivan pousou sua xícara em um dos raros espaços vagos, suspirando ao pegar o primeiro relatório. Esta noite. Esqueça a quantidade de trabalho chato e foque-se na noite que você terá. Nada mais importa.
X
A metade da manhã do moreno passou arrastada e extremamente enfadonha. A ideia de ser otimista e positivo morreu após dez minutos de leitura, percebendo o quanto ele odiava trabalho de escritório. O moreno adorava viajar, era definitivamente a melhor parte em seu trabalho. Entretanto, há alguns meses deixar a Itália se tornou um pouco pesaroso para o Chefe dos Cavallone. Ele, que costumava receber animadamente os convites para conhecer outros Chefes e lugares, agora ponderava se deveria ou não aceitá-los. Quando os convites eram aceitos ele permanecia apenas o tempo necessário, retornando a Roma o quanto antes. Francesco era responsável por metade dessa motivação. Quando o garoto era apenas um bebê, Ivan sabia que ele não se importaria com quem ficasse, mas agora era difícil deixá-lo. O herdeiro dos Cavallone era uma das pessoas mais importantes em sua vida, e de nada valia estar do outro lado do mundo se seu coração permanecia na Itália.
A outra motivação do moreno entrou no escritório quando o trabalho já se tornava insuportável. Alaudi bateu três vezes antes de abrir a porta, e aquela visão quase levou lágrimas aos olhos cor de mel do Chefe dos Cavallone. O relatório foi deixado sobre a mesa e ele fez menção de se levantar, mas o Guardião da Nuvem fez sinal para que ele não se movesse.
"Tenho conhecimento que essas pilhas de papéis precisam ser terminadas ainda hoje, então não se incomode. Eu vim apenas vê-lo por alguns instantes."
"Como posso me focar no trabalho agora que você está aqui?" Ivan deu a volta na mesa. O trabalho esperaria.
"Então eu me retiro." O louro deu meia volta, mas antes que pudesse abrir a porta seu pulso foi segurado pela mão ágil de seu amante.
"Cinco minutos. Ofereça-me cinco minutos e eu terei motivação para continuar o trabalho."
O Inspetor de polícia pareceu ponderar, dando de ombros. O moreno sorriu, passando as mãos ao redor da cintura de Alaudi e sentindo seus lábios sorrirem. Era assim sempre que ele encontrava aquele homem. Seu coração se tornava mais leve e seu rosto não conhecia outra expressão além da genuína felicidade.
"Bom dia, Alaudi."
"Bom dia." O Guardião da Nuvem respondeu baixo. Seus olhos desviaram para o lado.
"Tomou café? Francis acordou?"
"Ele está com Giuseppe. Eles estão combinando de andar a cavalo durante a manhã."
"Oh! Essa é uma ótima ideia. Por que não se junta a eles? Atrás da mansão existe um espaço para equitação, você vai se divertir."
O louro entreabriu os lábios para responder, mas tudo o que conseguiu expressar foi um discreto menear de cabeça. O moreno apertou um pouco mais o abraço ao redor de seu amante, trazendo-o um pouco mais para perto. Os dois estavam oficialmente juntos a pouco mais de dois meses e nesse curto espaço de tempo ele aprendeu a ler aquele homem muito bem. Alaudi era cheio de entrelinhas e palavras escondidas. Seus sentimentos eram sempre contidos e discretos, e qualquer outra pessoa teria visto aquele gesto como algo banal, mas não ele.
"... Ou você pode me fazer companhia enquanto leio aqueles terríveis relatórios. A continuação daquele livro que você estava lendo poderia entretê-lo nesse tempo."
O Inspetor de Polícia tinha um brilho diferente nos olhos, mas sua resposta foi um baixo "Pensarei a respeito." Ivan sorriu satisfeito, inclinando o rosto e sentindo o coração bater mais rápido, esperando o primeiro contato com o louro.
"Seus cinco minutos terminaram." O Guardião da Nuvem disse assim que os lábios de ambos estavam próximos. Sua voz saiu baixa, quase um sussurro.
O Chefe dos Cavallone riu, beijando os lábios de seu amante com gentileza. Alaudi não fugiu ao contato ou tentou afastá-lo. Seus lábios se entreabriram e Ivan deslizou habilmente a língua dentro da boca do homem que estava em seus braços, intensificando o beijo. Seus braços apertaram o louro, e ele sentiu duas mãos subindo por seu peito. O beijo durou outros cinco minutos, e quando terminou, Ivan sentiu que havia obtido energia suficiente para uma semana de trabalho árduo.
Alaudi seguiu até uma das estantes, pegando o livro que o moreno mencionara e sentou-se em uma das poltronas. O Chefe dos Cavallone voltou para sua cadeira, e o relatório que ele havia interrompido a leitura não pareceu tão maçante. Porém, um novo desafio havia surgido: apesar de ter obtido motivação para trabalhar, era muito difícil manter os olhos naqueles papéis, quando a visão do Inspetor de Polícia do outro lado do cômodo parecia muito mais convidativa.
X
O dia de Ivan passou muito mais arrastado do que ele esperava. Sua única real pausa foi para o almoço, e mesmo nesse pequeno espaço de tempo Mário mostrou-se presente após trinta minutos, lembrando seu Chefe que as pilhas de relatórios não seriam assinadas sozinhas. O moreno cogitou a ideia de simplesmente jogar tudo dentro de uma lareira e esperar que uma nova leva de relatórios fosse feita, mas ele sabia muito bem que seu braço direito jamais cairia naquele truque. Mário provavelmente tem uma cópia de tudo isso em algum lugar. No instante em que eu sumir com aquelas ele terá outras no mesmo instante, sem contar que ouvirei um sermão terrível. O Chefe dos Cavallone despediu-se de deu filho e amante, retornando ao escritório. A tarde foi ainda mais maçante, pois Alaudi decidiu brincar com Francesco no segundo andar, e nenhuma alma apareceu para lhe visitar. Então, quando a última folha foi assinada, Ivan apoiou a testa na mesa, sentindo as mãos doloridas, mas o espírito livre. O sol dava sinais de que iria se pôr a qualquer momento e aquela visão trouxe novamente vida aos olhos cor de mel, que nas últimas quatro horas só conheceu propostas e acordos e assuntos chatos.
"Bravo!" O braço direito dos Cavallone entrou no escritório batendo palmas. Os olhos verdes fitaram as pilhas de papéis com orgulho. "Viu? Não foi tão difícil."
A resposta do moreno foi um suspiro cansado.
"Suba e vá tomar um banho. Eu preparei o carro. Você merece um descanso, Ivan."
O Chefe dos Cavallone ergueu o rosto, fitando o homem que estava em frente à sua mesa. Há quantos anos eles eram amigos? Todos. Mário estava ao seu lado desde sempre. Os dois dividiram berços, brinquedos e até mesmo amantes. Porém, naquele momento ele sentia como se houvesse um abismo entre eles, e no fundo o moreno sabia bem o nome desse problema. Eu quero ajudá-lo.
"Eu vou lhe fazer uma pergunta e quero que seja honesto comigo. Ivan apoiou as mãos sobre a mesa. Seus olhos estavam sérios.
"Eu posso escolher não responder." Mário tinha um presunçoso meio sorriso nos lábios. Era sempre assim. Aquele homem nunca levava nada e ninguém a sério, com exceção do trabalho. Naquele quesito o ruivo era impecável.
"Eu posso ordenar que me responda e você sabe disso." A seriedade do olhar também estava presente na voz do moreno.
O braço direito manteve o meio sorriso, não se abalando com o rumo que aquela conversa havia tomado.
"Você está realmente interessado naquele homem?"
Mário não respondeu. Os olhos verdes continuavam com o mesmo tom opaco, como se ele nem se quer tivesse ouvido a pergunta.
"Eu... Eu não irei perder tempo com discursos, porque não tenho moral alguma para isso." O Chefe dos Cavallone coçou a nuca, incomodado. "E você me conhece bem demais para saber que qualquer coisa que eu diga soará hipócrita, ainda mais porque eu estou realmente feliz nesse momento. Mas você é meu melhor amigo, Mário, e antes de ser meu braço direito você é praticamente meu irmão, então, por favor, responda minha pergunta."
O ruivo desfez o sorriso e abaixou os olhos. O moreno sabia que primeiro precisaria atravessar a máscara que seu amigo usava para então chegar naquele homem que esteve ao seu lado durante todos aqueles anos, mas que poucos conseguiam enxergar. O Mário que Alaudi e provavelmente Giulio conheciam era apenas um dos lados de uma pessoa muito complexa.
"Eu não sou você, Ivan. Eu não ficarei correndo atrás de alguém que me rejeitou. Eu não preciso disso."
O Chefe dos Cavallone sorriu sem graça. Lembrar-se das noites que passou bebendo e reclamando com seu braço direito por causa da rejeição do Guardião da Nuvem o deixava muito envergonhado.
"O único motivo que me fez não desistir de Alaudi foi porque eu sabia que no fundo ele também gostava de mim. Todas aquelas palavras grosseiras e a maneira como ele sempre me afastava... eu soube desde a primeira vez que o vi que... era ele. Que valeria a pena insistir um pouco mais, mesmo eu tendo quase desistido."
"Nem todas as pessoas nasceram para isso. Eu não gosto da pessoa que você escolheu para compartilhar sua vida, mas foi uma escolha sua, Ivan, e eu sempre a respeitarei." O ruivo colocou uma mecha atrás da orelha. Seus cabelos eram lisos e encostavam-se à altura dos ombros. "Mas eu não ficarei atrás de alguém que não me respeita."
"Você tem certeza disso?" O moreno hesitou. Ele sabia que existia uma linha que não deveria ser cruzada, mesmo que a pessoa fosse Mário.
"Ele disse claramente que sou o tipo de pessoa que ele mais detesta. O quão claro isso pode ser?" O braço direito dos Cavallone sorriu, mas não havia sinceridade ou felicidade no gesto. "Agradeço por se preocupar, mas você deveria canalizar essa energia para seu filho." O ruivo voltou a colocar sua expressão sarcástica ao ver a reação de seu amigo. "Pois Giuseppe está tentando explicar por que ele não pode ir com você para o centro de Roma e conhecendo meu irmão como conheço, Francis irá enganá-lo então sugiro que vá fazer o seu trabalho como pai. Eu quero ouvir seus motivos para deixar o garoto sozinho em uma mansão tão grande."
A ironia na voz de Mário fez Ivan rir e ficar em pé.
"Eu irei, eu irei." O Chefe dos Cavallone deu a volta na mesa, passando por seu amigo, mas abaixando a voz quando estavam lado a lado. "Você merece ser feliz como qualquer outra pessoa, Mário."
O moreno colocou a mão sobre o ombro de seu braço direito antes de deixar o escritório. Seu sorriso desapareceu e seus olhos cor de mel se abaixaram. Ele estava feliz porque passaria uma noite com seu amante, mas havia uma parte em Ivan que entendia muito bem a dor que seu amigo estava passando. Eu já estive naquela mesma posição. Eu sei o que é amar alguém e ouvir que essa pessoa não sente o mesmo. O não do Guardião da Nuvem tirou noites de sono do Chefe dos Cavallone, e a vontade de retornar aos velhos hábitos de companhias fáceis lhe pareceu tentadora, mas ele não conseguiu. Depois que Alaudi entrou em sua vida, foi como se as outras pessoas perdessem o encanto. Por isso eu queria que ele tentasse um pouco mais. Eu sei que ele não está feliz dormindo na cama de estranhos.
Mário estava certo quando disse que Ivan deveria ir pessoalmente falar com o filho. Ao entrar no quarto da criança, o moreno chegou no exato momento em que Giuseppe tentava, talvez pela milésima vez, convencer seu futuro Chefe de que seu pai retornaria no dia seguinte.
"Eu sei. Mas eu quero ir também." O garoto de cabelos castanhos estava sentado em sua cama, mas assim que avistou o pai, suas perninhas correram ao seu encontro. "Papà, eu prometo, eu não farei bagunça, eu irei me comportar, então, por favor, por favor, me deixe ir!"
O Chefe dos Cavallone olhava para baixo, encarando aquela pequena figura que abraçava suas pernas. Os olhos cor de mel que o encaravam estavam vermelhos, e o garoto provavelmente estivera chorando. Por um momento ele pensou em aceitar. Alaudi mesmo já havia permitido a ida de Francesco, mas as oportunidades nunca surgiam. Porém, infelizmente, naquele dia ele teria de ser o vilão.
"Desculpe, Francis, mas você não poderá ir dessa vez."
Os olhos do garoto de cabelos castanhos encheram-se de lágrimas no mesmo instante. Elas escorreram por aquele belo e infantil rosto, em um choro mudo e desesperado. O futuro herdeiro dos Cavallone não costumava fazer escândalos. Todos os seus pedidos e reações eram contidos, e mesmo naquela situação ele sabia melhor do que ninguém que se Ivan dissera não, então aquela era a última palavra. O moreno olhou para Giuseppe e o homem de longos cabelos louros esboçou um sorriso, demonstrando que simpatizava com a situação, mas entendia que seu Chefe não poderia ir.
"Você poderá ir na próxima semana. Seu pai não estará na cidade, então eu lhe farei companhia."
A voz veio da direção da porta aberta. O Chefe dos Cavallone virou o rosto, encarando a figura do Guardião da Nuvem. Alaudi tinha os braços cruzados e olhava a cena com uma expressão séria. O garoto de cabelos castanhos limpou os olhos com as costas das mãos, mas assim que as lágrimas antigas foram enxugadas, novas escorreram por suas bochechas. O Inspetor de Polícia descruzou os braços e os esticou, chamando o menino para ir até onde ele estava.
O choro de Francesco foi acompanhado por passos rápidos e levemente desajeitados. O garoto se jogou nos braços do louro, chorando alto e desesperado. Ivan olhou a cena com certo assombro. O menino nunca agia daquela forma com ele, salvo a noite em que o pequeno apareceu em seu quarto, chorando pela morte da mãe. Durante todos aqueles anos Francesco sempre se comportou de maneira contida e madura. Madura? Por Deus, como pude esquecer que ele só tem cinco anos? Aquele pensamento o deixou sério e seus olhos se abaixaram. Desde o começo o moreno sabia que teria de ser pai e mãe para aquela criança, mas ao notar que não fora capaz de reparar em algo tão elementar, o Chefe dos Cavallone sentiu o gosto amargo da derrota em sua boca.
"Mas que escândalo!" Mário apareceu atrás de Alaudi, olhando de Ivan para Giuseppe e somente depois para o Guardião da Nuvem e Francesco. "Por que você está chorando, Francis?"
A resposta foram mais duas gordas lágrimas.
"Abaixe sua voz, está assustando a criança." O louro ficou em pé. Ele o braço direito dos Cavallone eram praticamente da mesma altura. "Você deveria demonstrar um pouco mais de respeito pelo futuro Chefe dessa casa."
O sentimento de culpa que o moreno sentia desapareceu naquele mesmo instante. As brasas de uma grande fogueira começavam a queimar bem diante de seus olhos, e naquele momento Ivan soube que teria de deixar para ponderar sobre seu papel como pai em outra oportunidade. Se seu amante e seu melhor amigo começassem uma briga, ele tinha certeza de que acabaria levando a pior.
"Acredito que você é o único que não sabe o que significa respeito." O ruivo ergueu uma sobrancelha. "Essa não é sua c-"
"CHEGA!"
A voz soou alta e grossa. Todos os olhos se viraram na direção que pareceram tê-la ouvido, e o Chefe dos Cavallone precisou mover o corpo inteiro, porque era difícil acreditar que a pessoa que havia gritado foi justamente Giuseppe. O rapaz de cabelos longos e louros, geralmente presos em uma bela trança, tinha uma expressão séria, e assim que conseguiu a atenção dos presentes, seus passos cruzaram o quarto e ele se aproximou da porta, segurando uma das mãos do pequeno Francesco, que estava tão surpreso quanto os demais.
"Francamente, vocês deveriam sentir vergonha por estarem discutindo na frente de uma criança." A voz sempre baixa e doce havia dado lugar a um tom extremamente masculino. "Mário, isso não é problema seu, então não interfira. É meu trabalho garantir o bem estar de Francesco, limite-se a tomar conta do seu Chefe." Os olhos verdes pareciam queimar de raiva e foram pousados em Alaudi em seguida. "Assuntos relacionados à agenda de Francesco devem ser discutidos primeiramente comigo, então se deseja levar o garoto para sua residência na próxima semana, poderemos conversar em outra oportunidade. Entretanto, aviso de antemão que o acompanharei o tempo todo." Giuseppe virou metade do rosto, lançando a Ivan um olhar de pura reprovação. "O senhor estava de saída, não se preocupe, pois eu resolverei o problema." O olhar do futuro braço direito caiu sobre o menino, e o garoto de cabelos castanhos enxugou o restante das lágrimas no mesmo instante. Seus olhos cor de mel brilhavam, mas não era medo, mas sim pura admiração. "Vamos procurar algo para comermos. Nós precisamos conversar, jovem Chefe."
Os dois deixaram o quarto, e os três homens não ousaram dizer uma única palavra. Mário deixou o quarto de cabeça baixa, e o Chefe dos Cavallone moveu-se devagar, ainda surpreso com o que havia acabado de presenciar.
"Vamos, o sol já se pôs."
Alaudi apontou para fora do quarto. O moreno o acompanhou através do corredor, mas nenhum deles parecia ter coragem de comentar o que acabara de acontecer. Ivan só conseguiu abrir a boca para avisar que tomaria um banho antes de ir, e o Guardião da Nuvem sentou-se em um dos sofás, mostrando que esperaria pacientemente. O banho de Ivan foi rápido, e ele não se importou muito com a roupa que usaria.
"Desculpe pelo que aconteceu." O Chefe dos Cavallone resolveu abrir a boca enquanto fechava os botões do sobretudo cor creme. "Eu nunca vi Giuseppe daquele jeito."
"Não tem nada o que ser desculpado. Ele estava fazendo o trabalho dele." O louro ficou em pé e caminhou até seu amante. "Eu conversarei com ele sobre o próximo fim de semana, e se não for incômodo para você, eu gostaria que seu filho ficasse comigo durante aqueles dias. Eu venho buscá-lo e o trarei de volta no domingo."
"Se ele não for dar trabalho ou incomodá-lo, você tem minha autorização." Ivan sorriu. A ideia do Guardião da Nuvem cuidando de Francesco o deixava incrivelmente feliz. Sem contar que ele ficava mais tranquilo sabendo que o filho tinha companhia.
"Ele é um garoto, não da trabalho nenhum, diferente do pai." O Inspetor de Polícia bateu levemente com as costas das mãos no peito do homem que estava à sua frente.
O Chefe dos Cavallone riu, inclinando o rosto e beijando gentilmente os lábios de Alaudi. O louro o segurou pelo sobretudo quando os lábios pretendiam se afastar, e Ivan viu naquele gesto a oportunidade perfeita. Ele deixou que o Guardião da Nuvem o puxasse e os dois se beijaram novamente, mas dessa vez de maneira mais intensa. O moreno sorriu quando o beijo terminou, ajeitando o sobretudo e pronto para sair do quarto.
Francesco os esperava no final da escadaria. O garoto parecia bem mais animado e segurava na mão de Giuseppe com orgulho. O futuro braço direito corou ao ver o Chefe da casa descer, fazendo uma exagerada reverência e desculpando-se pela cena que havia causado. Ivan riu e pediu que ele não se desculpasse, agradecendo sinceramente pela preocupação e trabalho que o louro vinha desempenhando.
"Vão com cuidado e trabalhem direito." O garoto de cabelos castanhos enroscou-se nas pernas do pai e riu. Seus olhos ainda estavam vermelhos por causa das lágrimas, mas seu humor parecia ter melhorado. "Eu conversei com Peppe e ficarei hoje em casa. Ele prometeu ler uma história."
"Escolha uma boa história então." O Chefe dos Cavallone abaixou-se para ficar na altura da criança, ajeitando uma mecha rebelde de cabelo castanho. "Papà estará de volta amanhã cedo, então se comporte, está bem?"
"Francis será um bom garoto." O herdeiro dos Cavallone riu quando recebeu um estalado beijo do pai em sua bochecha esquerda. "Bom trabalho, Alaudi."
O Guardião da Nuvem bagunçou um pouco o cabelo da criança, esboçando um tímido meio sorriso. A desculpa usada por eles foi trabalho, e o moreno se sentia um pouco incomodado por mentir para o filho, mas por enquanto era tudo o que ele poderia dizer.
Os dois homens deixaram a mansão e Mário os esperava em frente ao carro. O ruivo tinha uma expressão séria enquanto entregava a chave para Ivan, e o moreno sabia bem o que vinha em seguida.
"Eu estarei bem, não se preocupe."
"Bem? Eu acreditaria se eu estivesse ao seu lado, mas não me peça para confiar nesse homem." A voz do braço direito saiu arrastada. A chave foi entregue a Ivan e o ruivo afastou-se com passos pesados.
O Chefe dos Cavallone suspirou e seguiu para o carro. Alaudi já havia entrado, e assim que se sentou o moreno sentiu os olhos azuis em sua direção. Eles estavam pesados e cheios de significados.
"Não. Eu não vou despedir o Mário."
O louro virou o rosto para o lado e soltou um baixo suspiro. Ivan riu e deu partida no veículo, decidido a esquecer os problemas e começar a aproveitar aquela noite. Seu coração bateu mais rápido ao deixar a mansão para trás, e quando os dois cavalos se afastaram na saída do portão, o Chefe dos Cavallone deixou que seus dedos se entrelaçassem aos de seu amante. O Guardião da Nuvem pareceu não se importar, movendo um pouco os dedos e permitindo que sua mão também entrelaçasse a de Ivan. Eu amo esse homem. Eu amo muito esse homem.
X
Aquela seria a primeira vez que Ivan entrava na residência de Alaudi com o título oficial de amante. Nas duas últimas vezes que esteve ali, o moreno lutou bravamente contra seus mais íntimos sentimentos, certo de que não importava o quanto amasse o louro, aquele amor jamais seria recíproco.
Alaudi morava em uma rua calma, onde as casas eram lado a lado e praticamente iguais. O carro estacionou em frente ao pequeno portão de entrada, e da calçada até a porta era preciso subir uma pequena escadaria com cerca de dez degraus. O Chefe dos Cavallone ajeitou o sobretudo, seguindo seu amante e tentando ao máximo parecer o mais normal possível, mesmo que por dentro ele estivesse receoso.
Ivan nunca entrou na casa de nenhum de seus relacionamentos anteriores. Todos os encontros foram feitos em quartos de hotéis, incluindo a noite com Graziella. Então, para o moreno cruzar aquela porta de entrada era preciso uma dose extra de coragem.
O Inspetor de Polícia parecia sentir a tensão que vinha de sua companhia, pois assim que a porta foi fechada, o Guardião da Nuvem olhou-o sério.
"Eu não estou bravo por causa do seu empregado se é isso que te preocupa."
O Chefe dos Cavallone franziu a testa. Ele não se lembrava da discussão.
"Oh, eu não estou preocupado com isso." O moreno respondeu coçando a nuca e retirando o sobretudo, pendurando-o atrás da porta. "Eu só estou um pouco nervoso por estar aqui."
"Não é a primeira vez que você pisa nesta casa." O louro também retirou seu sobretudo, deixando-o ao lado do de Ivan. "A casa é pequena, mas sinta-se a vontade."
"Obrigado."
O Chefe dos Cavallone seguiu seu amante até a cozinha. Depois de uma longa conversa eles combinaram que o moreno ficaria responsável pelo jantar enquanto Alaudi tomaria banho. O Inspetor de Polícia tentou tirar aquela ideia absurda da cabeça de Ivan, lembrando-o que da última vez que ele tentou cozinhar, metade dos utensílios da casa foram para o lixo. No final o Chefe dos Cavallone ganhou a disputa e o Guardião da Nuvem precisou resignar-se a apenas acreditar em seu amante.
"Tudo o que você precisa está na despensa. Siga exatamente o que escrevi e se sentir vontade de adicionar alguma coisa, esqueça." A voz de Alaudi soou séria. "Eu não demorarei no banho e então poderei auxiliá-lo."
"Eu ficarei bem, não se preocupe." O moreno sorriu confiante, retirando o pequeno pedaço de papel do bolso da calça e colocando-o sobre a mesa. Na semana anterior o Inspetor de Polícia havia se dado ao trabalho de escrever a receita inteira. "Mas eu não tenho pressa, então se precisar de companhia em seu banho, eu realmente não me importaria em acompanhá-lo."
O Chefe dos Cavallone inclinou-se um pouco a frente, fazendo com que seu amante ficasse entre ele e a mesa da cozinha. O convite foi feito com um tom de voz brincalhão, mas intimamente Ivan falou sério. Havia se passado quase um mês desde que os dois dividiram a cama do moreno na mansão, e depois daquele dia, como dois jovens, ambos sempre encontravam algum momento para se perderem em carícias. Ivan, em particular, não entendia como alguém poderia fazê-lo tão desejoso. As fantasias que tinha com o louro não eram nada se comparadas à luxúria que ele sentia em beijar e tocar cada centímetro do corpo do Inspetor de Polícia. Se lhe fosse perguntado o que o Chefe dos Cavallone gostaria de fazer naquele exato momento, ele responderia que possuir seu amante naquela pequena cozinha foi o primeiro pensamento que passou por sua mente ao entrar no cômodo.
Entretanto, a resposta para aquele sedutor convite foi um par de olhos azuis que transbordavam seriedade. Alaudi declinou educadamente o convite, deixando a cozinha e seguindo pelo corredor. O moreno suspirou e coçou os cabelos, percebendo que teria de deixar para realizar seus desejos obscenos depois do jantar. Com a lista bem diante de seus olhos, Ivan não viu outra opção para ocupar seu tempo além de se dedicar ao preparo da refeição. O Guardião da Nuvem havia ajeitado a despensa, e todos os ingredientes estavam lado a lado, evitando assim uma possível (e provável) confusão. O que o louro não sabia era que o Chefe dos Cavallone não era mais aquele desastre ambulante quando se tratava de cozinhar. Bem, ele continuava não sabendo cozinhar um ovo sozinho, mas para aquela receita em particular, o Chefe dos Cavallone recorreu à ajuda profissional.
Quando a ideia de passarem uma noite na residência do Inspetor de Polícia foi aprovada, a primeira coisa que Ivan disse foi que gostaria de cozinhar. Alaudi foi contra, a princípio, mas acabou cedendo e no final, independente do resultado, o moreno seria responsável pelo jantar. Não querendo cometer o mesmo erro, o Chefe dos Cavallone pediu para seu cozinheiro lhe ensinar como preparar o spaghetti. O homem responsável por suas refeições estava na Família desde que Ivan era um bebê, e ao ser perguntado se poderia ensiná-lo a cozinhar, o velho homem rompeu em sinceras lágrimas, dizendo que jamais esperou ouvir tal pedido. As palavras exatas do homem foram um choroso: "Eu nunca pensei que o veria fazer algo útil, Chefe. Estou tão orgulho!", que o moreno tentou a todo custo ignorar a parte depreciativa. O cozinheiro de nome Alfredo, com seus cabelos grisalhos e sorriso brilhante, ensinou Ivan o que era necessário saber para não estragar o jantar. Os dois se reuniram três vezes depois que a casa dormia para praticarem, e o moreno se sentia confiante no preparo do prato. Eu farei Alaudi se apaixonar novamente por mim.
O Guardião da Nuvem reapareceu na cozinha depois de quinze minutos de banho. Seus cabelos estavam mais escuros por estarem molhados, e ele vestia uma calça marrom e uma camisa branca. Os olhos azuis pareceram fiscalizar o trabalho do moreno, mas ele nada disse, pelo menos não sobre o jantar.
"Eu estarei na sala se precisar de ajuda."
O Inspetor de Polícia refez o caminho e Ivan, que esteve esse tempo todo encostado ao lado da pia, coçou a cabeça e suspirou fundo. Ele estava prestes a começar uma discussão, então era preciso estar preparado para o que viria em seguida.
O louro estava sentado no sofá de dois lugares, bem de frente para a entrada da pequena sala de estar. Havia um tapete creme no chão, servindo de apoio para o jogo de sofás e a mesa de centro. Havia alguns quadros na parede, a maioria de paisagens e animais. Do lado esquerdo havia uma lareira, que estava acessa e queimava silenciosamente. Alaudi ergueu os olhos ao ver sua companhia, mas novamente, nada mencionou sobre o jantar.
"Eu queria falar com você por um instante." O Chefe dos Cavallone tentou não sorrir. Ele estava nervoso.
"Eu estou ouvindo." O Guardião da Nuvem cruzou as pernas, demonstrando que não estava fazendo nada relevante.
"Err... bem..." O moreno coçou a nuca e encarou o chão. Era muito difícil tocar naquele assunto, ainda mais sabendo a resposta que receberia. Eu não posso desistir. Ele faria o mesmo por mim. Bom, ele não faria se a pessoa em questão fosse Alaudi, mas... "Eu queria conversar sobre Giu—"
"Não estou mais ouvindo." O Inspetor de Polícia ficou em pé e caminhou na direção da lareira. "Este assunto já está resolvido e deixei claro na última vez que não gostaria de ouvir nenhuma outra palavra sobre isso."
"Você poderia falar, então? Eu ouviria?" Ivan sentiu os pesados olhos azuis em cima dele por causa daquela pequena brincadeira. "Eu falo sério, Alaudi, eu quero ouvir dos seus lábios porque odeia tanto Mário. Ele realmente se importa com seu braço direito."
"Não, ele não se importa." O louro voltou a encarar a lareira. Seus olhos ganharam uma coloração alaranjada e as chamas pareciam nadar em uma bela piscina azul. "A única coisa que ele quer com Giulio ele pode conseguir com qualquer outra pessoa. Mário pode ser seu amigo e braço direito, mas ele é um homem vão e completamente superficial. Eu conheço o tipo de pessoa que ele é e os lugares que frequenta. Não pense que não o investiguei." As palavras de Alaudi soaram sérias e cheias de ressentimento. "Eu não quero esse tipo de pessoa se envolvendo com meu braço direito."
O moreno havia caminhando para o lado de seu amante, ouvindo a tudo sem esboçar nenhum tipo de reação. Seus dedos tocaram a superfície mais alta da lareira, sentindo a pedra morna devido ao calor. Seus olhos cor de mel estavam baixos, e ao perceber que estava próximo do Inspetor de Polícia, o Chefe dos Cavallone suspirou.
"Esse tipo de pessoa à que você se refere era exatamente o que eu costumava ser, Alaudi." Ivan ignorou o olhar sério que lhe foi lançado. Ele sabia que um dia teria aquela conversa, e não foram poucas as noites que ele passou pensando no que faria se o Guardião da Nuvem não aceitasse o seu passado. Se fosse possível, ele apagaria tudo o que havia feito: os bailes, as festas, os quartos baratos de hotéis, as bebidas, as companhias... tudo o que o fizesse recordar de uma época em que ele não esperava nada da vida além de viver um dia de cada vez. Tudo mudou depois de Francis. Eu mudei. Ele me mudou e você me mudou, mas o passado continua ali. "Antes de Francis nascer eu e Mário éramos inseparáveis e as pessoas diziam que ele era minha sombra." Você não caminha sem sua sombra. Ela está em todos os lugares. Se você cai, ela cai. Se você anda, ela anda. Se você deseja, ela... "Mas eu acho que você não me investigou, ou teria descoberto sem que eu precisasse dizer todas essas palavras, e acredito que não teria permitido que eu entrasse em sua vida."
O louro o olhava com o rosto sem expressão. Havia surpresa naqueles belos e profundos olhos azuis, mas havia também outra coisa. Asco, talvez? Decepção? Repugnância? OChefe dos Cavallone deu as costas e abaixou os olhos, seguindo novamente para a cozinha. O cheiro do molho branco o avisou que era hora de acrescentar os outros ingredientes, e sua tarefa culinária o salvou de uma desagradável conversa. Eu não sei o que faria se ele me deixasse, mas não posso viver uma mentira. Se ele realmente tem interesse em fazer parte da minha vida então precisa saber o tipo de pessoa que eu costumava ser. O moreno colocou os champignons dentro do molho branco, mexendo devagar. Suas mãos faziam o trabalho, mas sua mente estava longe, muito longe. Eu nunca fui confiante com relação a Alaudi. Anos de conquistas baratas e relacionamentos vazios não me prepararam para uma pessoa tão arredia e fechada. Quando Giotto mencionou seu Guardião eu me deixei seduzir com a ideia de conquistar alguém que parecia inatingível. Tudo o que eu queria era simplesmente experimentar algo que parecia fora do meu alcance. Eu nunca pensei que me apaixonaria.
Ivan ouviu os passos baixos que pararam na entrada da cozinha, mas não se virou. Ele podia sentir que estava sendo observado, mas não queria encarar o louro, ou ouvir que seu amante (ou seria ex-amante?) estava decepcionado por ter se envolvido com "aquele tipo de gente". Entretanto, o Inspetor de Polícia não disse uma única palavra. Seus pés cruzaram a pequena cozinha e ele apenas abriu duas portas da despensa, uma para o vinho e a outra para a toalha de mesa. O Chefe dos Cavallone ficou o tempo inteiro na frente do fogão, mexendo o molho e ouvindo o louro perambular pela cozinha para pegar pratos e talheres. Quando o spaghetti ficou pronto, o moreno o colocou em uma travessa e respirou fundo antes de seguir na direção do corredor.
A sala de jantar do Guardião da Nuvem era pequena e tinha espaço para apenas uma mesa de quatro cadeiras, uma peça de mogno à esquerda e uma pequena estante próxima à janela. As cortinas haviam sido abertas, permitindo que a claridade da rua ajudasse a iluminar o cômodo. A mesa havia sido arrumada, o vinho branco servido em ambas as taças, e Ivan fez o possível para colocar a travessa no meio da mesa. Alaudi colocou um dos guardanapos sobre as pernas, erguendo os olhos azuis assim que sua companhia sentou-se à sua frente.
"Nós conversaremos depois do jantar." A voz saiu séria e percorreu o Chefe dos Cavallone como um calafrio. "Mas... eu não estou bravo, então não se preocupe, e também não quero estragar o jantar."
Aquelas palavras fizeram com que o moreno se sentisse um pouco melhor. Ele serviu o Inspetor de Polícia, olhando atentamente seu amante dar a primeira garfada. O louro mastigou algumas vezes, enrolando o macarrão no garfo e mordiscando novamente. Foi somente na quarta garfada que o Guardião da Nuvem elogiou o jantar, e Ivan pôde finalmente respirar aliviado.
Apesar da insegurança do Chefe dos Cavallone, o jantar transcorreu em silêncio, mas o clima entre eles não era exatamente o motivo. Ele sabia que Alaudi não gostava de conversar durante as refeições, e aquela parte de seu amante acabou se tornando algo tão marcante, que às vezes, ele mesmo optava por um jantar silencioso. O único momento em que o Inspetor de Polícia abriu a boca foi para avisar que pegaria mais uma garrafa de vinho, retornando em poucos segundos. O macarrão terminou, e quando só restava acabar também com o álcool, Ivan demorou o máximo que pôde com sua taça. Ele havia bebido pouco naquela noite, e foi impossível não notar que seu amante terminava sua quarta taça, levando a mão para uma possível quinta.
"Alaudi..." O Chefe dos Cavallone segurou a garrafa antes que o louro a virasse sobre seu copo. Havia pouco mais de dois dedos, mas o moreno não arriscaria. "Posso?"
O Guardião da Nuvem o olhou sem graça, meneando a cabeça e pousando sua taça vazia sobre a mesa. Ivan despejou o líquido restante em sua taça, bebendo-o apenas porque não queria ver o Inspetor de Polícia ingerir mais álcool naquela noite. Ele entendeu aquele gesto, e foi muito a contragosto que o moreno levantou-se e começou a retirar a mesa. Alaudi não conseguirá conversar sóbrio. O que quer que eu vá ouvir deve ser difícil o bastante para ele precisar de álcool.
"Eu ajudo." Alaudi ficou em pés, mas assim que segurou as taças o Chefe dos Cavallone colocou a mão livre em seu ombro.
"Eu posso fazer isso sozinho. Por que não espera na sala de estar?"
A voz de Ivan saiu baixa, quase um sussurro; e o louro o olhou e abaixou o rosto. O moreno sorriu de canto, mas saiu da sala de jantar com passos rápidos e pesados. Seu rosto estava corado, e ele sabia que aquele efeito não era somente por causa das duas taças de vinho. O rosto vermelho por causa da bebida e os olhos semicerrados deram a seu amante uma aparência frágil e totalmente desejável. O Chefe dos Cavallone retornou mais duas vezes à sala para pegar o restante da louça, mas ao regressar uma terceira vez, Alaudi não estava mais no cômodo.
O moreno foi encontrá-lo no quarto. O Guardião da Nuvem estava em frente à janela aberta, os braços cruzados e uma expressão que o moreno não conseguia ver, mas esperava que fosse amena em vez de irritada. O ar que entrava pela janela era frio, criando uma estranha necessidade de calor... calor humano. Ivan coçou a nuca, sem saber direito como começar uma conversa com o Inspetor de Polícia. Você sabe melhor do que ninguém que não se deve conversar com alguém alcoolizado, as palavras de Mário nunca lhe pareceram tão sábias.
"Eu não o investiguei, mas eu tinha ideia sobre o seu passado." A voz do Inspetor de Polícia saiu mais cortante do que o ar frio. Não havia nada que demonstrasse que aquele homem bebera quatro taças de vinho. "Não sou ingênuo para pensar que estou me envolvendo com alguém inexperiente. Eu sempre soube, ou desconfiei do tipo de vida que você levava."
O Chefe dos Cavallone encarava o chão. Era impossível erguer seus olhos naquele momento.
"Ambos temos nossa bagagem pessoal, mas eu não quero saber os lugares que você frequentou ou as pessoas que conheceu. Quando eu aceitei seus sentimentos eu tinha pleno conhecimento do que estava recebendo, mas isso não significa que eu queira saber exatamente o que aconteceu." O Guardião da Nuvem fez uma pausa. "Você está comigo agora e isso é tudo o que importa."
Ivan podia sentir o rosto tornar-se levemente quente. Suas mãos bagunçavam um pouco seus cabelos, e enquanto encarava o chão, impossibilitado de olhar diretamente para o Inspetor de Polícia, um estranho sentimento pareceu preenchê-lo com pensamentos e dúvidas. Alaudi também teve seu passado, e uma parte de mim não gosta de pensar nisso. O moreno desviou os olhos, encarando a cama de casal ao lado esquerdo. O quarto em si não era grande, comportando apenas a cama, um guarda-roupa ao lado da janela e uma pequena cômoda. Um homem solteiro não precisa de uma cama de casal. A não ser que queira companhia... O Chefe dos Cavallone sorriu amargamente. Ele estava com ciúme. Ciúme de fantasmas.
"Eu nunca trouxe ninguém aqui antes." A voz do louro trouxe Ivan de volta à realidade. Ela soou mais próxima, como se seu amante houvesse caminhado até onde ele estava. "E eu não pretendo trazer nenhuma outra pessoa a este quarto."
Dois grandes olhos azuis encaravam o moreno a uma pequena distância. O Guardião da Nuvem estava parado em frente à sua companhia, com as bochechas coradas e uma expressão que misturava luxúria e dor. O Chefe dos Cavallone tocou aquele belo rosto, sentindo a pele quente entre seus dedos. Alaudi virou levemente a cabeça, tocando a palma da mão de seu amante com um gentil beijo. Entretanto, o casto gesto transformou-se em algo completamente diferente quando o Inspetor de Polícia correu a ponta da língua pela mesma região, lançando um perigoso olhar para o moreno.
"Eu não sabia que você era fraco com bebida." Ivan sorriu maldosamente, sentindo o arrepio percorrer seu corpo inteiro. Sua calça tornou-se apertada e ele não acreditava que aquilo o havia deixado excitado.
A resposta do louro foi apenas outro olhar cheio de significados. Seus pés moveram-se, eliminando a distância entre eles. Ambos eram quase da mesma altura, mas os olhos do Chefe dos Cavallone estavam um pouco baixos, admirando sua companhia. O Guardião da Nuvem inclinou o rosto, mas assim que os lábios se encontraram, o moreno gemeu entre o beijo, ficando surpreso. Uma das mãos do louro apalpava sua ereção por cima da calça, e ele definitivamente não esperava aquele gesto. O beijo começou profundo e mais parecia uma demonstração erótica do que uma carícia. Ivan tentava manter sua concentração no beijo, mas era muito difícil quando a ponta dos dedos de Alaudi subia e descia por seu membro, e a língua do louro sugava a sua com vontade.
O bom senso do Chefe dos Cavallone não demorou a se dissipar. O Inspetor de Polícia foi empurrado levemente na direção da cama, e o moreno livrou-se da camisa branca com pressa. Seu corpo arrastou-se até a cama, e suas mãos não tiveram paciência para se livrarem da camisa de seu amante. Os botões foram arrebentados e chicotearam na parede e no guarda-roupa, caindo ao chão com barulho. A mão de Ivan agarrou o louro pela nuca, erguendo-o um pouco e devorando aqueles pequenos, mas tão deliciosos lábios. O gosto de vinho misturava-se à luxúria, e o pouco de sanidade que ainda restava no moreno parecia sumir a cada segundo que aquele beijo durava. O Inspetor de Polícia o puxou pela cintura, fazendo com que ambos os corpos se encontrassem. A ereção de seu amante levou um sorriso satisfeito aos lábios do Chefe dos Cavallone, e com a outra mão livre ele decidiu devolver a carícia a sua companhia, mas com mais intensidade e menos cerimônia.
O gemido do Guardião da Nuvem foi de puro desejo. Suas mãos agarraram os braços do moreno e seus lábios intensificaram o beijo ao sentirem os dedos de seu amante masturbando-o. Não demorou muito para que a única coisa que Alaudi conseguisse fazer fosse se render as carícias. Ivan beijava o pescoço pálido do homem que estava por baixo, marcando a pele e deixando-a vermelha. Seus dedos moviam-se com extrema facilidade dentro da calça do Guardião da Nuvem, e ele sabia que em poucos minutos seu amante chegaria ao orgasmo.
Porém, o Inspetor de Polícia também sabia que os limites de seu corpo estavam sendo superados. Uma das mãos do louro segurou o braço do Chefe dos Cavallone, e ele não teve alternativa além de parar o que fazia, olhando com certa curiosidade para sua companhia. Alaudi tinha os lábios entreabertos, o rosto vermelho e uma expressão que não parecia demonstrar que ele gostaria de ter parado. Ivan sorriu, mas assim que fez menção de continuar, o homem que estava por baixo o empurrou e ambos trocaram de posição.
Aquela foi a primeira vez que tal visão apareceu diante de seus olhos, e ele abriu bem os olhos para não perder nenhum segundo do que acontecia. O que estava dentro daquele vinho? Nós bebemos a mesma coisa? O moreno ergueu os olhos, seguindo cada movimento que seu amante lhe proporcionava. O Inspetor de Polícia ficou em pé, sobre a cama e entre o corpo do Chefe dos Cavallone. A camisa - ou o que restou dela - foi retirada, assim como sua calça e a roupa de baixo. O rosto de Ivan tornou-se rubro ao ver a nudez de seu amante bem diante de seus olhos. Seus lábios tornaram-se secos e sua ereção implorava que sua calça também fosse retirada. Alaudi ajoelhou-se, segurando as mãos do moreno quando ele fez menção de livrar-se da própria calça.
"Não se mova."
A voz do Guardião da Nuvem saiu séria e foi seguida por aqueles olhos. O Chefe dos Cavallone apoiou a cabeça no travesseiro e encarou o teto, pensando se aquilo era um sonho. Naquele quase um mês ele foi o responsável por todas as investidas sexuais, porque sabia que o louro era uma pessoa tímida e reservada. Presenciar o Inspetor de Polícia tomar a iniciativa era algo que só acontecia nos sonhos mais ousados e íntimos do moreno. Nesses sonhos, ele e Alaudi não tinham limites e faziam amor de todas as maneiras possíveis, impossíveis e imagináveis, como dois jovens que não possuíam nada para fazer além de estarem um dentro do outro. As mãos de seu amante trouxeram o Chefe dos Cavallone para a realidade, aquela deliciosa e excitada realidade que percorria seu peito com dedos firmes, apertando a pele e sentindo os músculos de seu abdômen. Os olhos cor de mel se abaixaram levemente, encarando com desejo a ereção do Guardião da Nuvem esfregar-se a sua por cima da calça. Aquele contato indireto o fez juntar as sobrancelhas, e ele estava chegando ao ponto de implorar para que seu amante fosse um pouco mais rápido. Eu quero estar dentro dele... agora e sempre.
Alaudi não parecia estar com pressa. Ivan tentou novamente se livrar de sua calça, mas no menor sinal de movimento o louro lançou um de seus olhares sérios, demonstrando que ele ainda estava no controle. O moreno tentou argumentar, implorar talvez? Qualquer coisa que fizesse o Inspetor de Polícia tocá-lo diretamente. Os lábios do Guardião da Nuvem calaram seu amante, e o Chefe dos Cavallone fechou os olhos, permitindo-se receber o beijo. Seus dedos correram pelos cabelos curtos, sentindo os fios macios e delicados. A calça de Ivan foi aberta e ele quase sorriu de alívio ao senti-la descer por suas pernas. O beijo foi interrompido, mas o moreno permaneceu de olhos fechados. Ele podia sentir as mãos do homem que estava por cima descerem por sua cintura, e os lábios que anteriormente pertenciam aos seus próprios lábios, agora dedicavam aqueles doces beijos ao seu peito. Alaudi realmente gosta desses desenhos, o Chefe dos Cavallone riu ao sentir a língua de seu amante descer por seu abdômen, como se estivesse traçando as bordas da tatuagem.
Logo os risinhos e gracejos de Ivan terminariam. O Inspetor de Polícia não parecia uma pessoa inclinada a perder tempo, e quando seus beijos chegaram à altura da cintura de seu amante, o louro provavelmente achou que era hora de ser mais objetivo. O moreno soltou um rouco gemido enquanto as palavras morriam em sua garganta. Seus olhos se abriram lentamente e ele inclinou a cabeça, observando o Guardião da Nuvem dedicar os beijos ao seu membro. Alaudi tinha o rosto corado, e apesar de parecer visivelmente envergonhado, não havia sinal de que ele estivesse fazendo aquilo por obrigação. Sua mão direita subia e descia pela ereção de Ivan, utilizando movimentos torturantes e lentos. O louro deixava sua língua brincar com aquela região, até mover um pouco a cabeça para frente, recebendo seu amante por completo em sua boca. Os olhos cor de mel se arregalaram, e o Chefe dos Cavallone cobriu o rosto, sentindo que morreria de vergonha. Aquela visão era infinitamente melhor do que seus sonhos.
Os movimentos um pouco desconcertados, os lábios pequenos e apertados, as bochechas coradas... O moreno assistiu a tudo, sentindo que nunca havia desejado alguém como naquele momento. Suas mãos apertavam a roupa de cama branca, pois ele precisava se tornar senhor de si mesmo ou acabaria possuindo o Inspetor de Polícia naquele instante. Ivan aguentou o máximo que pôde. Aquela cena não voltaria a se repetir tão cedo, ele sabia disso, mas em determinado momento foi preciso segurar o Guardião da Nuvem pelo ombro e pedir que ele parasse. Alaudi nunca fez isso antes, e seria muito traumatizante se eu o deixasse ir até o fim.
"Eu quero você, então, por favor, não me faça mais esperar."
As palavras saíram baixas. A voz soava rouca e Ivan nunca achou que acabaria pedindo algo na cama. Ele sempre fora ativo e cheio de orgulho. Seus parceiros sempre foram aqueles que imploravam, pediam e o instigavam. Ele me mudou completamente, e sei que mudarei ainda mais ao seu lado. A resposta foi um olhar esguio. O louro passou as costas da mão esquerda por seus lábios, ficando entre as pernas de seu amante. O moreno subiu as mãos pelas coxas de Alaudi e foi impossível não tocar a ereção do homem que estava por cima. O louro gemeu baixo com o toque, e Ivan percebeu que ele também estava próximo do clímax. O Guardião da Nuvem inclinou-se um pouco à frente, fazendo o Chefe dos Cavallone engolir seco. Os rostos de ambos ficaram próximos, as bochechas quase se encontraram, e quando ele levou uma das mãos para tocar aquela bela face, Alaudi simplesmente voltou à posição inicial, mas com algo entre seus dedos.
"Achei que fosse me beijar." O moreno soou um pouco desapontado, segurando a mão de sua companhia. "Permita-me."
O Chefe dos Cavallone retirou o pequenino frasco das mãos do louro. Um bobo sorriso cruzou seus lábios, e foi impossível não ficar levemente orgulhoso por ver que o Inspetor de Polícia havia adquirido aquilo. O próprio Ivan teria morrido ignorante sobre aquele tipo de coisa se não fosse por Mário. Preferência sexual nunca foi assunto relevante para seu braço direito. "Eu pratico o amor universal, meu amigo! Homens, mulheres... amo a todos! E amarei uma terceira opção se existir!", foram as palavras exatas do ruivo numa noite em que os dois compartilharam uma garrafa de vinho e muitas risadas em frente à lareira do escritório. Uma semana depois daquela conversa Ivan decidiu testar as palavras de Mário, dormindo com um belo pianista inglês. O rapaz ensinou em uma noite todos os segredos e macetes para satisfazer alguém do mesmo sexo, e apesar de diferente, o moreno entendeu o lema de vida de seu melhor amigo.
O conteúdo do pequeno frasco foi depositado em sua mão. O cheiro do óleo era uma mistura de canela com baunilha, e ele teria passado algum tempo imaginando aquelas iguarias por todo o corpo de Alaudi, mas não naquela noite. Um de seus dedos encontrou a entrada do Guardião da Nuvem, e ele a penetrou com certa pressa. A invasão foi sentida pelo louro, que gemeu baixo, mas continuou a encarar o homem que estava por baixo. Ivan moveu o dedo devagar à princípio, deixando que o Inspetor de Polícia se acostumasse. O segundo dedo entrou com mais facilidade, e ele pôde começar a se mover com mais vontade, tocando o interior de Alaudi e procurando seu ponto especial. Aquela busca arrepiou o Inspetor de Polícia, e após alguns minutos um terceiro dedo foi adicionado aos outros dois, e então não foi difícil encontrar o que ele procurava. Preparar o Guardião da Nuvem sempre foi uma tarefa prazerosa. Fraco ao prazer, seu amante sempre deixava à mostra certas atitudes em momentos em que a razão já não importava tanto. Naquele dia não seria diferente. O louro gemia baixo e movia o quadril sobre os dedos de Ivan, como se aquele estímulo já não fosse suficiente. O Chefe dos Cavallone sorriu triunfante ao ver o pré-orgasmo do Inspetor de Polícia tingir sua cintura.
"Eu darei o que você quer, Alaudi." Havia certo orgulho naquelas palavras.
O moreno passou o restante do óleo sobre seu membro, mas não foi preciso guiar seu amante. O Guardião da Nuvem posicionou-se sobre a ereção, e sem nenhum tipo de aviso sentou-se sem hesitar.
Não seria possível dizer qual gemido foi mais alto, mais rouco ou mais cheio de desejo. O moreno não estava esperando aquilo, e aparentemente o louro não sabia que naquela posição ele estaria recebendo literalmente tudo. Sentir-se dentro de Alaudi, com aquela pressão e naquela velocidade levou uma onda de eletricidade pelo corpo do Chefe dos Cavallone, mas foi outra coisa que o surpreendeu. O orgasmo do Inspetor de Polícia pintou seu peito e abdômen, e ele não acreditou que seu amante havia chegado ao clímax somente por aquele tipo de estímulo.
Alaudi precisou de alguns minutos para conseguir voltar à realidade. Nesse tempo Ivan permaneceu parado, como se fosse uma estátua, impossibilitado de mover um músculo. O Guardião da Nuvem utilizou o abdômen do moreno como apoio, erguendo o corpo e descendo-o devagar. Os lábios do Chefe dos Cavallone deixaram escapar um gemido de contentamento, e suas mãos seguraram com força a cintura do homem que estava por cima. O segundo movimento foi um pouco mais rápido e recebeu a força de Ivan para ajudar na estocada. O Inspetor de Polícia mordeu os lábios para omitir um gemido de puro deleite. O moreno dobrou levemente os joelhos e assim permitiu que o louro utilizasse suas pernas como apoio, já que ele sabia que aquela tarefa seria árdua, ainda mais depois de ter acabado de chegar ao orgasmo. Alaudi pareceu satisfeito com aquela ajuda, pois a estocada seguinte aconteceu mais rápida e foi seguida por uma quarta e uma quinta.
Em poucos segundos o Guardião da Nuvem havia imposto seu próprio ritmo. O barulho da cama misturava-se aos gemidos dos dois amantes, e assim que a ereção do Inspetor de Polícia retornou, Ivan decidiu ocupar uma de suas mãos com aquela região tão solitária. A voz do louro tornou-se mais alta e aquele estímulo parecia deixá-lo ainda mais obstinado. Seu quadril movia-se rápido e o Chefe dos Cavallone já não conseguia pensar com clareza. As estocadas eram intensas e naquela posição Alaudi o recebia por inteiro, mas não era suficiente... Ivan queria estar muito mais unido ao Guardião da Nuvem.
A surpresa do Inspetor de Polícia durou um rápido momento. Em um instante ele estava ali, sentado sobre o colo daquele homem e sentindo-o dentro dele, para no outro estar na cama e sentir-se virado por duas ágeis e grandes mãos. Os lábios rosados não tiveram chance de articular dúvida ou pergunta, o moreno sabia. A razão de Ivan era inexistente, e ele simplesmente empurrou o louro na cama e o virou, guiado somente por puro instinto e luxúria. Seu membro retirou-se por um breve momento de seu amante, apenas para voltar a penetrá-lo com o dobro de força e intensidade. A voz do Guardião da Nuvem saiu rouca e alta, mas ele não parou. Não havia como parar. Sua cintura movia-se sem que ele quisesse e sua ereção procurava alívio dentro daquele homem. O novo ritmo era imposto por seu desejo, e enquanto segurava a cintura pálida do louro, o Chefe dos Cavallone não pensou em mais nada.
O momento do moreno durou poucos minutos. Ele já estava em seu limite quando Alaudi estava por cima, e aquele novo estímulo apenas o ajudou a atingir o clímax. A última estocada foi mais funda e arrancou um gemido quase choroso dos lábios do Inspetor de Polícia.
Ivan permaneceu naquela posição por poucos segundos, retirando-se de seu amante e voltando rapidamente a realidade. Suas mãos viraram o Guardião da Nuvem e havia culpa e preocupação em seu belo rosto.
"Desculpe, Alaudi. Eu o machuquei. Eu realmente sinto muito." O Chefe dos Cavallone estava pálido. "V-Você precisa de um banho agora. Eu posso carregá-lo até o banhe-"
A voz do moreno ficou presa em seus lábios. A língua do louro invadiu sua boca, beijando-o com todas as forças que ainda restavam naquele suado e delicado corpo. O Chefe dos Cavallone tentou afastar seu amante, mas não conseguiu. O Inspetor de Polícia de repente ganhara uma estranha força, então não havia alternativa além de retribuir o gesto. O moreno deitou-se sobre o louro, e o beijo durou um tempo indeterminado. As mãos de Alaudi se perdiam pelos cabelos negros e Ivan sentia arrepios com aquele gesto. Quando o beijo terminou, não havia mais sinal de bebida nos olhos azuis. Eles ainda pareciam brilhantes, mas era por causa do intenso prazer e não do álcool.
"Você não consegue me machucar, Ivan." As palavras do Guardião da Nuvem saíram baixas e seus lábios mal se moveram. Eles tocaram gentilmente os lábios do homem que estava por cima. "Eu estarei bem amanhã, então não se preocupe com coisas desnecessárias. Mas sim, eu aceito o banho."
O moreno sorriu com a resposta, depositando um afetuoso beijo na testa de Alaudi. O Guardião da Nuvem se recusou a ser carregado até o banheiro, pegando o lençol e passando-o ao redor da cintura assim que ficou em pé. Ivan estava ao seu lado no segundo seguinte, ainda preocupado com seu amante. Os passos até o banheiro foram dados sem problemas, e os dois homens dividiram aquele pequeno espaço de vidro. A preferência foi para o louro, e o Chefe dos Cavallone, apesar do frio, não se importou em deixá-lo cozinhar um pouco na água quente antes de perguntar se poderia ensaboá-lo. A resposta foi um tímido menear com a cabeça, e o Inspetor de Polícia virou-se, encarando o azulejo e oferecendo suas costas para o moreno.
A esponja desceu com delicadeza pela pele do Guardião da Nuvem. Havia marcas vermelhas por boa parte de sua extensão, e aquilo fez com que o Chefe dos Cavallone se lembrasse da total falta de tato com que ele tratou sua companhia. Se eu me desculpar novamente ele ficará irritado. Durante os minutos de banho o moreno não fez nada além de pensar em uma maneira de se retratar. Havia tão pouco que ele soubesse fazer, e não importasse o que ele tentasse, o Inspetor de Polícia acabaria se ofendendo. Os dois trocaram de posição após alguns minutos, e Ivan riu ao sentir a esponja em suas costas. Seu banho foi mais rápido, e quando a ideia que ele tanto esperou finalmente brotou em sua mente, o Chefe dos Cavallone sorriu para seu amante antes de sair do box.
"Termine seu banho e depois vá para o quarto. Fique deitado que eu levarei uma xícara de chá para você. E sim, é necessário."
O moreno completou antes que Alaudi pudesse desestruturar seu plano. Não havia nada mais simples do que uma xícara de chá, então pelo menos aquilo ele saberia fazer. Ivan retornou ao quarto apenas para colocar suas vestes e trocar a roupa de cama. O Guardião da Nuvem apareceu de toalha na entrada do quarto, e o Chefe dos Cavallone passou por ele com um meio sorriso, caminhando rapidamente na direção da cozinha.
Nunca o preparo de uma simples xícara de chá pareceu tão demorado. Além de ter de esperar a água estar no ponto, o moreno ainda dedicou alguns minutos para esperar o chá estar menos quente, para então retornar ao quarto. O Inspetor de Polícia estava sentado na cama, encostado do lado da parede e vestido com seu pijama azul escuro. Seus olhos pareciam ainda mais belos e Ivan sorriu largamente ao vê-lo.
"Eu trouxe algo para te esquentar."
O louro sentou-se na cama sem dificuldades, e Ivan se perguntou se o Guardião da Nuvem estava ignorando a dor e agindo normalmente para que ele não se preocupasse. A dúvida o deixava ainda mais apreensivo, mas o moreno sabia melhor do que ninguém que de nada adiantaria ter aqueles pensamentos.
Alaudi permaneceu em silêncio, segurando a xícara de chá e bebendo aos poucos. O Chefe dos Cavallone caminhou até a janela, encarando a rua e a noite de Roma. Seus pensamentos seguiram momentaneamente para sua casa e ele imaginou se Francis já havia tomado banho e ido para cama. Giuseppe não o deixará ficar acordado até tarde. Depois da cena durante à tarde eu duvido muito que Francis não ande na linha. A recordação do homem de cabelos longos e louros ficando irritado fez Ivan rir, virando-se para encarar seu amante. O Inspetor de Polícia colocava a xícara sobre a cômoda, olhando-o de maneira estranha.
"Agora você ri sozinho, Cavallone?"
Ivan. Eu quero que você me chame de Ivan. "Eu estava apenas me lembrando de Giuseppe. Jamais esperei vê-lo tão nervoso. Arrisco dizer que foi a primeira vez que eu o vi daquela forma. Normalmente ele é um rapaz quieto e tímido, totalmente diferente do irmão."
"Não precisa de muito para ser diferente do seu braço direito'."
"Mário é uma boa pessoa, você só precisa dar uma chance para que ele demonstre." Ivan sentou-se na beirada da cama, esticando a mão e afagando os cabelos úmidos de Alaudi. "Eu não estaria aqui se não fosse por ele. Você ficaria surpreso ao descobrir que foi algo que ele disse que me incentivou a não desistir."
A descrença nos belos olhos azuis do Guardião da Nuvem era quase palpável.
"Mário foi o primeiro a conhecer meus sentimentos. Nós tínhamos acabado de retornar de uma terrível e chata reunião e era pouco mais de onze da noite." O moreno desceu a ponta dos dedos pelo rosto de seu amante. "Isso aconteceu dois dias depois do nosso encontro no baile oferecido por Giotto. O carro parou e eu soube naquele momento que estava completamente apaixonado por você."
O Chefe dos Cavallone fingiu não notar as bochechas coradas do Inspetor de Polícia. Alaudi não se sente confortável falando de certas coisas. É adorável!
"Mário estava dirigindo naquela noite, e ao ouvir o que eu havia dito ele demorou alguns segundos para entender o que minhas palavras significavam, virando-se e me perguntando se você era bonita. Quando eu disse que estava apaixonado por outro homem, a expressão em seu rosto continuou a mesma. Não havia sinal algum de surpresa ou aversão. A segunda coisa que ele me perguntou foi se aquele homem era ele."
Ivan riu baixo, recordando-se do pânico que viu nos olhos de seu braço direito. Na ocasião ele não havia dito que estava apaixonado por Alaudi, utilizando apenas a expressão "um homem". O louro, porém, não pareceu ter gostado daquela parte da história. Alaudi sentou-se melhor na cama e cruzou os braços, ficando alguns centímetros longe dos toques do moreno.
"Eu ri e respondi negativo, e pude ver o quanto Mário ficou aliviado por ouvir aquilo. Alguns segundos depois ele saiu do carro e abriu a porta para que eu saísse, e caminhamos para dentro da mansão. Eu não estava esperando nenhuma palavra amiga ou conselho, ele não é esse tipo de pessoa." O Chefe dos Cavallone achou melhor não dizer na frente de seu amante que para Mário, sexo era a única coisa que ele acreditava realmente que pudesse existir entre duas pessoas. Bem, isso até Giulio... "Porém, antes que eu subisse as escadas ele me segurou pelo braço e me perguntou se eu tinha certeza sobre meus sentimentos. Minha resposta foi apenas um sorriso desanimado. Eu tinha plena convicção de meus sentimentos, mas eu também sabia, ou melhor, pensava saber, que você nunca iria retribuí-los. Mário então me deu dois tapas leves nas costas, sorriu e disse "Então faça com que ele se apaixone por você. Seja um bom homem, Ivan". "Aquela foi a primeira vez que ele me disse aquele tipo de coisa."
Lembrar-se daquela conversa fez o moreno sorrir. Ele havia dito inúmeras vezes as mesmas coisas para o ruivo, mas seu braço direito parecia não acreditar que aquelas palavras eram também a chave para seu próprio dilema. Mário sempre foi descrente com relação ao amor. Ele nunca se deixou envolver o suficiente para descobrir o que vinha depois de uma noite. Todos os seus relacionamentos tiveram prazo de validade, e quando, pela primeira vez ele realmente se importou com alguém esta pessoa o rejeitou e o fez voltar a ser a pessoa que ele já estava cansado de representar.
"Giulio descobriu que estava sendo traído pela noiva dois dias antes do casamento." A voz de Alaudi saiu baixa. O Chefe dos Cavallone virou o rosto para olhá-lo, ficando surpreso ao ouvi-lo falando. "Eles se conheceram nos tempos de escola e ficaram noivos por cinco anos. Dois dias antes do casamento ele decidiu surpreendê-la e encontrou a moça em sua própria cama com um homem que ele nunca havia visto na vida."
O Inspetor de Polícia fez uma pausa. Aquela era sem dúvidas uma amarga lembrança.
"Eu nunca me perdoei totalmente por isso. Eu deveria tê-la investigado, mesmo em segredo, mas Giulio estava apaixonado pela moça e eu quis acreditar que ela era uma boa pessoa. Isso aconteceu há três anos, e depois disso eu nunca mais o vi se envolver com qualquer outra pessoa. Ele se transformou em alguém fechado e calado, e até mesmo eu tenho problemas em fazê-lo falar às vezes." O louro meneou a cabeça para um dos lados e fechou os olhos por alguns segundos. "Um dos polícias que trabalha conosco conhece seu braço direito, ou a fama do seu braço direito. Eu ouvi por acaso uma conversa entre ele e outro polícia e então decidi investigá-lo. Isso foi pouco depois de você ter começado a me visitar na sede de Polícia, e não foi preciso muito para descobrir que Mário é frequentador assíduo da noite, e eu não preciso mencionar todos os podres que descobri nesse tempo." O Guardião da Nuvem encarou o moreno com uma expressão séria, mas calma. "Então não, eu não vou incentivar Giulio a aceitar Mário. Eu não quero vê-lo novamente machucado como há três anos, e não importa o quanto você fale de seu amigo, eu acredito que o meu amigo mereça coisa melhor."
Ivan ouviu a tudo no mais puro silêncio. Seus olhos cor de mel se abaixaram e ele engoliu seco. Aquele assunto eram sobre seus respectivos braços direitos, mas por que ele sentia uma ponta de indireta naquelas palavras? Você merece coisa melhor, Alaudi. O moreno encarou as próprias mãos, sentindo-se totalmente impotente. Talvez fosse isso que Alaudi também pensasse sobre ele, e tal pensamento o assustava.
"Alaudi, você talvez mereç-"
"Eu não acho que eu o mereça." A voz do Inspetor de Polícia saiu um pouco mais alta. "Eu também acho que você merece alguém melhor, uma mãe para seu filho. Eu nunca serei capaz de oferecer uma família para Francesco e você sabe disso. Ele nunca terá um irmão ou uma irmã, porque eu nunca permitirei que você durma com outra pessoa enquanto estivermos juntos." Os olhos azuis tornaram-se opacos. O Chefe dos Cavallone entreabriu os lábios, surpreso por ouvir uma confissão tão direta. Entretanto, havia mais naqueles olhos do que mera sinceridade. "Se algum dia eu o descobrir com outra pessoa, eu o matarei e farei parecer um acidente e criarei Francesco sozinho. Então, mantenha isso em mente."
Um meio sorriso cruzou os lábios de Ivan e ele ergueu a mão de seu amante, beijando-a levemente.
"Eu não preciso de outra pessoa. Eu estou completamente feliz e satisfeito ao seu lado, e quanto a Francis, ele se afeiçoou a você e não acredito que tenha tempo para pensar em irmãos ou irmãs. Então não se preocupe, eu estarei fielmente ao seu lado até o último dia da minha vida."
"É melhor não fazer promessas que não poderá cumprir." Havia ironia nas palavras de Alaudi. Os olhos opacos sumiram e deram lugar ao belo azul-céu.
"Oh! Isso eu posso cumprir".
O moreno inclinou-se um pouco mais, aproximando seu rosto do de sua companhia. O beijo foi gentil e delicado. Os lábios do Guardião da Nuvem tinham gosto de chá e açúcar, mas nada seria mais doce do que aquele momento. Ivan afastou seu rosto quando o beijo tornou-se um pouco mais ousado, bagunçando os cabelos de seu amante e ficando em pé.
"Hora de dormir. Precisamos acordar cedo amanhã, porque Francis irá cobrar a sua presença na mansão. Eu cuidarei da louça, então descanse, está bem?"
Alaudi não praguejou, entrando debaixo dos cobertores como se fosse uma criança obediente. O Chefe dos Cavallone fechou a janela antes de seguir para a cozinha, arregaçando as mangas e encarando a pia cheia de louça. Seus dedos seguraram a esponja e com um olhar decidido e ele começou a ensaboar o primeiro prato. Aquela foi a primeira vez que Ivan Cavallone lavou louça em sua vida. Quando terminou, seus olhos cor de mel encararam seu trabalho com orgulho, e ele retornou ao quarto se sentindo triunfante. O Inspetor de Polícia dormia profundamente, e um bobo meio sorriso cruzou os lábios do moreno. Ivan deitou-se com cuidado, trazendo o Guardião da Nuvem para mais perto e permitindo que ele utilizasse seu braço como apoio. As ruas se tornaram silenciosas, e no quarto o único som era a baixa respiração do louro.
O Chefe dos Cavallone sentia-se cansado, mas permitiu-se permanecer algum tempo acordado, admirando seu amante. Havia tanto que ele gostaria de ter dito para Alaudi. Tantas desculpas, tantas declarações, tantos sentimentos... Quando eu assumi meus sentimentos eu não tinha nenhuma esperança. Durante todas aquelas visitas que fiz, eu sabia que estava sendo inconveniente, mas eu precisava vê-lo. Ivan passou a ponta dos dedos pelo rosto inconsciente do Guardião da Nuvem. Eu nunca irei te desapontar, Alaudi. Eu quero envelhecer ao seu lado, e antes de morrer é seu rosto que quero ver. Hoje, amanhã, daqui a cem, duzentos anos... Não existe outra pessoa, apenas você. Ivan fechou os olhos e dormiu, com a certeza de que sua vida estava finalmente completa.
Continua...
