IX

"Mário, eu estou apaixonado."

As palavras saíram como se fizessem parte de um diálogo completamente irrelevante e cotidiano. Os olhos verdes encararam o volante do veículo, e ele permaneceu em silêncio. Talvez aquilo não tivesse realmente sido dito. Talvez ele houvesse imaginado aquelas palavras... palavras? E se não fossem palavras? O motor do carro havia acabado de ser desligado, e talvez tudo não passasse de um engano.

Mário não acreditava em amor.
O ruivo ergueu o rosto, encarando o retrovisor com receio. Estava ali: estampado nos olhos cor de mel da pessoa sentada no banco de trás, a certeza que ele precisava para saber que não havia sido um engano. Aquelas palavras haviam sido ditas. Não era brincadeira.

"Ela é bonita?" O braço direito dos Cavallone virou-se e esboçou um sorriso nervoso. Aquela era a primeira vez que ele ouvia seu Chefe, e também melhor amigo, dizer tal coisa. Eu não sei o que dizer. Eu não sei o que devo perguntar. Eu nem sei o que devo fazer nesse tipo de situação.

Ivan coçou a nuca e esboçou um sorriso desconfortável. Ela não é bonita. Ela é provavelmente medonha. Por Deus, Ivan, pelo menos diga que ela é bonita! Os pensamentos de Mário beiravam o desespero. Quanto mais quieto o homem sentado no banco traseiro ficava, mais difícil era esconder o nervosismo.

"A pessoa que amo é um homem. Mas sim, ele é bonito."

Os olhos verdes não piscaram. O ruivo nem se quer sabia piscar, ou respirar, ou fazer qualquer outra coisa que não fosse encarar o moreno e esperar pelo restante da história. O carro estava iluminado somente por causa da claridade do jardim, especialmente a iluminação do grande chafariz na forma de dois cavalos alados. Havia subordinados espalhados pela propriedade, ele sabia, mas naquele momento, os dois eram os únicos presentes dentro daquele veículo, e isso deixou Mário incrivelmente desconfortável. O pavor de ter ouvido aquelas palavras perdera a importância se comparado ao nervosismo que ele sentiu ao escutar aquela última parte. Um selvagem pensamento cruzou sua mente, deixando-o completamente incomodado. Suas pernas queriam deixar o carro, continuar a conversa em um local menos apertado, menos próximo e quem sabe na frente de outras pessoas... um público talvez? Por favor, diga que não sou eu! Por favor, diga que não sou eu! Por favor, diga que não sou eu. Por favor...

"Este homem sou eu?" Por favor, diga que não. Por favor, diga que não...

O Chefe dos Cavallone juntou as sobrancelhas e riu baixo, quebrando totalmente o clima intenso que havia se formado entre eles. Por alguns segundos ele não fez nada além de rir, mas tudo o que o ruivo esperava era uma resposta direta. Seu desejo foi atendido quando a crise de riso terminou, mas os olhos cor de mel ainda gracejavam.

"Não, Mário. O homem que amo é o Guardião da Nuvem dos Vongola. Seu nome é Alaudi."

Há muitos anos o braço direito dos Cavallone não se sentia tão aliviado. A última vez que seu coração subiu até a altura de sua garganta foi há quase três anos, quando uma mulher que ele costumava encontrar disse que suspeitava que estivesse grávida. Aquelas terríveis semanas só terminaram quando a moça afirmou que não estava realmente grávida. Mário nunca mais a viu, e depois disso se tornou ainda mais cuidadoso no trato com as mulheres, mas se ele fosse analisar, o medo que sentiu ao pensar que era o alvo dos sentimentos de seu melhor amigo superava aquele antigo pânico. Sua expressão tornou-se suave, e ele respirou fundo, saindo do veículo e deixando a porta aberta para que Ivan pudesse sair.

Os dois caminharam em silêncio, passando pelo chafariz e entrando na mansão. A noite estava levemente fria, e dentro da casa eles foram saudados por quatro subordinados que faziam a ronda naquele local. O ruivo meneou a cabeça ao vê-los, e o Chefe dos Cavallone desejou um baixo boa noite, agradecendo seu amigo e braço direito por tê-lo acompanhado durante aquela reunião.

Enquanto assistia o moreno se afastar, o ruivo não conseguiu não notar a maneira como ele andava. As costas sempre eretas, imponentes e largas pareciam levemente curvadas, como se carregassem um grande peso. Aquela foi a primeira vez que Mário notou tal coisa. Ele estava assim esta manhã? Eu não reparei. Há quanto tempo Ivan está agindo de maneira diferente bem embaixo do meu nariz? O senso de responsabilidade o fez engolir seco. Era inadmissível que os humores de seu Chefe passassem despercebidos, principalmente por ele, que já fora chamado de "A sombra dos Cavallone", sem mencionar sua obrigação como amigo daquele homem.

Mário não acreditava em amor.
Os passos que o fizeram cruzar o hall na direção das escadas foram largos e rápidos. Sua mão se esticou e ele segurou o braço do moreno, fazendo-o virar. Não havia muito o que ser dito, e naquele momento ele deixou seu cargo como braço direito para assumir seu outro trabalho: o de melhor amigo.

"Você falou sério sobre aquele homem?" A voz do ruivo saiu baixa, mas séria. "Você está realmente apaixonado pelo empregado dos Vongola?"

Ivan o olhou com uma expressão surpresa, e após alguns segundos sua resposta foi um triste meio sorriso. Os olhos cor de mel pareceram opacos e sem esperança. Ele não é correspondido. Existe alguém neste mundo que não ama Ivan Cavallone?
Aquela realização foi mais do que o ruivo poderia suportar. Não. Não era possível. O moreno era a melhor pessoa que ele conhecia, não somente por terem sido criados juntos e trabalharem praticamente 24hs por dia lado a lado, mas o Chefe dos Cavallone realmente era um ser humano exemplar. Imaginar que alguém não se sentiria no mínimo lisonjeado por ser responsável por despertar aqueles sentimentos era impossível.

Mário então fez algo que ele nunca havia feito anteriormente: ele incentivou. Seus lábios se entreabriram e ele deixou seu tom de voz esperançoso e animado chegar aos ouvidos do moreno, para quem sabe, deixá-lo um pouco menos triste:

"Então faça com que ele se apaixone por você." O ruivo deu dois tapas nas costas de Ivan, como ele sempre fazia quando queria animar o amigo. "Seja um bom homem, Ivan."

Aquilo era o máximo que poderia ser feito naquela noite. O Chefe dos Cavallone o olhou surpreso, como se não esperasse ouvir aquelas palavras. Eu não o culpo. Nem eu mesmo achei que um dia fosse pronunciá-las. Elas são mentiras. Belas mentiras ditas com um sorriso se transformam em esperança. Se isso o fizer dormir melhor, então não fiz nada de errado. Ivan agradeceu o que ouviu e desejou um boa noite mais animado, continuando a subir as escadas. Seu fiel braço direito permaneceu no mesmo lugar, soltando a gravata e respirando profundamente após ouvir a porta do quarto do moreno ser fechada. Eu preciso de uma bebida. Eu preciso desesperadamente de uma bebida.

O braço direito dos Cavallone saiu da mansão, chamando um dos subordinados que estava próximo. O homem de cabelos castanhos e bigode aproximou-se e o cumprimentou com um breve movimento com a cabeça.

"Quero vinte homens dentro da casa, Carlos. Rondas de uma em uma hora. Eu retornarei amanhã antes do almoço. Não há trabalho, mas não deixe o Chefe dormir até tarde. Diga a Giuseppe para acordá-lo se eu não tiver retornado. Você fica responsável pela segurança."

O homem de nome Carlos meneou a cabeça em positivo, e o ruivo passou por ele, entrando no carro e dando novamente a partida. Ele sabia que poderia confiar nos subordinados, pois eles manteriam seu precioso Chefe a salvo. O veículo cruzou o jardim, e o braço direito dos Cavallone soltou um longo suspiro. Ele não tinha planos para aquela noite. Inicialmente ele apenas pretendia ir para casa e se tivesse sorte, dormiria mais de quatro horas naquela noite. Porém, ao ouvir as palavras de Ivan, tudo o que ele queria era se afastar daquele lugar e se perder nos braços de alguma dançarina de seios fartos e sorriso travesso. Não. Hoje eu não posso escolher uma mulher. A recordação de três anos levou um arrepio por sua espinha, e o ruivo levou para longe aquele pensamento. Hoje eu escolherei um homem... um garoto. Um jovem garoto de belos olhos e sorriso inocente.
Mário acelerou o carro ao passar pelo portão da propriedade, assistindo os dois cavalos se encontrarem novamente, e o sorriso em seus lábios era qualquer coisa, menos inocente.

X

Não existia melhor pessoa para circular por Roma do que o braço direito dos Cavallone. Seu conhecimento dos bairros e ruas era vasto, e não havia nenhum lugar escondido que ele já não conhecesse. Este conhecimento, porém, foi adquirido depois de anos de experiências. A noite italiana era sua parte favorita do dia, e ele amava a maneira como a cidade se transformava quando o sol se punha. As pessoas respeitáveis estavam bem seguras em suas respectivas casas, deixando a noite para os boêmios e os lixos sociais. E naquele dia, o ruivo entraria nesse primeiro grupo.

O veículo parou em uma esquina mal-iluminada. Havia outros carros ao redor, e aparentemente o local que ele escolheu estaria cheio naquela noite. O restante do trajeto teria de ser feito a pé, mas ele já conseguia visualizar a entrada do bar, então seu tempo não seria totalmente perdido. O La Luna localizava-se em uma movimentada rua destinada basicamente à vida noturna. Aquele bairro, no geral, era praticamente dedicado àqueles que procuravam refúgio e alívio após um dia enfadonho. Os barulhos que vinham dos demais bares pareciam animados, e assim que seus pés passaram em frente a um dos prostíbulos, o braço direito dos Cavallone sentiu-se puxado. Suas costas encostaram-se à parede, e algo fisgou seus lábios. O beijo foi úmido e tinha gosto de vinho. Os olhos verdes de Mário permaneceram abertos, e após alguns segundos a pessoa em seus braços deu um passo para trás, abrindo um diabólico sorriso.

"Que tal subirmos, senhor?" A mulher tinha cabelos mais ruivos dos que os dele. As mechas combinavam com seus lábios, e ela vestia apenas um sobretudo marrom. Ele sabia que por baixo daquela peça de roupa a mulher estava nua. Eu sei. Eu já dormi com Linda duas vezes. Ela nunca veste nada por baixo do sobretudo "Eu não cobrarei nada do senhor hoje."

Mário riu e tirou uma nota de dentro do bolso, esticando-a para a mulher, mas afastou-se e acenou. Em qualquer outro dia ele subiria animadamente para o quarto da prostituta e passaria a noite com ela e mais uma ou duas amigas, mas não naquela noite. Hoje eu quero um garoto.
Havia mais dois prostíbulos até o La Luna, e o ruivo fez questão de evitá-los o máximo possível, ou ele acabaria chegando ao seu destino sem um centavo nos bolsos. Quando seus pés finalmente pararam em frente ao bar, havia um feliz e satisfeito sorriso em seus lábios. Suas mãos empurraram a porta, e o ar quente e o barulho de vozes, risadas e tabaco o acertou em cheio. Meu lugar, finalmente.

A última vez que o braço direito dos Cavallone esteve no La Luna foi no mês anterior. O trabalho o manteve ocupado, e suas escapadas noturnas precisaram ser adiadas. Quando a natureza o fazia sentir-se solitário, ele apenas precisava ir a alguma propriedade próxima para arrumar companhia. Sempre existia uma moça ou um rapaz disposto a esquentá-lo em uma noite fria.
O interior do bar estava exatamente como ele se lembrava: as paredes de madeira escura, e as mesas de madeira clara ficavam localizadas ao fundo. Havia um balcão à esquerda, com bancos e espaço suficiente para os solitários. Alguns olhos o fitaram quando a porta foi aberta, mas a grande maioria dos frequentadores estava bêbada ou ocupada demais flertando para reparar no novo visitante. Os olhos verdes do ruivo percorreram o local, procurando companhia. As mesas estavam cheias de homens e mulheres. A risada era alta, as gargalhadas eram resultados de taças e taças de vinho, e parecia difícil alguém estar realmente sozinho naquele local.

A busca de Mário durou poucos segundos. Seus passos o levaram até o balcão, e ele sentou-se e pediu um copo de whisky. Seu rosto se virou, procurando novamente através do bar. Dessa vez seus olhos pousaram em uma mesa, bem ao canto direito. Um grupo de cinco rapazes ria e brindava, com exceção de um. O garoto não parecia ter mais de dezessete anos, e ao contrário de seus amigos, ele apenas bebericava uma taça de vinho, enquanto seus olhos percorriam o bar. Quando o garoto notou o olhar do braço direito dos Cavallone, o ruivo sorriu e desviou o rosto, agradecendo o homem que lhe serviu a bebida. O whisky desceu cortante por sua garganta, aquecendo-o momentaneamente. Um segundo copo foi pedido, e Mário virou o rosto para encarar novamente o rapaz, mas não havia mais ninguém em seu lugar.

"Bonsoir." ¹

A voz veio de seu lado esquerdo, fazendo-o virar-se e sorrir. O rapaz havia se sentado ao seu lado, e naquele momento o ruivo teve certeza de que havia encontrado a companhia para aquela noite. Os cabelos eram louros e levemente encaracolados, pendendo um pouco abaixo de suas orelhas. Os olhos eram azuis, belos olhos azuis, emoldurando um rosto com traços femininos. O nariz era pequeno, os lábios vermelhos e delicados. A voz do rapaz parecia música, baixa e lembrava a voz de uma garota.

Jules era seu nome. A conversa durou apenas o tempo do segundo copo de whisky ser servido. O braço direito dos Cavallone respondia sempre com um sorriso, deliciando-se com as reações do louro. As bochechas de Jules estavam coradas, e mesmo estando bem claro que ele havia tido taças de vinho suficientes, o ruivo insistiu que ele bebesse mais uma. O rapaz aceitou e durante os poucos minutos que permaneceram flertando, tudo o que o braço direito dos Cavallone conseguia pensar era nas mil e uma coisas que faria com aquela criatura. A cada gole Jules ria de algo que Mário havia dito, corando. Entretanto, eram os olhos azuis que denunciavam que por baixo daquela belo e inocente rosto se escondia algo mais. Ele não é tão puro quanto aparenta. Os lábios mentem, mas os olhos sempre dizem a verdade.

O convite para deixarem o local foi entregue na forma de um ousado gesto. O ruivo levou um dos dedos aos lábios do rapaz, limpando uma gota de vinho que escorria pelo canto de sua boca. Jules inclinou a cabeça para o lado que estava sento tocado, beijando indiscretamente o dedo que o tocava. O braço direito dos Cavallone sorriu, deixando o dinheiro das bebidas em cima do balcão e ficando em pé. O louro pousou a taça e fez o mesmo, e ambos deixaram o bar para trás, sem nem ao menos oferecerem uma segunda olhada.

A noite estava fria, mas Mário não sentiu a brisa gelada em seu rosto. O álcool o havia esquentado, e o prospecto de ver aquele jovem rapaz nu o deixava literalmente quente. Jules perguntou para onde iriam, e o ruivo apenas apontou para o fim da rua. O rapaz pareceu entender, passando uma das mãos pelos braços de sua nova companhia. O fim da rua dava para um cruzamento, que naquele horário estava completamente vazio. Do outro lado ficavam localizadas as chamadas "pensões noturnas", ou simples "hotéis para uma noite", que ao contrário dos hotéis comuns, recebiam clientes apenas durante a noite. O braço direito dos Cavallone conhecia muito bem praticamente todos os estabelecimentos, e sempre que chegava era cumprimentado com respeito pelos donos. Naquela noite ele escolheu o primeiro, um hotel que era gerenciado por uma senhora de meia idade e sua filha. A senhora de rosto magro meneou a cabeça ao vê-lo, entregando uma das chaves e recebendo o dinheiro sem dirigir um segundo olhar aos dois homens. Mário conduziu Jules até a escadaria de madeira ao fundo da recepção, subindo e cantando mentalmente uma canção que ouvira dos lábios da bela prostituta ruiva em uma das noites que passaram juntos.

O hotel possuía quatro andares, e o quarto reservado para eles era no último andar. Ao cruzarem o primeiro andar, o louro riu baixo ao ouvir os barulhos vindos dos quartos. Os gemidos de homens e mulheres eram altos, e em um dos quartos era possível escutar até mesmo o barulho da cama rangendo contra o assoalho. O segundo andar era um pouco mais discreto, e a partir do terceiro não se ouvia mais nada. O quarto andar possuía apenas dois quartos, e eles ficariam com o da direita.

"As paredes são mais grossas, por isso você não escuta barulho." O ruivo respondeu assim que abriu a porta. Os olhos azuis pareceram curiosos. "E eu não quero que ninguém ouça seus doces gemidos."

Jules riu baixo, passando por Mário e retirando os sapatos com os pés. O quarto era simples, o esperado de um hotel cuja única função era abrigar amantes sedentos por aventuras sexuais. Havia uma larga cama com quatro colunas, uma cômoda, um jogo de cadeiras e uma janela em frente à cama – esta fechada por uma grossa cortina. A diferença entre os quartos daquele andar e os dos demais não era somente a privacidade (e obviamente o preço!), mas também o luxo de se ter um banheiro disponível no lado esquerdo.

O braço direito dos Cavallone retirou o terno, deixando-o sobre uma das cadeiras, passando a dar atenção para sua gravata. Seus olhos verdes pousaram no louro, e ele sorriu satisfeito. O rapaz havia retirado praticamente toda a roupa, e assim que se sentiu observado, um travesso meio sorriso cruzou seus lábios quase infantis, e ele retirou a roupa de baixo com certa sensualidade. Um rosto feminino, uma voz feminina, gestos e maneiras femininas, mas não há nada feminino entre suas pernas...

O ruivo não perdeu tempo. A gravata escorregou por seus dedos e os botões de sua camisa foram sendo abertos conforme ele caminhava na direção do jovem. Jules que havia sentado na cama, o recebeu com os olhos brilhantes e o rosto corado, abrindo o zíper da calça escura que Mário vestia e levando a ereção do braço direito dos Cavallone até sua pequenina boca. Um longo suspiro cruzou os lábios do ruivo e ele deixou a calça descer por suas pernas. Uma de suas mãos tocou os cabelos louros, sentindo os fios finos, mas naturalmente enrolados. Em alguns locais havia grandes cachos, e era impossível não se excitar ao ver uma criatura tão angelical fazendo algo tão... erótico.

Jules poderia parecer inocente, mas não havia nada de puro na maneira como ele recebia o braço direito dos Cavallone em sua boca. Ele sabe o que está fazendo. Não é a primeira vez que ele tem um homem entre os lábios. Os olhos verdes não perdiam nenhum movimento e seus próprios lábios sorriam com a visão. Os minutos que passou naquela posição foram extremamente prazerosos, mas em determinado momento ele afastou o rosto do rapaz, mostrando que gostaria de ir ao prato principal.
O louro arrastou-se até o meio da cama, sem se importar em mostrar sua ereção. Mário abriu a gaveta da cômoda, pegando três pequenos frascos e pedindo para que Jules escolhesse. O rapaz riu, segurando os três e chamando o braço direito dos Cavallone para a cama. Dessa vez foi a vez do ruivo rir. Eu tive sorte esta noite. O garoto é até mesmo charmoso.

O braço direito dos Cavallone trouxe o louro para seus braços assim que se sentou na cama. O primeiro beijo entre eles foi exatamente o que Mário esperava. Havia paixão e desejo em ambos os lábios, e enquanto devorava a boca do rapaz, sua mão o preparava com o conteúdo de um dos frascos. Jules gemeu entre o beijo quando um dos dedos de Mário o penetrou, e gemeu com mais intensidade quando o ruivo encontrou seu ponto especial, logo na segunda penetrada. O garoto é fraco ao prazer, o braço direito dos Cavallone pensou ao penetrar um segundo dedo. A voz do louro saiu mais alta e o beijo precisou ser interrompido. Jules escondia o rosto extremamente corado no peito do homem que o envolvia, mas não parecia constrangido. Suas pernas haviam se afastado um pouco mais, e aquele pequeno e magro corpo implorava alívio imediato. Os olhos verdes do ruivo brilhavam de satisfação, e mesmo desejando invadir o quanto antes aquele rapaz, ele se permitiu torturá-lo um pouco mais, penetrando um terceiro dedo.

A reação de Jules o surpreendeu um pouco, ele teria de admitir. Quando seus dedos esbarraram no ponto especial do louro, duas mãos macias e delicadas seguraram seu rosto e um intenso e úmido beijo preencheu sua boca.

"Baise-moi, monsieur."² A voz do rapaz saiu baixa, quase um sussurro.

Mário sorriu, retirando seus dedos e fazendo sinal para que o louro se deitasse e se virasse. Jules não perdeu tempo e fez o que havia sido dito, e o ruivo sorriu satisfeito ao ajoelhar-se na cama, penetrando o amante que ele escolhera naquela noite. Sua ereção entrou fácil e ao sentir-se totalmente dentro do rapaz, um gemido de pura satisfação deixou seus lábios. Já fazia algum tempo que eu não provava alguém tão delicioso, Mário retirou-se e o penetrou novamente. Um segundo gemido saiu por seus lábios. Este garoto é perfeito. Seu rosto, seus beijos e principalmente seu corpo. Eu passaria o resto da vida dentro desse belo corpo.

Os gemidos do braço direito dos Cavallone eram omitidos pelos de Jules. O orgasmo do rapaz chegou na quarta estocada, mas seus lábios não deixaram de cantar aquela doce música. O ruivo aumentou seu ritmo após alguns minutos, segurando firme a cintura magra e pálida, mesmo que não fosse necessário. Seu baixo ventre fazia movimentos para frente, enquanto o quadril do rapaz o empurrava para trás, em uma ousada dança. O quarto se encheu de gemidos mais altos e palavras proferidas em francês quando Mário começou a penetrá-lo com um pouco mais de força. Havia um sórdido meio sorriso em seus lábios, e ouvir aquelas palavras sujas serem ditas em outra língua parecia deixá-lo mais e mais excitado. Jules implorava coisas absurdas com aqueles lábios angelicais, mas as palavras mais ouvidas eram sempre "Baise-moi... B-Bais-eee... moi." Não se preocupe, eu garantirei que este será o melhor baise-moi de sua vida.

E Mário cumpriu sua promessa.
Os dois passaram a noite literalmente em cima daquela cama. O sol já havia nascido nas ruas italianas quando o braço direito dos Cavallone chegou ao quarto orgasmo, mirando na direção do abdômen do louro. Jules já havia perdido a consciência há alguns minutos, completamente exausto por causa de seus cinco orgasmos. O ruivo precisou apoiar as mãos na cama ou teria simplesmente deixado seu corpo fazer companhia ao rapaz. O louro era experiente, então os dois puderam aproveitar muito e a cada clímax a luxúria só pareceu aumentar.

O braço direito dos Cavallone levantou-se após alguns minutos e espreguiçou-se. Seus cabelos estavam úmidos de suor, e seu corpo implorava um longo banho. A caminhada até o banheiro foi feita entre bocejos, mas assim que a água fria bateu em seu rosto, o sono desapareceu.

Havia muito pouco na mente do ruivo naquela manhã. Seu banho foi gelado, mas extremamente agradável e ele se sentia como se tivesse nascido de novo. Um satisfeito meio sorriso dançava em seus lábios e ele até mesmo cantarolou enquanto se ensaboava. Seus cabelos pendiam na altura do ombro, e a única coisa que ele sentia era não ter seu shampoo naquele momento. Eu tomarei outro banho ao chegar em casa. Giuseppe provavelmente estará na mansão. O chuveiro foi desligado e Mário enxugou-se antes de voltar para o quarto. Suas roupas retornaram ao seu corpo, e enquanto fazia o nó da gravata, seus olhos pousaram na figura de Jules. O rapaz dormia tranquilamente, seu belo rosto mostrando uma expressão inocente e pura. O braço direito dos Cavallone precisou respirar fundo e dizer ao seu baixo ventre que ficasse quieto, pois ele tinha que ir embora.

A filha da senhora de rosto magro estava na recepção, e desejou um sorridente bom dia ao vê-lo. O ruivo retirou algumas notas do bolso e depositou sobre o balcão, piscando na direção da moça antes de sair. O hotel só funcionava durante a noite, mas em algumas ocasiões eles abriam exceções para certos clientes com dinheiro suficiente para pagar uma estadia durante o dia. O valor era absurdo, o dobro do preço cobrado durante a noite, mas Mário não se importou em pagar. Deixe o rapaz descansar, ele vai precisar. E valeu a pena. Por Deus, como valeu a pena.

A manhã italiana estava fria, e o braço direito dos Cavallone colocou as mãos dentro dos bolsos do terno enquanto caminhava na direção do carro. Os bares estavam fechados. Os prostíbulos estavam fechados. E Roma ainda dormia quando ele entrou em seu veículo e deu a partida. O motor fez um barulho rouco, e o ruivo passou as mãos por seus cabelos úmidos. Sua outra vida começava naquele instante.

X

Mário não acreditava em amor.
E mesmo tendo incentivado Ivan a não desistir, havia uma parte que temia todo aquele incentivo e otimismo, imaginando como as coisas ficariam se o Chefe dos Cavallone tivesse o coração partido por causa daquela brincadeira.
Não havia nada que o ruivo pudesse fazer além de observar, então, observar foi tudo o que ele fez durante o restante daquela semana. O humor do moreno havia melhorado significativamente após a confissão dentro do carro, mas o braço direito ainda não estava totalmente convencido. As poucas vezes que os dois amigos conversaram sobre o assunto, Mário descobriu algumas coisas sobre o objeto amoroso de seu Chefe. Aparentemente o homem de nome Alaudi era mais jovem e solteiro. Morava em um bairro calmo e além do trabalho como Guardião dos Vongola ele era responsável pela Chefia da sede de Polícia romana. Isso é loucura. De todas as pessoas que ele poderia se iludir, por que precisava ser justo um policial? Ivan irá se meter em problemas.

O ruivo perdeu horas preciosas de sono durante aquela mesma semana. Seu corpo virou-se na larga cama de casal, e sua mente não lhe permitiu descansar depois dos dias cheios de trabalho. Em uma dessas noites o braço direito dos Cavallone deixou o quarto e desceu até a cozinha, passando o restante da noite sentado em uma cadeira e bebericando incontáveis xícaras de café. Quando o sol nasceu, Mário decidiu que era hora de tomar providências sérias. Eu conhecerei esse homem pessoalmente, e se não o achar digno de Ivan eu farei o impossível para tirar essa ideia absurda de sua cabeça. Amor? Claro! Se ele quer apenas seduzir o empregado dos Vongola eu não me importo, mas ele falou sério naquela noite e isso cheira a confusão.

Dois dias depois daquela decisão o braço direito deixou a propriedade dos Cavallone muito cedo. O sol acabava de aparecer no céu, mas Mário já estava no meio do caminho em direção ao centro de Roma. A cidade acordava preguiçosa quando ele finalmente chegou, estacionando na esquina da sede de Polícia. Durante aquelas quarenta e oito horas ele juntou todas as informações necessárias sobre Alaudi. Nome, sobrenome, idade, data de nascimento e etc... tudo menos uma foto. Eu não faço ideia de como ele é. A única coisa que Ivan me disse foi o que Giotto mencionou: louro. O homem era louro.

A verdade era que Ivan já havia visto o Guardião da Nuvem pessoalmente. Os dois se encontraram em um baile sediado pelo Chefe dos Vongola e por ironia do destino, naquela noite Mário não pôde acompanhar seu Chefe. Depois de anos ele ficou de cama, vítima de uma forte gripe. Um dos subordinados foi responsável por dirigir seu Chefe, então tudo o que ele tinha nas mãos eram as descrições vagas do mesmo subordinado. O ruivo encostou a cabeça melhor no banco do carro, mantendo os olhos bem abertos. O veículo fora estacionado próximo ao local, então qualquer pessoa que entrasse ou saísse não passaria despercebida.

A espera de Mário durou longas duas horas. Pouquíssimas pessoas passaram por aquele lugar, mas em determinado momento um carro foi estacionado próximo e dele saiu um homem de estatura mediana e cabelos curtos e louros, cortados mais ou menos na altura de suas orelhas. Alaudi - ele tinha certeza de que era exatamente quem ele procurava - trajava um sobretudo azul escuro por cima da roupa social, e adentrou a sede de Polícia sem perceber que estava sendo observado. O braço direito dos Cavallone esperou alguns minutos e então deu partida no carro, seguindo por uma das ruas do entorno. Sua expressão era séria, e ele não sabia o que fazer. Ele não é ruim aos olhos, ponderou o ruivo, colocando uma mecha atrás de sua orelha, mas agora, o que farei?

Não havia resposta correta para aquela pergunta, então Mário decidiu que precisava conhecer um pouco mais sobre o Guardião da Nuvem dos Vongola. A agenda de seu Chefe estava ocupada somente nos períodos vespertinos e noturnos, então por alguns dias ele teria as manhãs livres. Com tempo em mãos, o braço direito fez várias vezes aquele caminho em direção ao centro. Seu destino foi sempre à sede de Polícia. O local de estacionamento mudava diariamente, assim como suas roupas e atitudes. Um dia ele entrou no local fingindo ignorância e não teve problemas em descobrir um pouco mais sobre os horários do misterioso louro. Após quatro dias de observações, o ruivo não sabia se o que sentia era irritação por não ter encontrado nada de podre sobre Alaudi, ou medo de descobrir e precisar magoar Ivan no processo. Sem amantes, sem esposa, sem filhos, um emprego estável, subordinados que dariam a vida por ele... Esse homem tem uma vida simplesmente tediosa.

Mário suspirou e coçou a cabeça. Ele estava em frente à sede de polícia naquela manhã de quinta-feira, decidindo se entraria e confrontaria o homem pessoalmente, ou simplesmente desistiria e retornaria para casa, deixando para o destino se responsabilizar pelo que quer que acontecesse. Sua cabeça estava levemente dolorida, culpa da falta de descanso na última semana. Seu corpo queria retornar e passar o restante da manhã deitado em sua cama, mas sua honra não permitiria. Quando seu pé direito deu o primeiro passo à frente, foi fácil perceber qual lado havia ganhado.

"Você... O que você faz aqui?"

Aquelas rudes palavras saíram de algum lugar, ele sabia. A voz era grossa e nem um pouco amistosa, e o fez recuar o passo e virar o rosto. O braço direito dos Cavallone encarou seu lado esquerdo, sentindo-se levemente surpreso por não ter notado que tinha companhia. O homem estava praticamente ao seu lado, olhando-o de cima. Ele era alto, um pouco mais de um palmo mais alto do que o ruivo. Os cabelos eram negros e curtos. Os olhos verdes pareciam bravos, assim como os lábios crispados em uma fina linha. Um belo rosto desfigurado por uma expressão tão séria. Mário se recompôs, ficando de frente ao homem e retribuindo o olhar carregado com desdém.

"Quem é você?" O braço direito dos Cavallone olhou sua companhia de cima a baixo. Ser abordado por desconhecidos não era novidade para ele.

"Eu perguntei o que você faz aqui, senhor." A voz grossa soou novamente. "Há dias eu o vejo circulando por essa rua, então espero que tenha uma boa desculpa para isso."

"Desculpa?" Mário sorriu irônico. "Até onde sei circular pelas ruas é uma atitude livre. E quem é o senhor"

O homem de cabelos negros colocou a mão dentro do sobretudo e retirou um distintivo. A expressão do ruivo permaneceu a mesma, mas internamente ele se odiava por ter cometido aquele erro. Merda! ³

"Giulio Ferrari, Vice-Inspetor de Polícia. Agora, diga-me, o que você faz aqui?"

"Nada. Apenas passeando." O ruivo colocou as mãos dentro dos bolsos e deu de ombros.

"Não pareceu nada. O senhor tem algum assunto para resolver por aqui?"

Sim, meu Chefe está apaixonado pelo seu Chefe, e eu estou aqui para fazê-lo desistir disso. O braço direito dos Cavallone apenas deu de ombros novamente.
Giulio suspirou, guardando o distintivo. Seus olhos perderam um pouco da seriedade, mas ainda havia o ar de desconfiança.

"Se o senhor não responder eu terei de levá-lo para interrogatório, e acredite, o senhor não irá gostar dessa parte."

"Eu já não estou gostando dessa conversa, se me permite a sinceridade, Vice-Inspetor." As palavras sarcásticas escorreram por seus lábios. "Eu sou apenas um cidadão italiano passeando em uma manhã italiana por uma rua italiana, então se me permite, eu continuarei com meu passeio... italiano."

"Suas gracinhas não irão lhe ajudar quando eu o levar para dentro." O moreno apontou para a sede de Polícia.

A paciência de Mário começava a desaparecer. Sua vontade era de simplesmente dar as costas e deixar aquele homem falando sozinho, mas ele sabia bem que isso só lhe traria problemas maiores. Eu preciso engolir meu orgulho e voltar para casa. Se este homem me arrastar e me interrogar Ivan saberá que eu estive aqui. A amizade com o Chefe dos Cavallone valia muito mais do que vencer uma discussão verbal. O ruivo desculpou-se e contou uma história ridícula sobre uma irmã que ele não tinha, e um cunhado que não existia e o problema ilusório e conjugal entre eles.

"Nenhuma mulher de cabelos ruivos visitou o local por esses dias, eu posso garantir." A expressão de Giulio havia mudado, e ele até mesmo parecia se desculpar por não poder ajudar.

"Não tem problema. Eu espero que ela decida denunciar o homem. Minha irmã não merece esta vida." Idiota. O único parente que eu tenho é um irmão, e ele é louro. Porém, ele é quase uma mulher. Giuseppe era sua dor de cabeça pessoal, mas aquilo era outro assunto.

"Se ela precisar de ajuda não deixe de nos contatar."

"Eu irei, obrigado pelo seu tempo, senhor Vice-Inspetor."

O braço direito dos Cavallone finalmente deu as costas e seguiu diretamente para o fim da rua, murmurando mentalmente uma quantidade absurda de palavrões e palavras nem um pouco educadas. Ele havia estacionado há dois quarteirões, e assim que entrou no carro, a expressão em seu rosto tornou-se carregada e taciturna. O caminho de volta à mansão foi lento. A velocidade do carro quase parou em vários momentos, mas ele precisava de tempo para pensar. Tempo para decidir o que faria e tempo para esquecer a humilhação que havia passado.

Quando o largo portão da propriedade surgiu diante de seus olhos verdes, o ruivo encarou os dois cavalos e suspirou. Sua testa encostou-se ao volante e naquele momento ele soube que havia perdido tempo. Não havia nada, absolutamente nada que sujasse Alaudi perante os olhos de seu amigo. As provas que ele procurou não existiam, o homem era um cidadão aparentemente honesto e que ainda trabalhava em um cargo cuja função era proteger as pessoas. O caminho até a mansão foi feito com um pouco mais de pressa e o carro foi estacionado em frente ao chafariz. Dentro da casa estava frio, e assim que pisou no hall seu Chefe e melhor amigo deixava a sala de jantar. O moreno tinha um animado sorriso nos lábios, tocando o ombro de Mário com uma das mãos.

"Ouça, eu tomei uma decisão então quero que revise minha agenda dessa semana, pois na próxima segunda iremos ao centro de Roma." Os olhos cor de mel pareciam cantar de felicidade. Não! Não! Não! "Eu decidi visitar Alaudi e você irá comigo."

O braço direito colocou seu melhor sorriso nos lábios, dando dois tapas gentis nas costas de seu Chefe. Sua boca respondeu meia dúzia de mentiras enquanto mentalmente ele analisava o nível de fracasso que aquela sua missão pessoal havia obtido. Eu menti para o subordinado daquele homem. Eu não posso retornar àquele lugar!

X

Mário cruzou a entrada da sede de Polícia como se já conhecesse perfeitamente o local. Ivan ia à frente, e foi impossível não notar os olhares que eram dirigidos para os dois recém-chegados. Na recepção, um jovem policial de cabelos negros e pele morena perguntou qual era o assunto, e o próprio Chefe dos Cavallone se dignou a responder. Sua voz saiu alta e clara, seus olhos pareceram sorrir ao mencionar o nome de Alaudi, e o ruivo revirou os olhos ao notar o teor adocicado daquela conversa; e o policial sorriu quando o moreno agradeceu pelo trabalho da força policial em manter a ordem na cidade. Naquele momento o braço direito soube que seu Chefe havia ganhado um fã.

A sala do Guardião da Nuvem - naquela ocasião, o Inspetor de Polícia - ficava localizada no segundo andar, e para o segundo andar eles seguiram. Havia uma escada de cerca de quinze degraus ao fundo, e ao chegarem ao andar de cima, novos rostos os encararam. O local era tão largo quanto o térreo, mas ali, naquele espaço, a coisa realmente acontecia. Vários homens andavam de um lado para o outro, apressados e segurando xícaras. Outros escreviam freneticamente sobre folhas, enquanto terceiros carimbavam e fechavam envelopes. O subordinado que os guiava (seu nome era Alfredo), os levou até a sala na extremidade esquerda. Ivan tornou-se sério, e os passos foram vagarosos, mas pesados.

Os olhos verdes do ruivo correram pelo andar, procurando o homem que o havia abordado no dia anterior. Ele havia passado um bom tempo pensando em como evitar um reencontro, mas como as coisas nem sempre (ou quase sempre!) nunca saiam como ele esperava, as chances do braço direito de Alaudi sair de alguma sala e o avistar eram enormes.
Na verdade, aquela chance foi inevitável.

A porta da sala do louro foi aberta quando faltavam cerca de cinco passos para que o ruivo se aproximasse. Giulio saiu e encarou as pessoas que estavam ali, e naquele momento Mário desejou nunca ter tido aquela ideia absurda de seguir o "amor da vida de seu amigo". Porém, o moreno não ofereceu nenhum segundo olhar em sua direção, dirigindo-se a Alfredo.

"Este senhor deseja falar com o Chefe. Seu nome é Ivan e ele é da Família Cavallone."

O homem estudou Ivan, e deu um passo ao lado, fazendo uma polida reverência. O Chefe dos Cavallone agradeceu e cruzou aquele curto espaço, passando pela porta e fechando-a. Mário colocou a franja ruiva atrás da orelha, engolindo seco e sentindo-se levemente nervoso ao ver Giulio caminhando em sua direção. O moreno se aproximou, mas assim que ficaram lado a lado, sua reação foi um polido cumprimento, e no segundo seguinte ele seguia pela mesma escada que os três haviam subido. O alívio que o braço direito dos Cavallone sentiu jamais poderia ser explicado. Alfredo apontou para algumas cadeiras que estavam enfileiradas próximas à parede, sugerindo que o ruivo se sentasse enquanto esperava. Mário aceitou a gentileza, sentando-se e cruzando os braços.

As pessoas que trabalhavam no andar não pareceram notá-lo. Cada um estava perdido em seu próprio mundo, cuidando de seus assuntos e problemas. Aquele pensamento o fez pousar os olhos na porta de madeira escura do escritório de Alaudi. O braço direito só poderia imaginar como Ivan estaria se sentindo, ficando cara a cara com a pessoa que dizia estar apaixonado. Se eu o conheço, Ivan está fingindo um autocontrole que não tem, uma confiança que é praticamente inexistente e oferecendo palavras cheias de elegância e respeito. Seu Chefe e amigo aparentava ser uma pessoa segura de si e confiante, mas intimamente o moreno tinha medo de arriscar e geralmente entrava nas batalhas sabendo que as perderia. A única vez que o vi realmente decidido foi com a ideia de ter um filho. Quando o peso da responsabilidade de produzir um herdeiro caiu sobre suas costas, Ivan se transformou. Mário estava lá quando Graziella foi apresentada à família. Altura mediana, longos cabelos castanhos e cacheados nas pontas. Os olhos eram escuros e havia algo de inocente e infantil naquele belo rosto. Entretanto, suas palavras não foram as de uma criança, e quando aquela mulher disse que carregaria o herdeiro dos Cavallone se isso significasse uma aliança com sua falida Família, o moreno não pensou duas vezes.

Os dois dividiram a mesma cama somente uma vez, e o Chefe dos Cavallone pareceu aliviado quando Graziella afirmou meses depois que estava grávida. "Eu não saberia o que fazer se precisássemos tentar novamente, Mário," foram as exatas palavras que seu amigo usou quando os dois comemoram a gravidez da mulher. O escritório foi o local escolhido e ambos dividiram uma cara garrafa de vinho.

"Aqueles foram os dez minutos mais longos da minha vida."

"Você fala como se nunca tivesse dormido com uma mulher. Deixe de bobagens. Graziella é bela aos olhos. Você terá um belo filho... ou uma bela filha."

"Eu gostaria de ter uma filha." O Chefe dos Cavallone riu e corou.

Sete meses depois daquela conversa Francesco nasceu em uma tarde ensolarada e o moreno mudou completamente. As noites em bares, hotéis, bordéis e qualquer outro buraco de Roma terminaram. Ivan passava seu tempo livre babando sobre o pequeno como uma mãe em cima de sua cria. Por várias vezes o ruivo precisou ser o vilão, lembrando que seu Chefe precisaria cuidar da Família se quisesse que aquele garoto tivesse algo para se preocupar futuramente. Quando Francesco cresceu um pouco mais, o moreno se encontrou algumas vezes com amantes aleatórios, mas seu braço direito sabia que perdera sua companhia de boemia. Mário não se importou realmente. Ele sabia que seu amigo havia feito a escolha certa, e quando seus olhos se abaixaram e a porta da sala do Inspetor de Polícia foi aberta, ele se perguntou se Ivan não estaria fazendo o mesmo agora. Talvez esse homem seja o que Ivan precise em sua vida...

O Chefe dos Cavallone deixou a sala com uma expressão séria, e ao encarar o relógio que ficava em uma das paredes, o ruivo percebeu que não havia ficado nem dez minutos no local. Os dois retornaram para o carro, mas não sem antes agradeceram Alfredo, que estava na recepção. Ao entrar no veículo, um longo suspiro cruzou os lábios do moreno e seu braço direito ajeitou o retrovisor, sorrindo sem perceber. Ivan tinha o rosto corado e encarava suas próprias mãos. Ao notar que estava sendo observado ele corou ainda mais, rindo sem graça e coçando a nuca. Mário não pôde evitar rir também, mesmo sem saber por que fazia aquilo, pois intimamente, ele não acreditava em amor.

As visitas a Alaudi tornaram-se uma constante na vida do ruivo. Após aquele dia, seu Chefe sempre que possuía algum tempo livre pedia para ser dirigido ao centro de Roma, e como fiel braço direito, Mário não via outra opção além de oferecer seus serviços. Nos primeiros dias as visitas duravam entre dez e quinze minutos. Na segunda semana entre vinte minutos a quarenta. Na terceira o ruivo sabia que Ivan não deixaria aquela sala depois de pelo menos uma hora, então ele começou a carregar um livro para poder esperar de maneira menos maçante. Foi naquela época também que além das visitas à sede de Polícia, o moreno também levava Alaudi para almoçar. E foi em um desses dias que ele finalmente ficou frente a frente com a pessoa que havia roubado o coração de seu melhor amigo.

De perto o Guardião da Nuvem dos Vongola não possuía nada que o fizesse especial. Seu rosto era bonito, ele precisou reconhecer. Havia uma estranha e confusa mistura de masculinidade e traços delicados. Os olhos eram pequenos, mas de um azul muito claro. O homem raramente falava, e suas respostas sempre eram dadas de maneira comedida e com a voz baixa. Ao lado de Ivan havia um contraste tão evidente que a primeira vez que Mário os dirigiu para um restaurante, foi difícil não perceber a reação das pessoas. O Chefe dos Cavallone sempre chamou atenção desde que eram crianças, mas ao se tornar adulto, a atenção que lhe era dedicada mudara. O louro parecia perceber os olhares, e mesmo sentado longe da mesa de seu Chefe, o braço direito notou a maneira desconfortável com que Alaudi respondia aos olhares. Ele está envergonhado. No fundo ele deve ser tímido.

A nova rotina de Mário, porém, mudou pouco a pouco. Era ele o responsável por organizar a agenda de Ivan, então não foi difícil se adequar a nova paixão de seu amigo. A espera do ruivo inicialmente foi preenchida com livros ou alguma conversa com algum subordinado que estivesse livre. Ele pôde perceber que o trabalho variava, e alguns dias o segundo andar ficava vazio por não ter nenhum caso importante.
Giulio reapareceu diante do braço direito dos Cavallone na terceira semana. Desde o primeiro encontro entre eles, o Vice-Inspetor esteve ausente, mas naquele fim de tarde Mário foi surpreendido por uma xícara na direção de seu rosto. Quando seus olhos verdes se ergueram, Giulio o olhava com uma expressão que não demonstrava nenhum tipo de sentimento. O ruivo aceitou a xícara apenas por educação, e agradeceu baixo. O braço direito de Alaudi retirou-se e ele suspirou aliviado. A lembrança da mentira ainda estava fresca em sua mente.

No dia seguinte, com a xícara de café Giulio o abordou novamente, e no dia seguinte, e no seguinte ao seguinte e em todos os outros dias que Mário permaneceu sentado e completamente esquecido naquela dura cadeira. O diálogo entre eles cresceu com o tempo, e no final da quarta semana o braço direito dos Cavallone aceitou o convite para passar o restante do tempo de espera na sala do moreno. A tarde estava fria e chuvosa, e qualquer outro lugar parecia mais confortável do que aquele em que estava. A sala de Giulio ficava localizada no andar de cima e era a única sala da seção dos arquivos. A porta foi aberta e Mário entrou, apertando os braços e olhando ao seu redor. Não havia nada de extraordinário na mobília: três cadeiras, uma mesa, um pequeno arquivo ao fundo e uma janela. Entretanto, o que chamou a atenção do ruivo foram as paredes da sala.

Oceanos, bosques, florestas, desertos... as paisagens que decoravam as paredes haviam sido meticulosamente pintadas de tal forma que parecia como se a pessoa tivesse apenas recortado as cenas reais e as colocado na parede. O ruivo deixou seus olhos visualizarem todos os quadros, respondendo qualquer coisa quando o moreno lhe fez uma pergunta. Quando o último quadro passou por seus olhos - a pintura de um campo cheio de girassóis - o braço direito dos Cavallone virou-se e elogiou os quadros, perguntando quem era o artista.

"Você está falando com ele." Giulio ofereceu uma xícara na direção de sua companhia. Naquele dia o café deu lugar ao chocolate quente.

"Você fez isso?" Havia incredulidade na voz do ruivo.

"Eu gosto de pintar." O moreno não pareceu incomodado com o comentário e Mário deduziu que ele não havia sido o primeiro a fazer aquela pergunta.

"Você é bom. Quero dizer, realmente bom. Tem certeza de que não está no trabalho errado? Eu não sei quanto ganha um pintor, mas arrisco dizer que você teria futuro." O ruivo voltou a encarar os quadros, dedicando um pouco de sua atenção à pintura que representava um belíssimo pôr do sol. Eu me lembro de um pintor que conheci ano passado. Ele não possuía nem a metade do seu talento com o pincel, mas sabia muito bem trabalhar com as mãos... e os lábios. Aquele pensamento o fez sorrir.

"Pintar é apenas um passatempo. Eu não sou assim tão talentoso."

Você é modesto, certamente. O braço direito dos Cavallone deu mais um gole no chocolate quente e o silêncio voltou a cair sobre eles. A verdade era que nas poucas vezes que estavam próximos, muito pouco era dito. Giulio oferecia gentilmente uma xícara de café ou alguns biscoitos, mas palavras mesmo eram raras. Aquele provavelmente foi o diálogo mais longo que eles tiveram, claro, se ele esquecesse o desastroso primeiro encontro.

"Como está sua irmã?"

A pergunta chegou aos ouvidos de Mário e se a vida não o tivesse ensinado a esconder suas emoções quando lhe era conveniente, ele provavelmente teria engasgado com o chocolate quente e conquistado um acesso de tosse. Felizmente a única coisa que aconteceu foi o ruivo ter queimado a ponta da língua. Houve outro longo momento de silêncio e antes de voltar ao seu fumegante amigo, o braço direito dos Cavallone decidiu colocar um ponto final naquela mentira. Não é como se ele fosse me prender... certo?

"Eu menti. Na realidade eu tenho um irmão, e ele está muito bem, diga-se de passagem." As palavras eram dirigidas para a pintura de uma lua cheia iluminando um lago. O reflexo era diferente, o que causava uma grande impressão. "Eu estava espionando seu Chefe por causa do meu Chefe. Desculpe pela mentira."

"Não se preocupe, eu sabia que era uma mentira." Aquela resposta não estava nos planos do braço direito, e como tudo o que saia de suas mãos, finalmente ele precisou esboçar alguma reação. Sua cabeça virou-se e ele encarou Giulio sentado em sua mesa, lendo tranquilamente uma folha de papel. Ao se sentir observado, o moreno ergueu os olhos e continuou: "Eu sabia que você trabalhava para os Cavallone. Giotto nos informou há algum tempo sobre seu Chefe e mencionou que o braço direito era um homem de cabelos vermelhos e sardas."

Sardas. Os lábios de Mário crisparam-se em uma fina linha. Por que as pessoas não podem esquecer as sardas? Eu as esqueço! Sempre! O ruivo tentou não se deixar abalar por aqueles pequenos detalhes. Seu sorriso presunçoso retornou aos seus lábios e sua atenção aos quadros. O assunto parecia terminado, e não seria ele a trazer a tona algo tão sem importância. O chocolate quente eventualmente acabou, assim como a visita de Ivan. Porém, antes de deixar a sala, Giulio ergueu pela segunda vez os olhos verdes dos papéis e encarou sua companhia.

"Se da próxima vez estiver entediado você pode subir. Não tenho nada que possa entretê-lo, mas aqui em cima é mais quente do que os demais andares."

O braço direito dos Cavallone agradeceu o convite e fez uso da gentileza do moreno em suas próximas visitas. A ideia de ficar procrastinado no frio à espera de Ivan não era nem um pouco convidativa, ainda mais naquele começo de inverno. Giulio sempre o recebia com alguma coisa para beber ou comer, e aos poucos a estranheza entre eles foi desaparecendo. A situação de ambos era similar e em um determinado dia Mário decidiu que não se importava em conversar um pouco.

"Você não parece se importar com a situação."

"Situação?" O braço direito de Alaudi procurava algo no arquivo ao fundo da sala. O ruivo o encarava, mas seus olhos na verdade reparavam nos braços fortes por baixo da camisa branca. Nos últimos dias ele se pegou observando aquele homem com outros olhos. Outras intenções.

"Alaudi tem um amante?"

O moreno derrubou os papéis que tinha em mãos, e foi tão clara como aquela pergunta o havia desestruturado, que o braço direito dos Cavallone se sentiu mal por ter tocado naquele assunto. Daquele lugar era possível ver as bochechas coradas por cima da pele levemente morena, e um estranho pensamento cruzou sua mente.

"Não é você... certo?"

O segundo comentário teve um efeito ainda mais devastador. Giulio virou-se no mesmo instante e apesar de exibir uma expressão séria, seus olhos demonstravam uma pequena ponta de timidez, esta facilmente identificada pelas bochechas rubras.

"Isso é pessoal. Eu não me intrometo nos assuntos pessoais de Alaudi." As palavras saíram tão sérias quanto a expressão. "Mas nós somos amigos, somente amigos."

Ele não se preocupou com o fato de eu ter mencionado que ambos são dois homens, o ruivo não perdeu a chance de notar, talvez ele não se importe com esse tipo de coisa. A conversa terminou, deixando o clima entre eles levemente constrangedor, mas a mente de Mário não se importava com isso. Há algum tempo ele começou a reparar em coisas que antes não lhe chamavam atenção, como por exemplo, a pequena pinta que o moreno tinha embaixo do olho direito, ou o fato de ele tomar tudo sem açúcar, mas parecer amar biscoitos e bolos. Giulio gostava de trabalho de escritório, e não parecia sentir frio, pois seu sobretudo estava sempre pendurado atrás da porta e ele passava o dia apenas com uma fina camisa. E era exatamente esta mesma fina camisa que fez com que o braço direito dos Cavallone percebesse que ele desejava aquele homem.

Aquelas estranhas e incomodas sensações não surgiram do dia para a noite. Mário era uma pessoa observadora, seus olhos passavam mais tempo trabalhando do que seus lábios falando, e a beleza do moreno chamou sua atenção desde a primeira vez que eles se viram. Entretanto, nos últimos dias ele se pegou olhando e admirando demais sua companhia de espera. O braço direito de Alaudi falava pouco, mas sempre que compartilhava alguma informação, ou simplesmente fazia uma pergunta, o ruivo dedicava toda sua atenção. Quando o assunto era de seu conhecimento, o braço direito dos Cavallone dava sua opinião, não por achar que estava certo, mas sim para fazer com que aquele homem falasse um pouco mais. Ele tem uma bela e rouca voz. Ele deveria falar mais. A hora que Mário passava no escritório de Giulio parecia cada vez mais curta. Quando ele precisava retornar para avisar Ivan de que era o momento de ir, uma parte dentro dele começava a querer adiar um pouco mais o final daqueles encontros, e em um dia o ruivo se pegou pensando qual deles saia mais satisfeito da sede de Polícia. O humor do Chefe dos Cavallone variava com o dia, mas ultimamente ele tinha um sorriso tão largo quando o de seu braço direito.

"Você deveria visitar a França." Mário parou em frente à pintura de um belo pôr do sol visto de alguma vila italiana. "Ajudaria com seus quadros."

"Eu não tenho interesse em pintar profissionalmente." O braço direito do Guardião da Nuvem respondeu baixo, mas sua voz parecia se aproximar, até que ele estava lado a lado com o ruivo. "É apenas trabalho amador."

O braço direito dos Cavallone não conseguiu manter os olhos na pintura. Era bela e muito bem feita, mas havia alguém ao seu lado tão belo e tão bem feito quanto um quadro. Daquele ângulo ele poderia ver os olhos verdes e os lábios sempre sérios. Os cabelos curtos e negros, perfeitamente escovados e arrumados. Giulio era realmente um exemplo de funcionário, e aquela proximidade fez Mário imaginar como seria ver aquele homem completamente descomposto. É difícil de acreditar que ele tem trinta e três. Foi por mero acaso que ele descobriu a idade do braço direito de Alaudi, ouvindo uma conversa entre os policiais. Naquele mesmo dia ele escutou que o moreno era solteiro e aquilo sim o surpreendeu. É um desperdício um homem desses estar sozinho. Uma das mãos do ruivo queria encostar-se às costas da mão do homem que estava ao lado, mas ele hesitou. Ultimamente ele procurava situações que os deixassem próximos, fosse um esbarrão ou simplesmente um tapa de leve no ombro quando ia embora. O interesse que ele sentia em Giulio não era normal, o braço direito de Ivan sabia disso. Geralmente o único interesse que as pessoas despertavam nele era apenas sexual, e depois que consumavam o ato, o desinteresse era quase certo. Porém, ali estava ele, curioso em relação a uma pessoa que raramente sorria, que sempre vestia uma expressão séria e fechada, mas que o fez imaginar como seria ter apenas uma pessoa? Como seria pensar somente em um alguém? Como seria pensar somente em Giulio?

Aquele pensamento permaneceu na mente de Mário por todo o resto da tarde e ainda habitava sua cabeça quando ele retornou no dia seguinte. Ivan levaria Alaudi para almoçar, e o ruivo aproveitou a oportunidade para estender o convite para o moreno. O braço direito do Guardião da Nuvem hesitou, à princípio, mas após alguns minutos de muita insistência o convite foi aceito. A escolha foi um restaurante diferente e Mário passou duas agradáveis horas na companhia de Giulio. Os dois pediram pratos completamente divergentes: o moreno escolheu um filé de frango à parmegiana e o ruivo um largo prato de fettuccine. Foi naquela ocasião que ele descobriu que o braço direito de Alaudi gostava de cozinhar. Era outro de seus hobbies.

"Eu gostaria de ter esse seu entusiasmo para as coisas." Mário limpou o canto da boca. "Eu não sei pintar ou desenhar e meu interesse culinário se limita somente a comer."

A resposta de Giulio foi uma risada baixa e extremamente discreta, mas que não passou despercebida pelo braço direito dos Cavallone. O ruivo ficou surpreso, não somente por ter sido a primeira vez que o moreno realmente riu de alguma coisa na sua frente, mas também por sua própria reação. Seus olhos ficaram alguns segundos admirando aquele sorriso, imaginando porque aquele homem não sorria com mais frequência. Ele parece outra pessoa quando sorri. Seus olhos se tornam pequenos e ele tem uma covinha do lado direito do rosto. Mário voltou sua atenção ao restante do almoço, mas a comida não parecia ter o mesmo sabor. Seus olhos voltaram a se erguer, com medo de perderem a chance de rever aquele sorriso.

Não houve uma segunda chance e quando a refeição terminou, o ruivo precisou insistir que pagaria a conta por ter sido ideia dele o convite. Giulio não gostou, ficando ainda mais sério quando entraram novamente em sua sala na sede de Polícia. Ivan ainda passaria mais um tempo conversando com Alaudi, utilizando a desculpa sobre seu trabalho.

"Deixe-me pagar da próxima vez." O moreno disse antes de retirar seu sobretudo.

O braço direito dos Cavallone se servia com um pouco de café, e ao ouvir aquela parte seus lábios se repuxaram em um largo e satisfeito sorriso. Então haverá uma próxima vez?

"Algo bom aconteceu nesse tempo? Você está sorrindo." O Chefe dos Cavallone comentou no final de tarde quando os dois entraram no carro.

A resposta foi uma sonora gargalhada, e o assunto terminou ali. No dia seguinte Ivan não poderia encontrar o Guardião da Nuvem dos Vongola por causa do trabalho, e foi naquele dia que Mário percebeu que sentiu falta de conversar com Giulio. A manhã e a tarde passaram arrastadas, e quando o sol se pôs, o moreno sorriu triste e dispensou seu braço direito para que fizesse o que quisesse com sua noite. Ele sente falta de Alaudi, o ruivo pensou consigo mesmo enquanto deixava a mansão, entrando e dando partida no carro praticamente ao mesmo tempo.

O destino daquela noite seria o centro de Roma. Durante todo o caminho o ruivo pensou no lugar que frequentaria naquela noite, e se arrumaria uma bela companhia. Eu poderia escolher uma mulher hoje. Já faz algum tempo... Dezenas de lembranças incrivelmente agradáveis passaram pela mente de Mário e ele riu sozinho com a expectativa de dormir com uma bela mulher de cintura fina, seios pequenos e pernas bem definidas. O veículo entrou no centro da cidade e percorreu as ruas, misturando-se com outros carros. A noite começava a chegar e as pessoas voltavam para suas casas depois de um árduo dia de trabalho. O comércio começava a fechar, dando lugar àqueles que serviam à noite.

O braço direito dos Cavallone parou o carro e juntou as sobrancelhas, sério e temeroso. A rua não parecia em nada com aquela reservada para a vida noturna. Não havia prostitutas cantando e acenando para os pedestres. Não havia homens bêbados, caindo pelos cantos e dançando com postes e objetos invisíveis. Não havia o som animado vindo dos bares, nem o cheiro de sujeira, tabaco e sexo que você começava a ignorar depois de mais de duas visitas. O local onde ele estava era limpo, silencioso e seguro. As pessoas do dia passavam calmamente pelas calçadas, algumas com ideias aconchegantes sobre jantares, banhos e um beijo carinhoso vindo da pessoa amada; outros retornariam para suas casas vazias, mas nesses havia certa esperança, um ar de quem ainda não desistiu e está apenas esperando... esperando por aquela pessoa.

Duas leves batidas no vidro do carro e o ruivo voltou à realidade. Sua cabeça virou-se levemente, não ficando surpreso por ver o rosto sério de Giulio. Eu dirigi direto para a sede de Polícia. Por quê? Eu não conseguirei nada aqui. Não existem mulheres de cinturas finas nesse lugar.

"Não me diga que está seguindo Alaudi novamente? Ele já foi embora." O moreno coçou a cabeça enquanto falava.

"Eu não estou seguindo ninguém." Mário se sentiu ofendido. Ele gostava de homens, mas o Guardião da Nuvem estava fora de seu leque de opções, não somente por causa de Ivan. Muito frio. Eu gosto dos meus amantes quentes, vibrantes, deliciosos... aquele homem parece ser feito de gelo. Mas seu braço direito, porém... "De saída?"

O moreno hesitou um momento antes responder, apenas meneando a cabeça em positivo. O braço direito dos Cavallone sorriu seu melhor sorriso, percebendo que aquela poderia ser uma chance de ouro. Um ou dos copos de vinho e ambos estariam conversando como melhores amigos, e ele então saberia se teria alguma chance de ver aquele homem sem roupas algum dia. Aquele era basicamente o único pensamento que Mário tinha em mente naquele momento. O desejo pela mulher de seios pequenos havia sido substituído por outra coisa. Por esse homem eu não me importaria de agir como uma mulher. Já faz algum tempo desde a última vez. Ele parece saber o que fazer...

"Quer uma carona? Poderemos beber alguma coisa no caminho." Você gosta de homens? Você já esteve com um homem? Quer que eu seja sua companhia esta noite?

"Meu carro está a poucos metros, mas obrigado."

A sobrancelha do ruivo tremeu, e ele fez o possível para manter o sorriso. Ninguém rejeitava um convite feito por ele.

"Você deve ter trabalhado o dia inteiro. Deixe-me pagar uma taça de vinho. Nós somos amigos, não? Amigos pagam taças de vinhos para outros amigos!" Mentira. Eu nunca seria amigo de alguém que tenho interesse em levar para cama.

O braço direito de Alaudi olhou na direção que provavelmente seu carro estava e encarou o chão. Mário percebeu que o moreno sempre olhava para o chão quando precisava decidir alguma coisa, não importasse o quão insignificante fosse.

"Certo, mas apenas uma taça."

Giulio deu a volta no carro e sentou-se ao lado do ruivo. O veículo voltou a ser ligado, e o sorriso do braço direito dos Cavallone era tão largo que seu rosto chegava a doer. Ele deixou que sua companhia escolhesse o local, e o moreno o levou até uma parte de Roma que ele raramente frequentava, ainda mais durante a noite. Era um bar elegante, afastado quinze minutos da sede de Polícia, e não havia barulhos e o mau-cheiro vindo dos bêbados jogados pelas calçadas. O carro foi estacionado na esquina e os dois caminharam para dentro do bar. O interior era ainda mais contrastante. Ao contrário da escória e lixo que frequentava certos lugares, naquele bar as pessoas pareciam ter sido selecionadas a dedo. Mulheres bem vestidas, homens que sabiam beber, conversas baixas e contidas. Onde ele esteve todo aquele tempo? Por que ele não conhecia os lugares bons? Eu me acostumei àquilo. As prostitutas, os bêbados e ao vinho azedo.

Os dois braços direitos sentaram em uma mesa e Mário deixou que sua companhia escolhesse a bebida. O preço era irrelevante para ele. Não importasse quantos zeros vinham junto do vinho, valeria a pena. O vinho era branco e desceu doce pela garganta do ruivo. Há muito tempo ele não bebia algo tão saboroso. Eu esqueci como se aprecia uma bebida. Giulio tinha os olhos no bar, e ambos estavam em silêncio há alguns minutos. O ruivo pousou a taça sobre a mesa e aproveitou que o moreno o encarava para iniciar um diálogo.

"Eu o arrastei para cá e não perguntei se você estava livre. Tem certeza de que não tem ninguém te esperando em casa? Eu não quero ser motivo para brigas."

O braço direito de Alaudi mexeu a taça antes de beber um gole de vinho. Seus olhos verdes pareciam mais escuros e profundos. O líquido foi esvaziado da taça, e ao pousá-la sobre a mesa, o moreno pediu uma segunda garrafa.

Mário parou na sua primeira taça, mas observou sua companhia virar uma garrafa inteira de vinho. Seus olhos sorriam, seus lábios sorriam e seu corpo inteiro sorria com a ideia de ver aquele homem bêbado, imaginando se ele se lembraria de alguma coisa no dia seguinte. Melhor que não. Eu vou usá-lo hoje e depois será como se nada tivesse acontecido. Eu só quero uma companhia para a noite. Giulio pousou a taça pela última vez na mesa e ficou em pé. Suas mãos tiveram de se segurar no alto da cadeira ou ele teria caído. O ruivo estava ao seu lado no segundo seguinte, segurando gentilmente o braço do mais novo bêbado do local.

"Eu não tenho ninguém me esperando. Eu moro só."

O braço direito dos Cavallone pagou a conta e os dois deixaram o bar. O sol havia se posto totalmente e as estrelas assumiram os postos de únicas belezas. Não havia lua, então elas brilhavam como queriam. Mário passou uma das mãos ao redor do braço do moreno, guiando-o pela rua. Giulio entrou no carro e encostou a nuca da parte alta do banco. Seus olhos se fecharam, e o ruivo perguntou duas vezes antes de dar a partida se ele estava bem. As respostas foram baixos "sims".

O carro deixou a rua e cruzou três quarteirões até Mário ter coragem suficiente de perguntar onde o braço direito de Alaudi morava. O homem respondeu o endereço baixo, e o ruivo precisou de apenas alguns segundos para lembrar-se de onde era. A rua ficava a vinte minutos dali, no lado oposto da cidade. A rua era ainda mais deserta do que a de Alaudi. Quando ele precisou dirigir seu Chefe até lá, uma parte de Mário ficou surpresa por ver como o local era tranquilo. O que eu esperava? Alaudi jamais moraria em um lugar cheio de gente. A residência de Giulio era uma casa mais larga que a de seu Chefe, e mais alta também. Ela possuía dois andares e não parecia barata.

"Nós chegamos." O braço direito dos Cavallone virou-se para o lado, sorrindo ao sentir-se observado. "Dormiu bem?"

"Eu não estava dormindo." A resposta saiu rápida. Durante o caminho o ruivo tentou conversar algumas vezes, mas tudo o que recebeu foram respostas monossilábicas.

"Então me deixou falando sozinho? Isso não é muito educado." Mário ergueu uma sobrancelha. "O que? Eu sei, eu sou um homem bonito, mas não me encare assim. Até eu fico sem graça."

O ruivo ria do comentário ridículo que havia feito quando sentiu algo tocar seu rosto. A mão de Giulio descia por um lado de sua face, contornando toda aquela região. O riso sumiu dos lábios e ele não conseguiu esconder sua surpresa. Por onde aqueles dedos o tocavam o braço direito sentia que a temperatura aumentava, e não era preciso dizer que seu corpo havia se excitado com aquele toque.

"Você é bonito." A voz do braço direito de Alaudi saiu baixa. Seus lábios esboçaram um meio sorriso. Aquela era a primeira vez que ele sorria daquela maneira. Era uma estranha mistura de sedução e sinceridade.

"E você é um homem perigoso, sabia?" O rosto de Mário tornou-se tão vermelho quanto seus cabelos. Sua garganta estava seca, e uma de suas mãos subiu pela perna do moreno, apalpando o membro de Giulio seu nenhum pudor. Um largo e satisfeito sorriso cruzou seus lábios e ele excitou-se ainda mais. Sua companhia também estava animada. "E eu tentando me comportar pelo menos até entrarmos no apartamento."

O moreno suspirou com o toque do ruivo e seus olhos se fecharam novamente. O braço direito dos Cavallone começou a desabotoar a calça de sua companhia, e deixou que sua mão entrasse além da roupa de baixo, sentindo a ereção entre seus dedos. Giulio soltou um gemido baixo, e Mário sentiu seu corpo queimar de desejo por aquele homem. Os últimos botões da calça foram abertos, e o ruivo colocou uma mecha atrás da orelha antes de se inclinar e tocar a ereção do braço direito de Alaudi com seus próprios lábios. A reação de sua companhia foi um gemido mais alto, e o tom só aumentou conforme Mário avançou com seus sedutores e eróticos beijos. Ele era bom em oferecer aquele tipo de prazer. Muito bom. Em determinado momento o ruivo abriu os botões da própria calça, utilizando a mão livre para se tocar. Seu corpo ficava cada vez mais quente, e quanto mais recebia o moreno em sua boca, mas ele desejava tê-lo dentro dele. Ele é grande. Eu imaginava que ele fosse, mas não sei se conseguirei recebê-lo totalmente, a língua do braço direito dos Cavallone subia e descia várias vezes antes que seus lábios abocanhassem totalmente a ereção. Mas só saberemos se tentarmos.

O orgasmo de Giulio chegou com um trêmulo aviso dentro dos lábios de Mário. Ele sentiu o líquido morno descer por sua garganta, e seu próprio clímax chegou enquanto ele erguia a cabeça e encarava o homem sentado ao lado. O moreno parecia exausto. Seu peito arfava, seus olhos estavam fechados e sua testa estava úmida. O ruivo abaixou os olhos e pôde olhar finalmente para o baixo ventre de sua companhia. A ponta de sua língua umedeceu seus lábios, ainda sentindo o gosto do orgasmo, imaginando como seria mover-se sobre o colo do braço direito de Alaudi. Durante aquela vida Mário havia experimentado tudo e todos. Ele não negaria que tinha preferência por ser o dominador, mas dependendo do caso ele se deixaria envolver, e diante de seus olhos estava um perfeito exemplo de homem que era capaz de fazê-lo agir como uma amante insaciável.

"Vamos continuar isso no quarto." O ruivo fechou os botões da calça do moreno. "Eu quero você dentro de mim o mais rápido possível."

A última parte foi dita em um sussurro próximo ao ouvido de Giulio, e se o braço direito dos Cavallone soubesse que aquelas palavras teriam tanto poder, ele provavelmente teria ficado quieto. Os olhos do moreno se abriram, e em uma velocidade espantosa ele saiu do carro, olhando para Mário como se ele tivesse acabado de ser violentado.

"Você..." O braço direito de Alaudi passou as mãos nos cabelos. Seu rosto demonstrava um misto de indignação e outra coisa. Nojo. Eu conheço esse olhar.

"Um pouco tarde para bancar o ofendido." Mário fechou a própria calça e ficou sério. Ele sabia muito bem aonde aquela história iria. Eu deveria saber. Não se tira proveito de alguém bêbado. "Há alguns segundos você gemia enquanto eu o devorava. Alias, você tem um gosto delicioso."

Aquela foi claramente a gota d'água e o ruivo havia dito aquelas palavras de propósito. Ele já havia encontrado tipos como aqueles: no início eles não se importavam de estar com outro homem, até a realização bater-lhes na face, e então se tornavam machucados e indignados. Eu estou fazendo isso errado. O braço direito dos Cavallone abriu sua porta e ficou em pé, tendo apenas o carro entre eles. A recordação do meio sorriso de Giulio durante o almoço no dia anterior surgiu em sua mente. É isso o que eu quero.

"Eu não planejei isso". Certo, talvez um pouco... "Eu não esperava que você fosse permitir... essas liberdades." Falar o que ambos acabaram de fazer seria impossível. "Eu queria saber se você tinha interesse em homens. Eu não sabia como abordar esse assunto."

O braço direito de Alaudi ouvia a tudo com a mesma expressão séria e imbatível.

"Ajudaria se eu dissesse que tenho interesse que as coisas não terminem aqui? Que eu gostaria de encontrá-lo outro dia, fora da sua sala e sem esperar por ninguém? Como hoje, mas não precisa ser para bebermos. Poderia ser um jantar? Um café?"

Era difícil acreditar que aquelas palavras estivessem realmente deixando seus lábios. Era difícil acreditar como ele se sentiu incomodado e levemente envergonhado por dizer que tinha interesse em ver sua companhia novamente. O ruivo não pensou antes de falar e somente depois que as palavras haviam sido ditas, foi que ele percebeu que aquilo tudo era exatamente o que vinha sentindo nos últimos dias. Eu estou interessado nele, e não somente no sexo que ele pode me oferecer. O que está acontecendo?

A reação de Giulio, porém, tornou inválido qualquer bom sentimento que Mário tivesse exposto. A risada do homem saiu totalmente falsa e durou um breve momento. Os dois se encararam e o ruivo ficou sério, engolindo seco e se sentindo machucado. Ele vai pisar nos meus sentimentos. Eu deveria saber. Eu deveria saber que isso aconteceria.

"Você conseguiu o que queria então saia daqui. Eu não quero mais vê-lo, seja na sede de Polícia, seja em Roma. O seu tipo de pessoa é o que há de errado e sujo nesta cidade." O moreno tinha o rosto sério. As belas feições se tornaram duras, como se ele fosse esculpido em mármore. "Eu conheço você, Mário. Eu sei quem você é, o que você é. A única diferença entre você e uma prostituta é que no final da noite ela recebe em espécie. Eu detesto esse tipo de gente, baixa e suja. Agora saia, eu não quero mais vê-lo."

Como Mário entrou no carro, deu a partida e afastou-se daquela rua ele não saberia dizer, assim como não soube explicar na manhã seguinte como acordou em sua cama. Havia sobre ele um belo rosto que ostentava tanto traços femininos quanto masculinos, e dois grandes olhos verdes o encaravam como se sorrissem. Eu conheço esse rosto. Eu conheço esses olhos. Olhos gentis. Olhos preocupados. Ele está sempre se preocupando demais.

"Eu deixei o café da manhã preparado. Estou indo para a mansão."

Giuseppe deixou o quarto e quando a porta se fechou, o mar de lembranças retornou a mente do ruivo e o fizeram cobrir o rosto com um dos braços. Não foi um sonho. Aquelas palavras não foram um sonho. O sol não conseguia entrar por causa das grossas cortinas, então o quarto estava levemente escuro. O braço direito dos Cavallone virou-se na cama e cobriu-se melhor, decidindo permanecer um pouco mais na cama. Eu mereço. Eu mereço ficar um pouco mais na cama depois de receber minha primeira rejeição.

Continua...

¹ "Olá", neste contexto.

² Literalmente "fuck me/me coma". (Obrigada yuuki pela adorável ajuda *-*)

³ "Merda" mesmo, mas com um sotaque deliciosamente italiano!