A ajuda de Helen

Como Hermione estava grávida, o máximo que evitássemos aparatar era melhor. Fomos no carro dela, que voava como o Ford Anglia de papai, só que o botão de invisibilidade realmente funcionava. Helen mora em Cardiff (numa rua curiosamente chamada ) um lugar meio distante de Ottery St. Chapole, mas nada que bruxas não resolvessem. O trajeto na estrada era de 2h00, mas fizemos em apenas 40min. A rua estava estranhamente deserta, e dava um ar misterioso às inúmeras casas vitorianas. Helen Granger morava numa casa branca com pequenas arvores e algo esquisito azul que eu não soube identificar como decoração. Estacionamos o carro, que há algum tempo já andava na terra, e nos encaminhamos para a casa de Helen.

- Mione, tem uma coisa que eu deveria ter perguntado antes. O que Helen tem a ver com tudo isso? – meu desespero por idéias criativas estava maior do que a minha capacidade de questionar as atitudes de Hermione. Agora havia me dado conta de que seria uma pessoa a mais sabendo dos meus problemas e por mais legal que Helen fosse eu não gostava disso.

- Caso você tenha esquecido, Helen é bailarina e atriz profissional de teatro. – ela me lançou um olhar significativo que eu, infelizmente, não entendi o significado.

- Ainda não consigo entender. – respondi sincera.

- Calma. Se ela não tiver aqui, talvez esteja no teatro onde trabalha. Ela tocou a campainha algumas vezes antes de obter resposta. Depois de alguns minutos ouvimos a voz de Helen reclamando de algo que parecia 'por que não leva a chave quando sai, idiota?'

- Hermione! Gina! – Helen é totalmente diferente de Hermione, tem os cabelos lisos e claros e é bem alta, exceto pelos olhos e a maneira de falar. Ela estava vestida com um roupão e com metade de uma maquiagem pesada ainda por fazer.

- Olá Helen, estamos atrapalhando algo? – Hermione quis saber.

- Não. Venham. Eu tenho que acabar essa maquiagem antes que Graham venha me pegar, hoje tem matine infantil e vou ser a madrasta da Branca de Neve.

- Você não se cansa de fazer as bruxas malvadas mesmo? – eu perguntei divertida.

- Não. Elas não são más, só são mal compreendidas. – nós três sorrimos, enquanto entravamos na casa vitoriana de Helen. Dentro era bem arrumado e aconchegante.

- Já que você está perto de sair, vamos direto ao ponto. – Hermione falou decidida. – Gina precisa de ajuda, bem, não é algo convencional, é que ela precisa surpreender Harry, se você me entende. E eu achei que você, com todos esses dotes artísticos, poderia ajudar.

- Quer dizer, incrementar a relação...? – Helen lançou um olhar malicioso para nós e completou – Agora, neste exato momento eu não posso por causa da peça, mas se for urgente e vocês puderem aguardar acabar, poderei ajudar.

- A que horas acaba? – Hermione quis saber.

- Às quatro horas, mas só saio meia hora depois. A arrumação.

- Hermione, não acha que vai ser muito tarde? Que horas chegaremos a Londres? – às quatro e meia iríamos começar com o que Helen fosse inventar e dependendo da idéia isso poderia durar muito. Eu tenho duas crianças e um marido que voltou a sorrir pra mim por que estamos fazendo sexo ao invés de resolvermos logo nossas diferenças, então definitivamente eu não posso chegar muito tarde em casa. Mas essa parte ficou apenas na minha mente.

- Não, viemos de Ottery para cá em 40min. Para Londres será mais rápido. – Hermione completou confiante.

- Não vou demorar. Prometo. – Helen fez sinal de juramento.

Tentei acalmar minha ansiedade. Talvez não fosse a hora. Acho que o real motivo era não ter nada de criativo e diferente para mais tarde, era deixar Harry ganhar mais uma. Isso era inaceitável para mim, por que tenho a necessidade de nos deixar num patamar de igualdade sempre. Talvez esse seja o nosso maior problema. Os homens, por mais modernos que se digam hoje em dia, não gostam de mulheres completamente independentes. Eles gostam de saber que sempre vai haver alguma lâmpada ou algum cano entupido que não conseguiremos consertar. Crescer com seis homens me fez entender isso e aprender a superar as lâmpadas e os canos para consertar, resumindo, a ser completamente independente.

Seguimos para o teatro quando o tal Graham, que é o namorado de Helen, chegou. Era bem perto, apenas duas quadras de distância e chegamos a uma construção vitoriana, como 90% de Cardiff, desta vez de pedra e avermelhada. Não era muito diferente da casa de Helen, só um pouco maior. Os dizeres da placa eram "Theather Rhapsodize*". Helen nos guiou até a platéia do teatro, que também era decorada de acordo com a moda da famosa rainha Vitória e nos disse para ficarmos bem ali até ela acabar a apresentação.

Seria mais um teste de paciência em menos de 24h. Eu estou me tornando uma neurótica, nervosa, maluca e obcecada, com um grau de TOC altíssimo. Afinal, o que eram algumas horas quando o meu problema se arrastava há meses? Acho que deveria voltar a ser aquela garota animada que apenas curtia o momento. Talvez assim as coisas fossem mais fáceis, apesar da garota animada não ter dois filhos... Os meninos... Talvez fossem adorar estar vendo a peça. James mais que Albus, por que ele é mais interessado em coisas trouxas. Ele é todo Weasley até nisso. Al gosta, mas é mais aficionado por magia.

Depois de 20min algumas dezenas de pessoas começaram a ocupar lugares no teatro, a grande maioria mães e crianças. As luzes foram apagadas e a cortina subiu revelando um cenário de um castelo. A garota que fazia a Branca de Neve apareceu cantando qualquer coisa e depois Helen surgiu numa roupa que lembrava terrivelmente Bellatrix Lestrange. A peça transcorreu normalmente, até o príncipe aparecer para beijar a mocinha e o narrador dizer 'viveram felizes para sempre'. Sabe qual é a coisa mais errada com esses contos de fada trouxa? Encerar justamente quando tudo vai bem e não mostrar nada da real personalidade do príncipe. Senti-me um pouco a Branca de Neve. Casei-me com o mocinho. Mas, acho que o maldito narrador esqueceu o 'felizes para sempre'. Nesses meus devaneios comparativos permaneci até ser puxada por Hermione, de novo, e no mesmo braço.

- OUCH! Assim vou ficar sem braço até o fim do dia. – reclamei, sabendo que não tinha jeito. Hermione tinha aquele aspecto obsessivo quando achava que estava tendo alguma idéia maravilhosa.

- Helen já acabou e está nos pedindo para ajudá-la com as roupas. – falou me guiando aos bastidores do teatro. Ao chegarmos lá achei que jamais tinha visto tanta roupa esquisita junta.

- Venha, vamos pegar o que eu acho que você poderá precisar. – Helen me chamou com o mesmo sorriso malicioso estampado na cara.

- Como assim? Por que eu precis... – eu? Precisar daquelas esquisitices? Acho que Harry vai rir de mim.

- Depois...

Aff! Por que sempre tanta surpresa? Peguei as roupas com o nível de paciência lá embaixo e levei ao carro. Santa Bridget faça com que tudo de certo.

* H*&*G*

- Ótimo – Helen falou enquanto arrumava uma sala que lembrava a nossa velha sala de duelos em Hogwarts, cheia de espelhos. – Vamos começar o show. Vou te ensinar alguns passos básicos de dança e o resto você inventa, quero dizer, o resto que eu falo é um Strip-tease.

- Um o quê? – o que quer que fosse aquilo eu tinha certeza que não ia dar certo.

- Tá brincando! Você não sabe o que é? Hermione como diabos vocês se divertem? – agora Helen estava espantada. Por que ela não pode falar de uma forma simples e direta?

- É melhor você explicar, ela sabe, mas deve não saber o nome.

- Certo, veja bem, você deve fazer alguma dança sensual enquanto tira a roupa. De preferência com ele amarrado na cama.

Eu devo ter ficado com uma expressão ridícula mesmo por que Helen desatou a rir. Cara, dançar, amarrar e tirar a roupa, não necessariamente nessa ordem, não fazem parte da mesma mistura na minha cabeça. Tá certo que dançar sensualmente sim, mas esse lance de amarrar na cama...

- Calma, vou tentar te explicar melhor, mas antes você deve sentar ali, para não cair, nunca se sabe... – ela falou zombeteira me apontando uma almofada. Obedeci começando a querer ir embora.

- Veja só, striptease é uma dança sensual com a finalidade de deixar quem a assiste sexualmente excitado. Existem várias formas de se realizar essa dança, mas a que vou propor para você é a 'lap dance', que permite que você toque na pessoa para a qual está dançando. E uma ótima forma de fazer com que ele não tente agarrá-la por causa da excitação sexual é amarrando-o numa cadeira ou na cama.

Se antes eu estava espantada, agora a minha expressão dizia que eu não era capaz de fazer tal coisa. Tipo, dançar e tirar a roupa ao mesmo tempo estava mesmo além da minha capacidade. Amarrar Harry na cama, fora de cogitação. Ele iria achar estranho e não iria aceitar.

- Helen, muito obrigada mesmo, mas não vai dar. Eu não consigo fazer isso. – falei levantando e fazendo menção de ir embora. Não sei onde tava com a cabeça ao deixar Hermione me convencer de tal sandice.

- Calma, senta aí. Te ensinarei alguns passos de dança e darei umas sugestões. Se você não conseguir fazer, tudo bem. Fica como conhecimento a mais. – Helen tentou impedir que eu fosse e se ela não fosse um doce talvez eu não tivesse dado ouvidos.

- É mesmo, Gi. Veja o que ela tem a mostrar. Depois você decide. – Hermione completou.

- Tudo bem. Mas você não vai tirar a roupa. – respondi com um meio sorriso

- Eu não tinha pensado nisso! – Helen falou divertida. Ficando mais séria começou. – Vou te ensinar alguns passos básicos da dança do ventre, e o resto fica por sua conta. Não precisa usar tudo, até por que acho mais sensual se você tiver com um monte de roupa, e dança do ventre não é a mais vestida do mundo. O passo mais simples que vou demonstrar agora é o que você se apóia na ponta de um dos pés, se inclina para tás de mexe apenas os quadris, lentamente e depois mais rápido. Com esses passos você não vai precisar dançar apenas com música árabe. Pode colocar uma música quente e expandir com passos de dança que você conhece. – Ela começou a fazer os movimentos e logo também imitei, depois de alguns erros terríveis dos passos que ela foi me ensinando eu estava pronta para alguma apresentação. Logo após me deus umas roupas trouxas esquisitas, mas que fizeram Hermione lançar aquele sorriso significativo que eu não entendo o que significa. Saímos da casa de Helen por volta das seis da tarde. Ainda não tinha coragem de realizar todo o ensinamento daquela tarde. Não mesmo.

* H*&*G*

Cheguei em casa às sete e meia e encontrei Harry e os meninos jogando snap explosivo na sala. Como cheguei silenciosamente eles não repararam a minha chegada, então pude contemplar um a cena por alguns momentos. Acho que não haveria pai para os meus filhos melhor que Harry. Não existia pai mais atencioso e carinhoso que ele, sempre presente em cada momento que conseguia. Mudou até de função no emprego para poder cuidar melhor dos meninos, agora não sai em missões longas demais ou distantes. Tão bom pai quanto bom marido, antes de tudo começar a ter pequenas explosões. Eu ainda sinto como se a explosão maior estivesse perto de acontecer.

- Boa noite, rapazes! – falei me fazendo notar. – Demorei por causa de Hermione. Já jantaram?

- Boa noite, mamãe! – James e Albus responderam em uníssono. James continuou – Comemos pizza. Tem pra você na cozinha.

- Boa noite, Gina! Não sabíamos que horas você iria voltar, e como estou proibido de chegar perto do fogão, resolvi pedir pizza. – Harry explicou com um ar sorridente.

- Tudo bem, hoje é domingo, dia internacional de quebrar as regras. Algumas. – completei antes que James usasse essa frase quando fizesse alguma travessura infernal. – Vou subir.

Me retirei para um banho, mas acima de tudo para pensar melhor em tudo que eu tinha aprendido à tarde. Talvez pensar melhor e realmente tentar algo, ao menos 10 por cento. Entrei no banheiro para provar a roupa que Helen havia me emprestado. Depois de erra a forma de vestir a manga da minúscula blusa, eu estava em um traje que nem eu mesma me reconheceria se me visse por aí. Não, definitivamente essa não sou eu. Fiz algum passo de dança enquanto minha consciência gritava que aquilo não era eu. Parei. Resolvi tirar a roupa, escondi no fundo da gaveta e resolvi tomar banho. Depois do banho arrumei o cabelo num rabo de cavalo e depois dobrei, deixando o meu cabelo com uma aparência curta. Resolvi que hoje iremos para o jardim ou acenderemos as luzes, mas, definitivamente, nada de dança.

Desci direto para cozinha e encontrei a pizza de calabresa com catupiri. Harry sabia que essa é a minha pizza favorita, assim como eu sabia que ele não gosta tanto de calabresa e assim como eu estava vendo que ele havia pedido apenas um tipo. Fiquei com uma pontada de felicidade por essa tentativa de me agradar. 'Pontadas de felicidade' era o máximo que eu me permitia sentir no que diz respeito às atitudes positivas de Harry em relação à mim. Isso me fez pensar que teria de arrumar uma forma de retribuir o pequeno agrado. Acabei de jantar e arrumei o resto das coisas na cozinha. Fui me juntar a eles na sala. Enquanto jogávamos pensei que parecíamos 'nós' de novo, talvez com o tempo tudo que aconteceu nesses últimos meses fosse esquecido, e talvez lembrássemos disso como um pequeno escorregão, um deslize, um pingo da tinta errada na tela perfeita do pintor. Seria um remendo tão bem feito que nem apareceria. Depois de meia hora jogando eu pensei que parecíamos normais, exceto pelo fato de que normalmente eu não mediria o grau de normalidade. Os olhos de Harry encontravam os meus algumas vezes e eles estavam brandos como há muito não ficavam quando tínhamos que brincar juntos com os meninos. Os gestos pareciam mais naturais e as palavras dirigidas a mim não eram tão forçadas quanto antes. Mas ainda havia muito caminho pela frente para conseguirmos voltar ao normal, e isso não tem a ver apenas com a nossa semana de sexo.

Às nove paramos para colocar os meninos para dormir, hoje Harry ficaria com James e eu com Albus. Enquanto subíamos, ele deu um jeito de sussurrar em meu ouvido.

- Espero que tenha alguma idéia bastante interessante para me mostrar hoje.

- Não se preocupe- sussurrei de volta. Minha vontade era de gritar em desespero. Se eu não conseguiria fazer o que Helen me ensinou e se eu não consegui pensar em nada sozinha, não seria agora que eu iria conseguir.

Entrei no quarto de Albus tão distraída que quase derrubei a caixa de brinquedos por cima dele duas vezes.

- Mamãe? – Albus puxava meu braço.

- Sim, querido! – definitivamente distraída.

- Conta uma história? – ele pediu me olhando com aqueles olhos maravilhosamente verdes e doces.

- Hoje não, estou sem criatividade. Amanhã contarei duas histórias, prometo! – Não sucumbi ao pedido dele. Al dorme mais rápido que James, então logo voltei para o quarto e me tranquei no banheiro. Peguei a roupa de volta e comecei a colocar. E se ele não gostar? E se ele achar que me tornei uma completa vadia? E se ele se irritar pelo fato de estar amarrado? Eu nunca soube dançar muito bem. Talvez eu vá fazer papel de ridícula.

- Gina? – era ele. Eu tinha que decidir.

- Estou aqui. Não entre! – respondi.

- Certo.

Talvez eu deva tentar. Talvez essa seja a última vez. DROGA! Peguei a maquiagem, soltei. Agora era uma decisão rápida. Era agora ou agora.