As lágrimas do passado
Harry me olhou profundamente depois que eu falei. Acho que horas se passaram. Vi engolir seco e finalmente me dar um sorriso malicioso.
- Se quiser, pode fazer isso agora. – Ele falou largando a varinha para um lado. Ai que raiva! Bem que eu podia ter feito isso antes, ao invés de beber.
Conjurei as cordas vermelhas como sangue e meus cabelos. Ele estava sentado com as mãos unidas e amarradas e os pés separados. Para apoiá-lo melhor, coloquei algo nas costas para que ele pudesse se encostar. Tirei a camisa dele rapidamente, para realizar melhor umas idéias bastante malvadas que estavam povoando a minha cabeça.
Virei de costas. Fiz o quarto ficar em penumbra. Imaginei o feitiço para o som começar. Não importava a música, eu iria dançar. Iria dar a minha alma, e não me importar nenhum pouco com o papel de idiota que isso poderia significar.
Virei de frente e a música começou. Era lentinha e meio irreconhecível de cara. Me movi devagar. A voz da cantora encheu o quarto.
Eu ri enquanto me movia para perto dele. As palavras que ela dizia não podiam ser mais convenientes.
It's getting so lonely inside this bed
Don't know if I should lick my wounds
or say wou is me instead
And there's an aching inside my head
It's telling me I'm better off alone
But after the midnight morning will come
And the day will see if you're gonna get some
Está ficando tão solitário nesta cama
Não sei se eu deveria lamber minhas feridas ou
ao invés disso dizer "tadinha de mim"
E há uma dor dentro da minha cabeça
Está dizendo que estou melhor sozinha
Mas depois da meia noite a manhã virá
E com o dia veremos se você conseguirá algo
Meus movimentos, lentos e suaves, faziam questão de alguma forma tocar nele. A música ficava mais forte agora. Lembrei dos passos que Helen me ensinou e os imitei. Fechei os olhos e toquei de leve o rosto dele. Estava quente e provavelmente vermelho. Tirei as luvas, dedo por dedo, e logo depois, dedo por dedo fui descendo pelo peito dele. Ele suspirou e fez menção de me agarrar.
- Não! Está cedo demais! – colei nossos narizes e completei – Vamos, fique bem quietinho e seja um bom menino.
Ele deu mais um suspiro e eu voltei a dançar, fingindo que ia descer uma parte da roupa. Acho que aprendi direitinho.
They say that girl you know she act too tough tough tough
Well it's till I turn off the light, turn off the light
They say that girl you know she act so rough rough rough
Well it's till I turn off the light, turn off the light
And I say follow me, follow me down, down, down
Till' you see all my dreams
Not everything in this magical world is quite what it seems
Dizem que aquela garota age muito difícil, difícil, difícil
Bem, isso até que eu apague a luz, apague a luz
Dizem que aquela garota age muito áspera, áspera, áspera
Bem, isso até que eu apague a luz, apague a luz
E eu digo siga-me, siga-me, siga-me para baixo, baixo, baixo
Até que você veja todos os meus sonhos
Nem tudo nesse mundo mágico é totalmente o que parece
Eu ri mais uma vez, porque ironicamente a música fazia sentido. Nem tudo é o que parece. E eu continuo dançando. Não somos perfeitos, apesar de que sempre achei a perfeição entediante. Bem, pensando por um lado, se fossemos perfeitos eu não estaria dançando. Muito menos iniciando um strip tease. A música voltou a marcar batidas lentas.
I looked above the other day
Cause I think I'm good and ready for a change
I live my life by the moon
If it's high play it low, if it's harvest go slow and if it's full, then go
But after the midnight morning will come
And the day will see if you're gonna get some
Olhei para o alto outro dia
Pois acho que estou bem e pronta para uma mudança
Eu vivo minha vida pela lua
Se ela está alta eu jogo baixo, se está para colheita vá devagar e se está cheia, então vá
Mas depois da meia noite a manhã virá
E com o dia veremos se você conseguirá algo
Acendi uma das luzes, para que Harry pudesse me ver melhor. Céus, onde eu estava com a cabeça, acender luzes... Bem, cada vez mais acho que essa é minha música. Vivo pela lua. Se ontem só faria coisas sob efeito alcoólico, hoje acho que estou solta a ponto de me arrepender depois. PARA COM ISSO! A voz insana gritava na minha cabeça, arrependimentos serão para o fim da semana. Então continuei.
Virei de costas para desatar alguns laços que tinham atrás. Desatei um laço com a ponta da unha, e dei uma olhadela rápida para ver a expressão de Harry. Era um misto de impaciência e desejo, talvez o cérebro dele virasse geléia quando a música acabasse. A música voltou a ficar forte, e logo eu desatei os outros lacinhos. Eles serviam apenas para ajudar a colocar e tirar o vestido mais facilmente, logo minha pele não estava tão a mostra. Mas, ainda assim, fui provocá-lo. Soltei um braço dele e toquei meu colo com os dedos dele.
- Não tente pular as etapas. Seja bonzinho e só obedeça. – eu falei com um sorriso terrivelmente malicioso, apenas para deixá-lo mais atordoado. Atei o braço dele de volta, porque duvidava que seu autocontrole tivesse ido para o além, com passagem só de ida.
I'm searching for things that I just cannot see
Why don't you don't you don't you come and be with me
I pretend to be cool with me, want to believe
That I can do it on my own without my heart on my sleeve
I'm running, I'm running, catch up with me life
Where is the love that I'm looking to find?
It's all in me, can't you see, why can't you, why can't you see it's all in me
Where is your logic?
Who do you need?
Where can you turn?
Procuro coisas que não posso ver
Por que não vem, por que você não vem e fica comigo?
Finjo estar bem comigo mesma, quero crer
Que posso fazer tudo sozinha sem sofrer
Estou correndo, fugindo venha me pegar, vida
Onde está o amor que eu tanto procuro?
Está todo em mim não está vendo? Não vê? Por que você não consegue? Por que você não pode ver? Está todo em mim
Onde está sua lógica?
De quem você precisa?
Onde pode você apagar?
Um a um os laços foram sendo desatados, a cada frase da música. A cada laço um passo de dança coerente misturado com incoerência. Dessa vez não usei os dedos dele para me acariciar. Cheguei bem próximo e fiz que ia desamarrar um braço dele, mas voltei o meu e comecei a afastar o corselet do vestido lentamente, enquanto ainda acompanhava os passos da dança.
- Me... deixe... vocêtocar... – ele falou, ou melhor, suplicou, com a respiração ofegante.
- Cedo demais. – Aproximei meus seios ainda cobertos do rosto dele. Ele aspirou meu perfume sempre floral e apertou os olhos. Me afastei. E continuei a dançar o restante da música, desabotoando a saia. Antes que eu acabasse de tirar a saia a música acabou e outra, meio rock, começou a tocar.
-Você não vai dançar esta... até o final, vai? – Harry quis saber assustado e impaciente.
- Talvez.- respondi enigmática. É claro que não, por que eu realmente estava louca para tirar o resto da roupa dele e minha e enfim... Mas manter a pose também era divertido, porque significava deixar Harry maluco e atordoado. Eu estava adorando.
Me livrei do vestido e fiquei com um conjunto de lingerie com cinta liga preto.
Quando a música entrou no refrão, soltei os cabelos de uma vez, meio que imitando aquelas vocalistas de metal que jogam os cabelos de um lado a outro.
Who am I kidding?
I am not some Mother Theresa
If I don't do something soon
I will die from restraint
As a sick subjugate
No
A quem estou enganando?
Eu não sou nenhuma Madre Tereza
Se não fizer algo logo
Vou morrer de restrição
Como uma doente subjugada
Não!
- Gina... – ele parecia querer dizer algo, mas parou no meu nome.
Continuei dançando, enquanto fui para mais perto. Desamarrei as duas mãos dele e com elas tirei a parte de cima do lingerie. O toque dele me fez desistir de dançar o resto da música de vez. Dane-se. Desamarrei-lhe os pés.
- Me toque. – ah, dane-se, estava precisando mesmo.
- Sim, senhora. – ele não pensou duas vezes antes de tomar os meus seios com os lábios.
A partir daí, a sucessão de toques se misturou, ora eu comandava, ora ele comandava. Esqueci de apagar as luzes, por isso quando nos unimos pude olhar profundamente os olhos dele. Ainda estavam indecifráveis para mim, como um mundo que eu não era permitida, ainda. Era desesperador para alguém como eu.
Era bom o que eu sentia agora, o clímax, rápido, mas não menos intenso. Comecei a sentir o cansaço de ter dançado após um dia cansativo de trabalho + ressaca. Desliguei a música, não fazia mais sentido.
Permanecemos abraçados, sem dizer uma única palavra. Apenas curtindo o silêncio. Adormeci nos braços dele desejando poder acordar assim.
* H*&*G*
Meu desejo silencioso foi atendido. Quando me dei conta da claridade do dia Harry ainda estava lá adormecido. Fiquei observando por alguns segundos. Ele dormia tranqüilo, com uma expressão despreocupada. Passou muito tempo para que ele conseguisse dormir com tranqüilidade, sem pesadelos sobre a guerra. Tive uma enorme vontade de acariciar os cabelos dele, mas não conseguia. Era como se minha mão estivesse presa por algo que eu não conseguia soltar. Odeio essa sensação. Ele é meu marido e eu o amo desde quando nem sabia direito o que isso significava e agora me sinto presa quando penso em tocá-lo. Agora começo a pensar se uma semana não foi tempo demais.
Ele abriu os olhos lentamente, procurando o foco, ao menos o pouco foco que um míope de 5 e 7 graus conseguia ao acordar.
- Bom dia! – falei suavemente.
- Bom dia! Estamos atrasados? – ele quis saber preocupado. Ultimamente atrasos estavam virado rotina.
- Não.
- Ok! Quero chamar os garotos hoje, então você pode ir se aprontar... – ele falou enquanto procurava os óculos.
- Ehhrr... Harry. Não se esqueça de vestir a roupa. Não acho interessante que você ande numa casa com duas crianças, sendo uma delas James, sem roupa. – falei divertida. Ainda estávamos sem roupa.
- Ah! Claro – ele sorriu e conjurou as roupas. Eu fui cuidar de me arrumar.
* H*&*G*
- Mamãe – James interrompeu o silêncio do café da manhã.
- Diga.
- Você ouviu uma música ontem? Acho que fizeram uma festa. Al disse que é coisa da minha cabeça, mas eu tenho certeza que ouvi.
Minha Santa Bridget das mães desesperadas! James ouviu a música! Olhei desesperada para Harry, que me devolveu uma expressão de 'finja que não fomos nós'. Engoli seco e respondi:
-Não, não ouvi nada. Você ouviu Harry? – respondi com o ar a
- Também não.
- Eu falei que você é doido – Albus respondeu para James. Às vezes acho que ele tem mais do que três anos, porque falava coisas tão acima da idade dele.
- Mas eu juro que ouvi. Parecia com uma música que Victoire gosta de ouvir. Juro que ouvi. – de fato, os álbuns que possuíam as duas músicas, eu tinha ganhado de presente dela. DROGA. Por que eu não renovei o feitiço de abafar o som?
- Eu acredito em você, James. Mas esqueça isso e termine o café. Você vai acabar nos atrasando.
Fiz uma nota mental de lembrar que tenho crianças em casa, que definitivamente não podem saber o que se passa nas paredes do meu quarto.
* H*&*G*
Hoje Harry não foi me deixar no trabalho porque tinha muitos assuntos urgentes para resolver. O dia passou normalmente e eu soube que deveria viajar para a Escócia, Irlanda, França e Alemanha quando a copa se aproximasse. Uma reunião 'incrível' com Angelina, Cavendish e o restante dos correspondentes, definiu o nosso destino.
- Vamos dividir as viagens de forma que ninguém saia prejudicado – Mylor Cavendish tinha a voz poderosa e se parecia muito com o professor Slughorn. Mas a única coisa legal do velho Slugh ele não tinha. O clubinho, onde eu era um membro ilustre e querido, com direito a fazer pedidos que seriam cumpridos. Bons tempos, apesar de tudo.
- Senhora Potter, como tem duas crianças pequenas irá a lugares que são mais perto. – ele falou pomposo, e depois fez uma grande pausa, talvez esperando que eu agradecesse. Como permaneci calada ele continuou mandando as pessoas para os outros lugares, sempre de acordo com as possibilidades delas. Velho hipócrita e nojento! Eu e todo mundo sabia que não havia necessidade de viajar, já que todas as seleções estariam aqui na Inglaterra duas semanas antes, no mínimo.
A reunião acabou lá pelas três da tarde. Como não havia mais nada a fazer lá, saí. Decidi visitar Hermione, e de quebra Harry, no Ministério.
* H*&*G*
Fui primeiro dar um oi pra Hermione, mas ela havia saído. Então me dirigi ao quartel dos aurores. A recepcionista do escritório de Harry, Dorothy Gish, me parou quando ia entrar direto, sem ser anunciada.
- Senhora Potter, ele está em reunião, algo muito importante. – ela falou apressada e com o velho tom de aflição.
- Não se preocupe, só vou dizer oi. Sairei rápido. – abri a porta e ouvi uns soluços entrecortados por uma voz que não me era estranha.
- Ele...hãhãhã... nunca fez mal... Tão bom...hãhãhã... não tinha inimigos.
-Calma. Tente não chorar, ao menos um pouco, não vou conseguir te entender bem.
Harry não havia notado a minha presença. Tudo que pude ver foi um cabelo escuro e muito liso e um tronco que soluçava compulsivamente. Parecia muito com alguém. Fiquei ouvindo mais um pouco. A mulher parou de soluçar e após limpar a voz começou a contar a que veio.
- Ele estava recebendo ameaças que não deu importância, afinal ele não tinha inimigos. Sábado ele saiu para o trabalho e desde então não sabemos onde ele se encontra. Harry, por favor, encontre-o. Estão aqui as cartas. – ela entregou as cartas e apertou as mãos dele. Antes estava com pena da mulher, agora fiquei um pouco irritada. Harry olhou para ela e para as cartas. Passou alguns minutos para conhecer o conteúdo delas, enquanto a mulher chorava baixinho.
- Veremos o que posso fazer. – foi tudo o que ele disse
- Obrigada! – quando a mulher levantou pude perceber quem era. Agora uma Gina Weasley de 14 anos, com muita raiva, emergiu. Era Cho Chang. Merlim, ela não cansa de chorar? Me fiz notar. Harry me olhou um tanto apavorado, talvez tentando dizer que não era isso que eu tava pensando, o que quer que fosse.
- Olá! – falei – Ia perguntar se você está bem, mas já percebi que não. Sinto muito. - falei tentando ser cordial, mas acabei sendo irônica.
- Obrigada! – ainda bem que ela estava mal o suficiente para não entender. – Foi meu irmão. Sumiu. – uma nova sessão de soluços. Meu irmão morreu e eu tenho certeza que não solucei tanto assim. Isso ficou na minha mente, apenas. Ela ainda me causava ciúmes, assim como Lilá também causava ciúmes em Hermione. É bem difícil saber qual das duas é mais asquerosa.
- Cho, acho melhor você aguardar notícias em casa. Não se preocupe, o departamento vai lhe manter informada. – Harry falou com uma voz esquisita.
- Certo. Até mais. Tchau Ginevra.
- Tchau. – respondi seca.
Quando ela bateu a porta, eu a tranquei com um feitiço e abafei o som para ninguém escutar o que eu ia dizer.
- Ela é nojenta. Não se cansa de chorar? Cara, eu perdi um irmão, e tenho certeza que não chorei nem dez por cento.
- Temos um impasse aqui. – ele falou ignorando as minhas considerações de uma pessoa nada solidária. Mas em se tratando de Cho Chang, eu só conseguia sentir duas coisas ciúmes e asco. – Eu vou ter que sair esta noite para investigar o caso. Parece que há ligações com a gang de bruxos recém-saídos de Hogwarts que andam assustando por aí.
- Logo teremos a segunda baixa da nossa semana, já que a primeira eu fiz o favor de causar.
- Isso. Não me falou que viria.
- Vim falar com Hermione. Se tivesse falado você teria levado ela para algum lugar onde eu não pudesse encontrá-la?
- Não. Acho, tenho absoluta certeza, que qualquer sentimento que não seja a pena ficou nos meus quinze anos. Não seja ridícula.
- Ótimo. Vou lembrar bem essa resposta quando você ficar irritadinho por causa do Michel ou do Dean.
- Lá vamos nós... – ele retrucou me encarando firme.
- Parei por aqui. – falei levantando as mãos.
- Sabe. Uma idéia acabou de me ocorrer. Já que eu não estarei em casa hoje, não poderemos dar continuidade as nossas noites. Mas, pensando melhor, não precisa ser necessariamente de noite. – ele se aproximou de mim e beijou minha orelha – Muito menos em casa...
Hã? Será que eu entendi bem? Ele estava propondo que transássemos ali? Harry definitivamente perdeu a noção total do perigo.
E eu também.
- Humm. Já que eu enfeiticei a porta e a sala, você podia dar ordens a Dorothy, para não deixar ninguém nos incomodar...
- Você entrou no jogo. – ele me olhou com um sorriso malicioso se formando nos lábios.
- Não. Não entrei no jogo. Talvez eu precise ser convencida.
- Estamos aqui para isso. – ele voltou para a mesa e através de uma espécie de interfone avisou a Dorothy que ninguém, nem mesmo o ministro, podia entrar sem ser avisado.
Um pensamento me ocorreu. Nada do que eu tenha feito, desde que isso tudo começou, supera o que estamos prestes a fazer agora.
