9. Ruínas?
Voltei ao trabalho para começar a arrumar a questão das viagens pré Copa Mundial de Quadribol. A necessidade de esclarecer tudo mais rápido aumentava a cada minuto. Eu teria que viajar outra vez e Harry detestava a ideia. Eu sabia que quanto mais adiasse tudo pior a situação ficaria.
Eu pedi que Eloise me avisasse se Cavendish aparecesse hoje. Ia começar a abrandar a raiva.
- Ele falou que você pode subir daqui a cinco minutos. Já fez algo contra aquela repórter? –Eloise quis saber.
- Não, ainda não. Devo ir ao Ministério. – respondi de forma que a conversa não prolongasse. Ela apenas assentiu. Depois de cinco longos minutos subi para falar com o meu adorado chefe. Ele me recebeu com um sorriso sínico e um bom dia falso.
- Sente-se – Cavendish ordenou. – A que devo a honra de tanta pressa na visita?
Eu sentei na frente dele e sustentei o mesmo olhar pesado e com pontas de ódio que estava treinando antes de entrar.
- Acredito que o senhor tenha visto o que foi feito com a minha 'inofensiva' entrevista àquela garota do Semanário. – comecei e estendi a revista para que ele visse ou revisse.
- Sim. Eu lamento muito pelo que está ocorrendo. Espero que vocês se resolvam logo. Formam um belo casal Sra. Potter. Está precisando de alguma folga para tentar resolver o assunto? – Eu juro que queria estrangular esse velho agora. Eu ouvi bem? Ele acreditou mesmo na revista? Minha santa Morgana das fadas... Respirei fundo e continuei tão civilizadamente quanto consegui.
- Eu acho que há um mal entendido aqui. Não está acontecendo nada, absolutamente nada, de errado entre mim e Harry. E mesmo que estivesse não é problema do Semanário e de todo o mundo.
- Então a Sra. Está me dizendo que a entrevista foi distorcida? Mas isso não costuma acontecer mais, desde a saída de Rita Skeeter.
- Pois bem, foi por isso que contrataram aquela cobrinha venenosa. Eu jamais disse uma única palavra do que está aí. E o meu objetivo aqui é avisar ao senhor que não darei mais entrevistas que não sejam sobre temas de quadribol. Eu não tenho medo de ser demitida e o senhor sabe que se isso acontecer serei a pessoa que sofrerá menos danos. – não sei de onde tirei coragem para dizer essas palavras. Meu pai me ensinou que se deve respeitar os superiores, mesmo que você não concorde com eles. No meu caso é mesmo que eu não precise dele, de fato.
- A Sra. não será mais importunada por esses assuntos. Agora pode me dar licença? – dessa vez o tom de voz e a expressão estavam azedas.
- Eu ainda não acabei. Quero uma retratação do Semanário quanto a essa entrevista ridícula. Não adianta usar argumentos de que mentiras sobre mim já foram ditas em outras ocasiões. Eu tenho filhos agora e prezo pela paz e pela boa criação deles. E depois isso foi longe demais. – acho que não sei se já fui tão pedante como agora.
- Vou providenciar isso e assim que conseguir entrarei em contato. – Cavendish também estava visivelmente surpreso, pois jamais tinha me visto dessa forma.
- Ótimo. Muito obrigada e tenha um bom dia. – Sem esperar a resposta levantei e saí rapidamente da sala. Tinha que respirar.
* H*&*G*
E mais uma vez eu estava sentada no sofá olhando para a TV sem assisti-la, pois minha cabeça estava cheia de problemas reais. Eu não me sentia pronta para conversar, ou talvez eu não quisesse ter aquela conversa. Eu jamais abriria mão de trabalhar por causa dos ciúmes idiotas de Harry e ele não deixaria de senti-los. Então outra vez estávamos em um impasse, confrontando nossos péssimos gênios para ver quem venceria. Eu não gostaria que fosse assim. Tudo o que eu mais queria era que ele enfim entendesse que eu sou completamente dele desde que o vi naquela estação com apenas dez anos de idade, por mais que eu tivesse tentado fugir disso em algumas situações. Meu maior problema era encontrar palavras que se encaixassem de tal maneira que não soltassem faísca para um possível incêndio em nossa relação que estava tão frágil como palha.
Já passava das nove da noite e após colocar os meninos na cama me preparei para dormir perdendo as esperanças de que ele fosse chegar a tempo de termos alguma conversa ou coisa mais interessante. Enquanto estava sentada na cama a escovar lentamente os meus cabelos ouvi passos próximos ao corredor do quarto. Era ele.
Continuei o que estava fazendo, como se a minha mente não estivesse fervendo com tantas palavras a serem ditas.
- Boa noite! – ele falou ao abrir a porta. Estava com o semblante cansado e as roupas um pouco sujas.
- Boa noite! – respondi com um sorriso tímido e continuei a escovar os cabelos. Sem dizer mais nada ele simplesmente caminhou em minha direção e me beijou cuidadosamente nos lábios.
- Preciso tomar banho. Hoje fizemos batidas perto da outra entrada da Floresta Proibida e eu devo estar cheirando a centauro. – sorri e ele se afastou de mim e caminhou em direção ao banheiro.
Falar ou não falar? Ele parecia tão vulnerável e cansado hoje que talvez não fosse acontecer uma briga se tentássemos conversar. Depois de uns dez minutos ele saiu do banho e deitou ao meu lado. Ficamos em silencio por alguns minutos. Decidi parar com aquele tormento de coisas não ditas de uma vez. Comecei a falar.
- Harry, eu quero conversar com você. Por favor, tem que ser hoje ou eu vou explodir.
Ele me olhou em silêncio por alguns instantes antes de responder:
- Achei que teríamos que conversar apenas amanhã. Mas se você acha que deve ser agora...- ele se calou esperando que eu começasse. Droga!
- Eu tenho uma coisa para te falar e isso está completamente ligado aos nossos problemas. Como eu não posso adiar esse assunto devo tratar de tudo de uma vez.
-Vá em frente! – Respirei fundo e comecei.
- A copa é daqui a um mês e meio, como você bem sabe. E eu devo viajar daqui a duas semanas para alguns locais onde as seleções estarão concentradas, para fazer entrevistas, falar sobre táticas, enfim. É apenas por uma semana e meia e depois eu voltarei para casa e irei para a Espanha na semana da copa. - tomei um pouco de ar e olhei para os olhos dele, buscando decifrá-los. Estavam impassíveis. Indecifráveis.
- Já tenho tudo em mente, vou deixar os meninos com mamãe ou Angelina, caso mamãe não possa ficar com eles. Se puder encerrar o trabalho mais cedo e voltar mais rápido, vou fazê-lo. Eu quero que você entenda que isso faz parte do que eu faço agora, é imprescindível.
Fiz silêncio esperando que ele retrucasse e apenas após alguns segundos ele começou:
- Eu não, nunca, consegui entender por que você ainda leva adiante esse trabalho, tendo dinheiro para deixar aos filhos de James e Albus juntos. Você não precisa se submeter a isso e parece que só o faz por que sabe que eu não gosto. – a voz dele estava calma, mas o tom de rancor estava lá no fundo.
- Harry, eu preciso fazer algo para me sentir útil, algo além do que eu possa fazer para você e os meninos. Eu sempre admirei minha mãe, mas jamais quis viver como ela. Você sabe disso, sempre soube. Eu preciso do movimento, de fazer coisas novas, interagir com pessoas diferentes. Por favor, tente entender isso. O que quer que façam comigo não diminuirá tudo o que eu sinto por você.
Ele respirou fundo e ficou quieto. Depois de alguns minutos voltou a falar.
- Eu... Eu não gosto da ideia de ter alguém querendo roubar você de mim. Eu não gosto de imaginar que existe alguém mais te tocando, com 'más' intenções. E eu acho que você deveria ter ido trabalhar no MM como geralmente todo bruxo vai – acho que enfim ele estava sem palavras a dizer, mas ainda não havia dito o que eu queria. Ainda não havia se desculpado pelo que disse e nem dito que tentaria entender.
- Harry, eu não me importo se existem pessoas olhando para mim com outras intenções, por que nenhuma dessas pessoas é você. Entenda isso de uma vez por todas. A quantidade de pessoas que olham para mim ou me desejam não diminuem nada do meu caráter e nem dos meus sentimentos. Ah! E se todos os bruxos quisessem trabalhar no ministério não sobraria muitos empregos, não seja ridículo! Eu não sou uma qualquer por que trabalho longe das suas vistas ou por que outros homens possam me desejar. – falei induzindo-o a lembrar do que tinha me dito meses atrás. Induzindo-o a talvez desculpar-se.
- Eu não queria ter dito aquilo. Eu... Vamos tentar conviver bem, certo? – ele falou tentando parecer seguro. – Eu não suporto a ideia de ficar longe de você ou de ver a nossa família destruída, então, pelo nosso bem vamos tentar conviver.
- Isso é o que eu mais quero. Tentar conviver significa aceitação e compreensão. Eu realmente espero sentir isso de sua parte. – retruquei com firmeza na voz.
- Ok. Gina eu preciso dormir. – dito isso ele me beijou rapidamente e virou-se para dormir.
Sem dúvida essa foi a conversa mais esquisita que já tivemos. É como se nada tivesse sido realmente resolvido, mas também eu não sentia mais como se tudo fosse acabar, ruir em minhas mãos. As semanas anteriores a minha viagem foram tranquilas e tudo entre nós transcorria normalmente, Eu sentia que de fato Harry estava se esforçando para tentar entender que eu faço e o quanto isso é importante para mim. Estava me sentindo feliz e aliviada como não me sentia há meses. A terrível sensação de coisas não ditas não atormentava a minha cabeça, como antes. Durante esse tempo continuamos a nossa rotina de casal normal e isso inclui sexo algumas vezes por semana. Leia-se nos dias menos corridos. Nada de loucuras ou coisas inusitadas, tudo normal, mas não menos ótimo.
O dia da viagem enfim chegou, e meu nervosismo aumentava. Primeiro por que era terrível ficar longe dos garotos e depois por que eu ainda tinha uma centelha de temor sobre novas brigas.
- Não se esqueça de inspecionar as atividades de James. – recomendei a Harry pela enésima vez. Não se esqueça de olhar se Al tem alguma tarefa e o principal não se esqueça de busca-los na escola, por favor.
- Eu já entendi- ele retrucou com um misto de aborrecimento e riso. – O que acha que vou fazer aos meus filhos?
- Nada. Eu preciso ir. – beijei-o rapidamente e abracei os meninos, igualmente rápido, pois Albus já estava com ares de choro. – Até logo. Amos vocês!
Peguei a chave de portal e fui levada para um hotel na França, primeiro local que eu iria na semana que deveria ficar viajando. Aqui, além da seleção da França, havia a do Peru, que pretendia se habituar aos ares europeus e por motivos desconhecidos escolheu ficar perto da seleção da França. Assim que me identifiquei no hotel tive um encontro bastante desagradável, para descrever apenas o mínimo: Dana Vane. Por certo ela veio atrás de saber detalhes da vida dos jogadores, além de me perseguir.
- Bom dia Sra. Potter. - aquela voz cínica de gralha me fez querer lançar uma maldição de morte.
- Bom dia, querida. – retruquei com a máxima falsidade que consegui. De repente me ocorreu o que exatamente eu poderia fazer para tirá-la de circulação por algum tempo.
- Vejo que seu quarto e duas portas depois do meu. Seremos vizinhas! – ela falou com falso entusiasmo.
- Interessante. Eu tenho que subir. – falei me afastando. Tinha que mandar uma coruja para certo irmão dono de uma loja de logros...
* H*&*G*
O dia transcorreu normal, com um treino da seleção do Peru visto e dois jogadores entrevistados. Minha cabeça, porém, estava em Londres. Primeiro pelo motivo óbvio, Harry e os meninos, segundo pela resposta de Rony ou George. Aquela vadia estava de fato me perseguindo e não sossegaria enquanto eu não armasse uma confusão que desse uma matéria. Claro, isso jamais acontecerá.
As oito da noite, após o jantar, usei a lareira do quarto para falar com Harry.
- Como vocês estão?
- Sentindo sua falta. – ele respondeu com um tom distante. – Tudo correu bem, não se preocupe. Como está aí?
- Normal, exceto pelo fato de que eu estou quase do lado daquela repórter que fez a matéria do semanário. E ela ainda faz questão de tentar conversar comigo. De certo procura uma confusão, mas eu não farei nada.
- Isso. Controle-se, pois é exatamente o que ela quer. Sabe, amanhã Neville fará uma pequena comemoração, pois Hannah está grávida.
- Ela havia falado que suspeitava disso para mim e Hermione. De qualquer forma mande minhas lembranças e felicitações para os dois. Harry, está meio tarde e eu tenho que acordar as cinco para ir até a concentração francesa. Boa noite! Não esqueça de mandar um beijo para os garotos.
- Ok. Boa Noite!
Como eu já esperava, a resposta de George ou mesmo de Rony não chegou e talvez eu tivesse que esperar mais um pouco para realizar o que eu estava pensando...
* H*&*G*
Já estava no meu último destino, a Escócia, e com Dana Vance no meu encalço. Desde a Irlanda eu estava com os ingredientes necessários para a minha vingança, mas não tive a oportunidade de usá-los. No fim da tarde eu estava no restaurante do hotel tomando um chá quando a nojentinha sentou na minha mesa, sem ao menos pedir permissão.
- Como está o trabalho? – ela quis saber fingindo interesse.
- Maravilhoso. Porém não vejo a hora de voltar para minha casa e abraçar meu marido e filhos. – devolvi segura. De repente me ocorreu que esta seria uma boa hora para vingança, o pó de pele de dragão estava na minha bolsa e tudo o que eu precisava fazer era derramar no chá dela ou jogar sobre sua roupa, da forma mais discreta possível. Os efeitos esperados ocorreriam em uma hora, então era só aguardar o show de longe.
Ficamos em silêncio e nesse meio tempo puxei o conteúdo do pequeno frasco com a minha varinha, sem que a tal Vance notasse. O chá dela chegou logo depois. O show estava começando...
- Você conseguiu boas matérias? – eu puxei assunto para desviar a atenção do que estava acontecendo por baixo da mesa. O pó estava vagarosamente atravessando a mesa e a xícara para se misturar ao conteúdo.
- Oh, sim, especialmente na Alemanha. Foi incrível. Devo retornar para Londres hoje e depois partir para a Itália. Você vai para algum outro lugar? – ela parecia entusiasmada com meu interesse.
- Não. Estou com muitas saudades dos meus uma mancha na sua testa, meio avermelhada. Você já viu? – o conteúdo estava completamente misturado ao chá. Não havia mancha alguma, mas isso fazia parte do plano. Eu lentamente guardei a varinha de volta e voltei a me concentrar em meu próprio chá.
- Mancha? Não. Está muito grave?- ela quis saber preocupada e passando as pontas dos dedos no local indicado.
- Acho que você deveria cuidar disso mais tarde. Eu devo subir agora. Tenho que esquematizar as matérias. Até mais. – falei enquanto me levantava. Dali à uma hora sairia do quarto de novo para ver o resultado.
Não foi preciso uma hora completa para o pó de pele de dragão fazer efeito. Ouvi os gritos de Dana Vance pelo corredor chamando atenção de todos. Quando saí do meu quarto vi que o efeito estava melhor do que eu esperava. O pó daria a pessoa aspecto de varíola de dragão por uma semana. A pele dela estava coberta de erupções e manchas vermelhas e o cabelo caíra um pouco. Quem neste mundo daria entrevista a uma pessoa com varíola de dragão? Ela rapidamente foi isolada e orientada a não sair mais do quarto do hotel até que a chave de portal a levasse de volta para casa. O melhor de tudo é que ela não desconfiava de nada e que se ela viesse a pensar qualquer coisa, não teria provas...
Terminei minha semana de trabalho e enfim estava em casa novamente. Era sábado bem cedo quando cheguei em casa. Fui ao quarto dos garotos, porém nenhum deles estava lá. No meu quarto Harry dormia tranquilamente. Fiz o mínimo de barulho possível, para não acordá-lo. Às sete da manhã ele apontou na cozinha, onde eu estava preparando algo para comermos.
-Bom dia! – fui em direção a ele para dar-lhe um beijo.
- Bom dia! – ele correspondeu.
- Onde estão James e Al? – perguntei voltando a fazer o que estava fazendo antes.
- Com Hermione. Não consegui buscá-los na escola ontem. Ela teve que voltar lá às oito e buscou os dois, quando eu enfim consegui entrar em contato com ela.
- As oito da noite? Você deixou os garotos até as oito na escola? – eu falei, na verdade quase gritei. Como ele poderia ter sido tão irresponsável?
- Essa semana estava muito corrida e ontem teve uma ocorrência grave longe de Londres. Não consegui voltar a tempo. – ele respondeu meio aborrecido.
- Harry, eu pedi para você que ao menos uma vez fizesse as coisas no horário. Será que não existia outro auror para essa ocorrência? Rony poderia ter ido sozinho. Por que sempre você? – eu estava realmente zangada, tanto que minha cabeça começou a girar.
- Não Gina, não podia ser outro auror. Não tinha outro auror, pois todos estão ocupados com a mesma idiotice que você está: a copa. – ele estava com a voz alterada e os olhos repletos de raiva.
- Idiotice? Como você, seu hipócrita, pode dizer uma coisa dessas? Logo você, que afirmava na escola que a única coisa que sabia fazer era voar. – meus olhos aos poucos saiam do foco, à medida que a minha raiva aumentava.
- Idiotice e inutilidade. E por causa disso seus filhos ficaram na escola até tarde. Por que você estava preocupada com coisas banais.
Não vi mais nada, não ouvi mais nada. Tudo escureceu.
* H*&*G*
