11- Olhos Vermelhos (pt. 1)
- Desculpe. Eu... é... eu não sei o que me deu... Não devia ter feito isso na frente da Grifinória inteira.
- Não diga bobagens.
Nossos lábios se uniram pela segunda vez naquele dia. Desde aquele momento eu tive certeza que eram apenas aqueles lábios que eu queria beijar pelo resto da vida. Lágrimas escorriam pelo meu rosto e a dor que eu estava sentindo era tanta que nada do que eu já tenha passado durante meus 30 anos de existência se compara a isto.
- Eu sei que você, em algum momento da sua vida, vai ter que enfrentar você-sabe-quem. E eu sinto que este momento está muito próximo. Não tentarei te impedir. Jamais seria egoísta a ponto de preferir você bem aqui enquanto nosso mundo desmorona.
- Gina, eu...
- Espera. Eu quero que você me prometa uma coisa.
- Sim?
- Onde você estiver, fazendo o que quer que seja, vai se lembrar de mim e vai fazer o impossível para voltar ileso para mim. Promete?
- Prometo. Essa é uma promessa quase impossível, mas ela está sendo feita para a garota que me fez beijá-la na frente de um irmão louco ciumento e um ex-namorado raivoso... Quem é Voldemort perto de tudo isso?
Rimos e nos beijamos. O sol estava particularmente lindo aquela tarde. Eu tinha certeza do que estava sentindo naquele momento. Era algo além de uma imensa felicidade. Era amor.
Onde nós fomos parar? Eu soluçava alto, um pouco pela dor do que tinha acabado de acontecer, um pouco por não conseguir controlar as minhas lembranças. As tardes distantes de Hogwarts, os dias em Hogsmead depois da guerra...
- Se mamãe descobrir que ando fugindo da escola para encontrar com você ela vai fazer picadinho de nós dois, Harry Potter.
- Então nós temos que aproveitar o tempo que ainda temos antes de virarmos mais uma iguaria culinária de Molly Weasley.
- Muito engraçado!
Agarramos-nos e à medida que o tempo passava nossos beijos e carícias ficavam mais quentes a cada dia.
Tentei forçar minha mente a não trazer a tona essa memória, mas foi inevitável. Era como uma tortura. E aos poucos essas lembranças iam machucando as feridas recém-abertas. E eu só queria que isso acabasse logo. Eu queria que isso tudo não significasse mais.
- Gina, temos que parar agora... Gina...
Ela parecia não me dar ouvidos e continuava beijando meu pescoço de forma provocante.
- Gina... – eu sabia que não conseguiria me controlar se ela continuasse. Não queria fazer nada de maneira errada. Ela parou de repente e me encarou séria.
- Eu não quero que você pare. – ela falou tranquilamente. Os lábios inchados dos beijos tornavam-na mais desejável.
- Sabe, sabe o que isso significa? – minha voz estava trêmula de receio e desejo. Não queria machucá-la nem fazer algo errado.
- Sim. Eu quero isso tanto quanto você. – ela me encarava de uma forma diferente e intensa. Senti minha mão ser guiada até os primeiros botões que fechavam a veste dela. Esse toque me permitiu roçar levemente pelos seios dela, ainda vestidos. Comecei a desabotoar tudo cuidadosamente, enquanto ela fazia o mesmo comigo.
Não... Lutei contra as memórias, por que pedir que ela não significasse mais nada era pedir que minha própria vida fosse arrancada de mim. Não sei exatamente quando comecei a amá-la, mas quando me dei conta disso soube que a amaria para sempre. Talvez eu realmente tivesse uma parcela de culpa nisso tudo, mas eu jamais a trairia. Nunca! Meus olhos estavam inchados e meu nariz completamente congestionado. Eu mal conseguia respirar, mas pouco importava. Tinha perdido minha família, pela segunda vez na vida. Se ao menos eu pudesse voltar atrás...
- Harry! Gina! – era a voz de Hermione – abram a porta, por favor!
Relutei em levantar do sofá, mas era inevitável. Todo mundo vai ficar sabendo mais cedo ou mais tarde. Abri a porta e encontrei Hermione parada me encarando com ar de surpresa.
- Eu realmente espero que isso não seja por causa daquela revista idiota. – ela disparou enquanto entrava.
- Ela foi embora. Ela levou os meus filhos. – as lágrimas voltaram com toda força. Hermione me abraçou e eu recomecei a soluçar alto.
- O que você disse a ela? – perguntou Hermione, após soltar o abraço.
- Você viu o que ela fez? Ela me traiu. Como ela pode ser tão...? – não consegui continuar. Estava machucando demais falar nela.
- Harry, não seja ridículo. Qualquer um vê que a foto foi tirada de um ângulo errado. Ela jamais te trairia. Você a conhece muito bem.
- Eu não sei se a conheci realmente. Eu quero os meus filhos de volta. Ela não tem o direito de levá-los.
- Ela é a mãe deles. – Hermione parou por alguns segundos parecendo pensar no que dizer e depois continuou – Vamos tentar arrumar um jeito para fazer vocês dois conversarem, ok?
- Não tenho nada para falar com ela. Eu quero os meus filhos de volta. – eu queria apagá-la do meu coração e isso seria muito mais difícil se eu a encontrasse.
- Vocês se amam. E não tente me convencer do contrário. Se não for por você pense nos garotos. Pense bem no quão ruim seria para eles crescerem com os pais separados.
- Mione, por favor, pare de falar nela. Tudo o que eu quero agora é ter os meus meninos de volta. Deixe-me sozinho. Se conseguir achar os meninos me avise, mas, por favor, não tente me convencer a conversar com ela. Não quero mais vê-la. Eu não a amo mais.
- Tudo bem. Voltarei mais tarde trazendo notícias de James e Albus.
Ela saiu batendo a porta atrás de si. Se bem conheço Hermione, ela vai tocar no assunto assim que achar que eu estou disposto a mudar de ideia. Mas dessa vez não haverá mudança de ideia. Eu não quero amá-la, não mais.
* H*&*G*
- Mamãe por que estamos aqui? – James perguntou com a voz triste. Já era noite e por sorte ninguém conseguiu nos achar, ainda. Não sei por quanto tempo eu conseguiria me esconder, mas com certeza iria fazer isso durar o máximo possível.
- Imagine que nós estamos de férias, meu amor. Essa é a nossa casa de férias então você pode brincar agora. – dei-lhe um beijo estalado no rosto e me dirigi para perto de Albus, que parecia estar entretido com um joguinho de blocos. Olhar para ele fazia as lágrimas teimarem em voltar. Tão parecido com ele.
Deixei os meninos na sala, enquanto preparava algo para comermos. Minha mente não estava funcionando direito e o macarrão acabou queimando um pouco. Tudo o que eu conseguia lembrar era a voz e a expressão de raiva dele. Nunca havia visto nada parecido, não dirigido a mim, pelo menos. Os olhos dele queimavam quando o encarei pela última vez. Meu coração não queria aceitar, mas meu consciente sabia que aquele era o fim. Não havia mais conserto, nada poderia remendar os nossos retalhos.
- James! Albus! Venham comer. – chamei-os e fui prontamente atendida. Enquanto comíamos a campainha tocou. Estremeci. Não queria ver ninguém, principalmente quem eu achava que estava à porta agora. Hermione jamais seria capaz de entender o que eu sinto agora. Ninguém seria.
- Mamãe, não vai atender? – James quis saber.
- Vou sim. – levantei a muito contragosto e fui até a porta. Não era Hermione. Era Rony quem estava lá.
- Oi! Sabia que te encontraria aqui. Deixe-me entrar, precisamos conversar. – ele falou apressado.
- Rony, se veio tentar me convencer a deixar os garotos irem, perdeu o seu tempo.
- Não. Eu quero falar com você. - Sai do meio da porta para que ele pudesse entrar. Provavelmente estava com um discurso pronto para tentar me convencer de que eu havia me precipitado.
- Estamos jantando. Quer nos acompanhar? – perguntei enquanto retomava o meu lugar.
- Tio Rony! – James e Albus falaram praticamente ao mesmo tempo. Rony deu uma leve remexida no cabelo dos dois e sorriu antes de tomar um lugar à mesa. Impressionantemente ele negou o convite para jantar.
- Daqui a pouco os dois rapazes irão dormir, então você pode aguardar até lá? – fiz uma pergunta que soava mais como uma ordem. Não queria envolver os meninos nos meus problemas. Eles já terão o suficiente quando se derem conta do que aconteceu.
- Claro. E aí o que acharam da copa?
- Maravelhoso! – Albus respondeu, falando uma das únicas palavras que ainda não conseguia pronunciar direito.
Depois de uma conversa e uma animada partida de snap explosivo os meninos finalmente foram dormir.
- E então? – eu quis saber.
- O que deu em você? – ele começou – Quero dizer, você pegou os meninos e o largou lá, simplesmente sem conversar ou tentar esclarecer nada?
- Rony a pergunta certa é "o que deu nele?" Pois foi ele quem não acreditou em mim. Por que diabos eu deveria tentar conversar com alguém que não quer saber o que eu tenho a dizer? Ele só sabe me acusar.
- Por que você tem dois filhos e deve zelar que eles cresçam bem. E por que você o ama.
- Ótimo! Agradeça a Hermione por mim, mas ela não precisava ter te mandado aqui para me dizer isso. – Essa é boa! Rony bancando o conselheiro matrimonial...
- Ela não sabe que eu estou aqui. – de fato ele não estava com a cara de quem estava mentindo ao afirmar isso. - Só estou tentando evitar um desastre. Por favor, tente conversar com ele. Espere tudo se acalmar e tente só dessa vez... Eu o vi hoje à tarde. Está devastado.
- Como você acha que eu estou me sentindo? Eu já dei chance para ele antes. Acho que cansei de ceder. Pouco me importa se ele está destruído. – Ele se calou por alguns momentos. Parecia ter enxergado que não me convenceria a ceder. Finalmente falou:
- Teimosa! Se precisar de ajuda não hesite em me chamar, irmãzinha. Eu estou do seu lado.
- Não se preocupe. – sorri e antes que ele saísse me abraçou. Contive as lágrimas para não chorar na frente dele. Porém, quando fechei a porta não consegui segurar mais.
* H*&*G*
Éramos a notícia do mundo bruxo. Estávamos em todos os jornais e revistas do momento. Já havia passado um mês. Consegui esconder por uma semana e meia, até que perceberam que ela não voltava ao trabalho e nem os garotos para a escola. Minha cara não era das melhores quando retornei ao trabalho e logo foi fácil deduzir o que aconteceu. Sentia a falta deles como acho que sentiria falta do ar que respiro, caso ele acabasse. Quanto mais eu tentava me convencer de que tinha que esquecê-la, pior eu me sentia. Voltar do trabalho era doloroso, pois não iria ouvir James me contar o que fizera na escola, nem Al me mostrar seus desenhos, ansioso para que eu desse um beijo de aprovação. Não teria ela andando pela casa com os cabelos dançando nas costas, o perfume de rosas enchendo o meu nariz, os beijos...
- Sr Potter, há uma mulher do tribunal de bruxos aqui. Posso mandá-la entrar? – Dorothy quis saber.
- Sim, por favor. – alguns segundos depois uma senhora de uns quarenta anos, vestindo roupas cor de ametista, como eram as vestes do tribunal, adentrou a sala. Indiquei-lhe a cadeira na minha frente e ela começou.
- Boa tarde Sr. Potter. Sou Imelda Firth. O senhor está interessado em saber os trâmites para um divórcio e como recuperar os seus filhos, não é isso?
- Sim. Há um mês a min há esposa levou os meus meninos e desde então não consigo vê-los. Ela fez algum tipo de magia para que eu não pudesse encontra-los. Quero o divórcio o mais rápido possível e se não conseguir o direito de ficar com eles, quero pelo menos o direito de vê-los.
- Entendo. É de comum acordo a separação? O divórcio sai muito rápido desde que ambas as partes estejam interessadas.
- Acredito que sim. Há a possibilidade de tirar os meus filhos dela, definitivamente? Ela abandonou a casa e me traiu. É argumento o suficiente? – respirei fundo. Sabia que isso iria destruí-la, mas eu estava disposto a machucá-la. Muito.
- Não posso lhe dar garantias, Sr. Potter. A sra. Potter é a mãe e as mães ainda tem prioridade nas nossas leis.
- Não a chame assim. Não quero meu nome sendo usado por ela. Quero que abra os dois processos, sra. Firth. O mais rápido possível. Espero que sejam favoráveis a mim. Também espero contar com a sua discrição, já que a minha vida já foi suficiente exposta para esses desocupados.
- O senhor pode contar comigo.
Apertei a mão da mulher e observei enquanto ela saía. Estava começando outra guerra e esta seria a mais difícil que todas as que tive que lutar durante a minha vida.
* H*&*G*
Sra. Ginevra Potter
O Tribunal de Assuntos Familiares convoca a senhora a comparecer no dia 13 do mês corrente. O divórcio e a guarda dos senhores James e Albus Potter serão tratados neste dia. Sua presença é imprescindível, sob pena de ganho total de causa ao Sr. Harry Potter, caso a senhora não compareça. Apenas em caso de doença gravíssima é permitido o envio de um representante legal.
Atenciosamente,
Gwidion Lugh
Juiz do Tribunal de Assuntos Familiares. Ordem de Merlim, Segunda Classe.
Sentei na cama com a impressão de que alguém tinha me dado um forte empurrão. O divórcio era algo completamente previsível, mas brigar pela guarda dos meninos jamais havia passado na minha cabeça. Eu sabia que estava errada por não permitir que ele visse os dois, mas era apenas pelo tempo que eu achasse necessário castigá-lo. Eu iria acabar com isso, pelo bem de James e Al.
Minha barriga... Merlim... E agora? Já estava com três meses de gravidez e era perceptível que meu corpo mudara. Eu sempre fui muito magra e todas as vezes que fiquei grávida, no terceiro mês não dava para esconder.
Hermione era a única criatura que sabia do meu estado então só poderia pedir ajuda a ela. O problema é que ela também está grávida e prestes a dar a luz.
Ginevra, definitivamente você está perdida.
Ah... Ernie Macmillan. Ele não é meu amigo. É curandeiro. O que o torna mais capaz de me ajudar. Brilhante! Vou ao St. Mungus com as roupas mais folgadas que conseguir. Se Luna estiver de volta com certeza vai estar metida até o nariz com as pesquisas de novas poções, então poderei encontrá-la também. James e Al estavam em uma escola próxima da minha casa, logo eu teria apenas quatro horas para descobrir como disfarçar minha barriga. Todo o meu trabalho estava sendo realizado por correspondência, graças a Angelina, que foi muito solidária e convenceu Cavendish que era melhor assim. No início da semana eu sempre acabava a minha demanda.
- Ótimo! – Falei para mim mesma enquanto observava o resultado do meu disfarce. Era a primeira vez que ia a Londres desde o fatídico dia. Estava ansiosa e temerosa. Não queria encontrá-lo antes que fosse obrigada a isso. Fui de carro até a estrada mais deserta possível e depois acionei o botão de voo. Em quarenta minutos estava em Londres entrando no St. Mungus. Respirei fundo e andei de cabeça erguida. Afinal, eu não era culpada. Foi inevitável perceber que os olhares se lançavam para mim, desconfiados, zombeteiros, irritantes. Mas algum dia eu teria de enfrentá-los.
- Preciso falar com Ernie Macmillan. Ele se encontra? – perguntei a mocinha da recepção que me olhava com azedume.
- Um minuto. Vou verificar. – ela olhou uma espécie de tela que tinha a função parecida com a do relógio da minha mãe. – Não, Sra. Potter. Ele está de viagem.
- Srta. Weasley, por favor. – não gostei de ser chamada por um nome que não é mais meu. Doeu no centro das minhas feridas. – A Srta. Luna Lovegood se encontra?
Ela olhou novamente e respondeu mais rápido dessa vez.
- Ela está passando pelas portas principais do hospital. Aguarde-a aqui, por favor, Srta Weasley.
Segundos depois Luna entrou em meu campo de visão, animadíssima.
- Oh, Gina! Como vai? Ou devo dizer, como vão? – o olhar profundo e curioso dela já havia entendido que eu falava por duas pessoas agora.
- Bem. Como soube? – já deveria ter me acostumado com o grande senso perceptivo dela, mas não consigo.
- Seu rosto muda um pouco e você fica com a mão na barriga toda hora. Vamos conversar em minha salinha.
Segui Luna por alguns corredores até que chegamos em uma sala apertada e cheia de ervas esquisitas. O cheiro me fez enjoar um pouco. Fui direto ao ponto.
- Eu vim aqui para pedir ajuda ao Ernie, mas ele não está. Espero que você possa me ajudar.
- Farei o possível.
- Tenho que comparecer a uma audiência semana que vem e Harry não sabe que estou grávida de novo. E nem merece saber. Então eu preciso de algo para esconder minha barriga. – falar o nome dele depois de tanto tempo foi como tirar espinhos dos meus lábios.
- Gina, ele tem que saber. Isso não está certo. – Luna estava com uma expressão preocupada.
- O que não está certo é ele me chamar de mentirosa e acreditar em uma foto maldita. Luna, por favor, ele pode tirar os meninos de mim nessa audiência. Como acha que vou me sentir se ele tirar esse bebê também?
- Um simples feitiço de confusão não resolve. Eu tenho uma poção que faz você ficar com a aparência que desejar. Não sei se grávidas podem tomar, mas vou tentar te ajudar.
- Muito obrigada mesmo!
Continuamos conversando sobre outros assuntos durante meia hora e depois eu voltei correndo para casa. Enquanto o carro subia tive a impressão de tê-lo visto andando rapidamente por uma rua qualquer. Desviei o olhar e continuei o meu caminho. Para longe dele.
