Curando

Não sei realmente o que deu em Gina para me chamar do nada. Já havia passado cinco meses do divórcio e agora nos tratávamos cordialmente, pelo menos. Eu conseguia ficar no mesmo recinto que ela sem me sentir mal ou desconfortável. Estava, enfim, me acostumando.

Fiz uma chave de portal para um local próximo a casa dela em Cardiff. Alguns metros depois podia vê-la caída no chão. A única coisa que não entendi foi aquele monte avolumado em cima da barriga dela.

Coisa que ficou bem clara quando eu me aproximei. Minha primeira reação foi congelar, sem ter o que dizer, pois não acreditava no que os meus olhos estavam constatando. Minutos depois despertei. Havia uma mulher GRÁVIDA caída na neve. Minha ex-mulher grávida, caída próximo aos meus pés. Ela estava tremendo e mal conseguia respirar direito, parecendo inconsciente. Os lábios estavam roxos de frio e o rosto muito branco. Tirei-a do chão movendo-a muito pouco, pois parecia que ela havia quebrado a coluna. Quando entrei na casa e finalmente coloquei-a em uma cama que conjurei e Albus veio ao meu encontro grintando.

- Papai! James está morrendo na cama. O nariz dele não para de escorrer. Mamãe vai ficar boa? Por que ela não está falando nada? Ela vai morrer também?

- Albus, não diga bobagens. Ele só está com muita gripe. Eu vou ficar bem. – ela falou com a voz muito fraca.

- Por que não vai cuidar dele, enquanto eu conserto a coluna da sua mãe? – sugeri e ele prontamente atendeu.

- Por que não me disse nada? Aliás, parece que ninguém está a par disso tudo, não? Tenho certeza de que anda se escondendo de todo mundo. – eu estava furioso, mesmo vendo-a muito fraca, não me contive.

- E por que eu teria que dizer alguma coisa a você? Para ouvir que o bebê não era seu ou para você tentar toma-lo de mim quando descobrisse o contrário? – ela parecia nervosa.

- Não seja ridícula. Eu não faria isso. Com quantos meses está? Oito?

- Sim. Se quiser já pode ir. Luna deve ter recebido as minhas ligações e Percy já está a caminho. Não morrerei mais de frio, infelizmente para você, não será dessa vez que ficará com os meninos. Mas sua filha também não morrerá. – ela falou baixinho com a voz muito fraca, mas pude perceber o desgosto. Tenho certeza de que se pudesse se mover teria me posto dali para fora.

- É uma menina? – não consegui conter a alegria. Sempre quis ter uma menina. Lily... Como minha mãe.

- Sim. Agora que já sabe, mando um aviso quando ela estiver nascendo. Se quiser pode alardear para meio mundo também. Pode ir embora. Obrigada por ter vindo e me tirado do frio. Percy já estava a caminho daqui com remédios para James, então não será necessário você perder o seu tempo aqui. – ela parecia desconfortável. Não me olhava nos olhos direito. Sentei na cama, próximo a barriga dela.

* H*&*G*

Tinha sido menos trágico do que eu imaginara. Mas era extremamente embaraçoso o fato de ele estar com a mão em minha barriga e o bebê não parar de mexer um instante. Minhas costas doíam muito e isso dificultava a minha respiração. No entanto eu fiz todos os esforços para tirá-lo dali. Não adiantou. Ele estava furioso comigo. Mas estava mais feliz que furioso. Os olhos dele expressavam isso. Não conseguia olhar direito. Sentia-me completamente vulnerável.

- Ok. Eu não quero brigar com você. Não nesse estado. – ele falou. – Mas quando ela nascer você vai ter que me explicar por que escondeu minha filha e todo o resto.

- Eu não tenho que te explicar nada. Não temos mais nenhum vínculo, nenhuma dívida, nada. – respondi grosseira. Cada palavra que eu falava era uma pontada de dor nas costas. Eu já estava começando a me assustar.

- Não temos nenhum vínculo? Você ficou maluca? Nós temos dois e mais um a caminho.

- Temos filhos. Isso não me obriga a te explicar nada.

- Você já sabia estava grávida, quando...? – sabia que ele estava se referindo ao fatídico dia em que eu saí de casa.

- Sim. Desde o dia que voltei da viagem. Aquele desmaio era gravidez. Mas achei que você não merecia saber naquele momento, por ter sido tão estúpido comigo.

Ele levantou da cama e ficou andando de um lado a outro do quarto.

- Se eu soubesse... Não teria deixado... Não teria... Ido... – ele falou, confuso.

- Se você soubesse, talvez tivesse me dado ouvidos e fingido que confiava em mim. Foi melhor assim. Não seria por mim que você agiria diferente. Seria pelo bebê. Do que adiantaria? Eu estaria vivendo com minha felicidade de plástico até agora e no primeiro momento que não tivesse mais bebê em minha barriga você começaria com aquela bobagem de desconfiança. Obrigada! Estou melhor assim. – meus olhos queimavam de raiva. E agora todas as partes do meu corpo doíam. Estava com medo de entrar em trabalho de parto um mês antes do previsto.

Antes que a conversa se prolongasse mais, Percy chegou.

- O que houve? – ele quis saber, preocupado.

- Eu escorreguei na lama e caí. Acho que quebrei minha coluna inteira. Tentei chamar Luna, mas ela não atendeu.

- Ah, entendi. – ele falou olhando para Harry. – Se quiser pode ir. Eu cuido dela.

- Não. Vou levá-la ao St. Mungus com você. Não adianta tentar me expulsar. – Harry respondeu com firmeza. - E depois, James também está doente. Você é só um para cuidar de dois doentes.

- Você concorda com isso? – Percy perguntou. Ele era o único dos meus irmãos que não era muito 'fã' de Harry desde o começo. E foi o único que eu sabia que guardaria o segredo, bastava apenas pedir.

- Eu não estou em condições de discutir. Só me leve embora antes que eu m-m-morra... – a dor não me deixava falar direito. Lutei para não desmaiar, pois achava que seria pior se isso acontecesse.

Ao chegar ao hospital minha consciência estava fraca e essa sensação fazia todas as dores adormecerem. A última conversa que tive antes de dormir profundamente foi com Ernest Macmillian.

- Tomou alguma poção durante a gravidez?

- Sim. Para esconder a barriga e os fortificantes de sempre. – respondi em um fio de voz.

- Quem lhe forneceu a primeira poção?

- Luna Lovegood.

- Você vai dormir profundamente e quando acordar provavelmente terá um bebê em seus braços. Acho que não conseguiremos mantê-la até os nove meses em seu útero.

- Só faça toda essa dor ir embora e traga minha menina para mim. – eu pedi. Aos poucos os olhos fecharam e eu não vi, ouvi ou senti mais nada.

* H*&*G*

(A partir daqui é narrado pelo Harry, como é uma parte muito grande, não vou colocar em itálico).

Já fazia uma hora que os curandeiros levaram Gina para a sala de cirurgia. Disseram-me que tentariam manter o bebê até os nove meses, mas eu não deveria esperar que conseguissem. Minha filha estava bem. O único problema era a mãe dela e a coluna quebrada. Minha cabeça estava zonza com toda a informação que havia recebido nas últimas horas. De repente eu ia ter uma filha e nem podia ficar ao lado dela sempre, pois havia sido um idiota com a mãe dela. Não seria por mim, seria pelo bebê. As palavras de Gina estavam ecoando na minha cabeça. Seria por ela, sim. Cada dia desse último ano tem sido mais doloroso do que qualquer situação que eu tenha passado antes. Não passa um dia que eu não imagine como seria ter minha família de volta. E eu fui tão estúpido para não me dar ao trabalho de tentar pedir desculpas, pois achava que ela estava indo muito bem em sua nova vida. Se eu sonhasse que ela estava se escondendo...

- Harry? – levantei o olhar quando ouvi meu nome. Era Neville.

- Oi Neville. O que faz aqui? Algo com a sua mãe? - Frank Longbottom havia morrido dois anos atrás, mas Alice ainda estava viva, apesar de muito fraca.

- Não. Hannah deu a luz agora mesmo. É uma menina, Amelie. – ele estava radiante. – Estava indo avisar a todos. E você, o que faz aqui?

- Gina está com a coluna quebrada e oito meses de gravidez. Talvez dê a luz também. E sim, o bebê é meu. – sabia que ele não se sentiria confortável em perguntar algo assim, por isso eu respondi logo. - A propósito, parabéns pela filha!

- Uau! Eu não sabia que ela estava grávida. Como foi que ela quebrou a coluna?

- Caiu na porta da casa dela. Eu estou tão surpreso quanto você. Ao que parece ela estava escondendo de todos e as únicas pessoas que sabem são Percy, Luna e eu dou meu braço esquerdo em aposta que Hermione também sabia. Eu não sei o que pensar e nem o que fazer. Não é como se simplesmente fossemos esquecer os últimos meses e nos tornarmos uma família novamente.

- Você quer ficar com ela ou está se sentindo obrigado por causa das crianças? – Neville questionou, diretamente.

- Eu não sei se consigo separar as coisas assim tão bem. – respondi com sinceridade e mudei de assunto. – Então, como é sua filha? Sabe, ela vai ganhar uma amiga, pois Gina espera uma menina.

- Ela é a coisinha mais perfeita do mundo. Ela parece com Hannah, mas tem os cabelos um pouco escuros. Ela nasceu com muito cabelo. Mal posso esperar para levá-la para casa. Ainda não tive coragem de carregá-la. Amelie é tão pequena que eu não sei se conseguiria. – Neville não se continha de felicidade. Eu lembro bem o que senti quando James nasceu. É claro que Albus é tão especial quanto James, mas a sensação de ser pai pela primeira vez é indescritível.

- Acho que você deveria tentar segurá-la. Não é nenhum mistério. É só ter cuidado com o pescoço dela, pois os recém-nascidos são muito frágeis nessa área.

- Obrigada pela dica, Harry. Espero que as coisas se acertem... Eu tenho que ir agora.

Neville apertou minha mão e saiu. Do mesmo corredor apontaram Percy e os meus filhos, a Sra. Weasley e Rony.

- Harry! Acabamos de saber. O que, em nome de Merlim, se passava na cabeça de Ginevra para esconder uma gravidez? Ela está bem? E o bebê? – Molly me deu um daqueles abraços pegajosos. Mesmo depois de divorciado ela ainda me tratava como se eu fosse filho dela e não parecia com raiva de mim. Na verdade, nenhum Weasley se mostrou a favor ou contra mim. Estavam todos neutros.

- Eu não sei. Faz uma hora que ninguém dá notícias. Da última vez falaram que o bebê estava ileso, mas que a coluna de Gina estava quebrada.

- Mamãe vai ter um bebê, como tia Hermione? – James questionou.

- Sim, meu filho. Vai ser uma menina. Você e Al vão ganhar uma irmãzinha e ela vai ser muito pequena, como Hugo.

- Legal... – James falou pensativo. Depois das medicações que ele havia recebido gripe estava melhorando.

- Percy, seria possível você levar meus filhos para a sua casa? Não quero que eles fiquem aqui. Não é apropriado. Você mora aqui em Londres, então acho que é mais perto... – Percy nunca gostou muito de mim, mas gostava de Gina e se dava bem com os sobrinhos.

- Claro... Audrey pode tomar conta deles, por enquanto.

Abracei os meninos e pedi que se comportassem. Rony estava calado o tempo inteiro. Isso me fez desconfiar que ele sabia da situação de Gina e não quis me contar.

- Por acaso você não sabia, não é Rony? Teria me contado se soubesse, não? – encarei-o diretamente nos olhos.

- Não, Harry. Eu não sabia. Hermione acabou de me contar que sabia e disse que Gina a fez jurar que não te contaria nada. – ele estava embaraçado com as palavras. E como eu imaginava, Hermione sabia. – Não importa, agora. Essa teimosa já provocou a desgraça toda mesmo. Maluca...

- Não fale assim da sua irmã, Rony. Ela não caiu de propósito. – não importava que os filhos fossem adultos, a Sra. Weasley às vezes falava com eles como se fossem crianças.

- Como eu imaginava... – falei.

Já passavas das vinte e três horas e nós estávamos sentados naquele corredor frio do St. Mungus sem uma única notícia, até que uma curandeira saiu da sala de cirurgia.

- Família da Srta. Weasley?

- Sim. – Molly levantou.

- Bem, a situação dela é um pouco complicada. No momento ela está em coma induzido e até agora não conseguimos achar uma maneira de fazer o parto, de forma que ela e o bebê fiquem a salvo.

- Por quê? Ora, vamos lá, vocês são bruxos ou não? – o desespero tomou conta de mim.

- Sr. Potter, ela tomou poção para disfarçar a barriga mais vezes do que o permitido. Isso acabou intoxicando o sangue dela de uma maneira que não é prudente dar mais uma poção para fazer o parto prematuro ou para tentar consertar a coluna dela. Não podemos fazer feitiço com varinha estando a criança ainda no útero, pois estaríamos arriscando a vida do bebê. Por outro lado, podemos tentar o parto cesariano e corremos o risco de uma hemorragia difícil de conter, devido ao estado do sangue da mãe.

A curandeira falou mais coisas, mas no fim das contas eu entendi muito bem. Não era necessário muito para entender que agora era Gina ou o bebê, a não ser que aparecesse uma solução milagrosa.

- Precisamos que vocês decidam o que deve ser feito. O mais rápido possível. – a curandeira voltou para a sala cirúrgica.

Minha respiração estava falha e minha cabeça rodava. Gina ou o bebê. Gina ou o bebê. Gina ou o bebê? Meu coração não era capaz de fazer uma escolha dessas.

- Harry. Deu positivo. Nós vamos ter um filho! – ela falou, me agarrando e beijando meus lábios com força.

...

- Eu vou ficar bem... Não se preocupe. Eu só vou dar a luz. Daqui a pouco estarei jogando quadribol de novo! Mas, se algo acontecer, se tiver que escolher entre mim e nosso menino, escolha ele. Prometa.

Isso havia acontecido quando James nasceu. Estávamos assustados e mal sabíamos o que esperar. A voz dela ecoava em minha cabeça. Escolha ela, nossa filha... As lágrimas queimavam meus olhos. Senti a mão de Molly em meu ombro.

- Harry, vai ficar tudo bem. Ela é forte. Esses curandeiros podem estar errados.

O desespero tomou conta de mim e eu chorei. Molly me abraçou enquanto eu soluçava em seu ombro. Rony estava paralisado do outro lado o corredor, observando a cena.

Eu chorava por que não conseguia conter a dor de nunca ter tentado perdoá-la e de nunca ter pedido perdão. Se eu escolhesse a menina, jamais teria essa chance e talvez olhasse para minha própria filha como um símbolo do quanto eu fracassei com a mãe dela. Por outro lado, Gina não viveria em paz se perdesse a menina. Eu não poderia escolher. Não era justo. Nada era justo. Eu desejei voltar no tempo, para o dia que eu vi a maldita revista. Eu teria ido atrás dela e mesmo que a traição fosse verdade eu tentaria perdoar. Ela estaria bem. Elas estariam. Parei de chorar. Decisões precisavam ser tomadas.

- Eu não posso escolher. Não consigo. – falei, finalmente. – Por favor, a senhora é a mãe dela, o que a senhora disser eu aceitarei.

Observei Molly respirar fundo e pensar por alguns minutos. Depois ela caminhou até a porta da sala e bateu. A mesma curandeira que havia dado a notícia atendeu a porta.

- Faça o possível para salvar a criança. – Molly Weasley falou. Quando a porta foi fechada novamente, foi a vez de ela chorar.

Fiquei encolhido em um canto, depois de amparar Molly. A ideia de que daqui a algumas horas Gina poderia estar morta me enlouquecia. Eu teria as crianças, sim. Mas não era o suficiente para me deixar feliz e completo outra vez. Gina era a maior parte da minha felicidade. Fechei os olhos para que todas as lembranças de nossos momentos juntos tomassem a minha mente. Ela tinha que sobreviver. Eu precisava pedir perdão. Eu precisava dela.

* H*&*G*

Horas se arrastaram e o dia já estava amanhecendo. Não havíamos recebido nenhuma notícia do estado de Gina ou do bebê. Isso significava que ambas ainda estavam vivas, pelo menos era o que eu queria acreditar. Percy havia voltado pela madrugada e estava devastado depois que soube da situação. Silenciosamente eu o culpava por ser cumplice da bobagem de Gina. Ela não podia ter escondido. Ninguém pode esconder um filho de seu pai.

- Tome Harry. Vai se sentir melhor. – Rony me ofereceu um café. De repente me dei conta de que não comia nada desde a tarde do dia anterior, antes de ir atrás de Gina. Meu estomago reclamou. Recebi o café e murmurei um "obrigado". O líquido queimou minha garganta, mas eu não me importei. Tudo o que eu queria ouvir era que Gina estava bem e que tudo tinha corrido nos conformes. A porta da sala abriu, minutos depois. Ernie Macmillan saiu com a aparência cansada. Atrás dele estava Luna.

- Estamos esperando o momento certo para tentar fazer o parto, que será quando Gina acordar do coma. Conseguimos reverter a intoxicação do sangue dela e o bebê ainda está saudável dentro do útero, pelo menos por enquanto. Agora podemos ser otimistas em salvar as duas. Se Luna tivesse chegado um pouco mais tarde com a poção necessária, talvez não fosse possível.

Processei as palavras por alguns instantes antes de suspirar aliviado.

- Harry, eu sinto muito ter escondido de você. Ela me fez jurar e me implorou pela poção. Eu não sabia que ela havia tomado mais do que devia. – Luna parou por alguns instantes e prosseguiu. - Ela estava quase morta quando cheguei. Eu tinha o antídoto para purificar o sangue dela e fiz tudo o que pude para deixá-la viva.

- Não sei se te azaro ou se te agradeço. – eu esbocei um sorriso e abracei Luna. Os outros Weasley's se juntaram ao abraço. – Mas e quanto à coluna dela? Já conseguiram consertar?

- Tentaremos após o parto, pois não podemos lançar feitiços com o bebê no útero. Acho que agora vocês podem descansar um pouco ou comer alguma coisa. Gina acordará daqui por volta das dez da manhã e na mesma hora começaremos o parto. – Ernie falou.

- Ele está certo, Harry. Vamos comer e descansar para voltarmos bem. Venha. – Molly me puxou pelo braço e fomos até a saída do hospital.

- Vamos para a minha casa. – Percy convidou.

Vinte minutos depois estávamos na casa de Percy. Uma figura morena veio em nossa direção e logo identifiquei que se tratava de Audrey Weasley.

- Como ela está? – perguntou com preocupação.

- Gina está bem e o bebê a salvo. Porém terão que realizar o parto hoje. Ainda não curaram a coluna dela. – Percy explicou à mulher. – Vamos, amor. Precisamos preparar algo para eles comerem. Aposto que não comem desde ontem.

Fiquei no automático, pois estava muito cansado para apreender o que se passava. Apenas respondi um sim quando Audrey perguntou se eu queria deitar um pouco. Obviamente não consegui dormir direito. Só conseguia pensar em uma maneira de pedir perdão a Gina e imaginar o quanto seria difícil que isso acontecesse.

- Harry! Acorde! – a voz de Audrey ecoava no quarto.

- AH! SIM, sim. – levantei desorientado, procurando meus óculos.

- Estão à sua esquerda. – Audrey falou divertida. – Sabe, eu acho que você deveria pedir para ficar na sala de parto ou até mesmo assistir. Seria um bom começo de tentativa para acertar as coisas.

- Você acha? – perguntei enquanto já me dirigia para fora do quarto.

- Claro. Boa sorte! Tenho certeza que vai ficar tudo bem.

Rony me esperava na sala de estar, junto com Percy e com Fleur, que havia acabado de chegar.

- Mon Dieu! Harry, acabei de saberrr. Vou com vocês até o hospitalle. Molly está muito cansadee e eu achei que poderia ajudar. – ela me abraçou de forma que eu quase sufoquei. Era irônico constatar que de todas as noras de Molly Weasley, Fleur era a que mais lembrava o comportamento da sogra.

- Obrigada, Fleur. – falei ao me libertar do abraço. – Vamos.

* H*&*G*

- Eu quero assistir o parto, Ernie. – solicitei assim que consegui falar com o medi-bruxo.

- Tem certeza?

- Sim.

- Venha comigo. Precisa se esterilizar e trocar de veste.

Segui pela sala branca e cheguei ao vestiário que lembrava muito aquele que havia em Hogwarts, no campo de quadribol. Ernie começou a lançar alguns feitiços não verbais em mim que algumas vezes me dava a sensação de que alguém estava jogando água no topo da minha cabeça. Um minuto depois ele saiu e voltou com um pacote.

- Vista isso e me espere aqui.

Obedeci silenciosamente e coloquei a roupa verde-claro e os sapatos brancos. Por fim, coloquei a máscara e a touca. Quando ele voltou segui para a sala de parto. Gina estava deitada com o rosto pálido e os olhos fixos no teto.

- Se não se sentir a vontade pode avisar. Um enfermeiro pode ajudar com poções. – Ernie falou.

- Posso falar com ela? – perguntei ansioso.

- Sim, mas tente não falar nada que a desestabilize. Não é bom para o bebê.

- Tudo bem.

Aproximei-me lentamente da cama e agarrei uma das mãos dela, fazendo-a me encarar confusa.

- O que faz aqui? – perguntou em um fio de voz.

- Não iria deixar você sozinha. Nunca. – eu respondi.

- Obrigada. – Gina sussurrou e esboçou um sorriso fraco.

- Vamos iniciar o procedimento. – Ernie anunciou.

Afastei-me da cama e soltei a mão de Gina.

- Harry... Segura a minha mão, por favor. – ela pediu com a voz incerta.

- Claro! – voltei para onde estava e entrelacei minha mão à dela. Olhei para o rosto dela. Estava com aquela expressão forte, que ela usava quando a situação era muito complicada, mas necessária. – Eu vou ficar aqui com você. Não vou deixar que nada aconteça. Não vou deixar você ir embora, nunca mais.

O parto cesariano não demorou mais que uma hora e meia. Não soltei a mão de Gina um segundo. Estava me sentindo bem em poder confortá-la. O calor dos dedos dela contra os meus me confortava e eu estava feliz em poder estar do lado dela. Estava feliz por sentir que ela me queria ali. Quando menos esperamos a menina quebrou o silêncio da sala com o choro. Respirei fundo e permiti que uma lágrima escorresse. Uma lágrima de alegria. Logo uma menininha ruiva estava nos braços de uma das enfermeiras.

- Sua filha, srta. Weasley. Perfeitamente saudável e normal. – ela falou e entregou o bebê para que Gina segurasse.

- Ela é linda! – Gina sussurrou. – Lily, como você sempre quis. Mas eu quero que ela se chame Lily Luna, pois talvez não fosse possível que eu estivesse com ela agora, não fosse por Luna.

- Lily Luna... Gosto do nome. – eu falei, acariciando o cabelo da minha filha. Minha felicidade estava quase completa naquele momento. Para torná-la completa eu tinha que conquistar Gina, de novo.

- Harry, preciso que você se retire agora, pois tentaremos o procedimento de cura da coluna dela. Vai ficar tudo bem. Estamos otimistas. – Ernie pediu.

- Ok.

"Vai ficar tudo bem." Pelo menos era essa a sensação que eu tinha enquanto deixava a sala de cirurgia. Lily era linda e saudável e eu estava tão feliz que poderia sair gritando e pulando por aí.

(Fim da Narração do Harry.)

"Vai ficar tudo bem." Ernie havia dito. O fato de eu não sentir minhas pernas, porém, me dava a sensação de que demoraria muito para ficar tudo bem. Alguns minutos depois de Harry e Lily saírem eu fui posta eu outra posição para que minhas costas ficassem expostas.

Eu estava anestesiada da cintura para baixo e sabia que não sentiria nada nessa área, mas o medo de não poder mais andar começou a tomar conta de mim. Afinal, já fazia muito tempo desde a queda e havia mesmo a possibilidade de não conseguirem reconectar tudo. 'Não pense nisso', eu tentava repetir para mim mesma. Senti alguns tremores e sabia que o processo havia começado. Murmúrios de feitiços e o barulho dos meus ossos concertando começaram a tomar conta do ambiente. O procedimento deve ter durado horas, talvez. Eu adormeci, pois me sentia exausta e sem forças. Quando acordei estava em outro lugar e perto de mim estava Harry, mamãe, Luna e Hermione. Lily estava em um berço ao meu lado, dormindo tranquilamente.

- Minha filha! Como está se sentindo? Consegue mover as pernas? Estamos tão preocupados. – tenho certeza que se fosse permitido mamãe teria dado um daqueles abraços sufocantes. Sorri timidamente antes de responder.

- Estou viva... Acho que o que vier depois será bônus. – minha voz estava fraca e quanto às pernas, conseguia senti-las, mas não me sentia capaz de movê-las. – Talvez eu precise de ajuda para me mover, mamãe.

- Nós estamos aqui para apoiar você, meu amor. Quando menos esperar vai estar em cima de uma vassoura de quadribol. – Mamãe encorajou, dando-me um beijo na testa.

- Gina, você vai ficar sem se mover até completar um mês de parto. Depois começaremos com exercício de movimento e aos poucos você voltará ao normal. – Luna falou.

- Quer dizer que eu vou ficar deitada por um mês? Nem sentar, nem cadeira de rodas? Morgana das fadas! – exclamei. Não era tão ruim como eu havia imaginado, mas EU ficaria um mês sem andar. Minha filha era muito nova para ter uma mãe solteira e inválida. – E Lily? E os meninos? Não tem como apressar?

- Você vai ter que me deixar ficar com eles. E ajudar você com Lily. – Harry falou, olhando nos meus olhos.

- Harry não acho que... – fui interrompida por Hermione.

- Você tem três crianças pequenas e não tem a menor condição de cuidar delas agora. Acho que está na hora de pensar apenas no que é bom para elas e esquecer os problemas, por enquanto. Todos ajudarão no que for preciso, mas não temos como ficar integralmente com você. Harry já pediu dispensa do ministério, por um mês.

Respirei fundo, sentindo uma pontada de dor nas costelas ao fazer isso. Pelas crianças.

- Tudo bem. – respondi finalmente. – Mas eu vou ficar em minha casa. Ir para a casa dele está TOTALMENTE fora de cogitação.

Dois dias depois eu estava de volta a minha casa. Harry ocupou o quarto com os meninos e eu fiquei com Lily no meu próprio quarto. Era inegável e dolorosa a constatação do quanto James e Albus estavam felizes por estarem com o pai vinte e quatro horas por dia. Lily estava representando a trégua entre eu e Harry. Nunca mencionávamos nada sobre como seria depois que eu me recuperasse do parto e de todo o resto. Eu gostava de tê-lo sempre por perto, mas sabia que em algum momento teríamos que parar e conversar sobre nós dois. Eu estava disposta a tentar de novo, mas dessa vez queria fazer tudo diferente. Minha casa estava muito visitada e quase não sobrava espaço e tempo para que eu e Harry pudéssemos conversar. O mês em que eu fiquei inválida se arrastou. Minha mãe ou uma das minhas cunhadas vinham pela manhã e me auxiliavam na higiene, quando isso não acontecia, eu fazia o possível com magia para não me colocar em uma situação constrangedora com Harry. Com o fim do primeiro mês eu já ousava me mover sozinha, sem que ninguém soubesse. Estava recuperando minhas forças e finalmente me sentia pronta para confrontar Harry. Mas não seria para brigar. Eu queria consertar o que estava quebrado entre nós. Ele me ajudou nos primeiros passos que eu dei, sem apoio de muletas, na primeira vez que carreguei Lily sem precisar de apoio. Todos os momentos ele estava lá e eu via nos olhos dele que não havia mágoa, acusação ou raiva. Lá estava somente afeto. Não queria dizer que era amor, mas no fundo o meu inconsciente sabia que era.

Certa manhã Hermione veio sozinha para me ajudar. Era difícil ela aparecer, pois Hugo era muito novinho. Sabia que aquela era a única oportunidade que teria de conversar com Harry sem interrupções de algum parente ou sem ter que atender ao chamado choroso de Lily.

- Mione, eu preciso que você fique com Lily por algum tempo, pois eu preciso conversar com o sr. Potter ali. – eu pedi.

- Tudo bem. Não vou deixar que ninguém atrapalhe. Não seja teimosa, certo? – ela pediu.

- Certo. – entreguei Lily aos cuidados de Hermione e fui procurar Harry, que estava fazendo um relatório qualquer para o ministério, no quarto de hóspedes. Apesar de estar andando, os meus passos ainda eram lentos, pelo fato de minha coluna estar curvada.

- Harry.

- Ah, oi Gina. – ele respondeu. – Algum problema? Lily?

- Ela está bem. Acho que agora podemos conversar em paz. – eu retruquei. Ele me encarou por alguns instantes e largou os papéis. – Isso não pode funcionar desse jeito. Eu não quero brigar com você, mas não podemos agir como se nada tivesse acontecido. Não podemos agir como se fossemos uma família unida e feliz. Nem casados nós somos.

- Eu sei. Eu quero consertar as coisas, Gina. Eu quero que você me perdoe por tudo. Eu fui mesmo um completo idiota. Até Draco Malfoy fez questão de jogar isso na minha cara.– ele falou de uma vez. Os olhos dele demonstravam sinceridade e insegurança.

- Não é tão simples. Eu não quero ficar com você de novo só por que acabamos de ter uma filha. Você sabe disso. Não somos obrigados a isso. Eu que você fique comigo por mim, independente das crianças. Consegue me entender?

- Quando me disse isso eu fiquei confuso. Não conseguia entender. Mas quando me disseram que você poderia morrer e sua mãe pediu para que salvassem Lily eu desabei. A ideia de perder você me assustava. Eu não gosto de confessar, mas se eu fosse escolher, naquele momento eu escolheria você. Por isso eu pedi que sua mãe fizesse a escolha. Eu amo os meus filhos e eles me fazem muito feliz. Mas foi por você que eu lutei até o último suspiro naquela guerra, foi por que eu queria voltar para você. Quando você foi embora, eu odiava todas as vezes que voltava para casa e não ouvia sua voz. Odiava acordar sozinho. – ele respirou e continuou. – Se isso tudo não provar que é por você que eu quero voltar, não sei mais o que fazer. Eu fui um idiota, mas não vou cometer o erro de desconfiar de você outra vez. Me perdoa, Ginevra, por favor.

Eu fiquei sem palavras por alguns instantes, apenas encarando-o.

- Sim... Eu já te perdoei há algum tempo. – eu falei me aproximando dele. Abracei-o com força. – Eu quero que tudo seja diferente dessa vez. A única coisa que permanecerá do mesmo jeito será o fato de que eu te amo. Isso nunca mudou, mesmo que eu tenha tentado tantas vezes.

Harry me beijou nos lábios. Eu senti tantas coisas que não seria possível descrever com palavras. Tudo o que eu fazia era corresponder. Minutos depois ele parou e segurou meu rosto entre as mãos me olhando nos olhos.

- Eu te amo e nunca mais vou tentar sufocar tudo o que eu sinto por você. Nunca mais vou deixar você escapar. Quer se casar comigo? De novo?

Minha resposta com certeza pegou Harry de surpresa, mas não poderia dar outra diferente, depois de tudo o que passamos.

- Não. – ele me encarou confuso e eu continuei – Você vai ter que me conquistar Sr. Potter e eu garanto que não vai ser tão fácil dessa vez. E quem sabe algum dia eu diga sim...

*H*&*G*