Observei as letras aparecendo, uma após a outra. Um barulho irritante e compassado em minha mente conforme cada uma delas era teclada pelo meu informante e coexistia no monitor.
21 de janeiro de 2004. Penitenciária, Califórnia.
Mais um presidiário foi morto por um ataque cardíaco fulminante de causas desconhecidas. Nome do morto:
Uma pausa torturante me preparou para o já esperado, embora quisesse com todas as minhas forças que meus pressentimentos provassem-se errôneos. Ainda assim, não fui atendido, e o sofrimento ao ver sua nomeação foi inevitável.
Beyond Birthday.
Entendo, obrigado.
Digitei o mais rápido possível, querendo livrar-me o quanto antes do doloroso aperto em meu peito e da tristeza que me acometia cada vez que notava, piscando incessante em um preto brilhante na tela, o nome que ocupava minha mente.
Beyond Birthday.
Beyond.
BB.
B.
A imagem do dito criando-se defronte meus olhos antes que percebesse, e minha visão nublando-se pelas lágrimas que não consegui conter. Eu não quero chorar. Eu não posso chorar.
Porque você não choraria se fosse eu a estar morto.
Olhei para o lado, o relógio apitava com o horário premeditado; em um aviso de que logo outras pessoas chegariam.
Levantei-me, ao mesmo tempo ansioso e temeroso. Queria que eles chegassem o quanto antes, mas tinha também medo do que isso poderia causar. Queria me afastar da lembrança de sua morte, mas queria também agarrar-me a esperança de conseguir viver contigo mesmo que somente em uma fantasia.
Andei. Lentamente, até que parei em um rompante. Na minha frente, um espelho.
E a memória de nosso primeiro encontro me surgiu. Foi ao acaso, quando você ainda era bem pequeno, mas algo em você me chamou a atenção. Depois, notei ser sua similaridade comigo – pena que isso não aconteceu apenas com uma das partes.
Escutei batidas na porta. Sem ritmo. Você reclamaria disso se estivesse aqui, não? Tentando ignorar isso, mantive minha face o mais impassível possível. A porta aberta, algumas palavras que não tiveram minha atenção captada, e voltei a me sentar sobre a poltrona.
Desta vez, o objeto que outrora estivera ocupando espaço entre meus doces na mesa, não mais estava lá. Pergunto-me quando o tirei do local que repousava.
Comecei a ditar uma explicação vazia. Nunca quis tanto e tão pouco prender um criminoso. Não que eu deixe isso transparecer, é claro. Até porque, a vontade de acabar com seu 'reinado' é superior.
Eu me mostrei ao mundo, e estou arriscando a minha vida neste caso, com apenas um objetivo. Eu irei derrotar o seu assassino, B. E mesmo que não eu, prometo que farei alguém consegui-lo. Porque meu desgosto pelo sequer pensamento de alguém nunca me foi tão odioso.
Ele já havia se concentrado nos criminosos japoneses, porque então teve de lhe matar? Não consigo fugir ou refrear este pensamento. E a cada momento fico mais confuso, e não sei se odeio mais a mim ou a ele.
Uma pergunta me puxou de volta do universo paralelo em que estava, e fazendo-me respondê-la acrescida de uma informação egoísta.
– Doravante, chamem-me de... Ryuuzaki.
Não havia necessidade para tal, embora tenha encontrado uma desculpa suficientemente boa para meu ato. Eu apenas queria manter-me mais perto de você. Foi esse o nome que usastes, não? No caso de Los Angeles. Ryuuzaki. Uma variação da letra do meu nome. Tudo isso para me superar?
Pensando agora, acho que nunca agi tão estupidamente em toda a minha vida; talvez apenas quando era pequeno e pensei que almas tivessem janelas. Eu, o grande detetive L, o melhor do mundo – conversando com um morto. Isso porque diziam que você precisava de uma clínica psiquiátrica, não eu.
Alcancei algum pote de doces e, ainda sem olhá-lo, observei a xícara vazia em minha frente. Mas não me lembrei de tê-la bebido. Será que meu vício tomara proporções tão grandes assim? Virei o olhar para o que segurava e finalmente minha atenção foi captada por algo.
O que eu segurava era um vidro de geleia de morango.
Contive o bolo que subiu minha garganta e fiz uma ridícula analogia antes de começar a comer. Seu doce preferido tem a cor de seus olhos. E mais do que nunca sinto ódio de Kira, porque seus olhos nunca se abrirão novamente.
Cheguei aos instantes finais de meus dizeres, e disse despreocupadamente:
– Kira é infantil e odeia perder... E eu também sou infantil e odeio perder. – Observei as expressões da equipe que me ajudará nesta investigação. Surpresa. Talvez também desapontamento. Mas você era assim, então acho que não me importo com isso, realmente. Tsch. E pensar que eles realmente acham que estou me comparando com Kira.
O que você faria se estivesse em minha situação? Provavelmente riria ironicamente e comeria mais geleia.
Com o canto do olho, encontrei enfim o pequeno computador portátil que havia perdido de vista. Caído ao chão e um pouco longe. Talvez por ter sido chutado com raiva, talvez por ter sido esbarrado com desleixo. Não sabia o motivo, mas sabia que quem causou sua estadia no lugar onde estava fora eu.
E novamente, eu me lembrei das palavras que me haviam revelado antes tanta coisa.
21 de janeiro de 2004. Penitenciária, Califórnia.
Mais um presidiário foi morto por um ataque cardíaco fulminante de causas desconhecidas. Nome do morto: Beyond Birthday.
Não se preocupe, Beyond. Assim como você nunca me perdoou por ser quem sou...
Eu nunca irei perdoar Kira pela sua morte.
N/A: Ohayo! Aqui está o último capítulo da fic, espero que gostem.
Eu gostei dele, mas não sei...
Quero saber suas opiniões, ok?
Beijos e tenham um bom dia!
DBS.
