Cap. 3 – Saindo da rotina

Andava de um lado a outro dentro da casa e repetia mentalmente ordens para tirar o dedo da boca, não era costume seu roer unhas, mas estranhamente se pegava fazendo muito isso nas últimas horas.

Quando fora a última vez que saíra num sábado à noite? Já nem se lembrava. As únicas lembranças que tinha de um sábado à noite – ou qualquer outro dia – era estar em sua casa, esparramada no sofá vendo algum programa sobre baleias no Discovery Channel. Não que gostasse, mas suas opções de programação eram poucas.

Especialmente nesse sábado, ela teria que abdicar de sua "sessão informativa sobre baleias" para ver um filme que gostava bastante e que não via há muito tempo. Antes de ser convidada para jantar, ela estava contente em ver o filme sozinha em sua casa, por mais que uma vozinha fina que lembrava muito a sua própria voz lhe gritasse de algum canto de sua mente que isso era o cúmulo do anti-social.

Hinata olhou o relógio elegantemente pendurado na parede da cozinha. Quase 8h.

Talvez não desse tempo de chegar a tempo para ver o filme. Soltou o ar dos pulmões fortemente, fazendo um som estranho.

Combinou de jantar com Naruto as 8h. Era melhor chamar um táxi e ir antes que chegasse atrasada.

Olhando rapidamente no grande espelho que tinha no quarto, deu uma última ajeitada no vestido preto de alças finas que usava, soltou o cabelo e refez o coque, deixando uma mecha solta de cada lado do rosto.

À medida que o táxi avançava as batidas de seu coração descompassava. Chegou a pensar em pedir para o taxista mudar de rumo e levá-la ao hospital ou acabaria enfartando.

Assim que passou pela soleira da porta do restaurante, tomou uma grande golada de ar, como se faz antes de mergulhar, o que Hinata achou ridículo, pois não ia mergulhar e sim ter um encontro. Era bem simples, não? Mas Hinata sempre foi dada a exageros.

Isso não pode ser tão ruim, disse a si mesma e soltou o ar lentamente pelo nariz.

Caminhou lentamente sentindo-se um pouco trêmula, girando a cabeça ora para a esquerda ora para a direita até ver um pouco mais a frente alguém com a cabeleira loira acenar-lhe.

Quando chegou mais perto, Hinata viu que Naruto lhe sorria. Um sorriso aberto e sincero, que fez o coração afrouxar a pressão que exercia contra as suas costas.

- Não disse que ela era linda?! – Naruto dirigiu-se ao senhor sentado na mesa ao lado.

- Você é um garoto de sorte – sorriu-lhe o velho.

Hinata sentiu um par de olhos azuis e um de olhos castanhos – do velho ao lado – lhe seguirem até sentar-se desconfortavelmente na cadeira.

Naruto parecia muito tranqüilo e a vontade. Parecia estar em sua própria casa.

- Ei garçom, ela chegou. Pode nos atender agora – Naruto gritou para um jovem do outro lado do restaurante.

Nem um pouco discreto. Hinata afundava a cabeça entre as mãos, sentindo todos os olhares do restaurante se virar para sua mesa. Naruto era, sem dúvida, nada discreto.

- Desculpe. – ele parecia constrangido – jurei me comportar hoje, mas eu sou meio...

- Extravagante – cortou Hinata num fino sorriso.

Ele deu de ombros.

- Acho que sou, né?!

- Não deve ser ruim conviver com isso – disse Hinata sorrindo.

- Nunca tive problemas. Mas meu padrinho me chutou de casa assim que virei maior de idade – ele colocou a mão no queixo, fazendo uma falsa expressão pensativa, que lhe caía muito bem – será que é esse o motivo? Ele vivia colando minha boca com fita adesiva para me fazer calar a boca.

Os dois riram e logo depois se instalou um silêncio que começava a incomodar.

A chegada do garçom aliviou um pouco a tensão da morena. Mas o jovem de gravata borboleta agarrada ao pescoço foi embora tão rapidamente quanto veio. E levou com ele os minutos de alívio de Hinata.

Repassara este momento tantas vezes em casa. Ficara horas tentando imaginar um diálogo interessante. E agora a pequena via que foi tudo em vão.

Logo a comida que pediram chegou. E só ai Hinata se deu conta de como estava com fome.

O que viria a seguir? Mentiras. Mentiras por parte dele, mentiras por parte dela. Seriam um casal ligados unicamente pela mentiras... E uma inegável atração física.

Com esses pensamentos, Hinata pousou os olhos na boca fina do loiro. Só então a jovem percebeu que ela se movimentava. Naruto estava falando.

Hinata então o encarou sériamente.

- Então eu cheguei aqui depois dessa pequena confusão. Pensei que chegaria atrasado, mas não. O vovozinho aqui do lado parecia tão sozinho que eu resolvi conversar com ele.

O senhor lançou um olhar atravessado ao loiro, que nem reparou.

- Então Hinata, me fale mais de você.

Respirou fundo.

Agora que começariam as mentiras.

Hinata falou pouco, como já era de costume. Não deu importância ao diálogo, se concentrou somente em manter uma história coerente. Não fazia sentido se prender a uma conversa falsa.

Não queria enganá-lo. Fazer isso seria como enganar uma criança. Porque é assim que Naruto parecia ser com seus sorrisos abertos e sinceros, seus olhares carentes e seu jeito simples de falar.

Parecia alguém que crescera em tamanho, mas mantinha a mentalidade presa a algum lugar do passado. Um lugar em sua memória que lutava para não esquecer.

Apesar de – a voz meiga dentro de sua mente começava a lhe sussurrar – não ser a pessoa mais inocente que já conhecera.

Encarou-o seriamente mais uma vez.

Ele trajava uma blusa social branca aberta em alguns botões, deixando a mostra um pedaço de seu peitoral definido. Hinata se lembrou da noite anterior e a imagem dele sem camisa veio a sua mente, o que a fez sentir um calor rapidamente subir dos pés a cabeça, como numa vertigem.

Sua beleza acabava entorpecendo-a. E a menina praguejava toda vez que se via nessa situação.

Se seu "alvo" fosse feio, facilitaria muito a sua missão. E seria muito menos interessante, completou mentalmente.

- Isso sempre acontecia, Hinata. E eu era posto de castigo todas as vezes.

Ela se assustou e voltou a se concentrar nele. Não queria que ele percebesse que ela estava distraída.

Ele passou a mão pelo cabelo, deixando-o ainda mais arrepiado. Nesse momento, o coração da jovem deu um pulo tão forte que ela temeu que ele pudesse sair de seu peito.

- Minha mãe era bem brava. – ele disse a frase como que para si mesmo. E nesse instante, Hinata viu em seus olhos o que ela já sabia que existia ali. Uma certa meninice, uma certa meiguice. A Jovem reparou também em algo que os olhos dele expressavam. Saudade.

Hinata balançou a cabeça e tentou não pensar em nada. Tudo não passava de uma mentira.

O cara a sua frente era um crimonoso – embora não soubesse o que ele havia feito ou ainda fazia. E Hinata não sabia o quão perigoso ele era.

Era hora daquela outra vozinha em sua cabeça calar a boca. Aquela vozinha fraca e arrastada, que também lembrava a própria voz, mas em um tom diferente. Essa segunda voz insistia com a idéia de acreditar na amabilidade dele.

- Desculpe Hinata, você não me disse onde trabalha.

- Eu... Bem, sou secretária. E você?

- Na verdade, – ele coçou a nuca um pouco desconfortável – não fiz nada desde que voltei da Europa.

Talvez devesse ter perguntado o que ele fora fazer lá, mas não queria ter mais uma mentira para se lembrar amanhã.

Hinata consultou o relógio de pulso e limpou a boca com o guardanapo quando terminou sua refeição. Isso não passou despercebido pelo loiro.

- Não sou boa companhia, né?!

Sua voz transmitia uma tristeza que fez o coração de Hinata apertar.

- Não, claro que não. Eu tenho que admitir – manteve os olhos vidrados nos azuis – foi melhor que eu esperava.

Ele balançou a cabeça de leve e enrugou a testa, numa careta de dúvida.

- Isso foi um elogio?

A jovem assentiu com a cabeça.

- Então porque está com pressa de ir para casa? – levantou uma das sobrancelhas.

- É que... Tem um filme... que, bem, que eu queria assistir. M-mas não estou com pressa de ir embora, é impressão sua. – completou rapidamente – Não, eu estou adorando sua companhia.

Assinara sua sentença. Como fora burra. Onde estava com a cabeça para dizer que queria assistir um maldito filme? Agora perderia a missão. Pior, Sakura levaria a culpa.

"Baka Hinata", pensava enquanto na sua cabeça passava imagens dela mesma se batendo.

- Hum... Qual filme? – perguntou curioso.

- Bem, é... é um pouco antigo mas eu gosto muito.

- Qual, Hinata? – perguntou um pouco impaciente.

- La- labirinto.

- Com David Bowie? – ao ver a morena assentir com a cabeça, ele continuou: - meu pai me fazia assistir esse filme todos os dias. – riu – Ele corria atrás de mim dizendo que me levaria para o mundo dos duendes.

Ele sorriu pela milésima vez a aquele dia. Seu sorriso contagiante e aberto. Hinata o acompanhou no riso e mais uma vez viu uma sombra de nostalgia passar por aqueles olhos azuis.

- Posso assistir com você?

Hinata se assustou com a pergunta e desviou os olhos daquela expressão de expectativa dele.

- Não... err... Não sei se seria uma boa idéia.

Agora sim, assinara seu atestado de burra.

Os olhos azuis suplicantes ainda estavam direcionados a ela.

- Ora Hinata, eu não vou te agarrar. A casa é sua, você sabe onde fica a faca e o rolo de macarrão – ele soltou uma risada – qualquer coisa você me acerta na cabeça ou me dá um soco na cara. Nesse caso, terei que pedir a você acertar o lado esquerdo. Meu melhor ângulo é o lado direito.

Hinata soltou uma gargalhada, fazendo com que algumas cabeças se virassem para ela. Levou a mão à boca para abafar o som das risadas e olhou Naruto. Vê-lo também gargalhando só piorou a vontade de rir.

Envergonhada pelo seu descontrole, ela passou a mão pela testa.

- T-Tudo bem – deu-se pro vencida.

Não haveria de ser ruim. Afinal, a intenção não era ficar íntima dele?

O trajeto até em casa foi feito em silêncio, exceto pela música que tocava ao fundo. Hinata se sentiu numa festa, por causa da música eletrônica que tocava. Ela podia jurar que mesmo depois de sair do carro ainda ouvia o "tum tum" martelando em sua cabeça.

- Quanto tempo você ficou na Europa mesmo? – perguntou ela enquanto esperavam pelo elevador, que não demorou muito.

- Uns dois anos e meio, três anos.

- Hum... Sempre quis ir para lá.

- E por que não foi?

Ela deu de ombros e seguiu pelo corredor até parar na porta do apartamento 402. Entrou rapidamente e abriu caminho para que Naruto a acompanhasse.

Como de costume, jogou a chave na mesinha de vidro localizada perto da porta, fazendo um barulho já conhecido por seus ouvidos.

Diferentemente das outras vezes em que chegava a casa, dessa vez ela não se esparramou pelo sofá. A presença dele ali a deixava um pouco rígida.

Naruto olhava atentamente cada canto do apartamento e soltou um assovio:

- É bem luxuoso.

- O quê?! Não, claro que não. Eu costumo dizer que é confortável.

- E conseguiu comprá-lo com o salário de secretária? – ele firmou os olhos nos perolados da morena com uma sobrancelha erguida.

Parecia querer testá-la. Testar a veracidade de seus relatos. Isso fez Hinata tremer um pouco por dentro. Mas sustentando a expressão mais segura que tinha, respondeu:

- Consegui um bom financiamento. Sua alma mais leves prestações de quase todo seu salário durante todos os dias de sua vida geram um apartamento igual a esse. – brincou.

Naruto soltou um som engraçado pela boca em forma de uma gargalhada.

O que, diabos, ele estava fazendo rindo das piadas sem graça que ela contava?, pensava a Hyuuga enquanto olhava o homem a sua frente soltar-se confortavelmente no seu sofá, como se estivesse em sua própria casa.

"Lindo e agradável. Oh meu Deus! Por que não encontrei um cara assim antes".

Hinata ligou a televisão e se aconchegou no chão, encostando-se no sofá e colocando uma almofada para apoiar melhor as costas.

Logo sentiu algo roçar no lado de seu corpo e viu Naruto se aconchegar ao seu lado.

O filme já havia começado, mas a jovem não ligou nem um pouco de ter perdido o início.

- Esse maldito duende... nunca gostei dele – ouviu Naruto comentar em determinado momento.

- Ele é bonzinho, no fundo.

- Há, pra mim é um otário. A maior virtude de alguém é a lealdade.

O loiro se espreguiçou e se mexeu durante longos minutos até achar uma posição confortável para ver o filme. Deitado com a cabeça no colo de Hinata, ele lentamente fechava os olhos.

Antes do filme terminar, Naruto dormia tranquilamente aconchegado no colo da menina.

Ela se levantou devagar e apoiou a cabeça loira dele numa outra almofada. Arrastou de leve o sofá para dar-lhes mais espaço. Andando cuidadosamente foi até seu quarto e pegou uma colcha de casal. Cobriu o jovem até os ombros e deitou-se ao lado dele.

Por mais estranho que isso soasse, Hinata se sentia segura perto dele. Ele, um cara que conhecera no dia anterior. Estranho não, isso era um absurdo e quase beirava ao insano. Um cara de sabia somente o nome – isso se ele lhe disse o verdadeiro nome.

Ela sabia que deveria estar em alerta, os músculos pronto para responder a cada movimento suspeito dele, não baixar a guarda, mas estava confortavelmente... Relaxada.

O bom-senso parecia ter-lhe escapado pelos dedos assim que encontrou os olhos azuis dele pela primeira vez.

- Boa noite! – disse num sussurro, dando-lhe um beijo na testa.

Ficou ali, observando-o dormir calmamente sob a fraca luz da televisão até o sono vir lhe incomodar.

"Hinata", ouviu seu nome ser pronunciado ao vento. Mas estava tão sonolenta que não conseguia distinguir o sonho da realidade.

O pior de tudo. O mais estranho, absurdo e insano de tudo era que Naruto era o tipo de sujeito pelo qual ela se apaixonaria. Claro, em circunstâncias normais. Claro, numa situação em que as palavras polícia, máfia e missão não estivessem entrelaçadas. Não na situação que estava vivendo agora. Isso nunca.

"Hinata", ouviu pela segunda vez antes de fechar completamente os olhos e sair da realidade fria para a fantasia aconchegante do sonho.