Cap. 5 – Filho Pródigo

Hinata encarava o nada. O olhar perdido em algum lugar do horizonte. Sentada na poltrona quinze do trem de Keisei Chiba, tentava organizar as idéias.

Naruto estava perturbado. Não vira nele um resquício sequer do sorriso que tanto gostava.

Foram tomar café numa padaria 24h próxima, por insistência dela. Ela perdeu a conta de quantas vezes perguntou se ele estava bem. Ele abria a boca para responder, mas as palavras sumiam antes mesmo de serem formadas.

Não queria pressioná-lo então se calou.

Naruto apenas tinha a cabeça escorada no ombro da menina e uma das mãos entrelaçadas por ela. Não dizia nada. Apenas respirava fundo várias vezes e mantinha os olhos fechados e expressão séria.

Naquele momento o homem alto e forte que conhecera parecia tão frágil e abalado que ela duvidou de que seria a mesma pessoa. Nunca imaginou vê-lo daquela maneira, mas Naruto a surpreendia de várias formas.

Primeiro porque era extrovertido e sincero demais para um gângster. Segundo que era imponente demais para parecer frágil. E terceiro que estava deprimido demais para ser aquele que conheceu na boate há uma semana.

Os olhos azuis sem brilho. A boca pequena pela falta de um sorriso para alargá-la. As olheiras tão profundas e escuras que pareciam mais maquiagem. Nada disso fazia parte do Naruto que conhecera.

Hinata fechou os olhos enquanto suas próprias palavras ecoavam em sua cabeça.

"Estarei aqui se precisar de mim".

Mentira. Por mais que quisesse ajudá-lo, mentir para confortá-lo deveria ser um crime.

Ligou o seu mp3 e ajeitou o gorro na cabeça. Mas a música alta não impediu de se lembrar das últimas palavras dele, ditas com muita dificuldade:

"O que você faria se tivesse feito algo a alguém que não merecesse perdão?"

Naquela ocasião ela havia respondido que sempre haveria um jeito de concertar a situação. Ela própria se viu presa aquelas palavras. Se essa singela frase servisse para trazer algum brilho de volta àqueles olhos azuis, então ela se via obrigada a acreditar veemente nas palavras saídas de sua própria boca.

Desligar-se-ia do mundo. Pelo menos até chegar à estação de Chiba. Decidiu cerrando os olhos e ignorando a pontada forte que sentia na têmpora esquerda.


i'll be there as soon as i can

(eu estarei lá assim que puder)
but i'm busy mending broken

(mas eu estou ocupado concertando)
pieces of the life i had before
(os pedaços da vida que eu tinha antes)
before you

(antes de você)

Unintended - Muse

- Com licença, moça. Já chegamos a Chiba. – ouviu uma voz masculina chamar-lhe e sentiu uma leve sacudida no ombro.

Hinata se sobressaltou e piscou várias vezes sentindo os olhos arderem. Acabara cochilando. Olhando em volta ela percebeu que só sobrara ela no trem. Agradeceu com uma pequena reverência e desceu ainda um pouco desnorteada pelo sono.

Ainda com os fones no ouvido e as mãos nos bolsos do casaco, Hinata seguiu para as escadas que levaria para fora da estação. Caminhando lentamente observava as pessoas passarem por ela apressadas, falando ao celular ou em bicicletas, em Chiba havia muitos ciclistas. Observava cada canto da cidade onde crescera.

Chegando ao terminal esperou pelo ônibus que a deixaria mais próxima a sua antiga casa, o que não demorou.

À medida que o ônibus avançava, ela observava mais atentamente a paisagem, comparando com as imagens gravadas em suas mentes há cinco anos quando fazia o caminho inverso, de Chiba para Tóquio.

Naquela ocasião o céu não estava tão nublado, a paisagem não tinha um tom preguiçoso de cinza trazido pelo inverno. Mas as ruas estavam tão movimentadas quanto hoje e seu coração estava tão apertado pela incerteza quanto hoje.

A figura do pai ainda a deixava insegura.

Ele havia sido categórico quando lhe disse que se saísse pela porta de casa nunca mais precisaria voltar. Mas os motivos que a traziam ali estavam além dele e dela. O pai teria que entender.

Assim que desceu do ônibus seguiu por uma longa rua reta em direção a uma ladeira no fim dela. Agora haviam pouquíssimas pessoas que como ela se arriscavam a caminhar. As pessoas ricas são um pouco frescas, era o que Hinata pensava enquanto fazia seu caminho.

Subiu a ladeira e seguiu por uma rua curva. Agora, a policial era a única que caminhava pela longa e silenciosa rua. Não havia casas ou qualquer propriedade nessa parte do caminho, somente uma rala vegetação aos cantos da rua asfaltada, a calçada e a ciclovia.

Hinata, por precaução, passou a mão por dentro da blusa para sentir a pistola 9mm que carregava junto a si e o colete a prova de balas que usava por debaixo da blusa. Tsunade a havia aconselhado a sair sempre preparada. Segundo a chefe, é melhor prevenir do que dar conta de um funeral.

Ao fim da curva em U que a rua fazia em torno de um pequeno monte de grama baixa havia uma bifurcação. Hinata pegou o caminho da direita e medida que andava entrava em sua linha de visão casas enormes e muito bonitas. Numa próxima bifurcação, a menina pegou novamente a direita. E com as lindas casas fazendo companhia a ela, chegou à rua sem saída onde a família morava.

Parou em frente ao muro de pedra importada e ao grande portão de ferro batido já muito conhecidos por ela.

- Pois não? – ouviu uma voz masculina e nostálgica soar pelo interfone.

- Robert, poderia abrir a porta? Estou congelando aqui.

- Quem devo anunciar?

- Sou eu, Hinata.

- Como? – ouviu a voz sobressaltar e encarou a pequena câmera acima do interfone, retirando brevemente o gorro para poderem ver-lhe melhor.

- Meus Deus! Senhorita Hinata. Entre, entre.

Assim que pôs os pés na trilha de pedra que levava a formosa e moderna casa onde passara a maior parte de sua vida, não precisou fingir que sorria. A saudade misturada as sensações que viveu naquela casa lhe davam motivos suficientes para sorrir de orelha a orelha.

Com uma passada rápida de olhos, viu que estava tudo do jeito de que se lembrava. Os jardins da entrada da casa estavam impecáveis como sempre estiveram.

Quando estava a menos de 5 metros da entrada da casa, viu a porta sendo segurada por Robert, o mordomo, e viu Hanabi, sua irmã, sair correndo desembestada encarando o chão e no mesmo instante viu uma sombra passar pelos arbustos.

Sem pensar duas vezes retirou rapidamente a arma da bainha e apontou em direção às adoradas Camélias do pai.

Hanabi soltou um grito e fez com que Hinata se voltasse para ela, pensando que algo houvesse acontecido à caçula. E em um segundo voltou sua atenção a sombra que havia visto e percebeu que ela pertencia a um garoto de não mais de 17 anos.

- Hinata nee-san? É você?! – e sem esperar por uma resposta envolveu a cintura da mais velha brutamente – Nee-san, pára de apontar esse troço para o meu namorado – pediu assustada e com a voz embargada. Só então Hinata percebeu que a irmã estava chorando.

- Na-namorado?!

- É, nee-san. Abaixa esse troço logo – respondeu exasperada.

- Co-como?! – abaixou a arma abobada.

Antes que pudesse tentar entender o que estava acontecendo viu seu primo mais velho vir correndo em direção ao pequeno grupo.

- Hinata-sama. Finalmente voltou. – o primo lhe sorriu de canto – Lamento que tenha chegado justo no meio de uma confusão.

- Você – disse Hanabi virando-se ferozmente para Neji – você concorda com ele. – acusou.

Ele não respondeu e prendeu os olhos de lua nos da pequena Hyuuga.

- Alguém quer me explicar o que está acontecendo. – irritou-se Hinata.

- E-eu eu... bem... eu... e-estou – Hanabi começou a dizer encarando o namorado em busca de alguma ajuda, mas ele apenas encarou o chão. Ela então fez o mesmo.

- Ela está grávida. – disse Neji acusadoramente.

- Não. Não é possível. – foi o que Hinata conseguiu dizer.

Primeiro tentou organizar os pensamentos que passavam como raios em sua cabeça. Sua irmã de dezesseis anos estava namorando. Certo. Sua irmã de dezesseis anos estava grávida. Sua irmã mais nova, de somente dezesseis anos estava esperando um filho. Não podia ser.

Hinata passou as mãos pela franja, aflita. Olhou da irmã – tão pequena quanto ela – para o rapaz sem ação ao lado dela e depois para o primo. Neji tinha um olhar tão sério e acusador que ela descartou imediatamente a idéia de ser uma brincadeira.

- Como puderam ser tão irresponsáveis. – disse por fim, com a voz alta e decepcionada – Hanabi, você apenas é uma criança.

- O quê?! Eu já sou quase uma adulta, Hinata. – respondeu ofendida, com a voz mudando de tom. – Você também vai me acusar?! – agora as lágrimas começavam a rolar por seu rosto. E Hinata sabia que a irmã fazia esforço para não desabar de vez. – Você não tem nenhum direito sobre mim. Você foi embora sem pensar duas vezes e me largou aqui como se eu fosse uma mala pesada.

Hanabi engoliu um acesso de choro e voltou-se para a irmã, com os olhos ferozes e a voz carregada de mágoa:

- Se você gostasse mesmo de mim como dizia, não teria me abandonado. Como se não bastasse ter me deixado sozinha nesse lugar ainda volta para me dar sermão?!

Hinata sentiu o peito doer e o estômago revirar. A caçula estava alterada, mas, no fundo, era verdade o que ela dizia. Hinata nunca faria mal algum a irmã, mas quando foi para Tóquio não tinha condições nenhuma de levá-la consigo.

E pensando melhor no assunto, Hanabi devia ter se sentido muito solitária naquela casa enorme com a frieza do pai e a seriedade do primo. Além de ambos estarem sempre muito ocupados com questões da empresa e quase nunca pararem em casa.

- Me desculpe, Hanabi, não foi o que eu... é, só... – começou a dizer calmamente mas ainda aflita – Vocês dois podiam ter tomado mais cuidado... Agora é com uma nova vida que vão ter que lidar...

- Há – a pequena Hyuuga soltou uma risada sarcástica – Não me importa o que vocês dizem. Eu vou ter meu filho nem que seja debaixo da ponte. – falou com a voz carregada e fuzilando Neji com os olhos.

E dizendo isso saiu correndo em direção a rua, sendo seguida pelo namorado. A policial fez menção de ir atrás dela, mas foi segurada pelo braço pelo primo.

- É melhor ela esfriar a cabeça.

- Neji, porque ela está tão nervosa?

- Conhece Hisashi-sama, não conhece? Ele não gostou nem um pouco da situação e...

- Isso não é motivo para ele estar assim. – ponderou sem entender.

O moreno suspirou pesadamente e quando a jovem pensou que ele não iria responder, ele o fez:

- Hisashi-sama mandou que ela fizesse um aborto ou então a expulsaria de casa.

Por um momento ela ficou em silêncio, indignada demais para falar. Cerrou os olhos e os punhos firmemente e seguiu para a enorme casa em passos decididos. Não respondeu o mordomo quando passou por este, nem reparou se os detalhes da casa continuavam os mesmos. Passou pela enorme sala e subiu a escada de carvalho rumo ao segundo andar, onde ficavam os quartos e o escritório do pai. Sabia que o encontraria lá.

Abriu a porta abruptamente e encarou o pai com um olhar penetrante e quando falou, sua voz saiu firme, com uma coragem que até então não sabia que tinha.

- Que história é essa de expulsar Hanabi de casa?!

- Que história é essa de invadir minha casa dessa maneira. – devolveu, voltando o olhar para o papel em suas mãos.

A jovem respirou fundo e sentou-se numa poltrona perto da mesa do pai.

- Isso é injusto. – disse Hinata procurando se acalmar do impulso que teve.

- Não, não é.

- Ela errou, mas não precisa ser tão drástico assim...

- Hinata, estou ocupado. Se não se importa – indicou a porta com as mãos.

A jovem encarou-o. Os olhos de pérolas, como os delas, tão frios e penetrantes, que a fez recuar. Mas não fez menção alguma de que levantaria.

- Isso é crime. – disse ela depois de um tempo.

- Esqueci que agora você é "da lei" – respondeu com evidente sacarmos na voz.

- E não pode abandonar um menor...

- Ela já tem dezesseis anos. Já pode se emancipar.

- O que você quer afinal, pai? Quer ficar sozinho nessa casa e morrer solitário? – irritou-se ela.

- Ando muito bem de saúde, muito obrigado. – disse concentrado em seus papéis e ainda com sarcasmo na voz.

Hinata bufou e caminhou em direção a porta com a mente gritando-lhe para que retrucasse, chorasse, esperneasse, qualquer coisa que fizesse o patriarca voltar atrás em sua decisão. Mas não o fez. Sempre fora tão passiva que agora, simplesmente, não sabia como agir.

Engoliu em seco e guardou seus sentimentos para si, pesando ainda mais seu coração.

Ao fechar a porta do escritório com um estrondo sentiu o choro formar em sua garganta, mas respirou fundo e o inibiu rapidamente.

Neji a esperava do lado de fora com o semblante preocupado. Sem dizer uma palavra sequer, ela entendeu o que ele queria e segui-o até o antigo quarto dela.

Tudo estava como antes. As paredes brancas, os móveis cor tabaco, a penteadeira com alguns dos seus antigos perfumes e maquiagens, a cama de dossel a um canto com seus antigos ursinhos em cima.

A morena observou o quarto por um momento e jogou-se de costas na cama, observando o teto enquanto algumas lembranças brincavam em sua cabeça.

De olhos fechados sentiu o primo sentar a seu lado, na beirada da cama. E sem abri-los dirigiu-se a ele:

- Eu nem te cumprimentei direito, né?! Como você está?

- Estou bem.

- Você cresceu bem desde a última vez que eu te vi – sorriu de leve.

- Já não posso dizer o mesmo de você. – brincou ele.

- Ah não é possível. Eu devo ter mudado pelo menos um pouquinho...

- Hm se a gente reparar bem assim pode até se dizer que você cresceu uns 2 cm... E... Está bem bonita também.

Hinata corou e sorriu.

- Ouvindo você falar assim vou acabar pensando que você amoleceu, nii-san. – brincou.

A hyuuga contou um pouco sobre Tóquio e ouviu o primo contar em poucas palavras como fora os últimos anos na casa. Tudo na mesma. Depois de um tempo, ela se levantou e caminhou até a porta do quarto dizendo que procuraria pela irmã.

- Neji, - começou a dizer ao pé da porta – você não concorda com meu pai, não é?

O moreno levantou os olhos sem expressão para a prima e não respondeu.

- Cuidado para não ficar igual a ele. – completou e saiu fechando a porta atrás de si.

Assim que subiu a colina atrás da casa, Hinata pode distinguir as figuras de Hanabi e seu namorado abraçados. As duas adoravam subir as colinas para colher amoras quando eram pequenas ou então paravam ali para descansar depois de brincarem de pique-pega.

- Sabia que estaria aqui. – falou à pequena irmã.

Hanabi virou os olhos encharcados para ela e fungou algumas vezes.

- Posso roubar minha irmãzinha de você um instante?

O rapaz beijou a testa da pequena e fez uma pequena reverência ao passar por Hinata.

- Te ligo mais tarde, Hanabi-chan. – disse ele se despedindo e seguindo a pequena trilha no sentido inverso do que a policial acabara de fazer.

- Temos muita coisa para conversar, Hanabi-chan.

A Hyuuga menor fez bico e virou o rosto emburrada.

- Eu conversei com o papai agora a pouco...

- E ele? – Hanabi instantaneamente esquecera de que estava chateada com a irmã e seus olhos brilharam de ansiedade.

- Irredutível como sempre – Hinata respondeu tristemente. – Mas... Vamos encontrar uma solução, não se preocupe. – tentou sorrir.

- Você... acha mesmo... que tem uma solução, nee-san. – disse hesitante – Eu... não quero tirar meu bebê. Desde que eu o senti chutando eu...

Não terminou de falar porque foi tomada pela emoção e recomeçou a chorar, deitando no colo da irmã mais velha.

- Mamãe sempre dizia que tudo tem um jeito por mais difícil que possa parecer. – disse Hinata depois de um tempo.

Hanabi aninhou-se ainda mais no colo da irmã e fungou várias vezes antes de voltar a falar.

- Você se lembra dela?

- Ahn?

- Da mamãe. Você se lembra? – repetiu impaciente.

- Um pouco.

Hinata tinha 10 anos quando a mãe foi embora. Lembrava-se levemente do contorno do rosto dela, os cabelos preto-azulados, iguais aos seus, na altura dos ombros, o rosto também pálido e os característicos olhos de lua da família Hyuuga. A mãe e o pai eram primos e casaram-se por tradição da família. Isso era bastante comum entra famílias antigas e tradicionais como a Hyuuga. Sem contar que era para o bem da empresa. Sempre a empresa.

Lembrava-se também de como os pais sempre discutiam. Lembra-se de como os olhos da mãe eram vazios e tristes. Lembrava-se também de como a mãe aparentava o dobro da idade que tinha. E também se lembrava de que estava escondida atrás da porta quando a mãe disse que ia embora com outro. Ninguém lhe deu explicação alguma, era muito criança para entender, tinha apenas 9 anos. Mas ela entendia.

Depois disso nunca mais a viu. Hisashi a proibiu de chegar perto das filhas e tirou tudo que a lembrava da casa, objetos pessoais, fotos, até tenma-chan, a cachorrinha de estimação que havia sido presente do avô materno. Na única vez em que Hinata desobedeceu a uma ordem direta do pai aos 14 anos, hinata foi até a cidade vizinha onde o avô morava e onde a mãe estava e descobriu que ela havia morrido de câncer meses atrás.

- Não sente raiva dela? – perguntou Hanabi, mas sem nenhum rancor na voz.

A mais velha apenas negou com a cabeça.

- Aff Hinata, sua calma me irrita. Eu pago pra ver você ter um acesso de raiva um dia.

Hinata apenas soltou uma gargalhada sonora.

As duas Hyuugas levantaram e voltaram para casa enquanto a pequena ia tagarelando sobre tudo num fôlego só até que estancou na calçada em frente a casa e foi empurrada pelos ombros pela irmã.

- Sabe, nee-san, eu queria muito conseguir ter raiva de você por ter me deixado. – disse Hanabi de costas para a irmã.

Hinata se assustou pela conversa repentina e virou a irmã para encarar-lhe com a face confusa.

- Eu não consigo porque eu admiro muito você, sua bobona. – riu brincalhona e saiu correndo para entrar em casa.

Fez o mesmo caminho da irmã a passos lentos e assim que entrou viu o pai descer pela escada.

- Ainda aqui, Hinata?

"Não, é somente meu espírito", foi isso que teve vontade de dizer. Mas algo dentro dela, a vozinha sensata, alertou de que o pai, com toda a certeza, não levaria isso na brincadeira.

- Não se preocupe papai, já estou indo para um hotel.

- Não. Fique esse fim de semana. E tente convencer sua irmã a descer para almoçar.

O almoço transcorreu silenciosamente, somente o som dos talheres eram ouvidos, exceto uma ou outra pergunta que era respondida por monossílabos. Robert havia se apressado e mandado fazer as comidas preferidas de Hinata.

Mais tarde naquele mesmo dia a jovem foi até o escritório para falar com o pai e o encontrou cochilando com a cabeça tombada sobre vários papéis espalhados sobre a mesa. Olhando-o assim ele não parecia tão arrogante e intimidante. Aproximou-se devagar e cutucou-o levemente no ombro.

Ele acordou no ato e esfregou os olhos freneticamente.

- Vai descansar um pouco, pai.

- Tenho muita coisa a fazer ainda.

- Esqueça, vou trazer um chá e então conversaremos.

Para sua surpresa ele assentiu. E então minutos depois ela voltou com um bule e duas xícaras numa bandeja brilhante de prata.

- E como está a vida em Tóquio?

- Boa. E aqui?

- Boa.

Silêncio.

- Você não trouxe malas, então devo supor que não veio para ficar.

- Não, pai. Realmente está tudo bem em Tóquio. Além do que você me disse para não voltar, lembra-se?

Ele meneou a cabeça e respondeu lentamente:

- Sim, mas pensei que você desistiria em menos de um ano e voltaria arrependida para casa.

A morena soltou uma risada forçada e continou:

- Você nunca acreditou no potencial mesmo. – deu de ombros.

- Você nunca me deu motivos para isso.

Silêncio.

- Ainda de pirraça? – Hisashi perguntou casualmente enquanto tomava seu chá.

- Como?

- Essa bobagem de entrar para a polícia. Sabe muito bem que odeio essa carreira. Prefiro mil vezes uma filha grávida a uma filha policial.

Hinata sentiu uma pergunta – uma afirmação, na verdade – se formar na garganta e um impulso muito grande de se pronunciar. Resolveu seguir esse impulso. Estranhamente acordou muito atrevida esta manhã. Talvez a profissão tenha mudado algo nela, enfim.

- Isso tem a ver com ele? – perguntou ela.

- Quem?

- Ele, o policial que era namorado da mamãe. – comentou casualmente. E namorado era um eufemismo para amante.

Hisashi franziu o cenho e a fuzilou com os olhos.

- Saia daqui, Hinata.

- Desculpe. Não queria me intrometer, mas sempre tive essa dúvida.

- S-a-i-a. – ele respondeu pausadamente num rosnado. Não alterou a voz um minuto sequer, mas foi o suficiente para a jovem sentir-se ameaçada e sair dali.

Da próxima vez teria que calar-se e controlar os impulsos se quisesse tirar alguma informação do pai.

"Vou mandar as informações que consegui por fax, Hinata-senpai."

A voz de Yumi soou pelo aparelho celular que Hinata tinha uma das mãos. Com a outra mão ela esfregava de qualquer jeito a toalha no cabelo molhado.

"Sim, muito obrigada."

Yumi havia ligado para dizer que já havia conseguido o que lhe havia sido solicitado e disse somente o necessário. O que Hinata pode perceber que é um comportamento bem típico dela.

Descalça e de pijama – suas antigas roupas estavam intactas. As empregadas sempre as lavavam e deixavam no sol para não mofar – foi até o escritório. Era tarde, o pai já estava dormindo.

Depois de pegar o que queria ela desceu até a cozinha saltando a escada de dois em dois degraus. Surpreendeu-se com a luz acesa e chegando mais perto pode ver que o primo estava tirando algo do fogão.

- Sem sono, Hinata-sama?

- Tenho umas coisas para ler – disse enquanto negava com a cabeça. – e você?

Antes mesmo de ele responder a jovem viu sobre a mesa uma massa escura que ela logo reconheceu com os olhos brilhando.

- Brigadeiro! – ela quase pulou em cima do prato.

- Eu teria feito mais cedo mas tivemos que encomendar o leite condensado.

Ela quase pulou no pescoço do primo e beijou-lhe a bochecha, mas como não eram acostumados a serem muito afetuosos, achou melhor não se constranger.

- Meu pai esteve aqui semana passada. – comentou Neji casualmente depois de conversarem sobre assuntos menos importantes.

- O que ele queria?

- O de sempre: dinheiro. – fez uma careta.

- Mas... Tio Hizashi disse que iria para uma clínica, não é?

- Ah ouço isso desde que ele me deixou aqui com Hisashi-sama quando eu era pequeno. Ele deve estar em algum bar agora bebendo e se drogando.

Ficaram em silêncio alguns minutos antes da menina continuar a falar:

- Mas... Cuidamos de você direitinho.

- É, Hisashi-sama foi bom comigo, na medida do possível, claro.

- Digo Hanabi e eu... Fomos boas primas... Afinal, só empurrávamos você na piscina de vez em quando.

Os dois riram e Hinata resolveu perguntar algo que a estava incomodando há algum tempo.

- Nii-san, você se lembra dos Uzumakis?

- Lembro pouco. Eles sempre vinham em jantares de negócios aqui em casa. Na verdade, eles batiam cartão nas festas da empresa, acho que é por isso que eu me lembro mais deles do que dos outros. Eu tinha que fazer as honras já que você sempre dava um jeito de passar mal. Ah! O senhor Uzumaki adorava apertar suas bochechas.

- É verdade. Eu odiava isso. – riu um pouco mas logo parou – E o filho deles?

- Naruto? Impossível esquecer-se dele. Ele não se formou comigo porque repetiu o último ano.

- E como ele era?

- Chato, barulhento, extravagante, irritante...

- Hm... Não me lembro dele.

- Bem, acho que ele nunca veio aqui. Não acompanhava os pais nas festas e você estudou num colégio feminino. Creio que seja por isso.

A jovem deu de ombros e fincou uma colherzinha no brigadeiro.

- Por que quer saber? – perguntou ele interessado.

- Ahn nada demais... Eu o conheci só isso.

- Que coincidência.

- Até demais, se você quer saber.

Pouco tempo depois ela subiu para o quarto para ler o que havia recebido. Eram notícias antigas da coluna social de um jornal muito famoso na região, o Chiba News.

"Hoje, 16 de junho de 2002, acontecerá a festa em comemoração a fusão das empresas Contti e Swega, pioneiras na distribuição e fabricação de peças bélicas na região. A união promete aquecer a economia local que foi freada pela pequena crise que enfrentamos no fim do ano passado. Muitos faliram e todos ainda enfrentamos um momento de incertezas, mas essa união promete acabar com o mito de que Chiba se tornará improdutiva."

Contti era a empresa de seu pai. Agora precisar confirmar o outro nome. Não se lembrava do dito nome na ficha e deixou seu material em Tóquio, então não poderia consultá-la.

O sábado, definitivamente, não foi do jeito que esperava. Conseguiu algumas informações sobre Naruto, mas nada que a satisfizesse. Seria prudente planejar o dia de amanhã, mas estava cansada demais para isso.

Queria muito saber o que Naruto estava fazendo – sendo lícito ou não – mas essa é uma dúvida que não seria respondida, teria que dormir com ela.

E pensando em como o calor dele junto a si seria ótimo nesse frio de inverno recém-chegado acabou dormindo.

Ooo

N.A1.: Fui intimada a postar até sábado então... aí está. Eu iria escrever mais, mas é melhor assim que não fica grande demais e é bom pra eu parar de enrolar.

N.A.2: Sensei, ainda é sábado no meu relógio biológico já que o dia começa pra mim depois de 12h.

N.A.: Esse capítulo foi mais uma tentativa de vencer o bloqueio.