Cap. 6 - Cold heart

"Tenho certeza que já ouvi esse nome em algum lugar...", pensava a Hyuuga quando passava os olhos sobre a tela do computador a procura de algo que interessasse sobre a Swega. O que se mostrou inútil, pois as notícias que conseguia eram antigas e não diziam nada sobre os donos.

Hinata apoiou os cotovelos na mesa e apertou as têmporas, forçando mais a memória. Lembrava-se da foto de Naruto na ficha, lembra de uma ou outra palavra, mas nada que interessasse.

Desceu para um desjejum rápido, pulando os degraus da escadaria de carvalho de dois em dois, antes de se encontrar com seu primo e Hanabi nos fundos da casa. Ao pela sala de recepção, próxima a sala de jantar e da sala de estar, e sair pela porta dupla de vidro temperado os fundos da casa, com direito a piscina, área de lazer, trilhas de pedra e uma grama perfeitamente cortada entrou em seu campo de visão.

Ali era o lugar onde se permitiu dar suas poucas gargalhadas. Se tem uma sensação nostálgica tão gostosa quanto essa, ela não saberia dizer.

Lembrou-se de como a vida contraíra um gosto amargo depois que a infância passava. Tornando-se apenas uma lembrança boa. Fez uma careta e esticou as costas antes de voltar a caminhar para encontrar os parentes.

- Espero que não tenham feito eu acordar cedo por nada. – reclamou Hanabi bocejando.

- Lamento não poder dar um show, irmãzinha, mas o sedentarismo me deixou um pouco enferrujada.

- E claro, Hinata-sama nunca foi párea para mim.

Neji e Hinata se encararam e antes que algum sinal fosse dado ela já avançada para ele com os braços flexionados. Defendeu com a coxa uma joelhada que receberia e aproveitou os instantes para tentar acertar os punhos fechados na face do rapaz. Mas era muito difícil de acertá-lo, exatamente como era antes quando treinavam luta no colégio.

Neji aproveitou o milésimo de distração da jovem e segurou seus pulsos, apertando o osso mais proeminente da mão para baixo com o polegar com muita força. Hinata resmungou de dor e deu-lhe uma joelhada no estômago.

- Isso doeu. – reclamou ele.

- Você não foi exatamente bonzinho comigo.

O moreno riu pequenamente com o canto da boca e deu-lhe uma rasteira. Hinata apoiou as mãos abertas no chão e projetou o corpo e as pernas flexionadas para cima antes mesmo das costas baterem no mesmo. Mas assim que se ergueu não teve tempo para pensar, pois o primo vinha para cima dela tentando acertá-la com socos.

Assim ficaram bastante tempo, com Hinata na defensiva na maioria das vezes e aproveitando sempre que podia para atacar até que ela se cansou e seus movimentos ficaram mais lentos.

Neji a surpreendeu com um golpe de gravata.

- O que você faz quando é surpreendida por trás... – perguntou ele, segurando-a frouxamente.

- Tapa forte no ouvido para desequilibrar – respondeu a jovem lentamente e com a voz carregada como se repetisse uma lição muito chata que fora esquecida.

Mais tarde naquele mesmo dia Hinata subiu ao escritório e novamente viu o pai atento a uma pilha de papéis.

- Tem algo que quero saber antes de voltar para Tóquio.

Ele não respondeu. Ela controlou um tremor interno que começara a se formar e continuou:

- Quero que me fale sobre os Uzumakis.

- Por que isso agora?

Ela deu ombros.

- Pai, não preciso dizer que se mentir ou omitir algo importante será indiciado, certo?

- Foram um dos sócios da empresa. – ele deu de ombros – Assim como tantos outros.

Hinata o observou e não viu nele nenhum sinal de sudorese ou nervosismo. Se bem que o pai tinha sempre a feição séria e era praticamente impossível saber quando estava mentindo. Ela seguiu com um questionário sobre a empresa e os Uzumakis de um modo geral. Hisashi não hesitou nenhuma vez.

No fim, não descobriu mais do que já sabia. Mas sabia que teria que pesquisar mais a fundo para fazer as perguntas certas ás pessoas certas.

Pegou o fax que acabara de chegar para ela, tendo o pai a observando desconfiadamente, mas nada disse.

Agora mais uma peça do quebra-cabeça se encaixava. Swega era a empresa dos pais de Naruto. Então deveria supor que ele era o herdeiro da Swega e conseqüentemente sócio da Contti, empresa dos Hyuuga. Então por que morava em Tóquio se ambas as firmas se localizavam em Chiba? Por que não aparecia às reuniões – foi o que o primo disse e o pai confirmou - Por que havia largado a empresa jogada dessa maneira? Talvez, como ela, ele não queira ser empresário. Talvez tivesse a ver com a sua viagem ao exterior.

As únicas coisas que sabia até o momento era que as empresas haviam se fundido e que isso evitou uma possível falência das duas partes. Já era alguma coisa, por hora.

Na hora do almoço todos estavam juntos a mesa quando a jovem policial disse que teria que checar os livro-caixa da Contti.

- Não sem um mandado. – disse taxativo Hisashi.

- Só me dará mais trabalho ir à Tóquio e voltar aqui para isso.

- Que assim seja.

Hinata bufou baixo e voltou-se para seu prato de sopa incomodada por ter sido contrariada na frente dos demais. E claro, não conseguiria o mandado porque isso não tem a ver com a quadrilha em si. Mas ela não desistiria de descobrir mais coisas sobre Naruto.

Por que era tão prazeroso para o pai contrariá-la? Talvez fosse hora dele procurar outro hobby.

"Barulhento e irritante", havia dito Neji. E essa descrição se encaixa perfeitamente na imagem de um Naruto adolescente que estava formulando em sua mente.

Quando haviam terminado a sobremesa e estavam prestes a se levantar Hisashi se pronunciou novamente:

- Hanabi, sua consulta já foi marcada.

- Que consulta? – olhou interrogativa para a irmã e o primo. Que deram de ombros.

- Essa criança que você carrega é um erro. Daqui a alguns anos, quando estiver casada, você poderá ter outra. – disse ele tranqüilo.

- Se o problema é casamento... Eu posso conversar com Konohamaru e convencê-lo a se casar comigo.

- Aquele garoto que não tem onde cair morto? Nunca. Daqui a alguns anos começarei a procurar pretendentes para você e sua irmã, mas agora não quero ter esse tipo de preocupação.

- Mas pai, a criança já está grande não pode simplesmente...

- O médico dará um jeito.

Sem argumentos a menina começou a chorar e a gaguejar que não iria. E subiu correndo para o quarto.

Xxxx

Passar horas no banco de um trem não é muito confortável, por isso a primeira coisa que fez quando chegou a casa foi se jogar na cama.

- Ei esse pedaço de bolo era meu!

- Falou certo: era... Ei! me devolve meu sushi.

- Olho por olho dente por dente.

- Vou fazer você cuspir ele, hein.

- Vai ter que me fazer vomitá-lo se quiser...

Barulho. A paz de seu lar estava ameaçada e a gritaria que vinha da cozinha lhe dava ainda mais certeza de que ficaria um bom tempo sem apreciar o silêncio.

- Vocês dois querem comer quietos. – resmungou Hinata da porta da cozinha.

- Ele roubou meu pedaço de bolo. – explicou Hanabi apontando o namorado acusadoramente.

- Ela come tanto que parece que vai ter quadrigêmeos. Vai ficar gorda desse jeito – reclamou o namorado de Hanabi.

Depois disso Hinata beliscou alguns petiscos e foi deitar, ainda ouvindo a discussão que estava acontecendo na cozinha e ouvindo a irmã reclamar que o quarto em que estavam era muito pequeno.

Hinata foi até a janela e abriu uma brecha para o ar frio de inverno entrar no quarto enquanto pensava no porquê de sua calma e silenciosa rotina ter sido mudada. Sim, Hanabi "fugiu" antes de ter que ouvir novamente da boca do pai que ele a expulsaria de casa se não fizesse o aborto. Certo, até ai sua mente acompanhava o raciocínio. Ela havia acolhido a irmã. Certo. Konohamaru havia vindo junto para ajudar a trazer as malas da namorada. Certo. E acabou ficando de brinde. Nesse ponto perdeu a linha de raciocínio. Hanabi simplesmente disse "Konohamaru decidiu ficar" e desde então estão discutindo por um pedaço de bolo na cozinha.

Pegou seu celular e discou o n° 3, que na agenda estava gravada como sendo Yumi, sua secretária/estagiária. Os primeiros 5 números da agenda eram destinados a contatos da polícia, mas não gravava os nomes das pessoas pro caso de perder ou de roubarem o celular. Se alguém o encontrasse apenas veria na agenda os números 1,2,3,4 e 5 e não saberia do que se tratava.

- Yumi, estou em casa. Tem novidades?

Precisava saber dos últimos passos de Naruto.

- Não. Ele apenas saiu para comprar bebidas sábado de manhã e desde então não sai mais de casa.

- Recebeu alguma visita?

- Não.

- O que está fazendo agora?

Sentia-se mal por fazer a pobre estagiária ficar horas em frente a casa do alvo, mas não tinha escolha. Era um trabalho ruim, mas alguém tinha que fazê-lo. Ela própria havia feito muito isso quando era estagiária de Sakura. Mas o que mais dava dó em Hinata em relação a Yumi era que estavam no inverno e a menina estava no frio.

- Ele entrou num cômodo que parece ser o banheiro há mais de uma hora.

- Uma hora? Alguma movimentação? Algum barulho dentro da casa?

- Não.

Hinata sentiu o estômago afundar e o coração apertar. Mas precisava rever os fatos antes de chegar a uma conclusão.

- Aperte a campanhia.

- Mas... Hinata-senpai ele não pode saber que eu estive aqui.

- Aperte Yumi, por favor.

O peito levantava e abaixava freneticamente pela respiração acelerada.

- Nada. Ninguém responde.

- Aperte de novo.

- Ninguém responde.

- Muito obrigada Yumi, pode ir para casa.

Desligou sem se despedir.

Estava se precipitando. Afinal, devem ter muitas pessoas que passam mais de uma hora no banho, embora não conheça nenhuma. O que estava pensando? Que ele teria se afogado na banheira? Sim, era exatamente o que estava pensando, embora nem ao menos soubesse se ele possuía uma banheira. Mas analisando melhor a situação ele estava tão melancólico nos últimos dias...

Andando de um lado para o outro no quarto descartou a idéia de ir a casa dele. Sabia onde ele morava porque o estava investigando, nada mais normal, mas o loiro não fazia idéia disso. Seria muito estranho aparecer de repente na porta de alguém se esse alguém nem ao menos lhe deu o endereço.

Descartou também a idéia de ligar para o celular dele. Aquele que ela havia pedido quebra de sigilo telefônico dias antes. Também seria suspeito.

De repente a jovem teve uma idéia num estalo. Talvez o número dele ainda estivesse gravado na memória do telefone da vez em que ele a chamou para sair. E tropeçando nos próprios pés saiu correndo do quarto até o telefone na mesa de centro da sala de estar.

Sakura. Sakura. Sakura. Sakura. Só agora tinha noção de como ligava para a amiga. A companhia telefônica devia ficar rica só com as duas. Número desconhecido. Deveria ser esse. Ligou e logo uma voz masculina desconhecida lhe chamou a atenção:

- Tempos terríveis seguros, pois não?

- C-como?

- Tempos terríveis seguros. Fazemos seguros de vida para você, seu marido e seu cachorro com um desconto especial.

- Err... Acho que foi engano.

Desligou rapidamente e voltou a fuçar na memória do telefone. Achou outro número desconhecido. Tinha que ser este, o restante dos números eram de Sakura.

A ligação chamou até cair duas vezes.

Passou a maior parte da madrugada encarando o céu escuro através da cortina fina e as janelas de vidro tentando, por inútil que isso se mostrou na maioria das vezes, inibir a imagem de um Naruto afogado na banheira que teimava em vir a sua mente.

Na manhã seguinte acordou cedo. Na verdade, mal dormiu. E foi até a padaria mais próxima comprar algo para a irmã e o cunhado comerem. Quando voltou se arrumou rapidamente vestindo uma blusa de lã e um casaco por cima do colete a prova de balas, uma calça jeans colada e uma bota. E escondida sob a calça e a bota usava uma meia ¾ colorida e chamativa. Era um pouco carnavalesca, mas era quente e não veria, então a jovem, sempre discreta, não ligou.

Tudo parecia normal a caminho do metro que a levaria para a casa. As pessoas se esbarravam a todo momento e o barulho das buzinas dos carros faziam uma espécie de sinfonia desafinada que chegava a irritar.

Procurou andar na beirava da rua para evitar ser atropelada pela multidão quando ouviu um barulho baixo de algo muito fino cortando o ar e sentiu uma ardência no braço esquerdo. Quando girou rapidamente o corpo pode ver alguém correndo com uma 9mm nas mãos por entre os carros.

- Mandem uma viatura para Avenida Ginza Chuo-Dori agora – disse ela pelo rádio com a interna da polícia antes da sair correndo atrás do sujeito.

Ele virou ainda de costas ainda correndo e desferiu três tiros que ricochetearam no poste que Hinata havia se escondido assim que o viu levantar a mão que carregava a arma.

Esbeirando-se por entre os carros que engarrafavam a grande avenida Hinata deu dois sonoros tiros com a pistola. Um acrtou o sujeito no calcanhar e o outro na mão que segura a arma.

Ao ouvir os tiros as pessoas começaram a correr e a gritar e algumas se jogavam no chão.

O cara ferido se rastejava no chão para tentar pegar a pistola que havia caído da mão ferida. Hinata correu e chutou a 9mm para longe dele enquanto apontava fixamente sua arma para a cabeça dele.

A viatura não demorou a chegar acompanhada de uma ambulância.

- Foi só de raspão – disse quando um paramédico vinha em sua direção. – veja se tem algum ferido.

Minutos depois estava no escritório de Tsunade com o braço esquerdo enfaixado e uma imensa dor de cabeça.

- O indivíduo alega uma tentativa de assalto. – disse a chefe séria.

- Claro que não... Ele estava do outro lado da Avenida. Ninguém faz um assalto a essa distância.

- Sim, foi o que eu e o delegado pensamos. Vingança?

- Não, eu nunca fiz nada a ninguém. E também não tenho conhecimento de ninguém possa querer me eliminar...

- Existe alguma possibilidade daquele loiro e seu nado saber que você é da polícia?

Hinata hesitou por um instante e voltou-se para a chefe:

- Fui bastante cuidadosa quanto a isso. E ele já teve oportunidade de me matar, mas não o fez. Creio que se a quadrilha me quisesse morta seria Naruto quem faria o serviço.

- Tome mais cuidado da próxima vez, Hyuuga. O plano segue sem interferências.

- Certo.

Ao fim da tarde em vez de Hinata se preparar para ir embora, ela resolveu ir até o subsolo da corporação para treinar. Lá era onde ficavam os equipamentos de ginástica, o tatame e os sacos de areia para treinar.

A jovem resolveu apenas fazer alongamento nos músculos já que tinha um dos braços machucados.

Ouviu um barulho vindo da porta e quando viu quem era seu corpo entrou em alerta. Sai vinha caminhando com um sorriso cínico nos lábios e os olhos apertados.

- Soube o que aconteceu com você.

Ela fez um barulho incompreensível com a garganta somente para não se passar por mal educada, mas prolongou a conversa. Não queria falar com ele.

- Que sorte não ter mirado em algum órgão vital. – continuou ele.

- é, sorte.

- Será mesmo sorte? Creio que isso tenha sido planejado.

- O que quer dizer? – perguntou receosa e desconfiada.

- Que foi planejado. – ele deu de ombros. – Que queriam utilizar isso para dar um susto em alguém.

- Ninguém que eu conheça levaria um susto com isso.

- Ah Hinatinha... pense melhor.

Ela franziu o cenho e se afastou de Sai.

- Tem alguém no meio deles que te acha importante e esse alguém estava precisando de um susto.

Ele deu novamente de ombros.

- Sou pago para pensar como os bandidos, afinal. – ele disse se divertindo com a tensão dela.

Hinata paralisou quando ele se aproximou e beijou-lhe as costas da mão boa.

- Se fosse eu... Preferiria não deixar vestígios. Daria um tiro aqui – colocou a mão espalmada sobre o abdômen da moça – para ver a vítima desesperar vendo o próprio sangue. Depois daria outro aqui – pôs a mão espalmada no colo dela – para atingir o coração e o pulmão. E por último e não mesmo importante... – simulou uma arma com os dedos atirando para a cabeça dela.

- Você é um sádico. – disse a jovem trêmula.

- Talvez. – ele deu de ombros – E ninfomaníaco também. Mas claro que tenho meus distúrbios psicológicos controlados. Não ousaria atacar ninguém. – novamente deu aquela risada cínica que a hyuuga odiava.

E dizendo isso ele saiu caminhando com as mãos nos bolsos e assoviando.

N.A: semana que vem tem mais. Obrigada a todos.

=*