Extra – Hinata

Tem certas coisas com as quais a gente nunca deveria se acostumar. Fazer o trabalho dos outros é uma delas. Li e revi os relatórios de Chise-san quando ela estava de licença. Na ocasião não me importei, afinal eu não fazia muita coisa quando estava em casa. Mas agora... Estou, num sábado de manhã, caminhando numa trilha em direção a uma clareira num dos bosques aos arredores de Tóquio, dando uma de perita.

Eu não ia fazer a perícia, ia apenas como representante da polícia federal. Isso não é minha função, talvez a do delegado ou do detetive, mas ambos estavam enrolados com algum outro caso – nem se deram ao trabalho de me informar qual – e alguém deveria ir pegar os dados periciais acompanhado da polícia civil. E por algum motivo pensaram que estava sem nada para fazer.

É certo que a polícia civil não entende muito de ciência forense, não é dever deles. E alguém com algum conhecimento tinha que acompanhá-los e eu havia estudado isso na academia de polícia. Entendo isso perfeitamente, mas não é aqui que queria estar. Eu deveria estar enrolada em um edredom quentinho esticada em minha cama de casal com Hanabi ao meu lado contando que havia, novamente, sonhado com o bebê.

Não gosto de deixar minha irmã sozinha e Konohamaru estava trabalhando no bico de meio período que Naruto havia arrumado para ele. Por isso, espero realmente não me demorar neste lugar.

- Bom dia, sou Nokada, o perito responsável pelo caso! – me cumprimentou um senhor de meia idade coberto com um jaleco branco. Acenei com a cabeça e os policiais que estavam comigo fizeram o mesmo. – Sigam-me, por favor.

Paramos próximo ao riacho. O perito passou pela faixa amarela que impedia a passagem das demais pessoas, pediu que os civis esperassem e me convidou a atravessar a faixa com ele.

- Não se preocupe, os corpos já foram enviados ao IML (Instituto Médico Legal) e os vestígios recolhidos. – ele me disse, depois começou a gesticular sobre certos pontos da grama rala – Se você olhar essa parte da grama verá que ela está mais baixa que o resto da vegetação, então, era aqui que estavam os corpos. Três corpos. Duas meninas e homem adulto. Eles foram encontrados por um grupo de turistas que faziam trilha e contataram a polícia.

Como está frio, o processo de decomposição foi retardado e como ainda não começou a nevar foi fácil localizá-los aqui. Mas o congelamento pode causar más interpretações, por isso tivemos o cuidado redobrado. Além de que pequenos animais e insetos podem causar danos ao corpo, criando certas condições que podem ser interpretadas erroneamente como trauma.

Tínhamos uma dúvida quando chegamos. Poderia ser um triplo homicídio ou um duplo homicídio e um suicídio. Não há sinais de luta ou tortura nos corpos nem no local de crime. Analisando os corpos das meninas vimos que ambas receberam um tiro na cabeça da direita para a esquerda. O que nos fez pensar que o homem matou as duas crianças e depois se matou. Era o que tudo indicava já que as digitais na arma eram dele e o projétil era mesmo dessa arma.

Ele me mostrou um revólver calibre 38 dentro de um saco transparente lacrado. Acenei com a cabeça indicando que entendia o que ele falava... E vi até algum sentido. Esse tipo de revólver era fácil de conseguir. Então não seria difícil para o homem conseguir a arma e levar as crianças para um passeio – principalmente se o homem fosse próximo as meninas.

Assustei com a minha linha de raciocínio. Era melhor prestar atenção no senhor a minha frente do que começar a fazer suposições.

- Entretanto algo nos chamou muito a atenção. O homem tinha os ossos da mão esquerda estraçalhados, o lado esquerdo da face perfurado e sangue saindo da boca. Isso era estranho. Não havia sinais de luta. E como um suicida lutaria consigo mesmo? Além do mais o ângulo de entrada do projétil era inclinado, de forma que, para isso ter ocorrido seria necessário que alguém atirasse de cima quando a vítima estivesse ajoelhada.

Nosso analista de vestígios descobriu pegadas neste lado da grama – me mostrou uma parte da grama onde se via uma mal formada pegada. Como a terra estava úmida a pegada ficou mais evidente. Ele encontrou também próximo as pegadas fibras de tecido felpudo. Essas fibras caem facilmente dos casacos. Um simples balançar de mãos e temos uma infinidade de evidências. Esse fato nos deu uma nova perspectiva. Havia uma quarta pessoa no local. Mas... Quem era ela? O que fazia ali?

Recebemos uma ligação do IML há algumas horas. Fizeram uma radiografia e viram que a bala estava alojada na garganta do sujeito. E o projétil não confere com a arma do nosso suposto suicida.

Encarei-o, me concentrando em sua expressão pela primeira vez desde que chegara. Ela parecia natural. Ele percebeu minha careta de dúvida e voltou com a sua explicação:

- Agora temos um novo cenário. Duas meninas e um homem mortos e uma pessoas desconhecida. A pegada é larga, provavelmente de alguém grande que calça 44 e usa coturno.

Supomos: o homem matou as duas crianças e largou a arma no chão próximo as vítimas. Após isso se ajoelhou e tampou o rosto com as mãos. O tiro veio de cima atravessou a mão esquerda, perfurou a face, próximo ao nariz, estilhaçou parte do maxilar e dos dentes molares, desceu e se alojou na garganta. E então começou a engasgar e sufocar com o próprio sangue. Pela profundidade da pegada, podemos supor que ele ficou aqui ainda por um tempo talvez esperando que o homem morresse para que não houvesse testemunha.

Por algum motivo os corpos não foram retirados do local do crime, talvez por não ter pessoas suficientes para levá-los.

Nossas suspeitas se confirmaram quando encontramos essa carta dobrada e escondida na meia do homem.

Coloquei a luz de látex que ele me estendia e peguei o a carta. A medida que ia lendo imagens começavam a se formar em minha cabeça. Eu lutava contra elas, mas nunca fora boa o bastante para parar meu fluxo de pensamentos.

Comecei a ler a carta de garranchos rabiscados difíceis de ler.

A quem nos achar,

Sou alguém a quem vocês não devem dar atenção e essas são minhas filhas gê são as criaturas mais lindas que eu tive o prazer de conviver. Peço, a quem nos achar, que não guarde na lembrança seus corpos em decomposição e sim, duas meninas sorridentes de cabelo chanel castanho, nariz empinado e fino e olhos puxados.

Tentei livrá-las do que está prestes a acontecer, mas se você está lendo isso é porque não consegui. Eles descobriram meu plano antes que elas estivessem a salvo. Eu já havia contatado minha ex-mulher, mãe das meninas. Iria embarcá-las no avião para os Estados Unidos daqui a 2h. Mas...

Morrerei pelas mãos dos que se auto-intitulam "Mão negra". E minhas meninas, pelas minhas mãos.

Quando me entrei para a irmandade não sabia até onde ela iria chegar. Estava desempregado há muito tempo e com duas crianças para criar. Pensei que faríamos pequenos roubos e logo eu teria uma boa quantidade de dinheiro para sobreviver e arranjar um bom emprego.

De boas intenções o inferno está cheio!

Sete anos mais tarde, estávamos assaltando bancos e éramos mais de doze. Em dois anos esse número duplicou e não matávamos apenas gangues rivais. Advogados, juízes ou qualquer outro inocente que entrasse em nosso caminho ganhava uma passagem sem escalas para a outra vida.

Foi nesse tempo que decidi sair. Largar meus "irmãos". E esse foi o meu erro. Pensar que você acorda fora da organização, simplesmente.

"Você não vai sair", foi o que me disseram. Simplesmente. Naturalmente.

Prometi não contar nada do que eu sabia – que era muita coisa – e mesmo assim não me liberaram. Fiquei mais dois meses antes de partir para uma atitude mais ofensiva. Outro erro. Ameacei ir a polícia.

A partir desse momento eu soube que minha vida entrava em contagem regressiva.

Mas eu podia livrar minhas filhas disso. Liguei para a mãe e delas, e mesmo sem condições financeiras, ela iria acolhê-las.

De algum modo eles descobriram. Nunca os subestimem. Talvez eles tenham pensado que eu iria fugir, não sei. Eu não fugiria, apenas pouparia duas inocentes.

Agora Frank está na cozinha. Comendo o bolo que eu havia feito para o aniversário do Teddy, o ursinho grande e feio das meninas. Comemoraríamos antes da partida das duas para a América.

Ele nos deu algum tempo de despedida. Não que ele fosse generoso, ele apenas queria comer em paz.

E é nesses últimos minutos de vida que escrevo essa carta. Não quero livrar minha culpa, quero apenas contar para quem quer que esteja lendo o que pesa meu coração.

Minhas filhas morrerão pelas minhas mãos, pois Frank havia dito que se fosse ele a fazer o serviço, as torturaria até a morte. Não quero causar mais mal a elas.

Espero que quando chegarem do outro lado meus anjinhos possam me perdoar e me chamarem de pai sem nenhum ressentimento.

Alguém, por favor, diga a elas que eu as amo. Não consigo dizer. Não consigo parar de chorar.

Com o coração afundando e a garganta sufocando de tristeza, iremos sair para um passeio do qual nunca retornaremos.

Fechei os olhos me concentrando em qualquer outro assunto que não envolvesse a carta ou aquela família.

O senhor Nokada me entregou o laudo pericial e sai de lá na viatura da polícia.

- Os corpos ainda estão no IML? – perguntei.

- Um momento, Hyuuga-san.

Ele pegou o rádio da viatura e falou com alguém do outro lado da linha e desligou. Minutos depois a pessoa retornou.

- Os corpos irão ser enterrados, a pedido da mãe das meninas. A mulher está no Japão para acompanhar o enterro e dar depoimento. E a perícia vai averiguar a veracidade da carta e comparar a letra.

Por algum motivo eu sentia que o que estava naquela carta era verdadeiro.

No fim da tarde de sábado fui ao cemitério que me informaram os investigadores. Andei pelo campo verde entre as lápides.

Parei em frente as que eu procurava.

Acendi um incenso enquanto em minha cabeça vinha a imagem de uma menina sorridente dizendo "aonde vamos passear, papai?"

Pousei uma rosa branca no túmulo das duas meninas.

- Seu pai amava muito vocês. – eu disse baixo.

Aproximei-me da lápide do homem e deixei uma rosa vermelha.

- O senhor foi corajoso. Espero que tenha oportunidade de consertar seu erro.

A brisa gelada batia em meu rosto, deixando-o ainda mais pálido e alguns fios do meu cabelo entravam em minha boca e olhos.

Mão negra.

A partir daquele momento eu decidi pegar os culpados. Deixá-los apodrecendo numa cela de prisão, onde mereciam estar. Decidi com veemência. Como há anos, quando chovia e ventava forte e as trovoadas doíam em meus ouvidos e eu sentia falta dos braços que me envolviam, a cabeça que se apoiava levemente no topo da minha e os longos fios azuis claros que se amontoavam em meus ombros. Naquela noite chuvosa, quando o som de sua voz não entoava em meus ouvidos, eu decidi. Decidi procurar minha mãe.

Naquela ocasião, agi tarde demais. Quando fui procurá-la ela já havia morrido. Dessa vez eu não hesitaria. Ninguém mais morreria em nome da organização Mão negra.

N.A.: Aí está o extra tapa buraco ^^ eu gostei bastante desse pq além de ter uma palhinha sobre ciência forense (minha área, afinal faço parte da liga de medicina legal xD) tem um POV da Hinata *-* acho que é o primeiro extra que eu faço dela.
Espero que gostem ^^
O próximo cap deve sair semana que vem...