N.A.: Desculpem os erros, são 3h da madrugada xD

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Cap. 13 – Motivos e motivações

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Hinata andava o mais depressa possível, queria correr, mas não era apropriado. Passava pelas pessoas e as cumprimentavam apenas com um aceno da cabeça. Chegando ao local onde devia esperar, se sentou ainda com a conversa que tivera horas antes com Tsunade na cabeça.

"Seu pai vai ser indiciado."

"Mas isso não pode ser verdade... Como seria possível..."

"Eu não sei, ainda estamos verificando muita coisa do que Naruto falou. Mas, de qualquer jeito, seu pai terá que se explicar para o juiz..."

A porta foi aberta, tirando-a de seus devaneios. Por ela passou Naruto seguido de um policial, que algemou o loiro a mesa e se retirou. Hinata olhou para frente. Seu olhar passou pelo rapaz e se deteve na grande janela de vidro atrás dele, de onde a Hyuuga via Yumi, sua assistente, observando-os atenta.

Hinata se mexeu inquieta. Ela sabia que isso era máximo de privacidade que conseguiriam naquela situação. Eles seriam vigiados, mas pelo menos não seriam ouvidos. Poderiam ter alguma liberdade para conversar, embora o clima de tensão não ajudasse em nada.

A jovem voltou o olhar para a mesa onde apoiava as mãos rapidamente sem prender seu olhar a ele. Eles não se encaravam há muito tempo.

- Soube que acusou meu pai ontem... – ela começou a dizer sem saber exatamente o que falar – Meu pai não tem nada a ver com vocês.

- Eu não inventei isso. – ele respondeu simplesmente.

- Isso é um absurdo – ela irritou-se, mas logo recompôs o tom de voz – não pode ser verdade.

- Mas é. Há muito tempo, Hyuuga Hisashi vendia armas sem registro, ou seja, ilegais, e Orochimaru era um bom comprador. Na época, Orochimaru não era chefe de uma organização, mas isso era somente uma questão de tempo, qualquer idiota podia perceber isso.

- Você não tem como provar isso.

- Tem razão. Então por que você veio aqui se você sabe que eu não tenho como prova o que eu disse?

Ela não respondeu.

- Meu pai não é um criminoso – Hinata respondeu convicta. Hisashi poderia ser rude, mas não significava que ele era um criminoso.

- Seu pai não é tão santo como você imagina.

Hinata levantou a cabeça e seu olhar encontrou o de Naruto, depois de dias evitando esse contato.

- Seu pai acabou com a vida do meu pai – disse entre dentes.

Ela arregalou os olhos num primeiro momento, mas logo voltou a sua expressão descrente.

- Você tem idéia do quão absurdo isso soa para mim? – ela falou tendo sua atenção voltada para as próprias mãos.

- Eu vou te contar uma história. – ele falava baixo e sua boca mal se movia – Você acredita nela se você quiser.

Inspirou profundamente.

- Ao contrário de você, eu sempre estivesse par da vida e dos negócios dos meus pais – ele começou a dizer de cabeça baixa e seu tom não era acusador nem de crítica.

Nossos pais se conheceram no colegial, logo os quatro se tornaram bons amigos. Na época a empresa criada pelo seu bisavô, crescia cada vez mais. E o mesmo acontecia com a concorrente, que era a empresa da minha família, mas isso não impedia nossos pais de serem amigos. Você sabia que eles haviam sido amigos?

- Sabia. – ela respondeu com a voz mais rouca do que gostaria. Sim, ela sabia desse fato, embora tenha precisado da ajuda de Neji para lembrá-la.

Ele pigarreou antes de pensar em como continuar a história.

- As duas empresas cresceram e a concorrência era cada vez maior, mas ainda sim, todos eram amigos. As crianças são tão inocentes, não acha?

Ele riu e ambos levantaram a cabeças, trocando olhares por meros segundos, mas a Hyuuga teve certeza de que viu nos olhos dele a mesma inocência de muito tempo, de quando ainda estavam jantando e se conhecendo.

- Anos depois meus pais se apaixonaram, casaram e eu nasci. E um ano depois foi a vez dos seus pais... Parece que foi um casamento arranjado...

Sim. Ele estava certo mais uma vez. A mãe e o pai eram primos e tiveram o casamento arranjado para seguirem com o negócio de família. Mas Hinata tinha certeza de que Hisashi fora mesmo apaixonado pela prima. O casamento significou mais para ele do que simplesmente negócios. O pai nunca deu indícios disso, mas era uma suspeita que a Hyuuga trazia no coração e apostaria tudo o que tinha nela.

O olhar da morena vagou pela sala até se deter no próprio reflexo, no vidro atrás de Naruto. O cabelo azulado estava preso num rabo de cavalo com a franja lhe caindo nos olhos brancos, vidrados na própria imagem, o rosto oval e boca pequena e rosada. Tudo nela lembrava a mãe. Nesse mesmo instante, pensou no pai. No sofrimento que ele deve ter passado quando fora abandonado pela mulher que amava. No sofrimento que ele deve ter tido ao olhar para a filha, todos os dias, e ver nela a imagem da mulher que partiu seu coração.

Hinata voltou a abaixar o olhar enquanto ouvia o rapaz a sua frente, tendo em mente que, talvez, sofrer em silêncio seja uma característica Hyuuga.

- O país entrou em crise econômica e o setor bélico começou a lucrar menos com o fim das guerras. O jeito foi fundir as duas empresas. Mas nossos pais divergiam muito de opiniões e então acabavam discutindo e a amizade foi esfriando cada vez mais.

Hinata, então, se lembrou do homem loiro que costumava ir a sua casa quando era pequena. Mas o máximo de que se lembrava era que ele costumava apertar suas bochechas, era muito nova para se lembrar de alguma coisa, o que a fez perceber que Naruto também era muito novo na época, já que tinham quase a mesma idade e a fez pensar em como o rapaz a sua frente sabia tanto, ao passo que ela, mesmo envolvida na história, não sabia de muitos detalhes.

- Se nossos pais continuassem amigos, nós poderíamos ter crescido juntos. – ele continuou – Acho que isso teria evitado muitos problemas.

O rapaz ficou calado por longos minutos, o que fez com que Hinata levantasse a cabeça para observá-lo. Ele mantinha a cabeça abaixada e quando recomeçou a falar, seu tom era mais sério que nunca:

- Eles continuavam a se desentender, mas o pior veio alguns anos depois. Com o número de consumidores baixo, seu pai começou a vender armas sem registro. Uma arma sem registro significa que ela não existe, não tem dono, qualquer um pode fazer o que quiser que ninguém vai saber.

- Como isso pode ser verdade? É uma empresa grande com serviços terceirizados, meu pai é apenas um dos administradores. Ele não pode simplesmente vender uma arma pronta...

- Mas pode repassar as peças para uma montadora clandestina.

Hinata bufou indignada. Não gostava de ver a imagem do seu pai sendo denegrida, mas simplesmente não vinham palavras à sua cabeça para argumentar.

- Meu pai descobriu e os dois discutiram. Eu ouvi metade da conversa, até uma ameaça de morte, minha mãe me impediu de continuar ouvindo, mas foi o bastante para eu ter certeza de que foi a pior briga que eles já tiveram. – ele deu uma longa pausa e continuou – Dias depois meus pais foram mortos quando saiam de um restaurante. A policia nunca encontrou o culpado... mas não é preciso ser muito inteligente para descobrir quem foi...

- O que está insinuando?

- Que Hisashi mandou assassinar meus pais.

- Você não tem idéia de como meu pai ficou triste quando Minato-san morreu.

Naruto levantou a cabeça surpreso. Não sabia que a pequena se lembrava de seu pai. Mas não deixou que esse pequeno detalhe o desviasse do assunto.

- A culpa corrói, Hinata. – ele disse prontamente, certo de suas palavras, pois sentira o quão destrutivo a culpa poderia ser.

- Você não pode sair acusando as pessoas sem provas...

- Eu dou a história e vocês, as provas.

Meu pai morreu antes de mudar o testamento. Meu pai tinha medo de que algo acontecesse a ele, então, no testamento, ele deixa minha guarda e meus bens sob os cuidados de Hisashi até que fizesse 21 anos.

Hisashi me deixou com meu padrinho e ficou com a parte da empresa que me cabia. Isso tudo é prova suficiente para mim.

Hinata mantinha a expressão vazia, queria gritar, xingar, mas as palavras não saíam, a mente não pensava. Não sabia o que dizer, só sabia que deveria sair o mais depressa possível dali. Levantou-se, mas a voz firme de Naruto pediu que ela permanecesse sentada.

- Tem algo que preciso lhe contar. – ele falou com a mesma expressão séria de antes.

Ela não sabe porquê, mas obedeceu.

- Preciso lhe contar como eu conheci você.

Nesse momento seus olhos arregalaram e ela se sentiu confusa. Até onde sabia, ambos haviam se conhecido na boate, meses atrás.

- Eu era um garoto idiota e impulsivo na época que meus pais morreram. Tinha 15 anos, não tinha bom-senso e estava magoado. Eu queria vingança. Conheci Orochimaru no enterro dos meus pais e me aliei a ele. Eu não tinha um plano, mas sabia que se quisesse atingir Hisashi eu teria que pegar o que era mais precioso para ele, suas filhas.

Passei a observar sua casa.

Descartei logo sua irmã, Hanabi era apenas uma criança. Mas a partir do momento em que pus os olhos em você eu me dividi em dois. Foi instantâneo. Uma metade de mim ansiava por vingança. A outra se apaixonou por você.

Uma parte de mim a observava minuciosamente procurando um jeito de machucá-la e assim atingir seu pai. Fazê-lo perder um ente querido parecia um jeito razoável de fazê-lo sentir o que mesmo que eu senti. Mas... A outra parte adorava ver você sorrir sozinha. Adorava ouvi-la murmurar canção para si mesma no ponto de ônibus. Ria toda vez que você tropeçava no mesmo desnível da Rua 56. Emburrava toda vez que via você mimar a irmã mais nova. Odiava ver o jeito que você se minimizava perante seu primo.

Desde o incidente com meus pais eu passei a observá-la. Sempre atrás de você como uma sombra doentia e obsessiva. E você? Você nunca notou. Eu nunca tentei me aproximar... Por medo, talvez.

Pensei que esse meu amor infantil e imaturo sumiria com o tempo, mas me enganei.

Hinata sentiu o coração enlouquecer dentro do peito, mas tinha que ignorá-lo se quisesse prestar atenção no que o loiro dizia.

- C c-omo... – ela gaguejou sem continuar a frase. E agradeceu mentalmente quando Naruto recomeçou a falar.

- Não demorou muito e eu percebi que tinha feito bobeira. Não sei onde eu estava com a cabeça para entrar em uma organização criminosa e, meu pai, onde quer que ele esteja, deve estar muito desapontado comigo. Mas estava feito, não tinha mais volta.

Meu padrinho e eu sumimos por um tempo e logo depois eu fui estudar na Europa. Tudo como desculpa para fugir de Orochimaru.

Mas eu voltaria e ele sabia disso. Eu não tenho família para ele ameaçar, mas tenho você. Eu tinha que voltar e tentar consertar a situação, mas cada vez ficava mais difícil. E ainda tinha que provar a culpa do seu pai... Tinha que proteger você... Orochimaru me tinha nas mãos. Eu tinha que obedecer. Por você.

Hinata apoiou as mãos na cabeça e os cotovelos na mesa, jogando sobre os ombros toda a tensão que sentia e o peso que pairava no ar, derrotada. Não sabia como agir ou o que pensar. Não conseguia ignorar a situação, não conseguia acalmar os sentimentos. Era passiva demais, e isso sempre a fez odiar a si mesma.

Não conseguia gritar e assim correr o risco de magoá-lo. Não conseguia chorar e assim se mostrar vulnerável.

- V-você espera que eu agradeça? – ela gaguejou, começando a falar, mesmo que soubesse que não deveria fazer isso.

Ele não respondeu.

- Com que direito você acha que pode entrar na minha vida e tirar minha paz? – ela não gritava, mas suas palavras cortavam como navalhas. – Você é egoísta. Nada do que você fez foi pensando em mim. Foi pensando em você... Na sua dor, na sua culpa.

- Não. Eu errei uma vez, mas continuei no erro para proteger você... – ele começou a dizer, mas calou-se quando ela levantou a voz.

- CALE A BOCA! Isso tudo começou porque era um garoto mesquinho.

- Eu já pedi desculpa...

- FICA QUIETO! – ela levantou a cabeça para encará-lo, deixando a mostra os olhos vermelhos pelas lágrimas que tentava insistentemente segurar. – Você só está me usando como desculpa para poder dormir com a consciência tranqüila a noite.

- DO QUE VOCÊ ESTÁ FALANDO?

Ela soltou um muxoxo irritado e fungou.

- EU SEI O QUE EU FIZ E NÃO PRECISO QUE NINGUÉM FIQUE ME ACUSANDO.

Hinata bagunçou os próprios cabelos e olhos para os cantos desnorteada. Tinha um bolo na garganta do qual não conseguia se livrar. Era dúvida se misturando com um crescente desespero. Dúvida porque não sabia se acreditava em Naruto e desespero porque se acreditasse em Naruto, estaria acusando a seu pai, e vendo seu pilar da família – já balançado – desmoronar de vez.

As presenças que a acalmavam não estavam disponíveis. Uma já havia partido há muito tempo, que era sua mãe. A outra estava em frente a ela, tão perdido quanto a própria.

- Você tem razão – disse a jovem, por fim, tentando se recompor. – Eu não tenho porque ficar aqui.

A morena se levantou rápida como uma bala e pôs-se para fora da sala.

O loiro sentiu os olhos arderem e apertou-os com força. E esperou pelo que pareceu horas para que alguém o tirasse dali ou que ela voltasse.

Ibiki entrou na sala com a cara não muito amigável. Naruto o encarou, mas não tinha ânimo para provocá-lo.

- Preciso saber como é a relação entre Hyuuga Hisashi e Orochimaru. Eles eram aliados?

- Não. – respondeu o loiro sem vontade – O Hyuuga era chantageado. Orochimaru tinha Hinata na mira, qualquer passo em falso do velho, já era...

- Hinata é uma policial, ela perceberia algo estranho...

- Um motivo a mais para Orochimaru tê-la na mira. Se o Hyuuga não colaborasse, ele iria ficar sem sua filhinha e o mundo com um policial a menos.

- Quem a vigiava?

- O porteiro do prédio dela. Além, claro, de Orochimaru ter muitos informantes.

Naruto encostou a cabeça no encosto da cadeira e encarou o teto.

- Sabe... – ele disse, chamando a atenção para si – Eu não gosto do Hisashi, mas tenho pena dele. Orochimaru o ligava sempre, colocando ao fundo uma voz de mulher gritando e dizendo que estavam com Hinata ou então que ela seria a próxima. Ouvir ameaças de tortura para sua filha todas as noites não deve ser muito agradável, não sei como o velho não enlouqueceu ou algo do tipo.

Depois Naruto foi levado de volta a cela tendo em mente que as coisas podiam ter caminhado melhores, e apesar do resultado, estava aliviado de ter contado sua história. Agora, pelo menos, não estava escondendo nada dela.