Cap. 14 – O bar
Seus dedos batiam nervosamente no volante, sua perna quase quicava de vontade que pisar fundo no acelerador e seguir em frente, sem rumo, até a gasolina acabasse. Tendo em mente que seria procurada por escapar com um carro de propriedade do governo, desistiu da idéia.
Buzinou duas vezes rapidamente e desprendeu o cabelo do rabo de cavalo que usava, fazendo com que as longas madeixas escuras balançassem de um lado para o outro.
Hinata bufou e o semáforo abriu no mesmo instante, como se todo o tempo apenas esperasse um sinal vindo dela, como se estivesse apenas se divertindo testando a paciência dela.
Hoje, definitivamente, não era um bom dia para a hyuuga. Estava dividida, sem saber onde depositar sua confiança e acima de tudo, estava nervosa. Nervosa por estar nessa situação, nervosa por não saber como agir, nervosa com o inverno, que a deixava sempre com a vontade de ter certo corpo esquentando o seu e frustrada por saber que essa é uma realidade distante.
Algumas palavras que Naruto dissera mais cedo vinham brincar com seus pensamentos e mexer com suas emoções, fazendo-a se esforçar ao máximo para reprimi-las.
Por que descontara todas suas frustrações nele? Não acreditar na história dele era uma coisa, mas dizer o que ela havia dito era outra. Gritar com ele aliviara momentaneamente seu espírito, mas agora via que fazê-lo se sentir pior não era justo, não deixara a ela em paz e muito menos ele.
Com a culpa pesando em seus ombros que Hinata sentiu uma lágrima escorrer pelo canto do olho direito.
Passou a mão rapidamente pelo rosto para evitar que mais lágrimas viessem.
- Burra! – xingou a si mesma.
Hinata sabia que deveria voltar e pedir desculpas, afinal não queria que ele se entristecesse. Mas o corpo simplesmente não obedecia. Sua força de vontade parecia tão mísera que nem o próprio corpo se dispôs a responder.
"Se o próximo sinal estiver fechado, eu volto e peço desculpas".
O sinal estava aberto.
"Se algum pedestre atravessar correndo, eu volto".
Ninguém se moveu na calçada.
Depois que todos os seus "se" não deram certo, Hinata decidiu ir para casa. No dia seguinte falaria com ele. Ou, quem sabe, num próximo dia.
Continuou seu caminho com o mau humor estampado na testa.
Hoje, definitivamente, não era um bom dia para ela.
Hinata entrou em casa decidida a ir para o quarto sem falar com ninguém, mas quando passou pela soleira da porta da cozinha, ouviu vozes e imediatamente soube que seu plano falhara antes mesmo de ter sido colocado em prática.
Quando passou para a sala sentiu-se ser abraçada e não precisou se virar para saber que era sua amiga Sakura.
- Quanto tempo eu não te vejo – reclamou a amiga – você não manda um sinal de vida.
- Eu estive muito ocupada ultimamente, Sakura-chan. – respondeu reconhecendo o exagero da amiga, estiveram juntas há algumas semanas.
- Liga não – Hanabi se intrometeu na conversa – a nee-san está meio morta depois que aquele Naruto foi embora.
Sakura desviou o olhar da Hyuuga menor e o depositou na mais velha. Seu olhar era uma mistura de acusação, frustração e compaixão, o que fez com que Hinata se sentisse incomodada e irritada ao mesmo tempo.
- Vou tomar banho – anunciou a policial.
Seguiu para a suíte em que dormia, vendo Sakura ter sua atenção tomada pela Hyuuga mais nova, que recomeçara a tagarelar.
Tomou um banho quente e demorado para relaxar o corpo, vestiu um agasalho e quando saiu do banheiro, viu Sakura sentada em sua cama a encarando com uma expressão incógnita. Hinata não sabia se o que viria a seguir era uma bronca ou um abraço.
- Por que você está tão desanimada, Hinata?
- Impressão sua. – mentiu a Hyuuga – Eu sou assim mesmo.
- Talvez isso convença outras pessoas, mas eu sou sua amiga, esqueceu?
- Não aconteceu nada.
- Tudo bem. – Sakura disse prensando os lábios enquanto pensava em outra abordagem para usar com a amiga – Olha se você falhou na missão e deixou o tal Naruto escapar, não se repreenda, isso acontece às vezes.
- Naruto foi preso, mas a missão foi um fracasso.
- Como assim?
Hinata demorou tanto a responder que Sakura voltou a falar:
- Tudo bem, eu sou civil agora, você não pode me contar sobre seu trabalho. Mas se objetivo era prendê-lo e você conseguiu, não vejo onde há uma falha... A não ser que... – Sakura arregalou os olhos e concluiu seu pensamento lentamente – você... tenha... se... apaixonado... por... ele.
- Não. – Hinata estava muito rubra – Eu não diria estar apaixonada.
- Não acredito... Hinata a regra número um de todo espião é não se apaixonar.
- Isso não é algo que possamos controlar... Você sabe muito bem disso, largou sua vida por causa do Sasuke-kun.
- Tem razão... Mas eu não quero ver você desistir da sua profissão também e, acima de tudo, não quero ver você sofrer por uma relação que não vai dar certo...
- Ele não é uma pessoa ruim e está arrependido.
- Como você pode ter certeza? Ele pode estar mentindo.
Hinata se jogou de costas na cama e encarou o teto.
- A culpa foi minha. – Sakura disse imitando o movimento da morena – Eu que troquei nossas missões. Desculpe por meter você nisso.
Sakura estava certa, a culpa era dela. Mas Hinata não conseguia culpá-la. Por mais que sua vida esteja uma confusão agora, a morena tinha certeza que os últimos meses na companhia de Naruto haviam sido únicos e importantes na sua, então pacata, vida. Passaria por toda essa confusão novamente, se fosse para tê-lo, mesmo que por pouco tempo.
O certo seria agradecer a moça de cabelos róseos.
No segundo seguinte, Hinata esqueceu o mau humor que estava e começou a rir junto à amiga. Elas não sabiam como nem porque estavam rindo, mas isso trouxe um alívio para a tão cansada, Hyuuga.
- O bolo que eu fiz está pronto! – Hanabi gritou da cozinha.
Ambas caminharam até lá e deram de frente com a Hyuuga menor quase quicando de expectativa. E quando Hanabi retirou o bolo do forno, sua cara de decepção foi tamanha que deixou as duas moças com dó da pequena.
- Parece que o bolo "solou" – Sakura falou pegado o tabuleiro com uma luva e colocando na mesa.
- Você colocou fermentou, Hanabi?
A pequena deu um tapa na própria testa e todas entenderam onde ela havia errado.
- Eu nunca vou aprender a fazer isso. – reclamou a moreninha.
- Claro que vai. Vamos comer, parece estar gostoso.
A pequena encarou a irmã mais velha como se ela fosse louca. E constatou isso vendo a irmã morder um pedaço do bolo.
- Está "comível".
- "Comível" não é exatamente um elogio, nee-san. – respondeu revirando os olhos, mas acabou rindo e se servindo como as outras duas.
Conversaram sobre várias coisas até que o assunto se deteve em casamento.
- Eu já vi o vestido – Sakura ia dizendo animada.
- Mas seu casamento não é só no outono, Sakura-chan?
- É, mas eu não consigo me segurar de animação. - isso era claramente visível, mesmo que Sakura não dissesse. – E você Hanabi-chan? Vai casar com seu namorado?
- Ah não.
Hinata olhou surpresa para a irmã. Até onde sabia, o plano de Hanabi era se casar.
- Mudei de idéia. – respondeu a mais nova – Eu não preciso me casar por causa do bebê. Além do mais, Konohamaru e eu brigamos muito, é melhor não insistir ou nossa amizade vai acabar e vamos acabar nos odiando.
- Você está certa. – Sakura disse séria – Casamento é uma coisa importante.
Hinata olhou para a irmã como se reparasse nela pela primeira vez desde que ela veio de Chiba. Ela não fazia idéia de quando Hanabi começou a repensar seus planos e de como a pequena chegou a essa conclusão. E sozinha. Hanabi era mimada e não fazia nada sozinha, mas agora parecia diferente, talvez tenha amadurecido um pouco. E Hinata estava alheia demais nos próprios problemas para reparar em alguma coisa.
Estava orgulhosa da irmã, mas desaprovava a si mesma. Talvez Hanabi tenha precisado dela nesses últimos meses mais do que em toda a vida e Hinata simplesmente não percebeu.
- Mas... Você vai terminar com seu namorado? – perguntou a rosada, fazendo com que ambas as Hyuugas saíssem de seus devaneios.
- Acho que não vou precisar. – respondeu com um sorriso amarelo – Eu tenho a sensação de que ele vai voltar para a Chiba. Acho que estudar, trabalhar e ficar longe da família está cansando demais ele.
Hinata permaneceu quieta o restante da conversa, enquanto Sakura fazia perguntas e dava conselhos a Hanabi. Horas depois, Sasuke veio buscar a noiva, deixando apenas as duas Hyuugas sentadas no sofá com o cansaço pesando sobre os ombros.
- Fiquei com orgulho de você hoje. – disse a mais velha sentando-se próxima a irmã – Está começando a usar a cabeça – atrapalhou o cabelo da irmã sorrindo e fazendo com que a pequena sorrisse também.
- Pára nee-san... Eu sempre usei a cabeça, não se esqueça que minhas notas sempre foram melhores que a sua.
- Por isso você é o orgulho Hyuuga.
- Era, nee-san. Eu passei de orgulho a decepção no instante que papai soube da minha gravidez. Ele disse que estraguei um futuro brilhante e blá blá blá...
- Papai diz coisas cruéis às vezes, mas ele só quer nosso bem. – a mais velha disse com um meio sorriso – Além do mais, Neji é mais inteligente que eu e você juntas – brincou.
- Tem razão. Sabe, se "meu futuro brilhante" for herdar a empresa, eu não ligo de tê-lo estragado. Não gosto daquela empresa.
- Nem eu!
A duas sorriram cúmplices. Se o pai as ouvisse falando isso ele teria um infarto.
- Tem notícias de Chiba? – perguntou a mais velha casualmente.
- Falei com o Neji hoje mais cedo, ele disse que tudo está bem e que papai teve uma viagem urgente de negócios.
Um barulho a porta indicou que Konohamaru havia chegado. Cumprimentou-as com desânimo e foi para o quarto que dividia com Hanabi.
- Vou esquentar o jantar para ele antes que ele comece a reclamar. – a pequena disse e se dirigiu à cozinha e depois murmurou um "é por pouco tempo" para a irmã.
Hinata observou a irmã se retirar e lhe veio à memória Naruto quando implicava com Hanabi. Ele tinha razão, ela parecia um balãocom aquela barriga inchada aparecendo sob a blusa.
Pegou-se sorrindo e decidiu ir deitar. Pelo menos dormindo não pensaria em Naruto.
Quando passava pelo corredor para entrar em seu quarto, a morena viu a porta do "escritório" aberta e a luz acesa. Pensando que Hanabi poderia ter ido até ali pegar um livro para ler e se distrair, a jovem foi até lá para fechar a porta. E assim que passou pela soleira, viu o computador ligado e papéis de bala e biscoito na mesa. Era a cara de Hanabi usar as coisas e deixar tudo ligado e jogado. Hinata bufou irritada e foi arrumar a pequena bagunça da irmã folgada.
Encarou a tela do computador se perguntando quando fora a última vez que estava enfurnada nesse escritório. Fora há alguns meses quando preenchia uns relatórios da outra agente que estava de licença, antes de Sakura trocar suas missões e antes de conhecer Naruto.
Lembrou-se da noite em que o conhecera e riu sabendo que nunca imaginaria que pensaria no rapaz loiro todas as noites desde então.
Agitou a cabeça de lado para o outro quando se deu conta que encarava vidradamente a tela do aparelho, mas antes de desligar-lo, Hinata decidiu voltar a uma antiga atividade sua que não vinha fazendo ultimamente: vigiar Naruto.
Pouco tempo depois de terem se conhecido, Hinata instalou um microchip no celular de Naruto, onde podia localizá-lo sempre que quisesse. Mas desde que o loiro havia sido preso, isso se mostrou inútil.
Celulares não são permitidos na prisão, então o lugar mais provável que o aparelho deveria mostra era a casa de Naruto. Mas não era isso que o aparelho indicava.
A luz vermelha que piscava incansavelmente indicava um lugar que Naruto freqüentava muito, na época em que o conheceu. Pouco a pouco ele foi abandonando o lugar. Tudo isso havia sido registrado pelo GPS e lido pela Hyuuga.
Hinata acomodou-se na cadeira e procurou se concentrar. A resposta mais provável era que alguém estivesse com o celular dele e esse alguém pertencia à mão negra, era impossível ser outra pessoa já que Naruto não tinha amigos nem parente na cidade.
Seu bom senso a dizia para ficar em casa, seu corpo se recusava a se mexer, mas sua inquietação não a deixava em paz. A jovem levantou bruscamente e saiu apressada. Tinha que, pelo menos, ver como era o lugar.
O pensamento de que poderia não ser nada, apenas alguém comum que achou o celular e está andando com ele por aí passou pela sua cabeça, passou rápido, como uma esperança que a qual ela não conseguiu se agarrar.
Pegou o casaco e sai apressada de casa.
Se aquela era a chance dela descobrir onde Orochimaru estava e acabar de vez com essa história, então ela iria até o fim. Por mais trêmula que estivesse, por mais vacilante que suas passadas fossem.
O Táxi parou no lugar indicado e ela apertou nervosamente o celular em sua mão. Poderia ligar e chamar alguém, mas se desse um alarme falso, Tsunade ficaria uma fera.
"Só olhar, Hinata", pensava enquanto adentrava o lugar, que parecia ser um bar velho, mal cuidado e mal freqüentado.
Entrou respirando fundo e empurrou a porta de madeira, que rangendo fez com que todos no lugar a observassem. De repente, hinata se sentiu mais exposta e acanhada que nunca em sua vida. Os homens a observavam sem pudor e sorriam mostrando seus dentes podres. As mulheres a observavam de cima a baixo, apenas esperando uma oportunidade para arrumar uma briga.
Ela tinha decido ir até o balcão e pedir algo para disfarçar, mas o ambiente nada amistoso a fez mudar de idéia. Seus pés pararam na metade do caminho, ela girou o corpo e saiu depressa sem dizer nada.
Já fora do bar, ela caminhou mais calmamente até a calçada. Apertou de leve e cintura e pode sentir o revolver por baixo do casaco antes de pegar o celular e ligar para um táxi. Estava em uma área perigosa da cidade e não era bom ficar perambulando por lá de noite.
Quando deu mais dois passos ouviu uma movimentação do lado do bar, correu e se escondeu atrás de um pequeno arbusto de Dama-da-noite que havia no prédio mal pintado ao lado do bar. Era um esconderijo idiota, mas estava escuro e a rua não era bem iluminada, com alguma sorte ninguém a veria.
Hinata respirou fundo e sentiu mais uma vez o revolver.
"É só achar algo suspeito e eu ligo para alguém imediatamente", pensava insistentemente.
Dois sujeitos passaram apressados e entraram em um dos carros parados na rua e saíram cantando pneu. Hinata não conseguiu ver como eram ou em que carro entraram, mas pode ver de onde eles haviam saído.
Foi até a lateral do bar olhando em todas as direções e com o coração quase saindo pela boca e sentindo ondas de choque por todo o corpo. Viu uma espécie de balcão, como aqueles que levam a porões em casas americanas. Encostou o ouvido devagar na madeira e ouviu vozes vindas de dentro.
Imediatamente pegou o celular e digitou qualquer número da discagem rápida.
- Manda...
Sua frase morreu na garganta e ela entrou em estupor. O coração dava batidas fortes e doloridas dentro do peito, sentia o sangue correr por todo o seu corpo, a respiração aumentava a medida que os olhos arregalavam. Sentiu um calafrio repentino e os músculos ficarem tensos enquanto encarava o homem a sua frente.
O celular soltou de sua mão e caiu na grama.
- Alô? Alguém aí? – a voz sai sonolenta pelo aparelho no viva-voz.
Instintivamente Hinata passou a mão por debaixo do casaco para puxar sua arma, mas antes que sua mão chegasse a encostar nela ouviu um "click" atrás de si.
- Eu não faria isso se fosse você – ouviu a voz masculina atrás de si dizer.
Levantou as mãos e naquele instante desistiu de tudo. Não valia a pena lutar por uma causa perdida, nem se agarrar a uma frágil esperança de que ficaria viva. Já não havia mais nada que ela pudesse fazer.
