Na.: Cuidado, melação is coming.
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Cap. 17 – Um fim e outro começo II
Quatro anos depois a cidade estava a mesma. As pessoas passavam apressadas pelas ruas, cumprimentando um ou outro conhecido rapidamente, mas logo voltam a seus afazeres.
O caminho que sempre fazia para o trabalho era o mesmo. O senhor barrigudo que sempre a cumprimentava e tentava convencê-la a comprar uma cesta de frutas também pouco mudara. E ela negava, como sempre fazia, sorrindo, com as mãos nos bolsos da calça e dizendo que estava atrasada.
Hinata consultou o relógio de pulso quando sua passagem foi permitida e a porta aberta.
Oito horas da manhã e o salão estavam agitado, com pessoas passando de um lado a outro carregadas de papéis e conversando apressadamente entre si. Algumas pessoas a cumprimentavam com um aceno de cabeça, que era respondido da mesma forma.
Parou em frente ao elevador e sentiu alguém parar atrás de si quando as portas do mesmo se abriram. Só quando entrou pode ver a pessoa de um ângulo melhor.
- Bom dia, Hyuuga-san. – disse a jovem assim que entrou no elevador junto com Hinata.
- Bom dia, Yumi. – Hinata respondeu educadamente sentindo o desconforto que familiar que a subida do elevador lhe causava – Sabe, pode me chamar de Hinata. Eu não sou mais sua chefe.
Sua antiga assistente confirmou com a cabeça e ainda mantendo a expressão séria continuou:
- Eu sei. Mas... Eu preferia que fosse – e percebendo que a outra não responderia, continuou – É difícil lidar com as missões e... eu não sei se consigo...
Hinata riu, colocando a mão no ombro da menina e deu um leve aperto, sorrindo sinceramente.
- Eu sei que você está preparada, Yumi... Só, só não se apaixone, ta legal?!
E sem dizer mais nada, deu as costas à antiga assistente e saiu pelo corredor que a levaria a seu destino.
Ainda sorrindo levemente parou em frente a porta de madeira onde um placa dizia CHEFIA. Lembrou-se de poucos anos atrás quando fora responsável por sua primeira missão de nível alto. Missão essa que a fez conhecer Naruto. Que a fez se apaixonar e quase estragar tudo. Na época, ela também estava insegura e assustada, assim como Yumi. Mas tinha plena confiança na ex-assistente.
Abriu a porta e foi imediatamente saudada pela secretária de Tsunade.
- Tsunade-sama está a sua espera – indicou a porta ao lado com a cabeça.
Assim que Hinata entrou viu o topo da cabeça loira da chefe em meio a pilhas de papéis. Pigarreou e a viu subir o rosto e a lançar um olhar cansado.
- Como vai, Hyuuga?
- Bem, Tsunade-sama. E você?
- Exausta. Não precisa ser tão formal, eu não sou mais sua chefe, lembra.
Hinata riu, se lembrando que havia feito esse mesmo comentário minutos antes.
- E agora é oficial – a loira pegou um envelope pardo de dentro de uma das gavetas e lhe esticou – Sua carta de desligamento.
A jovem pegou o envelope e sentou-se na cadeira a frente da mesa de Tsunade. Passou os olhos rapidamente pela carta e a assinou.
Agora era oficialmente uma ex-policial.
- Tem certeza sobre isso, Hinata?
- Não sei se é a coisa certa, mas é o que eu quero fazer. Os anos que passei aqui foram muito valiosos para mim, fiz coisas que nunca imaginei, cresci como pessoa e consegui provar a mim mesma que eu era capaz. – sorriu e encarou os olhos castanhos a sua frente com firmeza – Eu quero tentar ter uma vida agora.
- Uma vida com ele? Vocês ficaram anos sem se ver, talvez ele não te queira mais. Ou talvez, você apenas o queira retribuir por ele ter salvado sua vida... Não estou certa se isso é realmente um sentimento.
A mulher loira apoiou o queixo na mão e manteve os olhos fixos na pequena a sua frente, atenta a todos os movimentos da mesma, como se qualquer pequeno gesto fosse denunciar sua insegurança.
Hinata mordeu o lábio inferior, sentindo o olhar de raio x da ex-chefe sobre si. Tsunade a estava testando, ela sabia, e a Hyuuga não viu motivos para esconder seu receio. Estava insegura e com medo. Essas perguntas pairavam em sua cabeça há meses. Tinha medo de desistir de tudo para ficar com Naruto e se arrepender, sofria de saudade do loiro e não sabia o que faria caso o mesmo não a quisesse depois de solto. Não saber se ele ainda nutria algum sentimento por ela a estava matando.
A única certeza que tinha no meio daquele turbilhão de dúvidas era sobre seus sentimentos, guardadinhos bem fundo no peito e lhe aquecendo com uma pequena chama de esperança.
- Minha decisão está tomada, Tsunade-sama.
- Você pode ter um futuro brilhante aqui. Você completou as missões perfeitamente nesse meio tempo... Sua promoção ainda está de pé, posso mandar você para um período de experiência na CIA facilmente e então, sua carreira de agente internacional está feita...
- Não estou pronta para largar minha família e minha história por aqui. Passei muito tempo fugindo de mim mesma, Eu quero ser a Hinata agora.
A senhora de meia-idade, que sempre aparentava ser mais jovem do que realmente era, havia ganhado uma expressão cansada no rosto marcado pela falta de sono e linhas de preocupação. Os anos finalmente a estava alcançando. E então ela se viu impotente diante da firmeza da juventude. Aceitou aquelas palavras, como se discutir fosse muito exaustivo.
E então sorriu satisfeita, deixando o orgulho brilhar em seus olhos.
- Primeiro Sakura e agora, você. Esse tal de amor está me tirando todas as minhas agentes.
Despediram-se e tsunade apoiou o queixo nas mãos entrelaçadas, ponderando, pela primeira vez, que os anos acumulados não eram de todo ruim. Vira entrar pela aquela porta uma menina ingênua e hoje, despede-se de uma mulher.
Hinata saiu do escritório central a passos largos. Havia marcado de encontrar os amigos em menos de 10 minutos. Deu uma última olhada nostálgica no local antes de dar-lhe as costas para sempre.
As ruas do centro estavam, como sempre, cheias e o calor daquela manhã de verão estava começando a fazer seus lábios se fecharem numa expressão irritada. Quando finalmente viu o casal de amigos, começou a andar em direção a eles, recebendo esbarrões das pessoas que vinham na direção oposta.
- Sasuke-kun, só viemos comprar uma roupinha... Não precisa transformar isso numa missão impossível.
- Meu filho vai herdar minha empresa. Ele tem que ter presença, poder...
- Que tal esse?
- Meu herdeiro não vai usar roupas de bichinhos. Ouviu o que eu disse sobre poder?
Os dois estavam de costas para a rua e remexendo numa arara de roupas infantis. Hinata chegou por trás e antes de cumprimentar os amigos, reparou que a loja era cheia de bichos de pelúcia e brinquedinhos.
- Olá!
Sakura se virou sorrindo e uma brisa soprou, fazendo com que os fios cor de rosa agitassem levemente e depois voltassem a posição original, alinhados abaixo do ombro e emoldurando um rosto de pura felicidade.
- Hinata! Estávamos olhando algumas coisas antes de você chegar – a amiga abraçou-a do jeito que a enorme barriga de 8 meses a permitiu.
- Estou muito atrasada?
- Um pouco – Sasuke respondeu calmamente.
Hinata apenas sorriu como resposta os mesmo tempo em que o braço era entrelaçado pelo da amiga.
Caminhavam conversando trivialidades enquanto Sasuke seguia atrás com as mãos nos bolsos.
Quando sentaram a mesa em uma pequena cafeteria e fizeram seus pedidos, Sakura a encarou com curiosidade e finalmente perguntou:
- E então... Como foi com a chefe?
A morena suspirou e desviou a atenção para o teto.
- Foi... normal. Ela até tentou me convencer a ficar, mas eu estou decidida.
- Juro que eu não sei o que pensar...
- S-só me deseje boa sorte.
Sakura pegou a mão da amiga e puxou mais para perto fazendo com que a outra a olhasse.
- Isso eu sempre desejei – respondeu sinceramente.
- Obrigada.
Sakura soltou as mãos da morena e agradecia alegremente o garçom enquanto ele depositava os pedidos na mesa.
- E quando vamos conhecê-lo? Sasuke-kun e eu estamos ansiosos para conhecer o padrinho da nossa filha.
- Não sei se quero um ex-presidiário como padrinho do meu filho... – o Uchiha começou a falar, mas parou assim que recebeu uma cotovelada da mulher – Desculpe Hinata... Não foi o que eu quis dizer.
A moça sorriu amarelo e sacudiu a cabeça, indicando que estava tudo bem. Mas logo seus pensamentos migraram para Naruto, em como seria a vida dele depois de solto e se realmente ficariam juntos depois de tudo. Pensou que sempre as pessoas o veriam como um ex-presidiário, como alguém desonesto e que não merece confiança. Um pobre coitado que se perdeu no mundo. Quando a verdade passava longe de ser isso. A verdade era que ele a salvou quando parecia impossível, quando tudo parecia perdido. Primeiramente, quando a ensinou a viver e sair da inércia que a insegurança lhe causava e segundo quando a impedira de ser morta.
Hinata tomou um gole do mate gelado que pedira e colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha antes de perceber o olhar da amiga sobre si. E seu olhar dizia que também não confiava em Naruto.
Uma pontada de raiva surgiu em seu peito. Sakura sabia todos os detalhes da missão que Hinata recebera e sobre seu resgate. A amiga deveria apoiá-la com sinceridade e não tentar esconder a desconfiança que tinha em relação ao loiro.
A rosada abaixou os olhos com um misto de tristeza e arrependimento que soou para a Hyuuga como um pedido de desculpas. A morena então relaxou o semblante e suspirou.
Sakura estava apenas preocupada. Não podia culpá-la por isso.
Hinata então pensou que a ansiedade de Sakura para conhecer pessoalmente o loiro era apenas para aprová-lo, apenas para dar o "selo Sakura de qualidade." A jovem riu da própria piada idiota e deu uma mordida em seu sanduíche antes de responder Sasuke, que a perguntara sobre a empresa.
Os últimos anos não foram bons para a empresa Contti. Depois da condenação do pai, as ações da empresa caíram vertiginosamente, a casa e outros bens foram leiloados e eles tiveram que usar todo o dinheiro que tinham para pagar as multas que o pai recebeu. Mas mesmo com essa terrível recessão, um grupo de empresários russos comprou a Contti, a um preço muito barato, é verdade, mas Hinata, a irmã e o primo nunca foram sentimentalmente ligados a empresa. Com uma parte do dinheiro, conseguiram comprar um pequeno apartamento em Chiba para Hanabi e o filho, vizinho ao apartamento onde Neji decidira morar com a atual namorada, assim poderiam ficar sempre do olho nos dois.
Hinata abriu mão de sua parte na venda da empresa. Já possuía um lugar para morar e mesmo antes de sua saída da corporação ser oficializada já conseguira um emprego de segurança particular. Ela tinha meios para se manter enquanto a irmã estava apenas começando a vida adulta. Neji pouco mexera no dinheiro, deixando-o guardado no banco para quando a Hyuuga caçula precisasse. Desde que ficara provado que ele nada tinha a ver com o esquema de Hisashi e Orochimaru, ele conseguiu um emprego como administrador de um hospital em Chiba.
O telefone vibrou dentro do bolso, fazendo-a parar de falar no meio de uma frase para atendê-lo.
- Hyuuga-san, sinto muito em incomodá-la em sua folga, mas Akane sumiu de novo. Tori-san está procurando por todos os lugares, mas não a encontra. Tem algum lugar onde ela possa estar?
- Sem problemas, Sato-san. Eu posso dar uma olhada pelos lugares onde ela costuma ir e avisar Tori-san caso eu a encontre.
Quando se despediu do novo chefe e desligou o telefone, viu o canto da boca de Sakura cair, numa expressão de desapontamento.
- Você vai ter que trabalhar agora? – perguntou a rosada.
- Não. Mas ainda sim tenho que me despedir de vocês em poucos minutos.
Hinata sorriu matreira enquanto mexia no celular, agora apoiado na mesa. Sakura esticou o pescoço para ver melhor o que a outra estava fazendo.
- Você colocou um localizador na menina – disse em espanto.
- Se você trabalhasse para ela você me apoiaria.
- Velhos hábitos não mudam – riu, por fim.
- Vocês duas e suas manias esquisitas – Sasuke bufou ao lado da mulher e ela enganchou um braço no dele – Sakura me fez vigiar um cara por duas longas horas.
- E graças a você, eu descobri que o cara não tinha nada de suspeito e era apenas esquisito mesmo. As crianças de Tóquio te devem essa. Você daria um bom policial, Sasuke-kun.
Ele fez um barulho com a garganta e revirou os olhos.
- Não mesmo! E que bom que você também não é! – respondeu autoritário.
- Sabe, eu não sinto falta nenhum pouco de ficar horas no frio e com sono fazendo tocaia – Sakura disse depois de um tempo com uma sobrancelha erguida e a mão livre apoiada no queixo.
- Nem eu – Hinata coçou a cabeça pensativa – mas acho analisar conversa telefônica pior... É, com certeza é pior...
Depois de conversar mais um pouco e de ter enviado as coordenadas de Akane para o segurança particular responsável pela menina nesse dia, Hinata se despediu dos amigos e saiu da cafeteria, rumando para o estacionamento do shopping ao fim do quarteirão. Pegou o carro e com o coração aos pulos, dirigiu para oeste, saindo da cidade, e tendo somente o sol alto no horizonte e a terra batida como paisagens durante algum tempo.
Naruto não saberia dizer quantas pessoas estavam ali, mas ele sabia que eram muitas. O cara da cicatriz no queixo, o cara cego de um olho, o muambeiro, o cara legal que ele vivia esquecendo o nome, mas sabia que começava com V... Todos que ele se lembrava estavam ali.
Não fazia idéia de quantos tapas nas costas havia levado, perdera a conta quando o pensamento de que em poucas horas estaria livre lhe invadiu a mente.
Estava no centro de um aglomerado de pessoas, tendo Gaara ao seu lado lhe sussurrando os nomes dos companheiros que esquecera.
- É bom saber que um dos nossos está indo embora.
- Tentem não arranjar muita confusão quando eu não estiver mais aqui – Naruto riu.
- Impossível – respondeu o homem de tatuagem no pescoço a sua frente e então olhou de esguelha para um grupo de presos amontoados em outro lugar do pátio.
Afastou-se, rumando para a saída leste do pátio tendo seu nome chamado pelo grupo do qual saíra e Gaara ao seu lado revirando os olhos.
- Sinto não poder acompanhá-lo, mas eu ainda tenho alguns anos por aqui – disse o ruivo.
Naruto parou próximo ao portão puxando o amigo para um abraço rápido.
- Vou sentir sua falta, cara. – riu.
- Sei... – cruzou os braços, mas sua expressão era amena – Aposto que você vai ter muito mais coisas interessantes para fazer que se lembrar de mim.
- É sério, cara. Eu venho visitar você.
- Legal. Agora vai embora logo... Odeio despedidas.
Com um aperto de mão se despediram de vez. Naruto entrou pelos corredores e um dos guardas abriu o portão, indicando para onde ele deveria ir. Depois de andar mais um pouco e abrirem outro portão para ele, um dos guardas resolveu acompanhá-lo.
Quando chegaram à sala do diretor, o mesmo leu sua sentença e carta de soltura. Naruto a assinou com um alívio cada vez mais crescente no peito. Entregaram-lhe seus pertences em uma sacola e o rapaz rumou, acompanhado de dois guardas, para a saída.
A lentidão com que o portão era aberto apenas parecia aumentar sua ansiedade. E quando deu o primeiro passo rumo à liberdade, um sentimento de solidão o inundou completamente. Estava a quilômetros da civilização, sem um carro, sem dinheiro e sem esperança. De repetente, todo o significado que procurou dar a palavra liberdade durantes esses anos não fazia mais sentido.
- Boa sorte em sua caminhada, Naruto. – um dos guardas gritou do alto da guarita – Talvez você consiga chegar a Tóquio amanhã ou depois – completou, arrancando gargalhadas dos outros guardas.
Dirigiu um olhar carrancudo a eles e começou a caminhar. Afinal, estavam certos, seria uma longa caminhada.
Pensou em Hinata. No que a moça deveria estar fazendo, se saberia que ele havia sido solto. O coração falhou uma batida quando o pensamento de que, talvez, não a veria novamente lhe invadiu a mente.
Os pelos de seu corpo se eriçaram apesar o calor que fazia. O sentimento de angústia e confusão brincava consigo, fazendo o estômago revirar numa ânsia esquisita.
Diminuíra a freqüência com que pensava nela durante esses anos preso, mas, ela sempre estava presente em sua mente, mesmo que na forma de perguntas.
Seriam felizes juntos? Como seriam suas vidas agora se ela tivesse aceitado fugir com ele? O que sentia em relação a ela mudara? Como reagiria caso a visse de novo?
Jogou a bolsa sobre os ombros e colocou uma das mãos nos bolsos, continuando sua caminhada solitária, com os raios de sol queimando-lhe o rosto e ombros expostos. Repetir as mesmas perguntas sem respostas não adiantaria em nada, afinal.
Depois de quase um quilômetro de caminhada, algo na paisagem lhe chamou a atenção. Os arbustos secos e retorcidos e o chão de terra batida que lhe fizeram companhia durante o trajeto continuavam os mesmos. O horizonte também não mudara, os morros continuavam os mesmo, sempre inalcançáveis, lembrando a ele de que estava em um vale distante de tudo o que conhecia. Mas ao longe, podia ver algo que não conseguia dizer o que era. E a estrada de terra seguia, despreocupada e ziguezagueante, mostrando o caminho até o desconhecido.
Andou mais alguns minutos e fez sombra com as mãos sobre os olhos, o sol ardendo no alto atrapalhava sua visão. Soltou uma gargalhada quando percebeu que a coisa desconhecida era um carro, zombando da própria estupidez.
Naruto se aproximou mais e mais,estando a apenas alguns poucos metros de distância, ponderando sobre as probabilidades. Poderia ser alguém que pudesse ajudá-lo, como também poderia ser uma patrulha pronta para rir da cara dele. Soltou um muxoxo, chegando a conclusão de que não agüentaria mais piadinha sobre chegar a Tóquio a pé.
Seu olhar petrificou, um bolo se formou em sua garganta e mesmo que ele engolisse repetidas vezes a sensação não passava, seus músculos pararam de responder e ele percebeu que dar o próximo passo seria muito difícil. O coração acelerou, batendo fortemente no peito quando reparou, pela primeira vez, na moça encostada na porta do carona.
As duas mãos nos bolsos na calça jeans, tensionando o ombros. O olhar cabisbaixo fixado nas próprias botas parecia alheio a todo o resto. Os cabelos longos esvoaçando levemente com a brisa fina de verão. Era ela. Era Hinata.
A bolsa que carregava seus pertences caíra no chão sem que ele se desse conta do fato. No segundo seguinte, a moça estava o encarando, os dois olhares se encontraram, e como se fossem imãs, eles se atraíram, sem nada que os repelisse.
A sensação incômoda que sentia aumentou e a boca tremeu involuntariamente. Ele não sabia o que sentir ou o que pensar. Estava perdido em si mesmo, confuso. Então apenas observou sua pequena. Viu-a levantar e caminhar devagar em sua direção com os olhos tão confusos quanto os dele, com a tensão forçando-lhe o músculo da mandíbula.
Mas foi apenas quando a viu limpar o canto de um dos olhos e correr em sua direção que se sentiu plenamente livre. E então os músculos voltaram a lhe responder e ele pode abrir os braços para recebê-la. Com um baque, Hinata se encaixou em seu abraço, chorando copiosamente.
Nada foi dito durante longos minutos, a jovem apenas chorava e Naruto a abraçava mais forte.
Naquele instante, percebeu que Hinata expulsava para fora de si todo o choro que guardara durante anos, toda a angústia que escondia no peito e toda a tristeza que carregava em seus olhar, desde quando a conhecera. Chorava por tudo e por nada, em particular. E Naruto sorriu internamente, sendo a base que sempre quisera ser para ela, sendo seu protetor para quando estivesse fragilizada.
As lágrimas e os soluços diminuíram até cessar. O loiro afrouxou o abraço para dar a ela algum espaço, mas ela abaixou a cabeça, limpando o rosto com as mãos. Quando ela subiu o olhar, trazia um sorriso tímido nos lábios, o que fez Naruto alargar o sorriso que brincava aliviado em seus próprios lábios.
- Me desculpe – ela disse um pouco rouca.
Ele sacudiu a cabeça e observou todos os traços do rosto da pequena. Com o dedo indicador, acariciou lhe a ponta do nariz, a sobrancelha, os lábios e as maças do rosto, ainda vermelhas pelo choro. Segurando-a pela ponta do queixo, depositou um beijo terno em sua testa. O coração falhando várias batidas o impedia de respondeu algo com clareza, mas ainda sim, ele esperava que a mensagem fosse transmitida através daquele beijo. – Eu sempre vou estar aqui para você.
Encostou sua testa a dela e colocou as mãos dos dois lados da cabeça de Hinata, sentido os fios azulados se enroscarem entre seus dedos.
- Você... Você estava me esperando – disse óbvio, sorrindo debilmente.
- Sempre estive.
Naruto aproximou ainda mais seu rosto do dela, inspirando seu cheiro e sentindo a respiração da morena em sua face, causando-lhe arrepios agradáveis. Lentamente roçou seus lábios aos dela, brincando com lábio superior, inferior e o canto da boca da mesma. Ela abriu a boca o bastante para que ele encaixasse a dele e iniciaram um beijo apaixonado, repleto de saudade. O loiro desceu umas das mãos para a cintura da morena enquanto ela o envolvia pelo pescoço.
Estavam ofegantes quando se separaram. Naruto circundou a cintura de Hinata com os braços e a levantou, causando risadas aos dois.
Hinata sentia o aperto da mão de Naruto sobre a sua enquanto caminhavam até o carro, sentindo-se incômoda pela primeira vez desde então. Ele não parecia se incomodar com o silêncio com que faziam o pequeno percurso, mas ela começava a pensar que os quatro anos que se passaram poderiam ter acabado com a intimidade entre eles, pois ela simplesmente não sabia por onde começar a puxar assunto.
O loiro parecia totalmente alheio quanto a isso, pois quando entrou no carro e sentou-se no banco do carona e começou a procurar uma estação de rádio murmurando algo sobre sinal ruim e estar no fim do mundo. Hinata dirigia com cautela quando o rapaz desistiu de ligar o rádio e se aconchegou o melhor que podia no banco.
- Então... Temos quatro anos de assunto para colocar em dia – ele disse colocando um dos braços atrás da cabeça e observando a paisagem.
Hinata o olhou com o canto dos olhos e viu que ele parecia bem a vontade. Ele era o Naruto, afinal.
- Pode começar, se quiser. – ela respondeu.
- Ah! – ele fez uma careta – Minha história só tem homens feios... Aposto que sua história é bem melhor... Ah, se bem que foi bem legal quando me elegeram o chefe do grupo.
- Chefe do grupo?
- Sim. Eu e Gaara. Você precisa estar num grupo grande e forte se quiser sobreviver na prisão. Infelizmente é assim. Arrumamos algumas brigas, mas, pelo menos, ninguém mexia com a gente.
- Quem é Gaara? – ela perguntou interessada.
- Um amigo. Acredita que eu consegui fazer um amigo nessas condições?!
Ela acreditava. Isso soava tão tipicamente Naruto.
Em cerca de noventa minutos estavam chegando á entrada oeste de Tóquio. O loiro sentiu uma alegria imensa ao ver sinais de civilização de novo e um sentimento de nostalgia lhe bater quando passavam por ruas tão conhecidas por ele. De repente projetou seu corpo para frente exasperado.
- ESPERE! – gritou de repente.
A morena assustou-se e freio o carro instantaneamente, fazendo os corpos serem lançados a frente e segurados pelo cinto de segurança.
- O que houve! – sua pergunta saiu mais como um grito do que gostaria. Ela arregalou os olhos, olhando para todos os lados a procura do que estava errado.
- Voc... Como deixaram você me ver? Achei que você tivesse sido proibida de me ver – Ele tinha uma das sobrancelhas arqueadas e uma careta de desconfiança.
Hinata pousou a mão sobre o peito, tentando se acalmar e agradeceu mentalmente pela rua estar vazia. Deu a partida aliviada, mas o loiro ainda a observava com suspeita.
- Eu não trabalho mais na polícia. – respondeu sem hesitar.
- Demitiram você? Foi por minha causa?
- Não, não. Eu pedi para sair. Digamos que eu tinha outras perspectivas...
- Você quis sair por minha culpa, não é? Olha, não precisava. Eu posso me virar... Não precisar se sacrificar só para me ajudar...
- Não é por isso... Eu...
A frase de Hinata morreu nos lábios. Sentiu seu estômago afundar quando se lembrou de algo que ele dissera. "Eu te amo! Largaria tudo por você". Na ocasião, ela estava amarrada a uma cadeira e ele prestes a ser preso. A jovem não estava certa se o havia agradecido por todo o sentimento que ele dedicara a ela.
Ela apenas queria repetir aquelas palavras. Mas algo a impedia. A dúvida mexia com todo o seu ser. Não a dúvida quanto aos seus sentimentos, mas quanto a expressá-los, não podia simplesmente despejá-los em cima do rapaz depois de tanto tempo.
Haviam se beijado, mas isso não significava que ele ainda a amava.
- Eu ainda não tive a oportunidade de agradecer tudo o que você fez por mim.
O rapaz sentiu um aperto no peito e uma sensação gelada descer em seu interior. Algo dentro dele se quebrara, ele não estava certo sobre o que era, mas poderia chutar que fora sua esperança.
A jovem suspirou e mudou de assunto, falando sobre os bens dele que foram leiloados para pagar a multa que ele recebera e que as coisas que ela conseguira resgatar estavam no apartamento dela.
Naruto perguntou algo mais sobre seus pertences, mas não parecia realmente interessado na resposta. Fechou os olhos pensativo e só tornou a abri-los quando pararam em uma cafeteria para lancharem.
Conversaram trivialidades, mas o loiro parecera perder a animação inicial. Uma sombra de dúvida estava sempre presente em seu olhar e quando não estava falando, estava distraidamente encarando o lugar.
Já passavam das cinco horas quando chegaram ao apartamento de Hinata.
- Aqui estão as suas coisas... Ou parte delas – a moça disse assim que entrou em casa e atirou as chaves em cima da mesa de centro da sala.
Naruto pareceu acordar de um devaneio num susto e então olhou para onde a outra apontava. Carregou seus pertences até o quarto. Pegou roupas e toalha, que aparentavam ter sido recentemente lavada e tinham um cheiro gostoso de amaciante, e rumou para o banheiro da suíte de Hinata.
Somente quando a água morna começou a cair sobre seus ombros o rapaz teve noção do quanto sentira falta e ansiava por um bom banho. Passou o sabonete pelo corpo sentindo o cheiro delicado que o mesmo deixava em sua pele. Depois de lavar bem os cabelos com um shampoo onde se lia "para mulheres decidas e formosas" e ter esfregado novamente todo o corpo, Naruto pode se sentir realmente limpo pela primeira vez em quatro anos. Antes de sair do banho, deixou que a água batesse contra suas costas, levando parte da tensão dos ombros embora.
Estava se dirigindo para a sala quando a vista do quarto chamou sua atenção. Apoiou os braços no parapeito da janela, observando a agitação da rua lá fora e os grandes prédios que formavam a cidade.
Não queria pensar, mas foi inevitável que o fizesse. Queria apenas observar e sentir, estava exausto e de repente todo o cansaço resolveu acumular em suas costas. Queria apenas ficar inerte, assistindo de camarote a vida se desenrolar lá fora. Mas não era exatamente o que sua mente queria. Sua mente o fazia lembrar incessantemente do que Hinata dissera no carro.
"Eu ainda não tive a oportunidade de agradecer tudo o que você fez por mim", ela dissera despretensiosamente, mal sabendo o que tais palavras soariam a ele.
Gratidão. Era mesmo apenas isso que regia os sentimentos dela por ele? Se a resposta fosse positiva então o rapaz estaria vivendo uma mentira. Estaria apenas se enganando e atrapalhando a vida da única pessoa que ele queria bem.
Ouviu passos no corredor e a voz dela o chamar. Estremeceu. Ouvi-la chamando-o causava um choque elétrico por todo o seu corpo e uma vontade imensa de correr até ela e beijá-la até ficarem com falta de ar.
Naruto ergueu o olhar para o céu alaranjado que aos poucos ia ganhando uma coloração escura e respirou fundo. Ficar se remoendo em dúvidas não era típico dele. Teria que resolver essa situação e teria que ser agora.
Hinata havia chegado calmamente no quarto há alguns minutos e viu Naruto debruçado na janela. Um calor subiu ao peito quando encarou o contorno dele sob os fracos raios de sol que se despediam. O cabelo loiro parecia brilhar ainda mais. Essa era uma imagem que ela não cansaria de ver, poderia ficar horas e horas apenas o observando encarar o mar de gente e prédios, que era Tóquio.
Seu coração se aqueceu apenas imaginando como seria bom acordar com ele abraçado a si todas as manhãs. O nome dele escapou num sussurro, mas o mesmo não respondeu.
A moça encostou-se ao batente, observando. Passaram longos minutos apenas assim, em silêncio, submersos nos próprios pensamentos. Quando a voz, um pouco rouca e trêmula de Naruto, chamou sua atenção.
- Não precisa se esforçar tanto para me ajudar. Acredite, você já me agradeceu por ter salvado sua vida – ele deu uma pausa antes de continuar, encarando o sol poente no horizonte – conheço uma pensão aqui perto, chama Nau sem rumo, talvez me deixem ficar lá esse noite.
A Hyuuga não pode deixar de arregalar os olhos. Primeiro, pensou não ter ouvido muito bem, depois começou a imaginar motivos para a mudança repentina no humor do rapaz. E por último pensou que o que estava acontecendo era exatamente o que ela mais temia. Ele não queria ficar com ela.
O lábio tremeu e uma tristeza gélida fez seu coração se apertar tanto que chegava a doer.
- O que tem de errado com a minha casa? – perguntou temendo ouvir a resposta. Encostou-se ainda mais no batente da porta, como se a qualquer momento seu corpo fosse despencar.
A jovem olhou as malas que continha as roupas e os pertences de Naruto que ela havia conseguido recuperar antes dos bens do mesmo serem leiloados. Ela havia aberto um espaço no guarda-roupa para ele, mas as malas jaziam intocadas ao canto do quarto.
Naruto rangeu os dentes, mas não se virou.
O silêncio dele estava-a incomodando cada vez mais, fazendo com que o medo e o receio prevalecessem. Sentiu o conhecido bolo entalar na garganta, ao mesmo tempo em que vinha a vontade de chorar e o aperto no peito.
- Sua gratidão não me basta...
Ouviu-o dizendo e novamente pôs-se a observar seu contorno. O céu lá fora já estava num tom mais escuro, mas ainda sim, a silhueta de Naruto parecia brilhar. Com a luz própria que ela sabia que ele possuía. Estava ali, iluminando sua vida, completando-a como ninguém havia feito antes. Hinata esticou um dos braços, queria tocar aquela luz calorosa e radiante. Queria-a. Queria-o.
Deu um passo vacilante à frente.
Queria Naruto. E queria demais para deixá-lo ir embora.
Apressou os passos sem que se desse conta disso. Envolveu-o pela cintura e encostou a testa em suas costas.
- Não quero que você vá embora – sua voz vacilou, mas aos poucos a sensação de alívio tomava conta de si – Não quero que você vá para um lugar estúpido chamado Nau sem rumo. Quero que fique comigo... Para sempre. Eu te amo.
Apertou-o mais forte entre os braços e afundou o rosto nas costas dele. Estava aliviada e a sensação era tão boa que ela não temia mais nada. Nem a rejeição, nem o futuro.
Naruto desfez o abraço e virou para encará-la. Seu sorriso era tão bonito e sincero que a fez sorrir da mesma forma.
- Você está corada. – ele constatou, fazendo com que ela corasse ainda mais – Senti falta disso.
Naruto passou delicadamente o dedão sobre as bochechas vermelhas da jovem. Depositou novamente um beijo terno na testa dela.
- Eu também te amo – disse encarando-a firmemente.
Naruto beijou-a na ponta do nariz, roçou os lábios na bochecha dela, se dirigindo para a boca, prendendo seus lábios aos dela. Hinata entreabriu a boca, deixando que ele se encaixasse melhor ali.
O beijo começou tímido e aos poucos ficava mais urgente. Como se um temesse que a qualquer momento o outro fosse escapar, como se quisessem aproveitar cada segundo em que estavam ali, juntos finalmente.
Quando se separaram Naruto a envolveu num abraço apertado e a beijou no topo da cabeça. Aspirou o cheiro de shampoo que vinha dos fios azulados, se lembrando imediatamente de como ela ficava bonita dormindo com os cabelos esparramados no travesseiro depois de terem feito amor. Roçou o nariz no pescoço dela, sentindo um cheiro gostoso de colônia que não sabia que ela usava.
Hinata deixou escapar um suspiro e riu do próprio deslize, fazendo com que o outro ficasse com um sorriso maroto nos lábios.
Beijaram-se novamente, ávidos, como se o corpo automaticamente se lembrasse da intimidade que existira entre eles.
Hinata se prendia a Naruto com uma das mãos no pescoço dele. Tinha medo de que se soltassem pudesse cair tamanha era a moleza nas pernas. Com a mão livre, passeava pelo tórax e abdômen do rapaz, explorando cada lugar com uma saudade latente.
- Como eu senti falta disso... – murmurava o loiro entre os beijos.
Com uma das mãos Naruto segurava firmemente o cabelo de Hinata, com os fios azulados cada vez mais emaranhados entre os dedos dele. A outra ele passava pelas costas dela e, vez ou outra, segurava-a pela cintura, apertando ainda mais o corpo dela ao seu.
- Não precisa mais sentir – ela respondeu se afastando dele, dando passos vagarosos para trás até o calcanhar bater na cama.
Os olhos de lua o encaravam brilhantes de desejo e a boca continha um sorriso de malícia que o incitava cada vez mais. Ele se aproximou e a inclinou sobre a cama, beijando-a e percorrendo todo o seu corpo com as mãos. Desceu os beijos até a base do pescoço dela, enquanto começava a levantar a blusa que ela usava.
Num instante retirou completamente a blusa dela e a ajudava a tirar a própria camisa. As mãos da jovem brincaram em seu abdômen, arranhando-o de leve, mas de maneira provocante. Com o dedo indicador, Hinata prendeu o dedo na presilha da calça dele e o puxou mais para perto, mordiscando-o abaixo do umbigo e abriu a calça que dentro de instantes ele não estaria usando mais.
Retirou a calça dela e rapidamente voltou a beijá-la nos lábios até deitar na cama e a virar de costas para ele. Mordeu e chupou o lóbulo da orelha dela enquanto suas mãos percorriam incessantemente o corpo dela. Com a língua traçou uma linha desde a nuca até a lombar, fazendo com que ela se arrepiasse por completo.
Inverteram a posição e Hinata se sentou sobre ele, movimentando-se para frente e para trás. Retirou o próprio sutiã e suspirando alto sentiu o loiro se ocupa com seu tronco totalmente descoberto.
Naruto estava em êxtase, cada célula do seu corpo vibrando e pulsando. Precisa dela imediatamente.
Girou, fazendo com que ela ficasse embaixo dele e retirou as últimas peças de roupa restantes dos dois. E logo estavam se encaixando, como duas peças de quebra-cabeça perfeitamente elaboradas para se acomodar uma na outra.
Minutos depois Hinata se viu fazendo carinho na cabeça de um adormecido Naruto, feliz e satisfeita. Aconchegou-se melhor no braço do mesmo e acabou cochilando também.
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Horas depois ouviu o barulho do interfone soar, a acordando no susto. Depois de permitir a entrada dos visitantes, a mesma correu para pegar as roupas espalhadas pelo chão e vesti-las apressadamente.
- Você demorou nee-san – reclamou a figura de cabelos cor de chocolate passando pela porta que Hinata abrira e puxando uma criança risonha pela mão.
- Eu estava dormindo – respondeu sincera.
- Está cedo para isso, Hinata-sama – disse Neji vindo logo atrás carregando algumas sacolas.
- Tia, olha o que eu ganhei – a pequena disse lhe mostrando uma caixa cheia de panelinhas cor de rosa – vamos brincar?
- Agora não. Você vai tomar banho e dormir – Hanabi interpôs autoritária – Já passou da hora de você ir pra cama – acrescentou diante do bico que a criança fez.
- A gente brinca amanhã – prometeu a mais velha.
Depois de ver a filha ir até o quarto pisando duro Hanabi virou-se para a irmã, cruzando os braços em frente ao peito e franzindo a testa.
- Onde ele está? Você trouxe mesmo o Naruto para casa, não é?
Hinata revirou os olhos e pôs-se a caminhar até a cozinha, procurando algo para comer.
- Já conversamos sobre isso.
- Eu sei que já, mas você não ouviu nada do que eu falei.
Olhou a irmã por sobre o ombro enquanto preparava um sanduíche, imaginando quando foi que a caçula começou a se sentir responsável por ela. Há alguns anos os papeis estavam invertidos.
- Estamos preocupados com a sua segurança, Hinata-sama – Neji entrou na conversa, se colocando ao lado da Hyuuga menor.
- Segurança? Eu nem estaria viva se não fosse por ele! – sua voz saiu mais alta e trêmula do que gostaria. Fechou os punhos e respirou fundo antes de continuar – Vocês precisam dar um tempo a ele, talvez, quando o conhecerem melhor...
- Eu lembro muito bem dele. É um idiota – a raiva na voz da menor era palpável.
O primo encarou-a firmemente. Hinata tremeu, odiava quando ele fazia isso, era como se ele pudesse ler seus pensamentos.
- Talvez seja mais prudente ele ficar em outro lugar. Pelo menos por enquanto...
- Ele não tem onde ficar, nii-san.
- E você agora é a madre Hinata pra abrir sua casa aos desabrigados? – Hanabi ironizou.
Hinata soltou o ar dos pulmões com força enquanto apertava a base do nariz com os dedos.
Se essa conversa continuasse, ela teria que ser rude com a irmã, coisa que não queria fazer.
- Minha decisão está tomada. Por favor, sejam gentis com ele.
- Se ele foi preso é porque boa coisa não fez! – a mais nova não parecia quer encerrar o assunto.
- Você não está sendo justa... – Hinata cerrou as sobrancelhas.
- Vai me dizer que ele é inocente...
As duas irmãs se encararam seriamente até a mais nova lançar as mãos ao ar como se dissesse "a vida é sua, faça o que quiser" e saiu pisando duro, igualmente a filha tinha feito minutos atrás, e foi buscar a criança para dar-lhe banho.
Hinata relaxou os músculos da mandíbula e soltou um muxoxo de impaciência.
- Hanabi deu para cuidar da minha vida agora...
Neji cruzou os braços e apoiou as costas na meia parede da cozinha.
- Ela só está preocupada – o primo respondeu – Se eu pudesse, ficaria mais tempo por aqui... Apenas por precaução. Mas não posso me ausentar mais do trabalho.
A jovem sentou-se a mesa para comer enquanto o outro continuava a observando da mesma posição em que estava.
- Vamos mudar de assunto, sim – pediu ela, com desânimo na voz – Como vai a Tenten-san?
Conversaram durante um tempo sem voltar ao assunto anterior. Já era mais de dez horas quando ela resolveu se deitar novamente.
Esparramada ao lado do Uzumaki e coçando levemente a bochecha dele, a jovem pensava no pré-julgamento das pessoas que o rapaz teria que lidar dali para frente. Era inevitável que as pessoas comentassem e desconfiassem dele por ser um ex-presidiário. Ele teria que ser forte e mostrar para essas pessoas o quanto estavam erradas. E ela tinha a plena certeza de que ele conseguiria.
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Acordou pela manhã esticando os braços e piscando pelos raios de sol que incomodavam seus olhos. Tateou a cama buscando por Naruto, mas nada encontrou. Sentou-se bocejando e viu que loiro não estava no quarto.
Depois de fazer sua higiene matinal, caminhou até a cozinha e deu de frente com a imagem de um Naruto muito concentrado cortando algumas frutas até que o ouviu xingar e colocar um dos dedos na boca.
- Precisa de ajuda? – perguntou fazendo com que ele se virasse para ela.
- Ahn eu estava indo bem até suas frutas resolverem me assassinar – respondeu, dando um selinho nos lábios dela quando ela se pôs ao seu lado.
Hinata pegou a mão que ele machucara e viu um pequeno corte no dedo indicador.
- Bem que essa maça me pareceu muito suspeita quando eu a comprei. – riu, e mudou de assunto – Dormiu bem?
Ele assentiu e a puxou pela cintura, desistindo das frutas que estava cortando.
- Tem uma coisa que eu quero que você faça por mim – Hinata começou apreensiva, não sabendo se era a hora apropriada para isso.
- Pode falar – ele respondeu com os olhos azuis grudados aos dela.
- M-Meu pai quer ver você... S-Seria muito importante para mim que você escutasse o que ele tem pra dizer.
De repente os olhos dele nublaram. Ele a soltou e encostou-se a mesa.
- O que ele quer comigo? – Naruto abaixou a cabeça e perguntou com ressentimento na voz.
- Eu não sei. – respondeu tristemente – Papai anda muito doente, está perdendo a memória e a lucidez, às vezes nem se lembra de mim e de minha irmã. Mas há uns dias atrás ele soube da sua soltura e pediu que eu o levasse até ele.
Naruto a segurou pela mão e percebeu que ela tremia.
- Tudo bem. – aceitou.
Naruto sentiu o coração apertar de maneira dolorida e a têmpora direita latejar. Não estava pronto para enfrentar seu passado, mas teria que fazê-lo o quanto antes, enquanto Hisashi ainda mantinha a consciência. A ansiedade começou a tomar conta dele, mais rapidamente do que o mesmo gostaria.
- Tia... o que 'cê ta fazeno? – uma vozinha soou.
E com um dos bracinhos segurando a meia-parede da cozinha, estava a mais nova caçulinha Hyuuga. Os cabelos castanhos batiam acima do ombro e os olhos cor de pérola estavam semicerrados pelo sono. Tudo na pequena figura lembrava Hanabi, exceto o que cabelo que era mais volumoso e não tão escorrido quanto o da mãe. O outro braço estava agarrado a um ursinho de pelúcia.
- Café da manhã – respondeu – O que você vai querer?
- Eu quelo bolo.
Naruto observou com interesse a garotinha de cabelos castanhos parada à entrada da cozinha, com o dedão na boca e um olhar de dúvida.
A pequena correu e agarrou Hinata pelas pernas, escondendo-se atrás dela.
- Quem é ele? – perguntou sem olhá-lo.
- Um amigo.
Ainda olhando a menina o loiro sorriu e se abaixou para ficar na altura dela. Foi quando percebeu que realmente o tempo passara, a última vez que vira a sobrinha de Hinata, ela ainda estava na barriga da mãe.
- Meu nome é Naruto. E o seu?
- Quato.
O rapaz coçou a cabeça confuso e quando olhou para a Hyuuga mais velha, viu que ela ria.
- Não, querida, sua idade é quatro. Ele perguntou seu nome.
- Sayuri – respondeu, voltando a por o dedão na boca.
- Sinto muito – disse a jovem pesarosa, olhando para o loiro – Não deu tempo de dizer quem tem uns parentes aqui em casa...
Ao se lembrar do porquê de não ter tido tempo de contar a ele, a hyuuga corou violentamente fazendo o loiro rir e coçar a nuca.
- Eu quelo faze bolo, tia – interrompeu a pequena.
- Sim, vamos fazer. Por que não chama meu amigo pra ir com a gente?
A pequena agarrou-se mais a morena e pôs os olhos sobre o rapaz desconfiada.
- Eu quero fazer bolo também. – ele respondeu – Posso fazer com vocês?
A pequena assentiu e a medida que iam interagindo para pegar os utensílios e preparar a massa Sayuri começava a se soltar mais perto do novo conhecido.
Hinata preparava a salada de frutas que Naruto havia – terrivelmente - começado mais cedo enquanto ele e a sobrinha brincavam sentados à mesa com as panelinhas que ela havia ganhado no dia anterior e o bolo assava do forno.
- Seu chá está delicioso, dona. Eu quero mais – ouviu o rapaz dizer enquanto a sobrinha fingia colocar mais chá na pequena xícara estendida a sua frente.
Minutos depois Neji apareceu na cozinha, esticando os músculos. Ele cedeu o quarto de hóspedes para as primas e se prontificou a dormir num colchão estendido no pequeno escritório que Hinata tinha em casa, mas o resultado dessa boa ação veio como uma dor nas costas.
Naruto o reconheceu de imediato devido aos característicos olhos. No segundo seguinte estava de frente a ele, esticando-lhe a mão.
- Há quanto tempo.
Hinata olhou-os confusa enquanto os dois apertavam as mãos e conversavam quando um estalo veio a sua mente. Eles já se conheciam, estudaram juntos quando mais novos, o primo mesmo havia dito.
Hanabi disse um bom dia seco quando chegou e não desfez a cara emburrada durante toda a manhã.
Depois de comerem e se aprontarem era hora de ir visitar Hisashi. Naruto, porque fora um pedido do próprio e Hanabi e Neji porque iriam para Chiba aquela tarde e queriam se despedir.
O caminho foi feito em silêncio. Hinata dirigia apreensiva e Naruto estava pensativo. Pensava no que faria, no que diria. Ele simplesmente não fazia idéia de como agir.
Hinata contara que o pai havia piorado consideravelmente no tempo em que estivera preso e que fora necessário transferi-lo para uma unidade especial, onde cumpriria sua pena, mas receberia os cuidados médicos necessários. A influência de Tsunade a ajudara muito na época, esse tipo de transferência era muito difícil de ser aprovada.
E agora Naruto se via receoso e com as mãos suando de ansiedade enquanto girava a maçaneta da porta que o permitira encontrar com seu passado.
No momento que bateu a porta atrás de si viu o senhor se ajeitar na maca da melhor maneira que podia para encará-lo.
- Você veio... – ouviu-o dizer surpreso.
O loiro apenas cruzou os braços e assentiu, indo até a janela e se encostando a ela.
- O que queria comigo? – perguntou com certa impaciência, não gostava da posição em que se encontrava.
Hisashi tossiu uma tosse seca e cravou os olhos perolados nele. E quando começou a falar, sua voz não parecia ter nenhum receio, transmitia a seriedade e autoridade que era tão atribuída a ele.
- Quero, antes de mais nada, pedir perdão.
Naruto arregalou os olhos surpreso. Essa era a última coisa que esperava ouvir do Hyuuga. Juntou as sobrancelhas num movimento involuntário, sustentando seu olhar sem desviá-lo por um segundo sequer.
- Sei que estraguei sua vida...
- Está se referindo a morte dos meus pais, suponho.
- Eu não tive nada a ver com a morte deles, mas, sim, foi por minha culpa minha que eles morreram. As alianças desonestas que fiz acabaram causando a morte do meu melhor amigo.
- Você mandou matá-los. Eu mesmo o ouvi fazendo ameaças – acusou o loiro e suas feições se tornaram ferinas.
- Eu disse por raiva, mas jamais faria isso! Minato e Kushina eram meus amigos de infância – Hisashi alterou seu tom de voz pela primeira vez – a morte deles foi um baque para mim. – continuou com tristeza na voz - Eu não tinha planejado nada disso, as coisas saíram do controle.
Naruto passou as mãos pelos fios loiro atordoado. O pensamento de que, no fundo, já sabia disso vinha brincar com sua mente e confundir suas verdades.
- Mas o que fiz com você também não foi certo. – o Hyuuga continuou – Seu pai sempre quis que eu cuidasse de você caso algo acontecesse a ele, mesmo depois das brigas constantes que tínhamos, a prova disso foi ele não ter mudado o testamento.
Tomou fôlego e voltou a falar.
- Seu pai confiava em mim e a primeira coisa que fiz foi abandonar o filho dele. Ver você trazia a tona uma culpa que com muita dificuldade eu consegui esconder dentro do peito, eu tinha que me livrar de você de algum jeito.
O loiro ficou calado, como poucas vezes fizera na vida, sentou desajeitadamente na janela e pôs-se a encarar o teto. Não queria dar vazão as suas emoções, não agora. Queria apenas ouvir.
- Vendi sua parte na empresa, legalmente eu podia fazer isso, mas moralmente... Foi a pior das traições que eu poderia ter feito. Dei o dinheiro a você, um adolescente impulsivo, e seu padrinho Jiraya, que nunca teve juízo. E assim, sumi da sua vida. Privei você de viver com seus pais e lhe neguei apoio quando você precisou.
O homem sentado na maca teve um acesso de tosse e tremeu dos pés a cabeça. Naruto pulou do lugar que estava e se aproximou, mas Hisashi levantou a mão indicando que estava tudo bem.
- Eu não vou pedir perdão novamente porque não o mereço. Estou de prontidão esperando a morte me levar para o inferno...
Naruto sentiu um aperto no peito ao ouvir essas palavras. Pensou em como Hinata e Hanabi sofreriam caso isso acontecesse, na tristeza delas quando o pai partisse. Por mais rígido que o mesmo fora durante a vida, elas ainda o amavam.
- Eu peço... – continuou depois de um tempo – como pai, eu apenas peço que não machuque minha filha. Sei que você e Hinata tiveram um caso... E se você tiver ainda alguma raiva dentro de você, que você a desconte em mim e não nela.
Naruto encarou novamente as pérolas que eram os olhos do homem a sua frente, com um olhar cúmplice igualmente culpado. Não podia culpá-lo. Não tinha esse direito quando ele próprio era um ser marcado e sujo. Havia mentido e ferido pessoas, mesmo que por ordem, também havia destruído uma família e agora, a culpa escondida também ameaçava consumi-lo.
Ele também esperaria pela morte e então poderia, talvez, encontrar o velho no inferno.
Mas enquanto estiver vivo...
Suspirou e pensou na vida nova que estava tentando construir. Queria ser feliz e esquecer o passado. Queria uma família e a felicidade que o próprio otimismo vivia lhe prometendo.
- Esse assunto já foi encerrado. – disse depois de refletir um pouco – Acho que é hora de nós dois virarmos essa página e começarmos uma história nova...
Naruto parou de falar e estremeceu. Era fácil viver culpando o velho pela desgraça em sua vida, o difícil era admitir que ele próprio fosse o culpado pelas próprias escolhas. Inspirou profundamente. Era hora de assumir suas responsabilidades.
- Você não me obrigou a tomar as decisões que eu tomei, não me obrigou a fazer as besteiras que eu fiz... Nós dois temos nossa cota de culpa... Eu quero seguir em frente sem olhar para trás.
O loiro estendeu a mão e o Hyuuga a apertou.
- Eu amo a Hinata, jamais a machucaria – continuou depois desfazerem o aperto da mão – Quero pedir a dela em casamento.
- Nada me faria mais feliz – o homem respondeu serenamente – Desde que tenha um bom emprego...
Naruto sentiu uma gota de suor frio descer pela nuca. Não tinha dinheiro, estava desempregado e morando de favor na casa de Hinata.
- Claro que eu só pensei em fazer isso depois de ter estabilizado na vida – sorriu amarelo e foi abrir a porta para que o resto da família fosse visitar o doente.
Hinata apenas o olhou com ansiedade e não disse nada.
- Acho que você é oficialmente minha namorada – o loiro sorriu e enlaçou uma mão a dela.
A morena olhou de Naruto para o pai, que assentiu com a cabeça. A única coisa que pode fazer foi sorrir aliviada.
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A estação estava lotada quando chegaram. Naruto carregava Sayuri nos ombros e a menina ia apontando para todos os lados, perguntando sobre coisas que desconhecia. Neji seguia calado atrás dos dois. Hinata andava mais devagar ao lado da irmã, que continuava carrancuda.
- Sayuri parece ter gostado do Naruto – comentou a mais velha.
- Ela é uma criança, Hinata – bufou – é inocente demais.
- Às vezes o que falta nos adultos é a inocência da criança...
- Não vem com essa de lição de moral... Eu não sou mais criança!
- É sim. É o meu bebezinho – segurou a mais nova pelos ombros e apertou num abraço.
- Ah para com isso! Tá me fazendo pagar mico...
O trem chegou minutos depois apitando, as pessoas já começavam a formar uma fila para poder embarcar quando os Hyuugas começaram a se despedir.
- Vou sentir sua falta... – Hanabi disse da janela do trem.
- Eu também. Prometo visitar vocês quando papai melhorar.
- Vocês também podem vir visitar a gente quando quiser – Naruto sorriu e Hanabi pareceu analisá-lo com o olhar.
Logo o maquinista deu a partida e gradativamente o trem foi ganhando velocidade rumo às longínquas montanhas. Ambos continuaram acenando até o trem estar longe no horizonte, levando parte da família para o verdadeiro lar. Hinata suspirou sentindo o coração leve e apoiou a cabeça no ombro do namorado.
- Tenho mais um compromisso para sua agenda social – anunciou a morena, largando a cintura do loiro que ela enlaçava com um dos braços e se virando de frente para ele.
- O que seria? – perguntou interessado.
- Quero te apresentar uns amigos.
- Tudo bem. Pode combinar um jantar... Agora é a minha vez de pedir alguma coisa.
- Pode pedir.
- Quero fazer uma coisa com você.
- Hum... Tudo bem, podemos ir agora, se quiser...
- Ah não! – ele abaixou para sussurrar sensualmente no ouvido dela – Envolve uma cama e você nua – riu malicioso.
Hinata corou no mesmo instante, ficando quase roxa. Naruto riu e beijou de leve os lábios dela.
- Eu não estava com pressa, mas você disse que queria agora... Que eu era irresistível e tal...
- Seu bobo – ela sorriu envergonhada.
Colocou um dos braços sobre os ombros da namorada e então os dois começaram a caminhar para fora da estação.
Mais tarde naquele mesmo dia, Naruto fitava a lua grande e prateada alta no céu e uma grande determinação veio até ele. Se queria mesmo seguir em frente, teria que tentar emendar algumas pontas soltas do passado.
- Hinata... – chamou enquanto acariciava o topo da cabeça de sua pequena – Está acordada?
Ouviu um resmungo como resposta.
- Se você ainda tiver contato com alguém da polícia, poderia localizar uma pessoa para mim.
- Uhum – foi a única coisa que conseguiu ouvir da namorada.
- Obrigado – respondeu depositando um beijo na cabeça dela, mas a mesma nem se moveu.
Continuou acariciando a cabeça da mulher adormecida ao seu lado sem sombra alguma de sono. A mente estava a mil. Encarava o céu escuro e a lua firmemente, pedindo em pensamentos, como numa prece silenciosa, coragem.
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Na1.: Depois de receber algumas ameaças de morte, aí está o capítulo. Ele seria o capítulo final, mas ficou muito grande. Então... Eu vou fazer mais dois capítulos curtinhos, como os extras.
Na2.: Eu realmente esqueci o que eu ia dizer, então, vou agradecer a reviews. Vocês são demais, sério.
N.a3.: Eu escrevo durante a madrugada então pode ter errinhos bobos por falta de atenção e eu não tive como revisar o capítulo.
