Fim

Andava apressadamente pelos corredores, contente consigo mesmo. As pessoas o cumprimentavam e ele retornava sorrindo e vez ou outra fazia alguma piada. Apertou três vezes o botão do elevador, mas não teve paciência o bastante para esperar o mesmo descer, então se pôs a subir as escadas de dois em dois degraus.

Quando chegou ao andar que queria, passou pelas portas de vidro abertas e acenou com a cabeça para uma das secretárias.

- Uzumaki-san, vou anunciá...

Mas antes de mesmo da moça terminar a frase ele já havia aberto a porta e ia entrando.

- Sasu...

O homem sentado à mesa apenas o olhou com uma das sobrancelhas erguidas.

- Uchiha-san – retificou fazendo uma careta, como se essas palavras o dessem enjôo – terminei o que me pediu. – mas o pensamento que tinha era "maldito".

Fechou a porta atrás de si e quando se aproximou o suficiente jogou uma pilha de papéis em cima da mesa do Uchiha.

- Não fez mais que o seu trabalho, então por que a cara de besta, dobe?

O loiro constatou que eram os únicos na sala, então poderia abrir mão daquela formalidade enjoativa e que o novo chefe fazia questão de manter na frente dos outros funcionários. Sentou-se de frente ao moreno e dirigiu-lhe um olhar vitorioso.

Estava trabalhando a pouco mais de um ano na empresa de Sasuke. O pedido viera do próprio Uchiha, o que surpreendeu o Uzumaki, pois embora fossem amigos, Sasuke não era caridoso a ponto de sair distribuindo vagas de emprego ao léu. É claro que Naruto tinha suas qualidades, era carismático e ativo, falava inglês fluentemente e francês – carregado de sotaque – e havia se formado numa das melhores universidades da europa.

Não se deram bem no início. Sasuke mantinha um olhar acusatório e desconfiado ao falar com ele e Naruto achava tudo relativo ao outro irritante e insuportável – principalmente o fato do moreno sempre o vencer nos jogos que disputavam. Mas suas mulheres eram melhores amigas e a aproximação foi inevitável. Tornaram-se grandes amigos, apesar de ambos negarem o fato veemente.

A proposta em questão veio num dia improvável. Eram quase 3 da manhã e ambos passaram a madrugada blefando e se analisando durante uma partida de poker que se iniciara mais cedo. Hinata e Sakura jaziam em colchões improvisados no meio da sala dos Uchiha, cochilando enquanto a TV mostrava um filme que mal começaram a ver. Naruto aceitou e desde então faz o possível e o impossível para não dar a chance do amigo se arrepender pela escolha.

- Responde... O que seria da sua vida sem mim? – um sorriso brincalhão se recusava a sair de seus lábios.

- Nossa, não consigo imaginar como eu passei quase 30 anos sem te conhecer – ironizou com um tom tedioso.

- Lembra daquele grupo de investidores americanos, teme? Então, consegui marcar um jantar com eles – puxou o braço numa pose de vitória.

- Hm – foi o que o moreno respondeu, mas estava satisfeito.

- Hoje ás oito no Kitcho. Encontro você lá.

- Você não precisa ir – Sasuke se apoiou no encosto da cadeira procurando relaxar – Eu mesmo mostro a proposta para eles.

- Teme – ele pareceu escolher as palavras – Eles não vão gostar de você – Naruto possuía uma delicadeza peculiar – Eles são jovens, dinâmicos, perspicazes e você é monótono, tedioso. Eu sei lidar melhor com eles.

Sasuke estreitou os olhos em direção ao outro, mas nada disse. Concordou com a cabeça e fez um gesto com a mão para que o mesmo se retirasse.

..

Mais tarde naquela mesma noite o jantar já havia acabado e o negócio com o grupo americano já havia sido fechado, mas os dois ainda estavam sentados à mesa conversando sobre as novas metas e diretrizes para dali em diante.

- Chega! Já falamos muito sobre trabalho – Naruto jogou um dos braços para trás e apoiou-o no encosto da cadeira – Vamos mudar de assunto.

- E que outros assuntos eu teria com você?

- Você pode me perguntar sobre a minha vida pessoal. É a regra básica da socialização.

- Eu não me importo com a sua vida!

- Teme, teme... Você já tentou ser agradável alguma vez na vida? Ou melhor, não faça isso, vai destruiu minha concepção de realidade.

Recebeu apenas um revirar de olhos como resposta.

- Já sei! Vamos comemorar – chamou o garçon com a mão e pediu um whisk – Apenas um, ele não consegue tomar um desses – indicou o amigo com a cabeça – É apenas para homens de verdade.

- Traga um para mim também – crispou os lábios e entrelaçou as mãos em frente ao queixo, com um olhar de desafio.

Assim que tomaram a primeira dose, sentiram o rosto se contorcer numa careta e o corpo se arrepiar por causa da ardência.

- OUTRA! – gritaram em uníssimo.

Era quase 2 horas da madrugada quando decidiram ir embora. Apoiando-se um no outro foram até o caixa e pagaram.

- Sinto muito – disse o gerente do restaurante – não posso entregar a chave do carro para pessoas embriagadas. Tem alguém pra eu possa ligar e pedir para buscar os carros?

- NÃO! – gritaram juntos novamente, fazendo com que o gerente massageasse os ouvidos irritado.

- Se 'cê fizer isso eu sou um cara morto.

- É mesmo. A mulher dele tem o soco mais forte que eu já vi – gargalhou dando um tapa nas costas do outro.

Saíram cambaleando e falando alto, seguindo até o ponto de táxi um pouco mais a frente do restaurante. Ambos, com um tom arrastado e tropeçando nas próprias palavras.

- Ei – Naruto segurou Sasuke pelo ombro – Você consegue ser legal às vezes, sabia – colocou o dedo indicador em frente a boca – não conta pra ninguém que eu disse isso.

- Você também não é nada mal – deu dois tapas leves no rosto do loiro – Mas seu senso de moda é horrível.

- Do que você ta falando, cara?! Você tem uma calça roxa!

Os dois riram até a barriga começar a doer.

- E você é gay.

- E sua marca de fogão preferida é Daku.

- Suas piadas estão me enjoando, teme – riu mas logo fez uma careta – sério cara, eu to enjoado mesmo... Acho que vou passar mal.

- Ah nem pense em vomitar perto de mim... A Sakura me mata eu chegar vomitado em casa.

- Relaxa um pouco, você é muito tenso... Se eu fosse você ia pra casa fazer sexo...

- Hm? – o moreno ergueu uma sobrancelha enquanto tentava focalizar o rosto do amigo.

- Eu ouvi Sakura contando pra Hinata que você não ta comparecendo – sentou no meio-fio e começou a gargalhar de novo.

- Maldito!

O Uchiha ergueu a mão em punho, numa pose de luta, tentando começar uma briga, mas logo que o joelho cedeu e o moreno quase caiu, desistiu e sentou no meio-fio também.

- Eu sei que ela não deve estar muito satisfeita...

- Qual o problema? – o loiro perguntou segurando a cabeça com as duas mãos enquanto encarava um ponto fixo no chão, numa tentativa de fazer seu mundo parar de girar alucinadamente.

- Eu trabalho muito. E ultimamente os problemas só acumulam – respondeu levando a mão ao cabelo e remexendo os fios negros – chego tarde e cansado demais para procurá-la.

- Mas é claro! Você quer fazer tudo sozinho. Você tem empregados, sabia. – deu leves cotoveladas no braço do moreno – você precisa confiar neles.

Sasuke suspirou e sentiu o estômago revirar. Esticou o pescoço e inclinou a cabeça para trás, na esperança de que o vento frio da noite o fizesse se sentir melhor.

- Você sente falta dela, certo? Digo, de conversar com ela, do corpo dela – Naruto riu matreiro – Não sente vontade de beijá-la?

Naruto esticou as mãos e pareceu abraçar alguém imaginário, enquanto suspirava e fingia beijar a tal pessoa.

- Sua idade mental é menor que a do meu filho, que é apenas um bebê.

- Relaxa, eu só estou brincando...Posso te dar algumas dicas para apimentar sua relação.

- Até parece que você ta se dando bem também... Hinata não deve nem lembrar que você existe – riu.

O loiro bufou.

- Ultimamente ela só tem olhos para Hikari. Ela não me ama mais, cara. Eu quero amor...

Um casal que saia do restaurante e passava perto dele torceu o nariz para os dois e continuaram caminhando até o estacionamento.

- Não vem com essa conversinha gay pro meu lado não.

O loiro também inclinou a cabeça para trás em busca do vento frio da noite. O cansaço o alcançou e junto dele veio um sono arrebatador. Se não levantasse, dormiria ali mesmo. Logo a imagem da sua cama aconchegante veio à mente, a sensação boa do corpo quentinho de Hinata agarrado ao seu o fez arrepiar, os barulhinhos que a filha fazia enquanto dormia num berço improvisado ao lado da cama do casal chegou aos seus ouvidos. E ele nunca quis tanto estar em casa.

- Eu quero minha mulher, quero minha filhinha, quero minha casa... – choramingou.

- Então vaza da minha frente, dobe... Eu... – tentou se levantar, e quase caiu sentado novamente – Vou pra casa... Sinto falta da minha família também – conseguiu se levantar.

- Quem diria que você também tem sentimentos...

Sasuke ajudou Naruto a se levantar puxando-o pelo braço quando um táxi passou por eles. Os dois começaram a gritar e pular, mas o motorista não deu atenção.

- Pow vacilo hein mano – o loiro gesticulou com o braço apontando o dedo indicador para o carro que já estavam longe – Não vai ganhar caixinha de natal...

- Mas estamos em setembro...

- Eu sei.

E então começaram a gargalhar apontando um para o outro.

Continuaram caminhando até o ponto de táxi, tropeçando e apoiados um no outro. Finalmente, depois de quinze minutos, terminaram uma caminhada que uma pessoa sóbria faria em menos de cinco.

Cada um pegou um táxi e foram para a casa, lutando para permanecerem alertas.

Naruto escorou a cabeça no banco da frente e fechou os olhos. Adormeceu por breves instantes, mas o bastante para fazer sua razão sumir por completo e o mundo a sua volta perder o sentido. Acordou assustado, com os olhos ardendo, e o taxista mandando-o sair.

No mesmo instante em que o loiro saiu do carro, batendo com força a porta atrás de si, o grande portão a sua frente foi destravado, permitindo sua passagem. Alguém tentou um diálogo com ele, mas o mesmo não deu atenção, nem sequer pareceu ouvir. Caminhou inconscientemente até o elevador e se recostou na parede do mesmo.

- Que lugar é esse? – perguntou quando o elevador o largou em um andar que ele não se lembra de ter acionado – aquele taxista idiota me deixou no lugar errado... Minha casa é na Califórnia.

Caminhou pelo corredor, vendo portas estranhamente tão conhecidas.

- Eu moro aqui?

Quando chegou ao apartamento 402, Naruto se surpreendeu ao ver que a chave encaixou perfeitamente na fechadura. Sua expressão era de surpresa e felicidade, achando incrível aquele encaixe perfeito, quase mágico, entre chave e fechadura. Abriu e fechou a porta devagar e, julgou ele, o mais silenciosamente possível, escorando nas paredes, e pensando consigo mesmo que estava agindo feito um gatuno. Andou pé ante pé, mas logo a luz da sala acendeu e ele paralisou.

- Naruto... Chegou tarde... – a mulher sonolenta apareceu diante dele, checando a hora no relógio em cima da mesa de centro – Hikari dormiu a pouco...

Ele abriu e fechou a boca seguida vezes, mas não saia som algum.

- Eu não vim te roubar – respondeu finalmente.

- O que?

Mas antes que Hinata pudesse perguntar qualquer outra coisa. Naruto caiu sentado, rindo de si mesmo. O rapaz afundou a cabeça entre os joelhos sentindo tudo a seu redor passando como um borrão e um enjôo subir pelo esôfago.

- Meu Deus! O que... – quando deu um passo a frente o cheiro de álcool invadiu as narinas da moça – você estava bebendo? – colocou as mãos na cintura irritada.

- Olá jovem! Você vem sempre aqui? – o som arrastado de suas palavras não deixava dúvidas de que ele estava completamente bêbado.

Ela o ajudou a tirar os sapatos e jogou-os ao canto da porta.

- Você não disse que estaria num jantar de negócios?! – suas narinas inflaram e ela apertou a mandíbula numa raiva contida.

- Eu... Estava... Eu estava comemorando...

À medida que o sono aumentava, Naruto ficava mais lerdo. Sua voz parecia mais rouca e os olhos, desfocados. O álcool parecia querer adormecer o cérebro do loiro também, como se pensar e registrar informações fosse cansativo e desnecessário demais.

- E vocês apostaram quem bebia mais de novo?! – ela segurou a base do nariz, respirando fundo – Não acredito! Vocês são adultos...

- Acho que vou vomitar...

Hinata se afastou na hora, mas o mesmo não fez ânsia alguma, apenas apoiou a cabeça na parede e fechou os olhos.

Naruto se encolheu e começou a choramingar.

- Não briga comigo... Eu to carente... Eu só quero receber amor também. Pede pra minha mulher vim me buscar, eu a quero...

Hinata revirou os olhos, mas anuviou a expressão.

- Vai tomar um banho... – disse tirando a blusa dele, depois o puxou pela mão para se levantar e o apoiou no próprio corpo.

- Ah – reclamou – Hoje nem é sábado...

Levou-o até o banheiro e fez com que ele se apoiasse contra a parede para não cair de novo. Desceu as mãos até o cós da calça dele para tentar abrir o botão quando a mão dele a interrompeu. Ela tentou novamente e ele fez a mesma coisa.

- Eu tenho que tirar essa roupa de você... – seu tom era de cansaço.

- Não, moça, você é bonita, mas eu sou casado.

Respirou fundo e tentou novamente com mais força, prensando seu corpo contra o dele. Naruto começou a se debater para sair de perto dela.

- Eu sou CASADO!

- Fala baixo, Naruto!

- Faz isso comigo não, moça – choramingou novamente – Eu sou de família.

Finalmente ele se acalmou e Hinata conseguiu tirar as roupas dele.

- Eu fui violado...

Ligou o chuveiro frio colocou e um Naruto aflito debaixo dele.

- Faz isso não, moça. Minha mulher ronca, mas é gente boa.

A morena vincou as sobrancelhas e fechou a expressão.

- Você vai dormir no sofá hoje! – saiu e bateu a porta atrás de si – E vê se não suja a casa e nem faz muito barulho.

"Eu não ronco nada", trancou a porta do quarto para que o mesmo não entrasse. No mesmo instante um choro de bebê chegou aos seus ouvidos e ela nunca quis tanto torcer o pescoço do marido.

Hinata acordou pela manhã com o barulho de Naruto passando mal no banheiro social. Com um sentimento de pena pulsando levemente, ela se levantou e destrancou a porta e esperou pelo marido no corredor.

- Você ta legal? – perguntou quando viu a porta do banheiro abrir e um Naruto muito pálido sair de lá.

- Acho que comi alguma coisa estragada ontem...

- Cara de pau! – riu – vai tomar um banho frio que eu vou fazer um café forte para você.

- Já tomei dois banhos só hoje de manhã – murmurou cansado, mas o fez assim mesmo. Os pingos frios pareciam lhe animar um pouco.

Dessa vez se dirigiu a suíte, mas antes pegou algumas roupas no armário e fez um carinho na bochecha da filha que dormia calmamente.

- Bom dia! – murmurou para a pequena adormecida enquanto passava os dedos devagar sobre os tufos de cabelo loiro dela. A menina apertou os lábios e fez um som engraçado pelo nariz, mas não acordou.

Quando chegou à cozinha sentiu um cheiro de café que fez seu estômago dar voltas. Fez uma careta e apoiou as costas na parede oposta, fechando os olhos, parecendo meditar, mas a verdade era que estava com muita dor de cabeça e a luz só fazia piorar. Ouviu o barulho de Hinata depositando algo na mesa e a sentiu se aproximar e abotoar a camisa social que ele deixara aberta.

- Não ta nervosa comigo? – perguntou ainda de olhos fechados, sentindo-a ajeitar seus fios loiros.

- Sim, mas estou vendo que a ressaca já ta castigando você o bastante.

- O que?! Eu to morrendo, Hinata. Acho que você vai ficar viúva...

- Pára de bobagem – levou-o até a mesa e o fez sentar – agora come senão você vai piorar.

- Pelo menos o teme me deixou entrar mais tarde... Aposto que ele nem vai dar as caras no trabalho hoje.

Naruto respirou fundo antes de encarar o café da manhã que lhe foi servido. Hinata estava certa, seria melhor comer alguma coisa, por mais que o estômago reclamasse. Quando olhou o café fumegante na xícara um sentimento de desconfiança cresceu nele. Seu olhar caiu sobre a esposa, que o encarava com um riso contido. Ao lado da xícara tinha uma pequena tigela de frutas picadas e uma pequena cartela de remédio para enjôo.

- Por que você ta sendo boazinha comigo? – perguntou com a sobrancelha erguida, estranhando demais toda a situação. Ela não gostava quando ele chegava bêbado em casa.

- Digamos que eu achei legal você não ter deixado uma estranha – disse a última palavra fazendo aspas com os dedos – agarrar você ontem – riu e saiu da cozinha, deixando-o ainda mais confuso.

E com o pensamento de que a mulher havia enlouquecido, Naruto se obrigou a comer antes de se levantar amaldiçoando todos os ancestrais do Uchiha.

- Eu tenho que lembrar de não marcar nenhum jantar de negócios durante a semana – ponderou consigo mesmo.

Pegou sua pasta e já estava pronto para sair quando colocou as mãos nos bolsos a procura da chave do carro. Sentiu um suor frio percorrer o corpo e algo próximo ao pânico se instalar nele.

"Cadê a chave do carro?", perguntou se dirigindo, o mais rápido que a ressaca deixou, até o estacionamento do prédio, "Ai meu Deus! Cadê meu carro?"

Pegou o celular quase derrubando o mesmo no chão. Iria ligar para Sasuke e perguntar onde estava o carro. Ele saberia... Ele tinha que saber.

Ouviu uma voz feminina pedindo para deixar o recado na caixa postal e xingou alto. Enquanto tentava se acalmar, viu o porteiro do prédio se aproximar desejando-lhe bom dia.

- Uzumaki-san, pode me seguir um momento?

- Claro.

O Uzumaki não fazia idéia do que o porteiro do prédio queria com ele, mas não faria mal acompanhá-lo, não estava exatamente atrasado e poderia sondar o mesmo e obter informações sobre o carro.

- Alguns vizinhos reclamaram essa madrugada de alguém forçando a porta da casa deles – o porteiro começou a falar e Naruto assentiu com a cabeça, tentando mostrar interesse - Eu estava prestes a chamar a polícia quando fui verificar as imagens das câmeras de segurança e...

Naruto viu a si mesmo tentando abrir diversas portas com a sua própria chave. Sua boca abriu em surpresa ao mesmo em tempo que a vergonha a lembrança começavam a lhe perturbar. Lembrou-se de como havia filosofado sobre a magia por trás do encaixe entre chave e fechadura e de Hinata ajudando-o a tirar as roupas, embora não lembrasse o que conversou com ela.

Um suor desceu pelo rosto e ele limpou, antes de procurar na mente algo cabível para dizer.

A única coisa que conseguiu fazer for se desculpar e pedir para o ocorrido ficar somente entre eles. Saiu dali o mais rápido que pode, se esquecendo complemente de perguntar sobre o carro.

Quando o celular vibrou dentro do bolso, Naruto tentou pensar em todas as possíveis besteiras que poderia ter feito na noite anterior antes de pegar o mesmo e verificar se era seguro atender.

- Cadê meu carro? – a voz de Sasuke soou irritada do outro lado da linha.

- O seu também sumiu? Cara, fomos roubados...

- Calma, dobe. Vamos olhar em todos os lugares que fomos ontem antes de tirar conclusões...

- Eu to ferrado... Eu nem terminei de pagar o carro ainda...

- Encontre-me na portaria do meu prédio.

O Uchiha desligou sem se despedir e Naruto seguiu desolado até onde o amigo estava.

..

O dia não havia sido fácil. O trabalho nunca parecera tão chato e o dia nunca havia demorado tanto para passar. Naruto perdeu a conta de quantos remédios para enjôo tomou. Mas pelo menos, repetiu para si mesmo, o carro estava a salvo. O Uzumaki não saberia colocar em palavras o alívio e a felicidade de ver seu carro estacionado no restaurante, apenas esperando seu dono vir buscá-lo.

- Nunca mais suma desse jeito – disse e depositou um beijo no volante.

Chegou à porta de casa arrastando os pés e sentindo todo o peso do corpo sobrecarregando suas pernas. Quando adentrou, viu Hinata virar o rosto para cumprimentá-lo e o pequenino ser em seu colo se agitar e soltar um gritinho pela garganta. Deu um beijo no topo da cabeça da esposa e pegou a filha no colo, devolvendo o sorriso a ela.

A criança, agora, com cinco meses lhe mostrou a boca sem dentes, agitando os bracinhos enquanto murmurava coisas sem sentido.

- Tava com saudade do papai? – perguntou assoprando a barriga dela, fazendo-a rir.

- Aposto que sim – quem respondeu foi Hinata, relaxada, sentada no sofá com as pernas apoiadas na mesinha de centro, coisa que não permitia que ninguém fizesse, onde jazia uma mamadeira vazia e uma toalhinha infantil.

- Hikari está judiando de você? – riu e se sentou ao lado da mulher.

- Ela é uma boa menina, só um pouco agitada...

- Quem será que essa menina puxou – disse ele enquanto via a filha encarar com os olhinhos perolados interessados, o movimento que a boca dele fazia.

- Está com fome?

- Uhum – respondeu com certa dificuldade, pois havia prendido levemente o dedo da pequena na boca.

- Eu também. Vou preparar alguma coisa – fez menção de se levantar, mas se deteve.

Naruto parou de assoprar o rosto de uma risonha Hikari e murmurar coisas desconexas quando sentiu duas mãos pousarem em seu braço. Primeiro, baixou o olhar para as finas mãos, na qual uma grossa aliança de ouro, idêntica a sua, brilhava no dedo anelar e depois encarou a dona delas. Hinata tinha um misto de seriedade e preocupação no olhar.

- Yumi me ligou hoje e... Bem, encontraram o garoto.

Sentiu as mãos apertarem o braço, querendo passar algum conforto. Não sabia o que dizer ou sentir, provavelmente a expressão que mantinha no rosto era de surpresa. A falta de resposta, ou talvez, a fome, fez Hinata se levantar e se dirigir para a cozinha. A expressão um pouco apreensiva não deixou rosto alvo enquanto a mesma se afastava.

Hikari subiu e desceu os bracinhos e resmungou, alheia a tudo o que se passava, queria apenas que a atenção do pai voltasse a si.

Naruto sentou a pequena em seu colo e afrouxou o nó da gravata que usava.

Sabia que esse dia chegaria, afinal ele próprio pediu por isso, mas agora, sua coragem pareceu se esvair, sair por seus poros, como agora fazia o suor que escorreu de sua testa. Suspirou, sentindo todos os sintomas da ressaca retornarem.

Com uma leve dor de cabeça, tentou pensar no menino. Não se lembrava do nome dele, não se lembrava do rosto dele. A única coisa que a mente se lembrava – e não o permitia esquecer – era de que fora o assassino do pai da pobre criança.

Naruto sentiu uma mágoa de si mesmo crescer no peito. Ele sabia o quanto era duro viver sem o pai e ele próprio fora o responsável por privar aquela criança de crescer em companhia paterna. Odiou-se ainda mais quando viu que levava uma vida perfeita. Há quatro anos não tinha perspectiva alguma na vida, mas agora tinha um emprego de que gostava e uma família a qual amava mais que a ele próprio e que o amava também. Estava levando a vida como se não carregasse uma morte nas costas e isso não soava certo.

Ele havia prometido a si mesmo, e à esposa, que não teria tais tipos de sentimentos novamente. Havia prometido esquecer o que não podia ser mudado e seguir trilhando o caminho tortuoso da vida, sem voltar a errar. Mas nesse momento, o temor falava mais alto. O temor de que teria que voltar a enfrentar os erros do passado e tentar consertá-los, o máximo que conseguisse.

A herança e os bens que um dia tivera, foram leiloados pelo governo e o dinheiro arrecadado fora dado às pessoas nas quais ele havia dado golpes, de modo que, quando saíra da prisão, estava sem nada. Mas ele não se importou, era o mínimo que poderia fazer.

A filha resmungou e com uma das pequenas mãos agarrou o nariz dele. O loiro desceu os olhos para a pequena e a mesma gargalhou, achando graça de alguma coisa que o mesmo não sabia o que era.

- Papai te ama tanto...

Ela disse alguma coisa indecifrável. Parecia querer repetir os movimentos da boca dele e imitar o som que saía da boca do mesmo. Parecia querer conversar.

Levantou-se com a pequena no colo e seguiu até a meia parede da cozinha. Observou a mulher cantarolar enquanto cozinhava.

Lembrou-se de como a conhecera e tudo que envolvia sua juventude. Perguntou-se como, alguma vez na vida, mesmo que jovem e imaturo, havia pensado em fazer mal aquela criatura. Pensou se se tornariam grandes amigos quando crianças caso os pais não houvessem brigado. Será que se apaixonariam? Ele tinha certeza que sim. Ela era dele e ele era dela. As circunstâncias os havia afastado, mas o destino fez questão de devolvê-la a ele. Nunca estariam completos estando longe um do outro.

Hinata soltou um muxoxo de dor e xingou baixo ao mesmo tempo em que colocava o dedo queimado na boca. Naruto riu enquanto segurava a ponta da gravata com a mão livre, impedindo que Hikari a mordesse. A pequena estava na fase em que queria colocar qualquer objeto desconhecido na boca.

- Eu amo você, Hinata.

A mulher se assustou, deixando a tampa que segurava cair ruidosamente no chão e se virou vendo o marido lhe encarar. Hikari ria da cena no momento que uma outra tampa, mal apoiada na pia, também caiu, causando outro barulho alto.

- Desculpe, eu... Eu não vi você – respondeu ela com as bochechas ganhando um tom rosado.

O loiro se aproximou sorrindo. Hinata continuava a mesma.

A morena se amaldiçoou internamente. Naruto havia sido sincero e espontâneo, soando muito romântico a ela e a mesma retribuía derrubando panelas e estragando o clima.

- Desculpe, eu... Fui pega de surpresa – o tom vermelho em suas bochechas aumentara.

- Tudo bem.

Beijou-a nos lábios.

- Eu também te amo – ela respondeu agarrando a barra da camisa dele e depois o envolvendo pela cintura.

Foi a vez dela iniciar o beijo, esticando-se nas pontas dos pés. Encostou levemente seus lábios nos de Naruto, mas logo se encaixou melhor na boca dele, sentindo sua língua.

Hikari resmungou e soltou um gritinho quando viu que não era ouvida. Com as pequeninas mãos segurou com força os fios loiros da nuca do pai e puxou.

Naruto gemeu de dor e se afastou.

- Hinata, me salva.

A mulher riu da situação e pegou um dos brinquedinhos da filha que estavam jogados em cima da mesa. A verdade era que havia brinquedos de Hikari espalhados pela casa toda. Sacudiu em frente a criança um carrinho de borracha cor-de-rosa, que soltou um apito quando a criança o mordeu com força.

A menina, segurando o carrinho em uma das mãos, ergueu os bracinhos em direção a mãe, querendo o colo da mesma.

- Não, senhorita. Mamãe está ocupada agora – Naruto disse ao mesmo tempo em que tentava desvia a atenção da pequena.

- Kami... Eu esqueci a panela – Hinata arregalou os olhos e se dirigiu correndo para o fogão.

..

Mais tarde, naquela mesma noite, Naruto estava sentado no sofá da sala, no colo havia um livro que mal começara a ler. O choro de Hikari que vinha do quarto pareceu cessar e ele pode finalmente parar de apertar as têmporas. Já não sentia mais os sintomas da ressaca, mas o cansaço atingia-o em todo o corpo, apesar de se sentir sem sono. Os músculos pareciam gelatina e não se moviam por maior esforço mental que fizesse.

Apertou os olhos e quando os abriu novamente, viu Hinata aparecer com um sorriso cansado repuxando os lábios e caminhando em sua direção. Ela fez menção de sentar no sofá, ao lado dele, mas o loiro a puxou para sentá-la em seu colo. O livro que lia caiu desajeitado, com as páginas viradas para baixo, mas nenhum dos dois prestou atenção no fato.

- Você devia ir dormir – ele sentiu a garganta da esposa vibrar e milésimos de segundo depois a voz doce chegar a seus ouvidos.

Aconchegou-a melhor em suas pernas antes de responder, ainda com os lábios encostados no pescoço dela.

- Sim, devia.

Sentiu-a arrepiar quando depositou um beijo leve na base do pescoço e continuou com as carícias até mordiscar a nuca. Ouviu seu nome escapar dos lábios dela quando com a ponta do dedo começou a desenhar círculos invisíveis na barriga dela, sobre a fina camisola que ela usava.

Puxou as pernas dela para si e ela entendeu o recado. Virou-se para ele e sentou-se da melhor maneira em seu colo.

Hinata riu tímida quando encarou os olhos azuis do marido. Sentiu-se envergonhada quando percebeu quando ele a olhava fixamente e, antes de sorrir travesso, dirigir o olhar para seus lábios. Mas foi Hinata quem o beijou, um beijo lento e provocativo, enquanto apertava os fios loiros entre os dedos.

Ainda se beijavam sem pressa, com as línguas se enroscando e brincando, num beijo cada vez mais profundo.

Naruto a enlaçou fortemente com um dos braços e com a mão livre, desceu até a coxa descoberta de Hinata, acariciando ali e fazendo com que os pêlos dela se eriçassem por todo o corpo. A mulher tirou uma das mãos dos cabelos loiros que puxava e levou até o abdômen dele e depois subindo até o peito, fazendo desenhos irregulares com a ponta da unha. Sentiu-o grunhir quando os lábios se soltaram e a pequena mão começou a brincar abaixo do umbigo do mesmo.

Ele fechou os olhos e apoiou completamente as costas no sofá.

Hinata sorriu quando viu que ele mantinha um riso bobo nos lábios enquanto parecia relaxar sob o toque dela.

- Ei, eu tava gostando. – ele reclamou quando a sentiu parar o que fazia.

- Eu sei que estava. – sua resposta tinha um tom orgulhoso que fez o jovem abrir os olhos e encará-la curioso – Mas alguém aqui mal está se agüentando em pé.

Beijou-o rapidamente nos lábios e se levantou, sob os protestos do marido. Guiou-o até o quarto e, por fim, deitaram frente a frente na cama.

- Não gostei! – ele reclamou novamente.

Hinata passou a ponta do dedo pela linha do maxilar dele e depois por todo desenho do rosto enquanto ele ainda balbuciava reclamações.

Não demorou muito e o loiro pegou no sono. A mulher tirou a mão do rosto dele e apoiou na cintura do mesmo.

- Amanhã a gente continua. – disse ao adormecido, não esperando obter nenhuma resposta – Boa noite! – Beijou-o de leve nos lábios, fechando os próprios olhos.

..

- Sasuke-kun foi incrível ontem... – ouviu-se um gritinho excitado do outro lado da linha – E foi tudo tão romântico. Digo, não saímos muito para jantar sozinhos desde que Daisuke nasceu.

- Esse é meu garoto! – Naruto gritou aparecendo na cozinha de supetão e fazendo com que Hinata derrubasse a colher no chão assustada.

- Naruto! – a mulher colocou a mão sobre o peito, regulando os batimentos cardíacos.

- Naruto! Idiota! O que pensa que está fazendo ouvindo a conversa dos outros? – a voz feminina vinda do celular em cima mesa começou a ralhar.

- A culpa não é minha! – se defendeu levantando os dois braços, como que se rendendo.

- Hinata... – a voz feminina pareceu bufar – Você deixou no viva-voz de novo?!

- Desculpe, Sakura-chan.

Conversaram trivialidades até Sakura desligar, dizendo que ia aproveitar o fim de semana com os homens de sua vida.

Hinata terminou de servir o mingau que havia feito, entregou uma pequena tigela para Naruto e o observou sair para dá-lo a filha. Segui-o até a meia parede que separava a cozinha da sala, e apoiou os cotovelos no encosto de mármore da mesma. Viu-o se sentar no sofá da sala, de frente para o carrinho de bebê, onde os bracinhos da filha eram vistos se agitando no ar.

Vê-lo pegar uma pequena quantidade do mingau com a colherzinha rosa, esfriar e então levar até a boca da pequenina era relaxante, poderia ficar ali o dia inteiro, apenas observando-o.

Hikari gargalhou de algo estranho e sem sentido que o pai balbuciou, fazendo com que o mesmo sorrise também e Hinata o acompanhasse.

Mas ele estava tenso. Era visível. Hinata sentia pelo tom de sua voz e o arquear de suas sobrancelhas. Ele estava nervoso, por mais que tentasse acalmá-la dizendo que estava tudo bem. Podia ver o brilho de ansiedade que passava hora e outra pelos orbes azuis.

- Vamos!

Hinata assentiu. E enquanto ele levava o carrinho e Hikari para fora do apartamento, a moça terminava de ajeitar a casa.

Em menos de quinze minutos, lá estavam eles, dentro do taxi, se dirigindo para o aeroporto internacional de Tóquio, a caminho deWajima, na província de Ishikawa. Lá estava ele, o garoto, de quem necessitava muito mais que um simples perdão.

A viagem de avião foi tranqüila, Hikari dormiu a maior parte do tempo devido a um calmante natural que deram a ela. Viajaram por três horas até o aeroporto de Noto, onde alugaram um carro, para irem com mais conforto até a pequena e pacata cidade de Wajima.

Uma música infantil soava baixo pelo rádio do Honda Fit Cinza que Naruto dirigia,enquanto Hinata sonolenta encarava a paisagem que passava como rabiscos pelo vidro do carro.

- Vai ficar tudo bem! – tranqüilizou a moça quando ouviu mais um suspiro do homem ao seu lado, ao volante.

- Eu sei. Sabe, você podia ter ficado em Tóquio... – Naruto parou de falar quando a sentiu pressionando seu joelho com as mãos finas.

- Não tem problema... Hikari e eu queremos te fazer companhia.

Naruto sorriu abertamente e começou a conversar coisas sobre o trabalho e isso incluía – na maioria das vezes – piadas sobre o chefe, Uchiha Sasuke.

Viajaram por pouco mais de uma hora quando finalmente Naruto estacionou em frente a uma casa simples, no fim da comprida rua de terra batida onde estavam.

A cidade era tão interiorana quanto possível. Os campos de arroz se estendiam até onde os olhos alcançavam, tomando a maior parte dos campos da vila e encostas dos morros que rodeavam o lugar. O caminho entre o centro da cidade e o subúrbio, onde estavam, era silencioso e belo, pequenos animais, pássaros em sua maioria, podiam ser vistos entre a vegetação rala que acompanhava o caminho estreito e tortuoso, que era a estrada de chão.

Naruto saiu do carro primeiro, observou toda a paisagem com um fio de esperança no peito. Depois encarou a casa a sua frente com um suspiro cansado. Suas emoções estavam pesando muito em seus ombros ultimamente.

No mesmo instante que a preocupação lhe atingiu, viu Hinata sair do carro com as sobrancelhas unidas e um olhar encorajador. Chegava a ser dependente o modo como o loiro necessitava do apoio dela.

O homem foi até o parta-mala e retirou o carrinho de bebê, de um modelo bem simples e fácil de montar, e o ajeitou para que a mulher pousasse a filha, ainda dormindo ali.

- Aqui estamos! – o loiro riu tenso.

A casa era pequena, não parecia ter mais de três cômodos. Era rústica, mas bonita e conservada – como todo o resto da Vila parecia ser. Alguns poucos metros separavam o pequeno imóvel da cerca de madeira e o portão, também de madeira escura.

O portão estava destrancado, permitindo a passagem da família, mas mesmo assim, eles entraram tentando ao máximo fazer muito barulho.

Naruto chegou primeiro. Parou a porta e encarou a mulher, que parou ao seu lado segundos depois. No mesmo instante, viu um garoto de cabelos castanho-escuro lhe encarar curioso e correr para os fundos da casa, antes mesmo do loiro pensar em chamá-lo.

- É ele está bem, pelo visto. Podemos ir... – Naruto começou a dizer e Hinata levantou uma sobrancelha, confusa.

- Não vai conversar com eles?

- Talvez outro dia. Acho melhor irmos para o hotel.

- Qual o problema? – perguntou mais compreensiva que o loiro gostaria – Está nervoso?

- É só que... Com que direito eu chego aqui querendo saber se está tudo bem... – se aproximou do rosto da mulher e baixou o tom – você sabe o que eu fiz com o pai daquele menino...

- Vamos apenas conversar. Apenas um pouco – ela respondeu, conciliadora.

- Outro dia.

Naruto virou as costas e ia dar o primeiro passo quando o barulho da campainha foi ouvido. Ele se virou assustado e viu Hinata retroceder a mão.

- Por que fez isso?

Ele não soube dizer ao certo se seu tom era surpreso ou irritado.

- Minha mão escorregou! – ela respondeu com uma falsa culpa.

Não houve tempo para ponderarem sobre o que fazer, pois a porta foi aberta e uma senhora de meia-idade, com a aparência mais envelhecida do que sua verdadeira idade deveria aparentar, os olhava surpresa e curiosa de dentro da casa.

- E-Eu... Hm... Eu – Hinata começou a dizer, mas parecia ter perdido as palavras.

Haviam planejado essa viagem há algumas semanas e desde então ensaiavam maneiras de abordar a família que visitariam. Chegaram a conclusão de que Hinata aparentaria estar cansada e passando mal e, sem segundas intenções aparentes, iriam até aquela casa pedir um copo de água. Não era um plano muito bom, nem original, mas serviria para conversarem brevemente com a senhora e ver o tipo de vida que ela e o filho levavam.

Naruto nunca teve a intenção de contar o verdadeiro motivo para estar ali. Não se achava com o direito de atravessar o país para fazer aquela família relembrar momentos dolorosos do passado. E ele que sempre se julgara corajoso, estava com medo. Medo do julgamento daquela família.

Apenas queria ver o menino. Dizer a ele, que de alguma forma, as coisas dariam certo, como dera para ele próprio, que também teve o pai assassinado.

O loiro olhou a mulher com o canto dos olhos e a viu corada. Hinata era uma péssima atriz.

- Minha esposa não está se sentindo bem. Será que você poderia nos dar um copo de água.

Hikari espirrou e se remexeu no carrinho, ainda dormindo, e fez com que a atenção da dona da casa se voltasse para a pequena.

- Desculpem minha indelicadeza, por favor, entrem.

Eles entraram, passaram pela sala de estar e seguiram para um pequeno corredor, que dava para a cozinha. A senhora ofereceu uma cadeira à mesa para Hinata se sentar enquanto pegava um copo de água para a mesma.

- O tempo está muito abafado. Seria bom você dar um pouco de água para ela também quando ela acordar.

Hinata soltou um som de interrogação pela garganta, mas logo assentiu quando viu a mulher apontar Hikari com a cabeça.

- Vocês não são daqui, são?

- Não. Somos de Tóquio.

Naruto observou a jovem senhora, mas não a viu expressão nenhuma reação à menção daquela metrópole. Passou os olhos ao redor da cozinha, deixando que o silêncio incômodo pairasse pelo local, quando viu alguns desenhos colados à parede.

- O que são? – perguntou curioso, se aproximando.

- Projetos – a mulher também se aproximou dos desenhos – meu filho os fez. Olhe, essa vai ser nossa futura casa, segundo ele – ela começou a apontar – esse aqui, o futuro celeiro. E esse aqui, o carro que ele está construindo.

O loiro observou o desenho do carrinho mais atentamente e depois viu que a mulher lhe apontava algo próximo a porta que dava para o quintal. Era um pequeno carro feito de madeira, as rodas pareciam de bicicleta de criança e o volante parecia um pouco grande para o mesmo, perecia ter pertencido a alguma máquina antiga - que Naruto desconhecia - utilizada na roça. Havia apenas um banco de couro, rasgado e velho, e o espaço disponível era para somente uma pessoa bem pequena.

- Koji deixa essas coisas espalhadas por toda a casa – ela disse num tom de repreensão.

- Isso é bem legal – ele respondeu animado – Digo, os projetos. Quantos anos ele tem?

- 10.

- Seu filho de 10 anos fez isso? Não brinca! – perguntou sem disfarçar sua incredulidade, recebendo um olhar de censura da esposa.

- Ele é bem esperto – viu a dona da casa dar de ombros.

- Quem o ajuda?

- Ninguém.

- Estou impressionado! – o loiro disse, boquiaberto.

Naruto ponderou por alguns instantes, segurando o próprio queixo. Analisou mais uma vez os papéis e deu uma olhada rápida na esposa antes de voltar a falar.

- Aqui não é lugar para o seu filho!

- Como?

- Seu filho é brilhante! Não merece ficar preso no meio do nada!

- Naruto... – Hinata começou a repreendê-lo, mas por fim desistiu, sabendo que não surtiria efeito.

- Sinto muito, senhor, mas com que direito você vêm à minha casa e tenta me ensinar a educar meu filho – a mulher respondeu seca, mas tentando ao máximo manter a educação.

- Hana – o loiro chamou, fazendo com que a dona da casa o olhasse com um misto de surpresa e medo – eu conheci se marido. Sou amigo dele e... Procurei você por todos esses anos.

Hinata suspirou pesadamente e colocou uma mecha do cabelo azulado atrás da orelha. No instante em que ouviu as palavras do marido seu coração acelerou e ela encarou o perfil do loiro, ansiosa, mas logo relaxou. Conhecia bem demais o homem com quem havia se casado, conhecia-o bem o bastante para saber que ele não seguiria o plano combinado.

A dona da casa deu três passos para trás assustada, até suas costas bater à pia da cozinha.

- O que querem comigo? Como me acharam?

- Calma – Naruto esticou as mãos em frente ao corpo, tentando tranqüilizá-la – Hinata é da polícia – indicou a esposa com a cabeça e achou melhor omitir o fato de que a mesma já não era mais uma policial – e eu sou Uzumaki Naruto.

- Não o conheço!

- Sim, eu sei. Mas eu conheci seu marido, Hiro Takashi. E, bem, prometi ajudar a família dele.

De imediato as lembranças invadiram-lhe a mente. O mesmo momento que lhe causara pesadelos nos primeiros anos de prisão. Naruto se lembrou de como tinha o advogado ajoelhado a seus pés, rezando e chorando, e de como os olhos de Hiro brilhavam de tristeza e incerteza, num pedido mudo para que a família ficasse bem.

- Mas não ajudou. – a voz de Hana o tirou de seus devaneios – Não ajudou Hiro, assim como a polícia também não o ajudou – sua voz saiu alterada pela mágoa, fazendo com que Hinata também se sentisse culpada – Koji e eu não precisamos da sua ajuda, senhor Uzumaki. Você só me será útil se puder reviver os mortos!

Naruto tremeu e engoliu em seco, no mesmo instante em que as narinas inflaram.

- Seu marido está morto. Eu sinto uma dor imensa em dizer isso, mas é a verdade. Enquanto você não superar isso, não vai poder ajudar seu próprio filho – ele respondeu enquanto gesticulava para esconder o fato das mãos ainda tremerem.

- O que quer dizer com isso?! – Hana deu uma risada forçada e sarcástica – Eu atravessei o país com esse menino. Viemos para um lugar onde ninguém pudesse nos achar, onde Koji estaria seguro.

A mulher fez um gesto com a mão desajeitamente, fazendo com que um dos copos próximos a ela, na pia, caísse ruidosamente e se espatifasse pelo chão.

Naruto arrepiou os cabelos com as próprias mãos, irritado. Expirou profundamente antes de soltar o ar lentamente, pensando no que dizer.

- Você tem razão, me desculpe. Acho que me expressei mal... Eu só queria dizer que vocês podem voltar a Tóquio, seria...

- Nunca!

- ... Seria melhor para o futuro de Koji. Você está certa de que ele está seguro aqui, mas olhe para essa cidade, é longe de tudo, é uma cidade de aposentados. Que futuro Wajima pode dar a ele?

- Estamos ótimos aqui! Temos um ao outro e o bastante para sobreviver.

- Sim, entendo perfeitamente – Naruto respondeu calmamente, mas depois de ter engolido a vontade de ser mais categórico – Peço apenas que você pense melhor. A vida, às vezes, nos traz surpresas, e nem sempre boas, e caso seu filho seja pego numa dessas surpresas, a única coisa que ele saberá fazer é plantar arroz.

Hana abaixou a cabeça e quando a ergueu novamente Naruto viu que ela tinha lágrimas nos cantos dos olhos. O olhar castanho preso firmemente em si fez o loiro perceber a aflição que os mesmos carregavam e então ele teve a certeza de que Hana já havia ponderado sobre isso. A mulher abraçou a própria cintura e se encolheu.

- Não precisa ter medo – a voz de Hinata interrompeu o silêncio, soando calma e compreensiva.

- A mão-negra está presa – Naruto disse, relaxando um pouco a tensão nos ombros – E Hinata e eu ajudaríamos no que fosse preciso, caso decidissem voltar para Tóquio.

Um barulho vindo do corredor chamou a atenção de todos os presentes, e quando olharam para a fonte do som, viram um menino de cabelos castanhos apoiado no batente da porta.

- Koji... – hana começou a dizer, mas o garoto correu em disparada.

Naruto o seguiu antes mesmo de pensar no que estava fazendo. Seguiu pelo corredor e saiu pela porta da frente da casa, contornou a mesma indo até o quintal e encontrando o garoto sentado na grama, com a cabeça entre os joelhos, ao lado de um casebre velho de madeira. Mas ao fundo Naruto viu um celeiro, um curral e algumas plantações. Ao longe, a plantação de arroz cobria toda a área até a encosta da montanha.

- Desculpe se ouvi sua conversa – ouviu o pequeno murmurar enquanto se sentava um pouco afastado dele.

- Não tem problema.

- Você era mesmo amigo do meu pai?

Confirmou com som rouco saído da garganta e sentiu as bochechas queimarem, envergonhado pela mentira que estava contando.

- Eu não vim chatear vocês, juro. Só... Queria que soubessem que existe alternativa.

A criança não respondeu e Naruto deixou o silêncio se instalar enquanto pensava em algo melhor para dizer.

- Mamãe não gosta de Tóquio – o menino respondeu simplesmente.

- Hm, e você? O que acha de lá?

O menino levantou a cabeça, ainda abraçado aos próprios joelhos, e deu de ombros.

- Mamãe diz que é muito perigoso.

- Você já morou lá, não se lembra?

Naruto engoliu em seco. Não sabia do que exatamente o menino se lembrava. Na época, ele tinha, no máximo, cinco anos, e o loiro não estava certo sobre quanto a memória de uma criança consegue absorver e guardar. Ele mesmo não se lembra dos seus cinco anos, mas, sabe que a mente das pessoas respondem de formas variadas. Naruto não fazia idéia do que esperar como resposta e isso o deixava ansioso.

- Lembro de algumas coisas – respondeu vagamente.

O silêncio incômodo pairou novamente entre eles e dessa vez o loiro deixou que ele permanecesse. Observou o sol se pôr ao longe, tingindo de laranja o horizonte.

- Você era amigo do meu pai, certo? – o menino continou de depois de Naruto acenar com a cabeça: - C-como ele era?

- Ah, você sabe... Cabelos castanhos... Você se parece com ele, na verdade – tentou ser o mais evasivo possível, não se lembrava com certeza de como era Hiro Takashi, o advogado e pai de Koji.

- Não é isso... Eu quis dizer como era o jeito dele...

Naruto pensou por uns instantes.

- Ele era bem corajoso – riu levemente, sabendo que dessa vez não mentia – e amava você e sua mãe com toda a certeza.

- Você o conheceu melhor que eu... – e então Koji diminuiu o tom de voz, quase sussurrando – V-você acha que ele fica chateado por eu não conseguir lembrar muito bem dele?

Naruto se espantou com a pergunta. Definitivamente não era isso o que esperava. Primeiro, receou em responder, não queria piorar a situação, mas depois pensou que, talvez, o garoto estivesse aflito e merecesse algo que o confortasse.

- Tenho certeza que não. – sua expressão anuviou e então encarou o rosto do pequeno queimando de expectativa – Sabe, agora eu tenho uma filha e consigo entender melhor algumas coisas. Se fosse preciso escolher entre a minha vida e a dela, eu escolheria a dela, sem dúvida, sem nunca me arrepender. Sabe por que? – viu o menino negar com a cabeça – Porque cada sorriso que ela desse, seria como meu próprio sorriso. Tenho certeza de que seu pai está vivendo através de você, através dos valores que ele te deixou, mesmo você sendo tão pequeno.

O pequeno sorriu alegre e passou os dedos pela medalhinha de prata que trazia no pescoço. Naruto pensou que aquele objeto, provavelmente, pertenceu ao Hiro.

- Mamãe sempre diz que papai era corajoso e defendia os mais fracos – seu sorriso morreu quase instantaneamente – Eu... Não posso ser parecido com ele. Eu não sou corajoso.

Naruto ergueu uma das sobrancelhas e passou a observar a casa.

- Por que acha isso? – perguntou sem querer pressioná-lo.

- Porque eu tenho medo de tudo. Tenho medo até mesmo de Tóquio, que mamãe odeia tanto...

- Por quê?

Naruto se arrependeu de ter perguntado, mas já não tinha mais volta. A resposta lhe veio à mente quase no mesmo instante em que a pergunta foi proferida.

- Foi onde eu vi meu pai pela última vez.

E então ele teve certeza. Em algum lugar da mente do pequeno existia uma lembrança tenebrosa, lembrança essa que o subconsciente escondeu, como forma de defesa, para que ela não o atormentasse. Mas o medo continuou.

- Tudo que me lembro é dele me mandando sair e minha mãe me puxando pela mão, para longe.

A tristeza que a voz carregava chegou aos ouvidos de Naruto e o fez tremer, sentindo-se impotente. Não havia muito que fazer. O único capaz de vencer o medo de Koji, era o próprio.

Naruto sentiu-se culpado pela milionésima vez aquele dia. Na verdade, a culpa nunca o largara por completo.

Koji era muito novo quando tudo aconteceu, por isso guardava tão poucas lembranças de Hiro, mas ainda se lembrava do último dia que vira o pai vivo. Naruto observou-o e viu nele apenas tristeza, nenhum sinal de qualquer outro sentimento.

- Tóquio é uma cidade grande – começou a dizer – tem todos os problemas de uma metrópole. Eu também fiquei um pouco assustado quando mudei para lá... Mas a gente acostuma. E tudo fica mais fácil quando fazemos amigos.

Naruto esticou a mão e tocou Koji no ombro, fazendo o mesmo se sobressaltar e Naruto desfazer o toque no ato. Era a primeira vez que eles tinham um contato direto.

- Todo mundo tem medo, até mesmo o cara mais forte do mundo. Mas o que é realmente importante é não deixar o medo vencer a gente. A gente tem que tentar ser feliz e lutar pelos nossos sonhos, e se estiver com medo, a gente finge que não tem.

O Loiro empurrou koji, que caiu de lado da grama o olhando assustado, e então se ergueu, indicando com a mão para o garoto fazer o mesmo.

- Estufa o peito – pediu – e agora diz "grr"... Vamos, cara. Vamos treinar sua pose de coragem.

Desconfiado e um pouco envergonhado o menino fez o que foi pedido e repetiu a pose mais duas vezes a pedido de Naruto antes de começar a achar aquilo engraçado e ao mesmo tempo constrangedor.

- Agora me mostra aquele carro que você construiu... Sua mãe me mostrou o desenho.

Seguiu o menino de volta à casa e observou atentamente enquanto o mesmo lhe explicava os desenhos e como havia feito o carrinho de madeira. Arriscou um olhar para Hinata e a viu interromper sua sentença para lhe lançar um sorriso sincero antes de retornar sua conversa com Hana. Elas falavam sobre bebês, pelo que Naruto percebeu, mas não deu muita atenção ao fato, pois Koji lhe esticava outro desenho, do curral.

Hinata mal terminou de dar água à Hikari e a pequena já começava a se remexer dentro do carrinho, movimento as pernas e os braços e dizendo coisas sem sentido. A morena estendeu um cachorrinho de borracha à filha, que o mordeu fazendo-o soltar um som esganiçado.

Koji se aproximou do carrinho, curioso. Observou Hinata atentamente antes da mesma movimentar a cabeça, indicando que ele podia chegar mais perto. Os olhinhos perolados cravaram nele com igual curiosidade. Hikari conversou com o menino na língua que só ela entende, fazendo com que ele apenas arqueasse uma sobrancelha, confuso.

Hikari começou a rir, agitando o brinquedo nas mãos até o mesmo cair no chão, mas ela não ligou. Continuava a rir e soltar sons engraçados pela boca. Esticou os dois bracinhos, querendo sair do pequeno cativeiro que lhe fora imposto. Koji a observava com interesse.

Koji ignorou os braços esticados, mas levantou um dos dedos e acariciou aquela mãozinha pequenina e perfumada. Um sorriso se formou em seus lábios enquanto sentia a maciez daquela pele.

- Ela é fofinha! – ele disse e todos riram do comentário.

Hikari agarrou o dedo esticado entre os seus com força, ainda balbuciando coisas incoerentes.

- Mãe! – Koji parecia ao mesmo tempo contente e assustado – Ela me segurou!

- Ela gostou de você – disse Hinata, sorrindo.

- É? – perguntou surpreso.

Koji retirou seu dedo da mão de Hikari e o pressionou de leve na bochecha dela, com extrema cautela, como se qualquer movimento mais brusco fosse machucar aquela pele rosadinha.

Hinata sorria quando decidiu procurar o marido com os olhos, mas quando levantou a vista, viu Hana com os olhos castanhos com algo próximo ao alívio, ao aconchego e na boca, brincava um pequeno sorriso.

Ao conversar brevemente com aquela mulher pode perceber o quanto ela se sentia solitária. Sem o marido, que claramente ainda sentia falta, sozinha com o filho em uma cidade rural e distante. Hinata torcia internamente para que tudo desse certo na vida dessa desconhecida.

Quando se despediram, mais tarde, Naruto deixou um telefone para contato. Para que qualquer um dos dois ligasse quando precisasse. Fora bastante categórico para que eles ligassem mesmo caso precisassem, que ele faria o possível para ajudar.

Mais tarde, no hotel. O casal se esforçava para fazer com que Hikari dormisse, mas a pequena apenas ria e rolava na cama, entre os dois. Parecia pensar que estavam brincando com ela.

Hinata começou a cantarolar uma canção de ninar para ver se acalmava a pequena.

- Acho que essa música vai afetar mais alguém além de Hikari – Naruto soltou um bocejo.

- Tudo bem, pode dormir também. Você deve estar cansado.

Ele concordou com a cabeça, mas não fez menção de se virar para dormir.

- Você acha que eles vão ligar?

- Acho que sim. Você passou confiança a eles.

- Você acha realmente? – perguntou surpreso.

Ela confirmou com a cabeça, pensando que, talvez, Naruto não saiba do poder que tem sobre as pessoas.

Quis mais do que nunca beijá-lo e se aconchegar nele, mas Hikari estava entre os dois, e talvez, pudesse machucá-la na hora de se esticar. Mas antes que pensasse em outro jeito para manter-se em contato com ele, a mão grande e protetora dele pousou sobre a sua.

E então Hinata se lembrou de uma conversa que ambos tiveram algum tempo atrás.

- Você não pode se sentir culpado para sempre, Naruto. A culpa corrói, mina a felicidade da pessoa. E eu não vou conseguir ser feliz ao seu lado, vendo-o triste todos os dias. Eu sei que você está arrependido, sei que você foi obrigado a matar, sei que já foi julgado e sei que já pagou por isso. Deixe que o destino te julgue agora, se ele achar que você não merece, vai dar um jeito de fazer você pagar.

"Eu amo você", viu ele dizer sem emitir som.

"Eu também", respondeu do mesmo modo.

Hinata fechou os olhos, tranqüila. Ali, naquela cama, estavam as coisas mais importantes para ela. E todos os caminhos tortuosos que a vida tomou durante os anos, culminaram naquele momento. Não sabia quem escrevia o destino, não sabia se existia alma gêmea, mas sentia que tudo ali estava perfeitamente encaixado. Estava exatamente onde devia estar. Ao lado de Naruto, o homem lhe encantou desde o momento que o vira. Com uma filha, a qual ensinaria a trilhar seu caminho sem medo, ensinaria a encaixar as peças embaralhadas do quebra-cabeça que chamam de vida.