CAPITULO VII
Durante a noite, Rin acordou várias vezes, vendo a luz da lua entrar pela janela, ouvindo a respiração de Sesshoumaru e observando-o dormir tranquilamente na cama ao lado.
Um sentimento de desespero a dominava. Cada vez mais se convencia de que tudo aquilo não passava de um simples arranjo que nada tinha que ver com os sentimentos.
Pela manhã, abriu os olhos e se deparou com Sesshoumaru andando pelo quarto, já vestido, mas sem o paletó. Não queria falar com ele e fechou os olhos outra vez, fingindo dormir. Mas podia observá-lo através dos cílios e viu-o colocar as abotoaduras de ouro e dar o laço na gravata cinza-escuro. Era óbvio que Sesshoumaru ia sair.
Se ao menos ficasse com ela, naquele primeiro dia em Paris! O primeiro da lua-de-mel. O que ela iria fazer naquela cidade desconhecida, o dia inteiro?
Sesshoumaru saiu do quarto para atender a uma batida na porta da saleta e logo ouviu-se um murmúrio de vozes e barulho do carrinho. Como na noite anterior, ele dispensou o garçom.
Em seguida Sesshoumaru trouxe o carrinho para o quarto. Havia pãezinhos, manteiga, geleia, biscoitos, frutas e um grande bule de café. Rin sentou-se na cama.
- Bom dia. O que vai querer? – ele perguntou.
- Café, por favor.
Sesshoumaru entregou-lhe a xícara, depois serviu-se e saiu para a sala da suíte.
Pela porta aberta, Rin podia vê-lo sentado à escrivaninha, estudando alguns papéis.
- Hakudoushi e alguns clientes virão jantar conosco hoje à noite, acompanhados pelas esposas. Sabe falar francês? – ele perguntou de lá, sem se levantar.
- Só o que aprendi na escola.
- Não faz mal. Mas esteja aqui às seis horas, está bem? – ao terminar o café, voltou para o quarto e vestiu o paletó. – Vou lhe dar uma mesada, mas por enquanto pode pegar o que precisa ali. – disse, apontando para uma pasta de couro marrom sobre a cadeira. – E se quiser comprar roupas, Sara pode ajudá-la.
- Sara Benoit. Trabalha no escritório de Hakudoushi. Virá buscá-la para passear.
Ele pôs a xícara no carrinho e sorriu.
- Já vou indo, então. Divirta-se, Rin.
Depois saiu, fechando a porta atrás de si.
Rin terminou o café, bebendo devagar. Não gostara da atitude de Sesshoumaru, deixando-a sozinha, como se dissesse: "Aqui está o dinheiro para gastar durante o dia. Saia e divirta-se, mas volte às seis para representar seu papel".
Era natural que lhe pagasse as compras, agora que estavam casados. Mas o modo como ele se comportava fazia pensar que estivesse pagando um serviço.
Ao abrir a pasta de couro, ficou surpresa ao ver a quantidade de notas em seu interior. Não pode evitar o mal-estar, no entanto. Não estava à venda e queria deixar isso bem definido.
Tomou banho e vestiu-se depressa, com medo que a moça chegasse logo. Tinha pensado em usar um conjunto novo de saia e blazer de linho creme, mas desistiu, vestindo jeans e uma camiseta de jérsei azul.
Afinal, era uma turista e não precisava sair como a sra. Sesshoumaru Fenton. Podia muito bem usar roupas confortáveis até as seis horas, quando se prepararia para o papel de anfitriã.
Como Sara não tinha chegado, sentou-se junto à janela, comento croissants quentes e observando as pessoas na praça, lá embaixo. Podia ver um homem e uma garota parados em frente ao vendedor de flores. Ele comprou um buquê e saíram de mãos dadas, a garota inclinando a cabeça para sentir o perfume das flores. Rin suspirou, sem entender por que aceitara um casamento sem amor. O dinheiro jamais fora seu principal objetivo na vida e até agora a lua-de-mel só lhe proporcionara bens materiais, sem o menor afeto ou emoção.
Sob o sabor doce da geleia havia um gosto amargo, que nada tinha que ver com a comida. Tentou pensar nos passeios que podia fazer durante o dia. Era melhor esquecer Sesshoumaru e aquele casamento estranho, suspirou. O telefone tocou e a recepção comunicou que a Srta. Benoit já estava esperando.
- Obrigada. Já vou descer.
O saguão era enorme e havia muitas pessoas por ali. Sem saber como reconhecer Sara Benoit, ficou parada, olhando em volta. Já ia perguntar na recepção quem a procurara quando uma jovem se aproximou.
- Co licença, é a sra. Fenton?
- Ah... sim.
A Srta. Benoit era tão alta quanto Rin e usava um conjunto de saia e blusa em tons de violeta, além de pulseiras e anéis cor-de-rosa. Os cabelos brilhantes e a maquilagem perfeita davam à moça a aparência de uma modelo.
Hakudoushi Fox já devia ter falado de Rin, mas ainda assim Sara a fitou com expressão critica, como se esperasse alguma explicação.
Rin pensou que devia se acostumar com a reação dos amigos de Sesshoumaru. Cada um que a conhecia demonstrava assombro, como se não entendesse o que o marido vira nela.
A Srta. Benoit tinha um ar autoconfiante e olhos frios, fazendo-a sentir-se pouco à vontade. Com certeza, quando voltasse ao escritório, contaria as fofocas para todos, descrevendo-as com detalhes.
- O que vamos fazer? Não conheço a cidade.
- Nunca esteve em Paris? – Sara pareceu atônita – Não é possível!
- É, sim. – Rin respondeu, impaciente.
- Talvez prefira ver as lojas? – a moça sugeriu, como se achasse que devia cuidar da aparência da Sra. Fenton.
- Seria ótimo.
O passei teria sido maravilhoso com Ayame ou qualquer amiga, mas Sara era autoritária e antipática, e queria agradar o patrão. Devia conhecer Kagura Cavell e era evidente que comparava as duas o tempo inteiro.
Levou-a às butiques da moda, às casas de alta costura no Champs-Elyseés, onde as vitrines eram maravilhosas. Rin viu diversas coisas que gostaria de levar, mas não tinha a intenção de comprar nem um alfinete sob o olhar crítico da Srta. Benoit.
Depois do almoço, voltam ao hotel e Rin se despediu, dizendo que precisava escrever algumas cartas.
- Se precisar de alguma coisa, é só chamar.
- Você me ajudou muito, obrigada por tudo.
Quando subiu para a suíte, tinha a impressão de escapar de um carcereiro ou de um repórter intrometido. Deixou-se cair numa poltrona e fechou os olhos para relaxar.
Dali para frente faria seus passeios sozinha, decidiu. Uma companhia agradável teria sido bem-vinda, mas Sara Benoit estava longe de ser simpática.
Ao descer para saguão, algum tempo depois, avistou a moça sentada num dos sofás da sala de estar. Procurou não ser vista, o que não foi difícil, pois Sara parecia muito ocupada, conversando e gesticulando, como se contasse uma historia muito engraçada.
"Já sei de quem ela está falando", Rin pensou, enquanto saía do hotel, irritada.
Parou um táxi e preparou-se ara conhecer de verdade a velha Paris. Foi ver a Mona lisa no museu do Louvre, passeou pelas ruas e praças apinhadas de gente e voltou a tempo de preparar-se para o jantar. Estava empolgada, finalmente achando que o dia tinha valido a pena.
Na suíte, não havia sinal de Sesshoumaru. Tomou banho e colocou o conjunto de linho, caprichando na maquilagem e nos cabelos.
Durante o dia, viu diversas roupas lindas, vestidos de seda e peças de lingerie que pareciam um sonho. Uma camisola com rendas e transparências, ideal para uma noiva, deixou-a morrendo de vontade de comprá-la. Agora, imaginava se teria coragem de voltar lá no dia seguinte, para buscá-la. A primeira viagem a Paris merecia ao menos uma compra especial.
- Olá! – chamou Sesshoumaru da sala de estar, interrompendo-lhe os pensamentos.
- Olá! – ela abriu a porta do quarto para responder.
- Saímos em dez minutos. Está muito elegante. – comentou, observando-a com atenção.
- Verdade? Obrigada.
Sesshoumaru atravessou o quarto e entrou no banheiro. Logo, ela ouviu o barulho do chuveiro e sentou-se perto da janela, na cadeira que estava se tornando sua preferida. Nem uma vez, desde o casamento, o marido tinha parado a seu lado ara conversar ou fazer companhia.
Ele saiu do banho, pronto para descer, vestindo um terno impecável. Estava simplesmente maravilhoso.
- Sara mostrou-lhe os lugares interessantes da cidade?
- Ela me mostrou as lojas.
- E o que comprou?
- Nada.
Ele franziu as sobrancelhas, intrigado. A esposa de um homem como Sesshoumaru Fenton precisava de um guarda-roupa melhor do que as poucas peças que Rin possuía.
- Tive a impressão de que Sara Benoit criticaria qualquer coisa que eu comprasse.
- E isso teria importância?
- Acho que não.
Em Tir Glyn, quando ele ainda fingia ser Tom Reading, tinha dito que ela precisava aprender a ser menos sensível, Rin lembrou.
- Esse conjunto é muito bonito, mas acho que você deveria comprar outro. Precisa de vestidos mais apropriados para sair à noite.
- É claro – ela respondeu com ironia. – Sua esposa precisa esta à altura do nome que usa, não é? Não se incomode, amanhã farei minhas compras. Só que prefiro ir sozinha.
- Como quiser. Podemos descer agora? Os convidados estão esperando.
Os homens eram de meia-idade e ambos pareciam ricos e bem-sucedidos.
Myouga Pellerin era um tanto gordo e Naraku La Clainche, bem magro. O Sr. Pellerin tinha uma esposa bem mais jovem, de cabelos vermelhos e olhos ansiosos que não se afastavam de Sesshoumaru um só minuto.
A sra. La Clainche, por sua vez, era uma parisiense típica, quase da mesma idade que o marido. Estava muito elegante num vestido de seda preto, enfeitada por um magnífico colar de esmeraldas.
Sesshoumaru fez as apresentações e todos analisaram Rin com ar tão critico que a única maneira de enfrentá-los foi pensar que eram iguais aos clientes que a procuravam em Londres. A segurança e a confiança em seu trabalho faziam com que não sentisse vergonha na frente deles. A Sra. Sesshoumaru Fenton estava insegura no seu papel, mas a decoradora Rin Latham podia enfrentar qualquer pessoa.
A refeição foi deliciosa: peixe ao molho de cogumelo, pato com laranja, aspargos na manteiga, queijos e musse com licor.
Todos conversaram em inglês, para que Rin entendesse e, no final, como sabiam de sua profissão, começaram a falar sobre decoração. A sra. La Clainche aproveitou para pedir um conselho.
- Tenho um quarto do qual não gosto, quem sabe pode me dar alguma sugestão. Mudamos há pouco e não tive tempo de fazer muita coisa. Você vai ver no sábado.
Rin nem fazia ideia de qual era o programa para o fim de semana, mas sorriu, ouvindo com atenção.
- Não é um quarto grande – a mulher continuou – mas o teto é alto demais.
- De que cor é o tapete?
- Verde, um tom verde-maçã.
- Se pintar o teto da mesma cor, ajudará a dar a proporção ao quarto.
Começaram a discutir truques de ilusão de ótica e a senhora perguntou se continuaria a trabalhar, agora que estava casada...
Sesshoumaru respondeu por ela.
- Minha esposa é uma excelente profissional – disse, sorrindo e colocando a mão sobre a de Rin. – Não ficaria feliz em viver à sombra de outra pessoa.
A voz revelava admiração e Rin imaginou se era isso o que ele pensava de verdade. De qualquer maneira, sentiu-se melhor no meio daquelas pessoas do que na companhia de Sara.
Durante o resto da noite, o marido a cobriu de atenções e ninguém adivinharia que era um casamento de conveniência. Quando os olhares de ambos se encontravam, Rin corava e sentia o pulso bater mais forte.
- Espero não tê-lo decepcionado. – ela comentou ao voltarem para a suíte.
- Decepcionar?
No quarto havia apenar uma pequena lâmpada acesa e Sesshoumaru caminhou até a janela para fechar as cortinas.
- Por que teria me decepcionado?
- São todos tão bem-sucedidos e ricos, não é? Acho que esperam uma esposa especial. – Rin também foi até a janela, debruçando-se para observar a praça lá embaixo, deserta nessa hora. – Há uma barraca de flores durante o dia. Fiquei olhando hoje de manhã e senti que preferia ter um buquê a todo aquele dinheiro da maleta.
- Pois terá suas flores – respondeu ele, sorrindo, um tom afetuoso na voz.
- Obrigada.
Mas não queria uma simples entrega por mensageiro, quase obrigatória, depois desse pedido. Gostaria que ele mesmo lhe comprasse as flores e depois passeassem de mãos dadas, para conhecer Paris.
Em Tir Glyn ele a abraçara e beijara, mas depois do casamento, mal a tocava, apesar de nessa noite haver um elo invisível a uni-los. Não podia explicar, mas era como se fosse Tom outra vez.
- Amanhã... – ela começou.
- Vou sair bem cedo e voltar tarde, mas se precisar de alguma coisa... – provavelmente ia dizer que telefonasse para o escritório, mas Rin o interrompeu.
- Vou passear e comprarei outro vestido. É verdade que viajamos no sábado?
- Sim. Vamos para a casa dos La Clainche e, se os conheço bem, darão uma festa.
- Então precisarei de alguma coisa para usar na festa. – Ela estava cada vez mais consciente da proximidade de Sesshoumaru e desejava que a tocasse.
- E poderá ver o tal quarto de teto alto. Ah, lembre-se de que é uma profissional, pois Naraku tentará conseguir uma consulta gratuita.
- Não posso cobrar se sou hospede da casa, não é?
- Não desta vez.
Sesshoumaru passou o braço à volta dela e Rin pousou a cabeça no ombro forte. A lua brilhava no céu, refletindo-se nas árvores do parque e projetando sombras entre elas.
O quarto estava na penumbra e Rin desejou que Sesshoumaru dissesse que a amava. Se fosse assim, não teria medo de amá-lo, nem de consumar o casamento que até então só existia no papel. Se ao menos continuasse gentil e atencioso, como há pouco na frente dos amigos...
O telefone tocou e Sesshoumaru correu para atender, acendendo mais luzes. Era uma conversa de negócios e demorou bastante. Enquanto falava, tomava notas, sem prestar atenção a Rin.
Saindo do quarto, ela entrou no banheiro e preparou-se para dormir. Ao voltar, viu-o sentado à escrivaninha com várias folhas de papel à frente.
- Boa noite – ele disse.
Pouco minutos depois, entrou no quarto para pegar um livro na maleta e saiu, em seguida, fechando a porta de comunicação.
Frustrada, Rin foi se deitar sozinha. Imaginou se Sesshoumaru teria saído de novo. Eram pouco mais de dez horas e um homem de negócios tão dinâmico podia muito bem marcar um encontro comercial. Bastava abrir a porta e olhar para saber se ele estava na saleta, mas permaneceu deitada, sem coragem de confirmar a dura realidade que vivia.
Acabou adormecendo, cansada, depois do dia movimentado.
-00-
No dia seguinte, Rin aproveitou ao máximo para conhecer a cidade. Não se importava em andar sozinha e comprou um mapa de Paris para se orientar. Visitou a Torre Eiffel, os jardins das Tulherias, Montmartre, o bairro dos artistas, e andou pelas ruas movimentadas.
Numa pequena butique, escondida numa rua lateral, comprou um conjunto de calça e blusa de cetim cor de pêssego. A calça era larga e levemente bufante e a blusa tinha um decote maior do que costumava usar. Para combinar, escolheu um paletó de seda no mesmo tom e adorou o efeito ao se ver no espelho.
O caimento era perfeito, mas custou quase todo o dinheiro que levara. Sem se importar, achou que valia a pena fazer uma extravagância para comemorar sua primeira visita a Paris.
No final da tarde, voltou ao hotel e pediu para que servissem o jantar no quarto, pois não ousaria descer para o salão de refeições sem Sesshoumaru. Sentada em sua poltrona favorita, saboreou os pratos deliciosos, observando o buquê de flores arrumado num vaso sobre a mesinha.
Tinha recebido as flores, mas duvidava que Sesshoumaru as tivesse escolhido. O mais provável é que incumbira alguém de comprar, talvez até Sara Benoit, que continuava encarregada de distraí-la e mantê-la satisfeita.
Talvez devesse sair para ver algum filme ou ir ao teatro, mas em vez disso continuou no hotel à espera de Sesshoumaru, que nem se importava com ela. "Ele só desejava uma esposa que fosse discreta e bem-comportada e que lhe permitisse dormir com outras mulheres", Rin pensou com tristeza.
Se fosse ciumenta, a situação poderia ser terrível... Mas mesmo que quisesse não podia interferir, nem fazer escândalo. Aquele casamento era só fingimento.
Para relaxar, escolheu sais e espuma para banho entre os vários vidros disponíveis no banheiro. Dentro da banheira, pensou que se as noites de solidão em hotéis se tornassem rotina, essa era uma boa maneira de passar o tempo.
Sesshoumaru chegou tarde. Ao vê-lo entrar no quarto, Rin sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Mas a expressão do marido era a mesma que teria se estivesse vestida. Vê-la na cama só de camisola não significava nada. A intimidade do momento não parecia afetá-lo.
Nunca passara uma noite sozinha com um homem até o casamento, mas ele não parecia nem um pouco embaraçado em começar a se despir na frente dela como se costumasse fazê-lo sempre. Apesar de ser esposa dele, Rin jamais teria coragem de fazer a mesma coisa.
- Eu gostaria de ter um quarto só para mim, Sesshoumaru. Acho que, nas circunstância atuais, não há problema, não é?
- Nenhum problema. Só que prefiro manter a aparência de um casamento convencional durante a lua-de-mel. Quando voltarmos para casa, poderá ter seu quarto. E acho que também vai precisar de um escritório, não é?
- Meu velho escritório não serve? – Rin perguntou.
- Se preferir. É parte do acordo – ele sorriu. – E vou promover sua carreira em grande estilo. Além de estabelecer uma boa mesada para seus gastos. – Quando mencionou a quantia, Rin ficou muda de surpresa. – Vai precisar do dinheiro – Sesshoumaru insistiu.
- Para ser o tipo de mulher que deseja?
- Sim.
- Você disse que precisava de uma esposa para evitar as mulheres que perseguiam você... Não acha um absurdo se casar só para fugir?
Sesshoumaru estava decalco, sem camisa e andava pelo quarto à procura de alguma coisa. As costas largas eram musculosas e fortes e o tom de pele se assemelhava ao mogno dourado. Antes, Rin pensava que o bronzeado se devia ao trabalho de jardineiro, mas agora sabia que o marido podia tomar banho de sol sempre que quisesse.
- As coisas não são tão simples assim, Rin.
- Sou uma pessoa simples.
Sesshoumaru tinha aberto a gaveta da cômoda, mas ao ouvi-la levantou a cabeça, fitando-a através do espelho.
- Não tente se enganar. Você sabe que isso não é verdade.
De certa maneira, ele estava certo. Ela era uma pessoa tão complicada que nem conseguia entender as próprias reações. Arrumando o lençol de cetim sobre os joelhos, perguntou, sem coragem de encará-lo.
- Mas não foi por isso que se casou comigo? Porque sou uma pessoa simples?
- Escolhi você porque não desejava uma esposa que tivesse influencia sobre mim. Não quero viver sob o domínio de nenhuma mulher.
Olhando aquele rosto duro e decidido era difícil de acreditar que alguma mulher o tivesse magoado, mas esse parecia ser o sentido do que ele falara. Com raiva, Rin pensou que Kagura Cavell o ferira tanto que Sesshoumaru acabara fechando o coração.
- Não quer amar ninguém?
Sesshoumaru riu, um pouco irônico.
- Pelo contrário. Desde que seja apenas um relacionamento físico.
"Mas sexo, sem nenhum envolvimento emocional, não podia ser chamado de amor", Rin pensou. Sesshoumaru a escolhera por saber que ela não queria se aproveitar do dinheiro ou da posição social dele. Parecia disposto a manter um relacionamento cordial, mas sem maiores envolvimentos. Se não o aborrecesse, teria em troca uma vida confortável, possibilidades de fazer sucesso na profissão... Droga! Mas não era o que desejava! Tinha se casado por amor, apaixonara-se por aquele adorável Tom Reading, um companheiro maravilhoso! Jamais esperara que os sonhos se desmanchassem tão depressa.
- Comprei uma roupa nova, hoje à tarde. Esta no guarda roupa. – Mudou de assunto, antes que a mágoa se tornasse por demais evidente.
Ele abriu a porta do armário e viu o conjunto pendurado, um tanto separado do resto das roupas. Pegou o cabide para observar melhor.
- É este? É para usar de dia ou à noite?
- Durante o dia, acho – ela gaguejou ainda tensa pela conversa que acabavam de ter. – Pretendo usá-lo amanhã, na festa. Fica bem mais bonito no corpo. O cabide não dá ideia do corte.
- Espero que fique bem – disse ele. E Rin imaginou como Kagura Cavell teria se vestido para a ocasião.
- Bem, talvez não fique tão perfeito assim. – ela desculpou-se, pensando que seu corpo magro demais dificilmente realçaria roupa alguma.
Sesshoumaru começou a rir e ela também acabou se descontraindo um pouco.
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Como só iriam para a casa dos La Clainche à tarde, na manhã seguinte Rin resolveu dar uma passada no cabeleireiro do hotel.
Usava o mesmo corte de cabelo há muito temo, partido de lado e meio caído sobre o rosto. De certo modo, esse estilo lhe permitia se esconder, mas naquele dia resolveu mudar, penteando-o para trás. Afinal, todos diziam que os olhos cor de avelã eram um de seus pontos fortes e valia a pena ressaltá-los.
O jovem cabeleireira tinha muita experiência e cobrou muito caro pelos seus serviços, mas valeu a pena. O resultado foi excelente e, ao voltar para a suíte, Rin olhou-se no espelho, feliz com o que viu.
Estava muito mais bonita do que no dia do pelo meio da sala sorrindo com uma modelo. Ao ver Sesshoumaru entrar, corou.
- Olá! – ele disse.
- Mudei o penteado – ela riu, satisfeita. – Estava me admirando no espelho.
Sesshoumaru sorriu com aprovação.
- Tenho um presente para você. – Disse, estendendo-lhe três caixas de couro azul: uma comprida e fina, uma pequena e quadrada e uma maior e retangular.
Eram caixas de joias e Rin ficou surpresa, pois nunca possuíra nada além de um relógio de pulso. Jamais ganhara um presente de grande valor.
Escolheu a caixa maior e começou a abri-la, trêmula de expectativa.
- Oh!
Era um lindo bracelete de ouro em forma de espiral. As outras continham uma correntinha com um adereço de jade branco e um pequeno par de brincos de ouro.
- Não tenho orelhas furadas. Acho que não poderei usar.
- Não são para orelhas furadas. Têm presilhas.
Ao tirá-los da caixa, Rin murmurou:
- Tenho medo de perdê-los. Ficaria arrasada se isso acontecesse.
Sesshoumaru sorria, fitando-a com intensidade.
- Se perdê-los, não terá a menos importância.
- Terá sim. Jamais ganhei um presente como esse. Mas acho que é o complemento perfeito para meu conjunto novo.
Eram lindos! Com certeza Sesshoumaru devia ter pedido a algum funcionário para comprá-los, assim como fizera com as flores... Assim mesmo ela estava feliz.
- Não costuma usar joias, não é?
- Não, mas estas são meu estilo. – Ela colocou o bracelete, admirando-o. – São exatamente o que teria comprado, se algum dia tivesse dinheiro.
Ele riu.
- Não diga que as coisas era tão difíceis assim. Estava ganhando um bom dinheiro, não é?
Caminhando até o espelho para prender os brincos, Rin lembrou-se que o dinheiro não sobrava porque entregava tudo a Kohaku. Mas é claro que não ia contar isso a Sesshoumaru.
- Ainda estou começando. Tir Glyn era minha grande chance e até então precisava contar cada centavo.
- Bem, já não precisa mais.
Isso era muito bom, mas de certo modo diminuiu o prazer de receber o presente, pois mostrava que as joias não significavam muito para ele. Com o dinheiro que Sesshoumaru possuía, aquela lembrança tinha o mesmo valor que uma caixa de chocolate.
- As joias são lindas, Sesshoumaru. Obrigada, vou adorar usá-las.
A residência dos La Clainche ficava a cerca de uma hora de Paris e era uma construção espetacular, erguida sobre uma colina. Rin ficou impressionada com as formas elegantes e com a suntuosidade do espaço. Antes de entrar, ela parou no terraço para observar a paisagem e avistou um mar de telhados cinzentos de um lado e um rio que serpenteava entre flores amarelas de outro.
O casal foi recebido com carinho e Rin pensou que Sesshoumaru estava certo, quando lhe disse que haveria uma festa à noite. Os donos da casa os conduziram a um quarto luxuoso e depois foi servido um almoço informal. Passaram a tarde descansando e conversando na ampla sala de estar e finalmente foram se aprontar para a festa.
Rin vestiu o conjunto novo e colocou as joias. A rinsagem que fizera no salão de beleza do hotel acentuava o tom castanho dos cabelos e a maquilagem leve dava um toque especial ao rosto. O cetim caía no corpo e linhas sensuais e o brilho do ouro completava o efeito.
Saiu do banheiro e caminhou para Sesshoumaru, que estava sentado no quarto, lendo a correspondência de negócios.
- Como estou? – perguntou esperançosa, mas ainda insegura, temendo ouvir um comentário brusco.
- Maravilhosa.
Também ele estava maravilhoso com o paletó de veludo preto, calça preta e uma fina camisa branca. Ao vê-lo levantar-se, Rin desejou que a beijasse, mesmo sabendo que não devia. Estava brincando com fogo e podia acabar muito ferida.
- Podemos descer? Já está na hora?
- Sim, Rin. Vamos.
Depois da festa, voltariam para o quarto e aí estava o problema, pois ali havia uma única cama de casal. Pela primeira vez iriam dormir juntos e ela temia pelo que pudesse acontecer nessa noite.
Quando entraram no salão, os convidados a fitaram com curiosidade, mas conseguiu agir com naturalidade diante daqueles olhares. A sra. La Clainche aproximou-se e a apresentou aos outros como "uma jovem, muito inteligente", que se especializara em decoração. Fez inúmeros elogios, como se tivesse visto o trabalho de Rin.
Pelo mesmo as pessoas a tratavam com respeito por causa do trabalho, mas ela achou os elogios exagerados. Era dedicada e inteligente, mas não se considerava nenhum gênio. Sentiu alguma dificuldade em conversar, pois só falava inglês, mas assim mesmo acabou se tornando amiga de muitas pessoas.
A festa acabou tarde e, ao subirem para o quarto, Sesshoumaru sentou-se para ler uns papéis, enquanto ela se despia no banheiro e guardava as joias. Rin tirou a maquilagem e escovou o cabelo, vestindo a camisola. Chegara o momento que tanto temia.
Ao voltar para o quarto, pendurou o conjunto no guarda-roupa e guardou as caixas de joias. Em seguida, deitou-se. A cama era enorme, mas teria de dividi-la com o homem com quem se casara e que achava cada dia mais atraente. Perigosamente atraente.
Não podia mostrar que se apaixonara. Isso não fazia parte do acordo e ele não queria que acontecesse. Além do mais, o resultado seria apenas dor e tristeza, difíceis de suportar.
Ficou deitada, tensa, bem no canto da cama. Se fingisse dormir, talvez ele não a tocasse, nem falasse... No entanto, assim que se pôs sob as cobertas, Sesshoumaru virou-se para ela:
- Sinto muito por isso, Rin, mas os franceses são muito práticos e estamos em lua-de-mel.
- Está tudo bem. – ela respondeu, achando que agia como uma tola. Sesshoumaru devia pensar o meso, pois riu.
- Tem minha palavra de que jamais tomei uma mulher à força.
Rin queria que ele a abraçasse, apertando-a contra o corpo forte e quente, fazendo-a chorar e rir. Mas não ousou. Sesshoumaru não cederia a outra mulher, depois de Kagura.
- Acredito. Não osso imaginá-lo perdendo a cabeça. Especialmente comigo. – ela falava baixinho.
- Quer que eu faça amor com você?
Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha, encarando-a. Ela virou a cabeça devagar e observou como a pele bronzeada contrastava com os lençóis brancos. Sentiu um desejo enorme de tocá-lo.
Se respondesse "sim", seria mulher dele de verdade, não apenas no nome. Só que isso não mudaria os sentimentos de Sesshoumaru, que se dispunha apenas a cumprir o papel de marido. Não estava disposta a aceitar um relacionamento físico se não havia amor nem carinho da parte dele.
- Então, Rin? Não quer mesmo?
- Não, obrigada.
- Você ode achar muito agradável.
Sesshoumaru não estava ofendido, nem aborrecido, continuando a sorrir.
- Não se ofende com facilidade, não é?
- Não.
- E nem costuma perder temo com o que não vale a pena – ela prosseguiu com um sorriso tímido. – Não estive tão mal esta noite, não achou? Nem fiquei calada, como vamos encontrar amanhã?
Sesshoumaru começou a contar, falando dos próximos lugares que visitariam: Bruxelas, Amsterdã e, por fim, Hamburgo onde ele encontraria alguns representantes para concluir um negócio importante.
Rin foi se descontraindo aos poucos, mas quando ele sugeriu que era melhor dormirem, ainda ficou muito tempo, acordada, pensando.
A noite estava muito quente e tinha consciência do corpo de Sesshoumaru, tão próximo ao seu. Se dormisse, poderia virar-se sem querer e acabar encostando nele. A preocupação a manteve no canto da cama, imóvel. Mas o cansaço acabou por vencê-la e por fim adormeceu.
Acordou com o som de trovões e instintivamente sentou-se, sobressaltada, puxando os lençóis. Sesshoumaru também acordou de imediato.
- O que foi?
- Isso é um trovão?
Rin apertava as mãos fechadas contra a boca e seus ombros temiam.
- Tenho pavor de tempestades. – murmurou.
- Gritos e tempestades?
- Sim.
- Nunca tentou descobrir a causa?
- Não. – A voz dela era um sussurro.
Por u momento, nada perturbou o silencio. Se houvesse uma tempestade, estava bem longe. Uma coruja gritou na noite.
- Bem, se ouvi-lo de novo me acorde e pensarei em alguma coisa para mantê-la distraída.
Apesar do medo, ela quase riu. Sesshoumaru tornou a deitar-se e logo estava dormindo. Se a tempestade chegasse teria de acordá-lo, ela pensou, mas também acabou pegando no sono.
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Ahá mais um capítulo!
O que estão achando? me contem - me contem!
O sesshy dá me deixando louca, mas acho que não sou a única.
Rsrs até aproxima.
Agradecimentos Especiais: Graziela Leon e Raha-chan! Obrigada!
De pé, reverência, AYE!
