CAPÍTULO IX

O grupo se dividiu em dois carros na hora de sair para o chalé de Kagura. Os Gillian preferiram ir com Sesshoumaru e Rin, pois se sentiam mais à vontade com eles. Como Sesshoumaru levara a atriz para a casa na noite anterior, o pessoal do outro carro deixou que partissem na frente para indicar-lhes o caminho.

A princípio, Rin pensara em não ir. Mas depois da tempestade, o sol brilhava forte e o céu azul prometia um dia maravilhoso. Não havia desculpa para permanecer em Tir Glyn e, mesmo que detestasse Kagura e não se sentisse à vontade de maiô, não teve outra alternativa.

Tomaram a estradinha de terra e em menos de meia hora chegaram ao local.

O chalé era a única construção das redondezas. Toda feito de pedra, com portas e janelas pintadas de azul, adequava-se perfeitamente para uma temporada de férias. Mas devia ser terrível ficar ali no inverno, Rin pensou, enquanto descia do carro.

Kagura esperava na porta, usando apenas um minúsculo biquíni verde-mar e o vento balançava seus cabelos sedosos.

Assim que ela avistou Sesshoumaru, correu a abraça-lo.

- Bem-vindo ao lar, querido.

- É muito gentil – ele respondeu, rindo.

Rin desejou ter coragem para dizer o que pensava de Kagura, mas apenas conseguiu virar o rosto para o outro lado.

O segundo carro chegou e todo foram conhecer o interior do chalé. Havia uma pequena sala de estar com três portas, sendo que uma dava na cozinha, outra no banheiro e a terceira aos dois dormitórios. A mobília de pinho era simples e um pequeno sofá de tecido estampado completava a decoração. Nas paredes havia algumas gravuras com flores. Não havia nenhum dos objetos luxuosos que Kagura tinha no seu apartamento na cidade.

Na verdade, o ambiente era simples demais para o gosto da atriz. Não era provável que ficasse ali por muito tempo. Por certo, esperava resolver logo a situação com Sesshoumaru e mudar-se para Tir Glyn.

Com raiva, Rin mais uma vez se lembrou que não podia interferir,pois era parte do acordo deixar Sesshoumaru livre. Mas se a atriz passasse uma só noite em Tir Glyn, iria embora para sempre.

Kagome dizia que o chalé era lindo e a vista encantadora, quando Kagura perguntou:

- Não gosta, Rin?

Percebendo que devia estar com uma expressão zangada, ela respondeu:

- Muito. É maravilhosa.

- Bem, acho que não devo lhe pedir que o decore. Afinal, da última vez custou caro demais.

- Vai ficar muito tempo por aqui? Pensei que fosse apenas durante o verão – a voz de Rin soou fria.

- Ora, eu adoro esta região. Esqueceu que planejava morar aqui?

- Só que não nesta casa.

Kagome, Inuyasha e Miroku saíram para apreciar a paisagem, evitando presenciar a briga.

- Nós duas sabemos que é temporário – Kagura disse em voz doce. – Ou você já se esqueceu porque Sesshoumaru casou com você?

Rin não respondeu. Dirigiu-se para a porta com intenção de sair, mas a atriz se adiantou e impediu-lhe a passagem, falando em voz baixa e cheia de maldade.

- Ele pensou que eu viria correndo, ao saber do noivado, mas eu não acreditei que fosse levar adiante essa ideia absurda. Achei que era um blefe. Só que Sesshoumaru é teimoso demais... E o resultado é estar amarrado a você!

Rin não ousou falar. Se abrisse a boca, começaria a gritar pela primeira vez na vida. Virou-se para a porta da cozinha, imaginando que lá devia existir outra saída, mas de novo Kagura se colocou diante dela.

- Quanto a Sango, saiba que a despedi por ter permitido que você permanecesse em Tir Glyn sozinha com Sesshoumaru.

- O quê? Mas é injusto! Ela não sabia. Não teve culpa!

- Não posso fazer nada.

A porta se abriu e Lilian entrou, mas Rin nem reparou na amiga. Fitava a atriz, indignada.

- Como teve coragem de punir Sango por uma coisa que... Você não podia fazer isso, Kagura!

- Quem pensa que é para me dizer o que devo ou não fazer?! Sango já arrumou outro emprego, não foi nenhuma tragédia!

- Onde?

- Não sei. – Kagura deu de ombros.

- Bem, eu vou descobrir.

- Vai mesmo? Então diga que mandei lembranças. – A atriz entrou na cozinha e apanhou uma garrafa de vinho no armário. Voltando, estendeu um copo a Lilian. – Experimente, querida. Mas acho que não devemos oferecer a Rin. Ela já está muito nervosa.

Lilian pegou o braço da amiga, puxando-a para a porta.

- Venha! Precisamos de ar puro. – Conduziu-a pela escada que levava à praia. – É claro que Kagura agiu mal. Só que conhece bem o assunto, pois despede os empregados a cada mês, por isso duvido que tenha contrariado alguma lei.

"Sango não parecia muito satisfeita com o trabalho, mas assim mesmo era duro ficar sem emprego". Rin pensou, preocupada.

- Não conheço bem a moça – continuou Lilian. – Mas a vi algumas vezes e sei que não terá dificuldade em arrumar uma boa colocação.

- A menos que Kagura dê má referências. E ela é bem capaz disso.

As duas tinham dado a volta na casa, chagando a um terraço que tomava toda a extensão dos fundos. Inuyasha abrira a garrafa de vinho e enchera os copos de Kagome e Kagura.

- Será que Jaken pode descobrir alguma coisa para Sango? – Rin pediu. – Se eu falar com Sesshoumaru, Kagura ficará sabendo e não quero que interfira.

- É bem provável – Lilian sorriu. – Por que não dá um mergulho? A água está deliciosa e nadar é muito relaxante.

- Não para mim. Não sei nadar.

- Então vamos tomar um copo de vinho e depois andar pela praia.

Mas Jaken apareceu e chamou a esposa para dar um mergulho, de modo que Rin ficou sozinha. Então, sentou-se nas rochas e ficou olhando os outros se divertirem.

-00-

O dia estava lindo e a enseada era encantadora. Depois do almoço, todos foram para a praia. Outro carro apareceu e um casal jovem com três crianças se instalou num dos lados da enseada.

Kagome e Kagura usavam biquínis sumários. A pele de Kagome era bem bronzeada, mas o corpo de Kagura tinha formas mais perfeitas. A atriz fazia tudo para ficar perto de Sesshoumaru. Se ele andava na praia, ia junto; se deitava para tomar sol, dava um jeito de também estender-se na areia.

Rin usava um maiô coral com uma camisa por cima, mas não ousava tirá-la na frente de ninguém. A certa altura, Kagura aproximou-se dela.

- Não está com calor, assim cheia de roupa? – perguntou num tom falsamente doce.

- Me queimo com facilidade.

- Use meu bronzeador – Kagome ofereceu. – É muito bom e não deixa que se queime demais. – Tentando ser gentil, a moça pegou o frasco e o entregou a Sesshoumaru.

"Se ele me tocar", Rin pensou, "vou gritar e chorar na frente dos outros". Seria a primeira vez na vida, mas sentia tanta raiva que era capaz de dar um escândalo. Mas ele apenas lhe estendeu a mão, sem sair do lugar.

- Obrigada, vou experimentar.

Passou o óleo pelo corpo, enquanto Kagome e Inuyasha corriam para o mar, mergulhavam e brincavam nas ondas. Miroku lia o jornal e às vezes olhava as gaivotas e os barcos de binóculo.

- Vamos nadar? – Sesshoumaru sugeriu.

- Não sei nadar.

- Eu ensino.

Sem coragem para tentar, na frente de Kagura, Rin recusou. Tinha medo de ser ridícula.

- Acho melhor tentar na piscina primeiro.

Kagura riu, pois só estava esperando uma oportunidade como aquela.

- Eu vou com você, Sesshoumaru – disse, puxando-o pelo braço.

Mas ele soltou a mão e a deixou correr na frente, virando-se para a esposa.

- Não quer mesmo tentar?

- Não. Estou bem aqui.

Logo se arrependeu de agir com timidez. Sesshoumaru e Kagura nadaram para o fundo e não pôde mais vê-los direito. Virou-se para Miroku, que olhava pelo binóculo.

- Consegue vê-los? – perguntou. – Acho que estão muito longe... Não será perigoso?

- Não se preocupe. Kagura é boa nadadora e Sesshoumaru também. Tome, peque o binóculo para ver.

Ajustando-o, Rin viu primeiro Kagome, mas logo mudou a direção das lentes para o que realmente interessava: Sesshoumaru e Kagura. Os dois conversavam animados e ela não conseguiu evitar o ciúme.

- Obrigada, Miroku. Não é incrível? – perguntou, devolvendo o binóculo.

- O que é incrível?

- Como se vê bem com ele. Parece que as pessoas estão do nosso lado.

Miroku era um homem gentil. Notando-lhe a preocupação, levou a conversa para um assunto que pudesse animá-la.

- Fez um trabalho magnífico em Tir Glyn, Rin.

- Obrigada.

- Eu gostaria de redecorar alguns quartos em casa.

- É claro. Onde fica?

- Marlborough.

- É uma cidade linda. Conte-me sobre a casa.

Sentada com os braços à volta dos joelhos, ouviu-o descrever a propriedade.

Miroku era divorciado duas vezes e muito charmoso. Para conversar, tinha se aproximado e agora sorria, provocante. "Será que está atraído por mim?", Rin se perguntou, mas logo afastou a ideia, achando-a impossível. Pouco à vontade, resolveu sair dali.

- Aonde vai?

- Para o chalé. Talvez precisem de ajuda.

- Fique aqui. Kagura tem uma faxineira, que virá limpar tudo mais tarde.

- Eu sei. Só que estou com calor e prefiro entrar.

O mar era a melhor opção para se refrescar, mas não tinha coragem de nadar. Os pratos e os copos do almoço estavam na mesa da sala de jantar e Rin levou-os para a cozinha. Não precisava fazer isso, mas era um modo de fugir dos outros e ficar na sombra, pois o sol já começava a lhe dar dor de cabeça.

Jaken e Lilian não tinham voltado. Sentiu inveja daquele casamento que dava tão certo. Ambos gostavam de estar juntos e eram felizes.

Se tivesse casado com Tom, poderiam morar num chalé tão simples como esse, onde seria feliz e amada. Rin podia se ver ao lado dele, passeando pela praia, aprendendo a a realidade era bem diferente.

Enquanto lavava louça, Miroku entrou.

- Você está bem?

- É claro. Vou fazer um café, aceita uma xícara?

- Aceito.

Ele sentou numa cadeira, observando-a. A ideia do café tinha surgido de repente, como um meio de evitar uma conversa mais intima.

Ao olhar pela janela, viu que todos haviam saído da água. Kagome se enxugava com a toalha, Kagura sentara-se numa pedra, penteando os cabelos e Sesshoumaru olhava em volta. Ao ver a esposa, acenou e começou a andar para a casa. Kagura levantou depressa e o seguiu.

- O café está quase pronto – Rin avisou, assim que entraram. – Espero que não se importe, Kagura.

- Por que deveria me importar? Adoro café. Ah, e parece que arrumou a cozinha, também. Olá, Miroku, não vi que estava com Rin. Não pensei que fosse tão domestico.

- Está enganada. Posso ser muito útil numa cozinha. – ele riu com malicia.

- Aposto que sim. Não está ficando corada, não é, Rin?

A raiva fez com que o rosto dela corasse, pois Sesshoumaru também ria daquela brincadeira sem graça. A chaleira ferveu e o marido se aproximou para colocar o pó na água. Desta vez Kagura não zombou.

Quando os Gillian chegaram, era hora de voltar a Tir Glyn e o domingo tinha acabado. Rin suspirou de alívio.

Estavam entrando nos carros, quando Inuyasha bocejou.

- Estou exausto com todo esse exercício. Acho que vou me afundar numa poltrona até a hora de dormir.

Jaken Gillian riu, concordando.

- Achoque todos estão cansados. Tenho pena de Sesshoumaru, que ainda vai para Londres.

Rin não sabia que o marido ia viajar naquela noite e a única explicação que recebeu foi um rápido murmurio sobre problemas urgentes. Ninguém estranhou, pois era um homem muito ocupado, mas Kagura sorriu e ao se despedir lançou um olhar cúmplice para Sesshoumaru.

Ela não perdeu tempo em Tir Glyn, subindo imediatamente para fazer as malas. Rin tomo um banho, constatando que a pele esta um pouco rosada pelo sol.

Com um vestido leve, maquilava-se na frente do espelho, quando ouviu a batida na porta.

- Entre.

Sesshoumaru apareceu, usando um terno claro e uma camisa de seda preto.

- Estou de saída – ele se inclinou para beijá-la – Tem certeza de que ficará bem?

- É claro. Tenho muito o que fazer. – Rin ainda teria duas semanas de trabalho em Tir Glyn, antes de decidir o que fazer da vida.

- Quando volta?

- No sábado.

- Está bem. Aliás. Miroku me pediu para decorar uma parte da cada dele.

- Que bom.

Teve votante de dizer que Miroku a achava atraente mesmo sendo magra, mas Sesshoumaru iria rir dela e, em vez disso, despediu-se.

- Então, boa viagem.

- Venha me levar até a porta.

Desceram e ele entrou no carro, partindo em seguida. O helicóptero estava em Tir Glyn e a viagem até Londres seria muito mais rápida se fosse voando, por isso Rin desconfiou que o marido não pretendesse ir trabalhar. Na verdade, estava indo para o chalé de Kagura, pensou com tristeza.

Lilian a esperava no terraço.

- Ele trabalha demais, mas é por isso que tem tanto sucesso nos negócios – comentou.

- Teve ajuda da família.

- Nem tanto.

- Não me diga que Sesshoumaru se fez sozinho.

- É verdade. – Lilian sorriu. – O pai não o ajudou.

Rin queria acreditar que o motivo da viagem era trabalho, mas achava difícil. A noite sem a presença de Sesshoumaru e foi um suplício representar o papel de anfitriã. Estava ansiosa para que todos partissem.

Se estivesse sozinha, poderia trabalhar até tarde, mas, com a presença dos hóspedes, foi obrigada a se deitar cedo. Passou a noite em claro, pensando em Kagura e Sesshoumaru.

-00-

Na manhã seguinte,despediu-se dos amigos e mergulhou na decoração da TIR Glyn, pois estava ansiosa para terminar aquele trabalho e poder planejar o futuro.

- Quer um sanduíche? – a sra. Kaede perguntou, aparecendo na sala quase no final da tarde.

A expressão da governanta era afetuosa e compreensiva e Rin imaginou que a mulher sabia de tudo. Até mesmo onde Sesshoumaru tinha passado a noite.

- Ótima ideia! - suspirou. – Acho que estou com fome.

A sra. Kaede voltou com uma bandeja na qual havia um prato de sopa e alguns sanduíches, deixando-a sobre a mesinha.

Na hora do jantar voltou, insistindo para Rin deixasse de trabalhar.

- Não se preocupe, sra. Kaede. Estou acostumada e quero aproveitar o tempo.

Na verdade, queria evitar outra noite de insônia. Quando Lilian telefonou, figiu estar bem , pois não queria vê-la preocupada.

Bem mais tarde, Sesshoumaru ligou e Rin atendeu no quarto dele, com a sensação de que era uma intrusa e que o aposento luxuoso pertencia a Kagura. Contou como se ocupara durante o dia e ele recomentou que não exagerasse no esforço físico.

- Não se preocupe, estou bem. Ah, Lilian ligou para cá.

- Eu sei. Vi Jaken no escritório...

Ele sugeriu que deitasse cedo e Rin teve vontade de dizer o mesmo, só que acrescentando : "Sozinho". Mas era bobagem sentir ciúmes.

- Obrigada pelo telefonema e boa noite.

- Boa noite.

Nos dias que se seguiram, Rin continuou no mesmo ritmo, trabalhando sem parar. A sra. Kaede levava as refeições e às vezes lhe fazia companhia.

Miroku telefonou para agradecer o fim de semana e convidou-a para ver a casa, deixando no ar a insinuação de que podiam ter momentos agradáveis juntos. Mas ela não queria se envolver com ninguém e apenas anotou o endereço na agenda de futuros clientes.

Na sexta-feira, faltava apenas um quarto para decorar. Era aquele onde tinha dormido na primeira noite que passara em Tir Glyn e que lhe trazia tantas recordações de Tom e daqueles dias tão felizes.

Queria terminar antes da chegada de Sesshoumaru, por isso acordou cedo e se lançou na tarefa. Não parou nem para comer, apesar dos protestos da sra. Kaede.

- Ele me pediu para tomar contar da senhora. O que vai dizer, se souber que trabalha até a meia-noite?

- Nada – Rin sorriu. Com certeza, ele pedira à governanta para tomar conta de tudo e a boa senhora a incluíra entre os objetos.

Com um velho jeans e a camiseta suja de tinta, parecia um espantalho, mas logo tomaria um banho. No dia seguinte, ia receber Sesshoumaru bonita e bem vestida.

O telefone tocou e a sra. Kaede veio avisar que era Kagura.

- Olá, querida, achei que devia saber que vou passar o fim de semana em Tir Glyn.

- Verdade?

- Fui convidada. Mas achei bom avisar, pois quem sabe prefira não estar por aí.

- Isso não me preocupa.

Kagura riu, irônica.

- Não? Pois pensei que preocupasse. Até amanhã, então.

Ao desligar, Rin tentou voltar ao trabalho, mas não conseguiu. Se Kagura viesse para dormir, preferia ir embora.

Por meia hora, lutou contra os pincéis e as tintas, mas o trabalho não rendeu e acabou desistindo. Era tarde e podia terminar no dia seguinte, antes da chegada do marido.

Sentada no alto da escada de pintura, observava os desenhos do papel de parede, sentindo raiva de Kagura e de Sesshoumaru. Num impulso, desejou atirar a lata de tinta na parede.

Quando a porta abriu, virou-se, pensando que fosse a sra. Kaede. Mas era Sesshoumaru e ela quase caiu com o susto.

- O que está fazendo? Está com uma aparência horrível. – Ele a fitava, surpreso.

- Você ia chegar amanhã! E que importa se estou horrível? Não vê que estou trabalhando?

- Mas por que tanta pressa em terminar?

- Queremos tudo bem bonito para a visita de Kagura, não é? Assim, ela ficará contente. Aliás, posso convidar Miroku para o fim de semana?

- Não.

- Então irei à casa dele.

Sesshoumaru começou a rir.

- Se chegar lá com essa aparência, vai mandá-la de volta correndo.

- Pois pode ficar com sua casa e trazer quem quiser para cá! – ela gritou furiosa. – Vi ficar ou passou por aqui a caminho do chalé?

- Para uma garota que não gostava de gritos, até que você aprendeu depressa!

Sesshoumaru saiu, batendo a porta. De repente Rin não suportou imaginá-lo correndo para os braços de Kagura. Desceu da escada num pulo e voou para o andar de baixo.

Sesshoumaru já estava dentro do carro e ela gritou. Era o segundo grito que dava na vida.

- Sesshoumaru! Por favor, espera!

Ele abriu a porta e desceu para falar coma esposa. Inesperadamente Rin se imobilizou, com o olhar distante. Alguma coisa retornara à memória, mas ainda tão vago que ela não compreendia. Como sonâmbula, encarou Sesshoumaru, mas era como se não o enxergasse.

- Rin, Rin, você está bem?

- Tom... Não saia de carro... Pro favor, não...

- O que está dizendo, querida?

Ela afundou o rosto entra as mãos, entregando-se aos soluços. Tremia tanto que o marido precisou ampará-la. Com delicadeza, Sesshoumaru a conduziu até os degraus do terraço e a fez sentar-se.

- Calma, calma... Está tudo bem, Rim.

Aos poucos ela foi se acalmando, embora tudo ainda lhe parecesse irreal demais.

- Houve uma briga, antes da morte dos meus pais, Sesshoumaru... – Começou a contar, lembrando-se finalmente da cena que por tantos anos seu inconsciente reprimira. – Eles não brigavam, mas naquela noite gritaram e discutiram. E não voltaram mais. É por isso... oh, Sesshoumaru!

Ele lhe acariciava os cabelos com ternura, compreendendo a intensidade das emoções de Rin.

- Desculpa. Acho que estou cansada, nervosa...

- Não diga mais nada. Venha, vamos para a sala. – Pegando-lhe o braço, Sesshoumaru a levou até o sofá da sala. – Gritos e trovões... Minha pobre garota.

Ela retraiu-se um pouco, sem saber o que Sesshoumaru estava lhe dizendo.

- Me acha ridícula, não é?

- Não

- Sesshoumaru... Você estava indo à casa de Kagura? Ia buscá-la? Ela me disse que você a convidou para passar o fim de semana aqui.

- É mentira, meu bem. Eu não faria isso.

- Vocês... vocês ainda são amantes?

Os olhos dele brilharam.

- Não. Sou seu amante. Rin.

- Mas o casamento... Não é verdade. Só me pediu porque...

Sesshoumaru a interrompeu com firmeza.

- Pedi que se casasse comigo porque queria tomar conta de você. E porque você teria se casado comigo mesmo que eu fosse o jardineiro.

- Sim...

- Mas quando lhe contei que era Sesshoumaru Fenton, você já sabia. – Ele sorriu afetuoso.

- Como descobriu isso?

- Kohaku estava bebendo no meu hotel, quando voltei naquela noite. Então me disse que contara a você por telefone. Disse também que você o abandonou porque ele estava em dificuldades financeiras e que eu seria o ideal, com todo meu dinheiro.

Era bem próprio de Kohaku distorcer os fatos! Rin ergueu os olhos, apreensiva.

- Não sabia até que ele me contou, mas custei a acreditar. Acha que me casei por dinheiro?

- Parecia bem provável.

Mas não era verdade, ela pensou. Preferia mil vezes que ele não tivesse um centavo.

- Mas porque insistiu no casamento?

- Já disse. Queria uma esposa para me livras das oportunistas.

- Oh... – Uma onda de tristeza a dominou.

- E porque a amava. E queria você de qualquer jeito.

O coração de Rin começou a bater mais depressa.

- Então por que, naquela primeira noite em Paris...

- Você não me queria.

- Tinha medo, Sesshoumaru.

- Eu também...

- Você?! Não acredito.

- Tinha medo que me rejeitasse, meu bem. Estava louco por você, mas não pensei que me quisesse. Naquela manhã, depois da tempestade, quando entrou na sala, esperei que viesse me dar um beijo, mas não o fez.

A mulher estendeu-lhe as duas mãos.

- E eu esperei que você se levantasse para me beijar.

Ele a abraçou, beijando-a com carinho. Naquele instante, Rin soube que jamais teria medo outra vez.

- Tinha ciúmes de Kagura – condessou com um sorriso.

Os braços fortes a envolviam e Sesshoumaru também sorriu.

- Bem, essa mentira que ela inventou sobre o fim de semana serviu para nos aproximar. Eu também tinha ciúmes de Miroku.

- É mesmo? E aquela conversa que cada um poderia ter sua própria vida?

Ele a beijou outra vez, com suavidade.

- Podemos desistir disso, não acha?

Rin riu, abraçando-o.

- Então muda de ideia de uma hora para outra? Que tal convidarmos Kagura e Miroku para o fim de semana?

- Como quiser. – Ele deu de ombros. – Não estaremos aqui. É por isso que tenho trabalhado tanto. Vamos ter nossa lua-de-mel numa olha.

- Oh, Sesshoumaru. É maravilhoso.

- Quero partir amanhã bem cedo.

- Mas olhe para mim! Preciso tomar banho e trocar de roupa. E nem fiz as malas.

- E é melhor deitar cedo.

- Mas não estou mais cansada!

Sesshoumaru deslizou as mãos pelas costas macias, acariciando a cintura fica e puxando-a para si.

- Eu disse deitar cedo. Ninguém falou em dormir...

FIM

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