Brennan
Eu ainda estava na cama, olhos cerrados, o cansaço levando o melhor de mim, quando ouvi o barulho do zíper dele fechando. Eu podia ouvir seus passos apressados pelo quarto enquanto ele, provavelmente, recolhia as peças de roupas restantes. Algum tempo depois havia silêncio total no cômodo, o que me fez pensar por um momento que ele tinha ido embora. Abri os olhos para encontrá-lo parado em frente à cama, parecendo completamente envergonhado.
-você precisa de alguma coisa? –ele perguntou timidamente, mostrando real preocupação comigo. Eu não sabia se isso me incomodava ou se me cativava, de alguma forma.
-apenas que você pague. –respondi como se não fosse grande coisa, porque depois de tanto tempo, realmente não era. Era possível ver que esse não era um homem comum, que vinha até aqui em busca de diversão fácil e depois ia embora. Mas aqui eu era uma personagem e meu trabalho tinha que ser feito com êxito, então eu não podia fraquejar.
Ele colocou o dinheiro sobre o colchão, a vergonha evidente em cada gesto que ele fazia. Era irracional me sentir um pouco pesarosa por ele, afinal eu nem mesmo o conhecia e tinha certeza que a relação sexual que tivemos foi ótima para ambos. Resolvi deixar esse pensamento de lado, na verdade tudo que eu queria agora era voltar para casa, aproveitar o resto de madrugada que tinha para dormir e então começar um novo dia. Só mais alguns meses e eu poderia sair dessa vida. Eu continuava a lembrar disso todos os dias para me dar a motivação que eu precisava.
Com ele ainda parado ao pé da cama, recolhi o dinheiro, levantei e comecei a me vestir. Seus olhos desviaram quase que instantaneamente, mas eu poderia dizer que ele estava tendo muita dificuldade em não olhar para o meu corpo. Quando estava totalmente vestida caminhei até a porta para sair, mas sua voz me parou.
-qual o seu nome? –ele perguntou timidamente. Seus olhos finalmente em mim.
-ah, você é um daqueles caras. –murmurei baixo e ele ergueu uma sobrancelha questionadora para mim. –um daqueles caras que precisam de alguma conexão para fazer sexo, um nome, por exemplo. Você não suportaria sair daqui sem saber, pelo menos, o meu nome. A culpa consumiria você.
-isso quer dizer que você não sabe o nome de nenhum dos seus...clientes? –ele perguntou incerto, horror passando por suas expressões.
-apenas dos mais antigos. Um nome não é realmente relevante para o propósito deles aqui. –ele suspirou alto, passando as mãos pelo rosto repetidamente. –mas se isso vai deixar você melhor, meu nome é Temperance Brennan. E não se preocupe, esse não é um nome falso. Eu não tenho vergonha do que sou.
Claramente desconfortável ele balançou a cabeça para mim. Nós saímos em silêncio pelo corredor e escadas que levavam até o salão do Clube. Já estava silencioso, o expediente acabando para quase todas as mulheres que trabalham aqui. Ele começou a caminhar em direção à porta de saída, enquanto eu me direcionava para o escritório da Cam para entregar o faturamento da noite. Me virei para dar uma última olhada nesse homem tão enigmático emisterioso, mas surpreendentemente ele também estava olhando para mim.
-Seeley Booth. –ele disse seu nome suavemente. –foi um prazer conhecê-la, Temperance.
Booth
O dia estava sendo um total inferno. Minha cabeça estava estourando com uma ressaca fenomenal, o trabalho não estava rendendo e ainda assim, tudo que eu conseguia fazer era pensar naquela mulher. Temperance Brennan havia ocupado cada minuto do meu dia desde que abri meus olhos pela manhã. Seu olhar, seu sorriso sedutor, seu cabelo caindo pelo seu rosto enquanto ela estava sobre mim... Teria sido a noite mais incrível da minha vida, se não tivesse sido tão errado.
Parte de mim queria caminhar até cafeteria ao lado, onde meu parceiro e idiota total, Sweets estava e enforcá-lo até a morte por ter me levado àquele lugar, em primeiro lugar. Outra parte de mim queria voltar lá e reviver tudo outra vez. Sentir o toque, o gosto, o corpo dela. Repetir o ato de novo e de novo e de novo até que nós dois estejamos exaustos e completamente satisfeitos. Mas isso nunca poderá acontecer.
-hey, Booth? –Sweets estava na porta e o instinto de enforcá-lo quase ficou forte demais. –Temos uma ocorrência, vamos lá.
Enquanto pegava minha arma e caminhava até a viatura me perguntava distraidamente porque eu ainda o aturava. Certamente porque, na maioria das vezes, ele era um bom amigo, apesar de ser um total idiota. O garoto nunca quis realmente ser um policial, ele estava aqui apenas para pagar o curso de psicologia. Eu estava aqui para abrir caminho para minha entrada no FBI, então no fim das costas nós dois tínhamos metas e isso nos aproximava. Deixei que ele dirigisse porque eu realmente não estava com cabeça para nada. Eu verdadeiramente esperava que pudesse dar alguns tiros hoje para aliviar a tensão.
-então, a noite terminou bem para você? –ele perguntou com um sorriso de orelha a orelha. A noite dele, com certeza, havia terminado bem.
-olha, eu não quero falar sobre isso, ok? –respondi rabugento, o que foi provavelmente pior, porque logo ele estava tagarelando sem parar.
-oh não! Não me diga que você dormiu com alguém de lá! Quem foi? Você deveria ter me dito antes. Agora entendo porque sua ressaca parece tão grande. Nunca pensei que fosse realmente seu estilo, mas estou feliz que tenha cedido aos seus instintos uma vez, Booth.
-Sweets, ouça bem o que eu vou dizer. Você vai dirigir em silêncio e me deixar em paz, ok? Se eu ouvir sua voz mais uma vez até chegarmos ao nosso destino, eu vou descarregar toda minha arma em você. Estamos entendidos? –ele apenas balançou a cabeça em confirmação e encostei minha cabeça no banco do carro, tentando relaxar.
Eu estava profundamente agradecida por hoje ser minha folga, Cam tinha sido realmente muito boa comigo quando me deixou ter folga um dia sim e outro não para que eu pudesse focar nos meus estudos e conseguir, mesmo que muito tardiamente, seguir a profissão que eu sempre quis. A noite anterior havia sido muito cansativa e o dia de hoje não tinha sido nada fácil. Ainda assim tive que ir ao Clube buscar alguns pertences que havia deixado. Já eram quase dez da noite quando finalmente consegui sair, meu corpo sonhando com a maciez da minha cama e a, muito merecida, noite de sono que eu teria. Meus pés andavam rápido sobre as pequenas poças de água que haviam se acumulado devido à chuva mais cedo, torcendo para que um táxi não demorasse tanto.
-hey, Brennan? –ouvi a conhecida voz chamar meu nome e rolei meus olhos por ter que passar por isso mais uma vez. –Você não precisa andar tão rápido. Está fugindo de mim?
Imediatamente freei meus passos e me virei em direção à voz, colocando um sorriso forçado no meu rosto enquanto tentava parecer simpática. Eu não queria irritá-lo como da última vez, ele já provou que pode ser bastante descompensado.
-Wendell, é sempre bom ver você. –nos meus ouvidos isso soou mais que falso, mas o garoto parecia feliz com meu cumprimento. –não tinha visto que estava ai. Estou apressada para pegar um táxi.
-eu estava aqui me perguntando se não poderíamos prolongar essa conversa? Talvez em um lugar mais privado...-ele sugeriu, como sempre. Isso já estava ficando cansativo.
-pela milésima vez, Wendell. Eu não trabalho de graça e não estou interessada em você. Vamos manter as coisas como estão, ok? Eu nem mesmo estou trabalhando hoje, então apenas me deixe ir para casa. Você não pode continuar me seguindo por ai, eu vou acabar chamando a polícia se esse comportamento continuar.
E então estava lá outra vez, a mesma fúria que ele demonstrava sempre que eu o rejeitava. Protetoramente dei um passo para trás, um pouco assustada pela sua expressão, mas ainda me preparando para ter que me defender eventualmente. Uma risada irônica ficou entre nós enquanto ele me encarava, sua respiração ofegante, seus punhos fechados. Logo em seguida, muito rapidamente, eu estava sendo chocada contra a parede enquanto uma de suas mãos segurava meu rosto com força. Inicialmente pânico tomou conta de mim, tendo ele me pego despreparada, mas tentei manter a calma e procurar a melhor maneira de me desvencilhar de suas mãos.
-você acha mesmo que a polícia daria ouvidos a alguém como você? –seu rosto estava muito próximo, seus olhos perfurando os meus, mas não me deixei abater. –olhe para si mesma, Brennan. Você não é ninguém!
Era o suficiente, eu estava cansada disso se repetir sempre. Meu joelho voou em direção à sua virilha e meu joelho se chocou contra seu rosto quando ele se encolheu de dor. Ao mesmo tempo eu podia ouvir meu nome sendo gritado ao fundo, enquanto alguém se aproximava e imobilizava Wendell no chão a minha frente. Os dois homens se embolaram em uma pequena luta, mas o garoto não teve chance, logo ele estava se contorcendo de dor no chão, enquanto o homem misterioso ficava de pé.
Só então percebi que era Seeley Booth parado ali.
-você está bem? –ele perguntou olhando diretamente para mim e respondi apenas com um aceno de cabeça. –Aqui é Booth, tenho um agressor sob custódia, preciso de uma viatura para levá-lo para a delegacia.
Ele continuou falando em seu rádio, dando nossa localização e tudo que fiz foi ficar estática enquanto ele falava. Eu estava realmente assustada, mas no momento em que Booth entrou no meu campo de visão, tudo que eu podia pensar é em como ele era um policial sexy. Em menos de cinco minutos uma viatura estava se juntando a nós e Wendell, que agora estava sangrando, era levado por dois policiais. Esperei que Booth entrasse em seu carro, mas ele continuou parado a minha frente, seus olhos nunca desviando de mim.
-tem certeza que está tudo bem com você? –ele indagou mais uma vez, provavelmente preocupado com meu estado de letargia. –você quer ir a um hospital ou algo assim?
A viatura já havia ido e nós estávamos sozinhos na calçada do clube. Mais uma vez acenei para ele, não querendo preocupá-lo, mas não conseguindo encontrar minha voz enquanto ele, momentaneamente, me deixava fora de si.
-o que você estava fazendo aqui? –perguntei depois de algum tempo, não poderia ser coincidência que ele estivesse nesse exato lugar agora.
-eu...eu estava de passagem. Meu turno acabou há algum tempo e minha delegacia é apenas há alguns quarteirões daqui. Mas isso não importa! Tem certeza que não quer mesmo ir para um hospital?
Ele estava claramente mentindo, eu poderia dizer muito bem. Mas seus motivos não me pareceram realmente importantes. Tudo que eu queria era ir para casa e descansar minha cabeça sobre o travesseiro. Seria pedir muito?
-não, estou bem, já disse. Muito obrigada por tudo, mas você não precisava ter interferido, eu tinha o controle da situação. -Comecei a me afastar para voltar a minha busca por um táxi quando sua mão segurou meu braço.
-onde você pensa que vai? Não vou deixá-la sair sozinha por ai depois de tudo. É meu dever conduzi-la a algum lugar seguro. Você está indo para casa? Porque eu posso levá-la até lá.
Ainda que eu tenha tentado recusar, sua mão continuou firme em meu braço enquanto ele me arrastava em direção ao seu carro. Ele estava sendo um grosso, como se eu precisasse de sua proteção, quando eu nem mesmo havia pedido por ela. Fiz questão de deixar isso claro enquanto ele travava as portas do carro comigo no banco do passageiro a contragosto. Ele bufou para mim e me chamou de mal agradecida e logo nós estávamos brigando como duas crianças no jardim de infância. Esse homem podia ser realmente irritante, ainda que ele fosse sexy como o inferno.
Sem vontade dei meu endereço a ele, porque quanto mais rápido isso acabasse, melhor. Eu não me sentia bem com um ex-cliente sabendo onde eu morava, mas sendo Booth quem ele era, decidi que não tinha importância. Seguimos o caminho quase todo em um silêncio desconfortável, tensão pesando entre nós. Quando finalmente chegamos ao meu pequeno apartamento, ele me olhou parecendo preocupado novamente.
-tem certeza que ficará bem? Não posso garantir que aquele garoto ficará preso por muito tempo. Aquilo pode se repetir, você o deixou bastante furioso. –ele disse com uma voz calma, soando muito mais tranquilo que há alguns minutos atrás.
-olha, você não tem que se preocupar com nada. Wendell é apenas uma criança mimada. Ele foi até o Clube uma vez, quando seus amigos lhe deram uma noite comigo como presente de aniversário. Acredito que ele tenha desenvolvido algum tipo de atração mais forte por mim, ou pelo menos ele pensa assim, e como ele não possui os recursos financeiros necessários para repetir a noite, ele vem tentando conseguir algum contato comigo. Mas ele deve aprender a lição dessa vez. –ele não parecia muito convencido, mas não me importei muito. –entretanto, isso foi completamente desnecessário. Eu posso me cuidar muito bem, não preciso de você ou de qualquer outra pessoa.
-você é ridiculamente petulante, sabia? –ele resmungou, batendo uma de suas mãos contra o volante. –e eu estava apenas fazendo meu trabalho. Não se sinta especial.
-eu não me sinto. –murmurei baixo, um pouco afetada por suas últimas palavras.
Algo mudou novamente em sua expressão, e então sua voz calma estava presente de novo, suas feições um pouco mais suavizadas do que antes.
-apenas...se cuide, ok? É tudo que eu estou tentando dizer. –acenei rápido e sai do carro sem olhar para trás. Hoje tinha sido um longo dia.
