BOOTH
Os dias que se passaram depois que Temperance e eu dormimos juntos foram uma bagunça total. Eu tentava dizer a mim mesmo que não importava, afinal nós mal nos conhecíamos e isso não era grande coisa. Pessoas entram e saem das nossas vidas o tempo todo, não tinha porque ser diferente com ela. O problema era que havia uma diferença, e que no fundo eu sabia que não era tão simples assim deixar tudo para trás. Com o passar dos dias descobri que, de alguma forma louca, eu tinha desenvolvido sentimentos intensos por aquela mulher. Era o contrário de tudo que eu havia vivido, era o contrário de tudo que eu buscava, mas ainda assim estava lá.
Entretanto, apesar de reconhecer meus sentimentos, eu era orgulhoso demais. E nossos últimos momentos juntos haviam me magoado de verdade. Por um momento eu acreditei que nós tínhamos algo a mais, por um momento eu vi a emoção brilhar em seus olhos e refletir o que eu sentia, mas então tudo mudou. Talvez houvesse uma razão, talvez ela pudesse explicar, mas era tarde demais. Decidi que não importava o que eu sentia, tinha que dar um basta enquanto tudo ainda estava no meu controle. Ainda que essa tarefa tenha se tornado mais difícil do que eu imaginava.
Com minha decisão tomada, resolvi tentar ignorar o aperto no peito sempre que lembrava dela. Às vezes me pegava sorrindo com as lembranças do nosso jantar juntos, outras vezes acordava suado, sonhando com a paixão que compartilhamos. Parecia mais difícil a cada dia. A vontade de ir até o Clube apenas para vê-la era quase incontrolável algumas vezes, mas eu tinha que dar um passo para trás. Mais uma vez estava perdido, viajando por esses pensamentos quando meu telefone tocou.
-Booth, é o Sweets. –ele fala isso como se meu celular não tivesse um identificador de chamadas. –eu tive que atrasar um pouco, e já que temos que ir juntos interrogar alguns suspeitos, o que acha de passar aqui para me pegar?
Sweets dividia seu tempo entre estudar e trabalhar, então tentei relevar o fato dele achar que eu era seu chofer. Peguei as chaves do carro e segui para a Universidade em que ele estudava. Trabalho iria me ajudar a distrair e nada melhor do que interrogar bandidos quando se está estressado. É realmente uma ótima terapia.
Dirigi mais rápido que o normal e o trânsito estava calmo. A saída da universidade estava lotada de alunos por todos os lados e nenhum deles era Sweets. Resolvi entrar para arrancar aquele garoto lá de dentro, porque ele não ia me deixar esperando. Vir até aqui pegá-lo já havia sido um grande favor. Mas antes que eu pudesse realmente entrar, a voz de Temperance Brennan me fez parar bruscamente no meio do portão.
-Booth? –ela perguntou parecendo surpresa por um segundo, mas logo estava em ponto de ataque. –não acha que sua mania de me perseguir está indo um pouco longe demais?
-perseguir você? -Tive que rir, porque essa mulher tinha o ego maior que o mundo. –sinto muito, mas não estou aqui por sua causa. Aliás, eu nem mesmo vi você. Se não tivesse falado comigo, eu provavelmente teria passado direto.
De repente nós estávamos discutindo no meio de todas aquelas pessoas, sem uma razão certa para isso, eu nem mesmo era capaz de dizer sobre o que a discussão havia se tornado. Ela conseguia me irritar de forma como nenhum outro ser humano conseguia e eu posso ter dito isso uma ou duas vezes durante nossa briga. Antes que as coisas ficassem mais sérias, nós dois fomos interrompidos por uma mulher alta e bonita, que nos afastou um do outro.
-okaay, as crianças já podem parar de brigar! Brennan querida, eu já disse que não é legal ficar gritando com as outras pessoas. Muito menos em público. Você é melhor que isso. –logo depois ela se virou para mim um sorriso nos lábios enquanto seus olhos me avaliavam. – e você, bonitão, deve ser o Booth. Estou certa? Eu sou Angela, a melhor amiga da Brenn. É um prazer conhecer você pessoalmente. Agora, algum dos dois pode me dizer o que está acontecendo?
-não é nada, Angie. Booth veio aqui me perseguir, mas ele já está de saída. –Temperance se virou para mim, falando em um tom baixo agora, me olhando diretamente nos olhos. –Nós dois já dissemos tudo que tínhamos para dizer, Booth. Vamos apenas deixas as coisas como estão.
-olha, eu não sei porque diabos você pensa que eu estou aqui por sua causa, mas meu parceiro estuda aqui também e tudo o que eu vim fazer foi pegá-lo para irmos a um interrogatório. –ela pareceu surpresa com a minha resposta e parecia que eu tinha ferido seu grande orgulho. –e não se preocupe, eu entendi muito bem o recado quando você me expulsou do seu apartamento.
Angela parecia confusa enquanto olhava para nós dois por um longo tempo. Ninguém disse nada nos segundos que se passaram. Temperance apenas acenou com a cabeça e começou a andar para longe, Angela a seguiu e eu fiquei para trás sozinho. Não muito depois Sweets apareceu, nós entramos no carro e seguimos nosso caminho. Ele conversava sobre coisas aleatórias, mas minha cabeça estava longe. Tudo que eu queria era que esse dia acabasse logo.
BRENNAN
Eu estava com raiva. Eu só não sabia do que realmente.
Depois que Booth havia saído do meu apartamento aquele dia eu esperei que ele aparecesse novamente. Talvez para discutir ou para exigir uma explicação, não sei direito. Tudo que eu sabia era que, secretamente, eu esperava que ele voltasse a me procurar. Mas os dias foram passando e ele nunca apareceu. Não consigo encontrar uma forma racional para explicar o porquê disso incomodar-me tanto, mas incomodou. Entretanto, comecei a me acostumar com a ideia de que não o veria novamente. Talvez fosse melhor assim.
Quando ele apareceu hoje, era como se todas minhas frustrações tivessem sido canalizadas ali. E eu não sabia o que me incomodava mais, o fato dele não ter aparecido quando eu esperei que aparecesse ou fato dele estar aqui quando eu já havia aceitado que não o encontraria novamente. Tudo era confuso demais quando se tratava de Seeley Booth.
-ok querida, você quer me explicar o que acabou de acontecer? Porque certamente você deixou muita coisa de fora. E agora eu quero ouvir a história por completo. Aquele homem parecia realmente furioso com você, Brenn. –Angela disse logo que me alcançou. Eu sabia que o interrogatório estava por vir.
E a verdade é que talvez falar para alguém fosse melhor que guardar todas essas coisas dentro de mim. Contei a ela sobre o nosso jantar, sobre o que conversamos e como rimos durante toda a noite. Angela parecia catatônica com cada palavra que eu dizia. Quando finalmente falei sobre termos dormidos juntos, na minha cama e a minha reação exagerada logo pela manhã, ela parecia querer arrancar minha cabeça fora. Se é que isso era possível.
-Brenn, dessa vez você nem mesmo precisa de mim para saber que está errada. Eu posso ver isso no seu olhar. –eu a odiava por me conhecer tão bem. –ele parece ser um cara legal e não merece essa sua má reação. Não é de se admirar que ele esteja tão chateado com você. Sei que isso é novo e que é algo diferente, mas ninguém merece ser tratado assim. Você já cogitou como você se sentiria se fosse ele expulsando você aquela manhã?
Angela era sempre mais sábia do que ela aparentava ser e suas palavras sempre me levavam a uma reflexão. Eu sabia que tinha errado, mas de alguma forma, precisava que ela me confirmasse isso para que eu pudesse admitir para mim mesma.
-eu sinto muito, Angie. É só que...Booth me confunde. Ele sempre me faz ter as reações mais imprevisíveis. –isso quase me fez sorrir, porque de algum modo, era o que eu mais gostava nele. –eu não sei o que me fez reagir tão mal aquele dia. Mas tudo que eu fiz foi tentar defendê-lo de seus próprios pensamentos. Ele entendeu errado, ele achou que havia algo entre nós.
-primeiro, não é a mim que você deve dizer que sente muito. Booth merece um pedido de desculpas e você vai fazer isso, ok? –apenas confirmei com a cabeça, porque sinceramente, era impossível argumentar com ela. –segundo...você deu todos os motivos para que ele entedesse as coisas erradas, Brenn. Ainda que eu ache que você está deixando algo passar aqui, mas isso é um assunto para outra hora...Fale com ele, sem hostilidade, sem arrogância. Tentem reencontrar as duas pessoas que vocês foram durante o jantar.
Havia começado a chover e ainda que fossem poucos passos do táxi até o pequeno restaurante, eu já estava ensopada quando finalmente consegui entrar. Meus olhos correram pelo local rapidamente, encontrando Booth sentado em uma mesa afastada. Ele estava sozinho e parecia cansado, sua expressão dura e até um pouco triste. Algo dentro de mim inflamou e, de repente, eu queria ver aquele Booth sorridente de antes.
Caminhei devagar até ele, tentando me aproximar calmamente e não gerar uma reação ruim de sua parte. Quando ele finalmente me viu, sua expressão mudou para algo parecido com raiva e rapidamente ele perguntou o que eu estava fazendo ali. Meu primeiro instinto foi revidar, dizer que ele não deveria se importar, mas eu não tinha vindo aqui para brigar. Eu queria consertar as coisas e era isso que ia fazer.
-você pode baixar a voz, por favor? –perguntei tentando manter a calma. –eu queria conversar, esclarecer algumas coisas. Mas só poderemos fazer isso se pararmos de agir como dois animais selvagens.
-certo. Mas antes de tudo você vai me responder duas perguntas. –ele enumerou com os dedos para mim e indicou que eu me sentasse na cadeira a sua frente. –primeira, como diabos você sabia que eu estava aqui? Segunda, sobre o que você quer falar? Porque eu já disse que eu não estava perseguindo você, eu apenas fui buscar Sweets.
-eu entendi essa parte, me desculpe por assumir que você estava lá por mim. É por essas e outras coisas que eu nunca faço suposições, elas sempre estão erradas. –ele bufou alto e eu tentei manter a calma para não revidar. – e respondendo a sua primeira pergunta, Angela me disse que você estaria aqui. Eu não sei como ela conseguiu essa informação, mas eu precisava falar com você. Angela me disse que eu devia a você um pedido de desculpas e então eu...
-certo. Angela disse a você para vir até aqui e pedir desculpas para mim? –ele parecia cada vez mais irritado comigo e isso não estava me ajudando a manter a calma. –você não pode tomar decisões por si própria ou o quê?
Eu queria gritar com ele. Alto. Mas continuei repetindo internamente que ele tinha razões plausíveis para estar chateado comigo. Todavia, ele pareceu perceber que seu comportamento não estava ajudando no nosso diálogo, então ele se acalmou.
-Angela apenas me ajudou a ver algumas coisas mais claramente. Isso é tudo. –fiquei incerta em como começar, mas logo as palavras começaram a fluir naturalmente. –eu entendo que você esteja chateado comigo. Revendo agora os acontecimentos daquela noite, vejo que eu tenho uma grande parcela de culpa. Eu só quero agradecer pelo jantar, foi realmente muito bom poder desfrutar um pouco, foi como um sopro de ar fresco no meio de toda essa tempestade em que eu vivo. Não literalmente, caso você não tenha entendido a metáfora. Enfim, eu quero me desculpar pela forma como tratei você e como reagi, não foi culpa sua. Eu fiz você entender as coisas da forma errada. Sinto muito.
Quando eu finalmente terminei de falar, achei que as palavras haviam saído melhor do que eu planejei e fiquei feliz com o resultado. No entanto, quando eu olhei para o Booth, ele parecia...decepcionado. Sua expressão pior do que quando eu cheguei aqui.
-então tudo não passou mesmo de um mal entendido? –ele perguntou com uma voz baixa, seus olhos me encarando de uma maneira estranha. Talvez minhas palavras não tinham sido tão boas como eu pensava.
-eu disse algo errado? –perguntei incerta. –porque eu sinto muito por isso também. Eu não sei como fazer isso...conversar com as pessoas.
-não, você disse exatamente o que eu precisava ouvir. –sua voz saiu fria e eu tentava entender o que havia saído de tão errado. –mais alguma coisa para dizer?
Quando decidi vir até aqui e conversar eu estava muito confiante sobre tudo o que eu iria dizer, mas agora nada parecia ter saído de acordo com meu pensamento. Mas resolvi que iria arriscar. Não tinha nada a perder mesmo.
-sim, na verdade eu tenho algo mais para dizer...Sei que nós começamos da maneira errada, mas talvez nós dois pudéssemos ser amigos? –ele me olhou incrédulo. E eu não tinha ideia de qual era sua resposta.
-Angela disse para você ser minha amiga também? –perguntou ele com ironia.
-não. Na verdade, ela sempre me diz que eu devo me relacionar melhor com as pessoas, encontrar novos amigos, porque meus únicos amigos são Angela e Hodgins, seu marido. Mas eu nunca ouço seu conselho, porque as pessoas geralmente me irritam, então eu realmente não me importo. Mas você é diferente, você é engraçado e me faz rir, então eu achei que seria uma boa escolha começar uma nova amizade com você. Mas depois de tudo, eu vou entender se você não aceitar minha proposta.
Booth pareceu pensar por um segundo, me deixando apreensiva por sua resposta. Mas então ele sorriu, me fazendo sorrir também, e de repente tudo estava de volta ao normal.
-eu acho que isso pode ser uma boa ideia. Nós podemos ser bons amigos!
