BOOTH

Já passava das oito da noite quando Bones finalmente desceu do seu apartamento e entrou no meu carro, nós estávamos atrasados para o jantar que Angela havia preparado. Até mesmo Sweets e Daisy já estavam lá. Demos um olá rapidamente, o clima ainda um pouco estranho desde o nosso quase-beijo nesse mesmo carro. Eu esperava que as coisas melhorassem quando estivéssemos no restaurante, mas a verdade é que eu não tinha ideia do que esperar. Sweets me disse que isso era uma coisa boa, esse choque de mundos ou seja lá o que isso signifique, eu estava tentando fortemente acreditar nele.

Quando finalmente chegamos, nós os avistamos em uma mesa ao fundo do lugar, rindo e conversando sobre algo. Eles desviaram os olhares para nós dois quando nos aproximamos e Angela sorriu brevemente, me deixando um pouco intrigado. Bones sentou ao lado de Angela e Hodgins e eu sentei ao lado de Sweets e Daisy. A conversa estava de volta, mas Bones pouco tinha a falar. Ela fazia apenas algum comentário aqui e outro ali, sempre tudo muito vago. Eu estava começando a me preocupar, talvez eu tivesse, realmente, estragado tudo quando a beijei.

Fora isso, tudo parecia bastante normal. Daisy era um pouco tagarela demais, mas isso parecia combinar malditamente com Sweets. Era merecido que ele tivesse alguém que não parasse de falar um só segundo, dando a ele um pouco do seu próprio veneno. Angela era agradável e eu podia ver uma preocupação genuína dela em relação à Bones. Hodgins não parecia ser muito normal, mas ele era um cara divertido. A noite parecia que iria correr bem, no fim das contas.

-então, Brenn... –Angela começou a falar, erguendo sua taça assim que o vinho foi servido. –Nós estamos aqui por uma razão, seu aniversário. Essa é a sua noite, você é a dona da festa. Sobre o que deseja brindar?

Ela o olhou para Angela como se esperasse que isso fosse uma brincadeira, uma expressão dura surgindo em seu rosto. Um silêncio tomou conta da mesa enquanto todo mundo esperava sua resposta.

-oh! Todo mundo no Clube vai amar finalmente saber a sua data de aniversário, Brennan. Há anos Cam tenta preparar uma festa surpresa, mas ninguém nunca conseguiu descobrir. –Daisy foi a primeira a falar, o que não me surpreendeu muito, suas palavras apenas enviando um constrangimento maior sobre a mesa.

-na verdade, a Brennan não gosta muito do seu aniversário. –Hodgins disse logo após Daisy, virando-se para Angela logo em seguida. –Talvez isso tenha sido rápido demais, baby. Vamos apenas deixar as coisas como estão e continuar jantando.

-não, isso é bom. –Sweets veio logo em seguida, fazendo com que todos olhassem para ele. –Eu não sei as razões que fazem Brennan não gostar do seu aniversário, mas enfrentá-las pode ser um bom começo. Na verdade, há um estudo que indica que...

-chega, Sweets! Aliás, todo mundo pode ir parando de falar por aqui. Se a Bones quiser falar alguma coisa, ela fala. Se não, vamos todos continuar jantando e seguir para o próximo assunto.

Todos na mesa me olharam como se eu tivesse uma segunda cabeça, talvez minha reação tivesse sido um pouco exagerada. Mas um par de olhos agradecidos, em especial, me deixou saber que eu tinha feito a coisa certa. Bones suspirou lentamente e deu um meio sorriso para mim, agradecendo silenciosamente por o assunto ter sido encerrado. Angela observou nossa pequena interação, parecendo satisfeita com o que tinha visto.

Hodgins tentou conversar sobre outras coisas, todo mundo empenhado em deixar o que tinha acontecido anteriormente passar, mas se Bones estava calada antes, agora ela parecia uma estátua sentada. Perto de meia noite decidimos encerrar a noite e ir embora. Sweets e Daisy foram os primeiros a saírem, deixando um convite para repetirmos o jantar mais vezes. Hodgins e Angela nos acompanharam até a saída e esperamos juntos enquanto o manobrista trazia nossos carros.

-você não deveria ter feito isso, Angela! –Bones repreendeu baixinho e só então eu percebi que as duas estavam conversando. –nós combinamos que isso seria apenas um jantar entre amigos, não uma comemoração.

-eu sei, querida. Mas você não pode continuar assim para sempre. Brenn, deixe o passado no passado e comece a viver a sua vida! –De repente meus ouvidos estavam muito atentos a conversa das duas.

-eu posso tomar as minhas próprias decisões, você não precisa me empurrar para isso. Isso tudo foi uma grande má ideia, eu deveria saber. –Angela não disse mais nada, deixando a conversa chegar ao fim. Logo meu carro chegou e Bones caminhou rapidamente em direção a ele, entrando no banco do passageiro sem dizer uma palavra.

Comecei a caminhar também, não querendo deixá-la esperando. Mas a mão de Angela segurou o meu braço, parando meus movimentos.

-eu sei que isso pareceu cruel, mas ela precisa de ajuda. Só você pode ajudá-la, Booth. Eu sei como você se sente, eu posso ver isso a quilêmetros de distância. Faça com que ela se abra, faça-a saber que não precisa continuar sozinha.

Engoli em seco, meus pés demoraram um pouco para conseguirem se mover novamente. Já no carro, minha cabeça estava a mil. Todos os pensamentos pairando sobre mim, tentando procurar uma forma de me aproximar. Era um pouco constrangedor que Angela pudesse me desvendar tão facilmente. Perguntei-se se era assim com todos, se cada um deles conseguiam ler meus sentimentos. Mas a quem eu estava querendo enganar? Bones havia me ganhado facilmente, tirando o melhor de mim. Não havia outro caminho a seguir.

BRENNAN

Nós estávamos parados em frente ao meu apartamento, nenhum dos dois havia falado algo desde que saímos do restaurante. Eu deveria ter imaginado que isso não terminaria bem. Fiz uma nota mental dizendo a mim mesma para nunca mais deixar Angela me convencer de alguma coisa.

-sei que você não quer conversar e eu entendo isso. Eu só quero dizer que isso não precisa ser assim, ok? O dia de hoje, ele não precisa significar algo bom, mas também não precisa significar nada ruim. Faça com que seja apenas mais um dia. –sua voz era calma e quase me fez acreditar que eu conseguiria. –e quando você se sentir preparada, se tiver vontade, eu vou estar aqui para ouvi-la.

Respirei fundo e soltei um uma grande rajada de ar pela boca, tentando entender porque eu simplesmente não deixava tudo para trás. Booth era meu amigo e ele estava ali me apoiando, talvez fosse a hora de contar tudo para mais alguém e deixar que esse peso saísse das minhas costas.

-meus pais me abandonaram no meu aniversário de 15 anos. E então, um ano depois, nesse mesmo dia, meu irmão também foi embora. Me deixando completamente sozinha. –Booth apenas concordou com a cabeça, seus olhos transparecendo um conforto que eu nunca havia sentido antes. –você não parece surpreso com a informação...

-eu sou um policial, Bones. Eu fiz minha pesquisa sobre você. Claro, que eu nunca quis invadir a sua privacidade ou qualquer coisa desse tipo. –ele disse rapidamente, muito preocupado em não me irritar. –eu não sabia sobre a data, no entanto. Eu realmente sinto muito.

O silêncio voltou, mas não era tão incômodo quanto antes. Booth saiu do carro e deu a volta, abrindo a porta para mim e segurando minha mão logo em seguida. Nós caminhamos assim até o meu apartamento, nunca uma palavra sendo dita. Apenas o olhar reconfortante que ele me enviava era o suficiente para saber que ele queria me apoiar e que estava disposto a ouvir tudo o que eu tivesse para contar.

Sentamos no sofá da sala, nossas mãos nunca soltando uma da outra, e apenas ficamos lá por um momento. Pensei em tudo o que eu diria, pensei em como ele reagiria, mas então decidi que isso não era importante. Lembro de me sentir melhor quando contei a Angela toda a história, talvez agora fosse da mesma forma.

-nós éramos uma família muito feliz, essa é a memória mais forte que eu tenho de quando eu era criança. A felicidade. –Booth apenas concordou, um sorriso pequeno nos lábios. –eu não sei dizer quando tudo começou a ficar tão bagunçado... De repente nós estávamos sempre nos mudando de casa, minha mãe nunca deixava que saíssemos para rua e então um dia eles haviam sumido. Russ e eu ficamos juntos depois disso, mas ele não soube aguentar a pressão. E então logo ele tinha ido embora também.

-a polícia descobriu que seus pais se envolveram com agiotas, não foi? E seu irmão está preso agora, por tráfico de drogas. –confirmei com a cabeça, ele realmente tinha pesquisado sobre mim. –mas ninguém nunca descobriu nada sobre o paradeiro dos seus pais...você desistiu de procurar?

Mais uma vez eu concordei com a cabeça, porque eu tinha desistido há muito tempo. Eu tinha aprendido a conviver com essa eterna dúvida, de que eu nunca saberia o que realmente aconteceu. No começo eu tentei odiar meus pais, na verdade eu fiz isso por muito tempo. Mas depois eu apenas aceitei que cada um tem seus motivos para tomar as decisões que tomam. Eles certamente tinham os deles

-como você lidou com tudo depois? –Booth voltou a falar depois de um tempo de silêncio.

-foi horrível. Enquanto Russ ainda estava comigo, as coisas pareciam quase normais depois de um tempo. Mas então ele foi embora também e eu fui jogada na realidade que eu tinha dali para frente. Lembro que, quando eu fiz 17 anos, finalmente me dei conta de que eles não voltariam, minhas esperanças foram completamente embora aquele dia. Eu fiquei pelo sistema de adoção até os 18, sempre mudando de uma casa para outra. Parecia que aquilo nunca teria fim.

-eu não consigo imaginar o quanto deve ter sido difícil para você. –Booth deu um pequeno aperto na minha mão, o calor da sua palma irradiando uma calma para todo o meu corpo. –o que você fez quando saiu do sistema?

Fechei os olhos por um momento, tentando bloquear as lembranças daquele tempo. Não que as minhas famílias adotivas tivessem sido ótimas, elas eram horríveis na maioria das vezes, mas o que veio em seguida foi muito mais doloroso.

-eu fugi da minha última família adotiva, então fiquei pelas ruas um longo tempo. As coisas se complicaram, era difícil conseguir comida e dinheiro. Mas eu tentava fazer o que podia para sobreviver. Depois de quase dois anos assim, um dia eu encontrei um amigo de Russ, seus pais haviam morrido de acidente de carro alguns anos antes e ele nunca quis ir para o sistema. Bob era experiente em toda essa coisa de viver nas ruas, então ele me ajudou. As coisas melhoraram bastante quando ele entrou na minha vida, e talvez fosse a carência ou o fato dele ter me apoiado da forma que ele me apoiou, não demorou muito e eu estava completamente apaixonada por ele.

Booth pareceu um pouco surpreso por essa parte da história, sua mão soltando o aperto que dava na minha. De alguma forma, parecia que ele não tinha gostado muito, o que me fez parar de falar. Talvez ele não quisesse saber de toda a história.

-vocês...ficaram juntos? Onde ele está hoje? –ele perguntou depois de um tempo. Seus olhos desviando de mim e encarando seus pés.

-Nós ficamos juntos por cerca de três anos, até que ele foi embora também. –fiz uma pausa, tentando mais uma vez controlar as lembranças e logo depois continuei. –algum tempo depois de começarmos a namorar, nós conseguimos nos estabilizar em uma casa abandonada. Nós ainda não tínhamos emprego, no entanto e isso fazia com que o dinheiro ficasse cada vez mais difícil...Um dia Bob disse que tinha um trabalho para mim, ele foi um pouco vago sobre o assunto e me disse apenas que me levaria até um amigo dele e que as coisas começariam a melhorar... Até hoje eu me pergunto porque eu deixei aquilo ir em frente, porque eu deixei que Bob começasse a me vender...-minha voz tremeu um pouco, mas eu me obriguei a continuar. –Acho que sempre me senti sem valor após todos que eu amava terem me abandonado, e Bob era o único que estava lá por mim, me apoiando, me dando suporte. Ele disse que não seria por muito tempo e que ele me recompensaria, que ele me faria esquecer todo o passado e que nós teríamos um futuro inteiro juntos...Eu olho para trás hoje e não consigo acreditar que um dia eu achei mesmo que aquilo era o certo a fazer.

-Bones, eu sinto muito. Você não precisa se torturar assim. –Booth voltou a apertar minha mão, seus olhos frenéticos procurando os meus, era como se ele pudesse sentir o que eu estava sentindo. –ele usou você, ele se aproveitou do seu sentimento. Isso não é sua culpa.

-eu tentei parar depois de um tempo, nós brigamos e eu decidi que iria embora. Mas eu estava completamente presa a ele. Ele começou a ter amigos influentes e começou a vender outras mulheres também. Logo nós estávamos todas presas aos seus negócios sujos, reféns da sua arrogância...Vivemos assim até que Bob foi morto por um rival dos negócios. Eu achei que estava livre quando ele se foi, mas mais uma vez eu estava sozinha, sem rumo e sem saber o que fazer na vida. Poucos meses depois eu encontrei Cam e ela me acolheu. É claro que nunca deixou de ser sujo e completamente repulsivo, mas eu tinha visto tanta coisa durante o tempo que fiquei com o Bob, que lá pareceu um paraíso para mim.

Eu só me dei conta que Booth estava me abraçando quando seus braços apertaram ao redor do meu corpo. Ele disse inúmeras vezes que sentia muito sobre tudo, mas eu podia ouvir a raiva em sua voz, quase como se ele quisesse me proteger.

-eu queria que você nunca tivesse passado por isso. Eu queria poder mudar o passado e impedir que todas essas coisas acontecessem com você, mas infelizmente eu não posso. –ele falou baixo, sua voz não passando de um sussurro em meu ouvido. –mas eu posso garantir a você que eu estou aqui agora e que você nunca mais estará sozinha. Eu quero ajudar e protegê-la, se estiver disposta a me deixar fazer isso.

-obrigada, Booth. –eu disse simplesmente, porque eu não sabia se conseguiria controlar minhas emoções nesse momento.

Suas mãos se dirigiram até o meu rosto, seus olhos vidrados e então ele se aproximou. Seus lábios colidindo com os meus de uma forma forte e ao mesmo tempo carinhosa, um beijo que me passou confiança e inúmeros sentimentos que, naquele momento, eu não sabia descrever.