BOOTH

-tem certeza que você não quer falar sobre a Brennan? –Sweets perguntou pela milésima vez no dia e eu considerei, seriamente, jogar meu café quente bem no meio do seu rosto.

-minha opinião continua sendo a mesma de vinte minutos atrás: não! –repeti mais uma vez, esperando que ele não continuasse com esse assunto. –é melhor você começar a trabalhar e deixar de cuidar da vida alheia. Dá pra fazer isso?

Ele apenas concordou com um aceno de cabeça e nós voltamos a preencher nossos relatórios diários. Claro que conversar com alguém seria bom, em tão poucas horas eu tinha não só admitido os meus sentimentos para mim mesmo, como para Brennan também, tinha descoberto todo o seu passado perturbador, além de ser rejeitado pelos mesmos sentimentos citados anteriormente. Era muito para processar. Mas eu não sabia o quanto poderia dizer sem acabar entrando em um assunto que não deveria. Tudo que Brennan me confiou, deveria ficar comigo e nada além disso.

-ok, talvez eu queria conversar! –me rendi finalmente, Sweets sempre estava tentando ajudar de alguma forma, possivelmente não faria mal nenhum trocar algumas palavras com ele. –não que eu acredite em toda essa baboseira de psicologia. Estamos conversando aqui apenas como amigos, certo?

-como você quiser, Booth. –ele disse parecendo entusiasmado. –estou aqui para ouvir o que você estiver pronto para contar.

Na medida do possível, eu contei tudo a ele. Como meus sentimentos foram se desenvolvendo pouco a pouco pela Bones, como nós decidimos ser amigos e isso não foi suficiente para mim. Sem dizer as razões, eu também falei sobre o problema que ela tem em confiar nas pessoas e que por isso talvez nós nunca tivéssemos um futuro como casal. Ele ouviu tudo pacientemente, ocasionalmente fazendo uma pergunta ou outra, mas nunca me interrompendo.

-eu quero mostrar a ela que nem tudo é preto no branco, que há algumas áreas cinzas no meio de toda essa confusão. Mas a verdade é que eu não sei se ela será capaz de ver isso, entende? Eu quero que ela confie em mim o suficiente para me deixar entrar. –lembrei em como ela parecia quebrada enquanto me contava sua história. Eu só queria poder consertar as coisas para ela.

-Booth, me parece que ela já lhe permitiu isso. Quero dizer, claramente, Brennan é uma pessoa essencialmente fechada, qualquer um pode perceber isso apenas ao olhar para ela e ainda assim, ela deixou você se aproximar. Eu sei que não é o suficiente, que há uma parte de você que quer muito ir além, mas com pessoas assim as coisas funcionam lentamente. Você só tem que esperar o tempo dela e, eventualmente, as outras barreiras cairão. –agradeci a ele e dei um leve soco em seu braço. O garoto tinha deixado as coisas mais claras para mim com algumas palavras.

-eu detesto ter que dizer isso, mas você é bom. –ele deu um sorriso esnobe em forma de agradecimento.

Bones não deu notícias pelos próximos dois dias e tentei levar isso como uma coisa normal. Eu sabia que ela precisava de seu espaço e de tempo para absorver tudo o que eu havia jogado sobre ela, mas uma parte de mim não deixava de se preocupar que, talvez, ela estivesse me afastando novamente. Era começo da noite e eu estava fazendo meu caminho até o carro para ir embora quando meu celular tocou. Uma olhada rápida no identificador de chamadas me fez ver que era o número dela e então eu atendi rapidamente. Nós conversamos por alguns minutos, nada importante e eu me ofereci para dar uma carona para ela até o trabalho.

Pouco tempo depois eu estava parado em frente ao seu apartamento e não muito depois disso ela entrou no carro. Bones estava pensativa e isso me preocupou um pouco, nós não falamos nada pelos primeiros minutos de viagem, até que o silêncio ficou incômodo demais e eu falei algo na tentativa de quebrá-lo.

-espero que não tenha sido muito invasivo da minha parte ter me oferecido para trazê-la. –comecei incerto, procurando os sinais de que algo estava errado. –é só que você sumiu nesses dias, eu queria me certificar que estávamos bem depois de...você sabe.

-não se preocupe com isso, Booth. Na verdade eu senti falta de conversar com você. Eu só não liguei antes porque estava atolada entre estudos e o trabalho. As noites sem dormir não estão ajudando muito no meu caso. –ela deu um longo suspiro, parecendo realmente cansada.

Às vezes eu até esquecia por algum tempo o trabalho dela. Tentava dizer a mim mesmo que ela era uma estudante de antropologia forense, seja lá o que isso signifique, e apenas isso. Tenho que admitir que parte disso era devido aos meus sentimentos por ela, não era fácil saber que noite após noite ela ia para cama com homens que não era eu, mas o que realmente me incomodava era o fato de que Bones detestava fazia, ainda mais após saber a história que a levou para essa vida de prostituição.

-você sabe que não precisa continuar assim, não sabe? –perguntei baixinho, desviando os olhos por poucos segundos em sua direção. –Você não precisa disso, Bones. Eu posso ajudar, nós podemos encontrar outra solução.

-como se fosse assim tão fácil! –ela disse ironicamente. –você acha que eu já não tentei outras opções? Onde mais eu poderia encontrar um emprego que pague tão bem e que tenha horários flexíveis como os que Cam disponibiliza para mim? Eu não sei fazer outra coisa, Booth. Eu nunca fiz nada além disso. É claro que eu gostaria de largar tudo e focar na minha verdadeira carreira, mas eu não posso. Não ainda!

-eu sei que não é fácil, mas nós podemos encontrar um jeito. Você não está mais sozinha, Bones, é isso que quero que entenda. –ela não respondeu imediatamente, seu rosto virado para a janela enquanto ela olhava as ruas passando.

Esperei que ela voltasse a falar, me arrependendo por ter entrado no assunto. Bones era mais cabeça dura do que qualquer outra pessoa que eu conheci na vida, ela respirava independência e aceitar ajuda de alguém não era tão fácil para ela. Mas ao mesmo tempo, me matava vê-la dia após dias seguindo esse caminho, ela não merecia isso. Nunca mereceu.

-Booth, eu entendo que em sua cabeça há essa necessidade de ser algum tipo de herói que me salva disso tudo, mas eu não preciso da sua ajuda. Essa é a minha vida e são minhas escolhas, então não há nada que você possa fazer. –parei o carro em frente ao Clube e nós nos olhamos por um longo tempo. – obrigada pela carona, mas claramente isso foi uma péssima ideia.

BRENNAN

A noite demorou muito mais que o normal e eu parecia ainda mais cansada quando cheguei em casa naquela madrugada. Tentei dormir, mas apesar do cansaço, não consegui. Nos últimos dois dias minha vida tinha sido uma confusão total e sempre que eu tinha qualquer minuto livre, era Booth que vinha a minha cabeça. Levou algum tempo para admitir que a amizade dele era mais importante para mim do que eu imaginava, mas parecia que nós dois não podíamos passar muito tempo no mesmo ambiente sem que discutíssemos. Amigos supostamente não devem brigar tanto. O que estava errado?

Angela chegou um pouco mais tarde para o café da manhã. Nós conversamos por dois minutos até ela perceber que algo estava errado. Eu queria saber como ela conseguia fazer isso, me ler tão facilmente. Isso me lembrou que Booth também tinha esse poder, o que acabou me fazendo contar tudo para ela, tanto sobre a noite do meu aniversário quando eu contei tudo para o Booth e ele admitiu seus sentimentos por mim, como sobre a nossa discussão noite passada.

-você disse isso pra ele? –Angela parecia horrorizada. –querida, eu gosto muito de você, mas não me admiraria se ele nunca mais quisesse olhar para sua cara.

-o que você queria que eu dissesse? Ele não pode controlar minha vida desse jeito, Angela. Eu faço minhas próprias escolhas. –ela não parecia muito convencida e eu sabia que essa era uma discussão perdida.

-nós duas sabemos que ele não está tentando controlar você. Booth só está tentando fazer o que eu venho tentando há tanto tempo. –ela disse docemente. –Brenn, não é errado aceitar ajuda, isso não diminui você. Deixe nós dois ajudá-la. Booth está apaixonado por você, eu sou sua melhor amiga. Que mal há nisso?

-ele não está apaixonado por mim, ele só reagiu antropologicamente à história de vida que eu contei a ele, despertando seus instintos de macho protetor sobre a fêmea. E eu já disse que estou muito perto de conseguir sair dessa, só preciso de mais algum tempo. –ela pareceu aceitar e desistir de discutir comigo.

-tudo bem, eu não vou insistir. Mas não afaste o Booth desse jeito, querida. Esse homem não tem feito nada se não se dedicar a você desde o dia que a conheceu. Vocês são amigos, certo? Não é assim que se tratam os amigos. –pouco tempo depois disso ela se despediu, me deixando sozinha com a minha culpa.

As palavras de Angela não deixaram minha mente e eu sabia que no fundo ela tinha razão. Talvez eu tivesse sido dura demais com ele e em todos esses dias, Booth só tinha me dado motivos para saber que eu podia confiar em sua amizade, que ele estaria aqui para mim sempre que eu precisasse. Decidida a esclarecer algumas coisas, até mesmo pedir desculpas, peguei um táxi perto da hora do almoço e fui até a delegacia. Sweets foi o primeiro a me ver quando cheguei e me levou até o escritório do Booth.

Entrei timidamente na sala, Booth levou alguns segundos para perceber minha presença, mas mesmo depois de tudo, ele ainda sorriu involuntariamente quando me viu. Me aproximei de sua mesa e sentei na cadeira a sua frente, as palavras sumindo da minha mente de repente.

-olha, Bones me desculpe por ontem. Eu sei que é um assunto delicado, só achei que talvez...-ele começou, mas eu não permiti que ele terminasse.

-só me escute por um minuto, certo? –ele apenas acenou. –todos os dias eu me faço a mesma pergunta, porquê eu me submeti a isso. Porque apesar de tudo, Booth, eu poderia ter evitado, poderia ter corrido, fugido, qualquer coisa que não me levasse a onde estou hoje. De certa forma foi minha escolha entrar nessa vida, e parte de mim sente que se eu não sair sozinha disso, eu vou ter perdido uma batalha para mim mesma. Eu comecei esse ciclo e eu preciso encerrar. Eu quero vencer, Booth e eu não vou sentir o gosto da vitória se eu deixar outras pessoas lutarem essa guerra por mim. Você pode entender?

-eu entendo. –ele disse estendendo a mão por cima da mesa e segurando a minha. –e eu acredito em você, Bones. Nós vamos comemorar a sua vitória juntos.