Mais tarde naquela noite, Conrad subira para sua suíte para dormir, mas Victoria permaneceu no salão principal, enquanto o aposento se esvaziava. Não conseguia acreditar nas palavras que dissera para David. Seu coração doía de tal maneira que lágrimas começaram a escorrer por seu rosto incontrolavelmente. Teve de se esconder na casa de piscina para não ser vista pelos convidados.
Um trovão anunciava a chegada da chuva e ela pensou que seria melhor sair e voltar pra mansão para não se molhar. Abriu a porta, mas, assim que olhou em direção à casa de David, parou. Não conseguiria voltar para seu quarto de jeito nenhum. Muito menos para a mesma cama de Conrad.
Ao invés disso, caminhou em direção à praia. Seu vestido estava completamente sujo de areia e ficou encharcado, quando chegou à beira do mar. As primeiras gotas de água caíam do céu. O chuvisco se intensificava e, em poucos minutos, seu cabelo já estava completamente molhado.
Ela não se importava porque, pela única vez naquela noite, conseguia sentir o ar entrando em seus pulmões. Lembrou-se da noite em que Conrad sentira o perfume de David e puxou seu cabelo tão forte, que sentiu dor de cabeça o resto da noite inteira. Não conseguiria aceitar aquilo de novo.
Lembrou-se de Daniel chorando, inconscientemente implorando por paz dentro de casa. Ela soluçava, pois não conseguia imaginar outro jeito de fazer seu filho feliz e proteger o homem que amava sem ser permanecendo casada com Conrad.
Dentro da casa de verão, David tinha acabado de colocar Amanda para dormir. Estava arrasado. Não conseguia compreender como se deixara ser usado daquela maneira. Sentia-se traído e como se não conhecesse a mulher que amava. Tudo o que ela dissera na festa parecia irreal demais para ser possível.
Estava apagando as luzes dos abajures da sala, quando, antes de ficar na completa escuridão, viu uma figura na praia perto do mar. Agora, chovia torrencialmente e as ondas do mar ficavam cada vez maiores. Era extremamente perigoso ficar ali. Seja quem fosse, poderia ser carregado para o mar a qualquer momento.
David, assustado, correu porta a fora, atrás do vulto que mal conseguia enxergar debaixo da chuva. Quando se aproximou, percebeu que era Victoria e esqueceu completamente da briga que tiveram. Agarrou-a pelos braços, sacudindo-a com raiva. Ela gritou, assustando-se com sua presença.
-O que pensa que está fazendo? Você quer morrer aqui? – Seu cabelo caía em sua testa e o terno que ainda não tinha tirado estava completamente molhado.
-Me deixe, David! –ela tentou se soltar, mas ele segurou mais forte. Não a deixaria ali de maneira nenhuma. A água chegava na altura de seus tornozelos e puxava forte, mar adentro.
-Victoria! Pare com isso! Qual é o seu problema? Não vou deixar você aqui pra ser levada pelas águas a qualquer segundo! – Envolvendo-a com força em seus braços, puxou a para longe da beira do oceano.
-Pare! Me solte! David! –Ela se sacudia, tentando se desvencilhar, mas ele não lhe deu ouvidos. Soltou a na areia.
-Você está maluca? O que está fazendo aqui? – Esperava uma resposta ansioso.
-Não te devo nenhuma explicação! Volte pra sua vida e me deixe! –ela o empurrou forte, na intenção de machucar.
-Não acredito em você! –ele deu um passo à frente, aproximando-se novamente. - Não acredito em uma palavra do que diz! Me recuso a acreditar que fui só um caso de verão pra você! Nós dois sabemos disso! Pare de tentar me afastar! –Ele falava alto para ser ouvido através da chuva.
Victoria não conseguia responder. A vontade de revelar tudo era grande demais, mas maior era seu medo de vê-lo morto pelas ordens de Conrad. A chuva caía em seu rosto, fazendo seu cabelo grudar em suas bochechas.
David sabia que ela não estava sendo sincera mais cedo e precisava arrancar dela a verdade. Colocou as mechas de seus cabelos negros que estavam colados em sua pele para trás de sua orelha. Ela fechou os olhos e ele não conseguiu resistir. Puxou seu rosto para perto, percebendo que ela não tentava se afastar. Beijou-a intensamente, sentindo o gosto de água da chuva em seus lábios e em sua língua.
A sensação de David perto de seu corpo fazia-a sentir segura. Ela, finalmente o tinha em seus braços novamente e não conseguia encontrar forças para empurrá-lo para longe.
Quando afastou seus lábios dos dele para respirar, sentiu suas mãos em sua cintura trazendo-a mais para perto. Ele a envolveu com seus braços e apertou forte. Sua testa apoiada na dela e seus olhos fechados.
-Não adianta, Victoria. Não vou desistir de você, porque sei que ainda me ama e está escondendo alguma coisa de mim. Só me diz o que é... - ele sussurrava, agora que a chuva diminuíra e ele podia ser ouvido.
-David, se eu contar, tem que me prometer que não o machucará. Isso envolve Daniel também e preciso protegê-lo das minhas escolhas. –ele a olhava sem entender, mas aceitaria qualquer condição para tê-la de volta.
-Eu prometo. Conrad te machucou? –ele acariciou sua bochecha. Ela ficou em silencio por um momento, hesitante. Não aguentaria viver daquele jeito, as palavras simplesmente saíram de sua boca, como se precisassem se libertar.
-Ele te quer morto, David. –ela olhava para baixo. – Quer dizer, ele não sabe que é você, mas já mandou seu capataz atrás de mim para descobrir com quem estou tendo um caso, com ordens de matá-lo.
-O quê? –Estava chocado. Abraçou a mais forte e a deixou chorar até que parasse. Entendeu tudo. Ela queria afastá-lo para protegê-lo. Amava a mais do que nunca nesse momento, mas não podia conter a raiva que sentia por seu marido. Não o temia. Queria entrar na mansão nesse momento e lhe dar uma surra. –Victoria... Você só queria me proteger... mas eu posso cuidar de mim mesmo. É com você que me preocupo. Se ele fez uma ameaça desse tipo, não consigo imaginar que ele já não tenha colocado as mãos dele em você. E isso... –cerrou os punhos.- eu não posso suportar! Não aceito!
-David, por favor! Você prometeu! –agora, era ela quem segurava seus braços. –Não posso expor Daniel a uma situação assim! Você não pode ir atrás de Conrad! Preciso proteger meu filho!
David abaixou a cabeça. Ela estava certa. Tudo estava claro em sua mente. Tudo o que ela fez foi pelas pessoas que mais amava. Então ele precisava honrar esse sacrifício e mantê-la protegida também.
-Victoria, não posso permitir que viva sob o mesmo teto que aquele monstro! Posso até ter me comprometido a não o machucar, o que, acredite em mim, está sendo difícil de manter, mas não vou permitir que a mulher que eu amo e seu filho vivam reféns de um homem como ele. – Segurou sua mão e a beijou, puxando-a pela nuca. – Te amo demais para permitir que seja infeliz.
-Eu também te amo. Nunca deixei de amar. – Ela o beijava repetidamente, sem conseguir se conter. Ele segurou seu rosto, parando-a.
-Vamos embora esta noite. Faça uma mala para Daniel. Arrumarei uma para Amanda também. Vamos para minha casa no interior.
Ela o encarava no mesmo impasse de sempre. Tinha medo do efeito que isso poderia ter em Daniel.
-Vic... Como você acha que Daniel vai crescer dentro de um lar abusivo? Como você acha que ele vai viver? Ele também está exposto a essa violência e merece uma vida melhor. Eu posso dar a vocês dois essa vida!
Ele tinha razão. Era a primeira vez que via a situação com esses olhos. Não precisava pensar novamente. Estava decidido. Fugiriam com David.
