Engolindo o orgulho Jane suplicou novamente ao seu captor.

-Não posso trocar-me na frente de um homem!

A jovem Darling estendia o vestido verde na altura do queixo tentando proteger sua dignidade e o que já fora um magnífico vestido de noiva, que agora em ruínas, revelava boa parte de seu colo e indecentemente, mostrava-lhes as pernas nuas.

Peter mal escondeu um sorriso sarcástico em seus lábios antes de responder-lhes. Seus olhos ardendo em aversão e ousadia cada vez que observava a garota Darling e seu corpo voluptuoso, marcado com curvas perfeitas.

Ainda podia sentir o calor do corpo dela contra o seu quando a impediu de cair no rio, a forma como ela parecia se encaixar em seus braços, e não podia negar como aquelas curvas o atraíam quando a trouxe de volta ao celeiro. A pele macia, as pernas perfeitas, os olhos de um brilho quase desconcertante e sua disposição à enfrentá-lo.

Jane Darling simplesmente recusava-se a agir como uma donzela indefesa, algo completamente inaceitável para sua posição e condição social. Ainda não conseguiria livrar-se do sentimento de admiração pela coragem da jovem moça ao tentar fugir na noite de seu casamento, mas algo ainda o impedia de aceitar que de fato a apreciava.

Assim como sua mãe Wendy fora um dia, agora Jane era a beldade mais cobiçada de todo Reino Unido, a jovem Darling chamava atenção de todos os consortes mais desejados de Londres além de despertar olhares de cobiça de certos senhores poderosos.

Com tal beleza poderia conseguir o mundo aos seus pés, seu pai sempre curvava-se às suas vontades e sua mãe a adorava, quanto aos jovens de sua idade, rastejavam a seus pés. Jane poderia levar pobres homens à loucura... e consequentemente à morte! Mesmo que mal tivesse consciência deste poder sobre eles.

Fora isso que aprendeu desde cedo com seu padrinho Gancho. A beleza das mulheres é traiçoeira, mata lenta e dolorosamente como o veneno de uma cascavel.

Peter sabia que Wendy Darling, a moça inglesa de cabelos loiros e olhos azuis, fora a ruína de seu pai, ela desgraçara a vida de seu pai e do seu padrinho Gancho que estava convalescendo no leito de morte.

Agora com a filha preferida de Wendy em suas mãos, nada nem ninguém o impediria de honrar o ultimo desejo dele em vida... a vingança!

-Nada do que possa mostrar me interessa! Já disse que não vou perdê-la de vista novamente "milady"!

Diz audaciosamente Peter diante do olhar horrorizado de Jane.

-Já não bastam as humilhações às quais me submeteste?

Protesta Jane revoltosa, largando o vestido no chão enquanto com o rosto completamente vermelho e os olhos azuis apertados ameaçadoramente, encarava Peter sem demonstrar temor.

-A escolha é sua! Seguiremos viagem, com ou sem esse vestido!

Responde Peter entre dentes, fechando as mãos em punhos ferozes. A petulância daquela Darling ultrapassando os limites do bom senso e agora ele tinha que usar de todas as suas forças para não perder a calma e apertar-lhes o pescoço até que se calasse de vez.

Sem devolver-lhes uma resposta atrevida, Jane abaixou-se lentamente para apanhar seu humilde vestido e logo virou as costas ao seu raptor. Peter observava indiferente ao comportamento dela.

Apesar disso, Jane seguiu de queixo erguido até uma mureta de madeira levantada para separar os sacos de grãos do feno, não era muito, mas contava que a escondesse o suficiente dos olhos de Peter.

Sem olhar para trás, ela estendeu o vestido verde e as meias sobre a mureta enquanto tentava desfazer-se de seu vestido de noiva. Mordendo o lábio inferior com força, Jane esforçou-se para não deixar-se chorar.

Deixara muito para trás. Não sonhava com aquele casamento! Isso era certo. Gabriel era um homem repulsivo em todos os sentidos e somente a lembrança de que estaria no altar com ele a fazia enjoar, mas, depois de tudo, não teve chance de deixar a carta a seus pais explicando a verdadeira razão da sua fuga.

Dedicara tanto tempo a este plano, sua amiga ainda estaria à sua espera... provavelmente à esta altura, o navio ao qual pretendia embarcar já estaria distante do porto de Londres.

Em sua casa, ela imaginou, estariam todos muito preocupados, seu pai provavelmente enviara todos os guardas de Londres à sua procura. Sua mãe estaria desfalecendo em aflição, sempre fora tão frágil... e Danny... seu irmãozinho tão amado.

De toda sua família, Jane sempre fora apegada demais à Danny. Tanto que até mesmo seu captor o usou como isca para obrigá-la a seguir com ele.

O que Danny estaria pensando de sua irmã mais velha? Será que alguém a vira ser levada por um homem com seu vestido naquelas condições vergonhosas? Ela jamais conseguiria encarar sua família novamente depois disso!

As mãos trêmulas não eram firmes o bastante para desfazer os cadarços do corpete que usava. Sufocando os soluços, Jane fechou os olhos apertando os polegares com força contra os indicadores das mãos e ainda assim não conseguia desamarrar-se.

Com um suspiro exasperado, Jane segurou firmemente as lágrimas antes de voltar a sua árdua e inútil tarefa. Não muito distante, Peter assistia à cena com um semblante fechado, numa breve e incendiada discussão mental.

E não era só o forte desejo que o consumia, algo que qualquer homem sentiria por aquela mulher, mas também, o que era pior, o fato de que ele quase sentia pena dela. Por experiências passadas, sabia que não podia se permitir sentir pena do inimigo.

Mas, as condições de Jane eram diferentes de tudo o que já tinha vivido.

Ignorando a própria razão, Peter cruzou o espaço que os separavam alcançando Jane em segundos. Com uma mão firme sobre o ombro da garota, que permanecia de costas para ele, ele inclinou-se apenas o suficiente para que ela o ouvisse.

-Permita-me ajudá-la "milady"!

A voz rouca do raptor fez todo o corpo de Jane estremecer, a jovem ofegou desesperadamente.

-Po-posso fazê-lo sozinha!

Respondeu arfante.

-Vi como estava com dificuldades Darling! Talvez não consiga trocar-se sem uma criada!

Diz ignorando o protesto da jovem noiva.

-Não tenho criada! Visto-me sozinha! Não preciso de criados!

Defende-se Jane diante de um olhar irônico de seu raptor.

-Sua casa está repleta deles! Não poderás negar a realidade "milady"!

Reponde secamente o ruivo deixando Jane em choque. A jovem ainda não entendia o por que, mas não desejava aquele homem pensando o pior dela, mesmo agora.

-São criados da minha mãe! Eu já disse, não preciso deles, sei cuidar muito bem de mim sozinha!

Insiste virando-se para encará-lo com o mesmo olhar determinado em seus olhos azuis. Foi a vez de Peter engolir em seco, seus copos estavam tão próximos que as suas mãos ansiavam por tocá-la.

-Já não importa mais! Estás sob a minha ordem agora!

Responde Peter duramente, seu rosto enfurecido à centímetros do dela.

-Por quê?

Questiona Jane sem recuar, buscando nos olhos verdes de Peter alguma explicação para tudo o que acontecera.

-Não pediste um resgate, não levastes minhas joias... mas, insistes em me levar contigo...

Falava Jane com uma voz fraca e quase chorosa.

-Não vou me repetir Darling, então preste bem atenção! Não tenho intenção de estuprá-la ou obrigá-la a fazer qualquer coisa!

Diz entre dentes o ruivo a virando de costas bruscamente, Jane se encontrava prestes a protestar quando Peter puxou uma adaga e num movimento rápido e tão leve que ela mal percebeu os cadarços de seda que a aprisionavam caírem ao chão.

-Não precisas temer "milady"!

Agora sem as amarras do corpete, o vestido começou a escorregar por sua cintura delgada. Assustada, Jane saiu do estado de transe momentâneo e ergueu as mãos para amparar o corpete do vestido antes que descobrisse os seios.

-Também não vejo porque usar este espartilho...

Diz Peter suavemente, com uma delicadeza que a deixou sem fôlego. Sem que ela esperasse, o ruivo correu as pontas dos dedos desde a nuca até a cintura de Jane, apenas roçando no espartilho de seda que ela usava.

-Apostaria minha espada que mesmo sem ele continuaria com uma cintura fina... posso cortá-lo também se o desejar!

Diz Peter roucamente contra a nuca da jovem. Jane sentiu seus músculos enrijecerem com o contato e apressou-se em responder:

-Não!

Quase gritou tamanho era seu desespero. Nenhum homem jamais a tocara desta forma. Percebendo que perdia o controle de sua própria razão, ela obrigou-se a continuar.

-Agradeço o auxílio... mas, já estou mais desprotegida do que uma dama deveria estar diante de um homem!

Responde firmemente a Darling, e um sorriso lento e divertido formou-se no rosto de Peter.

-Nenhuma dama ficaria comigo em um celeiro "milady'!

Sussurrou suavemente contra a pele arrepiada da jovem noiva. Jane engoliu em seco, esforçando-se para recuperar a compostura.

-Tem razão! Nenhuma dama ficaria sozinha num celeiro vazio com você ou com qualquer outro homem, não há uma única pessoa viva na sociedade londrina que não o saiba, é indecoroso!

Diz a garota apertando ainda mais o corpete contra o corpo antes de continuar.

-Mas foi você quem me trouxe para cá, contra a minha vontade, e isso muda tudo! Me forçou à esta situação!

Defende-se Jane virando o rosto de lado, mirando-o furiosamente com seus olhos azuis.

-Como podes ter tanta certeza "milady"?

Erguendo a mão direita, ele afastou uma mecha de cabelo que havia caído pelo rosto dela. Jane prendeu a respiração, virando-se de frente ao seu raptor reunindo a pouca coragem que ainda lhe restava.

-Vai negar que me obrigastes a retornar ao celeiro sob a ameaça de buscar meu irmão?

A raiva na voz da filha de Wendy impressionou Peter. Ela mais parecia com o extremo oposto de sua mãe. Pelas narrativas de Gancho, Wendy era encantadora, doce e passional, com a delicadeza de uma flor, enquanto Jane era arredia, arisca e indócil, com a agressividade de uma fera acuada.

Fascinado com essa jovem mulher, Peter levou uma das mãos ao rosto de Jane acariciando-o suavemente enquanto descia pelo pescoço, saboreando a sensação daquela pele quente contra a sua.

Para ele, não era carinho, apenas desejo. Ela era uma Darling, uma linda moça Darling e como homem, Peter não poderia se culpar por sentir-se atraído por ela. Ao menos era isso que ele pensava no momento.

Tendo que manter no lugar o corpete do vestido, Jane não pôde fazer nada para enxotar aquela mão. Então tentou recuar, apenas para descobrir, horrorizada, que estava contra a parede dos fundos do celeiro.

O raptor não se chegou mais para perto. Mas não precisava, porque o infernal sorriso que dançava nos lábios dele já era suficiente para deixá-la com o peito arfando. Como chegaram à isso? Momentos atrás estavam gritando absurdos um para o outro! A mente de Jane a atormentava ainda mais.

-Disse que eu não precisaria temer nada!

O lembrou Jane, falando tão depressa que denunciava seu nervosismo com a proximidade inesperada do ruivo.

-Disseste... o senhor disse que não me obrigaria a nada!

Reforça a Darling fechando os olhos com força.

-Responda-me, Jane...

Ele pediu, numa voz que era pouco mais do que um murmúrio. -Por acaso a estou obrigando a alguma coisa?

Suas respirações cruzavam-se e ela podia sentir o cheiro dele a envolvendo ainda mais, sua respiração acelerou e fechou os olhos com força.

-Eu nem sei o seu nome!

Responde fracamente a Darling incapaz de resistir por mais tempo.

-É Peter. Peter Pan! Seria muito prazeroso ouvi-la dizer o meu nome...

Diz o ruivo roçando seus lábios pela pele lisa do rosto de Jane.

-Não vejo por que devo...

Rebate Jane respirando fundo.

-Diga-me Jane! Quero ouvir de seus lábios!

Insiste Peter lançando um olhar intenso para a jovem Darling, que finalmente abriu os olhos quando ele se afastou. Inconscientemente Jane umedeceu os lábios com a ponta da língua levando Peter a ofegar diante da visão.

-Peter Pan!

Disse baixinho agora consciente do estado em que se encontrava, praticamente despida, sozinha com um homem num celeiro abandonado, e este homem em questão ocupava-se em provocá-la da forma mais profana possível.

-Mais alto, Jane!

Insiste Peter com um brilho misterioso, indecifrável nos olhos. Jane abriu a boca decidida a colocar um ponto final naquela tortura, quando ele a segurou pelos ombros e repetiu novamente.

-Diga mais alto o meu nome! Quero ouvi-la desta vez!

A jovem ofegou, ciente de que não teria como escapar.

-Peter Pan!

Pronunciou no mais ato tom que sua garganta, ainda seca, lhe permitia. O ruivo lhe sorriu indulgente.

-Lembrará do meu nome pelo resto da sua vida "milady"!

Diz Peter com um sorriso sombrio ao se afastar de Jane virando-lhes as costas.

-Vista-se depressa! Partiremos agora!

Avisa o raptor deixando Jane escorada contra a parede, arfando e completamente enervada. Demorou pouco mais de um minuto para a Darling retomar o controle sobre si mesma e revidar.

-Partiremos agora? Mas, disse que esperaríamos amanhecer! Como pariremos assim? Caminharemos até o porto mais próximo?

Questiona furiosamente Jane ignorando o constrangimento de momentos atrás.

-Apenas vista-se "milady"!

Exige Peter friamente. Silenciando Jane completamente. Sem saída a jovem troca-se rapidamente, deixando para trás os restos do vestido de noiva.

Assim que mostrou-se à Peter este estreitou os olhos sobre ela. As roupas eram pequenas para o corpo de Jane. O corpete de amarras apertava suas curvas de forma sensual, os seios apertados no decote e o rosto ainda vermelho, de raiva ou vergonha... ele não saberia dizer.

-Como vamos sair daqui?

Pergunta Jane cruzando os braços na tentativa de desviar a atenção de Peter em seu corpo.

-Venha comigo!

O ruivo apenas fez-lhe um sinal para segui-lo e saindo do celeiro a guiou para a estrebaria onde lhes aguardavam dois corcéis selados.

-Sabes cavalgar "milady"?

Pergunta presunçosamente Peter diante do olhar atônito de Jane. A jovem Darling ainda absorvia a ideia de que seu raptor se encontrava muito mais preparado do que esperava. A levou na noite do casamento sem levantar suspeitas pelo jardim.

Quando chegaram à este lugar esmo, tinha-lhes roupas limpas para disfarçá-la e agora providenciava a montaria para a fuga! Estava tudo mais do que bem planejado e ele fizera tudo sozinho, sem o menor sinal de algum cúmplice, mal usando-se da força para subjugá-la. Jane teve que reconhecer a forma brilhante como ele conduzia a situação a seu favor.

Mas instantaneamente foi tomada por uma onda de pavor crescente. Por quanto tempo ele estaria tramando seu sequestro? O quanto ele saberia sobre ela e sua família? Estaria ele a poupando para ser abusada por outro? Se ela tivesse fugido teria ele a capacidade de ferir Danny?

Impaciente pelo silencio repentino da Darling, Peter estreitou perigosamente os olhos sobre a garota.

-Sabes cavalgar ou preferes dividir a cela comigo?

Provoca com um meio sorriso que levou Jane a ofegar e ficar mais rubra que as rosas nos jardins de sua mãe.

-Sei cavalgar muito bem!

Defende-se Jane desviando o olhar para os cavalos atrás dele. Seria muito mais fácil escapar com um cavalo, mas também seria muito mais fácil se afastar de Londres e de sua família.

-Faço isso desde criança!

Explica Jane avançando sobre um dos corcéis e montando-o habilmente, apesar de todo o cansaço que pesava sobre seu corpo. Peter assistia a tudo com um olha curioso e uma sobrancelha levantada em diversão. Ela estava se fazendo de forte agora, provavelmente não aguentaria mais de uma hora de viagem, o entanto, ele não desejava mais atrasar sua partida.

Ainda estavam próximos às propriedades inglesas e ele precisava tê-la afastada de tudo e de todos para dar cabo à sua vingança. Colocando a bolsa de couro sobre os ombros e o chapéu, o ruivo montou seu cavalo e tomou as rédeas do corcel de Jane em suas mãos, recebendo um olhar furioso da jovem.

-Não arriscarei mais uma fuga "milady"!

Avisa o raptor antes de seguir entre as colinas para o sul, em direção à sua liberdade... em direção à Neverland.