A viagem seguiu a um ritmo dolorosamente lento, os primeiros raios do sol, timidamente clareavam o horizonte entre as intensas nuvens de chuva. A madrugada parecia arrastar-se por uma eternidade e o silêncio entre eles era terrivelmente sufocante.

Jane praguejou mentalmente sua falta de sorte. Suas esperanças de fuga ficavam para trás, assim como o velho celeiro onde estivera cativa e descobrira sua atual condição. A herdeira Darling era uma refém, uma mera, impotente e indefesa refém.

A cada trotar monótono do cavalo, ela recordava com extrema decepção que deveria estar longe dali, longe daquele homem, longe da Inglaterra, longe daquela festa de casamento estúpida, rumo à sua liberdade, cruzando o oceano e lutando por seus sonhos.

Ela tinha tanta certeza que daria certo!

No entanto, a destemida Jane Darling se permitia apanhar em um momento de vulnerabilidade. Ela poderia desafía-lo novamente, não lhe faltava motivos ou a vontade para isso, mas depois daquela ameaça no meio da floresta, a imagem de seu irmãozinho Danny vinha à mente e Jane paralisava.

Ela entregara seu livre-arbítrio tão ansiado, seu maior plano de vida, nas mãos daquele misterioso e perigoso homem ruivo que parecia repugná-la completamente. E fazia isto por amor ao seu irmãozinho, mas a forte sensação de desespero e mortificação não a abandonava. Tudo culpa de Peter Pan!

Jane jamais ouvira este nome em toda a inglaterra, embora Peter fosse um nome comum, seu sobrenome era algo absolutamente singular, soava tão excêntrico que ela não acreditaria se não tivesse dito em voz alta… não uma, mas duas vezes.

O ruivo grosseiro e presunçoso ainda teve a audácia de anunciar que ela não esqueceria seu nome pelo resto de sua vida. Por um breve momento um arrepio percorreu o corpo cansado e dolorido de Jane, ele parecia abominá-la e a submeteu a situações atrozes para uma dama de seu status.

Peter parecia ler seus pensamentos e saber exatamente o que fazer para desonrá-la perante os brios mantidos por sua família. Era humilhante!

Não que seus próprios planos não envolvesse a explosão de um escândalo social. Ao menos não estaria com a cabeça nas nuvens por causa de um homem, mas estaria em busca de sua independência e libertação. Ela poderia casar-se e construir uma família em alguns anos, depois de desbravar o mundo.

Agora o que lhe restava? O seu nome, sua família, seus sonhos e provavelmente sua reputação em ruínas. Noiva em fuga, pior, sequestrada, antes dos votos, dentro da sua casa, com suas joias deixadas no interior dos jardins e os restos do seu caríssimo vestido de seda puríssimo espalhados pela calçada.

Jane engoliu em seco, seu amado pai estaria envergonhado, ou pior enfurecido. Tinha certeza absoluta que toda a guarda real disponível estaria a buscá-la. Os homens sob comando de seu pai e possivelmente de seu "apreciado" noivo também.

E sua querida mãe? Escândalos, era coisa que sua mãe mais abominava em toda a snobe e cruel sociedade londrina. Wendy Darling, o exemplo de perfeição, requinte, bom gosto, sabedoria, beleza e disciplina familiar. Wendy era tudo que Jane jamais conseguiu ser.

Bela, atenciosa, gentil e carinhosa, a mulher mais fascinante de toda Inglaterra, cuja única filha era totalmente avessa aos seus tão expressivos atributos.

Jane nascera para cavalgar, para seguir seus instintos próprios, gostava de livros de aventura, assistia escondido à lições de política e sempre esgueirava-se para visitar os navios do seu pai. Jane Elizabeth Darling, preferia aulas de navegação às aulas de piano e canto lírico, não temia andar com os pés descalços e até empunhava uma espada como os soldados sob comando de seu pai.

As poucas vezes que recordava segurar agulha e linha, foram para ajudar seu irmão mais novo a corrigir suas calças rasgadas antes que Wendy o repreendesse. Não tinha mãos de fada, não media as consequências na hora de falar o que pensa, não se conformava em ficar submissa, queria agir e impor sua vontade. Viver de aparências não era para ela.

Ela queria deixar a enfadonha e mesquinha sociedade de Londres para trás, queria conhecer o mundo e não ficar confinada em uma mansão tocando piano e escolhendo vestidos da estação, acima de tudo, não ficaria presa num casamento com o odiável Gabriel Smith sem lutar.

-Não poderíamos ir mais rápido?

Questionava estreitando os olhos em direção à Peter que a ignorava solenemente.

-A este ritmo estou ficando nauseada!

Protesta ela novamente tentando puxar as rédeas para chamar a atenção do seu captor.

-Não há razão para acelerarmos, mal amanheceu!

Responde bruscamente Peter a deixando ainda mais irritadiça.

-Se não pararmos por agora vou acabar vomitando tudo que tenho em meu estômago!

Acusa ela entre dentes, finalmente ganhando um olhar de soslaio dos orbes verdes do seu raptor. Peter, simplesmente pára a caminhada, colando seu cavalo ao dela. Sem preâmbulos, levou a mão enluvada até o pescoço da jovem Darling que pega de surpresa tenta-se esquivar.

Teria caído do cavalo se Peter não a tivesse alcançado tão rapidamente.

Os dedos firmes alojaram-se com facilidade quase natural em torno do pescoço delgado da jovem a fazendo estremecer em uma mistura fervente entre a mais pura raiva e o temor. Seu toque era pesado e ao mesmo tempo hábil, não a feria, mas não a deixava espaço para escapar de suas garras. A fazia sentir-se como uma gazela capturada por um labrador após a caça, sendo julgado adequada ou não para o abate.

Com uma elegante indiferença, Peter a puxou ainda mais em direção a si, estava amanhecendo, mas as nuvens cinzentas obscureciam o rosto da sua vítima Darling.

Jane era muito diferente do que ele imaginava, uma menina muito ardilosa e temperamental para sua tenra idade, teria que redobrar os cuidados com ela, ainda mais. Com os olhos de um falcão ele a fitou penetrantemente, movendo de forma quase imperceptível o rosto dela de um lado a outro, como quem avalia um vaso em um relicário.

Seguir caminho àquele ritmo era de fato extenuante, mas o solo lamacento e a chuva que pouco cedia oferecia grande risco naquela precária e desgastada estrada, e precipícios existiam por todos os lados daquelas colinas.

Por sorte, Jane não tinha percebido isto, a neblina e a chuva não a permitia distinguir a rota traçada por Pan para alcançarem seu objetivo de fuga. O sabor da vingança tornando-se cada vez mais doce sob sua boca...

Alheia aos pensamentos de Peter, Jane encontrava-se como um cervo assustado encarando o seu algoz. Os olhos do ruivo percorreram milimetricamente sua face, dos cabelos louros escuros em completo desalinho, os furiosos e desafiadores olhos azuis, a sobrancelha perfeita descendo rapidamente e traçando o nariz arrebitado e quase tão atrevido quanto sua personalidade arisca, as bochechas rosadas e de aparência tão macia e delicada... até por fim, alcançar os firmes lábios avermelhados.

Por mais que tentasse ignorar, Peter sabia que Jane era uma beldade em relação às meninas da sua idade em Londres. Um diamante recém lapidado, de bom nome, boa fortuna e imaculadas feições que fariam o mais santo dos homens cair em desgraça. A filha preferida dos Darlings.

-Não está pálida o bastante para colocar seu jantar à perder "milady"!

Responde ele severamente a soltando bruscamente e retomando sua postura original a galopes maçantes e um olhar perdido para o caminho. Equilibrando-se pouco graciosamente no seu lugar na sela do cavalo, Jane perdeu momentaneamente o fôlego antes de retrucar ofendida pelo seu minucioso e muito audacioso escrutínio em sua face.

Oras quem aquele brutamontes pensara que era para agarrá-la pelo pescoço como se estivesse a ponto de esmagar sua pobre garganta com uma mão de ferro? Maldito fosse este Peter Pan!

-Eu não suporto mais!

Protesta fervorosamente, massageando com uma mão livre o pescoço ligeiramente dolorido.

-Ou paramos ou seguirei a pé!

Exige ela puxando bruscamente a rédea de seu cavalo que a conectava à Peter.

-A lama alcançaria seus joelhos em segundos "milady"!

Responde com uma poderosa dose de ironia para a ira de Jane.

-Estamos há horas nesse ritmo sob a chuva! Nem mesmo os cavalos suportam mais tanto esforço!

Insistia a jovem Darling fervorosamente.

-Os cavalos estão bem descansados e bem treinados para suportar o caminho! Então recomendo que cale-se antes que me veja obrigado a amordaça-la para seguirmos em paz!

Ameaça sombriamente o ruivo, sem esconder quaisquer vestígios da sua impaciência.

-Fui claro?

Questionou ele perigosamente sem levantar os olhos em sua direção, levando a menina a engolir em seco com suas palavras. Não era de se admirar que o humor de seu captor estivesse tão pior que o seu.

Ele não dormira toda a madrugada, provavelmente as horas que se passara do casamento até então esteve a vigiar-lhes como um bom e treinado cão de guarda, além de um resgate forçado pela madrugada, encontrava-se desperto, alerta e com o alvorecer dificilmente baixaria a guarda.

Com uma revolta crescente ela amaldiçoava sua fracassada tentativa de fuga, no entanto, ponderava se não fora melhor assim, escapara, mas quase perdera a vida caindo na ribanceira do rio. Para piorar ainda mais seu complexo de culpa, o seu algoz não hesitou em ameaçar seu irmão mais novo caso algo acontecesse à ela.

Seu estômago embrulhou e um arrepio doentio percorreu-lhe a espinha. Não permitiria que ninguém machucasse seu irmãozinho, seu único irmão. Não importava qual fosse o objetivo daquele homem, não se perdoaria se colocasse seu irmão em risco. Retomando a atenção ao seu raptor, Jane se encontrou intrigada.

Em que direção seguiam? Se perguntou a jovem Darling. Oeste? Ou mais para o Sul? Para onde pretendia levá-la?

Era deveras enervante, se tratando de um sequestro comum, o caminho mais obvio seriam os navios clandestinos da madrugada, fáceis de entrar e esconder, poderia tê-la amordaçado e amarrado e jogada em um alçapão ou setor de cargas até chegar a uma ilha nas proximidade e enviar uma carta resgate.

Mas, Peter seguira um raciocínio oposto. Algo estava errado, as docas e o cais do porto não ficavam para aquele lado, mais pareciam estar embrenhando-se em intermináveis pântanos lamacentos... Mas por quê? Seria loucura fugir à cavalo em terras inglesas sequestrando uma noiva da alta sociedade.

Este homem é louco! Intrigava-a a calma com a qual seu sequestrador seguia viagem, ele aparentava não temer absolutamente nenhuma interrupção em sua rota de fuga. Apesar da surpresa em vê-la escapar diante dos seus olhos. Com um suspiro irritadiço, Jane empinou o nariz recusando-se a demonstrar qualquer fraqueza ou cansaço.

Sim, permanecia frio, estavam se afastando ainda mais de Londres, perdidos em um lugar distante, cuja localização ela poderia jamais imaginar ponderava amargamente a jovem noiva, mas não daria à Peter Pan o prazer de vê-la submissa e assustada em suas mãos, afinal ela era Jane Darling.

Mais uma hora se passara, uma fina camada de neblina blindava o caminho, era um cenário entre o tenebroso e mas nenhuma palavra fora trocada entre eles. As rédeas ainda firmemente presas entre as luvas grossas de Peter Pan, o chapéu verde escuro, com a pluma vermelha ainda perseverava sob o rosto taciturno.

Depois que o sol finalmente chegou ao topo do céu, Jane percebeu encontrarem-se em meio a imensas colinas com entre vales verdejantes, clima úmido e muitos hectares de pasto verde e maciço. Estavam seguindo ao interior. Como poderia ter sido tão imprudente? Esse sequestrador infeliz a levava para o interior rural enquanto os guardas do seu pai provavelmente vasculhavam as fronteiras, carruagens de luxo e os navios do porto de Londres.

Peter Pan, um maldito, asqueroso e astucioso raptor, a quanto tempo esteve planejando sequestra-la? O quanto sabia sobre sua vida, sua rotina, seus pais, seu irmão? O que de fato pretendia Peter Pan?

Jane sentiu o peito espremer-se em desespero, mordendo o lábio inferior com força ela olhou de soslaio para Peter, ninguém desconfiaria de um casal de camponeses atravessando uma estrada com nada mais que um bom rebanho de ovelhas como testemunhas. Ela não tinha mais suas joias, roupas de luxo ou qualquer bem, ele vestia um conjunto comum de vestes para aquela época do ano, era o disfarce ideal.

-Há quanto tempo você tem isso planejado?!

Murmurou ela incrédula recebendo pela primeira vez em horas um olhar admirado de Peter.

-O que disse "milady"?

Pergunta o homem de cabelos cor de cobre em um tom de voz indisfarçadamente monótono.

-Você ouviu muito bem!

Acusa ela ferinamente.

-A rota de fuga, o dia do noivado, as roupas simples, os cavalos... Isto não é um sequestro comum! Calculastes tudo de forma tão precisa que… Não planejastes sozinho não é?

Desesperava-se Jane, sem conseguir controlar-se.