Belle: Senhoras e Senhores...

Silver: ...voltamos a apresentar...

Lisa: Sessão... digo, Feito Cães e Gatos!

Belle: Espero que tenham gostado do último capítulo, e para explicar as dúvidas, aqui está Silverghost! risinhos

Silver: Por que sempre sobra pra mim?

Lisa: Claro que tem que ser você! Você sempre nos explora! Então, temos que explora-la um pouco também. / se esconde /

Belle: Lisa disse tudo...

Silver: Ok, ok... Bem, aparentemente, a dúvida geral do capítulo passado foi quanto ao fato de James ser artilheiro e não apanhador... Para quem não sabe, em entrevistas, a tia Jo confirmou que James era artilheiro. O fato de ter sido colocado como apanhador NO FILME foi um lapso - ou não - da Warner. Na verdade, se vocês olharem nos livros, em nenhum ponto diz que James era apanhador. Para buscarmos essa e outras informações, fomos parar no Lexicon, um dos melhores sites na net sobre HP. Pena que seja em inglês...

Bem, estamos meio sem tempo hoje... Meia noite e vinte e sete, todas con sono... Sobrou pra mim dar tchau também... E aproveitem o capítulo. Sábado que vem, estamos de volta!

Beijos a todos!

p.s.: esse capítulo é dedicado à Mylla, que ajudou a escrevê-lo e colaborou com a cena da Dorcas!


Capítulo 02: A chaleira de Remus


Lily olhou-se uma última vez no espelho, acabando de prender o cabelo em um rabo de cavalo alto. Sorriu ao ver o resultado. Com os cabelos presos, a face dela se destacava, deixando aos olhos verdes o lugar de honra.

- Lily, você vai passar a noite aí? - a voz de Dorcas veio abafada do outro lado da porta.

A ruiva sorriu para sua imagem e, em seguida, abriu a porta do banheiro, deparando-se com os cabelos dourados e os olhos claros de Dorcas Meadowes.

- Não precisava de todo esse escândalo. - ela observou, passando pela amiga.

- Não precisava de toda essa arrumação. - Dorcas respondeu no mesmo tom - Linda, maravilhosa ou toda desarrumada, o Potter não faz questão, desde que você apareça.

Lily revirou os olhos.

- Lá vem você de novo com essa história... Eu já disse...

- Vocês ainda estão discutindo? - Alice perguntou, colocando a cabeça para dentro do quarto - Lily, você é monitora-chefe, lembre-se que a professora McGonagall só permitiu essa festa porque VOCÊ estaria cuidando de tudo.

- Você está se esquecendo do James. Ele é o monitor-chefe, sabia? Também é responsável por tudo. - Lily respondeu, aproximando-se da amiga.

- Na verdade, é algo impossível de se esquecer, já que você está sempre nos lembrando do cargo que ele possui e de como se surpreendeu ao perceber que ele levou as coisas a sério pela primeira vez na vida. - Dorcas observou - E de como vocês têm tido conversas civilizadas na saleta que vocês dividem por conta dos seus dormitórios como monitores-chefes, de como ele tem sido gentil nos últimos tempos, de como...

- Chega, ok? - Lily virou-se para ela, os olhos brilhando perigosamente - Vamos descer de uma vez para essa festa.

Dorcas e Alice se entreolharam e logo seguiram a amiga. As três desceram as escadarias que levavam ao salão comunal, todo decorado com bandeirolas vermelho e douradas. Muita gente já estava circulando por ali, especialmente junto à lareira. Pelas janelas, ainda se podia ver uma garoa fraca cair sobre a Floresta Negra.

Lily pulou os últimos dois degraus, rapidamente vasculhando o aposento com os olhos, até pousá-los sobre a figura de James. Ele estava junto a Remus, conversando alguma coisa à meia-voz, os olhos parecendo um tanto preocupados por trás das lentes dos óculos.

Ao mesmo tempo em que a amiga fazia sua busca, Dorcas passava por ela, caminhando a passos firmes até a poltrona em que Sirius estava displicentemente sentado, tendo uma garrafa de cerveja amanteigada em uma das mãos. Na outra, ele equilibrava o bloco de papel no qual ela costumava fazer os esboços que mais tarde se tornariam os belos desenhos para os quais tinha tanto talento.

- Não há tanta graça em ver um desenho antes da arte final - informou Dorcas, sentando-se no braço da poltrona de Sirius e cruzando os braços.

- Eu os prefiro assim - replicou o moreno, avaliando o desenho no qual ela trabalhara durante todo aquele dia - Sem o colorido e os feitiços para que ganhe movimento. Parece ainda mais real em preto e branco.

- Está me ofendendo. Eu procuro ser o mais profissional possível. - ela riu.

Por um momento, Sirius nada disse. Parecia francamente impressionado, enquanto admirava os jardins de Hogwarts sob uma chuva torrencial. O imponente salgueiro lutador ganhava um destaque especial em meio à paisagem sombria. Apontou para a árvore, réplica perfeita da original.

- Você deveria experimentar desenhá-lo à noite - sugeriu Sirius, entregando o bloco a Dorcas - Sabe, sob a luz da lua. Aposto que renderia um belo desenho.

- Não é má idéia - concordou a loirinha, enquanto depositava seu inseparável bloco em cima da mesinha mais próxima. - Você tem um bom olho para isso, Sirius.

O moreno curvou os lábios em um sorriso insinuante, como se subitamente estivesse relembrando algo muito bom.

- Eu não tenho uma memória fotográfica como a sua, - ele disse, sorvendo mais um gole de sua cerveja amanteigada - mas eu jamais vou me esquecer da cara que a McKinnon fez quando quase despencou da vassoura durante o jogo de hoje... É uma pena você não ter visto, Dorcas.

- E qual seria a vantagem positiva de ver você tentando cometer um assassinato, Sirius? - inquiriu a garota, enquanto o sorriso do maroto transformava-se em uma gargalhada rouca.

- Você acabaria por ser a cúmplice - brincou ele, ao que ela franziu o nariz em evidente desagrado. - Mas você simplesmente precisava ter visto, Dorcas. Conseguiria o desenho mais perfeito de sua promissora carreira.

Dorcas riu fracamente e meneou a cabeça.

- Sinto lhe decepcionar, Sirius, mas eu não quero passar o resto dos meus dias cumprindo pena em Azkaban.

- Pense no lado bom... Poderíamos ficar na mesma cela... O que acha? – ele sorriu de modo galante.

Dorcas ergueu uma sobrancelha e o encarou de forma meio penetrante, meio risonha.

- Você está brincando, não está?

Sirius a encarou com um ar quase descrente.

- Nunca falei tão sério em toda a minha vida. – ele disse sem ter largado o sorriso. Dorcas revirou os olhos e suspirou resignadamente.

- Sem chance, Sirius. Eu não vou fazer esse desenho.

Ele a encarou com um olhar que lhe lembrou muito um cachorro em estado de plena carência, fazendo com que a loira sentisse sua face queimar levemente.

- Talvez, se você me pedisse outra coisa... – ela murmurou, se limitando a tomar a sua pasta de desenho em mãos e folheá-la, apesar de não dar muita importância a esse fato.

Dorcas lançou um olhar de soslaio para Sirius e percebeu o ar malicioso que ele conservava em sua face.

- Posso pedir o que eu quiser?

- Você não presta, Sirius. – ela soltou num murmúrio, depois de ter engolfado uma boa quantidade de ar, como se estivesse receosa e, ao mesmo tempo, determinada em dizer o que desejava.

- As pessoas cismam com isso. – ele revirou os olhos, mas, ainda assim, não perdeu o sorriso. – O que você acha que eu vou pedir a você, Dorcas? – Sirius adquiriu um tom sério e a fitou com o olhar meio estreitado.

Dorcas inspirou profundamente, como se estivesse arrependida do que havia acabado de dizer e incerta do que agora responder. Mordeu o lábio inferior e o fitou meio de esguelha. Sirius passou a mão pelos cabelos lentamente e seus lábios se curvaram num novo sorriso ante a indecisão da loirinha.

- Deixei-a sem palavras, Dorcas? – ele a encarou de forma penetrante.

A grifinória mal percebera o que havia acontecido depois. Num momento, estava sentada displicentemente no braço da poltrona de Sirius e, no segundo depois, escorregava lentamente até o colo dele, sentindo braços fortes e quentes envolverem-na pela cintura.

- Faria mal eu pedi-la para que me desenhe, então?

Dorcas piscou várias vezes, ligeiramente surpresa diante do pedido dele. Sirius soltou um fraco risinho e a estreitou mais em seus braços, fazendo com que um leve arrepio descesse gradativamente através da espinha da garota.

- O que você achou que eu pediria? – ele questionou, as orbes cinzentas adquirindo um leve tom azulado. Gris.

Dorcas mirou os olhos dele, admirada. Era quase surreal ver, gradativamente, o azul tomar conta da íris dele, como uma parte do céu que irrompe entre as nuvens escuras de uma tempestade...

- Dorcas? – ele a chamou num tom doce.

A loira tornou a piscar, meio atordoada. Fitou a face de Sirius, ainda confusa e sentiu-se levemente envergonhada ao perceber que o seu nariz estava rente ao dele. Dorcas percebeu que Sirius não se importava, ao contrário, ele parecia estar gostando. "Claro, ele é um maroto..." ela pensou num resmungo.

- Seus olhos... – ela disse, um pouco rouca. – são... – ela percebeu que ele sorrira – Magníficos...

- Então, eu daria um bom quadro? – ele indagou, e ela percebeu que havia um quê de divertimento em sua voz.

Dorcas esboçou um sincero sorriso em resposta e abriu o seu bloco de desenhos cautelosamente. Sirius apenas se limitou a vê-la tirar uma espécie pena estranha do bolso e procurar uma página em branco.

- Como você prefere? – perguntou a loira, adquirindo um tom levemente profissional, enquanto voltava o olhar para o maroto.

Sirius que, aquele ponto, fitava o bloco de Dorcas com um olhar meio vago, ergueu a cabeça e exibiu uma feição confusa.

- Como...?

- Você, Sirius. – ela respondeu calmamente – Você prefere de rosto ou corpo inteiro?

Ele mordeu o lábio inferior e ergueu uma sobrancelha, numa feição quase cômica. Dorcas abafou um riso com uma das mãos.

- Seu desenho, Sirius.

- Ah! O desenho. – ele exclamou, como se só agora entendesse.

- Não foi o que você me pediu? – ela arqueou a sobrancelha, desconfiada.

- Qual forma você acha melhor? – ele retrucou com uma outra indagação – A profissional aqui é você.

Dorcas sentiu o rosto esquentar quase que automaticamente, tentando não notar as pessoas que circulavam um pouco mais afastadas deles.

- Eu sou uma mera amadora, Sirius...

- Não seja tão modéstia. – ele disse meio risonho – Você sabe muito bem que é ótima nisso.

Ela não pode deixar de esconder um sorriso por isso.

- Eu gostei dos seus olhos. – ela disse meio tímida.

- Desenhando somente o rosto, você poderá realçá-los, não? – ele soltou de imediato.

Dorcas cruzou os braços e o encarou com uma face falsamente carrancuda.

- Você mesmo não disse que a profissional aqui sou eu?

Sirius soltou uma gargalhada meio rouca e deu de ombros. Dorcas percebeu que ele a abraçara mais forte, de modo que seu ombro ficou recostado ao peito dele.

- Foi fácil presumir isso... – ele respondeu, ainda risonho – E então, quando vai começar?

- Se quiser, agora mesmo. – ela fez menção de se levantar, mais Sirius a impediu.

- Para onde você está indo? – ele indagou, surpreso.

- Você não quer que eu te desenhe?

- É necessário você sair para poder fazer isso?

Ela sentiu a face enrubescer.

- Não, mas...

- E então? Não vejo problema algum... - ele sorriu de forma sincera. – Sempre tive a curiosidade de presenciar a arte tomando forma através de suas mãos...

Dorcas mordeu o lábio inferior e fitou o papel em branco como se sua vida dependesse daquilo. Como confessar que ela se sentia incomodada em trabalhar com qualquer pessoa observando-a? Ela podia sentir a respiração quente do rapaz sobre o seu pescoço...

- Promete que vai fingir que não existe, enquanto eu estiver desenhando você?

- Como, se você terá que, constantemente, olhar para mim?

- Bom, se você sentir que não poderá ficar quieto, eu posso te aplicar uma Petrificus Totallis – ela retrucou, divertida, ao que Sirius torceu o nariz, indignado.

- Você me azararia?

Ela deu de ombros, como se desse uma mera importância ao fato.

- Ossos do ofício, Sirius Black.

- Hum... – ele fez uma breve careta com a boca – Vou tentar ficar parado.

Apesar de Sirius ter dito isso, Dorcas não se sentia tão confiante assim nas palavras dele, afinal, a mão dele passeou lentamente pela sua barriga.

- Assim espero. – ela disse num meio sorriso e suspirou profundamente – Posso começar?

Sirius levou a mão aos cabelos e Dorcas o encarou com ar de desagrado.

- Estava bom daquela maneira. – ela explicou ao ver o nítido ar de confusão expresso nos olhos dele.

Sirius sorriu meio de lado.

- Não quer tentar consertar o meu erro, Dorcas?

Ela meneou a cabeça e sorriu fracamente. As mãos da garota abandonaram o bloco de desenhos e foram guiadas até os cabelos negros do rapaz. Sirius, em resposta, a estreitou mais em seus braços, forçando-a a virar o tronco para ele. A loira entreabriu os lábios ao passo que Sirius aproximava-se a fim de capturá-los.

Um longo suspiro escapou dos lábios da garota quando Sirius aprofundou o beijo gradativamente. Dorcas afundou os dedos nos cabelos do rapaz, e debruçou-se levemente sobre ele, fazendo-o recostar-se completamente no encosto da poltrona.

O baque surdo de algo caindo no chão fez com que Dorcas se separasse de Sirius quase que automaticamente. O maroto exibia um ar satisfeito e os olhos completamente brilhantes.

Dorcas abaixou o corpo lentamente a fim de pegar o bloco que caíra no chão e lançou um sorriso divertido aos cabelos de Sirius, que se encontravam tão ou mais revoltos que o de James.

- Pronto, ficou perfeito.

Sirius apenas sorriu ante a afirmação dela e a ajeitou mais em seus braços, enquanto algumas pessoas observavam o casal com curiosidade. Sim, aquela seria uma longa noite...


Lily aproximou-se calmamente dos dois rapazes. Remus foi o primeiro a percebê-la e rapidamente se calou. James ainda gesticulava quando afinal a ruiva entrou em seu campo de visão, ao que ele emudeceu.

- Atrapalho alguma coisa? - ela perguntou com um meio sorriso.

James meneou a cabeça.

- De forma alguma. Precisa de alguma coisa, Lils?

Ela apenas abriu ainda mais o sorriso, balançando a cabeça negativamente, enquanto se sentava em uma das poltronas próximas a eles, observando, pensativamente, a chuva pela janela.

- Podem continuar a conversa, eu não pretendo interromper. - ela observou após alguns instantes de silêncio.

Remus e James se entreolharam com suspeita. Isso não passou despercebido para a ruiva e ela meneou a cabeça de leve, sabendo que, até instantes atrás, eles estavam falando dela.

- Bem... - James começou, passando as mãos pelos cabelos, nervosamente - Seja como for, não acho que a McKinnon tenha ficado muito satisfeita com aquilo. Se ela falar com algum dos professores, podem suspender o Sirius... E seria complicado para nós enfrentar esses últimos jogos sem o Pads.

- O que aconteceu? - Lily perguntou, voltando-se novamente para eles.

- Você não estava no jogo? - o moreno perguntou, olhando-a com certa reprovação.

Sem querer, a jovem sentiu-se corar de leve diante do olhar dele. Meneou rapidamente a cabeça para espantar pensamentos indesejados, que vinham se instalando com cada vez mais freqüência em sua cabeça e sorriu constrangida.

- Sinto muito, James, eu tive que atualizar alguns relatórios, passei a tarde na sala da monitoria... Além disso, eu estou ainda um tanto gripada, não seria muito inteligente sair do castelo sob essa chuva.

Remus sorriu, começando a se afastar.

- Depois dessa confissão de culpa, Lils, creio que você terá que ser doutrinada pelo Prongs aqui acerca do dever sagrado do quadribol... Como eu já tive minha cota de "Remus, por que diabos você não foi nos ver" na vida, receio que terá que passar por mais essa provação sozinha. Com licença.

- Tudo bem, Remus. - ela o cumprimentou com a cabeça, enquanto James sentava-se na poltrona diante da dela - Então, você vai brigar comigo?

James apenas sorriu, meneando a cabeça.

- Em parte, a culpa é minha. Eu deveria ter atualizado os relatórios no começo da semana. Você está fazendo meu trabalho. Eu sinto muito por estar sobrecarregando você nas últimas semanas e...

- De maneira alguma! - ela sentou-se na beirada da poltrona, aproximando-se de modo quase imperceptível até os joelhos de ambos se encostarem - Você estava dando duro nos treinos. A professora McGonagall teria te matado se você não agisse como o capitão que é.

Ele piscou os olhos, a respiração acelerada, passando a língua de leve sobre os lábios. Lily respirou fundo ao perceber o olhar dele, e rapidamente ajeitou-se em seu lugar.

- E então, o que o Sirius fez?

O rapaz levou alguns instantes até que sua respiração voltasse ao normal e ele deixou-se escorregar para o encosto de sua poltrona, fitando Lily com certo desapontamento.

- Ele quase matou a McKinnon com um balaço. Ela ficou de cabeça para baixo na vassoura para alcançar uma goles... Eu confesso que foi uma manobra simplesmente incrível. Uma pena que ela seja uma corvinal, eu me sentiria honrado em tê-la como membro do meu time.

Lily estreitou os olhos de leve.

- Estou ouvindo isso da mesma pessoa que, quando assumiu o cargo de capitão no ano passado, desdenhou do time da Lufa-lufa por ele ser quase que completamente composto por garotas e teve uma crise de risos no começo do ano quando Marlene foi indicada para capitã da Corvinal? - ela cruzou os braços - Onde está seu discurso de "garotas não foram feitas para quadribol"?

- As pessoas mudam, Lils. - ele respondeu, dando um sorriso um tanto malicioso.

Lily desviou o olhar para a janela. Ela não precisava pensar muito para entender o alcance daquelas palavras. Ele lhe dera provas disso desde que tinham começado a trabalhar juntos, quando, no começo do ano, Dumbledore os nomeara monitores-chefes. Se de início ela se irritara com o fato de ter que trabalhar ao lado do rapaz, agora ela não sabia como seria aquela monitoria sem a ajuda de James.

Não fosse ele, Lily certamente já teria sucumbido a toda a carga que o sétimo ano exigia deles. James provara ser responsável e, ao mesmo tempo, extremamente divertido. Trabalhar ao lado dele era sempre uma maneira de esquecer todos os problemas do resto do dia.

Com um suspiro, ela forçou-se a deixar esses devaneios de lado. Estava começando a enveredar por um caminho perigoso e, por melhor amigo que James pudesse ser, ela ainda não se esquecera de tudo o que tinham atravessado ao longo dos últimos sete anos. Erguendo a cabeça, ela encontrou os olhos avelãs dele extremamente próximos. Quando ele se sentara ao lado dela que não se apercebera disso?

- Você está bem? - ele perguntou, traindo uma nota de preocupação na voz - A gripe...

- Eu estou ótima. - Lily respondeu, sentindo as bochechas arderem, enquanto tentava abrir algum espaço entre os dois - Passei na Ala Hospitalar quando terminei os relatórios e Madame Pomfrey me deu uma poção revigorante.

- Qualquer coisa, você pode falar comigo, certo? - ele perguntou, colocando uma mecha do cabelo dela para trás da orelha.

Lily prendeu a respiração. Ele estava fazendo de propósito, provocando-a descaradamente. Tentando não parecer rude, ela segurou a mão dele, que acabara de deslizar para seu rosto, e levantou-se.

- Se você quiser, eu posso falar com a Marlene. Tenho aula amanhã com ela.

Ele assentiu, o semblante sério.

- Eu agradeceria, Lils. Não podemos perder o Sirius para essa final.

- Bem, então, eu vou dar uma olhada nos primeiranistas, ver se eles não estão aprontando alguma coisa... Com licença.

James sorriu enquanto ela se afastava, suspirando ao vê-la desaparecer entre os grifinórios que comemoravam a vitória. Quanto mais de paciência ele precisaria até que ela desse o braço a torcer?

Antes que ele pudesse continuar se perguntando o que fazer em relação a Lily Evans, sentiu o sofá em que estava afundar sob o peso de alguém. Levantando os olhos, deparou-se novamente com Remus, que sorriu para ele.

- E então, algum avanço?

O moreno sorriu de lado, cansado.

- Receio que a tática de deixar as coisas acontecerem sozinhas não esteja funcionando muito bem... Talvez eu tenha que tomar alguma atitude, porque se depender dela...

- Mais dia, menos dia, ela vai acabar aceitando. Vocês têm estado muito próximos este ano... A Lils finalmente conheceu o verdadeiro James. - Remus riu - E é consenso geral, inclusive entre nossas mães que você é simplesmente "apaixonante".

James revirou os olhos, rindo, antes de voltar a se concentrar na festa, deparando-se com Sirius sentado junto a Dorcas, conversando. Aparentemente, ele já se esquecera do que acontecera entre ele e a McKinnon mais cedo. Peter, por sua vez, estava isolado em um canto da sala, parecendo um tanto emburrado.

- Aconteceu alguma coisa com o Peter? - ele perguntou, voltando-se novamente para o amigo.

Remus deu de ombros.

- Parece que algum sonserino idiota o estava provocando durante o jogo. Não tenho certeza do que aconteceu, mas eu vi o Peter sumir das arquibancadas um pouco antes de a McKinnon pegar aquela goles, com uma das cobrinhas logo atrás dele. Não deu para fazer nada na hora, eu não tinha como sair do meu lugar para ir até ele sem ter que pular em cima de algumas cabeças pelo caminho.

- Bem, depois é melhor falarmos com ele. - James observou, levantando-se - Vou dar um giro pela festa, ver se está tudo certo.

Remus assentiu com um sorriso, assistindo ao amigo se distanciar, para, em seguida, voltar a mergulhar em seus próprios pensamentos.

Sabia perfeitamente que não devia mais permitir que seus pensamentos o fizessem pensar nela, mas isso estava se tornando cada vez mais difícil de se evitar. Afundando no sofá, ele soltou um longo suspiro. Por que simplesmente não podia... esquecer?

Remus fechou os olhos, esquecendo-se por breves minutos que se encontrava no meio da sala comunal e que este estava apinhado de grifinórios, e que algum dos marotos podia vê-lo naquele estado quase que lastimável.

- Merlin, por que depois de tanto tempo, você teve que fazer isso comigo? - ele murmurou baixinho, quase num tom aborrecido.

- Isso o quê, Remus?

Abriu os olhos de modo rápido e sentiu o rosto esquentar ao se deparar com o rosto curioso de Peter a fitá-lo atentamente.

- Er... Eu, bem... - ele pigarreou levemente. Como ia sair daquela situação levemente constrangedora? - O que houve com você, Peter? - quase sorriu internamente quando viu o amigo fechar a cara, emburrado.

- Nada demais.

- Os sonserinos não fizeram nada contra você, não foi?

- Ah, não, não. - ele disse de imediato. - Não fizeram nada. Mas você ainda não me falou o que aconteceu, Moony.

Remus encarou o amigo com uma feição surpresa. Desde quando ele era tão observador? Ou será que estava tão na cara assim que ele estava...

Não, Remus Lupin, - ele falou para si mentalmente - você não está apaixonado pela Vance. Ela é só sua... companheira de estudos. Sim, isso, companheira de estudos. Mas então, por que ele ansiava pelo dia em que se encontrariam novamente para estudar? Por que será que se sentia tão bem quando estava ao lado dela? Por que...

- Moony?

Ele pulou de susto ao ouvir a voz do amigo, que o observava com os olhos estreitos, desconfiados.

- Ah, sim, Wormtail, você ainda está aí? - ele o olhou confusamente, sentindo-se levemente embaraçado.

- Você tem certeza de que está bem? - o gordinho ergueu uma sobrancelha, parecendo agora um tanto preocupado.

- Claro... Claro estou... ótimo. - ele respondeu de imediato, forçando um sorriso. - Deve ser a aproximação da... - ele suspirou profundamente. – Bem, acho que será forte esse mês.

Peter assentiu, deixando transparecer certa preocupação nos olhos claros e, desculpando-se, deu licença ao amigo para que pudesse mergulhar em seus próprios pensamentos. Vendo-se sozinho novamente, Remus deixou escapar um suspiro aliviado e se levantou. Definitivamente, aquele não era o melhor lugar para ele pôr em ordem o que lhe passava pela mente naquele momento.

O som das vozes alegres morreu no corredor deserto quando o retrato fechou-se atrás dele. Remus fitou o corredor iluminado candidamente pelas tochas e engoliu em seco. De certa forma, apreciava aquele silêncio. Mas, era muito mais fácil não ouvir a voz dela ecoando em seus ouvidos com a balbúrdia que se encontrava na sala comunal do que agora, naquele silêncio incômodo.

Sentiu-se como se estivesse completamente mergulhado em seus pensamentos. Como se não mais tivesse um corpo para ter sensações. Era apenas a voz dela...

- "Vai ficar parado aí o tempo todo"?

E, novamente, ele se viu tendo um solavanco de susto. Olhou para trás e viu a Mulher Gorda olhando para ele de forma curiosa.

- "Se eu fosse você não ficaria aí por muito tempo... Já passou da hora andar pelos corredores, sabia, Lupin"?

Ele apenas assentiu levemente e resmungou qualquer coisa. Será que nem que se isolasse no Monte Everest ele teria um minuto a sós com os seus próprios pensamentos, sem que ninguém atrapalhasse? Tudo bem que, até alguns momentos atrás, ele estivera achando aquele silêncio terrível, mas... Se todas as vezes ele fosse despertado assim do seu estado "Moony", acabaria por certo enfartando!

Ainda um pouco aborrecido e entreouvindo algo como "E se o Filch descobrir..." dito pelo quadro, Remus andou apressadamente pelos corredores, disposto a encontrar um lugar definitivamente sossegado, silencioso - sem quadros, amigos inconvenientes, corujas e afins - ... Resumindo, um lugar em que ele pudesse pensar, ou melhor, um lugar em que ele conseguisse, por míseros segundos parar de pensar nela.

O que estava cada vez mais difícil de se conseguir...

Não que ele a conhecesse há pouco tempo... não diretamente. Desde o primeiro ano ele a percebia na biblioteca. No início, até que não se importava. Mas, com o tempo, ao vê-la sempre ali, sentada na mesma mesa, rodeada cada semana por uma pilha de livros diferentes, acabara se acostumando com a constância dela, mesmo que a comunicação entre os dois se restringisse a alguns breves olhares...

Um sorriso brotou nos lábios do rapaz ao lembrar-se da primeira vez em que eles tinham se falado realmente.

Apesar de saber que, nas proximidades dos NOM's e dos NIEM's, a biblioteca enchia de alunos, - ora desesperados alegando não saber nada, ora emburrados por perceberem que tinham se atrapalhado com uma besteira daquelas, ora sorrindo satisfeitos por ainda saberem o assunto - ele tinha necessidade de estar ali. Afinal, toda sexta-feira, mais precisamente às seis horas da noite, ele sabia que ela estaria lá. Sabia perfeitamente que ela estaria sentada na mesma mesa, na mesma cadeira, sempre a sós com os seus pergaminhos e livros. Respirou profundamente. Aqueles encontros mudos, sem ele mesmo perceber, já haviam se tornado parte da sua vida.

Mas, para a surpresa dele, àquela noite, acabara encontrando a mesa dela vazia. Sentiu-se entre frustrado e preocupado. O que teria acontecido para ela não comparecer ao "encontro"?

Antes que pudesse se refrear, caminhou lentamente em direção àquela mesa, a mais afastada da biblioteca, tentando encontrar qualquer pista que dissesse porque ela não aparecera. Seu coração se contraiu de forma estranha e ele sentiu os olhos arderem ao pensar na possibilidade de ter acontecido algo grave com ela, ou simplesmente que ela estivesse... morta. Bom, as pessoas podem morrer de causas naturais, não é mesmo?

Respirou profundamente e mordeu o lábio inferior. Por que aquilo lhe doía tanto? Talvez, talvez, depois de seis anos, ele simplesmente não aceitasse o fato de, naquele dia, ter sido abandonado por ela. Balançou a cabeça a fim de espantar aqueles pensamentos.

Estava louco, sim, estava ficando louco! Ele nem conhecia a garota e já ficava exigindo que ela aparecesse ali, só por que ele queria? Se ela sentava todos os dias no mesmo lugar era porque ela gostava de se sentar ali e se ela aparecia todas as sextas não era por que ele também ia à biblioteca às sextas.

Ao final das contas, não fora ele quem mudara os seus hábitos por causa dela? Não era ele quem sempre ficava ligeiramente deprimido quando havia Lua Cheia numa sexta?

Sim, ele tinha plena certeza, aquilo já fora longe demais. Virou-se bruscamente para sair dali, mas, antes que desse o primeiro passo, sentiu algo esbarrar fortemente nele.

- Oh, droga. - ela resmungou. - Merlin, Merlin, hoje, definitivamente não é o meu dia! Droga, droga!

Remus prendeu a respiração e sentiu o rosto arder fortemente ao perceber em quem esbarrara. Não pôde deixar de conter o sorriso que aparecera em seus lábios ao fitar os cabelos claros da garota. Sim, era ela... Enfim, ela só havia se atrasado.

-Hum, er... - ela disse num murmúrio rouco. - Realmente, me desculpe, Lupin. - ela completou, se abaixando para catar os livros que deixara cair.

Remus ainda tentava assimilar o fato de que finalmente conseguira chegar a menos de um metro daquela garota e que agora estava falando com ela. Ou melhor, ela estava falando com ele.

- Eu realmente sinto muito... – Emmeline continuou, no mesmo tom baixo, enquanto colocava os livros calmamente sobre a mesa, evitando encará-lo. Afinal, se ele respondesse com grosseria, certamente acabaria pulando no pescoço dele. Não tivera um bom dia. Snape bem sabia disso... - É que acabei me atrasando e achei que... - ergueu o olhar para encará-lo e deu um sorriso fraco. Lupin tinha um belo rosto e a última coisa que ela gostaria de ver nele eram tentáculos rosa-choque saindo por todos os orifícios faciais existentes - Desculpe. - completou de forma doce. Conhecia de longe o jeito gentil do rapaz e a última coisa que queria era perder o seu "amigo visual". Além do que, ela era realista, e sabia perfeitamente que não podia sair por aí correndo como se estivesse fugindo de um bando de acromântulas e esbarrando nas pessoas. A culpa fora realmente dela. - Desculpe mesmo. – repetiu, tentando não mostrar impaciência ao ver que ele continuava calado, com um olhar meio vago e o rosto levemente ruborizado.

Remus não mais sabia se ela estava se desculpando por ter esbarrado nele, ou se era por causa do seu atraso. Sua mente dizia que certamente era a primeira opção, mas uma vozinha ao fundo sussurrava que era a segunda, e ele inacreditavelmente acreditou nela.

- T-tudo bem. - ele falou com um pouco de esforço, quando tomou consciência que ela ainda o encarava pensativa. - Eu... eu... eu... - ele pigarreou. - Bem, eu vou procurar uma mesa...

Ele rapidamente ajeitou a mochila num gesto nervoso e deu as costas para ela, mas parou estaticamente ao sentir a mão delicada da corvinal segurar o seu ombro. Um arrepio percorreu o seu corpo e ele mordeu o lábio inferior. Por que raios estava assim...?

- O resto da biblioteca está cheio... E Mme. Pince não está gostando da nossa conversa. - ela disse, um pouco risonha, apontando com a cabeça para a bibliotecária que olhava feio para eles.

- Mas... - foi a única coisa que ele conseguiu falar antes de ser puxado por ela até uma cadeira.

- Onde estuda um, estudam dois. - ela disse docemente. - E, do mesmo modo, depois de seis anos sozinho, não deve ser tão ruim estudar com uma companhia, não é mesmo? – ela coçou o nariz de leve - Se bem que, muitas vezes, quando estudamos em grupo, conversamos mais do que fazemos outra coisa. - ela deu de ombros. - Mas, como eu disse, o resto da biblioteca está cheio e você terá que aturar a minha companhia.

Remus apenas assentiu levemente, piscando várias vezes para assimilar o que ela dissera. Estava entorpecido demais com a voz doce dela para entender o que ela dizia e desacreditado demais para admitir para si mesmo que finalmente estava falando com ela. Quantas foram as noites passadas em claro, ansiando por aquele momento em que finalmente eles estudassem juntos e passassem da fase dos olhares?

- Mas... - ele disse um pouco rouco, enquanto a observava se sentar. - Como você sabe o meu nome?

Ela riu baixinho.

- Oras, Lupin, vai dizer que você esqueceu que faz parte do grupo mais popular deste castelo? - ela ergueu uma sobrancelha, no que ele sorriu constrangido.

- Talvez porque eu ainda não acredite que me tornei amigo daqueles loucos...

Ela sorriu, no que Remus sentiu o rosto esquentar mais uma vez. O silêncio reinou por eles durante breves minutos. Contudo, Emmeline não demonstrava nenhum interesse em pegar os seus livros para estudar.

- Hum, eu não sei o seu...

- Emmeline Vance. - ela disse entusiasmada, esboçando um ar alegre. Remus, no entanto, se perguntava por que a biblioteca ficara tão quente de repente. - Desculpe-me por não ter me apresentado antes. – ela completou, levemente vermelha.

Desde aquele dia, o que Remus menos fazia naquela biblioteca nas sextas-feiras era estudar. Percebeu que a cada semana que passava, ele cada vez mais pegava a si mesmo admirando a garota sentada à sua frente. A garota que ora estudava, ora escrevia atentamente em pergaminhos, muitas vezes tão absorta que se inclinava levemente sobre o papel e não percebia... Por oras murmurava ou resmungava algo que o fazia rir... Por oras olhava de soslaio para ele e sorria, ao passo que ele corava e fingia que estava lendo... E, de repente, viu-se apaixonado por...

- Emmeline Vance. - ele sussurrou calmamente e sorriu.

Ainda andando sem rumo, o rapaz pôs as mãos nos bolsos da capa do uniforme e passou a caminhar com um olhar baixo. Sabia que nenhum tipo de relacionamento daria certo para ele... Ele, sendo o que é, jamais a mereceria.

- Remus...?

Só que, ao mesmo tempo, estava tão apaixonado por ela que não via mais forma alguma de se aniquilar aquele sentimento.

- Remus...?

Ele deu um sorriso cansado para si mesmo. Estava ficando tão ensandecido que sua mente agora começava a imaginar a voz dela nos lugares mais improváveis.

- Remus!

O maroto viu-se tendo mais um sobressalto e estreitou os olhos, observando tudo ao seu redor a fim de confirmar que aquilo era somente fruto da sua imaginação e depois disso, autorizaria a sua internação imediata no St Mungus. Mas qual foi a surpresa dele quando divisou, no fim do corredor, Emmeline encarando-o firmemente?

- Emme... Vance? - ele disse ainda um pouco surpreso. - Mas o quê...?

- Está de ronda...? - ela indagou enquanto se aproximava.

- Ronda? - ele exibiu uma feição intrigada. - Ah, não... Eu... bem... Er...

Ela riu do jeito franco que sempre o encantava.

- Se você não quiser me contar o que estava indo fazer, não tem problema. Vai se encontrar com alguém...? - ela perguntou, exibindo um sorriso pelo canto dos lábios e erguendo uma sobrancelha. - Se eu estiver atrapalhando algo e você quiser que eu saia, eu...

- Hum, não... Você? - ele perguntou num fio de voz.

Emmeline apenas negou com um meneio da cabeça.

- Então... Se eu não for tão má companhia assim, que tal nós darmos uma volta? - ela sorriu para Remus, que se sentiu muito preocupado no ato de ajeitar a capa no corpo.

- Você não tem medo de sermos pegos pelo Filch?

Voltando a rir, ela meneou a cabeça.

- Ele não pode nos dar uma detenção se não obter uma prova de que estávamos mesmo fora da sala comunal, não é? - ela piscou o olho para ele. - Ouvi um certo alguém dizer que conhecia mais passagens do que eu poderia imaginar, não é mesmo? Se houver qualquer indício do Filch, eu sugiro uma retirada estratégica.

Remus sentiu como uma chaleira fervente quando Emmeline o pegou pelas mãos e o forçou a caminhar com ele. Ela o observou, atenta, no que ele soltou um riso nervoso.

- Remus, você já experimentou relaxar um pouco o corpo enquanto anda? – Emmeline perguntou, risonha, ao perceber que ele estava andando de forma quase mecânica.

A chaleira dentro de Remus ferveu com mais intensidade e ele sorriu amarelo, tentando relaxar um pouco e ignorando uma frase dos marotos que ele preferia não lembrar no momento.

- Você não costuma sair com garotas, não é, Remus? - ela indagou depois de um tempo, encarando-o firmemente com um sorriso no rosto ao perceber que ele não estava mais tão tenso quanto antes.

Remus apenas a encarou de modo estupefato, perguntando-se quanto tempo faltava até que a "chaleira" explodisse. Por que ela estaria perguntando isso?

- N-não. - ele respondeu num sussurro rouco.

- Você gosta de alguém? - ela perguntou, ainda firmando o olhar nele.

Sabia perfeitamente que Remus era o sonho de consumo de muitas garotas. Afinal, já entreouvira várias conversas de sextanistas e setimanistas grifinórias e lufa-lufas... E de algumas sextanistas corvinais, sonhando acordadas umas com as outras, imaginando como seria beijar Remus Lupin, entre outras coisas que faria até Sirius Black corar de vergonha.

Terceiranistas, segundanistas - e até primeiranistas - ela lembrou num revirar de olhos - soltavam alguns risinhos quase irritantes quando ele passava. E as quartanistas e quintanistas se dividiam entre a turma do riso e a turma do pervertimento. Remus tinha diversas opções. Então, por que ela nunca o vira com ninguém? Será que ele gostava de garotas mais velhas e mais maduras? Será que ele guardava uma paixão platônica pela Madame Rosmerta?

Os passos de Remus cessaram de imediato e Emmeline o seguiu depois de alguns segundos. A loira percebeu que o garoto empalidecera e tinha os lábios meio entreabertos, numa feição meio receosa, meio assustada e também meio desesperada.

- Calma, Remus... - ela segurou os ombros dele firmemente, tentando passar alguma segurança ao amigo - Se não quiser me contar, não precisa, ok? Mas... - ela se aproximou lentamente dele, fazendo o garoto perder um pouco a palidez, mas arregalar mais os olhos. - Cá entre nós, você não é apaixonado pela McGonagall, não é mesmo?

- Eu... - ele falou roucamente, como se há muito se esquecesse de como era usar as cordas vocais. - Claro que não!

- Ótimo! Então, não é tão grave assim, não é mesmo? Então, você pode me contar.

- Eu... eu não sei ainda. - ele desviou o olhar do dela. - Estou... confuso.

- Confuso...? - ela ergueu uma sobrancelha desconfiada. - Com os seus sentimentos ou com os dela?

Remus apenas deu de ombros.

- Acho que eu só a estimo um pouco mais do que outras amigas. Só isso.

Emmeline sorriu radiante.

- Então, caro Remus... - ela disse quase dando pulinhos de alegria. - Já que o seu "problema" não é tão grave assim... - Remus se viu novamente tomado pela mão dela, só que, dessa vez, ela passou o braço por volta do dele. - Terei a honra de arranjar um par perfeito para você. O senhor não deve ter um gosto muito difícil, não é mesmo? Deve ter alguma garota dentro deste castelo que seja do seu agrado... Só não me venha com sonserinas, pelo amor de Merlin! Tenha um bom gosto ao menos! - ele riu fracamente. - Vejamos... qual seria a sua preferência?

E enquanto Emmeline enumerava as características que poderia ser do agrado dele, Remus exibia um sorriso um tanto constrangido. Como dizer a Emmeline que ela não precisava se dar ao trabalho de pesquisar? Afinal, a garota perfeita estava ali, bem diante dele, com o braço em volta do seu e falando alegremente. Sim, tendo Emmeline Vance ao seu lado, ele não precisava de mais nada.

- Remus, você está ouvindo alguma coisa do que eu estou falando? - ela parou de repente, encarando-o com um ar desconfiado.

Ele apenas a encarou com a chaleira novamente ativa, e sorriu constrangido.

- Desculpe.

- Tudo bem. - ela soltou um fraco muxoxo. - Já vi que vou ter que me virar sozinha mesmo... Bom, acho melhor eu ir embora. - ela sorriu e deu um beijo no rosto dele, no que Remus jurou que saíra fumaça das suas orelhas. - Te vejo amanhã, na biblioteca. Boa noite, Remus.

- Boa noite, Emmeline... - ele respondeu num sussurro.

Os passos dela cessaram gradativamente e, quando se viu sozinho pela terceira vez aquela noite, Remus deixou escapar um longo e custoso suspiro. Sim, isso estava cada vez mais difícil de ser evitado.

Não muito longe do caminho do jovem grifinório, um gordo rato cinzento observava tudo, remexendo seus longos bigodes.