CAPÍTULO 2 – Petit Gâteau
Durante o almoço Cameron notou como Lucy era uma pessoa insuportavelmente adorável. Meiga, simpática, gentil. Cameron a odiava ainda mais por isso. Lucy contou que conheceu Chase em Sidney, quando ele fazia residência lá e um mês depois de começarem a namorar ela se mudou pros Estados Unidos.
Cameron não conseguia prestar atenção em nada que Lucy dizia, só conseguia observar tudo nela: os cabelos loiros e lisos como os de Chase, os mesmos olhos azuis, o corpo alto e esguio. Ela era bonita, meio sem graça, mas bonita.
Cameron acordou dos seus pensamentos com a pergunta de Chase:
- Allison, você quer pedir a sobremesa?
- Ah, sim Robert. O que tem de bom aqui?
- Eu adoro a torta de maçã deles. – respondeu Lucy.
Chase e Cameron trocaram um olhar e deram uma risada. Ambos odiavam torta de maça! Lucy fingiu que não viu, mas ficou visivelmente incomodada com aquela intimidade repentina entre eles. Cameron não podia perder a chance:
- Robert, divide um petit gâteau comigo? Em homenagem aos velhos tempos?
Chase riu de novo.
- Claro! Será um prazer. – e virando-se para o garçom – Uma torta de maçã e um petit gâteau, por favor.
- Lucy, Allison e eu nos conhecemos numa lanchonete perto da faculdade. Nós brigamos por um petit gâteau! Eu cheguei antes dela e pedi um, quando ela chegou não tinha mais! Ela ficou toda brava!
Agora Cameron dava uma gargalhada.
- Mentira Robert. Eu cheguei muito antes de você lá só que tava lotado. Você foi atendido primeiro porque era amigo do garçom.
- Ta, é verdade. – concordou Chase – Mas sabe o que ela fez amor? Foi até a minha mesa e disse: "Olá, eu sou Allison Cameron, estou de TPM e a única coisa que me acalma é um petit gâteau. Se eu não conseguir um, eu posso ter um acesso de raiva. Eu acho que, como você é um cavalheiro, você poderia me dar o seu. Se você não quiser me dar, tudo bem, eu pago. Até o dobro se você quiser."
Lucy também começou a rir.
- Não acredito que você fez isso. Que cara de pau!
- Fiz. Eu queria muito mesmo. – respondeu Cameron ainda rindo.
- E ele te deu? – perguntou Lucy.
- Não. Disse que podia dividir comigo, mas que não me dava inteiro de jeito nenhum. Eu aceitei a proposta, sentei à mesa com todos os amigos dele e dividi a sobremesa com um cara que eu nunca tinha visto na vida. Era o meu segundo dia na faculdade. Os garotos falam que eu fui a caloura mais abusada da história de Hopkins. Desse dia em diante sempre que um de nós dois queria comer petit gâteau, a gente ia lá e dividia um. A parte chata é que eu nunca mais comi um petit gâteau inteiro.
Os três ainda estavam rindo quando a sobremesa chegou. Cameron notou uma expressão diferente no rosto de Chase, não sabia dizer exatamente o que era, mas teve a sensação de que, pela primeira vez depois que se encontraram no hospital ele a via como a Allison da faculdade. Tentou afastar essa idéia da cabeça, não queria fantasiar nada, mas só ela e ele sabiam o que aquele momento significava para ambos.
Pediram a conta. Chase fez questão de pagar. Saíram do restaurante, e Chase falou:
- Allison, vou levar a Lucy até o carro, me espera que a gente volta junto pro Hospital.
- Ok!- respondeu Cameron.
Cameron e Lucy se despediram.
- Tchau Allison. A gente se vê.
Cameron teve a impressão de ver um enorme ponto de interrogação na testa de Lucy. Ela quase podia ler os seus pensamentos: "quem é você afinal?!".
- Tchau Lucy. Foi um prazer conhecer você. – respondeu tentando parecer o menos falsa possível.
Ficou observando os dois se afastando de mãos dadas e sentiu um nó na garganta quando ele deu um demorado beijo na noiva. Voltaram ao Hospital conversando sobre banalidades.
- Ali está o meu carro. – apontou Cameron – Então... Nos vemos amanhã.
- Certo. Até amanhã.
Ela entrou no carro. Ele já ia se afastando, mas parou no meio do caminho.
- Allison...
- Oi.
- Eu estou muito feliz por ter reencontrado você.
O coração de Cameron disparou. Ela o conhecia bem demais pra saber que aquilo não queria dizer apenas "eu estou muito feliz por ter reencontrado você". Ela tinha certeza absoluta de ter visto nos olhos dele que ele queria dizer mais alguma coisa. Olhou pra ele com um ar de interrogação e ele continuou:
- E eu não comia um petit gâteau há 6 anos.
Ela abriu um sorriso enorme.
- Acho que o meu último foi no mesmo dia que o seu, Robert. E... Eu também estou muito feliz. Até amanhã.
- Até.
A caminho de casa Cameron se sentia flutuando. Esqueceu completamente da existência de Lucy. Só conseguia pensar no quanto estava feliz em ter visto de novo aquele sorriso lindo.
No som tocava uma música antiga...
When I look into your eyes
I can see a love restrained
But darlin' when I hold you
Don't you know I feel the same?
'Because nothing' last forever
And we both know hearts can change
And it's hard to hold a candle
In the cold November rain
We've been through this such a long long time
Just tryin' to kill the pain
But lovers always come and lovers always go
And no one's really sure who's lettin' go today
Walking away
If we could take the time to lay it on the line
I could rest my head
Just knowin' that you were mine
All mine
So if you want to love me
then darlin' don't refrain
Or I'll just end up walkin'
In the cold November rain
Do you need some time... on your own
Do you need some time... all alone
Everybody needs some time... on their own
Don't you know you need some time... all alone
I know it's hard to keep an open heart
When even friends seem out to harm you
But if you could heal a broken heart
Wouldn't time be out to charm you
Sometimes I need some time... on my own
Sometimes I need some time... all alone
Everybody needs some time... on their own
Don't you know you need some time... all alone
And when your fears subside
And shadows still remain
I know that you can love me
When there's no one left to blame
So never mind the darkness
We still can find a way
'Cause nothin' last forever
Even A cold November rain
Don't ya think that you need somebody
Don't ya think that you need someone
Everybody needs somebody
You're not the only one
You're not the only one
XXX
Chase chegou à sala de diagnósticos exatamente às 14h. House estava sentado numa poltrona, com um fone no ouvido e de olhos fechados. Foreman lia uma revista científica.
- Ei pessoal. – chamou Chase – Ninguém mais aqui trabalha não é?! Como está o nosso paciente?
- Você perdeu o melhor da festa Chase. – respondeu Foreman - A Cuddy tirou a gente do caso.
- Sério? O que o House aprontou dessa vez?
- Nada grave, ele só disse pro nosso paciente de 10 anos de idade que a mãe dele é uma vadia.
- Ei garotos. – House deu um grito - Vocês não aprenderam que só se fala do chefe quando ele não está presente? Que coisa feia. Duas horas na clínica de castigo pra cada um.
- Você não falou isso mesmo né House? – perguntou Chase.
- Claro que não. Eu só disse que, pelo fato da mãe dele passar todas as noites fazendo sexo por aí, e não se importar nem um pouco com ele, ela não percebeu que ele estava infestado de vermes! E daí? Ela É prostituta. Ele ia descobrir isso mais cedo ou mais tarde.
- E tinha que ser você pra contar, claro! – ironizou Chase - Mas o Exame Parasitológico de Fezes deu negativo.
- É! Eu sei. Você já ouviu falar em falso negativo? É por isso que pedimos os exames em três amostras, sabia? Pena que o Dr. Neurologista aqui faltou a essa aula e colheu uma única amostra. Ele só percebeu que o garoto tinha Ascaris lumbricoides quando ele viu as criaturinhas saindo pela boca e nariz.
Foreman saiu da sala irritado e Chase começou a rir.
- Então tudo resolvido. Diagnóstico feito, albendazol nele. Por isso que você não tá nem aí, a Cuddy ficou com a parte chata.
- Exatamente! Ainda bem que eu contratei uma imunologista, eles são bons com esses negócios de exames. Falando nisso... Você passou bem na faculdade hein garoto! Como é que você deixou uma gata daquelas escapar?
- House, ela era minha amiga.
- Sei. E vocês brincaram muito durante o almoço?
- Muito. Eu, ela e a Lucy. – Chase respondeu irritado.
House foi saindo da sala e gritando pelo corredor:
- Ah meu Deus! Tava esquecendo da "Lucy in the sky" e seu sorriso de paisagem. E agora... Dr. Chase casa-se com a doce Lucy ou entrega-se à paixão pela bela Dra. Cameron?
House entrou no elevador e antes que a porta se fechasse a Dra. Cuddy apareceu.
- House, onde você vai? – perguntou Cuddy.
- Pra casa.
- São 14h30.
- É, eu sei. É que vai reprisar o jogo dos Jets às 15h na tevê.
- E você não tem nada pra fazer?
- Não. Eu não tenho mais um paciente lembra?
- E a clínica?
- O Foreman está lá no meu lugar. Eu apostei com ele quem conseguia comer o maior número de Woppers e ele perdeu.
Cuddy saiu irritada do elevador e House ficou olhando o bumbum dela. Quando ela já estava no final do corredor ele gritou:
- Essa saia fica ótima em você Dra. Cuddy. E você rebola mais quando fica irritada!
- Cresce House! – gritou Cuddy de volta.
XXX
No final da tarde Chase saiu do Hospital e seguiu para o apartamento de Lucy. Entrou e a encontrou trabalhando no escritório.
- Oi amor. – disse Chase – Eu trouxe um lanche pra você.
- Oi. Obrigada. Deixa lá na cozinha.
- Você não vai comer agora? Vai esfriar.
- Eu tô sem fome.
- Lucy... Tá tudo bem?
- Tá.
- Amor, eu conheço você. O que aconteceu?
- Nada Robert. Eu tô trabalhando, você não tá vendo? – ela respondeu alterando a voz – Tenho que entregar esse projeto até amanhã.
- Ei, calma aí. Estava tudo ótimo na hora do almoço, você nem comentou de projeto nenhum pra amanhã. De repente você fica toda estressada. O que foi que eu fiz?
- Tá bom. Eu não queria falar, mas já que você insiste. Qual é a sua com essa Dra. Allison Cameron hein?!
- Eu sabia que era isso. – Chase deu um suspiro – Você tá com ciúmes da Allison?
- Claro que não. Eu só não gostei da intimidade entre vocês, do jeito que ela olha pra você. Como assim ficam anos sem se ver e agora são melhores amigos?
- Lucy, a Allison e eu fomos melhores amigos. E ela não me olha de nenhum "jeito" não. Isso é coisa da sua cabeça.
- Ah Robert, pára tá? Eu não nasci ontem e eu sou mulher. Não adianta você querer me fazer de idiota. Eu sei diferenciar um olhar de "que saudade do meu melhor amigo" de um olhar de "ah meu Deus, como eu sou louca por esse cara". E eu te conheço também, você jamais seria só amiguinho de uma mulher bonita como aquela.
- Tudo bem Lucy. Nós transamos algumas vezes. É isso que você quer saber?
- Transaram?
- É. Coisa de faculdade, nada sério. A gente ficava junto de vez em quando, era meio que uma "amizade colorida". Mas, querida, isso não tem nada a ver, eu amo você. Allison e eu somos só amigos agora, eu garanto pra você.
- Eu sabia que tinha alguma coisa. Eu odeio a idéia de você e ela passarem todos os dias juntos naquele hospital. Eu dava tudo pra essa mulher não ter aparecido justo agora que a gente tava tão bem. Aliás, eu dava tudo pra ela não existir.
Lucy virou-se para a janela. Chase percebeu que ela estava chorando. Chegou perto dela e fez menção de abraçá-la, mas ela o conteve.
- Vai embora Robert. Eu quero ficar sozinha.
- Tudo bem. Só acho que você tá sendo infantil. Mas se você prefere ficar sozinha eu respeito.
Chase deu um beijo na testa dela, deixou o lanche em cima da mesa e saiu.
Chase entrou no seu carro, mas não conseguiu ir pra casa. Ficou rodando pela cidade pensando em tudo o que tinha acontecido naquele dia. Estava confuso, o encontro com Allison tinha mexido com ele de uma forma estranha. E também estava odiando ter brigado com Lucy. Só não tinha idéia do que fazer em relação a isso tudo...
Pela marca que nos deixa
A ausência de som que emana das estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar
Doido corpo que se move
É a solidão nos bares que a gente freqüenta
Pela mágica do dia
Que independeria da gente pensar
Não me fale do seu medo
Eu conheço inteira sua fantasia
E é como se fosse pouca
E a tua alegria não fosse bastar
Quando eu não estiver por perto
Canta aquela música que a gente ria
É tudo que eu cantaria
E quando eu for embora você cantará
Notas:
1. Petit gâteau: bolinho de chocolate com casquinha crocante e recheado com calda de chocolate quente, servido com sorvete de creme. É a minha sobremesa preferida, então resolvi que é a preferida do Chase e da Cameron também. Eu queria alguma coisa pra simbolizar a história deles e como eu adoro comer, tinha que ser algum tipo de comida!
2. Hopkins: Universidade Johns Hopkins – uma das mais famosas universidades dos EUA. A sua faculdade de Medicina é uma das melhores do país. House e Foreman estudaram lá, como eu não descobri onde Chase e Cameron estudaram considerei que os dois também estudaram lá. Apesar de achar que o Chase fez faculdade na Austrália.
3. Música que a Cameron ouve no carro: November Rain do Guns N' Roses.
Tradução:
Chuva de Novembro
Quando olho dentro dos seus olhos
Eu posso
perceber um amor reprimido.
Mas, querida, quando te abraço
Você
não entende que eu sinto o mesmo?
Nada dura para
sempre,
E nós dois sabemos que os sentimentos podem
mudar.
E é difícil segurar uma vela
Na chuva fria
de novembro.
Nós estamos nessa há tanto, tanto
tempo
Simplesmente tentando aplacar com a dor.
Mas amores
sempre vêm e amores sempre vão,
E ninguém está
realmente certo quem está deixando, hoje.
Indo embora.
Se
nós pudéssemos usar o tempo
Para falar
francamente
Eu poderia descansar minha cabeça
Simplesmente
por saber que você foi minha,
Toda minha.
Assim se
você quiser me amar
Então, querida, não se
contenha.
Ou eu simplesmente terminarei andando
Na chuva fria
de novembro.
Você precisa de um tempo... para você
mesma?
Você precisa de um tempo... totalmente sozinha?
Todos
precisam de um tempo... para si mesmos.
Você não
entende que precisa de um tempo... totalmente sozinha?
Eu sei
que é difícil manter um coração
aberto
Quando mesmo os amigos parecem dispostos a te
prejudicar.
Mas se você pudesse curar um coração
partido,
O tempo não pararia para te encantar?
Às
vezes eu preciso de um tempo... para mim mesmo.
Às vezes eu
preciso de um tempo... totalmente sozinho.
Todos precisam de um
tempo... para si mesmo.
Você não entende que precisa
de um tempo... totalmente sozinha?
E quando seus temores se
acalmarem
E as sombras ainda permanecerem,
Eu sei que você
pode me amar
Quando não sobrar ninguém para
culpar.
Então não se preocupe com a
escuridão,
Nós ainda podemos encontrar um
caminho.
Porque nada dura para sempre,
Nem mesmo a chuva fria
de novembro.
Você não acha que precisa de
alguém?
Você não acha que precisa de
alguém?
Todos precisam de alguém.
Você não
é a única.
Você não é a única.
4. Ascaris lumbricoides: é a popular "lombriga". Sim, as crianças americanas também têm lombriga, apesar de ser muito menos comum lá do que por aqui. Se demorada pra diagnosticar, ou em crianças mal-nutridas, pode causar um quadro respiratório grave e matar. O tratamento com albendazol é simples e a cura é total. Eu me empolgo um pouco na parte médica da coisa! Sorry!!!
5. Lucy in the sky: referência à música Lucy in the Sky with Diamonds dos Beatles. Uma piadinha do House comparando a "doce Lucy" do Chase com a garotinha da música de John Lennon.
6. Jets: New York Jets - equipe de futebol americano, situada na região metropolitana de Nova York, mas que na realidade joga no Giants Stadium, em East Rutherford, em Nova Jérsei.
7. Wopper: sanduíche número 1 do Burger King, um fast food americano famoso por lá, mas que aqui no Brasil ainda não tem a popularidade do bom e velho McDonald's.
8. Música final: Estrelas – Oswaldo Montenegro.
Agradecimentos:
Ligya, Vanessa e Mona brigada pelos reviews! E também pra Lalá, Naiky, Flora, Laís e Ni!!! Meninas, valeu mesmo por curtirem a minha primeira obra literária!!! hehe
E pra quem tá gostando... Mandem reviews!!!!
