CAPÍTULO 5 – Metade
"Que a força do medo que tenho
não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio."
Cameron rolou na cama a noite inteira, não conseguiu pregar os olhos. Passou a noite pensando em Chase, no beijo, nos tempos da faculdade, no quanto ele a tinha magoado, mas no quanto ela não conseguia sentir raiva dele. Levantou-se um pouco antes das 6, olhou-se no espelho e não acreditou quando viu o quanto seu rosto estava inchado e vermelho, as olheiras também eram visíveis. Tinha chorado muito durante a noite.
Preciso dar um jeito nisso. Pensou. A única coisa que eu não preciso hoje é do House me enchendo porque eu estou com cara de quem chorou.
Ligou a ducha o mais quente que conseguiu e entrou. Era início de outubro e os primeiros ventos do outono anunciavam o inverno que estava por vir. Cameron ficou quase uma hora debaixo do chuveiro, quando saiu, havia tomado uma decisão.
Arrumou-se calmamente, passou um corretivo embaixo dos olhos, um pouco de pó, batom e saiu de casa pouco antes das 8.
XXX
Chase estava sentado sozinho numa Starbucks perto do Hospital. Ele mexia distraidamente o café quando Lucy chegou.
- Bom dia, meu amor. – Ela disse dando um beijo suave nos lábios dele.
Ele esboçou um sorriso e respondeu.
- Bom dia. Você demorou.
- Desculpa. Eu perdi a hora. Parece que você não me esperou mesmo né? – Ela brincou.
- Ah não. Eu só pedi um café pra acordar. Dormi pouco essa noite.
- Mas você não tomou uma gota dele, Robbie.
- É. – ele respondeu distraído.
Lucy apenas olhou desconfiada pra ele, mas não disse nada. O garçom se aproximou.
- Bom dia. Vocês já escolheram o que vão pedir?
- Eu quero panquecas com bastante mel e um chocolate quente duplo. – disse Lucy.
- Nossa. Que apetite! E quanto doce! – brincou Chase. – Eu só quero um capuccino, estou sem fome.
Chase continuou brincando com o café na sua frente e Lucy ficou observando-o. Até que ela quebrou o silêncio.
- Hey, o que está acontecendo com você?
- Nada, por quê?
- Você está estranho, desde ontem.
- Estranho como, Lucy? – Ele demonstrou um pouco de irritação na voz.
- Estranho, amor. Distante. Desde ontem.
- Nós só nos falamos por telefone ontem, Lucy.
- Mas você estava estranho no telefone. Hey, eu sou sua noiva, eu sei perceber quando você não está bem. Você nem quis ir me ver ontem.
Chase agora estava visivelmente irritado.
- Eu estava cansado, Lucy. Eu já te falei isso. Trabalhei muito ontem e não dormi bem essa noite. Eu já disse isso também.
- Por que você está falando assim comigo? Eu só estou preocupada. Nunca te vi assim. Desculpa se a minha preocupação te incomoda.
Lucy fechou a cara e virou-se para a janela.
Chase sentia-se péssimo em mentir pra ela. Mas falar o quê? Que ele estava confuso quanto aos seus sentimentos? Que tinha tido uma tarde deliciosa com a Allison ontem? Que não trabalhou nada ontem e que só não quis vê-la porque ele tinha acabado de beijar outra mulher. Era melhor deixar as coisas como estavam, pelo menos por enquanto.
- Querida, desculpa. – Ele falou da forma mais doce que conseguiu. – Eu tenho trabalhado muito esses dias, estou um pouco estressado. Não é nada com você tá?!
Ela colocou a sua mão sobre a dele.
- Tudo bem, amor. Só não gosto de te ver assim e também não quero que desconte em mim o seu estresse ok?! Você pode se abrir comigo, desabafar, falar o que quiser, mas eu não vou aceitar ser seu saco de pancadas.
- Eu sei. Eu não vou fazer isso com você. Prometo.
O café da manhã chegou e os dois comeram em silêncio. Quando acabaram de comer, Chase olhou no relógio de pulso.
- Querida, eu preciso ir agora. O trabalho me chama.
- Ok. Vamos. Eu também tenho um encontro com um cliente às 9.
Os dois saíram da cafeteria, trocaram um beijo rápido e cada um saiu em direção ao seu carro. Antes que ela saísse, Chase disse:
- Lucy...
- Oi.
- Me desculpa.
Lucy pareceu não entender o porquê das desculpas. Ele já havia se desculpado e, pelo menos pra ela, já estava tudo bem.
- Tudo bem Robbie, nós já resolvemos isso!
Os dois entraram nos seus carros e saíram.
"Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço.
E que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que penso,
mas a outra metade é um vulcão."
XXX
Chase chegou à sala de diagnósticos e Cameron e Foreman já estavam lá. Droga, ele pensou, achei que ia encontrá-la sozinha aqui.
- Bom dia pessoal. O House ainda não chegou?
- Bom dia Chase. – Respondeu Foreman. – Que pergunta é essa? São 8h50, qual a chance do House está aqui antes das 9h30?
- A Cuddy chega às 8h. Se ele ainda estiver fiel na sua perseguição, ele já deveria estar aqui.
Os três riram.
- Olá, Chase. – Disse Cameron sem olhar diretamente nos olhos deles. – O café acabou de ficar pronto.
- Ah. Obrigada, Cameron. Estou mesmo precisando de um café.
- Não dormiu bem? – Dessa vez ela estava olhando bem nos olhos dele.
- Não. Foi uma noite complicada. – Ele respondeu também olhando nos olhos dela.
- Pessoal. Tô indo nessa. Minha escala na Clínica esta manhã. – Foreman falou e saiu da sala.
O clima ficou um pouco pesado na sala. Chase e Cameron estavam incomodados com aquela situação. Ambos precisavam conversar sobre o que aconteceu, mas ninguém tinha coragem de começar o assunto. Antes que qualquer um pudesse dizer alguma coisa, House chegou.
- Oi crian... Ops! Tô atrapalhando alguma coisa?
Cameron sentou-se no computador e fingiu que não ouviu. Chase fechou a cara e respondeu:
- Tá sim, House. Eu não consigo tomar café na sua frente. Eu fico nervoso. Você pode sair só um pouquinho, por favor?
- Hum. Eu até poderia, mas tenho trabalho pra vocês. Cadê o Foreman?
- Na Clínica. – respondeu Cameron.
- Ok. Não vamos precisar dele mesmo. Aliás, nem é um caso. A Cuddy quer que vocês dêem uma olhada nesse paciente aqui. – House diz isso e entrega um prontuário pra Cameron.
Cameron dá uma olhada e diz.
- É uma paciente com artrite reumatóide diagnosticada. Por que temos que vê-la?
- Boa pergunta. – Respondeu House. – É que não tem nada interessante pra gente hoje e a Cuddy não quer que fiquemos à toa. Na verdade, ela quer me importunar mesmo.
- E você aceitou assim, sem reclamar? – duvidou Chase.
- Sim. Ela é minha chefe, esqueceu?
Chase deu uma gargalhada.
- Ah, claro. E você é o funcionário mais obediente do mundo.
- Bom. Isso aqui parece ser a minha área. Vou lá dar uma olhada nela. – disse Cameron.
- Não. O Chase vai. Eu quero falar com você.
- Mas a Imunologista é ela. – disse Chase.
- É. Eu sei. E que eu saiba você também freqüentou a faculdade de medicina e, teoricamente, é capaz de avaliar uma artrite. Anda, vai logo. Eu quero falar com a Cameron.
Chase saiu da sala contrariado.
- Pode falar. – disse Cameron.
- Não. Fala você.
- Hum... Se eu não estou enganada foi você que disse que queria falar comigo.
- Ah, é mesmo. Na verdade só quero matar a minha curiosidade. Por que não dormiu à noite?
Cameron ficou incomodada com a pergunta. Estava tão na cara assim?
- Eu... É... Como é que você sabe?
- Eu perguntei primeiro.
- Eu dormi a tarde inteira ontem. Estava cansada. Perdi o sono à noite. Foi só isso. Agora, como é que você sabe?
- Tem 6 copos de café na lixeira. 4 deles têm marca de batom. Ah não ser que o Chase e o Foreman estejam usando batom ou que você tenha beijado um deles, significa que você tomou 4 copos de café antes das 9h da manhã. Além disso, você está usando uma quantidade maior de maquiagem hoje.
- Eu tinha esquecido que você é observador. Agora posso ir ver a paciente?
- Claro. Vai lá. E cuidado... Poucas coisas valem uma noite de sono. E homens loiros e comprometidos não estão na lista.
Cameron saiu da sala atordoada. Que droga, não dá pra ter uma vida privada nesse hospital.
Quando chegou ao quarto da paciente Chase estava fazendo o exame físico nela.
- Precisa de ajuda? – Cameron perguntou da porta do quarto.
Ele virou-se e abriu um sorriso quando a viu.
- Eu acho melhor você aferir a pressão dela outra vez. Eu acabei de me desconcentrar. – Ele respondeu.
Cameron pegou o esfigmo da mão dele, tirou o esteto do pescoço e começou a conversar com a paciente.
- Bom dia, senhora Millman. Eu sou a Dra. Cameron, uma das médicas que vai trabalhar no seu caso.
- Nossa, você parece ser tão jovem. E é muito bonita também. Pode me chamar de Annie. – respondeu a paciente.
Chase riu e concordou com a cabeça. Cameron olhou pra ele o repreendendo.
- Obrigada duas vezes! Pelo "jovem" e pelo "bonita". Eu não sou muito velha, mas a minha especialidade inclui doenças como a sua. Vamos fazer o possível pra melhorar a sua qualidade de vida.
Annie deu um sorriso.
- Obrigada doutora. Tudo que eu queria era viver sem dor.
- Isso já é possível em casos como o seu.
- Os outros médicos me disseram que a doença está muito avançada, que o tratamento não responde bem.
- É tudo uma questão de ponto de vista, Annie. Eu prefiro refazer seus exames antes de fazer um prognóstico. O que eu posso adiantar é que eu tenho conseguido bons resultados no tratamento da artrite e que a disposição do paciente em se tratar tem ajudado muito. Aqueles que se conformam em viver com a dor e reclamam muito são os mais difíceis de se tratar.
Annie estava com um sorriso maior ainda.
- Eu gostei de você. É a primeira vez que alguém me fala algo animador desde que eu descobri a doença.
Cameron apenas deu um sorriso. Ela e Chase terminaram de examinar a paciente, colheram material para os exames e saíram do quarto.
- Você foi perfeita lá. – Ele disse.
- Obrigada. Eu só fiz o meu trabalho.
- Não, é sério. Você a confortou sem dar falsas esperanças, foi segura, séria, amiga. Enfim, foi perfeita!
- Obrigada de novo! Agora você não pode se desconcentrar toda vez que eu aparecer. Vai ficar complicado trabalharmos juntos. – Ela falou, brincando.
- Preciso trabalhar isso então.
Os dois continuaram andando calados e entraram no laboratório. Cameron começou a preparar o material para os testes. Chase ligou os aparelhos e sentou-se ao lado dela.
- Allison, a gente precisa conversar sobre ontem. – Ele começou.
- O que aconteceu ontem foi um erro Robert. – Ela respondeu sem tirar os olhos do microscópio. – A gente se empolgou um pouco, isso não deve mais acontecer.
Chase não acreditou quando ouviu aquelas palavras dela. Era a última coisa que esperava que ela dissesse.
- Você não considera nem conversarmos a respeito? – Ele perguntou um pouco chateado.
Cameron se afastou um pouco do microscópio e o encarou.
- Robert. Sejamos realistas. A gente se beijou. Tá, e daí? Pra variar um pouco a gente não conseguiu se controlar, como na faculdade. A diferença é que na faculdade eu e você éramos livres e inconseqüentes. Não é mais simples assim, Robert. Agora você tá noivo, nós somos adultos, temos responsabilidades. Eu me tornei uma pessoa muito mais racional. Justamente agora que a minha vida está tão bem, eu não vou pôr tudo a perder. Não por sua causa. Não por causa de uma paixão juvenil que não deu certo.
- Eu gostava mais de você quando você era um pessoa passional. Essa nova Allison me assusta às vezes.
- Eu fiquei assim por sua causa. – Ela disse isso com raiva nos olhos, ela sabia que aquilo iria ferí-lo, mas a vontade que ela tinha era de causar nele toda a dor que ele havia causado nela um dia.
Ele ficou abalado com aquilo. Até quando ela ia jogar na cara dele o que ele tinha feito? Se ele pudesse voltar no tempo...
- Não coloque todas as suas frustrações em mim. Isso não é justo.
- Eu não coloco todas elas em você. Aliás, eu não tenho muitas frustrações. Eu só não confio nas pessoas, e isso inclui você. E a culpa disso é 100 sua.
- Você disse que já tinha esquecido isso.
- Não. Eu disse que tinha perdoado você, isso é verdade, eu não tenho mágoas. Se tivesse, eu não estaria aqui discutindo com você. – Ela suspirou, aquelas lembranças doíam demais. – Ver você na cama com a Cindy, na noite da sua formatura foi a pior coisa que já me aconteceu. Não dá pra esquecer, Robert, você está me pedindo muito.
Ele abaixou a cabeça. Sentia-se o cara mais imbecil do mundo naquele momento.
- Foi uma coisa idiota, Allison.
- Ela era a minha melhor amiga, Robert.
Cameron estava com lágrimas nos olhos. Chase sentia uma dor tão forte, ele queria abraçá-la, deixá-la chorar nos seus braços e depois dizer que isso tudo é passado, que eles podiam começar do zero agora. Mas tinha a Lucy, tinha o abismo enorme entre ele e Allison, tinham uma noite e 6 anos que não podiam ser apagados...
- Robert. – Ela disse quase sussurrando. – Está tudo bem. Eu não quero mais falar disso com você. Eu não quero fazer esse passado reviver ainda mais na minha cabeça. Vamos deixar as coisas como estão. A gente esquece o que aconteceu ontem, você e a Lucy se casam e eu sigo a minha vida. Enquanto isso, nós continuamos bons amigos, se você quiser, é claro.
Ele conseguiu esboçar um leve sorriso.
- É claro que eu quero. Eu acho que já disse que não vou te pedir mais do que isso né?! E eu vou cumprir minha promessa.
- Vai ser melhor pra todo mundo. E... Só mais uma coisa... Não faça com a Lucy o que você fez comigo. Nós dois sabemos que fidelidade não é o seu forte, mas seja honesto com ela. Ela merece isso. Todos nós merecemos.
- Você está certa. Eu vou ser o melhor que eu puder com ela. Por ela, por mim... E por você.
Cameron apertou a mão dele e ambos sorriram. Havia sido estabelecido um pacto ali. Um pacto de amizade, de fidelidade, de amor... E eles só não sabiam por quanto tempo aquilo iria durar.
"Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer.
Porque metade de mim é platéia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também."
XXX
Na hora do almoço Cameron e Chase voltaram à sala de diagnósticos e encontraram House lendo um livro.
- House? Tudo bem com você? – Perguntou Chase.
- Ahã. – House respondeu sem levantar a cabeça.
- Você não está vendo porcarias na internet, nem resolvendo palavras cruzadas, nem atormentando a Cuddy. Você está lendo um livro! Tem certeza que está tudo bem?
- Que tipo de médico se torna Homeopata? E que tipo de hospital precisa de um homeopata? – Perguntou House ignorando completamente o que Chase disse.
Chase e Cameron olharam a capa do livro que House estava lendo: "Medicina para Homeopatas". Os dois começaram a rir. House só poderia estar lendo um livro com a intenção de criticá-lo depois.
House continuou.
- É sério. Escutem isso: "O efeito medicamentoso em homeopatia não é bioquímico, mas energético. A substância ao ser diluída e agitada, libera na água uma informação que, ao ser pingada sob a língua, a transfere para o paciente. A informação ali contida estimula os mecanismos naturais de cura do indivíduo levando-o da doença para a saúde, através de suas próprias condições intrínsecas". – House acabou de ler e caiu na gargalhada. – É a coisa mais absurda que eu já ouvi na vida. Essa especialidade é pelo menos reconhecida?
- Sim House, é uma especialidade médica como outra qualquer. E é muito mais popular do que você imagina. – respondeu Cameron.
- Eu sei Dra. Sabe-Tudo. Não foi uma pergunta, foi uma tentativa de convencer a mim mesmo de que isso existe.
- Desculpa chefe! Por que você está lendo isso?
- Pra aumentar o meu conhecimento sobre as ciências da natureza. Mas isso não vem ao caso. Cameron, a Cuddy quer falar com você.
- Comigo?
- Não. Com a Cameron que trabalha na faxina.
- Agora?
- Hey. Eu não sou o mensageiro da Cuddy. Liga na sala dela e descobre.
Cameron foi até o telefone e discou o ramal da sala da diretora.
- Dra. Cuddy? É a Cameron. [... Ok! Estou indo aí agora mesmo.
Cameron saiu da sala deixando House compenetrado em sua leitura e Chase anotando os dados dos exames de Annie no prontuário médico.
Cameron chegou à sala de Cuddy e a secretária mandou que ela entrasse.
- Olá Dra. Cameron. Sente-se, por favor.
Cameron sentou-se, ainda não se sentia completamente à vontade naquela sala. Só tinha conversado uma ou duas vezes com a diretora e não fazia idéia do que ela tinha pra lhe falar.
- Bom dia Dra. Cuddy. Você tem uma bela sala.
Cuddy riu.
- Obrigada. São os mimos que eu recebo por dirigir este hospital!
- Você disse que tinha algo importante pra me falar.
- Sim. É sobre a Annie. Eu queria saber como ela está?
- Ah, é isso. – Cameron sentiu uma ponta de alívio. – Nós acabamos de fazer alguns exames e estamos esperando o resultado de outros. O que eu posso adiantar é que a doença dela está num estado bem avançado. Pelo que eu li na ficha dela, ela recebeu o diagnóstico um pouco tarde.
Cuddy balançou a cabeça contrariada.
- É. Eu sei. Quando os sintomas começaram, ela procurou um médico de quinta, mas os testes de fator reumatóide e de anticorpos antinucleares foram negativos. E, apesar de todas as evidências clínicas, o doutor lá não deu o diagnóstico correto.
- Eu vi isso na ficha. Realmente foi um erro grosseiro. Mas... Me desculpa a curiosidade. Por que você está tão interessada na Annie?
- Ela trabalhou na minha casa a vida inteira. Ela trabalhava pra minha família, quando eu terminei a residência e vim pra Princeton ela veio comigo. Há uns cinco anos a filha dela ficou doente e ela se mudou para o Texas. Eu nunca mais a vi depois disso. No final da semana passada ela me ligou contando que estava doente, então eu mandei as passagens e a trouxe pra cá.
- Você fez bem Dra. Cuddy. Nós vamos fazer o possível para ajudá-la. Foi por isso que você pediu que o House cuidasse do caso então? Você confia muito nele não é?
Cuddy deu um suspiro.
- É. Eu confio muito nele como médico. Apesar das loucuras, dos métodos nada convencionais e dos milhões de processos que o Hospital banca por causa dele, ele é o melhor médico que nós temos.
Cameron concordou.
- Eu aprendi mais com ele aqui nesses 7 dias do que nos 6 anos de faculdade. Eu não conheço ninguém melhor que ele.
- E tem outra coisa Dra. Cameron. Eu andei olhando a sua ficha e você, apesar de ser muito jovem, tem um currículo invejável. O seu trabalho sobre Artrite Reumatóide foi publicado nas melhores revistas. Além do mais, ninguém nunca tirou nota máxima na prova final da residência de Imuno em Harvard. Aposto que o house contratou você por isso.
Cameron ficou vermelha. Ela sempre ficava constrangida quando se referiam ao seu currículo escolar. Ela tinha sido uma das melhores alunas da sua turma e, sem dúvida, a melhor da residência.
- Não, o House me contratou porque eu era a mais bonita!
As duas riram
- É o tipo de argumento que ele usa pra não ter que admitir que um médico é bom.
- Dra. Cuddy, você chegou ao topo antes dos 30 anos. Se formos falar de currículos aqui eu vou ficar anos-luz atrás de você.
Dessa vez foi Cuddy quem ficou vermelha.
- Ok. Vamos parar com a troca de elogios aqui e vamos parar com esses "doutoras" pra lá e pra cá. Você já almoçou?
- Não. Eu ia comer alguma coisa no restaurante do Hospital mesmo.
- Eu também. – Respondeu Cuddy. – O dia hoje está corridíssimo. Vamos almoçar então?
O restaurante do Hospital estava razoavelmente cheio. Médicos, enfermeiros e visitantes dos pacientes ocupavam as mesas. Cuddy e Cameron serviram-se e ocuparam uma das mesas. Elas conversavam animadamente quando Cuddy falou:
- Cameron, eu vou te fazer uma pergunta, mas sinta-se à vontade em não responder, ok?!
- Hum. Tá bom, manda!
- Você sabe por que o House está me perseguindo? – Cuddy disse quase sussurrando.
Cameron não conseguiu conter uma risada.
- Olha, saber eu não sei. Ninguém me contou. Mas eu acho que ele está interessado em você.
- Até parece. O House só se interessa por prostitutas e por garotinhas.
Cameron riu de novo.
- Eu realmente não sei. Estou falando isso por pura intuição feminina. Não conheço o House direito ainda, mas se eu tivesse que apostar que ele é louco por você, eu apostava na hora.
Cuddy não respondeu. Apenas continuou comendo, pensativa.
- Ai meu Deus. Dá uma olhada em quem está chegando aí. – Cuddy apontou para a porta. – Nem pra almoçar eu tenho paz mais.
Cameron virou-se para trás e viu House e Wilson entrando.
- Olá! Olha só Wilson, as garotas não nos convidaram para o almoço. – disse House.
- Olá Cuddy. Dra. Cameron... Como vão? – Cumprimentou Wilson.
- Tudo bem Wilson. – Respondeu Cuddy. – Já conhece a Dra. Cameron?
- Sim, nós discutimos um caso de suspeita de câncer de pulmão ontem. – Respondeu Wilson. - Aliás, nem perguntei se vocês conseguiram diagnosticar.
- Claro. – Disse House. – Eu tenho a melhor equipe! Era uma dirofilariose pulmonar. Chato!
House fez uma careta e os outros riram.
- Podemos sentar com vocês meninas? – Perguntou House. - Não tem mais nenhum lugar vazio.
- E desde quando você pergunta se pode? – Disse Cuddy.
- House, é melhor esperarmos elas acabarem. Elas estavam conversando quando a gente chegou. – Falou Wilson.
- Mais um motivo pra gente sentar aqui. Se essas duas ficam amigas e ainda trocam segredos, eu estou perdido.
Os dois saíram para servir e logo voltaram e se sentaram à mesa.
Enquanto comiam, House não parava de trocar farpas com Cuddy.
- Wilson, você sabia que a nossa chefe está dormindo com o Dr. Guillman? – House soltou, no meio do almoço.
Wilson engasgou.
- O Guillman? Homeopata? – Perguntou Wilson.
Dessa vez quem se assustou foi Cameron.
- Homeopata? Por isso o livro de homeopatia não é Dr. House?
- Você está lendo um livro de homeopatia, House? Que imbecil que você é. - Disse Cuddy levantando da mesa muito irritada. - Eu já acabei de almoçar e preciso trabalhar.
- Hey. Não te falaram que é falta de educação levantar da mesa enquanto os outros ainda comem? – Perguntou House.
- E não te falaram que é falta de educação xeretar a vida das pessoas e que é potencialmente perigoso quando essas pessoas ocupam cargos superiores ao seu? – Cuddy estava quase gritando.
- Ah é. Eu esqueci que eu morro de medo de você.
- House, eu vou sair daqui antes que eu degole você com essa faca que você está usando para cortar o seu bife. E vou deixá-los à vontade para falarem da minha vida sem a minha presença.
Cuddy saiu fumegando de raiva.
- Eu também vou indo rapazes, não serei cúmplice disso. – Cameron disse e seguiu Cuddy.
Assim que saíram do restaurante, Cuddy falou:
- Eu odeio o House. Eu vou matá-lo. Vou picá-lo em pedacinhos, começando por aquela língua grande.
Cameron estava segurando-se para não rir.
- Calma, Cuddy. Isso é a cara do House, ele adora irritar todo mundo e parece que ele sente um prazer especial em fazer isso com você.
- Eu só queria entender por quê. Por que eu? Por que ele não me deixa em paz. Ele atrapalha todos os meus relacionamentos. Desde que ele começou a trabalhar nesse hospital eu não tenho uma relação estável. Que droga.
Cuddy desabou na sua cadeira e começou a chorar.
- Olha só. Eu não sei o que há entre vocês, mas vou tentar ajudar.
- Não precisa Cameron. Ninguém consegue lidar com o House melhor do que Wilson e eu. Pode deixar isso comigo. É que às vezes ele me tira do sério.
- Eu tenho certeza que você lida melhor com ele do que eu. Mas eu vou descobrir o que há com ele. Promessa de escoteira!
Cuddy riu.
- Obrigada. Eu vejo que nós seremos boas amigas.
- Pode apostar.
Cameron apertou a mão de Cuddy e saiu da sala.
Assim que fechou a porta, deu de cara com House.
- Eu, se fosse, você, não entrava aí não. – Disse Cameron.
- Por quê? Ela está armada?
- Não sei o que você chama de armada. Mas do jeito que ela está com raiva de você qualquer objeto pode tornar-se potencialmente letal na mão dela.
- Tô morrendo de medo. – House disse e entrou na sala.
- Saia imediatamente daqui. – Cuddy falou assim que o viu.
House sentou-se de frente pra ela ignorando o que ela disse.
- Qual é a sua com o Dr. Plantinhas Milagrosas lá? – Perguntou House.
- House, isso não te interessa. Saia da minha sala.
- É claro que me interessa. Ele é um idiota. Estudou em uma faculdade idiota e fez uma especialização mais idiota ainda. É isso que você quer para ser o pai do seu filho?
- E quem te falou que eu estou querendo ter um filho?
- Desistiu então?
Ela não respondeu.
- Tudo bem. Vamos supor que você realmente esteja se divertindo com ele. Você realmente considera passar o resto dos seus dias do lado dele?
- House, eu já falei que isso não é da sua conta. Mas se for pra você me deixar em paz. Sim, eu estou saindo com o Guillman. Ele é divertidíssimo e o sexo com ele é incrível. Não, eu não vou me casar com ele. E eu não desisti de ter um filho, eu só adiei os planos. Satisfeito? Anotou tudo direitinho pra contar pro Hospital inteiro? Agora, por favor, S-A-I-A-D-A-M-I-N-H-A-S-A-LA.
House a encarou nos olhos.
- Você procura superar as suas frustrações saindo com caras fracassados. Isso é patético.
- E você supera as suas frustrações fazendo as pessoas se sentirem piores do que você é. Obrigada House. Missão cumprida por hoje. Se você não sair imediatamente daqui eu vou demitir você e, dessa vez, eu estou realmente falando sério.
House tentou decifrar o que havia naqueles olhos azuis. Uma mistura de raiva, tristeza, decepção, dúvida... Pela primeira vez ele percebeu que ela não estava brincando e que era hora de parar de atormentá-la.
Ele saiu da sala sem falar nada. Ela, assim que ele saiu, pegou sua bolsa e foi pra casa. Não tinha mais cabeça para trabalhar naquele dia.
Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que eu não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que quero me suprime
De que por não saber ainda não quis
Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega e o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri
Notas:
Muito tempo depois... Aí está o capítulo 5! Novamente, desculpa pela demora pessoal!
Contei o que o Chase aprontou com a Cam. Mais pra frente, vocês vão saber toda a história de "amor" dos dois.
Starbucks: uma rede de Cafés famosa nos EUA.
As partes do texto que ilustram as três primeiras partes são do poema/música: Metade do Oswaldo Montenegro. Em qualquer site de letras de músicas vocês conseguem a letra completa. Não vou colocar aqui porque é muito grande! Mas é lindo, vale a pena ver.
Artrite reumatóide é uma doença auto-imune e é a especialidade da Cameron (eu inventei isso).
Eu inventei tudo a respeito da história escolar dela também. Só pra dar uma moral pra ela mesmo! Hehe
Não tenho nada contra homeopatia, mas imagino que o House tenha. Então escolhi a especialidade mais controversa da medicina pra ser a especialidade do "namorado" da Cuddy, pro House ter muitos motivos pra tirar onda com a cara dele.
A música do final chama-se Jura Secreta e pode ser da Zélia Duncan ou da Simone. As duas cantam, mas não descobri quem é a autora.
Errata:
A música Ciúme, do capítulo anterior, é do Ultraje a Rigor. Coloquei que é dos Titãs porque tenho uma versão no meu pc cantada por eles. Nem sei se eles chegaram a gravar em cd.
Por hoje é só! Espero que estejam gostando! Bjinhos pra todas que estão lendo!
