CAPÍTULO 6 – Por que não?

Cameron passou a tarde trabalhando na Clínica. Na verdade, trocou de horário com uma colega do Hospital pra não ter que trabalhar com Chase. Ela ainda não estava muito segura sobre a conversa que tinham tido. Era melhor manter uma certa distância, pelo menos até se acostumar com a idéia de conviver diariamente com ele.

Estava atendendo o último paciente do dia quando alguém bateu na porta.

- Entra. – Cameron disse lá de dentro.

Chase abriu a porta até a metade e colocou só a cabeça dentro da sala.

- Ainda demora aí Dra. Cameron? – Chase perguntou. – Preciso conversar com você.

Cameron virou a cabeça de lado e fez uma cara de "Pelo amor de Deus, hoje não", que fez Chase rir.

- É sobre Annie, Cameron.

- Ah. Tudo bem. – Ela respondeu parecendo sem graça. – É o último paciente, eu já tô saindo.

Quando Cameron saiu do consultório, Chase estava encostado no balcão de recepção da Clínica. Ele estava com os olhos fixos na porta do Consultório 1, os cabelos estavam meio desarrumados, o jaleco amassado, tinha a aparência cansada, mas, mesmo assim, estava incrivelmente lindo. Cameron respirou fundo e foi até ele.

- Prontinho. Pode falar. – Começou Cameron.

- O tratamento com corticoesteróides não está funcionando. – Disse Chase parecendo preocupado.

- Então vamos começar com um anticorpo específico. – Respondeu Cameron.

- Eu já fiz isso. Não está resolvendo também.

- Cadê o House?

- Foi embora. Disse que você é quem manda.

- Ah. Que legal. – Cameron suspirou desconsolada.

- Vamos ter que esperar até amanhã e ver se o tratamento começa a surtir algum efeito.

- Ela está numa escala 8 de dor, Cameron.

Cameron não respondeu. Precisava pensar. Era a primeira vez que precisava tomar uma decisão difícil sem ninguém supervisionando.

- Para começar qualquer outro tratamento eu preciso da autorização da Annie e da Dra. Cuddy. São procedimentos invasivos e arriscados.

- Nós podemos tentar aliviar a dor com Morfina e iniciamos o tratamento novo amanhã. – Arriscou Chase.

- Se fizermos isso, vamos mascarar os efeitos dos anticorpos.

Chase a olhou como que esperando que ela apresentasse uma solução milagrosa para o caso.

- Como ela está agora? – Perguntou Cameron.

- Sedada. Vai ficar assim por umas duas horas, mas vai acordar como uma dor muito intensa.

- Ok. Vou resolver isso. – Cameron disse já correndo em direção a saída do Hospital.

- Hey. Aonde você vai?

- Falar com a Cuddy.

Cameron gastou menos que 10 minutos do Hospital a casa de Cuddy. Ao chegar lá, tocou insistentemente a campainha até que Cuddy abriu a porta.

- Hey. O que aconteceu? Que cara é essa. – Perguntou Cuddy assim que a viu.

- Posso entrar?

- Claro, entra. – Cuddy abriu um pouco mais a porta e Cameron entrou.

- Cuddy. A Annie piorou. – Cameron começou a falar sem rodeios. – Ela está numa escala 8 de dor. As articulações estão muito inflamadas e o tratamento convencional não está funcionando.

Cuddy desabou numa poltrona.

- E você quer fazer uma plasmaférese? – Perguntou Cuddy.

Cameron consentiu com a cabeça.

- Ai... Por que quando as coisas começam a dar errado tem que ser tudo de uma vez? – Cuddy perguntou pra si mesma. – Parece que o mundo tá desabando sobre a minha cabeça.

Cameron sentou-se perto dela e segurou-lhe as duas mãos entre as suas.

- Cuddy, essa intervenção é um risco pra ela. Por causa da idade, por causa da debilidade em função da doença. Eu sei que você sabe de tudo isso, mas é a melhor chance que ela tem agora.

Cuddy deu um sorriso.

- É engraçado como que em tão pouco tempo convivendo com o House você tenha aprendido tão rápido a me convencer.

- Isso não tem nada a ver com o House. Eu tô fazendo o que eu acho que é o certo. E eu tenho certeza que ele usaria argumentos bem menos nobres.

Cuddy riu de novo.

- Você tem razão. Ele diria antes que eu sou idiota, faria um comentário sobre o meu decote e, de uma forma ou de outra, sairia daqui com o meu consentimento.

Cameron notou como os olhos de Cuddy tinham um brilho diferente quando falava de House. Percebeu o quanto ela estava com uma aparência triste e abatida.

- Ele mexe com você não é? – Cameron perguntou.

Cuddy fechou os olhos e afundou a cabeça no encosto da poltrona. Estava difícil de negar isso.

- Sim. Ele mexe muito comigo. E eu me odeio, todos os dias da minha vida, por isso.

Cameron a abraçou forte. Não sabia o que falar para consolá-la naquele momento. Não conseguia entender como alguém pudesse ter um sentimento como aquele por House.

- Cuddy, eu preciso ir agora.

- Tudo bem. Eu vou tomar um banho e vou pro Hospital. Não vou conseguir sossegar aqui sem noticias da Annie.

- Não precisa. Eu te mantenho informada.

- Sem chances. Estou lá em 30 minutos, no máximo. Vou ligar agora no Hospital e avisar que você está autorizada a fazer a plasmaférese na Annie.

- Ok. Se você prefere assim.

- Cameron... Obrigada pela força tá?!

- Que obrigada que nada, logo logo eu vou querer um aumento!

XXX

De volta ao Hospital, Cameron pegou os formulários que Annie precisava assinar e dirigiu-se para a sala de diagnósticos. Ao chegar lá só encontrou Chase.

- O Foreman foi embora? – perguntou Cameron.

- Foi. Na verdade ele tá no Hospital, mas tá de plantão na Neurologia.

- É. Então parece que seremos nós esta noite. Droga – Pensou Cameron. – Era tudo o que eu queria: passar a noite inteira trabalhando sozinha com ele. Força garota!

Chase confirmou com a cabeça. Ambos visivelmente desconfortáveis um com o outro desde a conversa que tiveram pela manhã. Chase resolveu tentar quebrar o gelo.

- Allison, você tá agindo diferente comigo. Achei que tivéssemos combinado que seríamos amigos, como antes.

Ela deu um sorriso pra ele.

- Como se fosse simples assim, Robert. Eu queria mesmo que as coisas acontecessem sempre do jeito que eu planejo, seria bem mais fácil lidar com um monte de coisas. Mas não funciona assim.

- Do que você está falando?

- Deixa isso pra lá, ok?! Eu só estou pouco a vontade sobre o que aconteceu e sobre o que nós conversamos. Mas isso passa. Agora vamos, a Annie deve está acordando agora.

Cameron, Chase e Cuddy passaram a noite trabalhando no procedimento de Annie. O dia já estava amanhecendo quando finalmente conseguiram estabilizá-la.

- Parabéns, pessoal! – Cuddy falou assim que saíram do quarto de Annie. – Vocês foram ótimos. Não imaginam o quanto eu estou aliviada.

- Fizemos o nosso trabalho Dra. Cuddy. – Disse Chase.

- Muito bem por sinal. – Ela completou. – Bom, eu estou faminta e preciso tomar um café. Vocês vêm comigo? Por minha conta.

Chase e Cameron se entreolharam, não havia como recusar o convite.

- Claro, vamos lá! – Disse Cameron.

Os três saíram juntos do Hospital e foram até a Starbucks. Pediram um café da manhã caprichado e ficaram conversando enquanto esperavam.

- Cameron, ouvi alguém comentando que você e o Chase estudaram juntos. – Disse Cuddy.

- Na verdade. – Respondeu Cameron. – Nós freqüentamos a faculdade na mesma época. O Chase entrou três anos antes de mim.

- Mas vocês se conheciam?

- Sim. – Dessa vez foi Chase quem respondeu. – Nós ficamos amigos na primeira semana de aula dela. E não nos largamos mais até eu me formar e ir embora pra Austrália.

- E depois disso, vocês só se falaram novamente aqui em Princeton?

Cameron se apressou em responder.

- É. Nós tivemos um probleminha na nossa amizade e, quando ele foi embora, nós não éramos mais tão próximos. Acabou que perdemos o contato.

- Ok. Vou parar de interrogar vocês. Eu fico falando sem parar, mas é porque vocês saíram a tão pouco tempo da faculdade e eu sinto uma saudade desse tempo que adoro ficar ouvindo as histórias dos mais jovens!

Os dois riram

- É. A faculdade sempre rende muitas boas histórias mesmo. – Disse Cameron nostálgica. – E outras, nem tanto. Mas qualquer dia desse a gente senta pra trocar figurinhas sobre os tempos da Escola. Vejo que você vai adorar saber o que não consta naquela pastinha a meu respeito que tem no seu escritório.

Cameron disse isso e olhou de relance para Chase. Ele fechou a cara e engoliu em seco. Cuddy caiu na gargalhada.

- Vejo que vou adorar mesmo, Cameron. Mal posso esperar por isso.

Os três acabaram de comer e saíram da cafeteria.

- Bom, meninas, vou indo nessa. Quero passar em casa e tomar um banho antes de voltar ao trabalho. – Disse Chase.

As duas se despediram dele.

- Eu também vou indo Cuddy, preciso urgentemente de um banho e de pelo menos meia hora de sono, senão vou desabar.

- Não senhora mocinha. Você não tem nada pra me contar não?

Cameron fez-se de desentendida.

- Pensa que eu nasci ontem Dra. Cameron? – Cuddy provocou. – Acha que eu não vi clima entre você e o Chase quando estávamos falando da faculdade?

Cameron riu.

- E eu vejo que você tá bem mais animadinha do que ontem Dra. Cuddy. Qualquer hora eu te conto essa história. Agora não tenho cabeça pra isso não.

- É, o tratamento da Annie ter funcionado me deu um gás sim! E também, eu preciso trabalhar né?! Não dá pra ficar em casa chorando as mágoas enquanto o mundo acontece.

- É assim que se fala!

- Bom. Vamos então. Mas não pense que eu vou desistir de saber o que tá rolando viu?!

As duas riram e seguiram para as suas casas.

XXX

O resto da semana transcorreu relativamente bem no Princeton Plainsboro Hospital. A equipe conseguiu acertar um tratamento domiciliar para Annie e ela recebeu alta na sexta-feira. House continuou atormentando a vida de Cuddy por causa de seu relacionamento com Guillman.

Na sexta-feira, o único assunto do Hospital era a festa beneficente que aconteceria no dia seguinte.

- E aí pessoal, já prepararam seus longos e smokings para o grande baile de amanhã? – House entrou na sala perguntando.

- Você vai à festa? – Foreman perguntou, impressionado.

- Mas é claro. Eu sou um homem de vida social ativa, você acha que eu perderia uma festa dessas?

- Eu tenho certeza que você perderia se não fosse a sua única chance de ver a Cuddy com o Guillman. – Chase disse rindo.

House fechou a cara imediatamente.

- Eu não estou nem ligando pra quem vai ou deixa de ir ao baile com a Cuddy. Estou mais interessado em todas aquelas residentes lindas da pediatria, vestidas em traje de gala. Vai ser o paraíso.

Foreman e Chase riram. Cameron apenas balançou a cabeça em desaprovação. Ela já tinha decidido que não ia ao baile. Não conhecia ninguém ainda no Hospital e, todas as pessoas que ela conhecia iam acompanhadas, com exceção de House. E, além do mais, não passava pela sua cabeça a possibilidade de ter que passar a noite conversando amigavelmente com Lucy. Tinha náuseas só de pensar nisso.

- E você Cameron? Vai ao baile? – Chase perguntou tentando parecer desinteressado.

- Ainda não decidi Chase. – Mentiu Cameron. – Eu estava pensando em ir visitar os meus pais nesse fim de semana.

- Boa saída Dra. – Disse House. – Mas não se preocupe Chase, ela vai sim. Eu te garanto.

Cameron abriu a boca para responder, mas achou melhor ficar calada. Nenhuma discussão com o House fazia sentido. Baseado em quê ele afirmava com tanta certeza que ela iria ao baile?

- Acho que está na hora de ir pra casa. – Disse Cameron levantando-se e pegando a sua bolsa. – Bom final de semana para todos e, quem sabe, até amanhã.

Cameron estava chegando ao elevador quando ouviu alguém chamá-la. Virou-se e viu Wilson se aproximando.

- Oi Dra. Cameron.

- Olá Dr. Wilson. Por favor, sem o "doutora". Não precisamos disso!

Wilson riu.

- O mesmo digo pra você! Soube que você foi ótima no caso da Annie.

- As notícias correm nesse Hospital hein?! – Cameron riu. – Não fiz nada sozinha. Foi um trabalho em equipe.

- De qualquer forma, parabéns. – Cumprimentou Wilson.

- Obrigada Wilson.

O elevador chegou e Cameron entrou. Wilson ficou parado na porta.

- Você não vai descer? – Cameron perguntou.

- Eu... é... – Wilson parecia confuso. – Vou sim, é claro!

- Você tá querendo falar alguma coisa comigo Wilson?

- Na verdade... Estou. – Wilson ficou vermelho. – Só não sei como.

Cameron riu divertida. Ele parecia um garotinho de 10 anos, assustado.

- É simples. Só falar!

- É que... Eu queria saber se você já tem companhia pra vir à festa amanhã?

Cameron não conseguiu conter uma risada. Então era isso? Nunca imaginou que o Wilson fosse chamá-la. Ela tinha resolvido que não ia, mas, pensando bem, poderia ser divertido.

- Eu sabia que não devia ter perguntado. – Wilson estava cada vez mais vermelho. – É claro que você tem. Uma mulher jovem e bonita como você deve ter um namorado, noivo. Esquece.

Agora Cameron riu ainda mais. Wilson estava engraçadíssimo a convidando pra sair. E ela começou a gostar da idéia.

- Não, eu ainda não tenho companhia pra ia à festa. E adoraria ir com você.

- Sério? – Wilson pareceu não acreditar. – E do que você está rindo?

- Sério. Eu tô rindo porque você está parecendo um adolescente convidando uma garota pra sair pela primeira vez.

Wilson riu.

- Eu sempre fui péssimo com essas coisas.

- Não tem problema. Eu não tenho nada contra os tímidos. Você me pega?

- Claro. Às 10 tá bom pra você?

- Perfeito. Estamos combinados então.

Os dois saíram do elevador, Cameron anotou seu endereço em um pedaço de papel e entregou a ele.

- Então. Até amanhã. – Disse Wilson.

- Até. Não vai se atrasar ok?! Eu sou defensora da pontualidade britânica.

- Pode deixar. Estarei lá às 10.

Cameron entrou no seu carro e dirigiu até sua casa. Sentia-se estranha com relação ao convite de Wilson. Aceitou por impulso, mas agora não tinha mais certeza se devia ter feito isso. Pensou em ligar, desmarcar, arranjar uma desculpa. Mas isso não seria certo. Acabou se convencendo de que seria legal. Wilson era um cara decente e com certeza, uma excelente companhia, não tinha motivos para não aceitar. E, afinal de contas, não chegava a ser encontro, era apenas um evento do Hospital, entre amigos.

Ela mal entrou no seu apartamento e seu celular tocou. Olhou no identificador de chamadas. Era Chase.

- Alô.

- Allison. – disse Chase do outro lado da linha. – Pode falar agora?

- Claro. Acabei de chegar em casa. Pode falar.

- Eu só queria saber se você não vai mesmo à festa.

- Por que você está tão preocupado com isso, Robert? – Cameron ficou irritada.

- É que, me passou pela cabeça a idéia de você não querer ir por causa da Lucy. Eu só quero que você saiba que não tem nada a ver tá?

Cameron sentiu pena dele por alguns instantes. Realmente ele estava numa situação chata e tentando resolver. Preocupado com ela.

- Não se preocupe, Robert. Eu só não queria ir porque não conheço muita gente no Hospital e eu tô precisando descansar um pouco. Mas pode ficar tranqüilo, você e a Lucy não tem nada a ver com isso. Eu jamais deixaria de fazer qualquer coisa ou ir a qualquer lugar porque vocês estariam lá.

- Tudo bem então. Eu só precisava me certificar disso.

- Está tudo certo.

- Então tá bom. Tchau... E... Eu adoraria se fosse viu?!

Cameron riu.

- Tchau, Robert. Boa noite.

XXX

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo

Com sabor de fruta mordida

Nós dois, na batida, no embalo da rede

Matando a sede na saliva

Ser teu pão, ser tua comida

Todo amor que houver nessa vida

E algum trocado pra dar garantia

E ser artista no nosso convívio

Pelo inferno e céu de todo dia

Pra poesia que a gente não vive

Transformar o tédio em melodia...

Ser teu pão, ser tua comida

Todo amor que houver nessa vida

E algum veneno anti-monotonia...

E se eu achar a tua fonte escondida

Te alcanço em cheio

O mel e a ferida

E o corpo inteiro feito um furacão

Boca, nuca, mão e a tua mente, não

Ser teu pão, ser tua comida

Todo amor que houver nessa vida

E algum remédio que me dê alegria...

Ser teu pão, ser tua comida

Todo amor que houver nessa vida

E algum trocado pra dar garantia

E algum veneno anti-monotonia...

Notas:

Capítulo mais curtinho meninas. Só uma pequena preparação para o que vai rolar na festa! Preparem-se!!! Fortes emoções vem por aí!

Música final: Todo Amor Que Houver Nessa Vida - Cazuza/Frejat