Caminhou apressadamente pelas ruelas escuras, o som de mar ecoando por seus ouvidos
Caminhou apressadamente pelas ruelas escuras, o som de mar ecoando por seus ouvidos. Dentre de sete ou oito minutos, chegou a uma pequena casa de aspecto pobre entalada entre duas fábricas miseráveis. Numa das janelas de cima brilhava uma luz. Ela parou e bateu de modo muito peculiar na porta de madeira.
Depois de algum tempo, ouviu passos no corredor e o ruído da corrente que estava sendo retirada. A porta abriu-se de mansinho revelando uma criatura disforme e atarracada que quase se confundia com as sombras.
-Você de novo Sibyl?
-Não, sou eu sua santa mãe. O que acha que sou? Uma aparição? Agora, deixe-me passar que não tenho tempo a perder com você.
Ele assentiu com um grunhidinho, escancarando a porta.
Ao fim do corredor viu-se num aposento longo, baixo, que parecia ter sido um salão de dança de terceira classe. O chão estava coberto por serragem de um tom ocre, enlameado em certos pontos e manchado com escuros círculos de bebida e sangue derramado. Em mesas, marinheiros jogavam, bebendo qualquer coisa ao seu alcance, nos cantos do salão homens bem vestidos flertavam ou transavam com moças e rapazes sujos, uma orgia regada a absinto.
Na extremidade da sala havia uma escada pequena que levava a um quarto escuro. Quando Sibyl transpôs velozmente os três desmantelados degraus, um pesado cheiro de ópio veio ao seu encontro.
-Greyback, consegui o que me pediu. –exclamou sorrindo, os dentes cariados parecendo apodrecer mais um pouco.
A sua frente estava um homem, os olhos brilhantes em alucinada devassidão. Alto, a barba por fazer, os lábios, mesmo quando sorriam ou se contorciam de dor, demonstrando uma profunda perversidade. Ele continuou em silêncio, acendendo um cachimbo longo e fino, sobre a luz de um lampião enferrujado.
-Aquele filho da puta vai para um baile particular amanhã de noite. Um baile particular! Diabos, eu que deveria estar lá.
-Existem muitos bailes particulares em Londres. –comentou Greyback entre uma baforada e outra. –Quer que eu invada um pôr um? Cometeria um delicioso genocídio, mas por outro lado perderia metade de meus clientes.
-Perdão, é na casa de um tal de lord Laurence.
-O sobrenome, mulher! Vocês putas são todas imbecis?
-Steele, Steele, senhor. Como me prometeu, estou livre de minhas dívidas agora? –perguntou ela, esperançosa.
O homem jogou a cabeça para trás, o cabelo emaranhado e mal-cheiroso pingando o que ela julgou ser uísque. Uma gargalhada, longa e cruel.
-Lhe dei minha palavra que ao menos uma parte de sua dívida seria cotada, não ela toda. Das trinta mil libras que me deve, diminuo para vinte e cinco mil. –fez uma pausa para fumar o cachimbo, Sibyl não agüentou e desatou em lágrimas. –Por que está chorando? Fui generoso até demais. Suma daqui! Vá foder por aí para pagar o que me deve. Eu tenho um fugitivo para encontrar e, -seus olhos lampejaram de prazer. –castigar.
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-Senhor Potter, à que devo a honra? –perguntou Snape em tom debochado.
-Não queira me irritar Snape, pense na sua saúde. Onde está Lily?
-Ora, porque me pergunta? Oh, sim, por que sou o melhor amigo dela. –comentou sorridente depois de uma pausa. –A senhora Evans contou-me há alguns minutos atrás, e posso lhe assegurar que foram poucos os felizardos a receber esta informação.
-Que informação?
-Sobre a condição de Lílian.
-Ela está doente?
-James, queira me desculpar, mas a Senhora Evans pediu segredo. A pobrezinha está tão abalada, só veio até aqui para manter as aparências.
-Fale logo, Ranhoso! O que está acontecendo?
O garoto de cabelos oleosos só suspirou, penalizado. Nesse instante, uma menina rosada aproximou-se deles, e antes que James pudesse impedi-lo Snape saiu da roda, misturando-se na multidão.
-Bastardo de merda... –xingou, alto o suficiente para que a garota a sua frente fosse embora, amedrontada. –Deus, onde está Sirius? Preciso ir até a casa dos Evans urgentemente.
Bufou aborrecido, angustiado e principalmente preocupado. Não conseguiria dormir sem saber o paradeiro e o estado de Lílian.
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-Não sei como começar. –admitiu Remo, em pé próximo à lareira. –Bem, acho que o único jeito de você entender tudo, será eu contando do principio, ou seja, desde meu nascimento.
Sirius, sentado no sofá, balançou a cabeça o incentivando a continuar.
-Meus pais eram pobres. Não do tipo de pobreza que você imagina: uma família com um ou dois criados morando em um chalé, uma renda anual de quinhentas libras. No caso, meu pai era o criado, e não ganhava mais do que alguns xelins. Mamãe era uma filha bastarda que ao nascer foi amaldiçoada por ambas as famílias.
"Sob alguma circunstância que eu desconheço os dois se encontraram, se conheceram e se apaixonaram; dentre dois meses minha mãe já estava grávida. Claro que eles não tinham dinheiro, havia dias em que eu comia somente um pedaço de pão, e mesmo nas vezes em que conseguíamos economizar, o máximo que minha mãe preparava era um ensopado de repolho. Pelo menos, ninguém passava fome, e o aluguel da casa raramente atrasava."
"Nas noites em que meu pai voltava do trabalho, nós nos reuníamos, sabe, como uma família de verdade. Sentávamos próximos ao forno e papai contava suas pequenas aventuras no casarão em que trabalhava, eram as melhores horas da minha vida."
Lupin parou um instante, desviando o olhar para o teto azul-bebê. Ficou assim, pensativo, durante um ou dois minutos.
-Certo dia o patrão de meu pai saiu em viagem, logo meu pai teria de permanecer no casarão durante dois ou três meses e como não queria nos deixar sozinhos por tanto tempo, nos levou junto. Lembro-me perfeitamente da exuberância daquele projeto de castelo, nunca antes tinha visto tanta opulência em um lugar só, nem preciso dizer o quanto fiquei encantado.
"Eu deveria ter uns cinco anos, mas mesmo assim me recordo detalhadamente de meu aposento naquela casa, era tão superior em arquitetura e conforto ao meu próprio... Dividia o quarto com minha mãe, e a noite ela me cantava canções de ninar, oh sim, canções de ninar! –ele repetiu maravilhado, pensando por alguns segundos no verdadeiro significado daquilo. -De manhã eu comia junto com os outros empregados, para depois brincar nos jardins."
"O sobrado miserável onde eu vivia não possuía um jardim, bom, pelo menos nada que se comparasse àquele. Passava horas correndo por entre os pinheiros, apreciando os crisântemos e os lírios. Após um mês me aventurando por aquele bosque, encontrei um lugar que me deixou verdadeiramente fascinado. Era uma área escondida, cercada por árvores altas, o que impedia a entrada da maioria dos raios de sol. Às vezes um esquilo dava o ar de sua graça, e ao perceber isso, passei a levar miolos de pão comigo, para alimentá-lo."
"Bem, eu tinha motivos para fantasiar que aquele lugar era meu, ninguém mais parecia conhecer sua localização, eu era sempre o único ali e o animais gostavam de mim. E assim pensei durante todo o primeiro mês."
-Então você descobriu que os animais na verdade lhe odiavam? –interferiu Sirius, que não conseguiu conter o gracejo. –Perdoe-me Moony, por favor, continue.
-Enfim, -continuou, depois de lançar um olhar assustador à Sirius. –o dono do casarão tinha um filho. Não lembro o nome dele, só sei que era uma criança detestável, procurei evita-la sempre que possível. Mas voltando, eu estava no meu lugar secreto, quando escuto um barulho. Descartei logo a hipótese de ser alguma espécie de animalzinho, como coelhos e passarinhos. Foi um baque grande, bastante audível, como um corpo razoavelmente pesado caindo em um fosso. Minha curiosidade não me permitiu ignorar o estrondo, fazendo-me procurar pela fonte do ruído. Qual foi minha surpresa ao constatar que o que produzira aquele som fora o herdeiro daquela imensa propriedade, o garotinho mimado e irritante. Ele havia caído em um buraco que antigamente servira de poço ao tentar me seguir.
Os olhos de Sirius brilharam, como se algo tivesse estalado dentro dele, tudo estava ficando estranhamente familiar.
-Se não fosse por mim aquele menino acabaria morrendo, de pneumonia ou inanição. Estava todo encharcado, sujo de lama até a cintura. Não agradeceu, na verdade parecia furioso, como se a culpa fosse toda minha. Não contei nada a meus pais, tanto por medo quanto por indiferença, e os últimos dois meses correram bem.
"Foi quando o patrão de meu pai retornou. Suntuoso como sempre, pontual como sempre. Fiquei triste, aquilo significava que teria de voltar para minha casa, sair daquele palácio e abandonar o meu lugar secreto. Mal sabia eu do que estava para acontecer. Aquela criança, a qual salvei a vida, correu para os braços do pai, lágrimas falsas escorrendo pela pele alva. 'Oh, papai, algo terrível me aconteceu. O filho de um de seus empregados tentou me matar.' Exclamou ele olhando diabolicamente para mim. Tomei um choque, como assim? Eu deveria ser seu herói, eu era seu salvador! Papai não sabia que era eu, nem passava por sua cabeça que ele era o empregado citado. O poderoso homem logo bradou, pedindo por nomes, o que o bastardo não hesitou em fornecer. Era meu fim. 'Ele caiu sozinho, por favor acredite em mim senhor, eu o salvei, o tirei do fosso!' Ainda tentei me defender, chorando de verdade."
Os olhos de Sirius estavam fechados e marejados, sua expressão era de dor.
"Ora, era minha palavra contra a dele. Não havia chance de redenção. Meu pai foi demitido, e o seu antigo patrão prometeu que enquanto vivesse, ele nunca mais arranjaria um novo emprego. Voltamos para casa arrasados; nem quiseram ouvir minha versão, não adiantaria. Passamos dois meses na total miséria, vendemos qualquer coisa de valor que possuíssemos, menos a casa."
"Uma noite, três dias depois de completar meus seis anos de vida, papai me acordou. Observando-me de longe minha mãe chorava, linda como uma deusa lamentosa, não tinha coragem de se aproximar, e quando perguntei o que estava acontecendo ela só balbuciou um fraco 'Nos perdoe.' Puxado pela mão, fui obrigado a sair de casa, mesmo com o frio que fazia lá fora. Estava confuso, não entendia nada. Ali, encostado em um poste, meio envolto nas sombras, estava o homem que me faria perceber que existem coisas muito piores que a morte."
"Oh, sim, fui vendido. Aos seis anos de vida meu mundo caiu, ruiu como um frágil castelo de areia. Fui abandonado, deixado nas mãos do homem mais vil que já conheci, e olhe que conheço vários. Quer saber como aprendi a ler? –perguntou de repente, gesticulando com as mãos. –Com o livro Justine, do Marquês de Sade. Deveria recitar em voz alta cada frase, enquanto Greyback me estuprava, seu membro asqueroso profanando minha pureza, humilhando minha pessoa e brincando com minha sanidade."
Padfoot soluçou, e Moony percebeu que ele estava chorando. O belo rosto escondido nos braços.
-O que foi? Não era minha intenção faze-lo chorar, por favor, pare.
-O garoto...
-O que tem ele? –questionou, acariciando o negro cabelo de Sirius.
-Você já o perdôo? –indagou, levantando a cabeça, o rosto vermelho, molhado. –A culpa foi dele, os horrores que passou, que passa... A culpa é toda dele!
-Não sei, eu o esqueci. Não tenho tempo para vinganças. – explicou docemente, beijando o canto dos olhos de Sirius. –Não chore.
O outro recuou, sua figura demonstrava pesar, aquela resposta não lhe bastava.
-Não me beije, não sabe quem está beijando.
-Do que está falando, Sirius? Beijo meu anjo.
-Não seja tolo, sou um demônio, oh, isso sim! Sabe o menino mimado e detestável? Sou eu. Crescido, mais maduro, mas igualmente culpado. Mereço ir à forca! Pelo amor de deus, o ser mais vil desse mundo sou eu, Greyback vem em segundo.
Lupin o fitou abismado, afastando-se. Nada disse, parecia pensativo.
-Será que é muito tarde para agradecer? Eu não queria... –voltou a chorar, a cabeça baixa.
Moony continuou em silêncio, depois se levantou, fechando a porta ao passar.
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Uma risada fria cortou a noite, como um uivo. Greyback fitava o casarão iluminado com prazer. Seu Lupin logo viria até ele, afinal, aquela garota estava em suas mãos, o cabelo ruivo despenteado, desmaiada por alguma droga. Sim, tudo corria de acordo com seu plano.
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Nossaaa, finalmente consegui terminar o capitulo, desculpem a demora de hmmm... quatro meses ..' Não foi de propósito, prometo que vou fazer o possível e impossível pra postar logo o próximo capitulo, que muito provavelmente será o final o/ Hmmm qto a lua cheia deixo pra esclarecer no cap. 5 ...
Espero que tenham gostado, eu me esforcei, bjoos, desculpem de novo.
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