CAPÍTULO 14 – Resoluções
"There's
nothing you can do that can't be done
Nothing you can sing that
can't be sung
Nothing you can say, but you can learn how the play
the game
It's easy"
Eram quase 6 da manhã quando Chase entrou na sala de diagnósticos e desabou numa cadeira. Estava exausto. Começou a cochilar, mas logo foi despertado pela voz de Cameron:
- Trouxe um café pra você. – Ela disse estendendo-lhe um copo.
Cameron se sentou ao lado dele.
- Obrigado. Por que está aqui tão cedo?
- Eu saí de casa pouco depois de você... – Ela respondeu, sem olhá-lo nos olhos. – Não conseguia dormir.
Chase abaixou a cabeça, o clima estava tenso e, naquele momento, ele não sabia o que dizer a ela.
- Allison... Eu...
- Robert. – Cameron o interrompeu. – Como eles estão?
- Agora está tudo bem. Foi uma ameaça real de aborto. Ela tem uma deficiência na produção de progesterona...
- O que significa uma gravidez de risco, 40 semanas em repouso, cuidados médicos, blá blá blá.
- É. – Chase respirou fundo. - Me desculpa te fazer passar por isso. Você não precisa... Eu fui um idiota insistir. Eu fui egoísta e só agora percebi que não tenho esse direito.
- Não, você não tem. – Ela o encarou. – Mas eu tenho o direito de escolher. Quando você saiu da minha casa no meio da noite e eu me dei conta de que vai ser assim, de que isso vai se repetir centenas de vezes, eu tive que tomar uma decisão. E eu decidi que eu prefiro que você saia quantas vezes essa mulher ou o seu filho te chamarem do que não ter você nunca.
Chase sorriu, pela primeira vez desde que atendeu o telefonema de Lucy.
- Eu amo você.
- Eu sei! – Ela respondeu, fingindo desdenho. – Mas você ainda merece uma surra por ter sido noivo dessa chata.
O pager de Chase tocou.
- Falando nela... – Ele disse revirando os olhos.
- E eu acabei de carimbar meu passaporte pro céu.
- Eu volto logo. – Ele deu um beijo rápido nela. – Me espera pra gente comer algo na lanchonete lá embaixo? Eu tô faminto.
- O que mais eu poderia fazer? – Ela deu de ombros. – Vou adiantar meu trabalho de office boy enquanto espero.
- Ok! Eu prometo...
- Não, Robert.
- Não o quê?
- Não me promete nada tá?! A gente fica melhor assim.
- Tudo bem. Até mais tarde.
- Até.
XXX
Cuddy tinha acabado de entrar na sua sala, quando House entrou atrás dela.
- Você viu quem está internada aí? – Ele perguntou se acomodando na poltrona à frente da escrivaninha.
- Eu vi que ainda não são nem 9 horas e você já está no Hospital. É um recorde!
- Agora eu vou ser um pai de família. Wilson disse que eu preciso crescer! Pensei em começar acordando cedo. – Ele simulou um ar de sofrimento.
Cuddy fechou a cara.
- Se você veio aqui fazer piadas idiotas, pode dar meia volta. Eu sim tenho muito trabalho.
- Achei que você sempre me chamasse quando tinha pacientes VIPs.
- Lucy não é um paciente VIP, se é dela que você está falando. E, a propósito, eu te chamo pra resolver mistérios médicos e uma grávida sangrando ainda é um campo bem conhecido da medicina.
- Achei que você tivesse mais consideração com os parentes dos seus funcionários.
- House, o que você quer? Sério, essa conversa sem sentido ainda não me explicou o objetivo da sua visita matinal e a minha paciência com você hoje já acabou.
- Não, eu só queria me certificar de que você não me queria no caso da Sra. Chase.
- Srta. Green é o sobrenome dela. E não, ela está diagnosticada e medicada. Muito obrigada! – Ela deu um sorriso falso. – Agora sai daqui.
- Ok. – Ele se virou pra sair, mas parou antes de chegar à porta.
- O quê? – Cuddy ergueu as sobrancelhas.
- Só pra não dizer que não perguntei... Como você está?
Ela deu um leve sorriso.
- Nós estamos ótimos, House. Obrigada por perguntar.
Ele assentiu com a cabeça e saiu da sala.
Você
não tem medo de mim
Você não tem medo de mim
Você tem medo
é do amor
Que você guarda para mim
Você não tem medo de
mim
Você não tem medo de mim
Você tem medo de você
Você
tem medo de querer...
XXX
A semana transcorreu normalmente no PPTH, exceto para Chase, que teve que lidar, a cada meia hora, com os caprichos de Lucy. Na sexta de manhã, quando a equipe finalmente se preparava para lhe dar alta, ela teve um mal estar repentino. Quando Chase chegou para ver o que acontecia, Lucy estava aos prantos.
- O que foi dessa vez, Lucy? – Perguntou impaciente, enquanto a examinava.
- Eu não estou me sentindo bem.
- Você está ótima. Pressão normal, pulso, não tem mais anemia, o bebê está forte. Qual o problema?
- Eu não sei. – Ela chorava ainda mais. – Eu me sinto fraca e... enjoada.
- É normal pra quem fica uma semana em um Hospital, ainda mais estando grávida. Você precisa ir pra casa, se alimentar melhor, ficar na sua cama. Só assim você vai se sentir bem.
- Eu não quero ir embora, Robert. Eu tenho medo de perder o nosso bebê. – Lucy soluçava.
Chase fechou os olhos e respirou fundo.
- Você não vai perder o bebê, Lucy. – Explicou pacientemente. – Eu já falei, o obstetra já falou, quantas vezes nós vamos precisar explicar pra você? Você corre mais riscos aqui no Hospital do que em casa. Se ficar aqui mais tempo do que precisa, pode pegar uma infecção e, aí sim, você pode perder essa criança.
- Por favor! – Ela insistiu.
Chase deu de ombros.
- Eu não sou o seu médico. Se você quer ficar, convença-o disso.
- Você não pode dar uma força?
- Não, Lucy. Eu não posso. Use todo o seu poder de persuasão, você é boa nisso.
- Robert...
- Vou trabalhar. Se precisar de alguma coisa, por exemplo, que eu te leve pra casa, é só chamar.
- Que prestativo! – Ela disse, com raiva. – Não preciso de você tá?!
- Sei...
Chase saiu rindo do quarto e encontrou o médico de Lucy no posto de enfermagem.
- E aí? – Perguntou o obstetra.
Chase deu um tapinha no ombro do colega.
- Se vira doutor. A paciente é sua!
- E a mulher é sua!
- Não, o filho é meu.
Os dois caíram na gargalhada.
- Ok, doutor Chase. Vou quebrar essa pra você e vou lá ver o que a moça quer.
- Valeu!
XXX
Chase voltou para a sala de diagnósticos, a equipe estava reunida.
- Onde você estava? – House perguntou.
- Lucy...
- Novidade... – Cameron disparou.
- Se você precisar de uma licença pra cuidar da sua mulherzinha insuportável é só falar.
- Ela não é minha mulher, House. E eu já estou aqui, não estou? Vamos trabalhar!
- Ah, esqueci, sua mulher agora é a...
- House! Dá pra parar? Vamos, por favor, voltar para a nossa paciente. – Cameron interrompeu.
- Ok, família em crise, ao trabalho. Chase e Cameron façam uma punção lombar. Foreman, você vai pesquisar todas as causas de amnésia transitória.
- Algum motivo especial pra me dar o melhor trabalho ou é só prazer em me ver infeliz? – Foreman perguntou.
- Não. É que eu gosto de drama. – Disse olhando de Chase pra Cameron. – Você não parece que vai bater no Chase dentro do elevador.
Foreman sacudiu a cabeça e abriu um livro de neurologia.
- Acho que vou arrumar uma namorada.
Cameron lançou um olhar aos dois e saiu bufando da sala, com Chase atrás dela.
- Definitivamente, House vai me enlouquecer logo logo. – Cameron disse.
- Você quer mesmo me bater? – Chase perguntou esboçando um sorriso de criança que aprontou alguma.
Ela riu.
- Não. Acordei meio irritada hoje. Agora eu fico assim quando durmo sozinha.
Ele passou o braço sobre os ombros dela.
- Você será recompensada. Promessa de escoteiro! – Disse aproximando o rosto do dela.
- É? – Perguntou com um sorriso malicioso. – E a que horas Lucy vai pra casa?
- Boa pergunta. Ela resolveu que não está pronta pra ir.
- O quê? Que brincadeira é essa?
- Não é brincadeira. Eu gostaria que fosse, mas ela disse que não se sente bem e que prefere ficar mais uns dias no Hospital.
- Mais essa agora. Minha paciência com essa mulher tá acabando. – Cameron falou mais alto do que gostaria, fazendo algumas pessoas que estavam no elevador se virarem pra ela.
Chase olhou de lado a cara de contrariedade dela e sentiu vontade de rir, mas sabia que se o fizesse era capaz mesmo de levar uma surra no elevador. Os dois permaneceram calados até o quarto da paciente, até que Cameron não resistiu e quebrou o silêncio, enquanto preparava a paciente pra punção.
- Alguém tem que dar um jeito nessa garotinha mimada. – Disse ainda brava.
- Allison...
- É isso mesmo, Robert. E quem vai fazer isso sou eu. Se ela não sumir desse hospital hoje, eu vou lá fazer uma visita pra ela e vou colocar as coisas em termos que ela entenda bem.
- Eu acho que você devia se acalmar.
- Me acalmar? – Disse exaltando novamente a voz. – Se eu ficar calma, ela vai achar que tá no comando da situação e aí sim você vai ver o inferno que ela vai aprontar.
Cameron pegou a agulha de punção, a paciente olhou assustada pra ela.
- Me dá isso aqui. – Chase disse pegando a agulha da mão dela. – É melhor eu fazer isso.
- Desculpa Sara, hoje é um dia daqueles.
- Tudo bem, só não me agrada a idéia de você e essa raiva toda com uma agulha desse tamanho na minha coluna.
Chase riu.
- Não se preocupe, Sara, a Dra. Cameron acerta uma punção até de olhos fechados, mas eu vou fazer só por precaução. – Disse e deu um sorriso para a namorada.
Cameron não correspondeu ao sorriso. Desviou o olhar e continuou segurando as pernas de Sara.
- E parece que os seus esforços em agradá-la não surtiram efeito. – Sara brincou.
- Ela tá com ciúmes de você. – Disse piscando para Sara.
Sara riu. Cameron fingiu que não ouviu.
- Prontinho. – Chase disse. – Agora eu e a Dra. Mal humorada vamos analisar isso aqui e tentar descobrir o que você tem, certo?!
- Certo. Boa sorte pra nós então. Vou torcer para que o seu dia melhore, Dra. Cameron.
- Ele vai. – Disse lançando um olhar fulminante a Chase. – Desculpa de novo, Sara. E, obrigada.
Sara apenas sorriu de volta.
- Ei! Você não tem que ficar brava comigo. – Chase disse assim que saíram do quarto. – Não é minha culpa.
- Sabe o que eu acho, Robert? – Cameron parou de frente pra ele. – Que é sua culpa sim. Que você não estabelece um limite pros caprichos da Lucy, que ela faz o que quer porque ela é mimada e que você não faz nada pra mudar.
- E o que você acha que eu devo fazer? Porque eu não sei. Se você sabe, por favor, me conta.
Cameron o encarou.
- Não precisa fazer nada. Deixa que eu faço.
- Allison, ela tá grávida.
- Eu não vou fazer nada que prejudique o seu filho. Se é essa a sua preocupação.
- Nós não vamos brigar por causa disso, vamos?!
- Não, Robert. Eu não vou mais brigar. Não com você!
- Certo. Vamos logo analisar isso aí e esquecer esse assunto um pouco.
Cameron fez menção de acompanhá-lo, mas parou.
- Você pode fazer isso sozinho?
- Por quê?
- Eu tenho uma coisa pra fazer.
- Você não vai...
- Eu não vou falar com a Lucy agora. Eu combinei uma coisa com a Cuddy e quase me esqueci, você e aquela maluca me enlouquecem sabia?! Te encontro no laboratório mais tarde.
Chase riu.
- Tá bom.
Cameron subiu até o último andar do Hospital e se dirigiu a um dos consultórios. Deu uma batidinha na porta e entrou.
- Ah, finalmente. – Cuddy abriu um sorriso quando a viu. – Achei que ia me dar um bolo.
- Nunca! Eu não perderia essa por nada. Você não fez ainda né?!
- Não. Estávamos acabando aquela parte em que eu me lamento como é difícil ser uma pessoa grávida.
Cameron riu.
- Então eu cheguei na parte boa.
- Isso mesmo. – Disse o médico que atendia Cuddy. – Vamos lá Lisa, ver como anda a criaturinha aí.
Cuddy deitou na maca. O médico espalhou o gel sobre a barriga dela e começou a preparar a máquina de ultra-som.
- Nervosa? – Cameron perguntou segurando a mão da amiga.
- Um pouco. Obrigada por vir.
- Alguém pensou em me convidar pra festa? – House falou, desviando a atenção de todos do monitor para a porta.
- House! O que você está fazendo aqui? – Cuddy perguntou.
- Eu vim conferir se tem alguma coisa aí dentro mesmo e se essa coisa tem o meu charme.
- Como você sabia?
- Agenda preta na primeira gaveta.
- Gaveta trancada!
- Um mero detalhe. Eu tenho o Foreman!
- Achei que você tivesse dito que não se interessava por ultra-sons e enxovais. – Cuddy provocou.
- Eu ainda prefiro TV e corrida de cavalos. – House respondeu. – Não dá pra começar logo com isso?
O médico começou a fazer o exame, explicando cada detalhe aos três. Quando colocou o transdutor sobre o coração e ligou o som, os olhos de Cuddy se encheram de lágrimas. Cameron olhou para House e quase pôde perceber um brilho diferente nos seus olhos.
- Vocês estão ótimos, Lisa. – Disse o médico entregando algumas toalhas de papel pra ela. – É só seguir as recomendações que eu já te expliquei, tomar as vitaminas e voltar aqui em 4 semanas pra rotina.
- Certo.
- Ah, e nada de estresse e excesso de trabalho. Aumento de pressão na sua idade pode ser perigoso.
- Eu sei, obrigada. Pode deixar que eu vou fazer tudo certo. Nada de correr riscos!
Os três saíram do consultório. Antes de entrar no elevador, Cameron pôde ver de longe o quarto de Lucy. Ela conversava animadamente com uma enfermeira.
- Olha lá quem não está se sentindo bem hoje. – Cameron comentou com Cuddy.
- Como assim? Ela não recebeu alta?
- Não. – House respondeu. – Vai ficar aqui ainda uns dias. Acho que é o mais perto que ela consegue chegar do Chase. Esperta ela.
Cuddy riu.
- E o obstetra consentiu com isso?
- Ela é uma excelente atriz. – Cameron respondeu irritada. – Bom, eu desço aqui. Vou no laboratório ver o que deu a punção lombar da Sara. Você vem House?
House pensou por um instante. Olhou pra Cameron e depois pra Cuddy.
- Não. Me avisem se tiver algo errado. Ou certo.
- Ok. Até mais.
House e Cuddy desceram em silêncio até o primeiro andar. Quando estavam perto da sala dela, ela parou:
- Você está me seguindo?
- Não. Por quê?
- Por nada. Eu só tive a impressão...
- Errada!
- E onde você vai?
- Hum... Pra Clínica.
Cuddy arregalou os olhos, surpresa.
- Pra Clínica? Deixa eu ver... É uma aposta com Foreman ou coisa parecida?
- Não.
- House... – Ela continuava desconfiada.
- Ah... Qual é?! Se eu não vou à Clínica você grita, faz ameaças e essas coisas. Se eu vou, espontaneamente, você me enche de perguntas. Devem ser os hormônios.
- Qualquer outra piada sobre hormônios, filhos ou algo relacionado, eu demito você.
- E quem vai sustentar seu filho?!
- House!
- Você tinha mais senso de humor antes dos... Você sabe...
Cuddy sacudiu a cabeça e virou-se em direção à sua sala.
- Eu ainda mato você. – Disse sem se voltar pra ele.
House esperou Cuddy entrar em sua sala e seguiu em direção à Clínica. Ficou no balcão central alguns minutos, fingindo olhar os prontuários, quando Wilson apareceu.
- O que você está fazendo aqui? – Wilson perguntou, franzindo a testa.
House olhou em volta, desentido.
- Eu trabalho aqui.
Wilson deu uma risada.
- Ah claro. Mesmo não estando na escala de hoje? Resolveu fazer um extra?
- Isso. – Disse voltando sua atenção para os prontuários.
- E isso não tem nada a ver com o fato de que este lugar em que você está parado tem a melhor vista possível para a sala da Cuddy.
- Lá vem a consciência...
- House... – Wilson parou por um instante. – Por que você não vai até lá e fala o que você tem pra falar?
- Falar o quê? Você andou bebendo?
- Tá escrito aí na sua cara que você precisa, mais cedo ou mais tarde, conversar com a Cuddy sobre essa criança.
- Mais tarde! – Ele respondeu ainda sem se virar pro amigo.
- Não dá pra adiar a vida inteira.
- Não, eu só pretendo adiar uns... – Balançou a cabeça, como se estivesse pensando. – 7 meses e meio. No máximo.
- Desisto de você.
- Quer beber hoje? – House mudou de assunto.
- Não posso.
- Como não pode? Você sempre pode.
- Mas hoje eu não posso.
House o olhou desconfiado.
- Por que não fala logo que tem um encontro?
- Pra você não estragar.
- Grande amigo você. Só serve pra dar sermão, mas prefere sair com uma enfermeira qualquer que ajudar o melhor amigo a afogar as mágoas.
- Drama não comina com você, House. Vai falar com a Cuddy.
House fez uma careta pra ele.
- Vai cuidar dos doentinhos com câncer.
Assim que Wilson entrou no elevador, House jogou os prontuários de volta numa cesta.
- Dr. House. – Uma enfermeira o chamou. – O senhor não vai...
- Não. – Ele respondeu, saindo da Clínica.
- Mas o senhor disse...
- Mudei de idéia. – Ele gritou, certo de que ela não o ouvia mais.
Ele atravessou o saguão e entrou na sala de Cuddy. Ela estava ao telefone.
- Okay. Eu vou falar rápido e uma vez só. – Ele disse ainda de pé e fez sinal pra que ela desligasse.
Cuddy pôs o telefone no gancho.
- Não dava pra esperar.
- Se você quer um pai pro seu filho, você vai ter. – Disse ignorando a pergunta dela.
- Eu sei. – Ela respondeu levantando-se e parando à frente dele.
- Aquela coisa de enxovais, fraudas sujas, ainda fica com você. – Continuou como se ela não o tivesse interrompido. – Eu posso pagar umas contas, levar na escola, jogar videogame, já que jogar bola não dá, obrigá-lo a seguir a profissão dos pais... É isso. Se o seu medo era que esse garoto, ou garota, crescesse sem um pai, isso não vai acontecer. Agora não me culpe se ele crescer, me achar o máximo e não querer mais morar com a mãe velha e chata dele.
Cuddy esboçava um sorriso.
- Você é um idiota. Mas eu já sabia de tudo isso. Você não ia admitir a idéia de ver alguém com o seu sangue crescer sem um pouco da sua personalidade. – Cuddy o encarava.
- Você não podia ter certeza. Você me conhece.
- Justamente por isso. – Ela continuava com os olhos fixos nos dele.
- Você é insegura.
Cuddy desviou os olhos por um instante. Ele a pegava no ponto fraco, sempre. Mas dessa vez, ela não ia ceder.
- E você se idolatra. Está começando a gostar da idéia de se perpetuar. Apesar de muitos acharem que pessoas como você deviam ser proibidas disso.
- Certo. Estamos conversados. – Disse como se encerrasse uma conversa banal. – Vou indo, eu tenho uma paciente.
- Ok. E... Obrigada.
Ele apenas assentiu com a cabeça.
- Cuddy. – Ele disse, antes de sair.
- O quê?
- Você quer beber alguma coisa hoje?!
Ela abriu um sorriso.
- Eu passo na sua casa. Você é perigoso com aquela moto.
- Certo. Até mais.
- Até.
Você
diz que eu sou demente
Que eu não tenho salvação
Você diz
que simplesmente
Sou carente de razão
Você diz que eu te
envergonho
Também diz que eu sou cruel
Que no teatro do teu
sonho
Para mim não tem papel
Você não tem medo de mim
Você
não tem medo de mim
Você tem medo é do amor
Que você guarda
para mim
Você não tem medo de mim
Você não tem medo de
mim
Você tem medo de você
Você tem medo de querer...
...me
amar!
XXX
Cameron encontrou Chase no laboratório.
- Olá. – Ele disse desviando os olhos do microscópio pra ela. – Resolveu a sua coisa com a Cuddy?
- Sim.
- Não vai me contar o que é?
- Não.
Ele se levantou e a puxou pra perto dele.
- Não mesmo? – Perguntou encostando os lábios no pescoço dela.
- Não mesmo. – Ela respondeu tentando se soltar. – E nem adianta usar as suas táticas de sedução comigo hoje, meu humor tá péssimo.
- Como se eu não tivesse percebido. Mas eu sou mais forte...
Chase a segurou ainda mais forte e deu um beijo nela.
- Robert. – Ela disse se afastando dele. – Nós estamos trabalhando.
- Não tem ninguém aqui.
- Mesmo assim. O que deu na punção?
- Nada. – Ele respondeu desapontado com a mudança de assunto. – Sem infecções.
- Foreman tem alguma idéia?
- Ainda acha que é só enxaqueca. House insiste que não. Eu não faço a mínima idéia. E você?
- Também acho que vale a pena continuar investigando.
- Que seja. – Chase respondeu e voltou a sua atenção para o microscópio.
Cameron ficou alguns instantes em silêncio ao lado dele.
- O que foi? – Ele perguntou depois de um tempo.
- O que foi o quê?
- Você tá aí com essa cara de "eu tenho alguma coisa pra falar" e um ar de "eu não devia falar, mas eu quero".
Cameron riu, constrangida.
- É... A Lucy parece ótima. – Disse de uma vez só.
- Você esteve com ela?
- Cuddy foi fazer um ultra-som e eu... vi.
- Hum. Então era essa a sua coisa com a Cuddy?! Me deixou curioso por nada?
- É! Funciona às vezes.
Ele riu.
- Allison, Lucy realmente estáótima. Eu não discordo de você. Mas não sou eu o responsável pela alta dela.
- Certo. – Cameron concluiu pensativa. – Tudo bem.
- Eu acabei aqui. Vamos procurar House e Foreman. Precisamos de novos diferenciais.
Os dois se reuniram à equipe na sala de diagnósticos. Discutiram sintomas, exames, histórico, mas House parecia não prestar muita atenção.
- House, você está ouvindo? – Foreman disse, interrompendo Cameron no meio de uma frase.
- Não. Mas ela deve estar dizendo que acha que é esclerose múltipla. Chase vai querer procurar um aneurisma oculto e você ainda não tem uma hipótese depois da ressonância descartar câncer cerebral.
- Eu acho que foi um ataque isquêmico transitório. – Foreman respondeu taxativo.
- Desistiu da enxaqueca? – House perguntou, resolvendo participar da discussão.
- Ela já teria melhorado. Já se passaram 72 horas.
- Pressão normal, vegetariana, sem diabetes, 32 anos. O que te leva a pensar num AIT?
- Pílulas anticoncepcionais. – Foreman rebateu.
- Ela disse que não toma. – Cameron explicou, relendo o histórico.
- Todo mundo mente. – Foreman disse, sarcástico.
- Ei! – House gritou. – Quem diz isso sou eu. Invente os seus próprios jargões.
- Casada há 7 anos, sem filhos, trabalha 60 horas por semana e o marido diz que estão tentando engravidar. Posso fazer a angiografia? – Foreman perguntou, já ciente de que havia ganhado a discussão.
House fez que sim com a cabeça.
- Antes que o coágulo a mate.
- Mas... – Cameron tentou.
- Não é esclerose. – E virando-se pra Chase. – Um aneurisma pra causar esses sintomas teria sido visto na ressonância. Esperem o resultado da angio e depois apliquem anticoagulantes. Monitorem a paciente.
Cameron foi preparar a paciente, enquanto Chase e Foreman preparavam a sala de procedimentos. Realizaram o exame e confirmaram o diagnóstico: um coágulo causando uma mínima obstrução arterial na região do hipocampo.
- Pronto Sara. – Foreman disse ao terminar o exame. – Era um coágulo no seu cérebro. Nós o retiramos, mas você precisa ficar aqui mais uns dias pra tomar alguns medicamentos que vão te ajudar a não formar mais coágulos.
- Certo. Obrigada.
- Mas... – Cameron acrescentou. – Você precisa escolher outro método contraceptivo. As pílulas não são recomendadas pra você.
Os olhos de Sara encheram-se de lágrimas e ela desviou o olhar do de Cameron.
- Vocês não contaram pro meu marido?
- Não. Mas se você não quer ter filhos, precisa conversar com ele. As pílulas podem matar você.
- Eu não vou mais tomar.
XXX
Cameron deixou que Chase e Foreman monitorassem Sara pelo resto do dia, deu uma desculpa e seguiu para a maternidade. Essa era a última coisa que ela precisava resolver no seu dia, aliás, na sua semana.
Encostou-se na porta do quarto de Lucy e ficou observando-a enquanto lia uma revista de moda. Demorou alguns instantes para que Lucy percebesse a sua presença.
- Allison. – Lucy disse, surpresa. – Faz tempo que você está aí?
- Não. Cheguei agora a pouco. Só estava me certificando de não te incomodar.
Lucy a observou, interrogativa.
- Veio saber como estamos?
- Eu já sei. Acabei de falar com o seu obstetra. – Cameron disse entrando no quarto.
Lucy ficou mais reta na cama. A proximidade de Cameron lhe parecia ameaçadora.
- Ele te disse que eu tenho...
- Sim. – Cameron interrompeu. – Que você tem deficiência da fase lútea, mas que a pior parte já passou e que você pode ter uma gravidez tranqüila se não cometer excessos.
Lucy desviou os olhos.
- E ele me disse também... – Cameron continuou. – Que você está pronta pra ter alta desde hoje cedo, mas que preferiu passar o final de semana aqui.
- É. – Lucy confirmou. – Eu vou ficar mais segura.
- Ok. – Cameron a olhava nos olhos. – Eu só vim comunicar que Robert e eu estamos saindo pra passar o final de semana fora. E já que você está bem, não vai precisar dele por aqui.
- Espero que ele esteja ciente de que se algo acontecer com o filho dele ele não vai estar aqui...
- Pra segurar a sua mão. – Cameron completou. – Robert não é obstetra. A única coisa que ele pode fazer por você é segurar a sua mão.
- É importante pra mim. – Lucy fez voz de choro.
- Lucy, não começa o drama que o Robert não está aqui pra você impressionar e eu não caio no seu teatro. Que um conselho? Por que você não liga pra sua mãe? Pede pra ela vir cuidar de você.
- Por que eu facilitaria as coisas pra você? – Lucy se colocou na defensiva.
- Por que sou eu quem está com o pai do seu filho agora e, se você facilita pra mim, eu facilito pra você. É melhor pra nós duas.
- Eu não vejo as coisas dessa forma.
- Você acha que ele vai voltar pra você? Você acha que o Robert é um homem que se segura com um filho? Parece que você o conhece muito pouco. – Cameron disse, sarcástica.
- Você não veio aqui pra falar do seu final de semana romântico né?
Cameron riu.
- Você tá ficando esperta. Não. Eu vim te falar que eu conversei com o seu obstetra, mas ele não me disse que você estava ótima, você me disse. Sigilo médico!
As faces de Lucy coraram.
- E eu vim aqui dizer também que não importa o show que você apronte, a partir de hoje, você não é mais influência no meu relacionamento com Robert. O filho dele vai ter de mim todo o respeito e carinho que merece por ser filho do homem que eu amo. Você é só a mãe dele, pra mim e pro Robert. Não se esqueça disso tá?!
- Escuta, Dra. Cameron. Você vem aqui, toda dona da situação, impondo as suas regras. Você acha que eu tenho medo de você?
- Eu não quero que você tenha medo de mim, Lucy. Eu não costumo intimidar ninguém. Eu só quero que você esteja ciente de que você não é a dona da situação.
- Sai do meu quarto. – Lucy gritou. – Sai agora.
- Eu já estava mesmo de saída. Agora, por favor, fica calma. Você sabe que não pode se estressar e Robert ia odiar saber que você fez algum mal pro bebê por conta de um chilique.
- Por sua culpa. – Ela disse chorando.
- Eu já vou. E antes que eu me esqueça, Robert mandou falar que passa na segunda de manhã pra ver como vocês estão.
- Eu odeio você. – Lucy disse entre dentes.
- É recíproco. – Cameron respondeu com um sorriso forçado e saiu do quarto.
XXX
Cameron encontrou Chase sozinho na sala de diagnósticos.
- Cadê todo mundo?
- House foi embora. Foreman é o plantonista da noite e eu estava te esperando pra irmos pra casa. Não respondeu o pager nem o celular.
- Estava ocupada.
Chase olhou pra ela, desconfiado.
- Está tudo bem. – Cameron deu um sorriso. – Eu disse que você passa pra vê-la na segunda.
Chase deu uma gargalhada.
- E ela concordou numa boa?
- Claro que não. Mas ela não tem outra opção.
- O que mais você disse pra ela?
- Não quero falar disso mais hoje, ok?! Vamos pra casa?
- Pra minha casa ou pra sua?
Desculpe
Estou
um pouco atrasado
Mas espero que ainda dê tempo
De dizer que
andei
Errado e eu entendo
As suas queixas tão
justificáveis
E a falta que eu fiz nessa semana
Coisas que
pareceriam óbvias
Até pra uma criança
Por onde
andei?
Enquanto você me procurava
Será que eu sei?
Que
você é mesmo
Tudo aquilo que me faltava...
XXX
Notas:
People, eu demoro mas eu posto! Capítulo gigante!! Me empolguei dessa vez.
1. A música do início é All You Need Is Love, The Beatles, composição de John Lennon e Paul McCartney. Segue a tradução do trecho:
"Não
há nada que você possa fazer que não possa ser feito
Nada que
você possa cantar que não possa ser cantado
Nada que você possa
dizer, mas você pode aprender como jogar o jogo
É fácil."
2. Deficiência na produção de progesterona, é o mesmo que deficiência na fase lútea. A mulher produz pouca progesterona, que é o hormônio responsável por manter a gravidez. Em alguns casos é incompatível com a gravidez e, em outros, com o tratamento adequado dá pra levar até o fim.
3. A música que aparece nas partes "Huddy" é Medo de Amar, da Adriana Calcanhoto. Dispensa comentários... Ela é muito Huddy!
4. AIT Ataque isquêmico transitório: é um tipo de AVC (derrame), só que em menores proporções. Alguma coisa diminui o fluxo sangüíneo para determinada área do cérebro, causando sintomas relacionados àquela parte específica. No caso, o hipocampo é o centro da memória.
5. A música final é Por onde andei, do Nando Reis. Achei que ela combina com a história, de um modo geral.
Obrigada,
Pelos reviews: Milena, Mandinha, lpdsp, Nina, Carol, Lili, Andréia e Kamila. Meninas, vocês enchem muito a minha bola!! Eu fico me achando!
Li, valeu pela força de sempre! Dá pra providenciar logo meu review?!
Por hoje é isso. O próximo capítulo é o fim! Espero mesmo que tenham gostado até aqui.
Mil beijos e bom fim de férias pra quem tá de férias!!
