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Capítulo Dez

O Retorno - Parte 1

.::.. Casa de Câncer ..::.

Novamente aquele característico ruído de fechar um zíper ecoou pelo pequeno quarto da casa de Câncer. Cilena olhou à sua volta, melancolicamente, relembrando-se das últimas alegríssimas semanas ao lado do amado...

Flashback

O dia apenas começara. O sol radiava energia e felicidade atrás das montanhas, mas Ódio já despertara apenas com o som da doce voz de Mephisto em seus ouvidos.

Mephisto: -Bom dia... -seus pêlos eriçaram-se. Sentira falta dele aquela noite.

Cilena: -Bom dia meu amor.

Mephisto: -Levanta. Preparei algo especial para você...

Com um semblante marcado em expressão duvidosa, Cilena deixou ser levantada por Máscara da Morte, até que sentisse seus pés quase que fincados no chão frio do aposento.

Mephisto: -Feche os olhos. -e assim o fez.

Cilena: -O que voc...

Não encontrava palavras para descrever a sensação de curiosidade que seu puro coração abrigava. Queria abrir os delicados olhos escuros, mas ele posicionara a mão de forma que ela não pudesse sequer espiar o que se sucedia.

Mephisto: -Dê as boas-vindas... a ele!

Abriu os olhos num ímpeto. Aos seus pés, um encantador cãozinho menor que sua pantufa de corações rosados latia alegremente. Cilena sorriu. Uma vontade de lacrimejar brotou do fundo de sua alma. O animal começou a pular em sua perna, pedindo atenção. Ele balançava seu rabo de cor caramelo incessantemente. Seus olhinhos escuros como gotas de piche brilharam quando ela estendeu as mãos para apanhá-lo.

Cilena: -Ele é... oh! -agora sim, ela percebera que ele mordera um de seus dedos. -Maravilhoso! Máscara...

Mephisto: -Agradeça-me depois. -piscou. -Agora, temos que escolher um nome para seu novo filhote. -afagou carinhosamente uma das longas orelhas do pequeno.

Cilena: -Ah, você tem alguma opinião? -sorriu largamente. Havia pensado em um nome, mas achou ridículo...

Mephisto: -Tenho certeza que você já sabe um, linda. Diga-me.

Cilena: -...Ohanna.

Mephisto: -Ohanna? -ele não conseguiu deixar um risinho escapar, o que entristeceu a morena. -Perdão, querida. Mas por que Ohanna?

Cilena: -Porque sim e pronto! -bateu o pé com força no assoalho, provocando barulhos ocos, o que fez Máscara da Morte estupefar-se e apenas gargalhar, meneando positivamente a cabeça.

Mephisto: -Está bem. -e voltou a olhar para o bichano. -Ohanna...

Fim do Flashback

Uma lágrima ameaçou cair. Não merecia chorar por ele. Nada deveria sentir por ele. Mas, sentia... o latido de Ohanna chegou aos seus ouvidos, o que a fez despertar de seus devaneios.

Cilena: -Oh! Você esteve aí esse tempo todo, querido? -outro latido, como se ele correspondesse às suas falas.

Ódio apanhou-o com carinho e posicionou o cão em uma pequena maleta apropriada para a ocasião, e assim a fechou.

Cilena: -Não tenha medo. Logo estará livre.

Seus olhos passearam mais uma vez pela casa de Câncer. A última vez... alguns poucos passos dados foram o suficiente para aproximar-se da porta do quarto de Máscara da Morte. Da porta entreaberta, pôde fitar o amado descansando. Seu peito oprimiu-se.

Cilena: -Tenho.. de ir... -a mão encostou-se à maçaneta da porta, fazendo um rangido ecoar e Mephisto remexer-se. -Não... melhor não...

Por um segundo, imaginou que ele tivesse aberto os olhos para ela e avistado sua presença. Seu plano iria fracassar se isso acontecesse. Mas, no fundo de seu inconsciente, queria que ele o fizesse. Desejava muito despedir-se dele dignamente. E assim o fez... abriu a porta, e fitou-o por uma fração de minutos. Mais um passo, e já podia encostar nas mechas azuladas que caíam sobre os olhos fechados. Traços grosseiros, mas ao mesmo tempo... tão delicados! Seus lábios a fascinaram instantaneamente, fazendo com que ela encostasse a ponta dos dedos neles. Mais uma vez, ele revirou-se, coçando a boca com os dentes. Habilmente, ela afastou-se, fechando a porta sem fazer um único ruído.

Cilena: -Adeus, meu amor.

Mais uma lágrima...

.::.. Casa de Peixes ..::.

A primeira coisa que viu foi o teto branco do quarto. Afrodite coçou os olhos lentamente. Ainda tinha sono. Porém, sentia que devia acordar. Mas porquê?, indagou ele ao seus botões. Um pequeno barulho veio da sala, logo após, um lamento. Algo se quebrou.

Afrodite: -Sophie? É você? -a passos lentos e curtos, ele foi a porta do cômodo que dava até a sala.

Silêncio. Ele logo girou em seus calcanhares para voltar para a cama, porém ouviu um soluço. Um lacrimejante soluço. Seu coração acelerou. Devia ir até lá.

Afrodite: -É você querida? Me resp... -estacou, ali mesmo, na porta branca.

Tristeza estava trajada com a armadura, munida do Fu Mei Pin que balançava ao sabor do vento. Seus fios de cabelo escuros e curtos também eram lambidos pela suave brisa, juntamente com lágrimas... Peixes deu um passo.

Sophie: -Afaste-se! -e estalou o chicote no carpete da sala, mas fora o suficiente para provocar um som que o fizesse parar novamente.

Afrodite: -Sophie, meu amor... -e assim, ele notou. Suas malas, sacolas. Sim, ela ia embora. -...por quê?

Num ímpeto, Sophie avançou bruscamente até a porta da sala principal de Peixes. Ele correu atrás, mas assim que chegou até ela, sentiu uma dor forte e aguda na nuca. Foi quando viu o mundo desaparecer à sua frente. E então desmaiou.

Não queria ter feito aquilo, mas era a única alternativa. Sabia que o amava. Mas ele estava sob o feitiço. De que adianta iludir-se mais?

Sophie: -"É melhor abraçar os espinhos da verdade do que as rosas da ilusão..." -balbuciou a jovem, sem que as lágrimas deixassem de cair.

Há quanto tempo não tinha tanta mágoa de alguém? Vasculhou as lembranças. De repente, achou alguma coisa...

Flashback

-Vamos, mamãe!

Como a pequena Sophie era curiosa! Adorava observar os pássaros no parque. Mas sua mãe demorava muito. Impaciente e aos passos pesados, ela voltou até a cozinha. E viu algo que preferia nunca ter avistado em toda a sua vida: seu pai... havia batido em sua mãe...

Paul: -Eu já disse pra você ficar quieta!! -um estalido. Um único estalido. Mas fora o suficiente para ficar marcado em sua vida...

Louise: -Por favor, meu amor... -e sua face voltou a se encontrar com o azulejo xadrez escuro da cozinha.

Fim do Flashback

Sacudiu a cabeça. Não. Nada de lembranças. Nada de lágrimas. Nada de tristeza. Com a mão livre, agarrou a maçaneta prateada e a fechou num único e brusco movimento. Ao mesmo tempo em que lacrimejava, apertava a alça da mochila em suas costas até os nós de seus dedos esbranquiçaram-se.

Sophie: -"E o pequeno pássaro voa, voa, voa bem alto... até que eu não possa mais vê-lo. Adeus, passarinho. Estou indo para casa..."

.::.. Salão de Athena ..::.

Gabriela: -Onde está Sophie?

Já não bastasse pronunciar o nome da companheira, e escutou seus passos ecoarem pelo salão. Todas estavam reunidas. Armadas. Protegidas pelas armaduras. Pelos respectivos sentimentos. Malas, mochilas, sacolas impestiavam o cômodo. Gabriela acenou para todas e logo anunciou.

Gabriela: -A srta. Saori me indicou uma ótima idéia de onde passarmos as férias. -fitou uma por uma, com o cenho franzido. -E eu a achei estupenda.

Saori: -Obrigada. -e assim, ela encostou a mão pálida na ombreira amarela de Felicidade. Acenou positivamente com a cabeça. -Vá em frente.

Gabriela: -Cada uma de nós terá um ano de férias em seus respectivos países, cidades, casas... enfim. -respirou fundo. -Garotas, vamos voltar!

Seus olhos azuis piscina brilharam de felicidade. Que vontade de rever a família!

.::.. Aeroporto de Los Angeles ..::.

Mas, enquanto tudo estava bem para ela, estava péssimo para outras.

Caroline: -Ainda não sei por quê nos deixamos ser trazidas até aqui...

Suspirou e olhou à sua volta. O local estava apinhado de pessoas apressadas, com o cenho marcado de expressões duvidosas, carregadas de preocupação. E assim, Ying percebeu o quanto aquelas pessoas eram idiotas. A vida ali, passando por elas, e ainda assim, elas corriam, não para aproveitarem o que ela tem de bom a nos oferecer, e sim... preocupando-se apenas com o futuro. O futuro não existe. O que é o futuro? O passado? O presente?

Vanessa: -Nós viemos por que quisemos. –fitou a irmã com um olhar carinhoso e compreensivo. –Não é mesmo?

Caroline sorriu timidamente. O futuro... é o próximo segundo. Essa não! Esse segundo que antes era o futuro agora já é o presente! E esse mesmo segundo já se passou, transformando-se em passado... definitivamente: o tempo não pára.

Caroline: -Talvez...

Algumas horas depois, já estavam no hotel de uma das cidades mais agitadas dos Estados Unidos da América. Yang deixou-se desabar na cama de edredons de estampa abstrata, repleta de formas geométricas e coloridas, o que misteriosamente aguçava sua criatividade. Ying apenas deixou a mala de rodas deslizar até perto das outras já jogadas. Seus olhos se fechavam lentamente. Recostou-se na poltrona reclinável de couro escuro do canto da sala, e um sonho mórbido invadiu sua mente cansada.

"Quem é você?, perguntou-se a jovem. Sua voz ecoou no espaço infinito de azul estonteante. Sentiu uma mão macia envolver seu ombro. Mamãe... é você?, e se virou para a direção da mão. Seu coração disparou. Sua respiração cessou-se por uma fração de segundos. Uma caveira. Sim. Uma esquelética e monstruosa caveira estava com a mão ainda repleta de carne e pele apoiada em seu ombro. Um grito agudo brotou do seus lábios. Sentiu seus ouvidos sangrarem, suas pernas amolecerem, seus cabelos caírem... por quê? Meu Deus, por quê?!?!..."

.::.. Condomínio Karamaszof – Apartamento 157 ..::.

-Papai?

Agatha deixou que sua voz ecoasse profundamente pela sala vazia do apartamento. Ninguém. Ninguém mesmo. Sacudiu a cabeça, fazendo com que os cabelos ondulados arrumassem-se. Jogou a única mala que trazia em um canto. Será que sua família realmente ainda morava ali?

Agatha: -Pai, Lucy?! Eu voltei!! -sua voz saía trêmula dos lábios já rachados pelo frio que fazia na Rússia. -Lembram-se de mim??

Agora sim, seu pequeno e solitário coração oprimiu-se. Será que eles ainda lembravam-se dela? Nunca se sentiu tão sozinha. Nunca. A lembrança de Mu assaltou-lhe a mente perturbada, fazendo com que uma lágrima grossa escorresse lentamente pelas bochechas.

A passos lentos, foi até onde deveria ser o seu quarto. Que saudades do seu tempo de menina... Lembrou-se da irmã Lucye. Cabelos longos até os joelhos, ondulados e loiros como fios de ouro. Os olhos azuis, porém escuros, diferentes aos seus. Ela sempre fora diferente. Sempre fora mais inteligente. Era a mais velha. 10 anos, para ser mais exata... Onde estaria ela agora?

Saiu do seu quarto de paredes velhas e descascadas e foi até o quarto do pai. Aliás, onde deveria ser o quarto do pai. Ela foi logo até a cômoda de mogno que se posicionava ao lado da cama de casal com lençóis claros como o dia. Logo, seus olhos perseguiram um curioso retrato. Nele, uma mulher de cerca de 32 anos chorava copiosamente sobre uma mesa coberta por uma toalha branca de bordados lilases... Hey, espere um minuto... Não, aquilo não era uma mesa. Era um caixão... E aquela moça... Quem seria? Cabelos curtos e claros, não pôde identificar primeiramente. Apanhou o quadro nas mãos pálidas e fixou seu olhar nos olhos da moça. Olho escuros...

-Quem é você?

Um pulo. Aquele retrato deslizou pela mão que suava friamente. Olhos vidrados no cristal que envolvia a foto, agora rachado. Virou-se paulatinamente na direção da mulher que entrara. Cabelos loiros, curtos e ondulados. Não pôde ver seus olhos. Estava usando óculos escuros. Trajava também um sobretudo preto e coturnos de couro.

Mulher: -O que faz aqui? Quem lhe permitiu entrar?

Ela retirou os óculos. Os olhos de Agatha brilharam. Sim... Era ela, sim!!

Agatha: -Lu... Lucye? -outra lágrima desceu. Logo o cenho da irmã marcou-se numa expressão de surpresa e alegria.

Lucye: -Agatha?!

Agatha: -Sim... Sim, querida! Sim!!! -e correu para os braços da irmã que não via há anos.

Lucye: -Ah, meu pequeno anjo iluminado! -e apertou os braços em volta do corpo de Ciúmes.

Agatha: -Minha deusa de fios dourados...

Enquanto sentia novamente a presença da irmã abençoada ali, ela relembrava-se dos apelidos que usavam quando eram pequenas.

Lucye: -Quando você chegou?! Está bem mesmo? Como tem sido seus últimos anos?! -com as mãos trêmulas de pura felicidade, ela acariciava com certo nervosismo a face de Ciúmes, afastando os fios loiros que lhe caíam sobre os olhos.

Agatha: -Acalme-se, minha querida! -ela soltou um riso divertido. -Saberá de tudo!!!

E, não se contendo, Lucye a agarrou e levantou-a. Agatha assustou-se, porém logo abriu os braços, e a irmã girou-a livremente no ar daquele apartamento, onde uma brisa fria entrava pela porta, mas que não fazia a mínima diferença. Afinal... o amor esquenta.

.::.. Bright Eyes Artigos Informáticos - Liverpool, Inglaterra ..::.

Passou mais uma vez os olhos escuros pelo laptop que jazia em uma das vitrines. Até que, por fim, desviou-os das teclas negras e finas, e apanhou o talão de cheques. À passos pesados e ecoantes, graças a suas botas de couro preto, adentrou a loja.

Vinte minutos depois, carregava uma imensa sacola na mão direita. Ela recostou-se em uma das pilastras do imenso shopping e, com o peito estufado de orgulho, balbuciou poucas palavras, mas suficientes para lhe fazerem brotar um sorriso imenso.

Sophie: -Querida... eu não estarei mais sozinha! Nem eu, nem você.. -e por puro ímpeto, beijou delicadamente a palma de sua mão.

Girou a chave uma vez. Trancada. Girou mais uma vez. E então ouviu o familiar clic que todos já estão acostumados. Atirando o casaco que estava em uma de suas mãos na poltrona de tecido verde-oliva, Tristeza descansou as sacolas de compras no canto do piso xadrez do hall. Olhando para tudo aquilo, sentiu o peito oprimido. Como irei pagar o que devo?, confessou ela a seus botões. Não importava. Simplesmente não importava.

Com um de seus braços e apenas dois movimentos, retirou toda a tranqueira que estava alojada em uma escrivaninha há muito escondida pelo tempo na sala de estar. Aquela casa... há tanto deixada pela família. Quanto tempo ela estaria ali? Sem vida, sem calor, sem... pensamentos!

Sophie: -Não importa! -gritou ela para si mesma. -NÃO IMPORTA!!! -seu grito soltou profundos ecos por toda a mansão.

.::.. Em algum lugar perdido em Nova Delhi, Índia ..::.

Cilena: -POR QUE NÃO ME DEIXAM EM PAZ?!

Encerrando sua audição com as mãos sobre os ouvidos, Ódio gritou, assustada com as vozes que invadiam sua cabeça. Estava ficando louca? Definitivamente. Enquanto fechava seus olhos, vultos passavam à sua frente. Gemia e gemia de dor. A cabeça deveria explodir a qualquer momento. Seu peito oprimiu-se.

Cilena: -Por que... tive de te deixar? –um brilho misterioso brotou em seu olhar negro, e uma gota de tristeza rolou. Mas, ao mesmo tempo, era uma gota de esperança. Aquela esperança. A maldita que nunca morre.

O som de alguém batendo na porta de carvalho ecoou. E uma voz se fez ouvir.

Mayra: -Cissa?

...Silêncio.

Cilena: -Pode entrar.

Uma jovem de longos cabelos ruivos encaracolados adentrou o quarto. Carregava uma bandeja prateada, repleta de coisas perfeitas para um café da manhã perfeito. Pelo menos, qualquer pessoa pensaria assim. Qualquer pessoa. Mas não Cilena.

Mayra: -Não! –explodiu ela, assustando Cissa. –Pááára de chorar! Não deve estar triste. Não mais. –ela apanha a borda do lençol claro e enxuga as lágrimas da amiga. –Acabou, querida. Vida nova.

Ódio tentou sorrir, mas seus lábios não se moveram. Parecia que haviam sido congelados por uma nevasca soprada pelo coração da Morte. A vida transmutou-se em um iceberg. Fria e sem sentido. Enorme e vazia. Mas ao mesmo tempo, pesada.

Cilena: -Eu sei. Acho que sei exatamente o que fazer. Mas... –com um indicador tímido, mostrou seu coração. –Ele não me ouve.

Mayra: -Mas, não adianta chorar. Sabia? –ela levantou o olhar de Cissa, que não resistiu à expressão de alegria da amiga e conseguiu esboçar um leve sorriso. –Isso! É assim que se faz! Num dá mole pra ela, não!

Cilena: -Acho que você tem razão. –enquanto falava, seus olhos brilhavam. Passou a língua nos lábios para umedecê-los. Só então percebeu que estava definhando.

Num impulso, levantou-se da cama e se olhou no espelho longo e de borda escura. Meu Deus... o que houve comigo!?, indagou-se. Passou a mão ressecada nos cabelos escuros. Fios e mais fios quebrados e sem vida mergulharam pacientemente no tapete persa que afofava seus pés. Uma imensa fraqueza tomou conta de seus membros. Sua visão escureceu. E então, viu o vulto da amiga ajoelhar-se sobre seu corpo.

Mayra: -Cissa... –ouviu ela, antes de cair em profunda inconsciência.

Uma luz. E outra. E mais outra! Abriu os olhos fragilizados e acostumados com a escuridão. E percebeu que havia anoitecido. Olhou para a janela escancarada à sua frente, e com a mão esquerda, procurou algum lençol. Estava frio. Olhou para o lado e viu a amada Mayra, sua prima, com a cabeça reclinada na cadeira desconfortável. Havia adormecido.

Cilena: -Onde eu arranjei este anjo?!- sussurrou ela, levantando-se lentamente.

Suspirou fundo e ergueu a ruiva em seus braços. Abriu a porta que estava encostada com seu pé e procurou a cama de Mayra. Lá estava ela. Em um cômodo fechado, sem janelas, cheirando a mofo. Ódio esboçou uma careta desagradável e voltou para seu quarto, estirando o corpo claro da jovem que jazia em seus braços na cama onde ela esteve.

Com um toque delicado de seus dedos, afastou alguns fios claros que caíam sobre os olhos levemente fechados de Mayra. Foi quando percebeu que uma lágrima escorria por sua bochecha. Não fez questão de limpá-la. Sabia que era uma lágrima emotiva, alegre. E deixou que ela pingasse de seu queixo para o colchão. E ali permanecesse. Até que o Tempo resolvesse secar de vez todas as suas lágrimas.

.::.. Academia Visual Society – São Paulo, Brasil ..::.

-Mais uma vez.

Com o rosto pingando de suor, a garota de cabelos negros levantou-se do chão e foi à luta. Ao olhar para o rapaz que jazia parado à sua frente, desejou que seus punhos fossem feitos de chamas, para acabar de vez com aquilo e mostrar que era a melhor. Cumprimentou-o com um movimento rápido de suas mãos, e ele o retribuiu.

Assim que preparou sua defesa, olhou fundo nos olhos negros do adversário e suspirou. Por pouco tempo. Um potente chute foi desferido em seu peito, e se não fosse por aquela defesa automática, teria tido uma luta mais curta do que as outras. Avançando com um direto e um cruzado, o garoto de cabelos curtos e encaracolados abaixou-se como se nada tivesse acontecido.

Luiz: -Quero ver mais força nisso! Andem!!

Bufou. E avançou novamente, girando o corpo para trás e desferindo um coice no abdômen do jovem, que cambaleou. Ao voltar a olhar para seus olhos tranqüilos, ele sorriu. Um sorriso bonito, de dentes bem alinhados. Com o punho cerrado, acertou um soco em cheio na face da pequena garota, que rodou e foi ao chão.

Luiz: -Saulo! Quantas vezes eu já disse? É só do pescoço até a cintura!!

Isadora: -Deixa, professor. Eu estou bem.

Mas não estava. Um fio incessante de sangue manchava seu rosto, marcado por uma expressão de desgosto por si mesma. Era a segunda vez que perdia pra ele. Não queria. Não! Fora uma amazona, derrotara ninjas malignos com seu inseparável San Ti Kwan. Balançou a cabeça. Não! Esse tempo passou.

Isadora: -Um dia... eu fui boa... –balbuciou ela.

Saulo: -Disse alguma coisa? –ela olhou para o lado e viu novamente aquele olhar negro e sincero.

Isadora: -Não. Eu não disse nada.

Saulo: -Desculpe se eu te machuquei de novo, Dora. Eu não... –com a palma aberta em frente ao rosto do jovem, ela sussurrou.

Isadora: -Não diga nada. Tudo bem. Eu sei que você não queria.

Assim que aquela água fria e refrescante tocou seu rosto, deixou que suas lágrimas se misturassem com sua saudade e seu desprezo. Era fraca. Era pequena, de rosto amável, mas de que adianta?! Era mais fraca que uma mosca. Não conseguia nem acabar com um jovem de 18 anos. Como um dia saberia acabar com seus medos!? Gemeu. Mas gemeu com força. Não de dor física. Mas de uma pontada aguda no coração.

Isadora: -Faz 3 meses que te deixei, Milo. Mas parece que foi ontem que te beijei pela primeira vez...

Ao ouvir a porta do banheiro gemer, assustou-se. Porém ficou tranqüila ao ver o rosto preocupado de Matheus na fresta da porta. Ele trazia uma toalha felpuda, que naquele momento, era tudo que ela queria. Uma toalha felpuda e um abraço do namorado.

Matheus: -Pensei que tivesse se machucado sério. Ta trancada nesse banheiro há quinze minutos! –ele aproximou-se dela e beijou-lhe a face.

Isadora: -Desculpe, amor. –ela esboçou um leve sorriso que não convenceu os olhos escuros como piche de seu namorado.

Matheus: -Andou chorando?! –indagou ele, com os lábios tremendo. Ele sabia de tudo.

Isadora: -Claro que não, meu bem. –ela puxou a face dele delicadamente e beijou seus lábios. –Porque choraria?

Matheus: -Sei... –com a boca de lado, ele fez uma careta desconfiada. Paixão sorriu. Adorava o jeito daquele garoto.

Mas não adiantava tentar esconder. Ele sabia de tudo. Ele sabia que tinha 'outro' na parada. Matheus percebia que ela nunca esquecera Milo. Mas ele engolia esse ciúme. Porque a amava profundamente. E tudo que queria era ficar ao lado dela, abraçá-la, olhar bem fundo na sua alma e dizer todo o seu afeto àquela pequenina jovem de cabelos negros.

Isadora conhecera Matheus na infância. Ao retornar ao Brasil em suas férias longe do Santuário, ela voltou á sua cidadezinha remota do litoral, São Vicente, e reencontrou muitos amigos. Muitas pessoas especiais. Inclusive ele. Matheus fora o primeiro garoto que ela olhara diferente. Ela não o olhava com repugnância, como fazia com os outros meninos de sua idade na época, e sim o olhava com curiosidade. Querendo saber o que havia por trás dos cabelinhos sempre longos do moleque.

Nos dias de hoje, quando o jovem soube que ela estava de volta por intermédio de seus amigos, uma profunda saudade assaltou-lhe o peito. Ela fora seu 'primeiro amor', podia-se dizer. Nas aulas do Pré, quando foram colegas de classe, ele sempre tentava fazer trabalhos em grupo ao lado da menininha de cabelos curtos e lisos, com uma franjinha sapeca. E isso fora aos seus 6 anos!

E, quando ela fazia uma visita ao seu antigo colégio, ele foi lá também. E ela chorou de emoção, agarrada à seus braços, escutando seu coração. E os dois diziam o mesmo...

"Que saudade..."

.::.. Casa da Família Watanabe – Hokkaido, Japão ..::.

Mais uma pétala pousou em sua mão delicadamente aberta. Ela apanhou-a com os dedos e soltou-a ao vento. A pétala voou, e Kurayko desejou que a pétala fosse até a Grécia, e sussurrasse no ouvido de seu amor que ela nunca o esquecera.

E naquele momento, parece que foi ela quem escutou alguma alma balbuciar em seus sentidos:

-Eu nunca a esquecerei.

Ela apertou os olhos, fazendo com que a lágrima que tanto demorara a cair escorregasse rapidamente até seus lábios entreabertos. Sussurrava uma canção.

Kurayko: -"Tell me that past times won't die

Tell me that old lies are alive…"

Um baque surdo fez-se ouvir por todo o jardim do imenso palacete dos Souma. Com um movimento rápido, olhou para trás. Nada. Ao desviar seus olhos novamente para frente, sobressaltou-se. Dona Michigo olhava-a curiosa.

Kurayko: -Vovó! Que susto a senhora me deu!

Michigo: -Perdoe-me querida. Eu ouvi você choramingar... –ela ajoelhou-se e apanhou uma flor de cerejeira que jazia sobre uma pedra. –Aconteceu alguma coisa que queira me contar?

Kurayko: -Não... –rapidamente, ela limpou a gota salgada de sua face com a manga de seu kimono.

Michigo: -Amor... ninguém é feliz se não puder abrir-se com ninguém. –a velha afagou suas bochechas, e um estranho sentimento assaltou a menina.

E, repentinamente, Amor jogou-se no chão, caindo de joelhos nas folhas secas deixadas pelo outono daquele ano cruel. Michigo olhou penosamente para a morena. Amor. A netinha querida estava no auge de sua vida. E naquele momento, chorava por amor. Ajoelhando-se ao seu lado, a velha Michigo pousou suas mãos ressecadas pelo tempo nos cabelos levemente cacheados de Kuray-chan.

Naquele momento, Kurayko sentia-se a pessoa mais solitária do mundo. Ela sentia que, se olhasse para os lados, não veria ninguém. Apenas ouviria o vento uivante cortando sua audição. Porém quando viu que a avó estava ajoelhada ao seu lado, ela esticou os braços e abraçou como nunca abraçara alguém antes. Era um abraço desesperador. Um pedido melodramático de auxílio.

Michigo: -Diga-me, linda. –ela balbuciava olhando para as nuvens pálidas. –Quem?

Kurayko: -Camus...

A mulher de idade sorriu. Sentiu que a neta estava completamente aberta, para que ela pudesse ter suas feridas curadas com aquele amor de família. Um afeto que não sentia desde seus remotos 6 anos. Um afeto vital para qualquer ser humano.

E, enquanto a morena desabafava sua vida fora do Japão com a velha Michigo, uma suave brisa invadia o jardim. Michigo olhou para o céu. E lançou para o infinito uma oração às almas de Skadi e Yukito. Os pais que nunca tiveram a chance de poderem auxiliar naquele momento em que Kurayko mais precisava de amor.

.::.. Centro da Cidade – Beijing, China ..::.

-Isso! Também bata uma foto daquilo ali também!!

Com os dedos ágeis, a jovem tirou alguns flashes de um lindo parque arborizado da região. Deixou-se cair em um banco de madeira que por ali havia, acompanhada de Hay Lin, que jogou a latinha de refrigerante no lixo que havia ao seu lado.

Suspirou e olhou mais uma vez para os cabelos curtos e negros da irmã. Amy era tão incrível que parecia não existir. Como pudera viver tantos anos longe da pessoa que ela sentia mais amar naquele momento?! Repentinamente, ela abraçou a pequena menina, que esboçou um sorriso verdadeiro e retribuiu a demonstração de afeto.

Amy: -Como é a Grécia?! –indagou ela, com sua vozinha meio infantil, batendo uma foto de alguns pássaros que por ali sobrevoavam.

Hay Lin: -Comparada à esse lugar, não é nada! –gargalhou ela, ao ver que alguns dos passarinhos bicavam o pé da irmã.

Amy: -Ah! Saiam daqui! –ela deu um leve chute na asa de um deles, que recuou assustado. –Não minta pra mim. Lá deve ser incrível!

Hay Lin: -Quando eu voltar para lá, tento te arrastar junto comigo. –disse ela, enquanto fazia cócegas em Amy.

De repente, o semblante da irmã ficou abatido, os olhos brilharam misteriosamente, e os lábios, que antes sorriam, agora forçavam-se para baixo.

Hay Lin: -Meu bem, que foi?! –perguntou ela, preocupada.

Amy: -... –ela abaixou os olhos, e um brilho escorreu até sua saia plissada rosa. –Você vai voltar pra lá? Vai me abandonar aqui de novo?!

Somente naquele momento Amizade percebeu o peso de suas palavras sobre a garota. Amy morava sozinha com sua tia desde então. Devido à uma atitude imperdoável de seus pais, a tia brigou por elas na justiça, e acabou ganhando a guarda de Hay Lin e Amy. Quando estava prestes a completar 6 anos, um homem bem vestido e de terno bateu à porta de sua tia, querendo saber se tinha alguma pequenina garota de 6 anos naquela casa, sem entender nada, a mulher apontou-lhe Hay Lin, que brincava inocentemente com algumas bonecas.

O homem aproximou-se dela, ajoelhou-se ao seu lado e tentou conversar-lhe.

Homem: -Você é a Hay Lin?! –desviando os olhinhos rasgados dos brinquedos, ela olhou curiosa para aquele grandão de cabelos longos.

Hay Lin: -É. –sem saber pronunciar muitas palavras, ela indagou com dificuldade. –'Tem' é você?

Homem: -Muito prazer. Meu nome é Boonie...

Até hoje, nunca esquecera o rosto de traços firmes e másculos do homem que a ajudou a se retirar do inferno que era sua vida naquela época. Sacudindo a cabeça para afastar o passado, ela voltou a olhar para a irmãzinha que, de cabeça baixa, soluçava levemente.

Hay Lin: -Não! Meu amor... –Amizade ajoelhou-se em frente à ela, que levantando os olhos, pôde fitar o rosto amigável da irmã. –Entendeu errado.

Amy: -Entendi? –fungou ela.

Hay Lin: -Claro, sua boba! –abraçou a irmã com muito afeto. –Eu nunca vou te abandonar. Nunca. –enfatizou ela. –Entendeu agora?!

Amy: -Entendi... –sorriu ela.

Hay Lin levantou-se rapidamente, esticando a mão aberta para Amy.

Hay Lin: -Então!? Vamos continuar nosso passeio ou não!? –a irmã soltou uma gargalhada curta e inocente, e saiu do banco com um pulo.

Amy: -Vamoooooos! –gritou ela, como se fosse o grito de guerra de uma imponente tribo indígena.

Sentindo a mãozinha quente e fofa da irmã entre seus dedos, Hay Lin sorriu largamente. Estava sendo feliz. Mesmo sem Shaka ao seu lado, ela conseguia abrir um sorriso daquele. Foi quando a imagem de Íris passou-lhe na cabeça. E suas amigas? Será que elas também estavam conseguindo ser felizes?!

.::.. Em algum hotel luxuoso – Milão, França ..::.

-Já vai!

Assim que jogou a última camiseta social escura dentro da valise, aquele homem de fios dourados andou até a porta. Não se pode mais nem arrumar as malas sossegadamente!, confessou ele aos seus botões.

Quando deixou que o ar do corredor daquele lugar invadisse seu aposento, ele arregalou os olhos verdes. Passou uma das mãos no rosto de traços andróginos. Não conseguia acreditar no que via.

Jackson: -Ga..Gabi!? –a loira sorriu provocadora.

Gabriela: -Oui oui mon amore, c'est moi!

Do chão acarpetado do corredor, Felicidade pulou para os braços do amigo que não via há 12 anos. Que saudade daqueles olhos verdes de Jackson!

Jackson: -Por Deus, eu não consigo acreditar! –gritou ele, emocionado. –Onde você...

Gabriela: -Calma! –pouso seu indicador nos lábios dele, que sorriu. –Eu estou bem. Quero saber de você.

Jackson: -Já fazem mais de 10 anos que não a vejo. Está... está LINDA!! –abraçou-a novamente, que gargalhou de alegria.

Jackson: -Grécia!?

Gabriela: -Uhum! –esboçou um sorriso infantil. –Estive treinando.

Jackson: -Treinando!? O quê? –ele riu ao pensar na possibilidade. –Balé?! Há! Há! Há! Há!

Gabriela: -Não, seu bobo! –tapeou levemente o braço do amigo. –Eu tive uma vida in-crí-vel nesses últimos anos!!!

Jackson: -Porque?! Treinou balé nas montanhas com os ursos!?

Desta vez, Felicidade não se conteve. Gargalhou juntamente com Jackson. Realmente, ele não mudou. E ela sorriu agradecida por isso. Suspirou fundo, e começou a contar como fora sua vida longe da França.

A cada novo capítulo de sua história, o loiro arregalava os olhos, e comentava alegre. Não conseguia acreditar que Gabriela, a menininha dos cachinhos dourados, havia passado por tantas coisas! Tantos treinos, alegrias, tristezas, dificuldades...

Jackson: -Lobos?!

Gabriela: -Sim! Um montão deles!! –ela abriu a boca, fazendo uma careta assustadora. –Com dentes enormes e pontiagudos, prontos para me fazerem de almoço!

Jackson: -E como você se safou dessa!?

Gabriela: -Foi fácil! –disse ela, gabando-se, o que fez com que o amigo esboçasse um semblante desconfiado. –Usei meu melhor poder, Tempestade da Alegria, e uma chuva de trovões acabou com eles!

Jackson: -Há! Então não foi você que os matou!

Gabriela: -Não?! –bufou ela.

Jackson: -Nããão! –ele mostrou a língua. –Foi os raios que caíram do céu. Como você é fraca! Nem conseguiu acabar com uma matilha de lobos da neve!

Gabriela: -Humpf! –enfezada, ela retribuiu o gesto mal-criado. –E você, que não consegue perder esse seu humor que me fere!?

...um silêncio um tanto quanto constrangedor abateu-se sobre os jovens. Jackson, muito embaraçado, passou a mão calejada nos fios curtos, tentando arranjar algumas palavras para dizer a amiga o quanto ela estava errada.

Jackson: -Gabi, eu não.. –ele olhou para ela, que, com os olhos claríssimos fixos nele, apenas riu.

Gabriela: -Enganei o bobo na casca do ovoo! –cantarolou ela.

Jackson: -Ah! Isso não vale!! –ele pulou em cima dela, jogando-a no chão e metralhando-a com cócegas na cintura.

Gabriela: -Aaaah! Isso daí não vale! –ela se contorcia de tanto gargalhar. –Me larga! Me largaa!!

O dia rolou agradável, findando-se com o amontoado de risos, que ecoavam no quarto 616 de um dos hotéis mais luxuosos da cidade. Gabriela sentiu seus olhos brilharem. Sentia muita falta das amigas. E, de repente, perguntou-se se um ano demoraria muito para passar...

.::.. De volta ao Santuário ..::.

Logo, enlouqueceria. Aquele silêncio imenso no Santuário deixava a reencarnação de Athena com uma sensação de que era única no mundo. Seus cavaleiros pareciam mortos. Não tinham vontade de fazer nada. Há meses estavam assim. 6 meses, para ser exata. Onde estava com a cabeça quando deixou que Alisson fizesse aquele teste maluco com suas meninas?!

Olhou para o céu negro, sem estrelas, sem lua. Os olhos escuros emitiam uma luz melancólica.

Saori: -A culpa é minha. Minha! –gritou ela, e logo Tatsumi apareceu para ampará-la, antes que ela caísse de joelhos no mármore branco do Salão.

Tatsumi: -Senhorita... –de repente, o brilho escapou dos olhos de sua mestra.

Devia tanto à ela, que quando sentia que nada podia fazer por Saori, seu peito oprimia-se. Desde que as jovens amazonas deixaram aquele lugar, nada era como antes. Acabou. Parecia que tudo havia morrido. Não havia mais o sorriso inocente das garotas ecoando em algum espaço. Não.

Saori: -Eu não devia... –Tatsumi ergueu-a pelo braço fraco, e conseguiu fazer com que ela se sentasse no trono imponente.

Tatsumi: -Por favor, senhorita. Não se esforce.

Saori: -Se eu não tivesse permitido a entrada de Alisson nesse Santuário, nada disso teria acontecido! –ela bateu o punho fechado no braço da poltrona. Lágrimas de desespero desciam lentamente.

E ela sentia que poderia fazer qualquer coisa para que aquele quadro se revertesse. Daria tudo, tudo... para que elas voltassem. E trouxessem novamente a vida ao Santuário... e aos seus cavaleiros.

.::.. Casa de Gêmeos ..::.

Kanon somente acordou de seus devaneios quando o lápis escorregou de seus dedos e bateu na mesa. Um pontinho ficou marcado em algum lugar branco da folha. Há muito tempo não desenhava. Ele parecia um zumbi. Não fazia nada. Sentia como se sua alma tivesse sido roubada. Uma saudade que o corroía de dentro pra fora.

Quando os olhos pousaram na folha, uma lágrima pingou. Ele não percebia, mas havia feito. Enquanto deixava a mão mexer-se sozinha, somente agora ele havia notado que era ela ali. O corpo esguio, os cabelos longos e lisos, a armadura clara, o nariz fino e pontudo. A boca bem delineada. Vanessa jazia ali, parecia viva, em seu desenho. Em sua mente.

Cansado daquilo tudo, deixou que sua cabeça desabasse sobre as folhas, fazendo com que elas voassem ao sabor do vento frio da noite. Volta, meu amor... Volta!

C.O.N.T.I.N.U.A....

N.A.: Agora que um destino trágico pousou nas mãos de nossas amazonas, o que será de nossos cavaleiros? Poderão elas agüentarem uma vida sem seus amores? Comentem, please! =***

P.S.: Música balbuciada por Kurayko: Sonata Arctica – The End Of This Chapter