De seis horas da manhã a meio-dia
06:00. Ala Hospitalar da CTU
Jack Bauer acordou do efeito anestésico. Reconheceu a enfermaria da CTU, e tateou com sua mão cheia de fios, o seu próprio corpo. Estava enfaixado na barriga. Lembrou-se da estocada que recebera do criminoso que o seqüestrara e torturara. Ele tinha sorte por estar vivo. Precisava descansar, mas Tony Almeida tinha que se inteirar dos detalhes do que lhe acontecera. Não poderia retardar isso. Algo lhe dizia que vinha uma grande atribulação pela frente. Nada tão grande quanto o que acontecera em 11/09/01, mas ainda assim o seu 6º sentido não falhava.
Lembrou-se mentalmente de tudo que havia passado nas mãos dos criminosos. Eles eram em número de 05. Teve a impressão de que havia mais. Jack havia matado 04 deles. Um não voltara para pegá-lo, aquele que apelidara de queixada. Como era mesmo o nome dele? Flavio ou Flavius, mas decididamente latino. Sabia que o inimigo, assim como no serviço secreto americano, freqüentemente usava codinomes, então, possivelmente este era um codinome também.
Jack primeiro procurou o botão de alarme para chamar a enfermeira. Apertou-o e ficou esperando que ela o atendesse. Uma jovem pálida de roupa branca, longos cabelos negros e grandes olhos azuis, aproximou-se. Jack assustou-se com a semelhança com uma agente dupla do passado, Nina Meyers. Não gostou daquela moça.
_ O que houve Senhor?
_ Preciso falar com Tony Almeida. É urgente.
_ Nada é tão urgente quanto a sua recuperação senhor, peço que se acalme. _ A enfermeira imperceptivelmente aumentou o gotejamento da medicação no aparelho de ajuste de dosagem. _ Chamarei o Senhor Almeida, não se preocupe.
Jack ficou olhando aquela jovem estranha, e uma sensação de ameaça o fez querer sair imediatamente daquele lugar. Esperou que ela saísse. Sentou-se com dificuldade. Sentiu a cabeça rodar. O ambiente ficou brilhante e gelatinoso. Não sabia mais dizer onde era encima ou embaixo. Estava drogado. Virou-se para os fios de medicação que estavam conectados ao seu corpo. Esse movimento o desequilibrou e ele caiu da cama, sem sentidos. Um dos fios se desplugou, fazendo o monitor acionar um alarme intermitente.
Logo uma equipe de enfermagem correu ao seu quarto e o depositou na cama. Concluíram que ele havia querido levantar-se, mas estava fraco demais para resistir. Checaram todos os fios sensores e a medicação. Um dos enfermeiros corrigiu o gotejamento do dosificador.
07:00. Centro de Los Angeles
Um homem de estatura média, com um grande queixo avantajado, ossatura larga e o semblante preocupado, entrou em um restaurante temático: "Morena tropicana", onde serviam comida típica brasileira. Ele não se importou com o aviso pendurado na porta envidraçada, escrito: "fechado". Atravessou o grande salão vazio, pois eles não serviam café da manhã; aproximou-se do bar e serviu-se de uma dose de cachaça.
_ Não acha que é cedo para encher a cara, Flávio? _ Falou-lhe um homem magro e calvo, que saíra de uma das salas do restaurante.
_ Tanto faz. Agora só eu restei. Estão todos mortos.
_ Você sabe que nossos associados são muito rígidos quanto à insubordinação. Se eles suspeitarem que você está bebendo em serviço...
_ Vão fazer o que, me matar?
_ Com certeza.
_ Então eles terão que fazer seu pequeno servicinho sujo sem a ajuda dos nossos chefes, lá em casa. Você vai ver como eles vão murchar rapidinho, se o comando der pra trás.
_ Você pensa que é insubstituível?
Flávio colocou o copo de cachaça no balcão. Olhou para seu comparsa como se só agora, percebesse que havia alguém ali.
_ Tudo bem. Já parei. Não bebo mais hoje.
_ Considere-se avisado. _ O calvo magrinho virou-se e entrou em uma das salas.
Flávio ainda pegou o copo de bebida, mas parou-o no meio do caminho. Então derramou a bebida na pia, próxima ao balcão. Passou a mão no queixo, massageando-o. Refletiu que estava em terra estrangeira, com costumes estranhos, no qual era proibido se embebedar em serviço. Sendo este motivo bastante para ser morto.
08:00. Sala do Diretor da CTU
Tony Almeida foi informado do incidente na enfermaria, mas garantiram-lhe de que Jack estava bem agora, apenas ainda sob efeito dos anestésicos da cirurgia. Ele pediu que o chefe da equipe da SWAT que resgatou Jack, lhe fizesse um relatório minucioso. A equipe de médicos forenses também lhe prestou contas do que apuraram. Os seqüestradores foram identificados como latino-americanos, ilegalmente no país, com ficha suja em pelo menos três países sul-americanos. Eles apareciam associados à FARCS, Medelín, e ao Comando Vermelho.
O diretor da CTU tentava imaginar por que criminosos sul americanos estavam se envolvendo em terrorismo na América do Norte, tão distante do seu campo de operação? Principalmente quando eles pareciam muito mais interessados em ganhos monetários e não em ideologias.
_ Tony, Michelle Dessler está aqui para vê-lo. _ Chloe o tirou do seu devaneio, pelo interfone.
_ Pois não, Chloe. Diga a ela para subir.
Fazia tempo que Tony não falava com sua ex-esposa. O amor que parecia mais forte que a própria vida, sucumbiu ao cotidiano e às inseguranças e diferenças pessoais. Interessante como podemos amar alguém, e não conseguimos conviver com essa pessoa. Michelle entrou. Estava num terno de tecido cinzento, sobre uma malha negra colada ao corpo. Seu cabelo encaracolado estava graciosamente preso num coque. Ela ainda tinha o rosto delicado pelo qual Tony se apaixonara.
_ Como vai, Tony? Disseram-me que você está fazendo um bom trabalho de volta a CTU.
_ Obrigado, Michelle. Como vai Bill Buchanan?
_ Parece que ele vai bem. Contaram-me de Jack. Sinto muito que o tenham maltratado muito. Como ele está?
_ Você conhece o Jack. Se o derrubam da primeira vez, ele retorna para acertar as contas. Ele está bem.
_ Qual o motivo desse seqüestro?
_ Ainda não sabemos, e o pouco que averiguamos não faz muito sentido.
_ Eu sei que você vai me mandar um relatório detalhado, mas gostaria que trocasse impressões comigo.
_ Sem problemas, Michelle.
09:00. Montanhas do Afeganistão.
Um homem alto e esquelético, com um turbante cinzento, estava sentado sobre um tapete, num grande e confortável espaço natural, dentro de uma caverna. Um intricado e engenhoso sistema de refrigeração artesanal, garantia uma temperatura amena naquele recinto, contrastando com a alta temperatura externa. Este homem tinha uma barba maometana, e grandes e encovados olhos castanhos. Ele cofiava sua barba e refletia sobre as informações recebidas recentemente.
O super agente americano, Jack Bauer, havia escapado do seqüestro encomendado e planejado com meses de antecedência. Desde o início fora contrário a esta ação, pois ele não gostava de se ater a nomes, preferindo atingir os americanos em seus símbolos de soberania, que eram aparentemente eternos e indestrutíveis. Matar um agente parecia estupidez, pois sempre poderiam encontrar outro que substituiria o anterior com grande vantagem física, intelectual e tecnológica. Ele ponderou que o que estava desde o início fadado ao fracasso, se tornaria um fracasso.
Outro homem vestido em túnica e calça branca, com um turbante branco enrolado na cabeça, entrou no recinto e parou no meio do salão, fez uma mesura com as mãos, e baixou os olhos, como se estivesse diante de uma divindade.
_ Honrado senhor, vim trazer-lhe mais informações sobre nosso objetivo ocidental.
_ Aproxime-se Mustafá. Conte-me o que mais aconteceu.
_ O agente especial foi operado e sobreviveu, entretanto, temos meios humanos de ainda executar nossa missão de eliminá-lo.
_ E isso significa o que? Você quer minha permissão para assassiná-lo?
_ Sim meu senhor.
_ Eu posso autorizar este novo plano, embora eu não o ache eficaz. _ O homem de olhos encovados levantou-se e passou a andar vagarosamente, enquanto fazia alongamento das pernas e dos braços. Havia permanecido muito tempo na posição anterior, que por vezes suas pernas formigavam.
_ Mas se temos um meio de fazê-lo, por que não tentar? Todos se regozijariam com a morte desse homem. _ Mustafá inquiriu.
_ O ser supremo tem meios de fazer as coisas acontecerem no momento certo. A vida deste agente americano não está em nossas mãos. Nós o tivemos indefeso e vulnerável, foi dada a ordem para matá-lo, e o que aconteceu? Ele libertou-se de modo fantástico e assombroso. Por que você acha que seria fácil atingi-lo dentro de seu próprio quartel-general? Nós apenas iríamos revelar nossos agentes infiltrados. Ele sairia vivo mais uma vez, e nós perderíamos nossos informantes.
_ Desculpe-me apartá-lo senhor, mas foi recomendado que ele fosse torturado antes de ser executado.
_ Correto, para que ele sentisse a dor que nossos irmãos sentiram nas prisões americanas. Isso era imprescindível.
_ Nós então podemos simplesmente executá-lo agora. Sem perda de tempo. Todos pensariam que foi uma complicação da cirurgia.
O chefe árabe mirou por alguns instantes Mustafá, então segurou as mãos nas costas e pôs-se a caminhar. Mustafá ficou esperando pela resposta. Nada era feito sem a expressa aprovação de seu chefe.
_ Faça. Até o meio-dia, eu quero Jack Bauer morto. _ O chefe árabe sentenciou.
10:00. Centro de Processamento da CTU
Chloe estava diante do monitor, comparando dados, quando um nome chamou sua atenção. Ela clicou naquele nome e a seguir abriu outras janelas com outros arquivos. Precisava ter certeza daquilo, mas a conclusão que chegou era importante demais para retê-la por mais tempo. Interfonou para Tony Almeida.
_ Tony, vou mandar-lhe um arquivo com um dado importante.
_ Não poderia esperar, Chloe? Eu estou ocupado com Michelle agora.
_ Err... Está certo chefe, desculpe-me.
Chloe resolveu coletar mais informações para embasar suas conclusões. Não percebeu um funcionário aproximar-se mais do que deveria de sua estação, olhar sorrateiramente para seu monitor, a seguir afastar-se vagarosamente. Este homem segurava uma caixa de CDs, e afastou-se em direção a uma das inúmeras salas vazias da CTU, que só eram usadas em situações de emergência, geralmente quando o país sofria alguma séria ameaça. Ele pegou um celular do bolso e fez uma ligação. Disse uma única palavra. A seguir desligou o celular e dirigiu-se para a sala de processamento da CTU.
Enquanto isso, Tony e Michelle acabaram sua reunião e ela dirigiu-se à enfermaria para ver Jack. Tony interfonou para Chloe, pedindo-lhe para repassar os dados que considerara importantes. Chloe os repassou. O primeiro era uma lista de locatários do armazém dos seqüestradores. O segundo arquivo era a lista de vistos expedida para estrangeiros, no último mês. O último arquivo era uma lista de clientes estrangeiros de um banco na América do Sul, Bradesco. Os nomes dos seqüestradores apareciam na lista do banco e do visto. Havia três nomes que se repetiam nas listas, eram nomes árabes.
_ Por que não me informou isso imediatamente, Chloe?
_ Ah... Porque você me pediu para não fazê-lo?
_ Chame Michelle Dessler agora mesmo.
_ Sim, chefe!
11:00. Ala Hospitalar da CTU
Jack Bauer estava dormindo pacificamente. Ainda estava muito machucado, e todo o seu corpo estava inchado e dolorido, mas ainda estava vivo. Michelle Dessler aproximou-se de sua cama. Ficou condoída do seu aspecto físico. Ele fora torturado, e era óbvio, que seria morto. Jack tinha muitos inimigos, poderia pegar qualquer nome aleatório de seu arquivo de casos desbaratados pela CTU. Qualquer um deles poderia ter encomendado a morte de seu colega. Michelle olhou as anotações médicas no prontuário. Observou os equipamentos médicos conectados em Jack. Tudo parecia bem. Resolveu deixá-lo descansar. Ia saindo da sala, quando uma enfermeira entrou.
_ Bom dia! Eu sou Michelle Dessler. Poderia me informar sobre o estado de Jack Bauer?
_ Lamento senhora Dessler, somente o Dr. Takagi pode informá-la sobre isso. Além do que, eu sou uma simples enfermeira.
_ Poderia pelo menos verificar se os aparelhos estão em ordem?
_ Agora mesmo senhora.
A enfermeira pálida, de longos cabelos negros, e grandes olhos azuis, aproximou-se de cada monitor e apertou alguns botões. Alterou o dosificador da medicação e regulou o escoamento de diversas sondas conectadas em Jack.
O celular de Michelle tocou. Ela o atendeu enquanto não tirava os olhos da enfermeira. Não gostara dela, mas achava que simpatia não era um pré-requisito para aquele emprego.
_ Ok, Chloe. Irei aí agora mesmo. _ Michelle desligou o telefone e aproximou-se da enfermeira. Procurou ver o nome em seu crachá. "M. Smith". _ Eu vou indo enfermeira. Depois falarei com Dr. Takagi. Obrigada.
A enfermeira pálida observou Michelle sair. Então retirou uma seringa do bolso e injetou o conteúdo no frasco de soro de Jack. Já ia afastar-se quando sentiu um apertão no pulso. Virou-se e encontrou os olhos de Jack. Ela tentou tirar a mão dele de si, mas ele a usou como apoio para levantar-se. Resolveu nocauteá-lo com um golpe no rosto, mas Jack aparou seu golpe, e desferiu-lhe uma cabeçada, fazendo-a perder o equilíbrio.
Jack não a largava, e pegou os diversos fios que estavam conectados em seu braço, e enlaçou o pescoço dela, fazendo com que eles se soltassem do corpo dele. O tubo da medicação que também estava conectado em seu antebraço desconectou-se, dando início a um sangramento pelo antebraço de Jack. Os diversos monitores soaram o alarme ao mesmo tempo. A enfermeira esperneava e cravava as unhas nas mãos de Jack, mas ele não a soltava. Logo ela desmaiou.
Uma equipe de enfermeiros e médicos entrou naquele instante. Eles tentaram aproximar-se de Jack, mas este agarrou a seringa que a enfermeira portava, e a empunhou como uma faca, apontando para a equipe médica.
_ Não se aproximem, ou eu vou usar isso em vocês. _ Jack ameaçou com a voz rouca.
_ Ele está delirando. Olhe o que ele fez com a Mina. Temos que sedá-lo. _ Um dos médicos falou.
_ Eu não quero ser sedado. Nem tente doutor.
_ Senhor Bauer, você está sofrendo uma alucinação. Nada disso é real. _ O médico tentou dialogar.
_ Chame Tony Almeida. Ele me dirá se nada disso é real. _ Jack falou cansado e sem fôlego. Sua cabeça começou a rodar e tudo mergulhou no breu.
12:00 Fim do capítulo
