De meio-dia a seis horas da tarde

12:00 Unidade de Contra Terrorismo, Los Angeles

_ Tony Almeida, situação de agressão física na ala hospitalar da CTU. _ Falou a voz impessoal pelo interfone.

_ Isso tem alguma coisa a ver com Jack Bauer? _ Perguntou Tony aflito.

_ Sim, aparentemente ele está descontrolado e agredindo todo mundo. _ Respondeu a agente.

_ Já estou indo pra lá. Acione medidas de segurança. Ninguém entra ou sai da CTU.

_ Sim Senhor.

Tony Almeida, o diretor da CTU, foi informado do acontecido na enfermaria. Ele rapidamente procurou saber todos os detalhes do que se sucedera. Chamou o Dr. Takagi e exigiu que ele fizesse o possível e o impossível por Jack. Fez questão de ver a enfermeira agredida pelo amigo. Tentou conter seu espanto e a forte emoção de que foi tomado, pois a mulher era praticamente uma cópia carbono de Nina Meyers, ex-agente da CTU, que se revelou uma agente dupla, tendo inclusive assassinado a esposa de Jack. Ele entendeu por que o super agente agrediu aquela mulher, mas não entendia como alguém pode ser tão parecido com outra pessoa, sem precisar de cirurgia estética. Principalmente uma criminosa traidora, que tinha acesso a informações sigilosas, podendo facilmente prejudicar o próprio país em troca de dinheiro.

_ Como se chama enfermeira? _ Tony inquiriu.

_ Mina Smith, Senhor.

_ Você se sente melhor? _ Tony continuou sem desviar os olhos da mínima alteração nas reações da jovem.

_ Sim, mas se me permitir, Senhor, gostaria de voltar para casa, pois não tenho mais condições físicas de continuar com minhas obrigações.

_ Sinto muito, mas em nome da segurança do país, você está presa para averiguações. _ Tony falou seriamente.

_ Com que direito pretende me manter aqui contra minha vontade?

_ Prerrogativas especiais envolvendo ameaça de terrorismo. _ Tony respondeu enquanto falava ao celular.

Logo mais, três soldados fardados entraram na sala onde a jovem se encontrava. Eles ficaram em posição marcial.

_ Esta moça não deve sair daqui, sob hipótese nenhuma. Ela está sob nossa custódia, agora. _ Tony falava alternando o olhar ora para os soldados, ora para a enfermeira. Então saiu.

13:00 Montanhas do Afeganistão

O homem emagrecido de olhos castanhos encovados, com uma barba maometana, e um turbante enrolado na cabeça, estava sentado em um sofá confortável. Seu secretário particular entrou no recinto construído no interior da montanha.

_ Está tudo pronto Senhor. Está tudo saindo como planejado. Precisamos apenas de sua ordem. _ O secretário falou humildemente, de cabeça baixa, sem olhar diretamente nos olhos de seu mestre.

_ E o agente americano Jack Bauer? Ele está morto?

_ Não recebemos mais comunicados de nossos agentes confirmando a operação, mas nada poderia ter dado errado. _ Respondeu o secretário subserviente.

_ Sei, e você tem certeza que ele não irá interferir em nossos planos?

_ Tenho toda a certeza que poderia precisar Senhor. _ O Secretário quase podia sorrir de deleite.

_ Então, a ordem está dada. Dê início ao "dia da vingança".

_ Sim Senhor. _ Respondeu o Secretário agilmente, com uma ansiedade e excitação anormais para um homem religioso como ele.

Ele pegou diversos telefones celulares e fez diversas ligações, nas quais apenas dizia uma palavra em árabe: vingança.

Seus interlocutores nos Estados Unidos da América agiam maquinalmente, como se estivessem sob forte poder sugestivo. Eles iam até um compartimento em suas casas e pegavam um estranho colete com parafernálias eletrônicas. Vestiam-no sob as roupas e a seguir saiam de suas casas em direção ao centro da cidade. Aos poucos as notícias foram surgindo: "Explosão em centro comercial", "homem-bomba", "atentado terrorista", etc. O Secretário do árabe das montanhas afegãs ligou um pequeno e modesto aparelho de TV conectado com o resto do mundo. Sintonizou-o na CNN e ficou observando a enxurrada de notícias de novos ataques terroristas na America. Ele sentia-se intimamente feliz e orgulhoso de si mesmo.

14:00 Unidade de Contra Terrorismo, Los Angeles

_ Tony ligação urgente para você. É o Secretário de Defesa. _ Avisou-o Chloe.

_ Pois não Chloe, já vou atender.

Chloe desligou o interfone e percebeu a correria na sala principal da CTU. Todos corriam em direção a um grande monitor. Ele exibia notícias pela CNN. Uma gravação de vídeo por celular passava continuamente, mostrando uma matrona americana indo pelos ares, em frente ao portão da Casa Branca. Havia pânico nas ruas e diversos vídeos amadores apareciam a todo instante. Todos na CTU estavam boquiabertos. Chloe virou-se para trás, a tempo de ver Tony Almeida com o telefone na mão e o queixo caído, observando as imagens no monitor do andar inferior.

Enquanto isso, Jack Bauer abriu os olhos e ficou piscando por alguns segundos. Havia soldados da CTU no seu quarto. Ele ainda estava tomando infusões pela veia, e seu abdômen ainda doía. Rapidamente sua memória deu uma volta de 360º. Jack sentou na cama na mesma hora. Sentiu dor, mas era algo que poderia suportar. Ele tinha que avisar Tony Almeida da presença de uma sósia de Nina Meyers, e também do seqüestrador que ele não conseguiu matar. Tinha que procurar nos arquivos do FBI e da Interpol, por aquele sujeito. Enfim ele não podia ficar naquela cama. Ao tentar ficar em pé, sua cabeça rodou, mas ele se segurou. Um dos soldados no seu quarto falou pelo comunicador, o outro tentou convencê-lo a voltar para cama. Logo mais uma equipe médica entrou no seu quarto.

_ Eu preciso falar com Tony Almeida. Eu não quero ser dopado novamente. Por favor, Doutor. _ Jack falou o mais sério e seguro que pôde, mas sua voz saiu fraca e falhando.

_ Tudo bem, mas o Senhor vai em cadeira de rodas, está bem?

_ Ok!

Logo mais Jack Bauer seguiu até o salão principal da CTU, escoltado por três soldados e dois médicos. Todos ficaram parados e calados ao verem o grande Jack Bauer em cadeira de rodas, tão pálido e fraco. Chloe correu até ele e exasperou-se com seus colegas.

_ O que é? Nunca viram um agente ferido? Vão cuidar de suas tarefas, vão! _ Chloe gritou irritada.

_ Tudo bem Chloe, eu não estou mesmo no meu melhor dia. Eu preciso falar com Tony. Onde ele está? _ Jack falou num fio de voz.

_ Estou aqui mesmo, velho amigo. E nós temos um problemão nas mãos. _ Respondeu Tony Almeida descendo as escadas de sua estação.

15:00 Favela do Morro..., Rio de Janeiro

Um menino vestido com um calção encardido brinca com uma pipa no alto do morro. A pipa tem o emblema do Flamengo, seu time de futebol. Ao lado do carretel de linha e do pote de cola cerol, há um binóculo grande e negro. De quando em vez o menino utiliza o binóculo para observar o movimento na favela do morro. Ele puxa um velho aparelho celular todo coberto com decalques, tintas e fitas adesivas. Aperta uma tecla e encosta o parelho no ouvido.

_ Tudo limpo, céu azul, nenhuma trança, beleza? _ Falou o menino prolongando as últimas sílabas.

Seu interlocutor nada falou, apenas desligou o aparelho. O menino havia dado o sinal para que seus companheiros de golpes agissem livremente. Eles começaram a sair de suas casas calmamente, vestidos com camiseta, jeans e tênis. Havia algumas mulheres entre eles. Estas se esmeraram mais que os homens, com vestidos sensuais e forte maquiagem. Entraram em três vans, que apareceram miraculosamente por ali, para levá-los. Elas seguiram para um endereço nobre na cidade. Estacionaram as vans e seguiram a pé, dois a dois. Todos se dirigiram para o mesmo local. As mulheres logo entraram em ação, distraindo os guardas de segurança e tagarelando sem parar, enquanto se insinuavam para os homens. Os homens do morro agrediram então os seguranças e os imobilizaram. Desarmaram os guardas e utilizaram as armas desses para impor o medo.

Havia vinte funcionários na sala onde eles atacaram, no resto do prédio havia por volta de cem pessoas. Ninguém poderia sair ou entrar, pois eles montaram vigia na portaria e locais de acesso. Uma das funcionárias rendidas, que estava sentada no chão, segurando as pernas, como lhe fora ordenado fazer, atreveu-se a perguntar.

_ Senhores, o que pretendem fazer? Não temos dinheiro aqui. O que querem de nós? Por que invadiram a embaixada americana do Rio de Janeiro?

_ Cala a boca dondoca, tua voz me irrita. No momento certo vocês vão ficar sabendo. Agora eu quero saber cadê o embaixador? _ Falou o criminoso.

Fez um silêncio constrangedor. Todos se entreolharam.

_ O que é? Perderam a vontade de fofocar? Eu perguntei cadê o embaixador? _ O bandido inquiriu com veemência.

A mulher que se atrevera a falar levantou a mão trêmula. O marginal mirou a arma do segurança para ela.

_ O que foi dondoca? Tem algo pra me dizer? _ O facínora perguntou divertido com o descontrole e medo da mulher.

_ O senhor disse que minha voz o irrita... O embaixador está em Nova Iorque... Ele não está na embaixada... _ A mulher falou trêmula.

_ Fica fria ô mulher, beleza? Se eu decidir te matar eu te aviso. Mas agora nós tamo com um probleminha nas mãos. Nós tava atrás do home, mas já que ele não tá, quem nós vamos pegar agora? _ O meliante perguntou com um sorriso irônico.

16:00 Unidade de Contra Terrorismo, Los Angeles

Jack Bauer ainda estava em cadeira de rodas. Sua barriga doía, mas ele não podia se queixar, não quando seu país era alvo de uma onda de ataques suicidas de improváveis homens-bombas. A Agência de Segurança Nacional optou por evacuar os prédios federais e esvaziar as ruas, principalmente em Washington. Havia agora militares nas vias públicas, e até os jornalistas eram convidados a saírem de campo. O presidente fora levado pelo Serviço Secreto para um lugar Seguro. O vice-presidente foi levado para o Força Aérea Um, o avião presidencial. Todos eram parados e revistados, pois todos eram suspeitos. Não só estrangeiros, mulçumanos, ou tipos estranhos. Os improváveis homens-bombas eram pacatos cidadãos americanos, sedentários e aposentados. Pela extensão e método usado naquele atentado terrorista, Jack Bauer deduziu que aquele plano havia sido arquitetado há muito tempo, com muito apoio interno. Suspeitava que os cidadãos terroristas houvessem sofrido lavagem cerebral.

_ Não podemos fazer nada quanto a isso, Tony. Devemos deixar o exército e a SNA assumirem a coordenação desse caso. _ Jack falou cansado. Sentia-se muito fraco e com dores, mas não queria ser dopado, ou voltar a tomar soro.

_ É uma decisão sensata, pois não pudemos evitar que isso fosse deflagrado. Então Jack, acha que seu seqüestro teve alguma relação com esses atentados? _ Perguntou Tony Almeida.

_ Hum-hum! Tenho uma intuição afiada de que Nina Meyers também está envolvida nisso. _ Jack falou com a voz mais forte, embora estivesse admitindo para si mesmo, como se pensasse em voz alta.

_ Amigo... Você matou Nina Meyers. Ela está morta faz anos. Quem você viu foi uma mulher que fez alterações cirúrgicas faciais para parecer-se com ela. _ Tony falou o mais calmo que pôde. Ele sabia que esse era um assunto delicado para Jack.

_ E por que ela fez isso, digo a cirurgia plástica? Para me enlouquecer? _ Jack perguntou algo irritado.

_ Não sei. _ Respondeu Tony com uma expressão compreensiva.

_ Tony, verifique seu monitor. Há algo que precisa ler. _ Falou Chloe pelo interfone.

Tony Almeida sentou-se em sua escrivaninha e olhou o monitor do computador. Havia um aviso de problemas na embaixada americana no Brasil. Aparentemente ladrões haviam invadido o local e tinham reféns. Estas informações estavam sendo veiculadas por cidadãos americanos que estavam na embaixada no momento da invasão. Isso tudo era muita coincidência.

_ Merda! _ Exclamou Tony Almeida.

_ O que houve Tony? _ Perguntou Jack.

_ Dê uma olhada Jack. Parece que os atentados aos Estados Unidos estão se globalizando. Não acredito em uma ação independente. Isso tudo está conectado de alguma forma. _ Tony Almeida virou o monitor para Jack para que o mesmo lesse, enquanto falava.

_ Tony, acho que preciso conhecer o Brasil. _ Falou Jack tentando manter o timbre da voz o mais forte possível.

_ Você não está em condições físicas amigo. Deixe que eles mandem outro agente. _ Contemporizou Tony.

_ A SNA e o Exército estão muito ocupados tentando manter o país em ordem. O FBI se atém muito ao manual, nunca farão nada que fira a legislação. A CIA está ocupada demais tentando livrar-se da culpa dessa situação que fugiu ao seu controle. A diplomacia americana esperará sentada que as autoridades estrangeiras tomem alguma atitude. Ninguém fará nada. Eu preciso ir lá. _ Jack falava o mais calmo e confiante que pôde, rezando intimamente para poder ficar de pé e não depender da cadeira de rodas.

Como se para provar que estava apto ao serviço, Jack apoiou-se na escrivaninha e ficou em pé. Não sentiu tontura e nem suas pernas tremeram. Ele olhou calmo para Tony e deu um meio sorriso. Havia ganhado o direito de participar da ação.

17:00 Avião sobre o continente americano

Jack Bauer conseguiu embarcar com nome falso em um avião da TAM, companhia aérea brasileira. Ele tinha um curativo comprimindo fortemente seu ferimento. Obrigou-se a fazer uma pequena refeição antes de partir para o Brasil. Agora temia que seu estômago embrulhado devolvesse o conteúdo ingerido. Não queria tomar remédios, nem mesmo estimulantes, pelo menos até entrar em ação. Contava com o apoio dos bons amigos da CTU. Em breve estaria chegando ao Rio de Janeiro, onde se infiltraria na Embaixada americana e enfrentaria os invasores. Somente então poderia ter certeza de tratar-se de uma ação terrorista.

Trouxera consigo um PDA com arquivos compilados por Chloe. Eram fichas com fotos de criminosos sul-americanos. Jack olhou-as uma por uma, até que encontrou a que procurava, seu "amigo" Flávio, o queixada. Ele tinha diversos processos com acusações que variavam de jogatina, estelionato e agressão física. Os outros companheiros de Queixada estavam envolvidos em processos por formação de quadrilha, e gangsterismo com uma entidade criminosa conhecida como "Comando Vermelho".

Havia também a famosa conexão entre os gângsteres brasileiros e mulçumanos árabes, revelada pelo aluguel do armazém. Tony tinha razão. Estava tudo interligado. A sósia da agente dupla "Nina Meyers" não havia falado nada, pois ainda não havia recebido o tratamento especial dado a prisioneiros inimigos. Mas isso era questão de tempo. Se as Forças Armadas não conseguissem conter a enxurrada de "homens-bombas", que assolavam a América, a pseudo Nina Meyers seria convidada a se explicar para a Inteligência do Exército, e seria bem melhor para ela que tivesse alguma coisa a dizer.

_ Suco de laranja cavalheiro? Ou prefere bebida alcoólica? _ A aeromoça o tirou de seus devaneios.

_ Pensei que haviam proibido bebidas alcoólicas em vôos comerciais. _ Respondeu um irritado Jack Bauer. Ele não tinha tempo a perder com trivialidades.

_ Não no Brasil, Senhor. Além disso, Caipirinha é nossa especialidade. _ Respondeu a sorridente moça.

_ Não obrigado. Ordens médicas. _ Jack falou secamente e desviou os olhos da moça, em direção a janelinha do avião, que nesse momento sobrevoava uma grande extensão de mata verde e fechada, formando um tapete verde lustroso, entrecortado por rios sinuosos. Jack observou a paisagem, mas seus pensamentos estavam em outra parte. Qual a conexão dos árabes com os brasileiros?

18:00 Fim do Capítulo