Capítulo 2
Lily pôs Harry no chão, e ele saiu correndo, aos gritinhos, feliz da vida.
— E eu não sei mais o que fazer. Estou chegando a meu limite.
— Eu lamento tanto, minha querida.
— Depois que James deixou Hogwarts, ele começou a beber por causa da morte dos pais. Eu fiz vistas grossas, mas ele se tornou relapso e irresponsável, ainda mais com Você-Sabe-Quem em nossos calcanhares. E eu estava grávida.
— Mas agora ele está mais calmo, não?
— Agora ele está ainda pior. Ele está totalmente imerso nessa bobagem de Menino-Que-Sobreviveu. Harry ainda tem pesadelos com o que aconteceu, e não pode sair na rua que é logo cercado por uma multidão. E você sabe como James adora fama.
— Sim, eu me lembro dele na escola. — Alice Longbottom se virou para os dois meninos brincando e gritou: — Neville! Harry está chamando você para pegar o Snitch. Vá brincar com ele.
Lily sorriu para os dois meninotes brincando na praça.
— Eles estão tão grandes, crescem tão rápido.
— É verdade. Temos que aproveitar essa fase. Mas sinto que você esteja passando por isso, Lily. E você tem alguém com quem falar?
— Bom, nossa casa ainda está sob Fidelius, mas Dumbledore tem insistido que nos mudemos. Afinal, se o Lord das Trevas se foi, o mesmo não se pode dizer de seus seguidores.
— Nem me diga. Frank e eu estamos trabalhando muito por causa deles.
— Recentemente, porém, eu encontrei um velho amigo de escola. Severus, lembra-se dele? Severus Snape.
Alice fez uma careta.
— Aquele Slytherin estranho, com cabelo engordurado? Cruzes, Lily, você é amiga dele?
— Éramos vizinhos quando crianças. Ele agora é aprendiz na loja de poções do Sr. Bartuchek. Temos conversado bastante.
— Espere um pouco. Snape? Acho que ele estava na lista de suspeitos, mas Dumbledore o exonerou. Mas os amigos dele...
— Ele nunca se envolveu nas atividades dos ex-colegas. E tem sido tão bom amigo, sabe? Harry o adora. Fiquei surpresa quando vi como ele é bom com crianças. Ele não parecia ser o tipo que gosta de crianças.
— Hum, e o que James diz dessa amizade?
— James não sabe de nada, nem pode saber. Ele odiava Severus nos tempos de Hogwarts e até hoje o trata mal. Então tenho que me encontrar escondido com ele.
O rosto redondo de Alice se transformou num retrato de sem-vergonhice.
— Nossa, é como se fosse um amante! Que emocionante, Lily! Esconder-se de James, encontrar-se às escondidas, entregar-se a uma paixão louca e sem controle...
— Não é nada disso — Lily tentou dizer, enrubescendo. — Severus e eu nunca tivemos nada. Nem brinque com isso!
— Claro que não. Do jeito que James ama você, e você também o ama... Mas todo casamento tem problemas às vezes, não? E, ainda por cima, não ajuda nada ter um bruxo das trevas louco à solta. — Ela espichou o pescoço, de olho no menininho rechonchudo com Harry. — Neville! Não vá para longe.
Lily ficou pensando no que Alice tinha dito. Não é como se ela tivesse um amante. Mas James certamente a fazia ter vontade de ter um.
Nenhuma das duas notou quatro figuras a observá-las.
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— James, chegamos! Você está em casa?
— Papai! Papai!
— Vocês voltaram. Bom, estou de saída.
— Não vai ficar? Podíamos ficar em casa, hoje. Harry e você podiam brincar um pouco enquanto faço o jantar. Que tal um assado no forno?
— Sirius está me esperando.
— James, por favor. Você sabe que eles ainda estão por aí. Precisa ter mais cuidado.
— Lily, agora que Ele está morto, podemos nos divertir sem medo. Sirius diz que podemos dar conta dos que sobraram. E ele é que tem uns primos malucos.
— Mas nós quase não nos vemos. E se você não está trabalhando para a Ordem, podia pensar em fazer algo, procurar uma profissão...
— Lily, o que deu em você?
— Eu estou me sentindo só, James. Você e Sirius saem para beber todo dia, e Harry e eu ficamos sozinhos. Você parece não se lembrar que tem uma família e um futuro pela frente.
— Como assim? Eu amo vocês!
— Eu sei que sim, mas você parece ter voltado a ter 15 anos. James, você tem um filho que te adora e precisa de você. Ele sente sua falta. É uma etapa importante do crescimento dele. Já que você nem sequer trabalha, você poderia pelo menos se dedicar acompanhar de perto o crescimento de seu filho.
— Mas que cobrança é essa agora?
— Precisamos conversar, James. Por favor, não se afaste de nós.
— Viu agora por que eu saio com Sirius? Pelo menos com ele não tem essa encheção de saco! E não precisa me esperar acordada!
O choro de Harry fez Lily correr para atender o filho antes mesmo que a porta da frente batesse.
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— Não sei mais o que fazer.
Dumbledore olhou a jovem mãe, o olhar triste dela voltado para o filho. A criança, alheia ao sofrimento materno, estava de olho fixo na fênix, que trinava suavemente.
— Gostaria de poder ajudar mais, minha criança.
Lily estava muito angustiada:
— Eu me mudaria o quanto antes. Ainda mais agora, sabendo que os seguidores do Lorde das Trevas podem ter um plano.
— Não devemos descartar isso. De um modo ou de outro, como disse antes, o feitiço Fidelius está comprometido em Godric's Hollow. Com o Fiel do Segredo em Azkaban, vocês não poderiam receber mais visitas. Pior ainda se o plano de matar Pettigrew na cadeia for verdadeiro.
— Eu sei. Se ele morrer, todos os que conhecem o segredo se tornam portadores dele. Aí não teremos controle sobre todos que podem entrar em casa.
— Precisamente. Se você pudesse convencer James...
— Prof. Dumbledore, eu já ficaria feliz se o convencesse a ficar em casa. Sinceramente, ele está conseguindo me levar a meu limite. Se não fosse por Harry...
O velho diretor pôs a xícara de chá na mesa e disse, sério:
— Minha querida, eu não fazia idéia de que a coisa estivesse tão séria.
— Ele bebe muito. Não parece se preocupar com coisa nenhuma. Mas eu sei que ele me ama e a Harry também. Ele parece acreditar que Você-Sabe-Quem se foi para sempre.
— Mas você não.
— Eu estava lá. Não posso deixar de achar que, do mesmo modo como ele sumiu, ele pode voltar. E aí Harry estará em grande perigo.
Dumbledore olhou o pequeno e comentou:
— Mas ele não parece ter ficado com sequelas do encontro com Lord Voldemort.
Lily sorriu:
— Ele tem pesadelos e fica assustado na presença de estranhos. Também está mais agarrado comigo e com James. Sente falta de Severus. Eu até o levei em St Mungo's.
— Sim, eu li no Profeta.
— Isso não tem ajudado em nada. Qualquer coisa que o menino faça vira notícia. James adora essa bajulação, mas Harry se assusta. Eu evito sair com ele onde sei que haverá muita gente, mas James parece escolher justamente lugares perto da imprensa ou de alguma grande aglomeração.
— James sempre pareceu gostar de atenção, se bem me lembro. Mas eu imaginei que ele tivesse mudado um pouco nos últimos anos.
— Eu também achei. Ele parece acreditar que é intocável!
— E sua amizade com Severus? Pelo que disse, vocês não têm se visto.
— É verdade. Desde o ataque, mal temos nos visto. Harry ficou muitas saudades. Aí fomos à botica, mas James e Sirius armaram um escândalo. Foi mais um motivo para briga. Por isso tenho evitado ver Severus.
— Mas você gostaria, não?
Ela olhou para Harry. Depois para o chão.
— Sim, eu gostaria. Severus me conforta, e ele é tão gentil com Harry.
— E você gostaria da companhia de Severus tanto quanto da James? Ou será que gostaria mais?
Lily arregalou os olhos e encarou seu velho professor, surpresa. Ela não sabia o que responder. Não sabia o que estava sentindo.
Terminou sem responder. Ela não sabia também que em breve estaria ocupada demais para se preocupar com sentimentos.
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As notícias do Profeta Diário não eram nada animadoras. Lily terminou de dar café a Harry e deixou-o brincando com a vassourinha de brinquedo na sala, indo acordar James imediatamente.
— James! James, levante! Precisamos nos mudar.
— Hã? O quê? O que foi?
— Precisamos deixar esse local imediatamente! Veja! — Ela jogou o jornal em cima dele. — Peter foi assassinado em Azkaban.
James se sentou na cama, o cabelo ainda mais desalinhado do que normalmente, e estreitou os olhos, tentando ler sem os óculos.
— Ora, provavelmente os amigos que ele arranjou na prisão foram os responsáveis por isso.
— Mas você sabe o que isso significa. Agora, qualquer um para quem ele revelou o Segredo é um novo Fiel do Segredo. Não podemos mais esperar. Precisamos sair daqui o quanto antes. Vamos, levante-se! Eu começo a arrumar as coisas de Harry e você encolhe os móveis.
— Lily, deixe de ser exagerada! Voldemort está morto! E os poucos seguidores dele estão tontos, sem seu chefe para dizer o que devem fazer! Eles não são ameaça.
— O que vai ser necessário para convencer você, James? Pessoas morrendo? Ou quem sabe um novo ataque à nossa casa? Vá curar essa ressaca e preparar a mudança!
— Mas mudança para onde?
— Para qualquer lugar, menos aqui!
James ia responder algo, mas um chamado da lareira os interrompeu.
— Alô, tem alguém em casa?
Lily desceu e se surpreendeu ao ver quem estava na lareira:
— Professor Dumbledore?
— Bom dia, minha querida. Poderia me deixar passar? Receio ter notícias da maior gravidade.
Lily deu passagem e Harry sorriu ao ver o velho bruxo entrando na sala.
— Receio que o Profeta tenha publicado as más notícias.
— Não, o que eu tenho a dizer é muito mais grave. James está em casa?
Ele desceu as escadas, perguntando.
— Dumbledore, o que aconteceu?
O velho professor sentou-se numa poltrona, sorrindo para Harry, mas a fisionomia era pesada.
— Lamento ser eu a dar essa notícia. Houve um ataque. Um ataque horrível.
— Ataque?
— Alice e Frank Longbottom foram capturados por Death Eaters. Eles queriam saber o paradeiro de Lord Voldemort.
— Oh, não! — disse Lily, horrorizada. — Frank e Alice? Eles foram capturados?
— Felizmente Aurores já prenderam os responsáveis. Mas lamento que as horas que os Longbottom passaram com seus captores foram longas demais. Eles foram torturados pelo uso da Maldição Cruciatus.
— Então eles... eles... não sobreviveram?
Dumbledore pareceu ainda mais velho ao fechar os olhos e dizer:
— Oh, não, eles sobreviveram. Infelizmente, eles sobreviveram. Mas o uso da maldição os deixou totalmente incoerentes. Lamento informar que eles enlouqueceram.
Lily se deixou cair no sofá, pálida.
— Não!... Não!
— Eu sinto muito — disse Dumbledore.
— Os médicos não podem fazer nada?
— Há pouca esperança. Na verdade, nenhuma.
Lily se pôs a chorar e James a abraçou.
— Eu sabia, eu sabia... — ela dizia baixinho.
Harry captou a tensão e começou a choramingar. Lily o acolheu em seus braços, tentando acalmá-lo.
— E quanto ao pequeno Neville?
— Augusta, mãe de Frank, decidiu criá-lo.
— Pobrezinho.
— Eu já arrumei um local para vocês ficarem. Se quiserem ficar permanentemente, será melhor ainda.
— Que local é esse? — quis saber James.
— Fica na charmosa vila de Budleigh Babberton. Desde já me ofereço a ser Fiel do Segredo.
— E eu aceito — adiantou-se Lily.
— Mas Lily, quem sabe Sirius...
— Sem ofensas, James, mas eu deixei você escolher o último Fiel do Segredo e todos nós sabemos no que isso deu.
Ele ficou calado. Dumbledore disse:
— Bem, então, quando quiserem se mudar...
— Vai ser agora mesmo.
— Então você pode ir com Harry — disse James. — Eu vou mais tarde, depois que resolver umas pendências.
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— Albus, que surpresa!
— Bartoulos, como vai?
— Honrado com sua presença, meu amigo. Como vão as coisas em Hogwarts?
— Ah, cada vez mais interessantes. Será que você poderia me emprestar Severus por alguns minutos? Tenho uma coisinha para ele que não via demorar nada.
— Claro, fique à vontade.
Severus sempre se admirava de como o severo Mestre Bartuchek era cordato com o diretor de Hogwarts. Dumbledore o levou a um canto quieto da loja.
— Presumo que você já saiba sobre os Longbottom.
— Sim, eu sou o que aconteceu. Já pegaram os responsáveis?
— Todos os quatro. Os irmãos Lestrange, Bellatrix Black e o filho de Barty Crouch.
— O filho do responsável pela caçada aos seguidores do Lord das Trevas? Isso é surpreendente.
— Barty está arrasado. Mas o que quero lhe dizer é que o ataque aos Longobottom levou Lily e Harry a se mudarem de Godric's Hollow.
— Finalmente. Achei que demorou.
Dumbledore passou um papelzinho a ele.
— Este é o novo endereço. Fica em Budleigh Babberton, uma cidadezinha com Muggles e bruxos. Está protegida por Fidelius e eu sou o Fiel.
— E por que está me passando o segredo?
— Porque acho que Lily gostará de sua visita. Harry também.
— Mas e quanto a Potter?
— James me disse que ainda precisa resolver certos assuntos antes de deixar Godric's Hollow. Infelizmente, nós temos nos desencontrado desde então. Podemos continuar nos desencontrando até essa noite, acredito. Se você decidisse visitar Lily e o pequeno Harry depois de seu expediente, acho que não encontraria James ali...
Severus arregalou os olhos.
— Por que está fazendo isso?
— Lily parece muito angustiada. Ela precisa de um amigo e disse que gostaria de vê-lo. Você mencionou que eram amigos.
— Sim, nós somos amigos. Obrigado por isso.
— Não me agradeça. Mas você sempre pode contar comigo para proteger Lily e Harry.
Essa era uma garantia que aliviava Severus mais do que ele podia colocar em palavras.
