Capítulo 3

Severus mal podia esperar o fim de seu turno e Aparatar o mais rápido possível para Budleigh Babberton. Ele ainda não entendera o motivo pelo qual Dumbledore escolhera justamente aquele lugar para proteger Lily e Harry, mas se eles estavam seguros, então estava bom para ele.

O jovem não conseguiu esconder sua surpresa ao ver quem atendeu à porta.

— Prof. Dumbledore?

— Ah, Severus, que bom que você chegou. Entre, por favor.

— Aconteceu alguma coisa?

Severus encontrou Lily curvada no sofá, aparentemente chorando. Harry estava ao lado da mãe e parecia confuso. Ela ergueu a cabeça e olhou para ele.

— Severus!

Ele correu para envolvê-la em seus braços.

— Lily, o que houve? Harry está bem, o que aconteceu?

— Acabei de saber — respondeu Dumbledore gravemente — que Godric's Hollow foi atacada. A casa está praticamente destruída e o sinal da Marca Negra está cima dos escombros. Ainda não sabem detalhes, mas Sirius foi levado para St. Mungo's.

— E Potter?

Lily soluçou alto, afundando o rosto no peito de Severus. Dumbledore respondeu:

— Não há sinal de James.

Severus fechou os olhos, pesaroso. Ele não tinha nenhum amor por Potter, claro, mas nem mesmo ele ou Sirius mereciam sofrer nas mãos dos seguidores de Você-Sabe-Quem.

— Mas talvez seja uma boa notícia — continuou Dumbledore. — Segundo Shacklebolt, se ele estivesse morto, eles o teriam deixado ali para ser encontrado.

— Então vocês acham que ele foi levado? Por que motivo?

— Existe uma grande chance de que eles estejam em busca de vingança pelo desaparecimento de Lord Voldemort. Nesse caso, eles podem estar procurando pelo Menino-Que-Sobreviveu.

Severus sussurrou:

— Harry...

O menino reconheceu o nome e sorriu, chegando mais perto dele:

— Sev'us!

Severus puxou o menino para junto de si:

— Ei, amiguinho. Preciso de você. Mamãe está triste e temos que ajudá-la, está bem?

O garotinho ficou agarradinho à mãe. Lily secou as lágrimas:

— Alguém falou com Sirius? Para saber o que aconteceu?

Dumbledore respondeu:

— Ainda não foi possível acordá-lo tempo suficiente para fazer perguntas. Mas Kingsley deixou uma pessoa perto dele. Quando ele acordar, saberemos mais. Até lá, espero que Severus possa ajudá-la em tudo que precisar. Eu pensei em trazer Molly Weasley, mas ela tem bastante trabalho com as crianças, para não mencionar a caçula, uma bebezinha ainda mais nova que Harry.

— É claro que ficarei feliz em ajudar, Prof. Dumbledore.

Terminou que Severus ajudou bastante, apoiando Lily e Harry. Eventualmente, ela se mostrava emotiva, e Severus a abraçava, gesto que consolava ambos.

Sirius é que não foi de grande ajuda. Em seu depoimento aos Aurores, ele declarou que ele e James foram emboscados por pelo menos quatro bruxos mascarados perto de Godric's Hollow. A luta feroz não impediu que Sirius saísse ferido e James fosse levado, além da casa ter sofrido grande dano. Arriscando atrair a atenção de Muggles, ele lançou um Patronus com o alerta. Tudo indicava que eles buscavam o pequeno Harry.

O menino parecia feliz ao ver Severus. Lily dizia que Harry perguntava sempre quando Severus chegava e esperava com sua costumeira impaciência. Às vezes ele chorava e perguntava pelo pai. Lily cantava para ele na hora de dormir.

Depois que Harry dormia, Lily e Severus se sentavam na sala, ou arrumavam alguns enfeites de Natal. Lily insistia que Harry tivesse um feriado normal.

— Ele gosta mais das luzes do que dos presentes. — Lily riu. — É praticamente o primeiro Natal dele.

— Ele é muito esperto.

— James ia gostar de montar a árvore com luzes de fadas. Ele ficou de cortar um tronco especial para a lareira...

Lágrimas correram por suas faces. Severus a abraçou.

— Tente se manter calma.

Ela o encarou. Os olhos verdes se encontraram com os pretos. Severus sentiu um fogo a queimar suas entranhas e sabia que o mesmo se passava com ela.

Lily se esticou até que seus lábios se encontraram. O toque começou delicado, mas Severus a estreitou em seus braços, aprofundando o beijo, sentindo um gosto de mel, canela e gengibre nela.

Quando os dois subiram para respirar, ela sorria. Severus não. Lily estranhou.

— Algo errado?

— Só quero evitar que façamos algum tipo de confusão.

— Que quer dizer, Severus?

— Lily, vamos sentar. Preciso explicar uma coisa.

Ela obedeceu, dizendo:

— Sev, se eu o ofendi...

Suavemente, ele interrompeu:

— Não me ofendeu, pelo contrário: estou honrado. Mas talvez você precise saber que eu amo você e nunca amei mais ninguém em toda minha vida. Mas eu sei que você tem sentimentos profundos por Potter. Eu respeito os seus sentimentos e também seu casamento. Por isso é que devemos tomar cuidado, nesse momento tão delicado e sensível, para não confundirmos essa fragilidade com outra coisa.

Lily arregalou os olhos.

— Sev... Eu não fazia ideia.

— Não quero que tenha uma imagem errada, de um homem rejeitado e amargo. Não é o caso. Fico feliz em ser seu amigo e espero ser útil como tal. Mas não espere, de jeito algum, que eu traia meus sentimentos por você ou que você traia seus sentimentos por seu marido. Transformá-la em uma mulher adúltera, que trai o marido, que destroi uma família? Não posso fazer isso.

— Meu casamento não vai bem há tempos, você sabe.

— Não vai ser um romance entre nós que vai melhorar isso. No mínimo, vai confundir Harry.

Lily sorriu e acariciou o rosto dele.

— Você é um bom amigo, Severus Snape. E também é um homem nobre. Não sei se mereço seu amor.

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Foi na véspera de Natal que James apareceu. Tudo indicava que ele conseguira fugir de seus captores. Imediatamente foi levado a St. Mungo's, devido à extensão de seus ferimentos. Lily foi vê-lo e Severus ficou no corredor cuidando de Harry. Quando ele avistou Sirius, teve vontade de sair do local. Mas resolveu aguentar firme.

— O que você pensa que está fazendo com meu afilhado?

— A mãe dele me encarregou de cuidar dele.

— Bom, mas agora o padrinho dele está aqui. Você pode voltar para o buraco de onde rastejou.

— O menino está sob minha guarda, Black, e é assim que ele vai permanecer.

Uma voz diferente concordou:

— Concordo plenamente, Severus. Você recebeu uma missão de Lily e é a ela que vai responder.

Sirius ficou indignado.

— Albus, isso é um absurdo! Essa cobra vivia com os seguidores de Voldemort!

— E, se você se recorda, Sirius, Severus testemunhou diante do Wizengamot e entregou um bom número de ex-colegas, a despeito das consequencias.

— Humpf! — fez Sirius. — Pois você não me engana, Snivellus. E não será surpresa para mim se você estiver envolvido no que aconteceu a James.

— Sirius! — ralhou Dumbledore.

A voz de Severus era baixa, carregada de malícia:

— O que aconteceu a Potter não deveria ser surpresa, do jeito que vocês dois desfilam de bar em bar, deixando Lily e Harry tendo que se defender sozinhos do Lord das Trevas.

— Ora seu...!

Sirius avançou contra Severus, que imediatamente ergueu um escudo, mas nem precisaria: Dumbledore o lançou na direção contrária com um gesto de mão. Sirius se chocou de frente com a parede e escorregou para o chão, desacordado.

Harry riu alto, achando que era tudo brincadeira do tio Sirius. Lily chegou ao corredor e viu Sirius caído.

— O que houve com Sirius?

— Escorregou — respondeu Dumbledore. — Não é de surpreender, considerando o estado dele.

Lily pegou Harry no colo e indagou, espantada:

— Ele está bêbado?

Severus deu de ombros:

— Nem sei. Quando ele começou a me insultar, achei melhor ignorá-lo. E James?

— Estava dormindo. Ele ainda ficará essa noite aqui.

— Você pretende dormir aqui? — indagou Severus. — Posso ficar com Harry, se quiser.

— Não será necessário. Ele só deve acordar amanhã à tarde. Eu voltarei amanhã. Será que Molly se incomodaria de cuidar de Harry umas horinhas?

Severus se adiantou:

— Lily, eu posso ficar com Harry.

— Não será necessário, Sev. Você já fez muito por nós. Além do mais, é Natal. Você certamente tem planos.

Dumbledore ofereceu:

— Tenho certeza de que não faltarão voluntários também em Hogwarts para cuidar de Harry.

O menino, mesmo no colo da mãe, esticou-se todo para tentar alcançar a barba do diretor. Lily disse:

— Harry, nós já conversamos sobre cabelos e barbas. Você sabe que não pode puxar a barba do vovô Albus.

Harry fez cara de choro.

— Não?

— Você sabe que não pode.

— Ora, Lily — disse Dumbledore —, não precisa ser tão dura com o menino.

Severus comentou:

— Pelo que vejo, em Hogwarts não faltarão voluntários para paparicar Harry.

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O pequeno elfo o recebeu e disse que seu Mestre o esperava no escritório. Severus o acompanhou até a sala sofisticada, de lambris de mogno, onde o dono da mansão o recebeu com um sorriso.

— Severus, meu velho amigo. Sua visita é uma surpresa. Sente-se. Cognac?

— Não, obrigado, Lucius.

— Importa-se que eu tome?

— Claro que não.

— Dobby! Traga-me o Grand Marnier. E não derrame, seu traste inútil!

Por mais que Severus já tivesse testemunhado o comportamento de Lucius, ele não podia deixar de sentir repulsa pelo abuso da criatura. Ele esperou a saída do elfo para indagar:

— Como tem passado, Lucius?

— As coisas estão melhorando, depois daquele incidente desagradável com o ministério.

— O pequeno Draco vai bem? Narcissa?

— Todos bem. Sua mãe está bem de saúde?

— Sim, obrigado por perguntar.

— E vocês finalmente se mudaram daquele lugar horrendo onde moravam?

— Sim, achamos que o desaparecimento do Lord das Trevas foi motivo suficiente para grandes mudanças.

— Como vai seu aprendizado? Deve faltar pouco para terminar.

— Maio farei o exame de admissão entre os mestres de Poções.

— Parabéns. É um título prestigioso.

— Obrigado. Tenho planos de me dedicar a pesquisas na área.

Severus sabia jogar de acordo com as regras. Daí ele e Lucius estarem jogando tanta conversa miúda fora. Slytherins não tinham por hábito ir direto ao ponto. Era de sua natureza usar o caminho mais tortuoso até chegar onde queriam. Mas eventualmente eles iam ao ponto.

— Acho difícil acreditar que tenha vindo até Wiltshire apenas para saber sobre minha família. Ou desejar Feliz Natal.

— Claro que não. Você deve ter ouvido falar no ataque aos Potter.

— Sim, o pai do menino sumiu.

— Ele escapou de seus captores, mas ninguém foi preso.

Lucius deu um risinho, saboreando seu Grand Marnier:

— Boa sorte a quem tentar achá-los. É isso que veio fazer, Severus? Descobrir quem foi?

— Por favor, não me insulte. Nada me interessaria menos. Mas você não ignora que Lily e eu fomos amigos de infância.

— Ah — fez Lucius, estalando a língua em seu conhaque. — A jovem sangue...

Severus o interrompeu:

— Poupe-me de seus adjetivos. Quero que você suspenda a caçada a ela e o menino.

— Perdão, o que disse?

— Você ouviu. Diga a seus amigos para pararem de perseguir os Potter.

— Meus... amigos, como você diz, não têm por hábito me obedecer. Não vejo como forçá-los agora.

Severus sorriu de maneira desagradável:

— Lucius, está tentando me convencer que você, um Malfoy, não consegue convencer seus ex-colegas a desistirem de algo? Que você perdeu seus poderes de persuasão?

— E por que eu faria isso?

— Eu consideraria um favor pessoal. Sabe como esses favores funcionam. E eles vêm bem a calhar diante de situações desagradáveis com o ministério.

Os olhos cinza adquiriram um brilho cruel, mas Lucius disfarçou:

— Bom, suponho que eu possa falar com alguns deles. Mas é claro que, como em todo grupo, também nesse há alguns que preferem tomar decisões imprudente e precipitadas. Não posso me responsabilizar por desequilibrados do calibre de Bellatrix Lestrange, por exemplo.

Severus entendeu o recado. Não havia garantias, nem agora nem até que o monstro estivesse morto. De qualquer modo, Severus esperava apenas livrar Lily do risco de um ataque contra ela.

Mal sabia ele que o risco maior não eram os Death Eaters.