Capítulo 5

Harry passou os próximos dias muito inquieto, enquanto Lily tentava absorver a realidade de que seu casamento estava definitivamente acabado. Ela contara a Dumbledore o que tinha acontecido, apesar da humilhação que sentia. Mas era bom poder falar com alguém. Porque às vezes era difícil até acreditar que tudo acontecera.

Felizmente, pensou Lily, ela estava em Hogwarts. Lá ela estava segura o suficiente para se dedicar a pensar nessas coisas sem ter o estresse adicional de ter que se esconder dos seguidores de Você-Sabe-Quem. Era um consolo.

Outra vantagem de Hogwarts era a companhia. Ela podia fazer as refeições no Salão Principal, conversar com os professores. E também, claro, não faltavam voluntários para babás de Harry se ela precisasse.

Foi assim que Lily recebeu de Minerva o recado de que uma visita a esperava, e que essa era a oportunidade perfeita para paparicar Harry na Torre de Gryffindor. Lily recebeu sua visita na ante-sala do diretor. Surpreendeu-se ao ver quem era.

— Sra. Snape?

Eileen sorriu, genuinamente contente.

— Minha querida. Tanto tempo.

Foi iniciativa da mulher mais velha abraçar a jovem calorosamente.

— A senhora parece bem, Sra. Snape.

— Minha querida, você é gentil, mas pode me chamar de Eileen. Afinal, eu a conheço desde que você era uma garotinha.

— Eileen, então. Vamos nos sentar?

— Sim, seria ótimo. Que tal um chá? O Prof. Dumbledore foi gentil o suficiente para nos deixar chá com biscoitinhos.

— Obrigada.

Eileen serviu Lily de uma xícara e sentou-se para servir-se, dizendo:

— Severus me contou que sua família ainda está sob ameaça.

— O Prof. Dumbledore não acredita que Você-Sabe-Quem esteja mesmo morto. De qualquer forma, ele ainda tem seguidores.

— Verdade. Seu marido sofreu uma agressão recente, pelo que ouvi. Ainda bem que você e seu filho estão em Hogwarts. Aqui estão seguros.

— O Prof. Dumbledore tem sido de uma grande ajuda.

— Grande homem, Dumbledore — comentou Eileen. — Ele gosta muito de você. Eu me lembro de quando você era criança, e seus olhos brilhavam toda vez que eu lhe falava sobre magia e a vida de bruxo.

— Tudo era tão novo para mim naquele tempo. Tudo era novidade. E era... mágico!

— Os olhos de Severus brilhavam também — ela comentou. — Toda vez que ele estava com você. A seu lado, ele sempre brilhou.

Lily ficou vermelha, sem saber direito como responder. Eileen simplesmente continuou:

— Oh, Severus não sabe que vim vê-la, e eu gostaria que isso continuasse assim. Mas você precisa saber que você sempre foi uma boa influência na vida dele. O er, brilho que ele tem nos olhos ao ver você, vamos dizer, fez dele uma pessoa muito melhor. Uma mãe sabe dessas coisas. E nossa vida, a minha e a de Severus, não teve muitos desses momentos felizes. Poucas lembranças felizes. As dele, tenho certeza, estão todas ligadas a você.

A moça indagou:

— É por isso que está aqui?

— Claro. Vim aqui defender meu filho. Ele é um homem honrado, mas está totalmente apaixonado por você há anos.

— Sim, Severus é um homem honrado. Ele me garantiu que respeitaria meu casamento. É o que ele está fazendo.

Eileen sorriu.

— Viu como meu filho é um homem honrado? Por isso é que eu estou aqui. Porque eu quero lhe perguntar: você vai destruir um homem assim?

Lily arregalou os olhos.

— Destruir? Como...?

— Oh, eu vejo a indignação nos seus olhos. Eu sei que você não pretende fazer isso. Mas o que você acha que vai acontecer? Depois de tudo que seu marido fez com você, deixando você e seu filho em perigo, abandonando vocês, você deixa Severus lidar com isso, confortá-la, ampará-la... Mas não larga o marido! Você não deixa Severus seguir adiante com a vida dele, mas não larga o marido para assumir uma relação com Severus.

— A última coisa que eu quero é magoar Severus! — Lily estava com raiva, sentindo-se acusada. — Eu não quero enganá-lo, nem dar falsas esperanças! Não sou cruel assim! Eu gosto de Severus, ele é meu amigo.

— E você acha que algum dia ele poderá ser mais do que um amigo? Porque, se você acha que amigos é tudo que vocês poderão ser, então eu peço, como mãe: não procure mais meu filho. Deixe que ele siga sua vida, que ele tenha uma chance de conhecer alguém que poderá dar a ele o amor que ele precisa. Dê a Severus uma chance de ser feliz.

— Eu jamais ia querer a infelicidade de Severus!...

— Eu sei disso. Eu acredito nisso completamente. Mas eu sei também que Severus não se dará essa chance. Ele não vai se permitir essa chance de felicidade, porque ele vai ficar eternamente a seu lado, esperando que você largue esse marido, que você se decida se vai aguentar os abusos e a indiferença do homem com quem se casou. Severus está há pelo menos 10 anos esperando uma migalha de sua afeição.

— Mas eu...

Eileen a interrompeu:

— De novo, eu repito: não é culpa sua, não sei se é culpa dele. Mas vocês têm uma situação não-resolvida. Não me entenda mal. Vim aqui como uma mãe, buscando proteger seu filho. Você, mais do que ninguém, deve ser capaz de entender isso. Severus me contou que aquele bruxo horrível estava perseguindo seu menino. Você não o protegeria? Não é isso que está fazendo agora mesmo? Pois não somos diferentes, eu e você.

Lily notou que era tudo verdade. Ela finalmente tomou um gole do chá, já esfriando.

— Desculpe. Eu sinto muito. Mas no momento não posso tomar nenhuma decisão. Já estou numa situação difícil, e colocar Severus nessa equação...

Eileen esclareceu:

— Oh, minha querida, eu sinto muito se você se sentiu pressionada. Não quero que você tome uma decisão. Não quis dar a impressão de que estou lhe dando um ultimato. Não foi isso que eu vim fazer aqui. Na verdade, eu venho falando a Severus para convidar você e o pequeno Harry para um jantar lá em casa. Talvez agora não seja a melhor hora, mas o convite está de pé, mesmo assim.

Lily a observou. A mulher parecia tão contraditória. Mas não pôde evitar um sorriso.

— Claro. Um jantar seria bom. Talvez fosse bom eu consultar o Prof. Dumbledore. Ele quer evitar que eu deixe Hogwarts.

— Claro, eu compreendo — disse Eileen. — Mas gostaria que conhecesse a casa nova.

— Severus me falou da mudança. Fico feliz que tenham deixado aquele local para trás.

— Eu também. Muitas lembranças ruins ali. Agora esperamos convidar mais os amigos, e tenho certeza de que Severus gostaria muito de vê-la no nosso novo lar.

— Adorarei ir.

Neste momento, as duas foram interrompidas pela chegada do Prof. Dumbledore.

— Odeio interromper, mas você tem uma visita, Lily. Ele a está esperando no meu escritório.

Eileen ergueu-se, alarmada, e o diretor de Hogwarts garantiu:

— Não se trata de Severus, Eileen, mas não preciso dizer que não mencionei sua presença aqui. Você pode usar essa lareira de Floo, se quiser.

— Obrigada, Prof. Dumbledore. — Eileen voltou-se para Lily. — Pena que tivemos que interromper nossa conversa, querida. Mas você tem todo o tempo do mundo para decidir-se.

Lily ficou pensando nas palavras de Eileen quando ela deixou a sala, saindo pela lareira. Teria ela todo o tempo do mundo mesmo? Havia muito a providenciar: separação, bens, briga pela custódia de Harry... E isso antes de pensar em qualquer coisa relacionada a Severus.

Com a cabeça cheia, Lily se encaminhou distraidamente para o gabinete do Prof. Dumbledore. A distração era tanta que ela pareceu só voltar à realidade quando Harry praticamente pulou nas pernas dela, gritando:

— Mamãe, tio Moony!

Ela pegou o filho no colo, achando que tivesse ouvindo errado, até que entrou no escritório do diretor de Hogwarts e um rosto amigo sorriu para ela.

— Olá, Lily.

Ela saudou seu querido amigo Remus Lupin com um beijo na bochecha, mais feliz do que podia dizer:

— Remus, que surpresa agradável. Estou tão feliz em ver você.

— E eu mais ainda. Queria ter vindo antes, mas sinceramente não sabia se seria bem recebido.

Lily sentou-se, pondo Harry no chão, indagando:

— O que o fez pensar assim?

Remus soltou um sorriso triste.

— Aparentemente, minha condição de, er, pele fazia de mim uma pessoa perigosa e vulnerável ao lado das trevas.

— Remus, eu jamais imaginei isso. Achei que você soubesse como me sentia.

— Sim, Lily, eu sempre soube. Mas não vale a pena falarmos disso agora. Estou aqui, querendo saber como você está.

Ela suspirou, um olho distraído em Harry, que prestava atenção aos instrumentos curiosos à sua volta.

— É uma boa pergunta. Gostaria de ter uma resposta. Você sabe o que aconteceu?

— James me contou tudo e pediu-me para vir aqui, pedir seu perdão.

Lily se ergueu, as feições endurecendo:

— Remus, se você veio aqui...

Ele a interrompeu:

— Eu disse não.

Ela encarou o amigo, enxergando nele sinceridade. Remus continuou:

— Avisei a ele que eu não faria isso, porque não concordo com o que ele fez. Na minha opinião, você não merecia o que ele fez. Fez o que é correto e tem todo o meu apoio. Eu jamais diria que você deve perdoá-lo.

— Você disse isso a ele?

Remus enrubesceu um pouco.

— Bom, estava mais do que na hora. Eu passei todos os anos de Hogwarts fazendo vistas grossas para tudo que James e Sirius faziam de errado, pela pura gratidão de eles serem meus amigos apesar de meu problema "de pele". Muitas vezes eu me arrependi, especialmente depois do episódio com Severus Snape.

— Episódio? Alguma daquelas brincadeiras de mau gosto?

Remus pareceu desconfortável.

— Receio que tenha sido mais sério do que brincadeira de mau gosto. Foi no sexto ano. Sirius enganou Severus para ir atrás de mim, numa noite lua cheia. James percebeu o perigo que Severus iria correr e impediu que ele fosse. Severus ficou muito chateado, ainda mais que Dumbledore disse que aquilo constituía uma dívida bruxa. Eu fiquei mais do que irritado. Severus nunca me perdoou, e talvez ele tenha pensado que eu estivesse na brincadeira também.

Lily estava horrorizada.

— Oh, Remus... Eu não sabia disso.

— Esse tipo de atitude de Sirius e James é que eu não posso mais aceitar, Lily. James me disse que Dumbledore a estava abrigando aqui em Hogwarts, devido à ameaça dos seguidores de Lorde Voldemort.

— Ele também descobriu que Severus e eu voltamos a ser amigos.

— Mesmo? E você o perdoou por aquilo que ele disse?

— Minha maior objeção eram as companhias que ele tinha na época. Lembra? Ele andava com todos que decidiram seguir Você-Sabe-Quem. Eu estava certa de que ele também seguiria pelo mesmo caminho. Mas ele se afastou de todos, voltou a ser o Severus que eu conheci.

— Eu li no Profeta que Dumbledore o apoiou junto ao Winzengamot.

— Severus também tem me ajudado muito. Ele é um bom amigo. Harry o adora.

Remus a encarou com atenção.

— Lily, desculpe, mas eu tenho que perguntar: você e Severus são mais que amigos?

Ela olhou Harry, agora fascinado com Fawkes, que parecia doente e prestes a queimar a qualquer momento. Depois de uns segundos, ela se virou e respondeu, determinada:

— Severus não quer ter nada comigo enquanto eu estiver casada. Mas agora eu vou comunicar a ele que meu casamento acabou, e que eu estou disposta a tentar reconstruir minha vida com Harry ao lado dele, se ele ainda nos quiser.

Remus a encarou.

— Você está falando sério.

— Definitivamente, Remus. Severus tem sido um amigo leal, e eu sei que ele gostaria de tentar uma relação comigo. Sempre achei que James fosse o amor da minha vida, mas a decepção foi grande. Por um momento, fiquei com raiva, mas agora só o que resta é desapontamento.

O lobisomem abaixou a cabeça, fechando os olhos. Como as coisas chegaram àquele ponto?

— Eu sinto muito, Lily. Achei que você e James seriam para a vida toda. Vocês pareciam tão apaixonados, tão felizes...

— Eu também, Remus. Sempre achei que envelheceria ao lado de James. — Ela não evitou uma lágrima, mas rapidamente a secou com os dedos. — Mas esse episódio me deixou claro uma coisa: Dumbledore tem razão. Não são nossas qualidades que nos definem, mas sim nossas atitudes. James sempre foi arrogante, convencido e irresponsável. Como eu pude acreditar que ele tinha mudado?

— Bom, se isso serve de consolo, eu também acreditei.

— E não pense que eu culpo Sirius, não. Sirius é seu companheiro de bebedeira e irresponsabilidades, mas James sabe muito bem o que faz. Você sabe que na noite em que Você-Sabe-Quem atacou nossa casa, ele estava bebendo com Sirius?

Remus ficou boquiaberto:

— Ele... não estava em casa?

— James disse que estava em missão para a Ordem da Fênix, mas a Ordem toda sabe que ele estava no boteco com Sirius. Harry e eu enfrentamos sozinhos aquele maníaco. Se não fosse por Severus...

— Severus? O que ele tem a ver com isso?

— Isso é segredo, Remus. Eu não devia ter falado.

— Se acha que não deve me contar, tudo bem. Mas fiquei curioso.

— Não é isso. Severus pediu segredo. Mas ele estava lá naquela noite. Foi ele quem salvou Harry. Dumbledore disse que Severus ama Harry como se fosse um pai, e isso salvou meu filho. Severus também ficou marcado, como a cicatriz na testa de Harry. Dumbledore também acha que isso deva ficar em segredo.

— Provavelmente uma boa medida. Você tem certeza de que ele não está se aproveitando de um momento?

— Não. Como já disse, ele não se aproximou comigo com nenhuma intenção desse tipo. Mesmo que ele não queira nada comigo, vou fazer de tudo para preservar nossa amizade. Nós nos conhecemos desde crianças, você sabe.

— Você acha que ele pode recusar?

— Ele me recusou agora, Remus. De qualquer forma, preciso me preparar para uma vida sem James. Nosso casamento acabou, Remus. Agora é só preparar o divórcio, para garantir que ele não fuja de sua responsabilidade com Harry.

— James não faria isso — Remus garantiu. — Ele adora esse menino.

— Pode ser, mas eu me lembro de como ele era no colégio. Ele pode prejudicar Harry só para me irritar ou me pressionar a reatar com ele. Eu nem estou reclamando de que ele tenha me batido, mas quando ele bateu em Harry...

Remus quase deixou cair a xícara de chá, perdendo toda a cor do rosto.

— Espere um momento. Está dizendo que ele bateu em você? E em Harry? James espancou Harry?

— Espancou é uma palavra forte, Remus. Ele deu um tapa no menino. Com força. Eu nunca o perdoarei por isso.

Remus ainda estava sem acreditar. Um ódio feral foi subindo por suas veias, esquentando seu sangue. Ele não acreditava que James tinha sido capaz de bater no pequeno Harry. Remus amava aquele menino como se fosse seu.

Ele batera no seu filhote. Remus agora considerava isso pessoal.

— Lily — ele teve que dizer as palavras lentamente, para manter suas emoções sob controle —, eu não sabia disso. Harry é como se fosse meu próprio filho. O lobo dentro de mim pensa nele como seu filhote. Por isso, o que James fez é absolutamente inaceitável para mim. Se você entrar em alguma disputa de custódia ou pensão alimentícia, pode me chamar como testemunha.

— Obrigada, Remus. Mas primeiro eu vou pensar bem, consultar o Prof. Dumbledore e pensar em um emprego. Sem James para sustentar a mim e a Harry, terei que trabalhar.

— Não sei como, mas se eu puder ajudar de alguma forma, pode contar comigo.

— Você é um bom amigo, Remus. No momento, é disso que eu preciso. Agradeço que veja James como ele é, e não o menino de ouro que todos parecem pensar.

Remus sorriu para ela. Diante de tudo que ouvira, não era difícil pensar em James como sendo exatamente o oposto de um menino de ouro.