Capítulo 6

Severus deixou a botica no final do dia imaginando que ele já tinha esperado o tempo socialmente aceitável para visitar Lily em Hogwarts. Ele também estava com saudades do pequeno Harry. Inacreditável que ele tivesse se apegado dessa maneira a ninguém menos que o filho de James Potter.

Distraído em seus pensamentos, Severus quase se assustou quando alguém se colocou a seu lado na rua.

— Saindo do empreguinho, velho amigo?

Severus lançou um olhar de reprovação para Lucius e respondeu:

— Não é um "empreguinho". É meu aprendizado. E eu estou na fase final, quase pronto para me submeter à prova de Maestria em Poções.

— Acredito que isso deva ser impressionante, de algum modo — disse o herdeiro da família Malfoy, com um ar entediado. — Mas eu mal podia esperar para lhe trazer as boas notícias.

— Boas notícias?

— Eu diria que são mais do que boas. Mas vamos para um lugar reservado. Não se fala sobre essas coisas no meio da rua.

Os dois se instalaram num pub elegante, onde Lucius Malfoy obviamente era conhecido. Ele foi direto a um reservado, onde ele e Severus se sentaram longe de olhares curiosos. Depois que as bebidas foram pedidas, Severus foi direto ao ponto.

— Muito bem, agora estamos sozinhos. Que boas notícias são essas?

Lucius soltou um risinho superior.

— Achei que você gostaria de saber que sobreviveu a seus inimigos de escola.

Severus sentiu o coração se acelerando, mas ele não fez mais que erguer a sobrancelha.

— Explique.

— Não posso divulgar os detalhes, mas sei que Sirius Black e James Potter encontraram seu fim há pouco tempo.

Pensando rapidamente, Severus comentou:

— Não li nada sobre isso nos jornais. Tem certeza de que sua informação é correta?

Lucius deu um risinho arrogante como só ele era capaz de dar.

— Meu caro Severus, você realmente acha que alguém como eu precisa de jornais para se manter bem-informado? Não, minha fonte é muito segura.

— Presumo, então, que não tenham sido falecimentos naturais.

— Vou poupá-lo dos detalhes mais explícitos, mas o melhor de toda essa história é que os dois apenas tiveram o que mereciam. Imagine você que eles tinham colocado na cabeça que conseguiriam fazer um acordo com os seguidores de Você-Sabe-Quem.

— Um acordo? Com que propósito?

— Black tentou usar a influência familiar para se aproximar de um dos leais seguidores do Lorde das Trevas. Você não desconhece que, infelizmente, ele é parte da família de minha mulher.

— Lembro que o irmão dele desapareceu ano passado, ou uns meses antes.

— Sim, sim, Regulus. Ele era um seguidor leal, mas parece que teve dúvidas. De qualquer modo, Sirius Black achou que parentesco fosse algum tipo de garantia de vida.

Severus não pôde evitar rir-se:

— Obviamente ele estava iludido.

— Obviamente. Igualmente divertido é que Potter queria garantias de vida também. Estava até disposto a dizer onde o pirralho estava escondido, mas pedia que garantissem a vida dele.

— Não faz muito sentido.

— Acredite, no estado em que ele se encontrava, ele estava fazendo sentido até demais. De qualquer forma, isso tudo é irrelevante agora. Ele aprendeu, da maneira mais Gryffindor e mais idiota, que ninguém faz acordos ou ultimatos quando se trata do Lorde das Trevas. Mesmo que seu sobrenome seja Black.

Severus não deixou de captar o significado oculto das palavras e quis saber:

— Mas ele não estava sob Fidelius?

— Não, só a casa. E o idiota deixou a casa...

— Algum sinal do menino?

— Não, mas não é segredo que Dumbledore o está escondendo. — Lucius parecia contrariado. — Esse moleque irritante ainda por cima me deu um prejuízo considerável.

— Como assim?

— Não é segredo que Sirius era o último dos herdeiros Black masculinos diretos. O próximo na linha de sucessão da família é Draco, já que a irmã de Narcissa foi deserdada e aquela filha mestiça dela perdeu todos os direitos à fortuna Black.

— Então o pequeno Draco herdou uma fortuna considerável. Aliás, bem mais do que considerável.

— Infelizmente, não foi isso que aconteceu. Black deixou todos os bens e direitos para seu afilhado, Harry Potter. Com o desaparecimento de Potter e Black, o garoto virou herdeiro das duas famílias ao mesmo tempo.

Severus fez um ar de revolta:

— Esse menino tem sorte demais.

Lucius comentou:

— Paciência, meu amigo. Um dia a sorte dele vai acabar. Basta sermos pacientes o suficiente. Falando nisso, sua paciência pagou dividendos polpudos, eu diria.

— Do que está falando, Malfoy?

— Ora, agora você tem uma viúva jovem e rica para cortejar.

— Já disse que não tenho nada com ela.

— Agora, pelo menos, você tem motivos para querer ter algo com ela, velho amigo. Isso é que é golpe de sorte. Fica livre dos inimigos, dos rivais e ainda pode ter uma chance de colocar a mão na fortuna deles. É, Severus, eu diria que seu dia não poderia estar melhor.

Severus discordava, internamente. Mas ele apenas ergueu a sobrancelha e ergueu o copo em direção a Lucius, a mente furiosamente engendrando estratégias e avaliações.

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— Vuus!

O grito de Harry foi tão alto que ecoou em todo o Salão Principal de Hogwarts em pleno jantar. O Prof. Dumbledore olhou o visitante que entrava exatamente na hora da refeição e ergueu-se, indo encontrá-lo. Lily também se ergueu, mas para correr atrás de Harry, que tinha simplesmente descido da cadeira enfeitiçada e corrido na direção de uma de suas pessoas favoritas.

Severus imediatamente pôs o menino no colo. Harry soltou um gritinho de felicidade.

— Olá, amiguinho. Sentiu minha falta?

— Sev'rus! — fez Harry, provocando risos em alguns alunos. — Vamos brincar?

— Na verdade, eu vim aqui para ver você, ver sua mãe e conversar com o Prof. Dumbledore.

— Harry, você não pode sair correndo assim! — Lily sorriu para Severus. — Olá, Severus. Que bom ver você.

— Também é bom vê-la, Lily. Eu só gostaria que as circunstâncias fossem mais favoráveis.

— Severus, é quase uma surpresa — saudou o Prof. Dumbledore. — Estava imaginando quando você viria.

Severus passou Harry para Lily e disse:

— Diretor, receio ter notícias muito graves. Desculpe interromper o jantar. Podemos ir a seu gabinete?

— Claro, claro. Lily, minha querida, se puder avisar Minerva que estaremos ocupados?

— Com certeza. Severus, depois poderíamos conversar um pouco, se não estiver ocupado?

Lily detectou um ar de tristeza no olhar dele quando ele disse:

— Combinado. Tchau, Harry!

O menino deu tchau com a mãozinha e Lily acompanhou Dumbledore e Severus deixando o salão, um estranho aperto no peito. Havia algo ali, ela tinha certeza.

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Dumbledore encarou Severus seriamente e perguntou, com todo o cuidado:

— Você está absolutamente certo?

— Minha fonte não falha. Não tenho detalhes, não sei onde aconteceu. Minha fonte sugeriu que tenha sido longe da casa protegida pelo segredo de Fidelius. De qualquer forma, talvez seja interessante a Ordem da Fênix encontrá-los antes dos Aurores.

O velho diretor abanou a cabeça:

— Que tragédia, Severus.

O jovem aprendiz de Poções suspirou:

— Não sei como dar a notícia a Lily. Melhor ela saber por nós do que pelo Profeta Diário ou por um esquadrão de Aurores.

— Mais extraordinário é que James tenha tentado negociar com Death Eaters. Ele podia ser um tanto quanto imprudente...

— Para dizer o mínimo — comentou Severus.

— … mas não era tolo. Ele sabia que tipo de gente eles são. Sem ofensas a seus amigos, Severus.

Ex-amigos. Mas tem razão. Potter nunca foi tonto.

— E, perdoe-me pelo que vou dizer, Severus, mas você não teve mesmo nenhuma participação no fato?

Severus ficou tão vermelho que chegou a parecer escarlate.

— Eu me ressinto de sua pergunta! Se eu fosse esse tipo de homem, eu teria me juntado a eles anos atrás!

— Não é por motivação política que pergunto. Você há de convir, Severus, que agora a jovem Lily está desimpedida...

Ele quase interrompeu o velho diretor:

— Se eu quisesse Lily desimpedida, como diz, eu teria evitado que ela ficasse impedida em primeiro lugar. Mas se tivesse falhado e eu quisesse livrar Lily do marido imprestável por meios ilícitos, aí eu seria um homem indigno dela. Não poderíamos ter nada juntos, se nossos laços estivessem manchados de sangue! — Severus inspirou fundo, incensado. Ergueu-se e murmurou, mal contendo a ira. — Eu não deveria ter vindo. Deveria ter deixado vocês descobrirem por si mesmos!

— Calma, Severus. De novo, peço perdão por minha desconfiança. Essa história de James tentando um acordo é mesmo inacreditável.

— Minha fonte não tem motivos para mentir. Se a derrota de James Potter tivesse sido num duelo ou em batalha, garanto que ele teria se vangloriado ainda mais. Ele apenas achou divertida a estupidez de Black e Potter. Sem falar em menção a bebedeira.

— Bem que Lily dizia que o comportamento de James vinha se tornando errático e estranho — lembrou Dumbledore. — Pode ser mesmo efeito do álcool. De qualquer forma, pode-se dizer que agora tudo isso é ponto morto. Você sabe dizer há quanto tempo isso aconteceu?

— Não, mas acho imprudente perder mais tempo.

— Tem razão. Vou convocar a Ordem imediatamente. — Dirigiu-se a Fawkes, a fênix. — Você sabe o que fazer. Todos devem vir o quanto antes para essa sala.

A magnífica ave levantou voo antes mesmo que o diretor concluísse a frase. Severus disse:

— Então, com sua licença, vou avisar Lily.

— Sim, claro. Pobre Lily.

— Dificilmente.

Dumbledore o olhou severamente e admoestou:

— Sei que você e James tinham suas diferenças. Severus, mas isso não é motivo para celebrar a morte dele, sabendo o quanto Lily vai sofrer.

— Peço desculpas por me expressar mal. Não quero menosprezar o sentimento de ninguém, muito menos o de Lily. Mas o senhor a chamou de pobre, e nada poderia ser mais longe da verdade. Financeiramente falando, quero dizer.

— Não entendo o que diz.

— Com a morte dos dois, Lily virou herdeira de uma grande fortuna. Na verdade, o dinheiro é de Harry. Ele é o herdeiro de Black, além de Potter, claro. Mas obviamente, até lá, Lily tomará conta de tudo.

Dumbledore empalideceu de uma maneira que Severus jamais vira antes.

— Oh, Severus. Temos que avisar Lily o quanto antes.

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Lily e Harry estavam no gabinete de McGonagall, dando a ela o recado que o Prof. Dumbledore pedira quando dois fatos simultâneos aconteceram: Fawkes apareceu num clarão de luz e uma coruja entrou na sala. Harry ficou extasiado, batendo palminhas e gritando:

— Weeeeee!

Austera como sempre, McGonagall olhou a fênix com reprovação antes de pegar o recado que a ave trazia. Ao mesmo tempo, a coruja aproximou-se de Harry e esticou a patinha. O pequeno gritou de novo e a ave se assustou, fazendo Lily se aproximar.

— Uma carta para Harry?

— Hawy! — repetiu o pequeno, excitado ao reconhecer o próprio nome.

— Calma — disse a jovem. — Mamãe já vai ver o que é.

McGonagall leu o recado de Fawkes e disse:

— Lily, você e Harry podem ficar à vontade. Tenho uma reunião urgente com o diretor agora.

Lily abrira a pesada carta que tinha o nome de Harry James Potter e anunciou:

— Melhor eu ir junto. Talvez assim alguém me explique essa carta de Gringotts para meu filho.