Capítulo 7

A cena era curiosa. O espaçoso gabinete do Prof. Dumbledore ia ficando pequeno à medida que mais bruxos e bruxas entravam pela lareira.

— Seu recado parecia urgente, Albus — comentou Elphias Dodge.

— É um assunto da maior importância — garantiu o diretor de Hogwarts. — Assim que todos chegarem, podemos dar início à reunião.

Emmeline Vance indagou, gesticulando para Severus:

— Esse jovem não deveria estar a caminho de seu dormitório?

Dumbledore respondeu:

— Severus já se formou há alguns anos, Em. Ele participará de nossa reunião, com outros convidados.

— Convidados?

A lareira fez um swoosh suave à entrada do sempre imponente Auror Kingsley Shacklebolt. Mas a entrada dele foi ofuscada quando McGonagall abriu as portas, seguida por Lily Potter. As duas pareciam transtornadas.

— Albus — disse a diretora de Gryffindor —, você sabe por que Gringotts mandaria uma carta para o pequeno Harry tomar posse de um cofre de sangue?

O velho diretor suspirou:

— Eu esperava que essa carta só chegasse amanhã.

Lily indagou:

— Então não há nenhum engano? Do que se trata, afinal?

Dumbledore floreou a varinha, conjurando confortáveis poltronas.

— Sente-se, minha querida. Severus, por gentileza, leve Harry até Madame Pomfrey e volte aqui imediatamente.

Severus obedeceu, o coração pesaroso. Quando retornou, a explicação de Dumbledore estava no final:

— Em resumo, cofres de sangue são os mais antigos de Gringotts e pertencem a famílias mais tradicionais. Eles só podem ser abertos por uma gota de sangue dos membros daquela família.

Lily quis saber:

— Como os Potter?

— Os Potter, os Black, os Malfoy... Se uma pessoa fora da família precisar ter acesso ao cofre, por herança ou casamento, precisa ter o sangue reconhecido pelo cofre.

— Mas por que Harry receberia uma carta assim? Ele já é um Potter de sangue. Além do que, por que isso agora?

Dumbledore assumiu um ar ainda mais grave e anunciou:

— Lily, eu desejei jamais ter que dar essa notícia, mas agora não posso mais adiar. A carta de Gringotts veio para Harry por causa das mortes de Sirius e James.

Lily perdeu toda a cor nas faces e balbuciou:

— Q-quê...?

Os demais também começaram a murmurar, todos ao mesmo tempo, querendo maiores detalhes. Dumbledore pediu:

— Silêncio, por favor. Ainda não temos detalhes, mas sabemos que nossos dois amigos morreram vítimas das forças que tentamos combater.

Lily abaixou a cabeça, lágrimas escorrendo, os ombros convulsionando à medida que os soluços se intensificavam. Severus passou os braços em volta dela para ampará-la e ela se agarrou a ele, chorando abertamente. McGonagall também vertia lágrimas silenciosas discretamente e Lupin tinha uma expressão homicida nos olhos.

— Agora — continuou Dumbledore —, é fundamental agirmos com rapidez. Precisamos localizá-los antes dos Aurores.

Kingsley Shacklebolt assentiu e saiu novamente pela lareira.

— Pobre James. Sirius também, é claro.

— Dois verdadeiros heróis — completou Dodge.

Dumbledore encarou Severus ao comentar:

— E é assim que eles devem ser lembrados. Deram a própria vida tentando nos defender dos seguidores de Lord Voldemort.

Severus não esboçou nenhuma reação, mas por dentro estava fervendo de ódio e indignação. Ele sentiu seu rosto se avermelhar. Nem diante da dor de Lily Dumbledore abria mão de suas maquinações políticas?

Severus aproveitou a deixa e sugeriu:

— Se me permite, diretor, talvez Madame Pomfrey deva olhar Lily.

— Excelente ideia, Severus. Uma leve poção calmante pode ser muito útil em uma hora como essa. E não deixe Lily se preocupar com coisa alguma. Tudo está sendo providenciado.

Os dois se encararam, numa muda troca de informações e posições. Após confirmar o pacto silencioso com o diretor de Hogwarts, Severus ajudou Lily a chegar até a ala hospitalar.

Ela indagou, entre soluços:

— Você sabia, não?

Pesadamente, ele admitiu:

— Fui avisado após o ataque. Já era tarde demais.

— Você teria tentado impedir?

— Se pudesse, claro que sim. Mas depois podemos conversar melhor. Agora vamos encontrar Harry.

— Oh, Deus! Como vou contar isso a Harry?

— Diga apenas que o pai foi lutar com o bruxo mau e agora está olhando para ele de lá de cima. Mais tarde ele poderá saber dos detalhes. Agora vamos.

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Severus tirou uma licença do seu período de aprendiz com Mestre Bartuchek para ajudar Lily com os preparativos do duplo funeral e as legalidades de cuidar do dinheiro que ela e Harry herdaram. O Mestre disse que Severus podia tirar o tempo que precisasse.

O enterro foi uma cerimônia simples, cheia de gente e com uma segurança digna do ministro da Magia em pessoa. A imprensa foi afastada, mas dificilmente isso deteria o Profeta Diário. Para Severus, tirando os amigos de James e Sirius e os Aurores, mais da metade dos presentes estava ali para ver o Menino-Que-Sobreviveu e sua jovem mãe viúva. Todo vestido de preto, o menino praticamente não desgrudava da mãe e de Severus.

Lily era o retrato da viúva digna, permitindo-se poucas lágrimas quietas durante o panegírico proferido por Dumbledore. Lupin também a amparava discretamente, o que provocou olhares de reprovação de Narcissa Malfoy. A presença dos Malfoy, aliás, também causou estranheza, mas tecnicamente ela era a parente mais próxima de Sirius.

Lucius e Severus não trocaram mais que um discreto meneio de cabeça. Contudo, o olhar malicioso do louro não deixava dúvidas de que ele se divertia com a proximidade entre Severus e a jovem viúva. Severus adoraria apagar aquele sorrisinho arrogante, mas a verdade era que ele não tinha como negar a sua proximidade com Lily e Harry.

Mas algumas coisas precisavam ser esclarecidas.

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— Severus, há uma coisa que eu preciso lhe dizer.

Ele encarou Lily. Os dois caminhavam perto do lago, Harry com um saco de papel na mão, pulando perto das pedras na tarde fria mas sem neve. O menino estava cercado de feitiços protetores para evitar que caísse na água. Ele trazia pão para alimentar os peixes.

Naquela manhã, Severus e Lupin acompanharam Lily e Harry a Gringotts, onde ela assumiu a curatela dos bens do filho. Ela não sabia ainda quantas propriedades a família Black tinha. Os duendes ficaram de fazer uma lista. Mas havia um desfalque. Aparentemente, Sirius tinha vendido um terreno de seu tio Alphard e usara tudo em farras, bebidas e mulheres — com James. Severus e Lupin foram testemunhas da cerimônia de reconhecimento do sangue de Harry como herdeiro dos Black.

Agora que o futuro financeiro de Lily e Harry estava garantido, Severus se sentia à vontade para revelar a verdade. Por isso ele interrompeu Lily:

— Tem algo importante que você precisa saber sobre a morte de James. Pensei se deveria contar ou não, mas nunca tivemos segredos e não vi motivo para começar.

— O que é?

— Pelo que eu soube, James e Sirius tentavam fazer um acordo com Death Eaters. Por ser um Black, Sirius achava que seria ouvido tempo o suficiente para James fazer uma oferta: o paradeiro de Harry em troca de garantia de vida.

— Garantia de vida? Mas vida de quem?

— Não houve tempo de descobrir. Desculpe ter escondido isso, Lily. Mas achei que tinha dever de contar.

— Obrigada. Presumo que seja um segredo. — Severus assentiu, e ela quis saber. — Quem mais sabe disso?

— Além dos Death Eaters e seus amigos? Só Dumbledore.

— Mesmo? Dumbledore sabe?

— Sim, mas desconfio que ele ficará irritado ao descobrir que eu lhe contei a verdade. Ele quer que as mortes de James e Sirius sejam vistas aos olhos do público como sacrifícios na luta contra as Trevas, não como resultado de suas ideias inconsequentes e estúpidas. Politicamente, a imagem de Sirius e James tem de ser a de heróis sem manchas.

Lily ficou em silêncio uns segundos, olhando o lago. Depois falou, baixinho:

— A atitude de Dumbledore não me surpreende. Mas me perturba.

Severus pegou a mão dela.

— Tudo que você precisar, Lily, tudo que você quiser, é só pedir.

Ela sorriu para ele, acariciando o rosto dele. E então pediu, numa voz suave e solene:

— Case-se comigo.

Severus a encarou para ver se ela estava brincando. Lily jamais seria cruel de brincar com aquilo, ele sabia. Contudo, pensou, talvez Lily imaginasse que suas palavras pudessem servir apenas de pretexto para uma risada, para aliviar a tensão, depois de dias tão difíceis. Talvez ela não se desse conta do que dizia.

Mas o que os olhos negros enxergaram nos olhos verdes foi uma emoção profunda e sincera. O pedido era genuíno. Severus demorou a reagir. Lily colocou as mãos entre as dele, acrescentando:

— Eu já venho pensando nisso há tempos. Eu ia me separar de James. Acho que combinamos bem juntos. Agora, de uma certa maneira, tudo está resolvido para nós. Se você quiser, é claro.

Severus olhou para a água escura do lago e comentou, separando-se dela:

— Outras pessoas também podem achar que tudo se resolveu fácil demais. Dumbledore, por exemplo, não hesitou em me perguntar se eu tive participação no que aconteceu a seu marido.

A moça empalideceu.

— Você está brincando. Que audácia!

Severus a encarou.

— Você não vai me perguntar a mesma coisa?

— Claro que não. Se alguém me dissesse que você teve algo com o que aconteceu, eu não acreditaria. Você sabe que eu não aceitaria nada entre nós a esse preço.

— Nem eu. Já disse e repito: amo você e respeito seus sentimentos. Sei que você ama seu marido...

Ela corrigiu:

— Amava. Eu tinha decidido que nosso casamento estava encerrado, sem chance de volta. James tinha passado do ponto que eu poderia perdoá-lo antes mesmo de ele ameaçar me perseguir.

— Ameaçar?

— Isso já não importa mais. Mas você desviou o assunto. Quer se casar comigo?

Sinceramente, Severus respondeu:

— Nada me daria maior alegria, e acho que você sabe disso. Você me ama?

Lily sorriu para ele e pegou em sua mão.

— Você é meu melhor amigo, Sev. Só você tem trazido alívio a meu coração. Tenho certeza de que seremos felizes. Podemos até planejar irmãos para Harry.

Dessa vez ele não se separou dela, nem desviou o olhar ao comentar suavemente:

— Você não me respondeu. Você me ama, Lily?

— Oh, Sev, eu acho que sim. Ainda não tenho certeza de tudo que está em minha alma. James se foi de meu coração há mais tempo, antes mesmo de morrer. — Lily sacudiu a cabeça. — Não sei se estou fazendo sentido. Desculpe-me.

Severus acalmou-a:

— Está tudo muito recente. É natural sentir-se confusa. Você precisa de tempo para decidir como será sua vida.

Lily o encarou:

— Mas isso eu já decidi. Quero ter você na minha vida, Sev. Eu queria era saber se você pensa o mesmo.

— Eu já disse uma vez meus sentimentos a seu respeito e eles não mudaram. Mas talvez devamos pensar mais em timing.

— Timing?

— O momento não é o mais apropriado para sairmos por aí anunciando uma nova relação. Você é uma jovem viúva de um herói. Precisa manter decoro e luto por um tempo razoável.

Lily achou divertido:

— Você está cuidando de minha imagem pública? Acha que eu me importo com que os outros pensam?

Severus deu um risinho.

— Ah, vocês, Gryffindors, não entendem algumas sutilezas. Na Antiga Roma, dizia-se que à mulher de César não basta ser honesta, ela tem que parecer honesta. Aparência e percepção é tudo.

— Mas o que importa se eu me casar de novo?

— Se autoridades acharem que você não é uma boa mãe para Harry, Dumbledore pode conspirar para tirá-lo de você.

— Não!... Por que ele faria isso?

— Para que Harry possa estar preparado quando o Lorde das Trevas voltar. Afinal, ele vai querer se vingar de Harry. A própria existência de Harry é uma afronta ao poder do Lorde. Assim que ele se recuperar, ele irá atrás de Harry.

— Oh, não. É isso que Dumbledore acha?

— Dumbledore sabe disso e quer manter o menino sob seus olhos.

— Harry é tão pequeno...

Severus garantiu:

— Harry tem mais poder do que pensa. Dumbledore sabe disso.

— Acha que Dumbledore pode tentar tirar Harry de mim?

— Não, mas ele pode e vai tirar Harry de mim se achar que é certo. Sabe, com meus amigos e tudo mais.

— Você acha?

— Se você tivesse morrido no ataque a Godric's Hollow, Dumbledore provavelmente teria entregado Harry para ser criado por sua irmã Petunia.

— Não! Ele não faria isso!

— Sabe como ele gosta de manter-se no controle das coisas...

— Oh, Sev. Eu gostaria de me casar com você amanhã. Você também se sente assim, não é?

Ele indagou:

— Você tem alguma ideia de como isso é importante para mim? Minha própria estupidez quase me fez perder você para sempre. Eu não tinha certeza de que você me perdoaria. Se você saísse de minha vida, Lily, eu não sei o que seria de mim. Provavelmente eu teria sido tudo o que Potter imaginou que eu seria: seguidor de Você-Sabe-Quem.

— Não! — Lily se horrorizou. — Você não seria capaz, Sev.

— Se eu perdesse seu amor, Lily, eu me perderia para sempre. Acho que passaria o resto da minha vida tentando me redimir. E não seria feliz. Seria presa fácil para as maquinações de Dumbledore.

Lily pegou o braço dele e sentiu que ele tremia, emocionado. Aquilo a impressionou. Ela sabia que, apesar do exterior gélido, Severus era capaz de emoções profundas. Ela só não tinha certeza da profundidade dessas emoções. E era uma responsabilidade e tanto ser a recipiente de todas essas emoções.

Ela sussurrou:

— Quando você fala assim, aí é que tenho certeza de que eu quero você. Seremos felizes, eu posso sentir que sim.

Severus a encarou, os olhos em brasa. Lily se arrepiou por dentro. Droga, se eles não estivessem em público...

— Sev'rus! — gritou Harry, adiante. — Peixinho!

Lily gritou:

— Harry, cuidado aí, filho.

— Sev'rus! — insistiu o menino. — Pão pro peixinho!

— É melhor você ir logo — aconselhou Lily. — Ele falou nisso o dia inteiro. Deve estar ansioso.

— Espero que os peixes também estejam ansiosos. — Lily se riu e Severus completou: — Depois continuamos a conversa.

Ela o olhou, um brilho verde em seus olhos.

— Pode contar com isso.

O intenso olhar entre os dois foi interrompido por Harry. Impaciente como só ele sabia ser, o garoto correu até eles e começou a empurrar Severus para a margem do lago.

— Vuus! Pão pro peixinho! Agora!

Empurrado por um irredutível e determinado demoniozinho de dois anos, Severus ajeitou suas longas vestes, dizendo:

— Está bem, está bem, amiguinho. Não podemos deixar os peixes com fome, não é?