Capítulo 12

— Severus, eu mal pude falar com você.

Lupin o abordou à saída do jantar. Ambos terminaram ficando em Hogwarts para a refeição. Jantar na Mesa Principal, ao lado dos professores, foi uma experiência nova para Severus. Ainda mais que Harry só quis comer no colo dele, para indignação de Minerva McGonagall.

— Eu vi Lily apenas por uns minutos, Lupin. Ela parece bem. Agradeço o que fez.

— Nada fiz além da obrigação. Lamento que tenha deixado escapar a chance de capturar os responsáveis.

— O que é responsáveis?

Severus olhou para baixo e viu que Harry se aproximara sem que ele tivesse notado. O danadinho sabia que estavam escondendo algo dele. Severus o pôs no colo, respondendo:

— Responsável é aquele que faz as coisas e tem que assumir as consequências, mesmo que não queira. Como quando você está ajudando Hagrid a tomar conta dos bichinhos, lembra? Então, se alguma coisa acontecer com eles, você é responsável.

Os olhos verdes se arregalaram e ele encarou Severus, como que para confirmar que aquilo não era brincadeira. Ele pareceu satisfeito, porque perguntou:

— Tio Moony também é responsável?

— Sim, assim como eu. Todo mundo tem alguma responsabilidade, Harry. Mas você não deve se preocupar com isso. Você deve jantar toda sua comida. Amanhã nós vamos visitar sua mãe.

Severus levitou o prato até ele, e Harry reclamou, pegando os talheres:

— Falta só um pouquinho para eu terminar!

— Oh, então você não vai querer sobremesa hoje?

— Quero, sim!

— Você sabe que só tem sobremesa depois de comer tudinho.

— Eu sei, Sev'rus.

— Sua mãe vai ficar orgulhosa de você, Harry.

— Vou comer tudinho, aí eu vou crescer e ficar forte.

Severus preferiu não alimentar Harry, que já estava bem melhor em dominar os talheres. Mesmo assim, claro que eventualmente um pouco de comida foi parar fora do prato. Mas Harry ficou orgulhoso em mostrar o prato limpo, e depois se atirou no pudim de chocolate como se sua vida dependesse da sobremesa.

Conforme o combinado, Madame Pomfrey apareceu com a lista de poções, e Severus convenceu Harry a brincar com tio Moony enquanto ele preparar as poções para a mamãe melhorar. O menino claramente queria passar mais tempo com Severus, mas aceitou o argumento de que tio Moony ia ficar triste se não brincasse com Harry. Ele deu boa noite ao garoto e então tomou o rumo das masmorras.

Sozinho no laboratório, Severus teve a sensação de uma volta ao lar. Em poucos minutos, toda a agitação que sofria pareceu ir se acalmando enquanto ele se dedicava a preparar ingredientes, acompanhar o cozimento dos diversos caldeirões, ao som reconfortante das borbulhas nos variados estágios de cocção. Aquele era seu ambiente; ali ele era o mestre e senhor, e tinha o mais absoluto controle de tudo à sua volta.

O conforto de suas amadas poções fez Severus rememorar tudo que tinha acontecido. O ataque a Lily tinha uma explicação, e Severus não gostava do que seu raciocínio lhe dizia. Ele tinha que achar um jeito de lidar com aquilo. E mais: era preciso agir também para proteger Lily e Harry de uma vez por todas.

Felizmente Madame Pomfrey tinha dado uma lista extensa de poções. Severus passou a maior parte da noite aprontando as fórmulas pedidas, ao mesmo tempo em que também se dedicava a planejar cuidadosamente seus próximos passos. Sua vida precisava mudar com urgência, e aquele ataque tinha sido uma espécie de alerta para isso se resolver o quanto antes.

Quando amanheceu, Severus entregou todas as poções prontas na ala hospitalar, e Madame Pomfrey avisou que ele poderia visitar Lily depois do café. Tio Moony e Harry também estavam ansiosos para a visita e os três foram juntos à enfermaria. Madame Pomfrey deixou todos entrarem ao mesmo tempo.

Lily estava sentada na cama e sorria para eles quando entrara na ala hospitalar. Harry correu para a mãe.

— Meu querido. — Lily beijou-o. — Mamãe estava com saudade. Você foi um bom menino? Obedeceu à Profª McGonagall?

— Aham. E eu comi tudo que estava no prato.

— Bom garoto.

— Você está dodói, mamãe?

— Estou, meu amor. Mas Madame Pomfrey já cuidou de mim e amanhã vamos poder brincar juntos.

— Eu brinquei com tio Moony, e Sev'rus fez poções para você melhorar!

— Aposto como tio Moony adorou brincar.

Remus indagou:

— Como se sente, Lily?

— Estou muito bem, Remus. Obrigada por me salvar.

— Lamento não ter conseguido fazer mais. Os Aurores estão investigando, e devem vir falar com você.

— Certo. — Ela se virou para Harry. — Amor, mamãe precisa conversar com Severus um instante. Você podia sair com tio Moony um pouquinho? Depois vocês voltam, porque mamãe não matou todas as saudades.

— Depois eu quero brincar com Sev'rus, mamãe.

— Depois vocês podem brincar. — Ela beijou o filho de novo. — Mamãe ama você muito.

O menino se abraçou nela e depois desceu da cama. Lily sorriu e deu tchauzinho quando Remus o levou para fora. Severus sentou-se na cama. Lily observou:

— Você parece péssimo.

— Fico feliz que minha aparência a divirta. — Ele cobriu a mão dela com a sua. — E como está você?

Lily suspirou:

— Vou me recuperar, mas preciso falar com você. Não há como amortecer o golpe. O exame de Madame Pomfrey revelou que eu estava grávida quando fui atacada. Eu não sabia disso. Agora, ela diz que são poucas as chances de eu conseguir engravidar naturalmente.

Severus sequer piscou, tentando absorver toda aquela informação. Lily acrescentou:

— Eu sinto muito.

Severus fechou os olhos, dizendo:

— Se há algum culpado, certamente não está aqui. Não é você, Lily.

— É só que... — Ela lutava para conter as lágrimas. — Agora, pensando nisso, eu me dei conta de como gostaria de ter um filho com você. Mas...

Ele a interrompeu, suavemente.

— Não é hora de pensar nisso. Você está bem, e Mestres de Poções conhecem diversos outros métodos para conceber um filho, sem mencionar na chance de adoção. Mas isso é para mais tarde. No momento, devemos nos concentrar em outras coisas. Sua saúde é uma. Nosso casamento é outra.

— Sim, Severus. Falando nisso, eu acho que poderíamos antecipar a data. Depois do que aconteceu, confesso que mal posso esperar para voltar a morar no mundo Muggle.

Ele a encarou, erguendo uma sobrancelha.

— Espero que você acredite quando digo que vim aqui especificamente para fazer a mesma proposta. Estou tentado a dizer que é uma incrível coincidência.

Lily sorriu pela primeira vez para ele, os olhos verdes brilhando, e apertou suavemente a mão dele.

— Realmente, grandes mentes pensam de maneira semelhante.

— Alguma objeção em nos casarmos assim que você deixar a enfermaria?

— Bom, eu saio amanhã. Pode ser no sábado? Dará tempo para alguns ajustes de última hora, e ficará mais fácil para o Prof. Dumbledore preparar tudo.

Ele beijou a mão dela entre as suas.

— Sábado, então. Vou falar com o Prof. Dumbledore agora mesmo. Você ficará bem? Quer que eu fique aqui?

— Estou ótima. E você não precisa ficar aqui. Tem seu novo emprego para se preocupar.

Severus tentou dar um sorriso, escondendo uma careta interna. Ele ainda teria que lidar com a procura por um novo emprego. Afinal, agora ele teria uma família para cuidar, incluindo um menino pequeno, além de sua mãe. Mas agora não era hora de pensar naquilo. Tudo se resolveria.

Ele se ergueu e beijou a testa de Lily com carinho.

— Vou falar com Dumbledore e volto, se Madame Pomfrey deixar.

— Severus, por favor, precisaremos falar sobre o que aconteceu.

— Eu sei. Mas temos tempo. Tudo vai se ajeitar, Lily, não se preocupe. Agora procure descansar. Volto mais tarde.

Eles se beijaram, e Severus saiu dali com um plano razoavelmente alinhavado.

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— Diretor, posso lhe pedir uns minutos de seu tempo?

Albus Dumbledore abriu um sorriso, os olhos brilhando por trás dos óculos.

— Que coincidência, meu caro Severus, que eu estivesse procurando você para lhe fazer precisamente o mesmo pedido. Vamos até meu escritório para conversarmos melhor.

Não importava que eles mal tivessem tomado café da manhã: Albus sempre oferecia chá e docinhos a quem entrava em seu escritório, e Severus não foi nenhuma exceção. Depois de recusar polidamente os docinhos, Severus inspirou profundamente ao pegar a xícara de chá. A bebida quente tinha o poder de acalmar seus nervos como nenhuma outra.

— Você parece preocupado, Severus. Com motivo, devo acrescentar.

— Sim. O ataque a Lily não podia ter sido em hora mais infeliz. De qualquer forma, espero que os Aurores tenham sorte em capturar o culpado. Eu esperaria sentado.

— Você tem suspeitos para a autoria desse ataque, Severus?

— Não tenho nomes, mas não consigo pensar em ninguém além dos suspeitos de sempre. Se tiver alguma ideia diferente, por favor, compartilhe.

O diretor de Hogwarts deu de ombros.

— Não, infelizmente não tenho nenhuma nova suspeita, Severus.

— É por isso que Lily e eu decidimos antecipar nossa mudança para o mundo Muggle. Eu queria lhe perguntar se seria muito inconveniente realizar nossa união sábado.

— Sábado? Não, claro que não, meu jovem. Meus parabéns! Será um casamento muito bonito, tenho certeza.

Severus retificou:

— Casamento não. Uma união bruxa tradicional, com feitiços de união de almas.

Dumbledore o encarou:

— União bruxa tradicional? Tem certeza, Severus?

— Agora mais do que nunca. Lily não precisa se unir a mim, mas quero que me una a ela. Assim ela ficará livre para se casar de novo, se quiser.

— É um belo gesto, meu rapaz. Vocês merecem paz e felicidade. Falando nisso, como está seu novo emprego?

Severus confessou:

— Estou me desligando da botica. Mestre Farrington e eu temos incompatibilidades de caráter.

— De que tipo?

— Do tipo que o faz não aceitar minha recusa para me juntar às hostes do Lorde das Trevas. A iniciativa do desligamento da botica foi minha.

— Claro que fico triste em ouvir isso. Não só por sua oportunidade, mas também pela existência de partidários de Lorde Voldemort em várias camadas de nossa sociedade.

— Mas isso é fato consumado. Agora preciso me dedicar a buscar uma posição.

— Nesse caso — Dumbledore sorriu —, acho que meu assunto chegou numa boa hora. Eu queria convidá-lo para ser o fornecedor de poções para a ala hospitalar de Hogwarts.

Severus franziu o cenho.

— Pensei que Jiggers...

— Não, eles apenas fornecem os ingredientes. Quem confecciona as poções para Madame Pomfrey, como deve saber, é o professor de Poções.

— Eu me lembro — comentou ele. — Eu ajudava o Prof. Slughorn a fazer isso.

— Madame Pomfrey ficou impressionada com os resultados de suas cocções, Severus. Ficou decepcionada quando soube que você rejeitou o convite para ser professor. Mas sugeriu que você poderia suprir todas as poções para a ala hospitalar. Na verdade, achei a ideia extremamente feliz. Você poderia trabalhar em casa ou nos laboratórios de Hogwarts, onde preferir. Não há necessidade de cumprir horário, apenas manter os estoques. Podemos usar os fornecedores de ingredientes que achar melhor.

Severus abriu a boca para automaticamente rejeitar a oferta. Mas então teve uma intuição de pensar duas vezes. Por que não aceitar?

— Minha mudança para o mundo Muggle não será empecilho?

— Não necessariamente. Se sua casa tiver uma lareira ligada à rede de Floo e se vocês tiverem uma coruja, não vejo a dificuldade de comunicação.

— É verdade.

— Entendo que aceitar o posto de Mestre de Poções de Hogwarts seja difícil com sua nova família no mundo Muggle, mas essa nova proposta pode ser mais vantajosa. Estou disposto a convencer o Conselho da escola a criar essa nova função.

— E o pagamento?

— Seria um contrato padrão de fornecedor de serviços. Você pode negociar exclusividade, mas isso pode não ser vantajoso para nenhuma das partes.

— Concordo. Não nego que a proposta seja tentadora. E a possibilidade de ter mais serviços seria muito bem-vinda, claro. Afinal, tenho uma família para sustentar.

— Talvez, quando o jovem Harry iniciar seus anos em Hogwarts, você possa repensar o convite e aceitar ser nosso professor de Poções.

Severus admitiu:

— Agora realmente não me interesso em vir para Hogwarts, mas talvez a posição me seja mais atraente daqui a alguns anos.

— Exatamente meu ponto de vista. — Dumbledore pousou a xícara. — Bem, não espero uma resposta agora, certamente. Depois do casamento, ou da lua de mel, estará ótimo. Sábado à tarde seria aceitável para o casamento? Eu sei que Minerva vai querer organizar um jantar íntimo para vocês.

— Sábado à tarde estará excelente. E quanto à lua de mel, não se preocupe. Não pretendemos fazer viagens ou coisas assim. Estaremos bem atarefados na nova vida e queremos que Harry se adapte sem problemas.

— Excelente. Bem, suponho que devamos dar início aos preparativos, não? Há pessoas a serem convidadas, banquetes a serem preparados...

— Certamente — concordou Severus. — Com sua licença, pretendo dar início a esses preparativos o quanto antes.

Mas Dumbledore não fazia ideia do tipo de preparativo que Severus tinha em mente antes do casamento.