Capítulo 13
— Severus, que coincidência encontrá-lo por aqui!
Severus sorriu, cumprimentando Lucius com a cabeça e estreitando os olhos. Malfoy deveria estar plenamente ciente que Severus estava à sua procura, olhando em todos os locais que freqüentava.
— Sente-se que eu lhe pago uma bebida — convidou Severus. — Podemos conversar um pouco?
Lucius Malfoy obedeceu, um risinho sardônico.
— Pagando bebidas? Então o novo emprego está pagando bem!
— Na verdade, eu deixei a posição na botica Farrington. Foi entendimento mútuo que eu deveria procurar melhor emprego do meu tempo e minhas pesquisas em outro lugar.
— Claro que eu lamento, velho amigo, mas dificilmente fico surpreso. O velho Farrington deve ter mencionado que sua ligação com Dumbledore não era... desejável. Mas vamos conversar num lugar mais agradável.
Eles se mudaram para um local mais reservado e ergueram vários feitiços de privacidade. Severus ordenou a bebida do garçom antes de confirmar:
— Sim, Mestre Farrington mencionou minha estreita ligação com Mestre Bartuchek, velho amigo do Prof. Dumbledore. Como não devo nada a ele, não pensei em alertá-lo, mas você, Lucius, é meu velho amigo. Colega de escola. Não é um qualquer.
— Eu sempre o considerei muito, também, Severus.
— Foi mesmo fortuito encontrá-lo. Estou comemorando meu casamento, que será no final de semana.
A sobrancelha de Lucius ergueu-se tanto que parecia saltar para fora da testa.
— Mesmo? Então parece que devo lhe dar os parabéns.
— Agradeço por isso, Lucius, mas apreciaria ainda mais outro favor.
— Um favor?
— Um favor, velho amigo. Mais uma vez minha noiva foi alvo de um ataque. Foi em plena luz do dia. Em pleno Beco Diagonal.
— Que horror! Espero que esteja tudo bem. Seria uma lástima se alguma coisa acontecesse à sua... noivinha.
— Sou da mesma opinião, daí esse favor que vou lhe pedir. Pense, Lucius. Só pense adiante.
— Como?
— Estou para me casar com a mãe de Harry Potter. O garoto ainda estava em fraldas quando ele simplesmente derrotou o Lorde das Trevas. Eu achei que o Lorde estava morto, mas Dumbledore tem certeza do retorno dele. Se Dumbledore estiver certo, pode ser minha chance de provar meu valor.
Lucius franziu o cenho.
— Está mudando de ideia? Depois de tanto que insisti para você se juntar...
— É mera precaução. Pense, Lucius. Se o Lorde realmente voltar, ele terá obtido uma conquista sem precedentes dentro da sociedade bruxa. Mas, se não voltar, acredito que precisamos todos acompanhar de perto Harry Potter.
— O menino?
— O Menino-Que-Sobreviveu, Lucius. Ele derrotou o Lorde das Trevas. Caso o Lorde realmente esteja morto, Harry Potter pode ser a nossa esperança. Ainda não sabemos como ele derrotou o Lorde. O garoto pode ser um grande bruxo das Trevas. Ele pode ser uma força ao redor do qual podemos todos nos reunir.
— O menino? — repetiu Lucius, incrédulo.
— Sim, o menino. Estou em posição para acompanhar esse menino, verificar o seu potencial e cuidar para o seu desenvolvimento. Talvez, daqui a alguns anos, ele poderá chegar a Hogwarts quase um novo e jovem Lorde das Trevas.
Lucius pareceu absorver aquelas palavras por alguns segundos. Depois comentou.
— Um Lorde das Trevas que você controla.
— E um de quem meus amigos poderão se aproximar. Caso o Lorde das Trevas realmente ressurja, ele provavelmente vai desejar vingança do menino, ou talvez uma aliança. Seja como for, eu poderei entregar o menino ao Lorde das Trevas.
Lucius sorveu um gole de sua bebida, um risinho cínico nos lábios ao pousar a taça.
— Severus, eu sempre soube que você era criativo e cheio de recursos. Mas dessa vez, acho que você se superou. Além do que, você vai se casar com a mãe do Menino-Que-Sobreviveu?
Severus deu um risinho:
— Apenas um benefício colateral, velho amigo. Que posso fazer, além de aceitar o sacrifício graciosamente?
Os dois riram, e Severus continuou:
— E o favor que pretendo pedir, você pode adivinhar?
Lucius rolou os olhos, parecendo entediado.
— Claro. Vai pedir, de novo, para deixarmos a noivinha em paz.
— Em breve ela será a Sra. Snape — lembrou Severus. — E o garoto será criado por mim. Se vocês insistirem em atacá-los, como esperam que ele se torne um aliado? Como querem conquistar a aliança com o menino?
Mais uma vez Lucius pareceu pesar as palavras de Severus.
— Entendo. Você tem razão, meu amigo. — Erguendo a taça, comemorou: — Então, vamos beber a seu casamento. Felicidades e vida longa aos noivos!
As taças se encostaram. Severus sorriu, internamente. Seu plano parecia ir de vento em popa. Enganar Lucius com aquele bando de mentiras tinha sido a parte fácil do plano. Agora é que vinha a parte difícil.
Seria mais prudente encharcá-lo de champanhe antes de dar a má notícia de que ele não seria convidado ao casamento.
Lucius era um notório arroz de festa.
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— Mãe, preciso lhe comunicar que tivemos uma mudança de planos.
— Que planos, filho?
— Nos planos de casamento. Lily sofreu um ataque ontem. Decidimos não mais adiar nossa ida ao mundo Muggle. Antes, vamos oficializar nossa união.
— Oh, nossa — exclamou Eileen. — Que aconteceu? Ela está bem? E meu neto? E como você não me conta nada?
Ao ver a mãe se agitar, Severus tentou minimizar a coisa.
— Lily está bem. Foi atendida na ala hospitalar de Hogwarts, e Harry não estava com ela. Passei a noite lá, ajudando a fazer as poções de que ela precisava. Como não foi nada muito grave, eu não quis preocupá-la. Por isso não contei nada.
— Mas então decidiram adiantar o casamento, é isso?
— Precisamente. As pessoas estão sendo convidadas praticamente no boca a boca.
— Vai ser uma cerimônia escondida?
— Não exatamente, mas também não vamos anunciar no Profeta Diário.
— E será num lugar seguro? Ou pelo menos discreto?
— O Prof. Dumbledore ofereceu um dos salões de Hogwarts. Como a escola está em período de aulas, será uma cerimônia simples e discreta.
— Oh, pena. Há quanto tempo sonho em dançar com você no seu casamento, meu filho.
— Lamento desapontá-la, mas espero que entenda.
— Claro que sim. Não se preocupe com sua velha mãe. — Eileen estendeu a mão para pegar a do filho. — Meus parabéns, Severus. Estou muito orgulhosa de você e tenho certeza de que seu avô também estaria.
— Mas não meu pai. Estou errado?
A mãe suspirou, um segundo de dor aparecendo no rosto antes que ela abrisse um sorriso triste.
— Apesar de tudo, procure não julgar Tobias muito severamente. No fundo, ele era um homem bom, mas não sabia lidar nem perdoar os próprios erros. E ele cometeu muitos.
Severus assentiu com a cabeça.
— Vou tentar.
— E então? Para quando marcaram a cerimônia?
— Sábado à tarde. O prof. Dumbledore vai liberar uma lareira de Floo especialmente para isso.
— Ótimo. Severus, venho querendo consultá-lo a respeito de uma ideia que tive.
— Sim?
— Com você se mudando para o mundo Muggle, eu praticamente ficarei sem família no mundo bruxo. E eu pretendo curtir meu netinho. Portanto, eu tenho planos de breve me mudar também para o mundo Muggle.
Severus já tinha pensado nisso. Não com esse ponto de vista. É que sozinha Eileen seria vulnerável e alvo fácil para quem quisesse usá-la para atingir Severus ou Lily. Ele tinha pensado em sugerir que ela também se mudasse, mas depois achou que seria um abuso.
Ao ver a expressão preocupada do filho, Eileen interpretou o silêncio de maneira errada e argumentou:
— Uma vez perto de vocês, eu poderia ajudar e muito. Posso cuidar de Harry para quando quiserem sair à noite. Ou ajudar no que precisarem. Posso alugar um apartamento pequeno perto de vocês, com espaço para Harry passar a noite, se precisar. Lily pode querer estudar ou trabalhar, e deixar Harry comigo, sem precisar pagar uma pessoa desconhecida.
— Mamãe, está disposta a voltar a viver sem magia? Essa é nossa proposta: deixar Harry viver uma infância normal, sem a bajulação de Menino-Que-Sobreviveu. Depois, quando ele for a Hogwarts, tudo muda. Provavelmente voltaremos a viver no mundo bruxo. Mas até lá, pretendemos cortar os laços com esse mundo. Não é pedir demais?
— Será um pequeno sacrifício para ver meu neto crescer e ver meu filho se tornar um pai. Severus, família é tudo. Sempre precisamos estar juntos uns dos outros. Somos o único apoio que temos.
Severus sorriu para a mãe e eles se deram as mãos. Desde a morte do pai, a relação entre os dois melhorara tanto que o jovem Mestre de Poções iria lamentar se Eileen decidisse ficar entre os bruxos. Felizmente, não tinha sido o caso.
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Sábado amanheceu um lindo dia de muito sol e luz, permanecendo assim até a tarde. Não que o clima interferisse diretamente na cerimônia de casamento, já que seria realizada na sala do requerimento. Mas certamente a luz e o calor contribuíram para elevar os espíritos dos convidados.
Impossível negar que o clima não tenha influenciado os figurinos, tampouco. Lily vestia um lindo vestido amarelo pastel, com detalhes de flores brancas encantadas para exalar o mesmo perfume que ela usava. Severus escolheu um tom de verde e brocados dégradé que combinavam com os olhos de sua noiva. Harry vestia trajes vermelhos e divertiu-se em ver que o padrão de chamas no tecido se movimentava quando ele passava a mãozinha.
As bruxas vestiam, em sua maioria, estampas florais, mas isso não impedia que os tons lisos combinassem entre si. Até os cavalheiros usaram tons leves na cerimônia. Mesmo Dumbledore, oficiante da cerimônia e declarado fã da combinação púrpura e dourado, optou por vestes lilás com detalhes animados em roxo.
Embora simples e íntima, a cerimônia teve toques de tradicionalismo que agradaram aos mais conservadores. Nada poderia ser mais tradicional do que o handfasting, a amarração ritual dos braços dos noivos. Os votos de mútua dedicação, proteção e fidelidade também arrancaram "Awws" dos poucos e seletos presentes.
— Lily, você aceita entregar-se a este homem aqui presente, para amar e respeitar, cuidar e proteger, estimar e honrar, até o final de seus dias, com a ajuda dos elementos e da fonte de toda vida?
— Eu me entrego.
— E você, Severus, aceita entregar sua alma e seu corpo a essa mulher e seu filho aqui presentes, para amar e respeitar, cuidar e proteger, estimar e honrar, pelo resto de seus dias, com a ajuda dos elementos e da fonte de toda vida?
A mudança na formulação dos votos não passou despercebida. Além dos discretos murmúrios entre os convidados, Lily também arregalou os olhos impossivelmente verdes para Severus, que sorriu para ela e garantiu:
— Será uma honra entregar minha alma e meu corpo a ela e a Harry.
— Nesse caso, peço que tragam as alianças.
Remus Lupin se adiantou, mas foi o pequeno Harry que entregou as alianças a Severus. Dumbledore as levitou acima dos noivos e, com complexos movimentos em sua varinha, pronunciou intrincados feitiços de proteção. Em seguida, os noivos trocaram as alianças simples e lisas, feitas em puro ouro élfico, presente de Eileen. Sob uma chuva de pétalas de lírios brancos, os noivos se dirigiram a um reservado para receber os cumprimentos.
Engraçado que a Profª McGonagall, organizadora do jantar, nada tivesse mencionado a respeito de dança. No entanto, lá estava um espaço perto das mesas, dedicado a isso. Lily e Severus abriram a dança, mas Lily fez questão de dançar logo depois com Harry, que pôs os pezinhos sobre os da mãe, arrancando aplausos e risos de todos.
Os demais casais logo seguiram a dica. Dumbledore tirou Eileen para duas danças, e Arthur Weasley deu um show com sua parceira Molly. Severus e Lily também dançaram bastante, principalmente entre si, mas também com outros convidados. Harry quis dançar com Minerva, disputada também por Remus Lupin. Depois vovó Eileen foi alvo do garoto, que adorou a brincadeira de dançar nos pés dos outros.
O final da tarde cedeu lugar à noite, transcorrendo de maneira agradável e prazerosa. As danças foram retomadas após o jantar.
— Você mudou seus votos — disse Lily, num tom entre espanto e acusação, enquanto bailava com seu marido. — Por quê?
Severus não interrompeu a dança, apenas deu de ombros.
— Desculpe fazer sem avisar. Mas os votos antigos simplesmente não refletiam nem meus sentimentos nem a extensão real de minha ligação com você.
— E você incluiu Harry também.
— Você sabe que minha vida está intrinsecamente ligada à de Harry. Eu amo esse garoto como se fosse meu. Mesmo antes de... Você sabe.
Lily sorriu para ele, enrubescendo:
— Não sei se é o champanhe élfico, mas vou confessar: estou envergonhada.
— Mas do quê?
— Tive medo de que você odiasse Harry. Tive medo de que você olhasse para Harry como a prova viva de que eu escolhi outro homem. Pensei que você poderia discriminar Harry por ele ser tão parecido com James.
Severus beijou a mão dela.
— Talvez eu fizesse isso, se não conhecesse Harry. Mas se eu realmente não gostasse dele, nenhum de nós teria sobrevivido ao Halloween. E eu estou muito feliz. Ter a oportunidade de ser seu marido e pai de Harry é uma experiência transformadora.
— Também estou muito feliz. Como eu sei que seremos daqui para frente, sempre.
— Sempre — concordou Severus, inclinando-se para beijar sua esposa.
Era o começo de uma nova vida. Como todos os começos, esse deveria ser celebrado, dando as boas-vindas à nova família e ao novo tempo que se abria para eles. Perspectivas diferentes, ideias frescas e tranquilidade para a magia de uma vida livre e segura.
Severus se achava merecedor dessa admirável vida nova. E isso, por si só, era ainda mais admirável.
