- Que chance? Ele tem apenas pena de mim.

- Não alteza, ele gosta de você! Já reparou como ele te olha? Sem medo.

- Eu quero que ele me ame; se eu fosse agora falar com ele, com certeza me amaria.

- De que adiantaria?

- Poderia beijá-lo, amá-lo... – O Fera falava abraçando o próprio corpo.

- E depois?

- Morreria feliz!

- Por que morrer se tem uma chance de viver feliz com ele para o resto da vida? Por favor, controle-se, e dê mais um tempo, para ele descobrir seus verdadeiros sentimentos. Não apenas para salvá-lo, mas salvar a todos nós, seus amigos.

- Vou fazer isso por vocês, mas não acredito que ele me amará de verdade, não com a aparência do Fera.

O Fera se olhou no espelho, e examinou os traços de sua antiga aparência, ou melhor, de sua aparência verdadeira.

Os cabelos loiros bem cortados, olhos verdes num tom diferente que o tornavam mais sedutores e especiais, a pele branca com leves sarda e os lábios carnudos e rosados. Aquela boca provocou grandes paixões, homens e mulheres matariam por um beijo dele. Ele era belíssimo sempre cortejado e rodeado por amigos, amores e amantes.

Todos os seus desejos sempre foram satisfeitos, desde criança, mas isso o tornou uma pessoa frívola, mimada, sem coração, onde apenas o agora, a riqueza e a aparência interessavam.

Esse jeito fútil o levou a ser o que era hoje. Uma fera.

Flash back.

Ele estava em uma de suas inúmeras festas dadas praticamente toda semana em seu belo castelo, mas essa era especial comemorava o natal. Divertia-se com os amigos, flertava com alguns candidatos a passar a noite em sua cama. Ainda não decidido quem seria escolhido ou escolhida para ter essa honra de dormir em seus braços por aquela noite.

- Alteza! – Um dos guardas o chamava. – Tem uma pessoa, na porta do castelo que deseja lhe falar com urgência.

- Não vê que estou com convidados?

- Sim, mas ela insiste; diz que tem um presente valioso, porém só pode entregar pessoalmente.

- Presente? Valioso? Por que não a mandou entrar? – Ele adorava presente, ainda mais se fossem valiosos.

- Não creio que esteja vestida de acordo com a ocasião.

- Tudo bem! Irei lá.

Quando chegou à porta do castelo, uma mulher velha, feia, vestidas com trapos embrulhada numa manta o esperava, "O que um tipo desses pode oferecer de valioso?" Foi o pensamento que lhe ocorreu observando aquela figura.

- Alteza! Vim lhe pedir um pouco de comida e abrigo para essa noite.

- Mas você informou que tinha um presente valioso para mim e agora pede comida e abrigo?

- Esse é meu presente, a chance de fazer uma caridade para uma pobre alma necessitada.

- Guardas prendam essa mulher, apenas por essa noite. – Ordenou o príncipe. – Agora você vai ter o seu abrigo, comida amanhã, na hora em que servirem o café dos prisioneiros, pois essa hora a janta já foi servida. – E obrigado pela oportunidade de praticar tamanha caridade. – Completou com ironia.

- Por fora uma beleza celestial, por dentro uma alma negra como o inferno. – Disse a mulher cuspindo com desprezo no chão.

- Guardas, esqueçam a minha primeira ordem. Joguem esse ser no fundo do calabouço. Velha e feia como é, ninguém sentirá a sua falta.

Quando os guardas avançaram e a velha se transformou numa bela jovem, vestida com o mais rico vestido, jamais visto, e belas jóias lhe enfeitavam o corpo.

- Maldito seja você! A partir de hoje sua aparência será da fera que habita seu coração. E para que consiga se livrar da maldição deverá encontrar alguém que lhe ame incondicionalmente. Terá dez anos para encontrar essa pessoa, caso contrário viverá como fera o resto dos teus dias. E para lembrar-se de como era belo, nas noites de lua cheia, voltara a ter aparência humana. – Ao terminar aquela frase a moça desapareceu. Naquele momento o príncipe Jensen entendeu que na verdade ela era sua fada madrinha, e estava desgostosa com o comportamento do afilhado, resolvendo assim castigá-lo.

Quando o príncipe voltou para o salão, as pessoas se afastavam horrorizadas e amedrontadas.

- Príncipe Jensen? O que aconteceu? – Perguntou Steven um de seus poucos amigos verdadeiros. – Veja!

Jensen se olhou no espelho e viu a terrível transformação acontecer. Pelos cresceram por todo o corpo e rosto, suas mãos agora enormes com garras no lugar de unhas, seu belo rosto lembrava o de um lobo com dentes enormes, o verde de seus olhos adquiriram o tom castanho e sem brilho, sua voz antes sensual, bela e rouca, não passava de um rugido feroz e cheio de dor.

Seus amigos mais próximos e os criados se transformaram em objetos do castelo de acordo com a sua profissão. Steven se tornou um violino, por ser um excelente cantor. Misha era o campeão de corridas de cavalo, se transformou num. E também muitos outros.

As restantes das pessoas fugiram perante o show de horrores em que se transformou o castelo. O seu reino se perdeu. No local aos pouco foi formada uma pequena vila, e no natal desse ano completaria 10 anos que isso aconteceu.

Seu tempo estava acabando, logo agora que tinha encontrado alguém para amar.

Flash back off

Jensen voltou a realidade e buscou a parede que dava para o quarto de Jared e foi observa o moreno. Parecia tão triste, mas não quis se iludir que seria por sua causa. Belo ficou de frente para o espelho, pensativo, uma lágrima solitária escorria por seu rosto. Do outro lado o príncipe acariciava o vidro que os separava como se fosse o rosto amado.

Jared acordou cedo e resolveu partir antes do café, estava triste com o acontecido na noite anterior, queria ir embora antes do Fera aparecer.

- Vai sair sem se despedir? – A voz do Fera o alcançou assim que abriu a porta.

- Eu tenho alguns trabalhos pendentes em casa.

- Fiz algo que o magoou?

- Não, mas eu fiz?

- O que?

- Não sei! Você simplesmente me deixou de repente sem nenhuma explicação, pensei que éramos amigos.

- Não foi nada com você, mas eu não posso te explicar agora, fique e tome o café comigo.

- Tenho que ir. – Jared saiu sem olhar para trás. Não entendeu o comportamento do Fera e nem a falta de explicação. Resolveu ir embora estava confuso demais. Não entendia por que o fato do Fera não confiar nele o magoava tanto.

Antes de chegar ao portão o som triste do violino se fez ouvir. Há tanto tempo que ele não ouvia aquela música. Agora quando Steven tocava, as músicas eram alegres. Isso fez o belo voltar.

Ao entrar no salão o Fera estava sentada na mesa posta para o café, com a cabeça baixa e rugidos baixos de dor escapavam de sua garganta.

Jared tocou em seu ombro e o Fera levantou a vista, seus olhos estavam brilhantes e molhados.

- Quando você quiser falar para mim o que aconteceu estarei aqui para ouvir. – Disse Jared para o Fera. – Agora, porém, estou com muita fome. – Completou com um sorriso.

O Fera estremeceu de prazer e felicidade, pois era a primeira vez que o belo o tocava, e no toque não existia repulsa ou medo, apenas conforto e quem sabe carinho, esse pensamento aqueceu seu coração.

Passaram a manhã conversando sobre musicas e livros, o Fera levou Jared para conhecer a biblioteca. Era primeira vez que belo entrava lá, as únicas partes do castelo que o moreno conhecia eram a cozinha, seu quarto e o salão onde faziam as refeições.

A amizade e o carinho entre eles vinham aumentando, mas a partir desse episódio algo mudou no relacionamento entre os dois. Uma intensidade de sentimentos diferentes começou a surgir no coração de ambos.

O estranho acontecimento de o fera se recolher correndo ao seu quarto aconteceu outra vez, porém Jared, dessa vez não se magoou. Não entendeu, mas sabia que quando chegasse o momento certo o Fera contaria para ele.

A vida do Fera ficou resumida em esperar as sextas feiras quando encontraria Jared outra vez. E durante os dias, seus pensamentos eram apenas de Belo. Ás vezes ele ficava passeando entre as roseiras secas com os dentes amostra, sorrindo como se estivesse passeando entre os mais belos jardins.

Jared muitas vezes se surpreendia pensando no Fera, ou lembrando de algum parte da conversa que tinha tido nos encontros passados, em umas de suas caçadas para a família durante a semana, pois as de sextas eram do Fera. Em um desses dias, quando o moreno deu por si, estava na frente do castelo do Fera.

Desceu do cavalo resolvendo visitar o amigo, o encontrou distraído observando um passarinho, e estava sorrindo. Jared se escondeu e fez uma bola de neve, que jogou e acertou em cheio a cara do Fera, que rugiu assustado e ao mesmo tempo com raiva, pronto para dar uma lição no infeliz que tinha tido a audácia de lhe pregar aquela brincadeira.

Caminhando na direção em que tinha vindo a bola de neve, toda sua raiva se esvaiu, e seu coração falhou uma batida, antes de acelerar, quando encontrou Jared jogado no chão tampando sua própria boca para o Fera não escutar sua risada.

Se levantando ainda rindo o moreno não esperava a reação rápida do Fera, que pegou um punhado de neve lhe acertando em cheio na barriga. A surpresa e a falta de ar, pois a quantidade de neve foi grande devido as mãos enorme do Fera, Jared se desequilibrou e caiu deitado, ficando imóvel.

O Fera vendo o Belo assim sem se mexer correu desesperado se ajoelhou e levantou um pouco o corpo do amigo o apoiando em suas forte pernas, e batendo levemente –pelo menos era o que ele achava – no rosto de Jared para acordá-lo.

- Ei, calma, eu estou bem! – Disse Jared se levantando acabando com a farsa, pois as leves tapinhas, deixaram seu rosto vermelho.

- Desculpa! – Pediu o Fera preocupado, pois o que menos queria era magoar Jared.

- Tudo bem! – E Jared rapidamente pegou mais neve e jogou no Fera e saiu correndo feito uma criança. Refeito do susto o Fera saiu atrás do Belo.

Jared corria rápido, mas resolveu olhar para trás e não avistando o Fera se virou para continuar correr dando de frente com o Fera. E mudou de direção, mas sempre dava de encontro com o senhor do castelo, como ele fosse muitos, ele se movia muito rápido, nada escapava dele, e numa dessas tentativas de fuga, Belo foi direto para os braços do Fera.

O Fera abraçou sua presa, e Jared lhe sorria preso entre os seus braços. O senhor do castelo olhava aqueles belos lábios, a vontade de beijá-los era tanta que doeu, pois ele não poderia fazer isso, nem que Belo permitisse, já que o formato de sua boca não era apropriado para dar e receber beijos.

Soltando Jared, o Fera se caminhou rapidamente para o castelo, seguido do moreno.

- O que veio fazer aqui? – Perguntou de costa para Belo e a dor de sua impossibilidade fez com que sua voz saísse agressiva.

- Estava por perto e vim te ver, desculpa por não ter avisado. – Respondeu Jared, triste sem entender o motivo da agressão, "Será que foi devido à brincadeira das bolas de neve?", pensou o moreno. – Mas desculpa, até sexta. – Completou se dirigindo rapidamente para fora da propriedade.

O Fera percebeu o que tinha feito e correu cercando Jared, o abraçando novamente, isso ele poderia fazer, e nada roubaria esse momento dele.

- Estava brincando, você não precisa de convite para vir aqui. – Disse o Fera, vendo um sorriso tímido surgindo no rosto de Jared.

- É, mas você esta me deixando sem ar. – Disse Jared, e o Fera o soltou. – Ei, está frio. – Falou o moreno se aconchegando de novo nos braços do Fera, que não sabia se abraçava ou não Belo. Seguindo o desejo do seu coração o Fera com cuidado envolveu o corpo do moreno como a coisa mais preciosa e frágil que podia existir para ele.

– Aqui está tão bom, quentinho... É uma pena, mas tenho que ir. Até sexta. – Jared montou em seu cavalo, seguiu viagem sem entender o seu comportamento e a vontade de voltar e ficar nos braços do Fera.

A esperança de ter o feitiço quebrado nunca bateu tão forte em seu coração! Quem passasse por perto do castelo nessa noite acharia que lá estaria acontecendo uma grande e alegre festa.

As horas nunca passaram tão devagar para Jared e para o Fera, parecia que a sexta-feira nunca chegaria. Por esse motivo Belo resolver sair cedo para caçar, pois queria aproveitar o máximo de tempo possível ao lado do Fera.

Durante todo o dia Jared andou pela floresta sem encontrar nenhum tipo de caça. Nos últimos dias estava difícil de conseguir alguma coisa, e ao final da tarde resolveu voltar para a sua casa, e buscar algum animal, que pudesse levar para ser a ceia dessa noite com o Fera.

Para sua surpresa encontrou seu irmão recuperado, ajudando a carregar lenha para dentro da casa.

- Mas o que significa isso? – Sua família se assustou, não o esperavam naquele momento. – O que estão esperando para uma explicação?

- Não queríamos que você cumprisse a sua promessa para aquele maldito Fera. – Começou seu pai.

- Ele não é maldito. – Defendeu Jared.

- É por isso que não queríamos que soubesse da recuperação de Jeff. Você correria para cumprir seu trato, num primeiro momento com medo do que poderia acontecer. Mas agora sentimos sua empolgação pelo castelo, e pelo próprio Fera. Do jeito que fala dele, parece que está até apaixonado, ele está te enfeitiçando, e não queremos te perder. – Concluiu seu pai.

- Mas trato é trato, o senhor me ensinou isso! Irei imediatamente para o castelo do Fera, e ficarei lá.

- Esta vendo? Você está enfeitiçado, aquele maldito te enfeitiçou! – gritou sua mãe.

- Ele não é maldito, é meu amigo e merece respeito.

- Ele é horroroso. – Disse Meg.

- E daí? Aquele teu namorado, o Tom, era tão bonito e de que adiantou? Beleza não é nada. O Fera é tão bonito por dentro.

- Bonito por dentro? Ele ia matar o nosso pai, se não cumpríssemos a sua promessa. – Falou seu irmão.

- Não ia, apenas ele não queria ficar sozinho. E nunca mais ele vai estar sozinho. – Completou Jared, se preparando para ir embora, mas seu irmão o acertou com um pedaço de pau, fazendo-o desmaiar.

No castelo

O Fera, enquanto esperava Jared nesse dia, tomou um bom banho, se encharcou de perfume e penteou o cabelo, colocou sua melhor roupa, e começou a contar os minutos para a chegada de Belo.

A tradicional hora de sua chegada, já tinha passado há muito tempo, o desespero e a preocupação tomava conta do seu coração. Quando a noite chegou quis sair em busca de Belo, mas não podia se por acaso saísse do castelo morreria, porém com o passar dos ponteiros do relógio, sem se importar com sua vida seguiu em direção a saída de sua propriedade, mas foi impedido, por seu cavalo Misha que se dispôs de ir procurar por belo.

- Eu trarei notícias dele, alteza, mas espere aqui, por favor. – pediu o cavalo.

- Vá meu amigo, pois hoje é noite de lua cheia.

Misha primeiro percorreu a floresta. De repente Jared poderia ter sido atacado por algum animal, ou sofrido algum acidente, mas não encontrou nada que indicasse tal fato, e resolveu ir para a casa de Belo. A residência estava às escuras, parecia que todos dormiam.

Jared acordou de madrugada com um pouco de dor de cabeça devido à pancada, e viu que estava preso em seu quarto, que ficava no segundo piso da casa. E ficou pensando em como ir para o castelo, era tarde a floresta naquele horário era perigosa. Seu pai tinha trancado todos os cavalos, mas ele precisava ir de encontro o Fera, seu coração necessitava disso.

Olhando pela janela avistou Misha, o cavalo do Fera, com cuidado saiu pela janela, se apoiando nas colunas da casa para não cair.

- Venha! Rápido! - Falou o cavalo.

- Você fala? – perguntou Jared assustado.

- Lógico, você não fala? – Respondeu Misha.

- Mas você é um cavalo.

- E daí, mas agora não dá para bater papo, vamos deixar para outro dia. Você virá comigo?

- Claro!

- Então monte! E se segure!

Misha parecia que tinha asas nas patas, tão rápido que chegaram. Jared correu para o quarto do Fera e o encontrou vazio, para a decepção de belo, pois esperava que o senhor do castelo estivesse lhe aguardando.

Era noite de lua cheia e o Fera não podia aparecer para Jared, e por esse motivo não foi lhe receber, mas seu coração estava tão aliviado por ter o moreno ali, que não resistiu e resolveu tocar piano, mas não contava com a curiosidade do garoto.

Jared estava tentando se consolar com a ausência do Fera, quando ouviu o som de um piano, era uma musica de amor, muito bem tocada e resolveu descobrir de onde vinha.

Seguiu o corredor do castelo até uma escada em caracol que dava acesso a uma torre, e claramente percebeu que a música vinha daquele lugar. Subiu as escadas e pela porta entre aberta, a visão que Belo estava tendo por um momento o deixou sem fôlego.

Um homem estava sentado no piano, seu primeiro pensamento era que ele deveria ser chamado de belo. E como estivesse hipnotizado entrou no ambiente e foi em direção aquele ser de rara beleza.

- Quem é você? – perguntou Jared quando Jensen parou de tocar para lhe olhar. Belo examinou encantado todos os detalhes do rosto de desconhecido, seus olhos verdes, sua pele branca com pequenas pintas, os lábios belos, tentadores, perfeitos, criados para dá e receber beijos. – Você não fala? – Perguntou diante do silencio da adorável criatura. – O Fera arrancou sua língua?

O desconhecido parou de tocar, e seus olhos refletiram surpresa, alegria e dor, mas uma dor tão intensa que Jared, sem resistir, lhe tocou a face com se fosse possível com o seu toque fazer sumir toda e qualquer tristeza que houvesse no coração daquele que lhe encantou por tanta beleza.

Quando o Fera sentiu o toque das mãos de Belo a respiração se alterou, seu coração acelerou, o encanto que sua beleza provocava em Belo refletia nos olhos do jovem, e baixando a vista percorrendo o rosto de Jared, e fixando o olhar em seus lábios, sentimentos contraditórios passaram em seu coração, a vontade de se entregar aquele carinho e assim revelando sua identidade ou fugir.

N.A.: Era para ser o ultimo capitulo, mas resolvi dividir, assim a leitura se torna mais rápida. Mas o final não irá demorar! Como sempre todos os meus erros foram corrigidos pela Angiolleto, então caso acha algum, são delas! Ahahaah! Obrigada anja!