Disclaimer: Bleach©. Tite Kubo. Sem fins lucrativos.
Betada por Kira 'Larry'.
O HD havia quebrado, a fonte do PC queimada, o rascunho que continha este romance completo foi esquecido no Brasil e a paciência para lembrar tudo que fora escrito caprichosamente no Office, falecido. Entre outras palavras, complôs existiram para a tardança exagerada da atualização de MLB. Mas aqui está ela. Espero que esteja bom(?).
Terceiro capítulo sem data prevista para divulgação.
Agradecimentos as leitoras Bakinha, Neliel-Chele, Clara, Juliana, Wiinry (Atual Tatoonthesky), Tia Celinha, Aline, Sayori Uchiha-Sama, Mahnway, Awake Phoenix e E.T. Foram pessoas das quais considerei para ter ânimo de refazer o capítulo que, merecidamente, dedico a vocês.
Algumas reviews não respondidas? Reclamem, avisem, dêem um sinal que logo responderei.
Et Voilá!
"- Você deveria ser capaz de retorná-lo a sua forma original ainda que seu corpo fosse completamente reduzido a cinzas. Deveria compreender que estando apenas em seu coração já bastaria para revivê-lo."
Hacchi para Inoue – Episódio 127.
-ooo-
A troca de olhares ocorrera de forma impensada. Mantiveram-se assim, como se a quem quisesse expandir território, furtar pensamentos e gastar saliva para umedecer a língua que pedia passagem para formar frases. A pergunta engasgada por parte de Rukia, feita sob medida para atravessar os ouvidos da outra, tentava a todo custo afagar a sobriedade de sua dona, entorpecendo por instantes a consciência, aguçando a curiosidade maldosa:
- Desde quando?
- Desde quando o quê?
- Desde quando o seu coração nos deixou?
Abstinência de som, silêncio. Inoue pestanejou antes de desviar os orbes castanhos dos azuis discretos da Shinigami. Inclinou a cabeça para a direita submetendo os fios lisos e licenciosos a acompanharem o movimento, devassando³ o território onde tocavam, esbarrando no canto da boca, debruçando-se nos ombros relaxados e nas pedras que se amontoavam no quadro dos horrores daquela que, um dia, fora denominada uma cidade feliz.
Por fim, manteve novamente o par de orbes compenetrados nos de Rukia. Não mais recuaria, promessa feita a si mesma com forte ardor. A saliva acumulou-se no interior dos lábios fechados, entre os dentes e a língua, na medida em que sua mente intrépida não hesitava em moldar uma resposta para dirigir-se a ela, pois sabia exatamente o que dizer.
-Desde que...
- Esta não é a verdadeira Karakura! – Dessa vez, ambas desviaram o olhar para Ishida que, num súbito, se aproximou como ruído, ultrapassando facilmente cada obstáculo que o impossibilitava de avançar. – Encontrei um shinigami. – Pausou firmemente. - E me informou que Aizen fundiu-se com o Hokuyo sendo capaz de combater o Comandante Yamamoto e os demais capitães sem esforço algum. E neste momento deve estar na verdadeira cidade de Karakura para iniciar a criação da Chave Real. – Completou, ajeitando os óculos.
- E Ichigo? – Questionou a Kuchiki, preocupada.
- Sequer sinto sua reiatsu. – Informou. – Acho que não deveríamos tê-lo deixado sozinho nessa batalha. – Acrescentou num murmuro ressentido.
- Entendo... – Finalizou ela num tom vago, reprimindo a preocupação crescente que lhe apertava o peito ao tempo em que, paradoxalmente, buscava uma explicação lógica para o caso. Moveu o dedo indicador para sustentar o maxilar suavemente, deixando alguns minutos de silêncio mútuo entre as pessoas presentes percorrerem.
Fechou os olhos, lembrara-se de algo:
Estava se sentindo consumida pela adrenalina que lhe arrepiava a espinha e o suor frio que percorria sua face tensa quando notou uma imensa massa de reiatsu desaparecer subitamente, além dos céus que forravam Las Noches.
Ao longe do chão arenoso que afundava seus pés, acima do Palácio branco que roubava qualquer traço pessoal daquele que o habitava, a íris azulada percorreu as nuvens e imediatamente soube que Ichigo vencera sua batalha contra a Cuarta Espada e de seguida salvado Inoue. Riu para si, comemorando mais uma vitória. Quando foi a última vez que sorriu após tantas batalhas naquele lugar lisérgico?
Poucos milésimos de segundos depois, viera de encontro à bruta realidade. Yammi tentou atingi-la e defendeu-se por reflexo, em vão. Como aquilo em instantes? Como ele pudera aumentar seu poder tão ligeiramente?
Rodou as órbitas e viu as figuras de Renji desmaiado e Sado inconsciente. Arregalou os olhos, espantada, e a espada tremeu-lhe entre as mãos. "Sozinha, simples assim", quis dizer, mas conteve-se.
Num movimento indecifrável, Yammi a segurou entre os dedos hábeis. Rukia estava agora a bufar cansada, submissa a uma enorme pressão espiritual, sangrando e prestes a ser massacrada por aquelas mãos grossas e ásperas da Espada Zero sem escapatória. As palavras ríspidas dele eram lançadas para seus ouvidos forçando-a a escutar sua alta gargalhada triunfante, enquanto a mantinha suspensa do solo como um pequeno brinquedo.
Era isso, seria seu fim.
Cada uma daquelas espadas carregava um destino em seu corte, foi o que ouvira dizer Sode no Shirayuki em sua mente, antes ser arremessada para longe. A velocidade a qual chegou o arremesso era tão bárbara que não deu chances para a morena reencontrar o equilíbrio.
Naquele em que ela considerava seu ultimo suspiro, sentiu o corpo repousar em algo e, em seguida, ser posta ao solo lentamente. Reconhecia ao tatear os finos grãos de areia com os dedos machucados, o cair de seu sangue vermelho na cor abstrata do chão.
Ergueu a cabeça, expressando sua surpresa, e viu a imagem de Ichigo a defendendo. As bochechas ruborizaram-se rapidamente, mas ainda buscou olhá-lo de frente, olhos nos olhos como na primeira vez. Um ansiado reencontro, mas não o ideal. Aqueles não eram olhos de alguém vitorioso, de alguém que derrotara o inimigo alguns instantes atrás. Não eram os olhos do seu Ichigo.
Trocaram algumas poucas palavras e ele foi lutar contra mais um inimigo, fardo infeliz. E aquela foi a última vez que o viu.
Prontamente, duas reiatsus vieram ao seu alcance, sendo uma delas de seu irmão. O semblante indiferente de Byakuya surgiu a sua frente e, num movimento rápido, seu corpo já se encontrava entre os braços dele. A pequena mão esquerda relaxou sobre um ombro enquanto a outra permanecia sobre o peitoral largo do Kuchiki. Sentiu-se segura como uma criança, pois sabia que a presença daquele homem tinha como objetivo privá-la do campo de batalha. Pudera ele também privá-la do seu próprio coração apaixonado...!
Reabriu os olhos de encontro com o presente, o estado atual da cidade era avesso da que conhecia. Mas o foco principal era: Poderia. Ichigo. Estar. Morto?
"- Morto? Não, não e não!" – Pensou exclamativamente a morena, deixando as sobrancelhas franzidas num ato inconsciente, negando-se a pensar na hipótese. Tinha medo.
Por um raro momento, Rukia percorreu os dedos na bainha de sua espada, observando o branco puro de sua Zanpakutou ser ressaltado pelo escuro inalterado de sua veste. Em seu âmago, a certeza de reencontrar Ichigo lhe era incerta.
Simultaneamente a si, Ishida revezava o olhar vagarosamente de Orihime para Rukia, alheio do clímax de outrora, estreitando-os ao desviar a atenção para o jovem casal que, englobados na área temporal do Shun-Shun-Rikka, começavam a fazer pequenos movimentos. Surpreendeu-se.
Por vez, a dona dos longos cabelos alaranjados pôs-se de pé, encerrando o processo temporal ao perceber os mesmos pequenos movimentos que roubaram atenção do quincy a menos de 2 metros de distância de si. Fechou os olhos e os últimos movimentos de Ulquiorra roubaram o escasso sossego de seus pensamentos. Não tinha minuto a perder, teria que partir, ainda que não fosse de seu feitio dar as costas para alguém, principalmente debilitados.
Com um repentino pronuncio de Hitsugaya, as atenções voltaram-se para o mesmo.
-... Hinamori... – O nome pronunciado por sua voz baixa, rouca e fraca formou-se num sussurro que a muito custo saiu da garganta ardente. Só então os olhos turquesa abriram-se suavemente, para encontrá-la aconchegada em seu enlace, e as bochechas se ruborizaram instantaneamente, permitindo um risco discreto lhe surgir nos lábios.
- Por favor, não se esforce muito. – Iniciou Inoue docemente. – Ainda que as feridas mais profundas tenham sido cicatrizadas, não está totalmente recuperado.
- E Hinamori? – A formalidade do prefixo 'fukutaichou' foi brevemente embaçada pelo carinho pessoal que tinha para com aquela menina.
- O mesmo.
- Compreendo. – Finalizou, recebendo um sorriso sincero de Rukia ao tempo que, paralelamente a mesma, Inoue manejou a cabeça positivamente.
Embora estivesse diante de três indivíduos ali presentes, observando-o, apoiou suavemente a cabeça sobre a de Momo e percorreu a mão livre no coque frouxo, desfazendo-o para acariciar os fios soltos entre alguns dedos, enquanto a outra mão tratava de mantê-la mais perto de si. Num ato involuntário do sono, a morena moveu-se, aconchegando-se no peitoral desnudo do rapaz.
O garoto piscou. A possibilidade de tê-la tão dependente de sua proteção afastava o receio de expressar seus sentimentos. Já não havia como escondê-los de mais ninguém, inclusive da dona de seus afagos, ele bem o sabia. Rukia observava a situação admirada e, num lapso, voltou ao semblante natural.
- Hitsugaya-taichou, perdoe-me, sei que não pode se esforçar muito, mas... – A íris turquesa a mirou de baixo para cima, aguardando a troca completa de palavras. – Mas eu preciso saber o que houve com Ichigo.
- Kurosaki Ichigo?
- Sim. - Ela assentiu com a cabeça, não deixando passar despercebido a leve alteração que formou-se no semblante do outro.
- Foi tudo tão depressa. – Estreitou os olhos, o sorriso venenoso de Aizen lhe cravou na mente. - A Gotei 13 precisava protegê-lo, estávamos conscientes de que ele era nosso trunfo, a última cartada. Porém, Aizen também sabia. – Dessa vez, aspirou ar para preencher os pulmões vazios e a ansiedade mostrou-se na face de Ishida. – Ele juntou-se com o Hokuyo e prontamente nos atacou de uma vez, derrubando não só a mim como mais quatro capitães. Até então, Kurosaki apenas observava a cena, parecia muito amedrontado com o poder que sentia emanar de Aizen. – Os dentes trincaram ao recordar-se de sua incompetência. - Foi a ultima vez que o vi. Caí no chão e arrastei-me até o corpo inconsciente de Hinamori sem pensar em mais nada, sabia que logo estaria desmaiado. Ou morto.- Suspense, olhares aflitos. - Quanto a Ichigo, acho que...
-ooo-
Pousou um dedo sobre a última tecla do piano. Do outro lado da situação, afastados de sua mágoa, a íris cor de mel ultrapassou todas as barreiras para fixar-se no que procurava. Uma silhueta de azul movia-se no lago congelado entre alguns rodopios sustentados pela mão masculina que lhe acompanhava. Os fios castanhos da franja esbarravam nas madeixas frontais soltas e o belo coque, laçado por uma fita branca, dava-lhe uma suave elegância enquanto os seguidos passos que despejava no ritmo lento da música a embalavam numa valsa eterna.
A muito lhe custou desviar o olhar. Os dedos percorriam novamente as teclas do piano como se já não fizessem parte de si mesma, mas o roçar da ponta dos dedos com o instrumento foi brevemente esquecido pela imagem crua do jovem casal em sua mente, e a canção saiu recitada por sua voz num tom melancólico, a dor transbordava nas palavras saltitadas para a realidade, materializando sua tristeza:
Holding my last breath
Safe inside myself
Are all my thoughts of you
Sweet raptured light
It ends here tonight
A náusea surgiu de leve e o piano girou diante de si. Com medo, fechou os olhos e esfregou o anelar contra as pálpebras; tentativa de expulsar o mal-estar. Encheu os pulmões de ar e levou as mãos desnudas à barriga coberta por seu delicado vestido, observando-o como se analisasse seu próprio ser, o interior.
Inoue piscou. O grito agudo de Rangiku do lado de fora a fez levantar os ombros, assustada. Instantaneamente os orbes voltaram a espreitar o exterior:
Dessa vez, uma mulher de branco caminhou para o centro do lago. As demais se reuniram rapidamente sobre um único ponto rente ao lago congelado enquanto estendiam as mãos para o alto. Inoue reconhecia toda aquela euforia, a agitação contagiante das outras; Chegara a hora de atirar o buquê. A tradição dizia que a quem o ramo caísse prontamente em mãos seria a próxima a desposar.
Sob a luminosidade forte da Lua, homens destinaram-se a ficar no lado oposto ao grupo feminino, aguardando o desenrolar da trama eufórica das acompanhantes. Um sorriso brilhante e honesto de Ichigo lhe chamou atenção ao tempo em que Rukia virou-se de costas para a aglomeração de mulheres, ameaçando atirar as flores a qualquer instante.
Num segundo, a realidade e a subconsciência metódica se reencontraram, fazendo-a recorrer às lembranças de como adorava participar daquele momento ainda que nunca tivesse sido presenteada com o ramo, tradicionalmente rosas brancas. Porque elas sempre passavam raspando em suas mãos, provocando-a, roçando as pontas verdes e frescas das folhas contra os seus dedos esperançosos por pegá-las. Mas eram sempre destinadas a uma garota ao lado, triste como só agora notara.
Era um mau presságio, como não seria?
Mas ela sabia que nesta noite seria diferente. Nesta noite, se caso ela lá estivesse, seria a feliz contemplada. Entretanto, não saberia como suportar o fardo. Pela primeira vez, se manteria longe, muito longe.
-ooo-
Ichigo estava morto. Quem seria a próxima vítima a cair sob aquele efeito dominó? Sempre considerara ele um homem que seria um dos poucos a ultrapassar aquela fase e a sobreviver para contar a história. Mas sem ele, Kurosaki Ichigo, vencer Aizen agora parecia uma tarefa impossível. Inoue sabia que era o início do fim do mundo, mas conseguiria suportá-lo!
- Vocês podem ir sem mim. – Falava com certa avareza. – Vão procurar Kurosaki-kun.
Mal havia passado um minuto após ouvir Hitsugaya, para que a reação de Inoue fosse instantânea. Ao saber que provavelmente Ichigo estava morto, não conseguira derramar uma lágrima sequer. Estranhamente suas lágrimas já haviam escolhido outro dono, não pertenciam mais ao rapaz de cabelos tão iguais aos seus. Por instantes, Ishida acreditou que a amiga estivesse bastante chocada ao saber do declínio da Seireitei e de seu amado, oferecendo-se para ficar fazendo-lhe companhia naquele momento caótico, consolando-a. Mas ela não aceitara; deu os ombros a ele, jogando os bons modos na ladeira da perdição humana.
Rukia apenas movimentou a cabeça em confirmação ao comentário anterior. Os olhos falavam por ela, estava pronta para seguir buscando o aspirante a herói na verdadeira Karakura. Negava-se a tê-lo como morto.
Uma vez mais, deixou-se vagar na silhueta fina da dona dos Shun-Shun-Rikka. Observou os pequenos passos de Orihime serem direcionados para algum outro ponto aleatório daquele abismo pedregoso, os cabelos a voar sorrateiramente sobre os ombros pálidos da direita para a esquerda e as mãos relaxadas de unhas longas discretamente pintadas ao rosa claro. Curioso como agora lhe era importante analisá-la.
- Inoue, tem certeza de que estará bem sozinha? – A morena questionou, descrente. Por momentos, acreditou ouvir uma resposta negativa por parte da outra, fazendo-a recuar de suas turvas idéias que, aliás, ainda não havia descoberto quais eram.
- Absoluta. – A resposta saiu num timbre enfático, único, surpreendendo a Shinigami.
A Kuchiki suspirou em redenção e virou-se de costas tentando encarar algum outro ponto que não fosse a silhueta esbelta ou o par de topázios da jovem de formidável busto.
- Então apenas tome cuidado. – Resumiu e mordeu o lábio inferior, arrependendo-se pelas palavras ditas. Não que Inoue fosse indigna de tais palavras, porém tivera receio de ter soado como ofensa aos ouvidos da jovem.
Por outro lado, numa perspectiva diferenciada, Orihime parou de súbito, surpresa. Por uma fração de segundos, quis abraçá-la com carinho, agradecendo seu ato gentil, sua compreensão heróica. De onde saiu a idéia? Virou discretamente a cabeça; as pálpebras estreitaram-se e o par de íris se dilataram para mirá-la de canto. O corpo inerte de Rukia, a face branca e serena e a veste tão negra quanto seus cabelos levemente brilhantes lhe caíram como uma figura quase divina, admirável. A troca de palavras convenientemente pareceu necessária.
- Obrigado, Kuchiki-san. - O canto da boca curvou-se para cima, esboçando um sorriso invisível. – Nos veremos em breve.
Ela aguardou um comentário, um acréscimo naquela despedida temporária, mas não veio. A Shinigami abaixou a face, ato indecifrável, e tomou como encerrado, sumindo numa velocidade surpreendentemente incrível para que seus olhos humanos pudessem acompanhá-la. Virou-se de brusco e a penumbra de Ishida havia desaparecido num shunpo.
Estava sozinha, definitivamente. Bufou profundamente, cansada.
Reiniciou sua partida, passo a passo, caminhando ao seu natural, num jeito meigo de menina crescida. Articulou o braço e a mão encostou-se à testa tensa, privando os orbes de receber a luz do ambiente em tão enorme proporção. Sentia que as pálpebras estavam doloridas devido à exaustão psicológica crescente, mas de nada adiantaria parar agora. Analisou o extenso horizonte à frente e se concentrou ao máximo em captar a reiatsu escassa do homem a quem queria reencontrar. Ele certamente resolveria seu problema.
Contudo, cinco minutos depois de se afastar dos companheiros, descarregava aquele o peso, o seu horror e a sua tristeza num choro silencioso.
As lágrimas simplesmente saíam, sem esforço.
-ooo-
Closing your eyes to disappear
Fechando os olhos para desaparecer
You pray your dreams will leave you here
Você reza para que seus sonhos te deixarem aqui
Torceu o canto da boca, desdenhosa da euforia da festa. Não deveria ter ido, pensou. Mas como poderiam eles fazer silêncio se estavam envoltos por uma grande atmosfera de felicidade?
Infelizmente, havia se tornado uma pessoa triste demais para comemorar algum evento. Tornara-se tão depressiva que a própria felicidade desaparecia ao colidir-se com sua alma, como se nunca houvesse antes existido em cada sorriso que soltava em sua juventude.
Juventude? Oras, estava na flor da idade, como poderia ela, uma mulher de maus recentes dezenove anos, estar velha?
Mirou o rosto de Hinamori e suas feições, detalhadamente, de cima a baixo. Transformara-se numa linda jovem, sendo grande exemplo de renovação espiritual pós - guerra. Havia deixado os cabelos crescerem e maquiava-se mais, o discreto rastro do batom pincelado em seus lábios perdendo brilho. No lugar dos discretos seios agora se podia notar um busto mediano, redondo e bem acomodado na veste romântica que usava.
Contudo, o que mais lhe impressionava era, de fato, o coque. Ah, sim, aquele penteado era de causar inveja! Abandonara a rendinha verde que ocultava os fios castanhos para deixá-los livres ao ar, circulando-os em torno de si mesmo, quase em uma rotação, formando uma rosa que agora, delicadamente, era presa por uma fita branca. As madeixas frontais lhe caiam nos ombros e as sobrancelhas tornaram-se perfeitas, nem muito finas nem muito grossas. Simplesmente perfeitas.
De relance, os olhos foram de encontro aos de Hyori que a observava ao longe. As sobrancelhas franziram levemente para esboçar vulnerabilidade emocional no rosto que, há tempos, não traçava nenhuma emoção. Não desviou o olhar, recomposta.
Gritos, gemidos e risadas. As palmas e manifestações de alegria lhe roubaram novamente a atenção. Toushirou olhou para as mãos pálidas, não mais vazias. O buquê era seu! O ramo escolhera seu novo dono dando seus silenciosos votos para aquele que lhe parecia especial. As felicitações que saíam das bocas alheias chegavam como sátira aos seus pequenos ouvidos e um sorriso tímido tornou-se notável.
Inoue bateu as duas mãos sobre as teclas do instrumento, ignorando o som que se produziu em sequência, para analisar a situação enquanto as palmas tomavam o ambiente.
A íris azul turquesa buscou os castanhos escuros imediatamente. Um sorriso nervoso figurou nos lábios de Momo enquanto observava o rapaz de terno branco aproximar-se tranquilamente de si, com uma mão no bolso e a outra suspendendo o buquê, mas tratando sempre de manter os olhos fixos nos dela. No lado interno da cúpula Santa, alheio ao lado externo do evento, Inoue apurou a audição sabendo de que ele viria a dizer algo.
As palmas cessaram-se mediante a curiosidade aguda de ouvir o contemplado de frente a acompanhante:
- Acredito que isso deva lhe pertencer, Hinamori. Não são minhas.
- Como não? Estão em suas mãos e agora são suas. – A leve risadinha gentil fora abafada pelos dedos pressionados a boca.
- Pois acho que não me ouviu direito! – Enfatizou, sério. – Acredito que isso deva lhe pertencer, Hinamori. – Repetiu, suavizando a voz, tornando-a serena. E dessa vez, a mão esquerda buscou uma das mãos da companheira, passando o ramo gentilmente para a mesma. Prosseguiu enquanto observava uma Momo envergonhada. – Afinal, até mesmo um Capitão precisa de uma noiva no altar para se casar, não é?
- C-como disse?
- Hinamori Momo. – Pausou, tirando um pequeno objeto preto do bolso. Esticou o braço esquerdo para segurar a mão direita da morena, ajoelhando-se aos pés da mesma ao tempo que preenchia os pulmões de oxigênio para prosseguir confiante. O mundo desapareceu diante de si. – Aceitaria se casar comigo? – Revelando, ao abrir uma caixinha, um elegante anel de prata, reluzente, detalhadamente forrado por fragmentos de diamante branco nas bordas até seu centro, onde estava uma flor forjada pela mesma pedra preciosa, assemelhando as flores que sua Zanpakutou de gelo, Hyourinmaru, fazia surgir em suas costas ao invocar o Bankai.
Mais sorrisos. Mais abraços. Claro que Hinamori Momo aceitaria, Inoue sabia, não era mais boba!
Abandonada sob o luar prateado, com lágrimas no rosto e uma expressão de profunda mágoa, ela soube instantaneamente que nunca mais deveria vê-los. Nunca mais seria capaz de enfrentar sua tristeza perante o amor que Hitsugaya e Momo faziam existir, fazendo-a recuar de suas descrenças, relembrando-a que desistir de sonhos era desistir de viver. Sim, os sonhos amaciavam a realidade cruel do cotidiano, emanavam verdadeiros valores na vida.
But still you wake and know the truth
Mas você ainda está acordado e sabe a verdade
No one's there!
Ninguém está lá!
Ela deveria partir daquele lugar, quiçá para se suicidar! Seria incapaz de vir a preencher aquele vazio em si que alguém um dia lhe deixara, quando partira para não mais regressar.
Ulquiorra Schiffer, o homem que a fez se sentir como um Hollow, dando-lhe o grande vazio que um dia fora o lugar de seu coração, mesmo que ainda o sentisse bater em seu peito!
-ooo-
A jovem olhou ao redor. Da boca, um prolongado bufar lhe foi furtado, fazendo-o ecoar entre as vidraças quebradas, as fiações elétricas que bailavam como serpentes lançando faíscas e as gotículas minúsculas de água de cano escorrendo entre um objeto e outro. O tiquetaquear de um relógio anônimo, vindo de um beco perdido do centro urbano de Karakura, tornavam aquela cena perfeita para a filmagem de longas-metragens de terror, mas Inoue ignorava os sons quase que por efeito instantâneo.
Pôs as mãos nos joelhos, despejando seu peso sobre eles, e as madeixas alaranjadas caíram-lhe para a face, cobrindo quase totalmente seu rosto sujo. À frente, dentro de uma casa inclinada e caquética, sentia um pequeno rastro de reiatsu oscilar, ora forte, ora minúscula.
"- Encontrei!" - Prosperou a garota mentalmente caminhando em direção a ela. Sequer teve o trabalho de entrar pelo portão ou pular sobre o muro, pois um grande buraco havia sido feito na construção, expondo por completo a situação do lugar destruído. No cômodo em que julgara ser a sala, deteve-se. Os orbes passaram vagarosamente sobre o espaço, analisando a situação. O pequeno sofá branco tombado, os vidros quebrados sobre o chão liso, os papéis caídos para todos os lados, documentos agora dispensáveis largados sem rumo, móveis empilhados uns aos outros e, por fim, as cortinas rasgadas ainda presas a janela.
Um barulho indecifrável fora captado pelos seus ouvidos em prontidão e os olhos ergueram-se para o teto. O gotejar de sangue descia como água, levando-a a crer que algo acima daquele andar, num outro cômodo, estava a banhar-se naquele liquido vermelho tão essencial a vida. E dessa vez, a dúvida: Amigo ou inimigo?
Mal dera por passar pela escada daquela casa caquética para ver o quarto degradado e a cheirar a mofo e sangue. A visão que disponha alguns passos à frente a fez esquecer-se de que estava cansada e morta de fome. A imagem daquele homem bondoso que revivera Tsubaki, espírito portador do ataque do Shun-Shun-Rikka, agora a deitar o corpo mole quase sem vida aos pés da cortina, fizera-a cair de joelhos, surpresa, para, num ápice, engatinhar ligeiramente a ele e chamá-lo sucessivas vezes.
- Hacchi! Hacchi!
Esperava tudo exceto aquela imagem. Tentava a custo de sua pequena força balançá-lo, sem sucesso. Desejou que ele talvez saltasse de repente, disposto a recebê-la com uma risadinha doce, que as linhas enrugadas próximas a sua boca carnuda manifestassem vida e pressionassem as bochechas gordas e sadias num sorriso de satisfação. Talvez abrisse os olhos e levasse as mãos longas ao rosto apavorado dela, amenizando sua agonia e sofrimento com palavras sábias. Mas nada! Nada de nada! Ele simplesmente permanecia ali, parado, como que petrificado.
Engoliu saliva e mordeu o lábio inferior, sufocando as lágrimas. Não queria mais chorar, mas parecia que quanto mais se esforçava para impedi-lo, mais volume d'água almejava despejar dos olhos tristes e limpar sua alma e a face imunda de poeira e de maus tratos.
Num lapso, abanou a cabeça e os dois lados do cérebro mandaram-lhe instantaneamente invocar o escudo temporal para que o reanimasse. Levou as mãos próximas ao corpo inoperante do homem e concentrou-se para curá-lo. Não poderia deixá-lo morrer!
O tempo fora se arrastando e Orihime não sabia o quanto tinha ficado ali, aguardando-o despertar, mas depois de algumas horas, desistira de observá-lo. Fazia exatamente vinte e nove horas que ali chegara. Já havia percorrido todos os cômodos daquela casa, buscando espreitar a cozinha na esperança de achar algum alimento que descesse insipidamente pela garganta, mas que amenizasse sua fome ou aliviasse sua sede. Porém, para sua infelicidade, existiam muitos móveis, mas nada de comida. Os alimentos que achara já estavam se decompondo e bactérias e insetos alegravam-se naquela ausência perturbante de higiene domiciliar.
Mesmo desestimulada, ela ainda conseguia subir as escadas para retornar o seu posto de observadora, ansiando por algum movimento ou gesto de Hacchi, mas o azar mantinha-se firme ao seu lado. O mundo parecia conspirar, os anjos pareciam tê-la abandonado.
Percorreu quase que a rua por completo atrás de algo que a alimentasse, tendo sempre cuidado a cada beco duvidoso, analisando casa por casa, esperando sempre um inimigo que nunca vinha. Os mesmos ambientes retratavam-se em todas as casas; Todas destruídas pela batalha que havia ali ocorrido.
A mesma rua do centro da cidade, que um dia fora movimentada, agora era percorrida por uma cortina de solidão e horror. As ruas encontravam-se desertas e os lixos acumulavam-se nos cantos sem que ninguém tomasse a devida atenção. Mas ali já não havia mais ninguém. Lá, tudo era falso ainda que parecesse algo natural, real. Tudo era tão igual a ela que, por um raro momento de reflexão, parecia que a cidade era apenas uma expansão de si mesma, do seu mundo interior. Sim, era isso. O seu emocional estava exatamente assim, às avessas.
Já não sentia a mesma descontração de antigamente. Na verdade, sentia uma enorme pressão sobre os ombros, um fardo invisível que a acorrentava entre seus erros do passado e os conectavam com os do presente, declinando o pouco orgulho de si própria que restara. E como houvera feito antes, retomou a aquela casa, cabisbaixa, descrente por boas noticias.
Ao chegar, o vira como antes, sem maiores resultados. Ele ainda mantinha sua aparência de cadáver. Puxou e deitou em um colchão duro e desconfortável e rebolou-se buscando algum aconchego naquilo que parecia ser impossível. Como poderia achar conforto? Sentia fome e sede, sentia-se suja da cabeça aos pés e o pouco estimulo de continuar aquela loucura parecia ter se escondido por de trás do Himalaia. Além de tudo, de tudo isso, o maldito sono não vinha. Interessante como em outrora nada era mais importante do que a 'Cuarta' Espada. Nem chegou a fazer um terço por Ichigo, ironizou para si.
- Ver a minha querida menina de poderes tão iguais aos meus aqui, diminui a dor que range meus ossos velhos. – Uma voz ao lado saiu em rouquidão total e demasiado forçada. Primeiro sinal de que ele ainda se encontrava ali, vivo.
- Oh, Hacchi! – E ela levantou-se num súbito. Pela primeira vez, depois de muito tempo, pôde sentir um enorme peso desprender-se de seus ombros, deixando renascer o brilho intenso em seus olhos ainda inchados. Inconscientemente um sorriso dominou ponta a ponta da face, relembrando-a de que ainda sabia sorrir. Aproximou-se dele, satisfeita por vê-lo tentar se mover.
- Como sofri pensando em seu sequestro! Não sabe o colírio que é para meus olhos vê-la são e salvo! – Insistia no esforço vocal, ainda que, paradoxalmente, sentisse as cordas de sua garganta trêmulas e doloridas. Movimentou-se a fim de sentar, conseguindo após grande tentativa. As costas dormentes mandavam-no sair do chão.
- Por favor, não se esforce. Por pouco não o encontro morto. – Comentou Inoue fortificando ainda mais o campo temporal, o brilho quase divinal das presilhas forçaram-na a fechar os olhos devido à luz incandescente que agredia a visão.
- Ora, menina... Agora é indiferente que eu me esforce ou não. Enquanto estiver dentro desta zona temporal, nada afetará a minha saúde! – A voz vinda por parte dele, seguida por um sorriso, entrelaçada ao seu jeito sereno e gentil, acalmou uma parte da garota.
- Mas ainda me preocupa. Algo em você mudou. – Hacchi cruzou os braços e franziu preocupadamente as sobrancelhas, analisando-a.
Inoue demorou em ter alguma reação diante do comentário, parecia decodificar o que havia escutado. Neste momento, o estomago já reclamava alto, quase colando uma parede estomacal na outra. Engoliu em seco, a garganta também não estava em melhores condições. A sua frente, Hacchi pareceu se esquecer completamente da indagação anterior, soltando uma gargalhada. Um rubor automaticamente lhe preencheu as bochechas de tamanha vergonha. Queria enfiar sua cabeça em algum buraco do chão como avestruz.
- Muito bem, venha. Vou lhe mostrar uma coisa.
- Esta se sentindo bem para isso, Hacchi?
- Um pouco melhor. Não deixarei que passe fome por minha causa.
- Mas...! – Cedeu ao ouvir o ronco alto do estomago. –... Tudo bem, então...
Desceram as escadas em silencio. Incomodava-a saber que seu amigo estava se esforçando para ajudá-la a procurar algo para saciar-lhe a fome. Mal abrira os olhos e já tinha um fardo à vista.Gostava de sua boa intenção, não poderia negar, mas a possibilidade de imaginar Hacchi a vendo como fraca, merecedora de compaixão, sugava até a última gota de força de vontade que sobrara dentro de si.
Ou talvez tudo não passasse de uma tentativa de agradecê-la, ao mesmo tempo, porém, em que queria confirmar algo que havia notado e sabia de que era provável. No fundo, em seu âmago, Inoue desejou que ele soubesse de tudo. Inclusive de Ulquiorra.
- Aqui, achei. – A voz de Hacchi a fez se distanciar dos inúmeros pensamentos que se passavam rapidamente no cérebro cansado, e o pé direito pisou em falso, desequilibrando-a por um raro instante. Mirou o rosto sereno do outro apontando, com orgulho, um pedaço de carne em cima de um prato em que as moscas pareciam se deliciar ainda. O estomago contraiu-se pelo odor pútrido que impregnava o local e o olfato sensível lhe provocou náusea repentina. Olhou o bolo de carne enojada, a boca entortou-se e as sobrancelhas contraíram-se.
- Hacchi, esta comida já não serve. - Informou com dificuldades.
- Como? – Perguntou divertido. - Claro que serve, veja. – E num piscar de olhos, as mãos espantaram os insetos e um cubo de luz apoderou-se do alimento, o circundando e o fazendo regressar a sua forma original. Orihime observou a cena admirada. O poder de Hacchi de fazer regressar tudo aquilo ao seu estado anterior era cinco a sete vezes mais rápido e eficiente que o poder que possuía em suas presilhas.
- Isso é incrível. – Elogiava ainda incrédula.
Parecia impressionante o que um pouco mais de experiência podia fazer, a rapidez no processo lhe surpreendia. No entanto, Orihime sentia como se de nada houvesse ajudado os outros, ao comparar seu poder com o do Vaizard.
- Não se preocupe, sou um espírito muito antigo. Só o treino de anos a fio pode aperfeiçoar a técnica de rejeição temporal. – Comentou o homem como se tivesse lido os pensamentos da jovem. A mente de Inoue era como um livro aberto.
Não houve resposta por parte da outra. Orihime continuou silenciosa, observando o término daquele espetáculo. Por momentos, quis acreditar nas palavras dele, mas sabia que, no fundo, ele estava a ser simplesmente generoso porque temia magoá-la. Ela, sem duvidas, não podia mais se calar. Chegara a hora da verdade, não viera de encontro a ele apenas para vê-lo.
- Hacchi, preciso lhe confessar uma coisa.
-Continua-
#Notas do Autor#
Leitores,
Saudades de vocês e de seus comentários, sim, sim!
Também estava com saudades de postar alguma coisa no site após um período de hibernação monstruosa de minha criatividade e paciência. É. Mas aparições fantasmagóricas existem e, aqui estou eu, Louis McDowell, escrevendo estas notas que, agora, estão sendo lidas por você neste momento.
Recapitulando, vejamos... Orihime depressiva, Ulquiorra sem coração, é... Acho que não me esqueci de nada. O terceiro capítulo, sem dúvidas, será surpreendente com bastante UlquiHime para compensar a ausência do Arrancar nestes dois capítulos, pode crer.
Hitsugaya meloso? Romântico demais? - Não consegui vê-lo de outra forma após declarar seus sentimentos para Hinamori nesta fic, meus pêsames aos que não conseguiram enxergar este lado dele.
Ah, sim! Gostaram da descrição dessa Hinamori mais madura? – Pergunta de curioso.
Reviews, por favor, se assim quiserem ver um Louis contente e animado para continuar a fic. Até breve(?)
#Vocabulário#
Apolo¹ - Deus grego do Sol e da poesia. Irmão gêmeo de Ártemis, deusa da Lua e da caça, a quem teve um relacionamento romântico proibido, criando assim os Eclipses (Solar e Lunar) - períodos em que namoram.
Niilismo² - Tendência filosófica a rejeitar aquilo que requer fé para salvação ou realização de algo.
Senkaimon³- Passagem espiritual que liga o plano dos vivos com a Seireitei e vice versa, sendo apenas abertas por Shinigami.
Devassando³ - No sentido de invasão, pôr a submissão.
